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quarta-feira, 29 de maio de 2013

WILLIAM FAULKNER PARA AS PISTAS DE DANÇA


Ao contrário do que muita gente pode imaginar a literatura nunca foi restrita ao mundo da academia e seus iniciados. Quantos filmes, programas de TV, jogos de tabuleiro, videogames e bandas de rock and roll já não foram influenciados pelas histórias impressas nas páginas de um livro? Não deixo de fora os experimentos linguísticos que também tem seu espaço reservado na cultura pop, vide o caso de Thomas Pynchon, Jack Kerouac, José Agrippino de Paula, J.G. Ballard, Raymond Queneau, Anthony Burgess etc. Portanto, não causa nenhum espanto a notícia dos romances chegando ao universo da dance music. Além de dançar ou fazer dançar, os djs também estudam literatura (e falam nisso o tempo todo).

Estou tomando como exemplo dessa tendência o músico e produtor Nicolas Jaar que esteve em São Paulo na semana passada como convidado da festa de 13 anos do clube D_Edge. Suas composições quase minimalistas passeiam livremente entre a house music, o tecno, o hip hop, o jazz e as canções pop e resultam numa mistura muito original de gêneros musicais. Dizem que Cat Power, cantora indie, e Scout LaRue, filha dos casal Bruce Willis e Demi Morre, ficaram encantadas pela música do rapaz. Ele tem fama de arrastar uma multidão de fãs do sexo feminino por onde passa.

Fora das pistas, Nicolas estuda Literatura Comparada na Universidade de Brown e sua tese de conclusão de curso será um tanto 'pretensiosa': vai tecer relações entre o romance Absalão, Absalão!, de William Faulkner, textos de Sigmund Freud, Jacques Derrida e Hayden White. Numa das tantas entrevistas, ele disse que o romance de Faulkner lembrava as composições musicais de Ricardo Villalobos (produtor e dj de tecno) pela maneira como a forma interfere no conteúdo - existem repetições, recorrência de temas, mudanças bruscas de tempo e sua experiência de expansão ao infinito, alternância de foco narrativo etc. Ou seja, a forma se dobra sobre o conteúdo e importa mais a maneira como se conta do que aquilo que se conta propriamente (estou simplificando as coisas porque o romance de Faulkner é incapaz de ser reduzido a meros detalhes, pois nele cabem muitos observações e interpretações; é importante dizer que para além da forma, o livro também conta uma história que tem recorrência com histórias que estão na bíblia).

Para dar conta de escrever a tese, Nicolas carrega livros na mala e só faz viagens internacionais quando está com tempo livre na Universidade. Ele considera que seu trabalho com música ficará cada vez melhor se continuar estudando. Tomara que ele não largue a literatura nunca mais!

***

Aos interessados em Absalão, Absalão! vale um aviso. O romance está fora de catálogo e disponível apenas em sebos. A última edição saiu pela Nova Fronteira, em 1981 com tradução de Sônia Régis. Virou um artigo raro e pode custar mais de R$ 200,00 dependendo do lugar em que você vai comprar.

Em 2010, a Cosac Naify anunciou que estava trabalhando numa nova edição com tradução de Celso Mauro Paciornik. Ainda não saiu e não pintou nas especulações sobre lançamentos de 2013. Vamos acompanhar.

Um trechinho dessa tradução saiu na revista Cult.

***

Enquanto isso, a editora Benvirá está relançando os romances não tão conhecidos do autor. Algo comparado ao Lado B, de Faulkner - estou dizendo sem o menor juízo de valor. Já saíram O intruso (com tradução de Leonardo Fróes), Lance mortal, Os invictos e a Triologia Snopes - A mansão, O povoado e A cidade (todos com tradução de Wladir Dupont).

*Imagem: Samantha Casolari para Port-Magazine/www.port-magazine.com
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terça-feira, 10 de janeiro de 2012

APOSTAS PARA 2012 - NACIONAIS E ESTRANGEIROS

Falar de novos lançamento é uma boa maneira de dar boas-vindas ao ano que acabou de começar. Na era da internet parece que o tempo urge e as pessoas ficam ansiosas por qualquer novidade. Que atire a primeira pedra aquele sujeito que acabou de voltar da praia e não procurou o assunto "lançamentos 2012" no Google.

