quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

RECADO

Pessoal,

O ano está acabando, mas eu ainda tinha um monte de coisas para falar. É sempre assim! As novidades ficam para o ano que vem. O blog faz uma pausa de hoje até a primeira semana de 2012. Feliz ano novo!

*imagem: reprodução do Google.
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MELHOR LEITURA, MELHOR HQ

Antes que o ano termine o blog Meia Palavra convidou uma turma bacana (jornalistas, editores, blogueiros, colaboradores, escritores, tradutores etc.) para comentar a melhor leitura que fizeram em 2011. O especial terá três partes, sendo que a primeira parte já está no blog - "Melhor Leitura de 2011 – Parte I". Recomendo a visita!

***

Nem só de romances, novelas e contos vivem as narrativas. Pensando nisso, Raquel Cozer deu uma dica fantásticas "As melhores HQs de 2011". Nem preciso dizer que Asterios Polyp, de David Mazzucchelli foi uma unanimidade.

*Imagem: reprodução da HQ de David Mazzucchelli.

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terça-feira, 27 de dezembro de 2011

A LITERATURA E O VIDEOGAME

De uns tempos para cá, uma da obsessão dos "nerds" do Vale do Silício é criar um game que tenha tanta complexidade narrativa quanto Moby Dick, de Herman Melville. Quem confirma o fato é o jornalista Harold Goldberg. O caderno Link (do Estadão) publicou um artigo interessantíssimo assinado por ele comentando as ideias por trás de seu livro All Your Base Are Belong to Us: How Fifty Years of Videogames Conquered Pop Culture (importado - ainda sem previsão de lançamento em português).

No tal artigo, Goldberg menciona a ascensão dos desenvolvedores de jogos nas últimas décadas a verdadeiros "mestres do ritmo, do clima e dos diálogos de uma narrativa". A ponto de fazerem os jogares sentirem um nó na garganta, por exemplo. A certa altura ele diz "a história de um jogo pode ser tão envolvente quanto a trama de um best-seller da literatura".

Não restam dúvidas quanto a capacidade dos games de criarem universos tão imersivos quanto os romances. Sobretudo se pensarmos em jogos tão populares quanto LA Noire ou a série God of War. Mas será mesmo que grandes obras da literatura podem render grandes jogos? Por enquanto a resposta é não. Como tudo na vida, a literatura e os jogos de videogame são "narrativas" com uma linguagem própria e específica. A experiência de ler algumas palavras nas páginas de um romance é bem diferente de acionar o avatar de um jogo a fim de vencer um obstáculo. Da mesma forma que as ações dos avatares não fazem muito sentido quando transportadas para os livros. Sendo assim, melhor encararmos um jogo como um jogo e um romance como um romance - ainda que entre os dois universos tenham retirado suas inspirações uns dos outros.

Foi partindo dessas ideias que pensei no tema videogame para a terceira edição do fanzine. É saudável que a literatura deixe de lado aquele ambiente sacro em que muitos gostam de trancafiá-la para se aproximar de um tema pop - para não dizer, um tema do cotidiano das pessoas. Ao longo do ano vários "joguinhos" inspirados no universo literatura foram aparecendo. Talvez o mais famoso tenha sido a adaptação de O grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald para a versão 8 bits em estética Nintendo. Ambos estão presentes no fanzine por meio de um trecho da nova tradução feita por Vanessa Bárbara (saiu pela Penguin-Companhia); e de uma entrevista com os dois desenvolvedores do jogo. Vale dizer que não foi a primeira vez que o romance de Fitzgerald foi adaptado para os games, a Big Fish Games também fez uma tentativa meio frustrada.

Outros destaques do fanzine são: o artigo de escrito especialmente por G. Christopher Williams relacionando o universo do Cormac McCarthy com os videogames; e o texto de Antônio Xerxenesky imaginando dez romances como se fossem videogames. Não podia faltar também uma recomendação de três livros que viraram jogos - os jogadores podem opinar se a adaptação foi boa ou ruim.

A cereja do bolo está nas ilustrações em estilo 8 bits feitas para a edição com exclusividade pelo designer Grafilu. Para fazer o download do fanzine Casmurros #3 basta clicar nesse link.

*Imagem: reprodução da tela inicial do jogo The great Gatbsy.
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sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

JAVIER MARIAS EM MEIO AS LISTAS

A lista de melhores livros do ano está virando uma espécie de peru de Natal. O irmão, a tia e o primo reclamam, mas eles passam o ano inteiro esperando por aquele momento particular de saborear um pedaço da coxa.

Para quem ainda não ficou conformado uma máxima: "as listas exercem um imenso poder de sedução porque elas definem aquilo que não conseguimos compreender totalmente". Ou seja, uma lista pode limitar um amplo universo de coisas que está ao nosso redor. Dividindo, separando, criando hierarquias, estabelecendo semelhanças e diferenças, assim as listas alimentam o nosso desejo de organizar e conhecer o mundo. O escritor e crítico Umberto Eco ficou tão fascinado pelo assunto que até escreveu um livro: A vertigem das listas.

Portanto, não adianta reclamar, ficar de cara feia ou torcer o nariz. A lista de melhores livros do ano é uma tradição da nossa cultura ocidental.

Os norte-americanos parecem ser muito bons nesse negócio. Pense, por exemplo, nas paradas de sucesso da Billboard. Eles devem ter sido os primeiros a disseminar na imprensa escrita essa mania de "listas de melhores do ano". O New York Times, a Time, a Forbes etc., são verdadeiras referências.

Um giro aleatório no Google com as palavras "best of 2011" ou "melhores de 2011" encerra o assunto.

***


Deixando de lado a beleza e o horror do assunto, me deparei com a lista de melhores livros de 2011 do caderno Babelia (jornal El Pais). O semanário escolheu nada menos que Los enamoramientos, de Javier Marías - será lançado em português ano que vem pela Companhia das Letras. Não contente o caderno preparou um vídeo com o próprio Marias lendo trechos do livro e respondendo perguntas sobre o ato de escrever livros. A certa altura, Marias confessa que não faz nenhum plano prévio quando começa a escrever. Ele gosta de lidar com o desconhecido que a história pode trazer, de improvisar, de lidar com a mudança. Não consegui "embebedar" o vídeo que está disponível nesse link.

Recomendo a todo mundo que assista ao vídeo!
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quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

NOTAS #33

Natal para escritores
Você tem alguma amigo escritor e não sabe como presenteá-lo? Não tem problema. O blog Jacket Copy, do LA Times, montou uma lista com catorze dicas de presentes incríveis que fogem daquele manjado novo romance da temporada ou daquela edição raríssima. Tem tatuagem de máquina de escrever, coleção de borrachas vintage, livros que são relógios, cadernos de anotações e mais. Meus três presentes preferidos foram um kit para você plantar seu próprio café (Grow-Your-Own-Coffee Kit da ThinkGeek; $10), a mesa de reescrita para evitar qualquer distração na hora do trabalho (Rewrite Desk da GamFrates - infelizmente não está disponível para venda) e o copo para Martini Dorothy Parker (Unemployed Philosopher's Guild; $13) junto com o conjunto de seis copinhos para bebidas (Great Drinkers Shot Glasses da Unemployed Philosopher's Guild; $16). Todos são importados. A lista completa está disponível em http://tinyurl.com/7b8axfl

Prêmios
Deixe o grande mundo girar, de Colum McCann continua fazendo uma boa trajetória. O livro ganhou o cobiçado National Book Award quando foi lançado nos Estados Unidos em 2009. Em junho desse ano recebeu o International IMPAC DUBLIN Literary Award e mais recentemente o Prêmio Cunhambebe de literatura estrangeira. McCann esteve na FLIP em 2010 e circulou calmamente pelas ruas de Paraty num visual bem veranista. Distribuiu muitos autógrafos, sorrisos e anotou diversos nomes brasileiros - para alguma personagem num eventual próximo romance. Por aqui, Deixe o grande mundo girar foi lançado pela editora Record com tradução de Maria José Silveira.


Nova tiragem
O filme Tão forte e tão perto, de Stephen Daldry com Tom Hanks, Sandra Bullock e Thomas Horn tem previsão de estréia em março de 2012. Pensando nisso, a editora Rocco colocou nas livrarias uma nova tiragem do romance Extremamente alto & incrivelmente perto, de Jonathan Safran Foer que serviu de ponto de partida para o filme. Curiosa foi a opção da Warner por traduzir o título para Tão perto e tão forte - devem ser questões comerciais. O livro lançando pela Rocco teve tradução de Daniel Galera e estava esgotado. A nova tiragem mantém a bela capa criada por Jon Gray.

Um ano de leitura
Pelo oitavo ano consecutivo o The Millions está organizando a série "A Year in Reading". Eles convidam grandes nomes da literatura norte-americana contemporânea, blogueiros e jornalistas para comentar qual foram as leituras marcantes de 2011. A lista inclui Jennifer Egan, Colum McCan, Geoff Dyer, Alex Ross, Jonathan Sanfran Foer e tantos mais. A lista completa (que tem atualização quase diária) está disponível em http://tinyurl.com/7qab83f

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O blog "Ponto Eletrônico" fez uma versão parecida com escolhas de Michael Laub, Antônio Xerxenesky, Luisa Geisler e Ana Guadalupe. O blog "mais1livro" montou uma lista igual mais diferente. Treze escritores estão recomendando livros para presentes de Natal.



O mármore
César Aira é um escritor inquieto. Em 36 anos de carreira ele já publicou 42 novelas - quase dois livros por ano, excluindo os livros de ensaios. El mármol, sua novela mais recente publicada esse ano pela editora La Bestia Equilátera, foi eleita pelo jornal El Pais como um dos melhores livros de 2011. Para além da história insólita, o charme do livro são as três capas criadas pela editora. Uma pena que Aira não faça tanto sucesso aqui no Brasil mesmo depois de ter participado da FLIP em 2007. Ele tem apenas três livros traduzidos para o português e alguns contos que foram publicados em revistas de ficção.

Sebald
Na semana passada completamos dez anos sem o escritor mais inovador da literatura contemporânea. Em 2001, W.G. Sebald sofreu um ataque cardíaco enquanto dirigia e morreu num acidente fatal envolvendo seu carro e um caminhão. Ele deixou quatro livros de ficção Vertigo, Os emigrantes, Os anéis de Saturno e Austerlitz que foram seminais por criar um estilo único misturando memória, ficção, literatura de viagem, história e biografia. Outra característica marcante de sua obra eram as enigmáticas fotografias em branco e preto que apareciam nos romances. Podemos ver um pouco da influência de Sebald na obra de Will Self, Geoffrey Dyer, Teju Cole, Jonathan Sanfran Foer, Javier Marias e Carola Saavedra. Foi uma enorme perda para a literatura.

***

Na segunda edição do fanzine há um ensaio de Rick Poynor sobre a relação entre as fotografias e a história de Austerlitz - romance publicado em 2001 que poderia ter dado a Sebald o Prêmio Nobel de Literatura caso o acidente não tivesse acontecido. O ensaio se chama "W.G. Sebald: escrevendo com imagens" e está disponível em http://tinyurl.com/5tchj7g

*Imagens: reprodução.
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terça-feira, 20 de dezembro de 2011

CASMURROS #3




Nessa edição: Simone Campos, Cormac McCarthy, Flann O'Brien, Georges Perec, F. Scott Fitzgerald, Antonio Xerxenesky e mais. Ilustrações: Grafilu.

TAMANHO: 5.22MB
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quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

MADAME BOVARY C'EST MOI


Segunda-feira foi aniversário do escritor Gustave Flaubert. A data não teve nenhuma comemoração especial, mas se estivesse vivo ele estaria completando 190 anos. Nunca tive notícia de uma pessoa que tenha vivido tanto. De acordo com a Wikipédia a pessoa mais velha do mundo foi uma francesa chamada Jeanne Calment que morreu com 122 anos e 164 dias de vida (alguém confirma a informação?). Infelizmente, Flaubert não teve a mesma sorte que ela, embora também fosse francês. Ele morreu subitamente em maio de 1880, aos 59 anos.

Usar o epíteto “o maior escritor de todos os tempos” é chover no molhado. Seus feitos como criador de um estilo novo e moderno já foram cantados em verso e prosa. Por isso, tentei encontrar alguma história curiosa e diferente. Algo como o papagaio empalhado que ele pegou emprestado do Museu de História Natural de Rouen para escrever a novela Um coração simples (publicado em Três contos com tradução de Samuel Titan Jr. e Milton Hatoum). A história é tão fantástica e engraçada quanto verdadeira. Virou até um belo romance nas mãos de Julian Barnes. Roberto Pompeu de Toledo também confirmou a versão num ensaio para o primeiro número da Revista Piauí.

Inútil dizer que não encontrei nenhum “causo” inédito – pura ingenuidade da minha parte. No entanto, para não dizer que fiquei a ver navios, me deparei com uma nova edição do clássico Madame Bovary – costumes da província que acabou de sair pelo selo Penguin-Companhia. A tradução ficou a cargo de Mário Laranjeira. Uma bela maneira de comemorar os 190 anos de Flaubert já que a edição conta com apresentação de Charles Baudelaire, introdução de Geoffrey Wall e prefácio de Lydia Davis.

E aqui vale um comentário: além de ser uma escritora reconhecida, Lydia Davis também é tradutora do francês. No ano passado ela publicou uma nova tradução de Madame Bovary para o inglês que foi um sucesso na crítica anglófona. A história mais curiosa sobre o burburinho em torno dessa tradução surgiu quando a Playboy norte-americana publicou um trecho do livro em primeira mão. Emma Bovary emplacou uma chamada na capa da revista como o romance mais escandaloso da literatura.

De fato, quando foi publicado o romance foi um escândalo – levou Flaubert aos tribunais por imoralidade. Porém, Emma é muito casta quando colocada ao lado do conteúdo que a Playboy publica.

Para quem ficou curioso, a Playboy publicou um trecho do capítulo IX, da segunda parte. Quando Rodolphe leva Emma para um passeio. Vou tentar encontrar o trecho na tradução do Mário Laranjeira e depois volto.

*Imagem: reprodução do filme homônimo de Claude Chabrol com Isabelle Huppert no papel de Emma Bovary.

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sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

PRESENTES DE NATAL - 2011

Organizei Uma seleção de ideias de presentes para pais, avós, filhos, namorados, amigos e demais conhecidos. No "guia de compras" entraram apenas livros de ficção em prosa lançados ao longo do ano de 2011. A intenção é ajudar na hora das compras, da correria, do amigo secreto e tudo o mais.

O serviço inclui imagem de capa do livro, título, autor, tradutor, preço e link para o site das editoras. O preço pode variar dependendo da livraria em que você compra em função de ofertas promocionais, programas de fidelidade, descontos, compra pela internet, importação etc.

1. Guerra e paz, de Liev Tolstói, traduzido do russo por Rubens Figueiredo (Cosac Naify; R$198,00). A batalha e a derrota de Napoleão na Rússia em tons monumentais.

2. Quarto, de Emma Donoghue, traduzido do inglês por Vera Ribeiro (Verus Editora; R$34,90). Um pequeno cômodo que é ao mesmo tempo um universo inteiro e uma prisão.

3. Tudo destruído, tudo queimado, de Wells Tower, traduzido do inglês por Adriana Lisboa (Rocco; R$39,50). Nove histórias sobre a nossa inútil tentativa de buscar um pouco de paz na vida.

4. Aventuras de Alice no subterrâneo, de Lewis Carroll, traduzido do inglês por Adriana Peliano e Miriam Ávila (Scipione; R$39,90). Primorosa recriação em detalhes do manuscrito que a pequena Alice Lidell recebeu de presente.

5. Liberdade, de Jonathan Franzen, traduzido do inglês por Sergio Flaksman (Companhia das Letras; R$ 46,50). A típica família norte-americana de classe média em ruínas.

6. Pale fire - a poem in four cantos by John Sade, de Vladimir Nabokov (Gingko Press; $22,77 - importado R$86,50). O livro de Nabokov transformado numa edição com visual impressionante.

7. A noiva do tigre, de Tea Obreht, traduzido do inglês por Santiago Nazarian (Leya Brasil; R$34,90). Uma jovem médica em missão de paz num país da península Balcânica busca histórias contadas por seu avô.

8. Habitante irreal, de Paulo Scott (Alfaguara Brasil; R$ 39,90). Desilusões políticas e infelicidade levam o protagonista a um encontro transformador.

9. Quando meu pai se encontrou com o ET fazia um dia quente, de Lourenço Mutarelli (Companhia das Letras; R$44,50). Acontecimentos insólitos na vida de um simples aposentado da Companhia Telefônica.

10. Diário da queda, de Michel Laub (Companhia das Letras; R$38,50). Um acidente numa festa de aniversário com consequências trágicas.

11. Tempo de boas preces, de Yiyun Li, traduzido do inglês por Fernanda Abreu (Nova Fronteira; R$34,90). Histórias sobre filhos da pátria chinesa tentando buscar uma saída capaz de mudar seus destinos.

12. Tree of codes, de Jonathan Sanfran Foer (Visual Editions; $23,81 - importado R$108,90). Uma novela de Bruno Schulz recriada cortando palavras de todas as suas páginas.

*Imagens: Renata Ueda / capas: divulgação.
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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

QUEM LÊ TANTA REVISTA?

Muito antes da internet existir, escritores e críticos literários usavam jornais e revistas como meio de circulação de novas ideias. As páginas quase artesanalmente impressas esquentavam o debate crítico e faziam circular novas obras de ficção. Tal ambiente pode conviver pacificamente com a internet por um tempo, mas desde os anos 2000 o mundo impresso vem sofrendo golpes que são aparentemente irreversíveis.