Nossas editoras (que não costumavam comentar muito o assunto) divulgaram muitas informações para deleite dos leitores. Por isso, estou listando abaixo os livros que vão aparecer nas prateleiras das livrarias antes do que você pensa. Assim a gente dá o pontapé inicial nesse ano que está com uma preguiça danada de começar. Não estou mencionando os autores que devem pintar na FLIP e sempre agitam lançamentos.

Lembrando que são lançamentos previstos. As editoras podem alterar as datas.

Se alguém descobrir ou lembrar de algum outro lançamento e quiser contribuir, por favor, me mande um sinal de fumaça. Prometo ficar de olho e atualizar a lista a medida que receber as informações.


INTRÍNSECA
A visita cruel do tempo, de Jennifer Egan (capa com ilustrações de Rafael Coutinho)
The art of fielding, de Chad Harbach

L&PM
Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf (com tradução de Denise Bottman)
Jack Kerouac and Allen Ginsberg: The Letters, com organização de Bill Morgan e David Stanford.

ALFAGUARA
1Q84, de Haruki Murakami (com tradução de Lica Hashimoto previsto para o segundo semestre)
O novo romance ainda sem título de Ronaldo Correia de Brito
O céu dos suicidas, de Ricardo Lisias
Reedição das obras completas de Mário Quintana

GLOBO
Novas obras de Herta Müller
Anatomía de un instante, de Javier Cercas
As mil e uma noites - volume 4 (com tradução de Mamede Mustafá Jarouche)
Comédia Humana, de Honoré Balzac (serão lançados os primeiros quatro volumes com tradução de Paulo Rónai)

OBJETIVA
Vida e destino, de Vassily Grossman

AMARYLIS
Contos, de Ivan Búnin

ROCCO
The sense of an ending, de Julian Barnes

RECORD
Os imperfeccionistas, de Tom Rachman
O mapa e o território, de Michel Houellebecq
Parrot and Olivier in America, de Peter Carey

EDITH (selo de Marcelino Freire)
Guia de Ruas Sem Saída, de Joca Reiners Terron com desenhos de André Ducci

COMPANHIA DAS LETRAS
Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera
O lugar mais sombrio, de Milton Hatoum
Como se o mundo fosse um bom lugar, de Marçal Aquino
Novos romances de Carola Saavedra, Carlos de Britto e Mello, Zulmira Ribeiro Tavares, Cecilia Giannetti (provavelmente pela série Amores Expressos), Elvira Vigna Luiz Alfredo Garcia-Roza e Noemi Jaffe.
Chamadas telefônicas, de Roberto Bolaño
Receitas para mulheres tristes, de Hector Abad
Os enamoramentos, de Javier Marías
A trama do casamento, de Jeffrey Eugenides (com direito a versão de bolso de As virgens suicidas - tradução de Daniel Pelizzarri)
Contra o dia, de Thomas Pynchon
As coisas, de Georges Perec
Livro, de José Luis Peixoto
Sunset Park, de Paul Auster
Fora do tempo, de David Grossman
A casa do silêncio, de Orhan Pamuk
O legado de Humboldt, de Saul Bellow
Miguel Street, de V.S. Naipaul
Histórias abensonhadas, de Mia Couto
Ulysses, de James Joyce
Ligações perigosas, de Choderlos de Laclos
Open city, de Teju Cole
Mr. Peanut, de Adam Ross
The great house, de Nicole Krauss
O homem é um grande faisão, de Herta Müller
The thousand autumns of Jacob de Zoet, de David Mitchell (com tradução de Daniel Galera)
Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust (com tradução de Mario Sergio Conti)
Strong Motion, de Jonathan Franzen
Focus, de Arthur Miller
HHhH, de Laurent Binet
Senhora, de José de Alencar
Clara dos Anjos, de Lima Barreto

Os quadrinhos de Angeli, Laerte, Lourenço Mutarelli, Caco Galhardo, Gustavo Duarte e Rafael Campos Rocha, Angélica Freitas e Odyr Bernardi, Ronaldo Bressane e Fábio Cobiaco, Vanessa Barbara e Fido Nesti, e Emilio Fraia e DW Ribatski

Reedição das obras completas de Carlos Drummond de Andrade (homenageado da FLIP 2012)

BENVIRÁ
Pássaros na boca, de Samanta Schweblin (ela estará em abril na Bienal do Livro de Brasília)

EDITORA 34
Contos de Kolimá, de Varlam Chalámov
Novelas, de Nikolai Leskov
O adolescente, de Fiódor Dostoiévski (com tradução de Paulo Bezerra)
Oblomov, de Ivan Goncharóv
Meu companheiro de estrada e outros contos, de Máximo Górki (com tradução de Boris Schnaiderman)
Contos de Canterbury, de Geoffrey Chaucer(com tradução de Paulo Vizioli)

COSAC NAIFY
A brincadeira favorita, de Leonard Cohen
Lojas de Canela e Sanatório, de Bruno Schulz (livro em que aparece a novela Rua dos Crocodilos que serviu de base para o livro-objeto Tree of codes, de Jonathan Safran Foer)
Cães heróis, de Mario Bellatin

ILUMINURAS
Pomas, um tostão cada, de James Joyce (com tradução de Alípio Correia da Franca Neto)
O Gato e o diabo, de James Joyce (com tradução de Dirce Waltrick do Amarante)
De santos e sábios, de James Joyce (um livro de ensaios com traduções de Dirce Waltrick, Sergio Medeiros, Caetano Galindo e André Cechinel)
Stephen herói, de James Joyce (com tradução de Alípio Correia da Franca Neto)

BERTRAND BRASIL
The Finkler Question, de Howard Jacobson

EDITORA NOVA FRONTEIRA
The long song, de Andrea Levy


NA GRINGA ANGLÓFONA
The Map and the Territory, de Michel Houellebecq
Distrust That Particular Flavor, de William Gibson
What We Talk About When We Talk About Anne Frank, de Nathan Englander
Varamo, de Cesar Aira
Gods Without Men, de Hari Kunzru
The New Republic, de Lionel Shriver
Hot Pink, de Adam Levin
The Secret of Evil, de Roberto Bolaño
The Hunger Angel, de Herta Muller
Waiting for Sunrise, de William Boyd
Home, de Toni Morrison
The Newlyweds, de Nell Freudenberger
The Chemistry of Tears, de Peter Carey
Railsea, de China Mieville
The Lower River, de Paul Theroux
Lionel Asbo: The State of England, de Martin Amis
No Time Like the Present, de Nadine Gordimer
Umbrella, de Will Self
NW, de Zadie Smith
Zoo Time, de Howard Jacobson

*imagem: capa de A visita cruel do tempo e The secret evil/reprodução.

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sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

PRESENTES DE NATAL - 2011

Organizei Uma seleção de ideias de presentes para pais, avós, filhos, namorados, amigos e demais conhecidos. No "guia de compras" entraram apenas livros de ficção em prosa lançados ao longo do ano de 2011. A intenção é ajudar na hora das compras, da correria, do amigo secreto e tudo o mais.

O serviço inclui imagem de capa do livro, título, autor, tradutor, preço e link para o site das editoras. O preço pode variar dependendo da livraria em que você compra em função de ofertas promocionais, programas de fidelidade, descontos, compra pela internet, importação etc.

1. Guerra e paz, de Liev Tolstói, traduzido do russo por Rubens Figueiredo (Cosac Naify; R$198,00). A batalha e a derrota de Napoleão na Rússia em tons monumentais.

2. Quarto, de Emma Donoghue, traduzido do inglês por Vera Ribeiro (Verus Editora; R$34,90). Um pequeno cômodo que é ao mesmo tempo um universo inteiro e uma prisão.

3. Tudo destruído, tudo queimado, de Wells Tower, traduzido do inglês por Adriana Lisboa (Rocco; R$39,50). Nove histórias sobre a nossa inútil tentativa de buscar um pouco de paz na vida.

4. Aventuras de Alice no subterrâneo, de Lewis Carroll, traduzido do inglês por Adriana Peliano e Miriam Ávila (Scipione; R$39,90). Primorosa recriação em detalhes do manuscrito que a pequena Alice Lidell recebeu de presente.