Para não soar muito apocalíptico levo em consideração o seguinte fato: com a internet aconteceu uma espécie de retorno a maneira artesanal de fazer jornalismo. As revistas mais bacanas de hoje se alimentam de fontes do passado - estou pensando, por exemplo, na Piauí e no caderno Ilustríssima que fogem um pouco da pauta do momento, propõe novas pautas etc. Aponto algumas razões simples para essa tendência: havia liberdade de espaço (os textos não precisavam ter um tamanho determinado), ninguém ficava refém da pauta do momento, havia tempo para pensar numa agenda, o processo era "artesanal" (sem muitos esquemas, fórmulas ou formatos) e o texto era muito importante.

Para não ficar somente no terreno das ideias, comentários, opiniões e impressões fiz um levantamento de algumas revistas literárias (ou quase literárias) que foram importantes na história da imprensa brasileira. Na verdade, aproveitei o ensejo para incluir algumas revistas "marginais" que ecoam o espírito do "jornalismo" artesanal - queria dizer "diferenciado" só que o termo não pega muito bem.

De verdade, comecei a pensar nesse assunto depois que fiquei sabendo que o Arquivo Público do Estado de São Paulo está com um projeto chamado "Memória da Imprensa". Uma parte do acervo foi digitalizada e está disponível na internet para consulta. O material se concentra em publicações de São Paulo, tem jornais e revistas do século 19 e 20 divididos por temas como política e cultura. Vale a pena perder um pouco de tempo vasculhando o acervo e encontrar algumas raridades como contos de Eça de Queiroz, homenagem ao escritor Raul Pompéia, críticas ao livro Dom Casmurro. É uma verdadeira volta ao passado.

Não está no Arquivo do Estado (mas está no setor de raridades da Biblioteca Mário de Andrade e na Brasiliana USP) as duas revistas mais badaladas da Semana de 22: a Revista de Antropofagia que circulou no ano de 1929 tendo Oswald de Andrade, Mário de Andrade junto com a nata do Modernismo brasileiro; e a Revista Klaxon que circulou entre 1922 e 1923 contando com a colaboração de grande parte do mesmo pessoal da Antropofagia.

Nos anos 30, no Rio de Janeiro, a efervescência literária acontecia por meio de duas revistas: Dom Casmurro (circulou entre 1937 e 1944) que teve entre seus colaboradores Joel Silveira e muitos escritores da segunda fase do Modernismo - Jorge Amado foi chefe de redação da revista; e a concorrente Revista Acadêmica, de Carlos Lacerda e Murilo Miranda.

De volta a São Paulo, entre os anos 1941 e 1944, a crítica paulistana foi privilegiada pela Revista Clima. Tinha um ar acadêmico pois foi fundada por ilustres estudantes da USP como Paulo Emílio Salles Gomes, Décio de Almeida Prado, Antonio Cândido, Rui Coelho, Gilda de Mello e Souza e Lourival Gomes Machado.

Saltando um pouco as décadas, vale lembrar do mítico semanário Pasquim - que teve uma antologia em três volumes editada recentemente pela Desiderata. Ali surgiu os textos soltos, as entrevistas sem corte, o bom humor, as ilustrações chapadas, os assuntos tabu para uma época em que ninguém devia falar a respeito e tantas outras coisas. Foi também nesse semanário que a intelectualidade brasileira apareceu fazendo resistência ao regime militar e a censura. Também descobri recentemente o Jornal EX graças uma edição fac similar da Imprensa Oficial. O jornal era mensal, foi publicado entre 1973 e 1975, e tinha um tom altamente provocador e inventivo. Outra revista dessa mesma época, recuperada pela Elvira Vigna, foi a Revista Pomba. Acho que não foi tão conhecida como as outras, mas tinha uma linha de pensamento bem parecida.

Para finalizar, uma revista bacana de Porto Alegre chamada Revista 80, inspirada na Granta, editada pelo pessoal da LPM. A história da está no blog da editora contada por Ivan Pinheiro Machado.

Devo ter lembrado de um período áureo da imprensa brasileira que não deve voltar. Pode parecer um pouco de saudosismo, mas não é. Olhando para essa tradição a gente pode recolher informações e boas ideias que apontem alternativas para a crítica, para a imprensa, para os blogs e para todo mundo que deseja sobreviver a era da internet (da diluição da informação e todas essas coisas que a gente está careca de ouvir). Também acho importante conhecer esse passado para não sair por aí achando que está fazendo alguma coisa nova sem saber que muita coisa realmente já aconteceu.

Com certeza, muitas revistas ficaram de fora. Se alguém sentir falta ou lembrar de alguma coisa, pode me avisar que faça as atualizações.

*Imagem: reprodução.
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segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

UMA CRÍTICA EQUILIBRADA (2)

Na semana passada o caderno Babelia convidou alguns renomados críticos de diversos países para pensar sobre a possibilidade de construir uma crítica literária equilibrada em tempos de internet. Por mais complexa que seja a questão, o caderno acabou propondo uma saída com dez itens que devem ajudar a crítica literária a sobreviver tanto na mídia impressa, quanto digital.

Tom semelhante deve pautar o II Seminário Internacional de Crítica Literária que acontece essa semana no Itaú Cultural. Os convidados são de altíssimo nível e os temas das mesas prometem boas discussões. Tomara que saíam dali boas ideias e propostas.

Esquentando e antecipando um pouco o debate, a coluna Painel das Letras, da Ilustrada, conversou com umas das convidadas do seminário, Marjorie Perloff - crítica literária, ensaísta e professora. Em breves linhas ela recomendou: "use menos jargão, evite disputas acadêmicas que não interessam ao leitor, invista em revisões de texto, para escapar do "vale tudo" da blogosfera". Pode parecer uma conclusão óbvia, mas não é.

A coluna ainda conversou rapidamente com outros dois convidados. Vale a pena dar uma olhada rápida - disponível aqui.

*Imagem: reprodução.
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terça-feira, 29 de novembro de 2011

A HORA DE CLARICE (2)

Tem muita gente que gosta de Clarice Lispector, mas também tem muita gente que não gosta - em parte pelo grande culto que os leitores, críticos e estudantes dedicam a sua figura seminal dentro da literatura brasileira, em parte por aquela quantidade enorme de spams, e-mails, cartinhas de namorado(a) e correntes apócrifas que circulam na internet. Vale a máxima "quem nunca recebeu uma mensagem de tipo?". Um pouco da mesma aversão deve acontecer em maior ou menor medida com Carlos Drummond, Fernando Pessoa, Rubem Fonseca e Luis Fernando Veríssimo que costumam lotar nossas caixas de mensagens, mural do Facebook e tudo o mais.

Para quem gosta tudo certo. Para quem não gosta um aviso: estamos às vésperas da primeira comemoração do dia "A hora de Clarice" (próximo dia 10 de dezembro, data em que ela nasceu). Portanto, ela será um assunto bastante presente. Já falei disso por aqui.

A antipatia à Clarice Lispector também existe por causa da enorme influência que ela exerceu nos escritores que vieram depois dela. Sempre dizem: "Clarice matou uma geração de escritores". Ainda hoje a gente escuta um pouco daquela voz narrativa - lembro, por exemplo, do livro que avaliei para o Gauchão de Literatura 2011; Clarice era ao mesmo tempo enredo e forma de um dos livros.

***

Para dar mais brilho as comemorações uma notícia muito bacana: a charmosa revista Paris Review incluiu na sua edição de inverno dois contos de Clarice Lispector. A escritora figura ao lado de Paul Murray, Adam Wilson e Roberto Bolaño (com a quarta e última parte do romance O terceiro Reich - que a gente já está lendo desde o começo do ano). A edição ainda tem uma entrevista com Jeffrey Eugenides, o escritor mais comentado do ano na imprensa anglófona por conta de The Marriage Plot depois de Haruki Murakami. Aliás, um comentário à parte: em se tratando de Paris Review deve ser uma entrevista matadora.

*Imagem: reprodução daqui.
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segunda-feira, 28 de novembro de 2011

UMA CRÍTICA EQUILIBRADA

Defender a crítica acadêmica é algo fora de moda. O negócio é malhá-la até onde a gente consegue. Indo na contra-mão desse corolário contemporâneo, o caderno Babelia, do jornal espanhol El País, trouxe uma reportagem especial interessantíssima chamada "Radiografía de la crítica literaria". Vinte críticos literários (misturando gente da Europa e dos Estados Unidos) foram convidados a fazer uma avaliação da crítica na era da internet e apontar sugestões para que tanto a crítica, quanto a obra e seus autores continuem tendo importância.

A discussão é extensa, complexa e está bem longe do seu fim, de modo que não consigo resumí-la aqui em alguns parágrafos. Os convidados traram de temas centrais como a função da crítica, seu estado atual, sua perda de influência e poder, suas virtudes, defeitos e desafios. Recomendo aos que se interessam pelo assunto que acessem a reportagem para tomar contato com essas ideias - disponível em

A tentativa do jornal tem o seu mérito por ser equilibrada, deixando de lado as visões apocalípticas ou integradas sobre a internet e o futuro da crítica. Sobretudo quando ao fim, a reportagem propõe dez regras para uma crítica literária equilibrada:
1. Situar o autor, dizer quem é ele e o que o livro representa na sobre sua obra.
2. Localizar o livro e julgá-lo pela perspectiva de uma longa tradição literária.
3. Fundamentar com argumentos e exemplos para que o leitor compreenda e avalie.
4. Informar, educar e entreter.
5. Pouca sinopse e enredo.
6. Informar sobre o estilo, o significado e simbolismo do livro.
7. Dizer o que pensa o autor sobre o tema do livro.
8. Dizer o que o crítico pensa sobre o que o autor do livro disse sobre o assunto do livro.
9. Nem bater nem babar, uma opinião ponderada e uma fundamentação comprovada são mais convincentes que uma explosão.
10. Proibir adjetivos publicitários, quem deve concluí-los é o leitor.
Estamos tão imersos na confusão desse momento que fica difícil fazer uma avaliação autocrítica. Eliminar a lógica desse sistema exige muito esforço e renúncia por parte de muita gente, mas quem está realmente disposto a pagar o preço?

***

Também sobrou para a internet na coluna de Daniel Piza para o Caderno 2. Pode parecer ranzinza, mas ele tem um pouco de razão:
Quando houve o surgimento da moda dos blogs, muitos articulistas, principalmente os mais jovens, saudaram a chegada de uma linguagem e tecnologia que iria combater a mídia "mainstream", com estilo mais autoral, atitude mais independente, interação mais democrática. Rodo por alguns blogs, sobretudo de moda, e vejo exatamente o contrário: escrita primária, comprometimento publicitário, busca da audiência pela audiência. Já os twitters, já chamados imprecisamente de microblogs, parecem confirmar cada vez mais a impressão de José Saramago: são grunhidos virtuais. Alguns de música postam um vídeo e só acrescentam a expressão "uau" ou "uhu" ou "ooôôoo". Isso que é argumento.
*Imagem: reprodução do caderno Babelia.
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UMA ANOTAÇÃO DE RICARDO PIGLIA

Em tempos de discussões sobre a literatura, a internet, a crítica, o autor, a obra e as afirmações de Paulo Coelho nada melhor do que Ricardo Piglia para iluminar nossos pensamentos:
A narração social se deslocou do romance para o cinema e depois do cinema para as séries, e agora está passando das séries para os facebooks e twitters e demais redes da internet. O que envelhece e perde a vigência fica solto e mais livre: quando o público do romance do século 19 se deslocou para o cinema, foram possíveis as obras de Joyce, de Musil e de Proust. Quando o cinema é relegado como meio de massa pela TV, os cineastas dos "Cahiers du Cinéma" resgatam os velhos artesãos de Hollywood como grandes artistas; agora que a TV começa a ser substituída massivamente pela web, valorizam-se as séries como forma de arte. Em breve, como o avanço tecnológico, os blogs e os velhíssimos e-mails e as mensagens de texto serão exibidos nos museus. Que lógica é esta? Só se torna artístico -só se politiza- o que caduca e está "atrasado".
Observações de Ricardo Piglia, retiradas de seus diários em Princeton e publicadas pelo caderno Ilustríssima com tradução de Paulo Werneck.

*Imagem: "Mammon" por Mariana Fonseca / Reprodução.
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sexta-feira, 25 de novembro de 2011

PAULO COELHO, BERNARDO CARVALHO E A LITERATURA (E CRÍTICA) NA INTERNET

Caramba! Vi uma notícia dizendo que em entrevista ao programa da apresentadora Ana Maria Braga, o escritor Paulo Coelho disse a seguinte frase: "As redes sociais são uma forma de literatura". Imediatamente me lembrei de um artigo escrito por Bernardo Carvalho para a revista Piauí - Em defesa da obra cujo resumo pode ser apresentado da seguinte forma: "As corporações da mídia querem que os escritores trabalhem de graça, não façam arte e exponham a vida privada na internet – e contam com o apoio de Paulo Coelho".

Fiquei sabendo do artigo através de Sérgio Rodrigues, do Todoprosa, num post em que conversa com Michel Laub e indiretamente com Bernardo Carvalho sobre a crítica em tempos de internet.

Recomendo vivamente a leitura desses textos. Por aqui, estou ruminando ideias e nem me atrevo a emitir nenhuma opinião depois de ler esse trecho:
"É assim que o chamado “valor social” (a capacidade que os indivíduos têm de influenciar uns aos outros através de suas opiniões em blogs, Twitters e páginas pessoais em sites de relacionamento) começa a despertar interesse no mercado virtual."
*Imagem: reprodução daqui.
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quinta-feira, 24 de novembro de 2011

PUTZ! PERDI A BALADA LITERÁRIA

Por muita falta de tempo e com muito pesar no coração não consegui acompanhar a Balada Literária de perto e acabei tomando uma cerveja em outras baladas. O que eu fiquei sabendo foi através dos jornais, blogs e pela TV. Li que uma multidão queria ocupar o Centro Cultural B_arco para assistir a mesa de Caetano e Augusto de Campos. Vi as fotos no blog da Ivana Arruda Leite, no Flickr, no Twitter e no Facebook da Balada - totalmente conectada.

(Pausa para um parêntese. Enquanto escrevo isso me bateu uma síndrome do adolescente imaginário (?!) que leva uma vida virtual, acompanhando tudo pela telinha do computador. Por incrível que pareça, não sou assim. Acreditem!)

No sábado tentei ver o Daniel Galera e o João Gilberto Noll no Itaú Cultural, mas atrasei e perdi. Uma pena! Ainda mais para mim que gosto de "festa" e que adoraria fazer a cobertura de um evento que está acontecendo aqui bem perto. Fica para o ano que vem.

***

Aliás, a Balada Literária 2012 já tem homenageado: Raduan Nassar - o recluso escritor vai participar de um evento dedicado a sua obra. Isso é algo inédito se pensarmos na história dele. Promete! Dessa vez, reservo o mês de novembro inteiro.

*Imagem: Foto do homenageado desse ano, Augusto de Campos/ reprodução do Facebook.
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quarta-feira, 23 de novembro de 2011

LISTAS: BAD SEX FICTION E O MELHOR DE 2011 PELO NY TIMES

Comentei nas notas #32, no começo da semana, sobre o Bad Sex in Fiction Award organizado pela revista Literary Review. O Guardian adiantou alguns dos indicados ao prêmio desse ano. Pois bem, no dia seguinte saiu a lista completa. Além de Haruki Murakami e Stephen King, estão entre os finalistas:

On Canaan’s Side, de Sebastian Barry
The Final Testament of the Holy Bible, de James Frey
Parallel Stories, de Péter Nádas
Ed King, de David Guterson
The Land of Painted Caves, de Jean M Auel
The Affair, de Lee Child
Dead Europe, de Christos Tsiolkas
Outside the Ordinary World, de Dori Ostermiller
Everything Beautiful Began After, de Simon Van Booy
The Great Night, de Chris Adrian

Como falei, ganha o prêmio o autor que escrever a pior cena de sexo num romance lançado durante o ano. Tom Wolfe, Norman Mailer e Jonathan Littell são alguns autores que tem o troféu na estante de casa.

***

Outro assunto das notas #32 eram as listas de melhores livros de ficção de 2011. O New York Times acabou de publicar a sua. A lista completa está aqui, mas adianto alguns livros que certamente vão ser assunto para a gente no próximo ano.

The Angel Esmeralda: Nine Stories, de Don DeLillo
The art of Fielding, de Chad Harbach
Changó's Beads and Two-Tone Shoes, de William Kennedy
The Cat’s Table, de Michael Ondaatje
11.22.63, de Stephen King
The Free World, de David Bezmozgis
The Marriage Plot, de Jeffrey Eugenides
1Q84, de Haruki Murakami
Open City, de Teju Cole
The Pale King: An Unfinished Novel, de David Foster Wallace
Parallel Stories, de Peter Nadas
The Sense of an Ending, de Julian Barnes
Stone Arabia, de Dana Spiotta
Cenas da vida na aldeia, de Amós Oz (publicado pela Companhia das Letras em 2009)
A mulher do tigre, de Téa Obreht (publicado pela Leya em 2011)

Um balanço do melhor do ano na ficção nacional deve sair em breve.

*Imagem: reprodução Google.
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terça-feira, 22 de novembro de 2011

A HORA DE CLARICE

A exemplo do que aconteceu com Carlos Drummond de Andrade, no DiaD, o Instituto Moreira Salles e editora Rocco promovem no próximo dia 10 de dezembro "A hora de Clarice". O intuíto do evento é comemorar o aniversário da escritora Clarice Lispector e promover sua obra em todo o país. A programação prevê palestras, dramatizações, contações de histórias, além de ações na internet e nos pontos de venda. Por enquanto, foram confirmados José Miguel Wisnik, José Castello, Nadia Gotlieb e Pedro Vasquez - mais atividades serão anunciadas em breve.