5. Liberdade, de Jonathan Franzen, traduzido do inglês por Sergio Flaksman (Companhia das Letras; R$ 46,50). A típica família norte-americana de classe média em ruínas.

6. Pale fire - a poem in four cantos by John Sade, de Vladimir Nabokov (Gingko Press; $22,77 - importado R$86,50). O livro de Nabokov transformado numa edição com visual impressionante.

7. A noiva do tigre, de Tea Obreht, traduzido do inglês por Santiago Nazarian (Leya Brasil; R$34,90). Uma jovem médica em missão de paz num país da península Balcânica busca histórias contadas por seu avô.

8. Habitante irreal, de Paulo Scott (Alfaguara Brasil; R$ 39,90). Desilusões políticas e infelicidade levam o protagonista a um encontro transformador.

9. Quando meu pai se encontrou com o ET fazia um dia quente, de Lourenço Mutarelli (Companhia das Letras; R$44,50). Acontecimentos insólitos na vida de um simples aposentado da Companhia Telefônica.

10. Diário da queda, de Michel Laub (Companhia das Letras; R$38,50). Um acidente numa festa de aniversário com consequências trágicas.

11. Tempo de boas preces, de Yiyun Li, traduzido do inglês por Fernanda Abreu (Nova Fronteira; R$34,90). Histórias sobre filhos da pátria chinesa tentando buscar uma saída capaz de mudar seus destinos.

12. Tree of codes, de Jonathan Sanfran Foer (Visual Editions; $23,81 - importado R$108,90). Uma novela de Bruno Schulz recriada cortando palavras de todas as suas páginas.

*Imagens: Renata Ueda / capas: divulgação.
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segunda-feira, 8 de agosto de 2011

UMA CONVERSA COM PAUL HARDING

Por Tony Perez

A restauração das horas, de Paul Harding é um dos meus romances favoritos dos últimos dois anos (eu adoro quando o comitê do Pulitzer acerta), por isso, quando surgiu a oportunidade de entrevistá-lo para o Portland Mercury há alguns meses, eu aceitei na hora. Acho que ainda não dominei esse negócio da pergunta precisa para as respostas concisas (ou não poderia ajudar, mas somente sentar e ouvir alguém falar brilhantemente sobre a teologia da reforma protestante e da mecânica quântica... e como elas se relacionam com a ficção) porque o que era para ser uma entrevista de 550 palavras acabou ficando em cerca de 5000. Nem preciso dizer que eu tive de fazer um corte significativo. Felizmente, a internet não conhece o tamanho de uma coluna. Abaixo está a versão do editor para a entrevista.

Tony Perez: Pelo que ouvi, você recebeu um monte de cartas de rejeição antes da editora Bellevue concordar em publicar A restauração das horas. Agora que você já tem um Pulitzer e um prêmio PEN, existe alguém em especial para quem você gostaria de dizer "eu avisei"?

Paul Harding: Não. Eu tenho pessoas em mente e acho que elas sabem quem são. Pessoalmente, é muito frustrante ser rejeitado desse jeito; você trabalha aos poucos em seu romance, suas histórias, seus poemas e depois você encontra esse tipo de apatia do mundo editorial. Mas isso é muito comum para escritores. Eu olho para isso como o meu lugar nesse tipo de negócio. Autores de contos em especial... eles têm de manter planilhas do Excel com as revistas e as cartas de rejeição. Há todas estas histórias de pessoas decorando seus estudos com cartas de rejeição, então eu acho que eu só tenho a minha parte do lote de escritor.

TP: A restauração das horas não tomou o caminho típico rumo ao sucesso. Foi publicado por uma editora pequena e, pelo menos inicialmente, voou baixo sob o radar da maioria dos grandes meios de comunicação. Parece que o livro realmente decolou através do boca-a-boca. Você pode falar sobre o ímpeto do livro e quando você percebeu que os leitores foram se ligando nele?