O evento acontece no momento em que a obra da escritora também está em evidência internacional. Alguns escritores gringos já confessaram ter sofrido influência de Clarice. Os festivais Europalia e FILBA desse ano tiveram mesas dedicadas a ela. A editora norte-americana New Directions, em projeto coordenado por Benjamin Moser, pretende relançar em 2012 cinco livros dela com nova tradução e novo projeto gráfico (aliás, a biografia escrita por Moser pode virar filme). Obras dela também estão saindo na Espanha.

Por aqui, as obras completas de Clarice saíram pela editora Rocco num projeto que terminou em março do ano passado.

*Imagem: reprodução da Wikipédia.
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segunda-feira, 21 de novembro de 2011

NOTAS #32

Capas
Alguns leitores ainda não eram nem nascidos quando esses livros foram lançados (nem mesmo eu, para falar a verdade). Portanto, imagino que todos devem ter muita curiosidade em saber como foi a capa da primeira edição de Alice no país das maravilhas, Anna Karenina, Mrs Dalloway, O som e a fúria, Trópico de câncer, Ulysses, O almoço nu e alguns outros mais. Pois o Flavorwire fez uma lista bem legal com a capa da primeira edição de 20 livros bem conhecidos (os que citei antes estão entre eles). A capa acima é do livro Laranja mecânica, de Anthony Burgess em 1962. A lista completa está disponível em http://tinyurl.com/7nuedct

Os melhores de 2011
Já começou na imprensa anglófona mais uma temporada para eleger os melhores lançamentos de ficção do ano. É a chance daquele leitor que passou o ano inteiro metido em recuperar as leituras atrasadas do ano passado saber o que vale a pena ler no ano que vem - ou até o final desse ano, quem sabe. Certamente quase todas as listas gringas serão unânimes quanto aos livros The Marriage Plot, de Jeffrey Eugenides; A Visit From the Goon Squad, de Jennifer Egan; The Pale King, de David Foster Wallace; 1Q84, de Haruki Murakami e A mulher do tigre, de Téa Obreht, para citar alguns.

***

Vale lembrar que todos estes livros já têm previsão de lançamento em terras brasileiras. A Companhia das Letras deve lançar The Marriage Plot no primeiro semestre de 2012 e The Pale King - ainda sem data prevista. A Visit From The Goon Squad sai pela Intrínseca provavelmente no ano que vem. 1Q84 também deve chegar no ano que vem pela Alfaguara. A mulher do tigre foi publicado pela Leya Brasil com tradução de Santiago Nazarian.

***

Nas listas que vi até agora fiquei surpreso com a menção a There but for me, de Ali Smith e O mapa e o território, de Michel Houellebecq (que a editora Record prometeu para esse ano, mas deve ficar para o ano que vem).

Bolaño HTML5
A nova edição da revista Granta (me refiro a inglesa mesmo, pois a revista está ganhando edições no mundo inteiro) com o tema "Horror" publicou o conto El Hijo del Coronel, de Roberto Bolaño - em inglês ficou The Colonel’s Son. A história de uma menina mordida por um zumbi ganhou uma versão em HTML5 com desenhos de Owen Freeman e dos web designers do escritório Jocabola. A animação percorreu a internet instantes depois de ter sido postada na página da revista. É realmente alucinante! Está disponível em http://tinyurl.com/cbeo2lc

Entrevista Sebald
O escritor alemão W.G. Sebald faleceu em 14 de dezembro de 2001 vítima de um acidente de carro. Dias antes do incidente, Sebald concedeu uma entrevista para a rádio KCRW (por conta do lançamento em inglês de Austerlitz) em que fala de suas influências literárias e sobre questões pertinentes a sua obra. A entrevista em inglês está disponível em http://tinyurl.com/6gkayu9

***

Na edição #2 do fanzine Casmurros há um ensaio de Rick Poynor sobre algo que sempre me intrigou nos livros de Sebald: as fotografias. O ensaio chama "W.G. Sebald: escrevendo com imagens". O fanzine está disponível para download aqui.

Ruim de livro
Há dezenove anos o suplemento británico Literary Review entrega um prêmio literário que desperta o riso dos mais atirados e rubores no rosto dos mais pudicos: o Bad Sex in Fiction Award. Ganha o prêmio o autor que escrever a pior cena de sexo num romance lançado durante o ano. O jornal Guardian adiantou que entre os indicados desse ano estão Stephen King com uma cena de 11.22.63, Haruki Murakami com o badalado 1Q84. Mais nomes devem surgir até a entrega do prêmio em 6 de dezembro.

*Imagem reprodução.
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terça-feira, 15 de novembro de 2011

O REI ESTÁ PÁLIDO


Os espanhóis são mesmo muito rápidos no gatilho. Eles já estão lançando uma tradução para The pale king, romance póstumo de David Foster Wallace, quando nem bem o livro foi digerido pelos falantes de língua inglesa (já existem edições nos Estados Unidos e Reino Unido). Não sou conhecedor do mercado editorial espanhol, mas só ouço falar bem - dizem que é um dos mais prósperos da Europa. Por isso não espanta a notícia de que eles vão ler Foster Wallace junto com os povos do outro lado do Canal da Mancha, do oceano Atlântico e terras que falam inglês.

El rey pálido chega quinta-feira às livrarias espanholas pela Mondadori com tradução de Javier Calvo. A capa tem o mesmo projeto da edição norte-americana. Para comemorar o lançamento, o blog Papeles Perdidos (do jornal El País) publicou com exclusividade o primeiro capítulo da tradução. O trecho está disponível nesse link.

A editora explica um pouco da história do livro:
Os funcionários do Centro Regional de Investigação da Receita Federal em Peoria, Illinois, parecem bastante normais para o trainee recém-chegado David Foster Wallace. Mas a medida que ele mergulha em uma rotina tão enfadonha e repetitiva que os novos funcionários tem de receber treinamento de sobrevivência ao tédio, ele descobre a extraordinária variedade de personalidades atraídas para este chamado estranho. E ele chega num momento em que forças dentro da Receita Federal estão conspirando para eliminar até mesmo o pouco de humanidade e dignidade que o trabalho ainda tem. No seu estilo característico, cheio de citações, notas de rodapé e interrupções do autor na história, David Foster Wallace reflete sobre o tédio e felicidade.
***

Por aqui, a gente conta apenas com a tradução feita por José Rubens Siqueira para coletânea de contos Breves entrevistas com homens hediondos. No entanto, no meio do ano a Companhia das Letras anunciou que vai lançar não só The pale king, como também uma coletânea de não ficção e Infinite jest - o monolito de Foster Wallace. Por enquanto, os três ainda não têm data prevista de lançamento. Seja como for todo mundo está comemorando e cruzando os dedos em busca de notícias. Afinal Foster Wallace tem uma verdadeira legião de fãs, assim como Thomas Pynchon, J.G. Ballard e outros tantos mais.

Detalhe: David Foster Wallace não tem nenhuma tradução em Portugal.

*Imagem: reprodução da capa da edição espanhola.

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sábado, 12 de novembro de 2011

TRÊS REVISTAS E OUTRAS MAIS

Para aproveitar o feriado prolongado, um apanhado de revistas com muitos textos:


Serrote
Já está nas praças a edição #9 da revista de ensaios Serrote. Além do conteúdo de primeira (com textos de Cynthia Ozick, William Hazlitt, Sylvia Molloy, Rem Koolhaas, Bernardo Carvalho, Ronaldo Brito, William Faulkner, Paulo Mendes Campos, Julio Cortázar e muitos outros) a edição vem com projeto gráfico e visual caprichados. Coisas que nenhum iPad ou Kindle do mundo poderiam fazer. Tem até bonecas desenhadas e confeccionadas por Zelda Fitzgerald que você pode destacar, se quiser.


Granta
A edição #8 da versão brasileira da revista Granta tem o tema "Trabalho". Tem textos de Julian Barnes (o recém ganhador do Man Booker Prize), Marcello Fois, Aleksandar Hemon, Bruno Bandido, Doris Lessing, João Anzanello Carrascoza, José Luiz Passos, Mario Sabino, Michela Murgia, V.V. Ganeshananthan e Yiyun Li, e ainda um ensaio fotográfico de Walter Carvalho. As três pérolas da edição são o trecho do romance inédito de Bernardo de Carvalho previsto para 2012, um conto de Colum McAnn e um texto de Salman Rushdie sobre a preguiça.


Electric Literature
A bacanuda revista de ficção norte-americana chega a edição #6. Tem textos de Nathan Englander, Mary Otis, Matt Sumell, Steve Edwards e Marc Basch. Dá para ler em papel, iPhone, iPad, Kindle e até em PDF (tem de pagar, evidentemente). A belezura fica por conta de um vídeo baseado no conto "The Reader", de Nathan Englander (reproduzido abaixo).



***

Vale lembrar que além dessas revistas ainda tem a nova edição da Granta inglesa com tema "Horror" (cheia de gente bacana escrevendo) e a Piauí (com muitos textos interessantes de Ricardo Lísias e outros mais).

*Imagens: reprodução.

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sexta-feira, 11 de novembro de 2011

ONZE DO ONZE DO ONZE


O caderno Ilustrada, da Folha de SP, resolveu comemorar a data 11/11/11 (cabalística e astral, como muitos diriam) convidando onze autores brasileiros para escrever minicontos de onze linhas. Tem Modesto Carone, Fernando Bonassi, Ronaldo Correia de Brito, Fabrício Corsaletti, Marcelo Coelho, Reinaldo Moraes, Natércia Pontes, Sérgio Rodrigues, Joca Reiners Terron, Verônica Stigger e Vanessa Bárbara.

Abaixo reproduzo o miniconto de Verônica Stigger:


PRÓLOGO
"Agora vocês vão ver",
dizia ele aos primos,
que gargalhavam como aves
de mau agouro, enquanto
espalhava pelas paredes brancas
do quarto o sangue que saía
aos borbotões de seu portentoso
nariz. Nenhum deles percebeu
que a mancha de sangue
na parede ia assumindo
os contornos do mapa do Sul.
*Imagem: reprodução do Google.

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quinta-feira, 10 de novembro de 2011

LEITOR QUE NEM EU, QUE NEM QUEM?


Lorin Stein, o aclamado editor da Paris Review, mantém uma seção no blog da revista em que responde perguntas vindas dos leitores da própria revista. Se não estou enganado essa seção é semanal. Toda a sorte de perguntas relacionadas ao universo da literatura aparecem nesse espaço e são respondidas com bastante entusiasmo pelo editor. Os leitores chegam até a pedir conselhos e escrevem em busco de algum conforto que os atormenta.

Na semana passada, um leitor mais desinibido perguntou ao Sr. Stein qual grande livro ele deveria ter lido e nunca leu. Curiosamente, o editor respondeu dizendo que nunca leu, por exemplo, clássicos da literatura como Jane Eyre (Charlotte Bronte), Viagem ao fim da noite (Louis-Ferdinand Céline), A consciência de Zeno (Italo Svevo), O amante de Lady Chatterley (D. H. Lawrence), Meridiano de sangue (Cormac McCarthy), O arco-íris da gradidade (Thomas Pynchon), A vida e as opiniões do cavalheiro Tristram Shandy (Laurence Sterne) e outras coisas mais.

(Quem quiser ver a resposta completa pode clicar aqui).

É irresistível não olhar com uma pequena desconfiança para o episódio - será que tanto a pergunta quanto a resposta não seriam ficcionais? No entanto, a revista Paris Review goza de imenso prestígio e credibilidade, de modo que arriscar essa reputação seria um golpe baixo.

Seja como for, senti um enorme alívio por nunca ter lido uma série de livros que deveria ter lido e ainda não li. Tenho uma fila de leitura que só aumenta a cada dia. Por exemplo, ainda não li 2666 e nem Os detetives selvagens (Roberto Bolaño, ambos). Também não li O Mestre e margarida (Mikhail Bulgakov), Menino de engenho (José Lins do Rego) e nenhum livro do Chico Buarque exceto Estorvo. Liberdade, o novo clássico de Jonathan Franzen, está intocado na minha estante - estou esperando passar um pouco o tempo. E tantas outras coisas mais que nem lembro. Fiquei com vontade de que todo mundo confessasse pelo menos um grande livro que nunca leu - ia ser bem divertido.

Conclusão ululante, meus caros amigos: se nem Lorin Stein leu tudo, que dirá a gente.

*Imagem: reprodução.

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segunda-feira, 7 de novembro de 2011

QUEM TEM MEDO DE LIEV TOLSTÓI?

A nova edição do romance Guerra e paz, de Liev Tolstói com tradução direta do russo feita por Rubens Figueiredo foi anunciada em 2009. De lá pra cá sua vida viveu um período de tormento. O telefone não parava de tocar dia e noite. Antes e depois das aulas os alunos perguntavam. Sempre que alguém o via na rua logo queria saber: "e a tradução de Guerra e paz, pra quando é?". Rubens Figueiredo chegou até a sentir certa desconfiança toda vez que alguém pedia uma entrevista ou vinha se aproximando depois de uma palestra. A pergunta podia surgir a qualquer momento ou circunstância, assim meio disfarçada. Até quando ganhou prêmio por um romance que ele mesmo escreveu alguém na platéia teve coragem de perguntar. Também, ele se meter a traduzir um monumento da literatura diretamente do original - só podia mesmo dar nisso?

Evidentemente, a história acima é fictícia, mas bem que poderia ter sido verdadeira. Os dias de sossego (ou de nova tormenta?) de Rubens Figueiredo estão próximos. Se tudo der certo daqui a duas semanas, finalmente deve chegar às livrarias a nova tradução de Guerra e paz pela Cosac Naify. Lançamento bastante celebrado e digno do posto de um dos melhores do ano. Todo mundo vai querer uma entrevista ou um comentário do tradutor - que também assina um texto de apresentação do livro.

O romance monumental de Tolstói vem numa caixa super bonita (reprodução acima), em dois volumes, com 2536 páginas, 6 ilustrações (cinco mapas), lista com informações sobre as personagens e fatos históricos + sugestões de leitura. Animou? Já está em pré-venda no site da editora.

Ninguém mais tem medo de livros gigantescos, como é o caso desse. Comparando "alhos com bugalhos", a coleção As crônicas de gelo e fogo, de George R. R. Martin é um fenômeno de vendas e ninguém pergunta pelo tamanho na hora de comprar. A mesma coisa vale para as sagas Harry Potter, Crepúsculo, Senhor dos anéis etc. Outros calhamaços que podem até não ter se tornado best-sellers, mas que tiveram bastante repercussão e bom número de leitores, como Liberdade, de Jonathan Franzen (761 páginas), a trilogia Seu rosto amanhã, de Javier Marias (1328 páginas), As benevolentes, de Jonathan Littel (912 páginas) e 2666, de Roberto Bolaño (856 páginas) - para ficar com alguns exemplos - também não intimidaram ninguém pelo tamanho. Um ensaio de Garth Risk Hallberg chamado "A volta do longo?" na edição #1 do fanzine discute essa questão.

Voltando aos russos e acompanhando o lançamento, a edição desse mês da revista CULT tem um dossiê especial dedicado a Tolstói e Dostoiévski - com direito a reportagem sobre Guerra e paz. Vale lembrar que na mesma edição #1 do fanzine publiquei um pequeno trecho dessa aguardada tradução - clique no link e faça o donwload.

Para ler enquanto a gente espera o livro chegar.

*Imagem: reprodução.
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domingo, 6 de novembro de 2011

ALGUNS DOS MEUS MELHORES AMIGOS SÃO DJS OU ESCRITORES

Kid Koala é um gigante na arte do turntablism e do scratch. O cara faz coisas incríveis com um vinil e uma pick up nas mãos. Tá duvidando? Então vai ouvir Some of my best friends are djs, disco de 2003. Muita gente imagina que Kid Koala nasceu no Bronx, em meio a cena hip hop local. Nada disso, ele é descendente de chineses nascido no Canadá. Até onde me lembro, Koala só esteve no Brasil (em São Paulo) em 2004 participando da primeira edição do festival Sònar. A apresentação foi impressionante.

Depois de ler tudo isso, você deve estar pensando: "o que um dj está fazendo num blog sobre prosa de ficção?". Explico: é que Kid Koala está lançando uma bela graphic novel chamada Space Cadet. O livro vem com um CD recheado de composições do dj para acompanhar a história de um robô programado para proteger uma doce astronauta nesse ou em qualquer outro planeta. Só que quando sai em missão, o robô começa a pensar... e agora?

Space Cadet tem 132 páginas, elegantes desenhos em branco sobre papel preto e um CD com 15 faixas para páginas específicas do livro. A ideia surgiu na cabeça de Kid Koala quando sua filha nasceu, mas a experiência não é inédita. Antes disso, ele tinha pulicado Nufonia Must Fall (2003) - outra graphic novel que contava uma história de amor entre um robô e uma garota viciada em trabalho, também acompanhava um CD como trilha sonora.

Abaixo tem um trailer do livro:



Por ocasião do lançamento do livro, Kid Koala fez algumas apresentações batizadas de Space Cadet Headphone Concert em museus da Inglaterra e dos Estados Unidos. Não era para dançar, apenas ouvir a música, ver as imagens do livro e apreciar a performance. Aqui tem um vídeo que passa uma ideia do negócio.

Abaixo algumas imagens do livro



*Imagens: reprodução do site de Kid Koala.

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sexta-feira, 4 de novembro de 2011

REVISTAS E FANZINES LITERÁRIOS NA ERA DIGITAL


Topei com três diferentes revistas (ou fanzines) digitais de literatura. Pode ser que seja ingênuo da minha parte imaginar um movimento de gente querendo colocar em circulação a literatura que sumiu dos jornais e das revistas "do mundo impresso". Outro dia mesmo vi nos jornais gringos, do tipo New York Times, artigos falando sobre uma espécie de renascimento dos fanzines impressos e da onda "do it yourself" dos tempos punk. Não deixamos por menos e criamos a nossa própria versão da coisa ainda que em escalas menores. Seja como for, não deixa de ser curioso que um monte de revistas (ou fanzines) do gênero estejam aparecendo e podem ser que apareçam muitas mais. Detalhe: todas aceita colaboração de todo o tipo, seja texto inédito, ensaio, entrevista, comentários e sugestões.

***

A primeira revista é a Outros Ares - projeto do Marcelo Barbão e do Rafael Rodrigues. É uma revista mensal voltada especialmente para publicação de contos de novos escritores brasileiros. Também reserva espaço para entrevistas, crônicas e outros textos. Dá para ler no Kindle, Kobo, FBReader, Aldiko, Adobe Digital Editions, Nook e nos plug-ins para Firefox e Chrome. Já está no sexto número.

A segunda é a revista Macondo - editada por dois irmãos, Marcos e Francisco. Tem períodicidade variada. O formato é mais tradicional e parecido com revistas impressas. Tem poesia, resenha, ensaio, crítica, fotografia etc. Dá para ler nos e-readers que aceitam o formato PDF e na internet. Já tem dois números.

Por último tem a revistinha Um conto - parece que é organizada por universitários de Minas Gerais (não consegui descobrir muita coisa). Tem periodicidade mensal. Publica principalmente poesia e um conto ou crônica. Dá para ler nos e-readers que aceitam o formato PDF e na internet. O grande barato é o formato pequeno, você pode imprimir e dobrar. Lançou dois números, sendo um dedicado especialmente a Carlos Drummond de Andrade.

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Tem fanzine ou revista digital, manda o link. Sempre que posso divulgo algumas por aqui.

*Imagem: reprodução.

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sábado, 29 de outubro de 2011

NOTAS #31



Face oculta
Sylvia Plath é mais conhecida por sua eletrizante obra poética e por seu romance A redoma de vidro. O que nem todo mundo sabe é que ela também manteve uma intensa produção de pinturas e desenhos paralela a sua obra como escritora. Parte desses desenhos serão exibidos pela primeira vez numa exposição na Mayor Gallery, em Londres. Ao contrário do que a gente imagina, os desenhos demonstram um enorme talento escondido. São cenas bem acabadas de natureza morta, vilas, cafés parisienses e objetos isolados. O desenho reproduzido acima curiosamente chama "The Bell Jar" e supostamente tem ligação com um pequeno trecho do romance.

Biblioteca secreta
Quais eram os livros favoritos de Aldous Huxley? O que teria influenciado George Orwell? Será que Jorge Luis Borges lia romances policiais? A curiosidade sobre a leitura particular de grandes escritores muitas vezes ronda a nossa cabeça ao fechar de seus livros. A biblioteca secreta de cada um é algo tão pessoal que somente eles poderiam revelar. A correspondência de Samuel Beckett (que chegou as livrarias inglesas nessa semana) revela um pouco desse surpreendente segredo. Beckett cita em suas cartas sua admiração por Andrômaca, de Jean Racine, A volta ao mundo em 80 dias, de Júlio Verne, O castelo, de Franz Kafka e outros livros de Victor Hugo, Louis-Ferdinand Céline, Andre Malraux, William Faulkner e Albert Camus.

***

A curiosidade dessas leituras fica por conta de O apanhador no campo de centeio, de J.D. Salinger (que Beckett afirma ter gostado muito) e A casa torta, de Agatha Christie (que ele achou bem cansativo).

Protestos na literatura
Em tempos de "Ocupe Wall Street" e protestos pelo mundo, nada melhor de que ler grande literatura em que manifestações de descontentamento ganham destaque no enredo. Assim acontece em À espera dos Bárbaros, de J.M. Coetzee (em muitos livros de Nadine Gordimer também), Barnaby Rudge, de Charles Dickens, A educação sentimental, de Gustave Flaubert, A pastoral americana, de Philip Roth e Shirley, de Charlotte Brontë. Cenas de protesto também estão presentes na literatura nacional, sobretudo na obra de escritores das décadas de 30/40 e 60/70 - quando enfrentamos ditaduras militares.

Ficção áudio eletrônica (2)
Na semana passada o projeto EletroFicção nos presenteou com a escritora Ana Paula Maia lendo um trecho do seu romance Carvão animal. Essa semana foi a vez de Luiz Ruffato ler o Fragmento 13 do romance Eles eram muitos cavalos - o escritor acaba de lançar Domingos sem Deus, quinto e último capítulo da série batizada Inferno provisório.

Tumblr quase literários
Os tumblrs voltados a assuntos ligados ao universo literário estão pipocando na internet. Depois do hilariante "Tô gato?" - que mostra "os gigantes da literatura antes de sair pra balada" (do tipo imperdível!) - tem "Not Foster Wallace" com sósias do cultura escritor norte-americano e "Nabokov, Bitches" com fotos e frases do escritor russo. Se você conhece algum outro, por favor, mande uma mensagem que prometo postar aqui no blog.




James Franco
O ator James Franco adora literatura e disso a gente não tem dúvida. Basta lembrar que ele já escreveu um elogiado livro de contos (Palo Alto: Stories), participou do book trailer de Gary Shteyngart e encarnou Allen Ginsberg no filme Howl. Recentemente Franco gravou de sua cama em áudio e vídeo a leitura do conto “William Wei", de Amie Barrodale para a revista Paris Review - o conto foi publicado na edição nº 197 da revista e está disponível para leitura aqui. o vídeo tem um pouco mais de treze minutos (sem corte ou edição). Quem quiser pode ouvir apenas o áudio clicando aqui.

*Imagem: reprodução

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quinta-feira, 27 de outubro de 2011

O LEITOR ESCOLHE QUEM LEVA O PRÊMIO

O prêmio da revista QUEM para melhor escritor do ano não é tradicional e ainda não tem tanta repercussão, mas achei a lista de indicados bem elaborada. O único problema é misturar escritores de prosa e poesia. Acho difícil comparar e avaliar as duas coisas juntas.

Dentre os finalistas estão concorrendo Afonso Henriques Neto, Ana Paula Maia, Elvira Vigna, Mano Melo, Max Mallmann, Michel Laub, Paulo Roberto Pires, Rubens Figueiredo e Thiago Mello.

Não acompanho o prêmio desde o começo, mas sei que funciona assim: um júri composto por especialistas no assunto em conjunto com a redação da revista escolhem os indicados. Depois que a lista é divulgada, começa a votação popular através do site para escolher um vencedor em cada categoria.

O júri desse ano foi formado por Claufe Rodrigues (poeta, compositor e jornalista), Ítalo Moriconi (professor de literatura da UERJ) e Raquel Cozer (jornalista e dona do blog A biblioteca de Raquel).

Para votar é só clicar aqui.

*Imagem: reprodução.
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quarta-feira, 26 de outubro de 2011

LITERATURA BRASILEIRA NO EUROPALIA

No final a programação literária do Festival EUROPALIA (Festival Internacional de Artes que acontece em várias cidades da Bélgica e algumas cidades da Holanda de outubro/2011 a janeiro/2012) não ficou desinteressante, nem tão popular como queriam os organizadores belgas. É que a edição desse ano homenageia a cultura brasileira. Pelo que os jornais daqui diziam, os organizadores do festival queriam uma programação mais popular - nas entrelinhas esperavam algo mais clichê para lotar as apresentações.

A comitiva de escritores que participam da programação é formada por João Almino, Beatriz Bracher, Bernardo Carvalho, Daniel Galera, Paulo Lins, Lourenço Mutarelli (que também vai fazer uma exposição), Nuno Ramos, Silviano Santiago, Veronica Stigger, João Ubaldo Ribeiro, Sergio Sant'Anna e Reinaldo Moraes.

Além disso, haverá uma exposição de fotos de Clarice Lispector, conferências com Vilma Arêas (sobre Clarice) e Beatriz Resende (sobre literatura feminina) e dois grandes simpósios com temas "Interpretações literárias do Brasil moderno e contemporâneo" e "Literatura Brasileira no contexto Latino Americano".

Paralelo ao festival, a revista literária Marginales publica três contos de autores brasileiros com o tema Amazônia: Fin du monde, de Beatriz Bracher, Trois Voyages en Amazonie, de João Almino e À la découverte des Amazones, de Silviano Santiago. Outra revista, chamada Indications, também pretende publicar resenhas dos livros de Chico Buarque de Hollanda, Milton Hatoum, Luis Fernando Veríssimo, João Ubaldo Ribeiro, Paulo Lins, Luiz Alfredo Garcia-Roza e entrevista com Bernardo Carvalho.

(O festival é bem amplo. Tem música, dança, teatro, circo, filmes etc. Além desses escritores, nossa literatura também será representada por vários poetas - entre eles Augusto de Campos, homenageado da próxima Balada Literária -, não comentei esse item porque este blog é voltado a ficção em prosa).

Todas as informações estão disponíveis no site do festival - aqui.

*Imagem: reprodução.
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terça-feira, 25 de outubro de 2011

DIÁRIOS DO VAMPIRO

Uma notícia direto da Feira de Frankfurt que passou meio despercebida: encontraram um caderno de notas de Bram Stoker, o famoso autor de Drácula. O material escrito entre 1871 e 1881 será publicado ano que vem na Inglaterra durante as comemorações do centenário de morte de Stoker. O título do livro será The Lost Journals of Bram Stoker. O lançamento deve coroar a boa fase da literatura sobre vampiros.

Impressiona o tamanho da obra deixada por Bram Stoker apesar da fama atribuída unicamente a Drácula. Ele escreveu outros onze romances de literatura fantástica e horror, além de inúmeros contos (incluindo contos de fada para crianças) e textos de não-ficção.

***

Curiosamente, enquanto escrevia esse texto esbarrei no conto "Vampire", de Robert Coover (em inglês). Nesse link é possível ouvir o próprio autor lendo o conto e conversando com um dos editores da revista Granta sobre a história. Traduzi um trecho logo abaixo:
"Era verão, quando ele saiu, mas agora é inverno e na calada da noite e ele está sozinho e vestido apenas com sua camisa de golfe e sua bermuda laranja e verde marcada. Ele é conhecido pela população local, amontoados em peles pesadas, que olham para ele com expressões de medo e horror. Ele é um cara simpático, mesmo entre estranhos, sempre disposto a pagar a primeira rodada, e ele acena e mostra o seu melhor sorriso, mas elas gritam e recuam, cruzando teatralmente". (traduzido do inglês por RR)
Além de escritor Robert Coover é um teórico bastante renomado na área da literatura em hipertexto e da narrativa multimídia. Sua obra é praticamente desconhecida entre nós - existe apenas uma antiga tradução para o português do livro Espancando a empregada (Espaço e Tempo, 1989). Na semana passada, Coover esteve no Rio de Janeiro participando do projeto Oi Cabeça. Encontrei apenas informações em blogs, parece que ele discutiu os novos gêneros literários produzidos em ambiente digital e apresentou um software muito avançado para o nosso tempo chamado CAVE (Cave Automatic Virtual Environment).

***

Fechando o tema, recomendo o conto Catorze anos de fome, de Santiago Nazarian publicado no livro Pornofantasma. O conto também está na segunda edição do fanzine Casmurros #2.

*imagem: reprodução.
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segunda-feira, 24 de outubro de 2011

UMA NOITE COM ZADIE SMITH


Na semana passada a escritora inglesa participou de um encontro sobre escrita criativa no Miller Theatre, em Nova York. Vestindo um turbante vermelho e um casaquinho preto, Zadie Smith foi impecável com seu belo sotaque e afinado senso de humor inglês.

Texto: Rodrigo Bottura, de Nova Iorque.

***

Para um Miller Theater lotado de rostos inquietos que carregavam as ansiedades e incertezas de futuros escritores em seus 20 anos de idade, Zadie Smith falou do porquê de se escrever. Após percorrer a visão de vários escritores acerca do ato da escrita - começando com Horácio, passando pelo onipresente Vladimir Nabokov e concluindo com George Orwell - a escritora nos lembrou que escrever não é garantia de autoridade em nossa cultura.

Aliás, de mesmo modo, ela diz que os editores também não são garantia de qualidade. Muitos escritores bons passam a vida inteira sem serem publicados e muitos escritores ruins são publicados diariamente na internet. Zadie culpa a internet pelo fim dos debatidos direitos autorais, o que transformou o ato de escrever ficção em um aterro de energia mal-direcionada. Longe de desencorajar os estudantes, que acharam tempo entre as aulas e provas de meio de semestre para se apertar na audiência com seus caderninhos, ela queria nos lembrar de os que escritores escrevem pela frase, pela atenção a beleza e para, acima de tudo, demonstrar que o são.

Essa necessidade de provar que escritores ainda existem explicaria as feiras literárias. Hoje em dia, diz ela, “temos que percorrer o globo para provarmos nossa existência”. Ainda que pareça sem sentido e absurdo ser escritor em nossa época, ela os convidou a escrever para terminar a página, para usar, manipular e se dispersar na linguagem, para exercer uma das poucas capacidades que não estão ligadas ao poder monetário. Para quem achou que aqui caberia uma palavra sobre os protestos de Wall Street, vale lembrar que ela não acredita que ninguém hoje em dia escreva ficção para acabar com o capitalismo monolítico. Não, escritores escrevem para ver como as coisas são realmente, já que a realidade reproduz as distorções de seu tempo.

Quando perguntada se escrevia em grupo, ela respondeu que quando começou a escrever, a escrita era algo que se fazia as escondidas e que apesar de ter estudado língua e literatura inglesa na Inglaterra, ela lia muito nas aulas, mas escrevia muito pouco. Apesar disso, disse ainda ser a favor dos cursos de escrita, da qual é professora na NYU, porque eles a permitem ter uma vida acadêmica sem nunca ter tido um PHD. O que faz sentido se aceitarmos a sua metáfora de que escritores hoje em dia se aproximam mais de artesões do que de artistas, construindo suas cadeiras sem saber se servirão para alguém sentar ou para fazer fogueira. Acima de tudo, o que Zadie Smith lembrou aquele grupo de jovens impacientes da Ivy League, é de que é preciso ir com calma, olhar para o micro, de que ler um romance em duas semanas não é ler um romance e de que para se ler nas entrelinhas, é preciso primeiro ler-se as linhas.

*Imagem: reprodução.

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domingo, 23 de outubro de 2011

1Q84 - HARUKI MURAKAMI


Haruki Murakami não tem no Brasil tantos fãs quanto tem no Japão. Para se ter uma ideia os dois primeiros volumes do romance 1Q84 venderam juntos mais de 2 milhões de exemplares. Sem mencionar o fato do livro quase ter esgotado antes mesmo de chegar às livrarias. Não encontrei os números de venda do terceiro volume, mas não deve ter sido nem um pouco diferente. Foi algo estrondoso que a gente jamais veria por aqui - em se tratando de Murakami, claro.

Seja como for, conheço bastante gente que gosta de Murakami e recomenda vivamente a leitura dos seus romances. Todos estão contando os dias até a chegada de 1Q84 em terras brasileiras - e babando na chuva de notícias da imprensa anglófona por conta do lançamento em inglês. A editora Alfaguara prevê lançar os dois primeiros volumes só em 2012. Os mais afoitos e não leitores de japonês anteciparam a leitura recorrendo as edições da Espanha, Alemanha, França e agora da Inglaterra e Estados Unidos.

Parece que em todos esses países (exceto nos Estados Unidos que tem lançamento do livro na terça-feira) o romance fez muito sucesso e a tiragem inicial não foi suficiente. Na Inglaterra as livrarias ficaram abertas até tarde aguardando os primeiros minutos da esperada data de lançamento. Teve uma série de eventos programados. Nos Estados Unidos o fenômeno deve se repetir.

Mais sorte tem os nossos amigos portugueses. A editora Casa das Letras (um selo da editora Leya, em Portugal) lança uma versão em português do primeiro volume no dia 8 de novembro. A tarefa de verter o longuíssimo romance de Murakami para o português (de Portugal) ficará a cargo de Maria João Lourenço, tradutora da maioria obras do autor em Portugal. Ela até escreveu um texto comentando as dificuldades num blog português dedicado ao escritor - A angústia da tradutora diante dos caracteres chineses.

(Aqui no Brasil Murakami não tem um tradutor, mas muitos. Numa pesquisinha rápida, cada edição lançada pela Alfaguara tem um tradutor diferente: Lica Hashimoto, Leiko Gotoda, Ana Luiza Dantas Borges e Jefferson José Teixeira. Não sei quem ficou com 1Q84).

Diferente do que acontece com os países falantes do espanhol, a gente não tem o costume de recorrer aos lançamentos em português de Portugal. Pelo menos essa é uma impressão que tenho, posso estar enganado. Deve ser porque somos realidades editoriais bastante diferentes. Enfim, quem quiser ler o Murakami antes e sem muito esforço já tem um caminho.

É difícil falar do livro sem ter lido, mas o blog do Ronaldo Bressane explica direitinho tudo sobre a história e a estrutura do enredo - inspirados em O Cravo Bem-Temperado, de Bach e no romance 1984, de George Orwell. Tem até um trecho que o próprio Bressane traduziu - corre lá pra ver.

*Imagem: capas de Murakami pelo mundo / reprodução.

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