PH: Sim. A Bellevue Literary Press fica no hospital Bellevue – o infame hospital Bellevue – e é atualmente um selo sem fins lucrativos que é publicado pela escola de Medicina da Universidade de Nova York. Então essa é a minha editora: a escola de Medicina da Universidade de Nova York. Como um editor de lá falou, o adiantamento foi simbólico. Eles não têm um orçamento de marketing ou qualquer coisa. Mas, felizmente, fizeram algumas primeiras cópias e havia, em particular, uma representante de vendas chamada Lise Salomon em São Francisco que leu o livro e o colocou debaixo do braço – tornou-se uma advogada dele, falando bastante antes da publicação. Ela meio que sente um burburinho acontecendo na costa oeste antes de qualquer coisa acontecer aqui. Mas o boca-a-boca começou um pouco antes da publicação – a Publisher’s Weekly deu uma boa resenha sobre ele. Tão logo as primeiras cópias saíram ficou visível o fato de que existe realmente uma livraria independente, vendendo de mão em mão, uma rede boca-a-boca de leitores apaixonados. O que é tão gratificante para mim sobre isso tudo é que ainda existem essas redes. Se você publicar um livro, mesmo através de uma pequena editora, ele pode encontrar seus leitores.

Foi na lista dos mais vendidos em São Francisco bem quando ele permaneceu por umas duas semanas. Eu fui lá e fiz algumas turnês, em seguida voltei para a costa leste e foi como se o livro nunca tivesse sido publicado. Mas paralelamente o livro continuou seguindo, o que pensávamos ser um bom sinal – não era só um pico de vendas inicial devido a uma campanha de marketing ou qualquer coisa assim. Meio que manteve a venda. Foi resenhado em um monte de grandes jornais da cidade, a New Yorker fez uma resenha, mas o New York Times não. Chamou a atenção das pessoas a maneira como o livro foi sendo trabalhado. Assim, bem antes do Pulitzer, sentimos como se fosse um sucesso. Estava recebendo opiniões respeitáveis ​​em todo o país e estava vendendo cada vez mais – eu pensei que aquilo era fantástico e muito mais do que eu jamais imaginei que iria acontecer. Três ou quatro semanas antes do Pulitzer ser anunciado, eu soube que eu tinha recebido um prêmio Guggenheim. Achei que aquela era a cereja do bolo. Então aconteceu o Pulitzer, e o PEN, do tipo efeito bola de neve. Para mim, novamente, assim que havia cinquenta exemplares impressos, era tudo esse tempero de São Francisco. O fato de ter sido tão difícil de publicar, eu estava mais ou menos me reconciliando a não conseguir publicá-lo, apenas fazer arte pela arte. Então, tudo posterior a isso, realmente, era só esse mesmo tempero.

TP: Como alguém que trabalha para uma pequena editora, sou encorajado a ver essas coisas acontecerem. Editoras independentes de todo o país ficaram felizes em ver a shortlist do Pulitzer sair, não apenas com A restauração das horas, mas com a coletânea de contos de Lydia Millet da editora Soft Skull [Love in Infant Monkeys].

PH: Com certeza, como viajei por aí, é tão surreal ser o protagonista neste tipo de coisa não-consigo-ser-publicado-para-o-Pulitzer. Mas para mim, o aspecto mais importante disso, o aspecto realista disso, é apenas aquela ideia de que há lugares lá fora, editoras independentes, que ainda podem publicar seus livros para as pessoas que querem encontrá-los. E com coisas como o Pulitzer, não existe correção. Editoras pequenas anunciaram que querem participar dessa competição. Nem todo mundo é um grande, um gigante rolo compressor corporativo. Parece, também, pela minha experiência, que editoras independentes estão onde a lista de autores medianos estão hoje em dia. O que é legal. Talvez você tenha que complementar a sua renda com o ensino ou o que quer seja, mas ainda é uma opção viável para ser um artista.

TP: Eu estou muito interessado na estrutura de A restauração das horas. É alucinante, e como tal, não está em dívida num cronograma rigoroso ou ponto de vista dos eventos. Como George se encontra em seu leito de morte, temos momentos dispersos, não só da sua vida, mas também das vidas de seu pai e avô. A estrutura foi algo que você impôs sobre o texto desde o início, ou só mais tarde se tornou clara?

PH: Foi um pouco das duas coisas. Parte disso vem da maneira como eu escrevo ficção. Eu faço as coisas tipo como colagem; eu escrevo pequenas passagens secundárias – conjuntos. Acho que quando escrevo ficção a coisa não vem completamente em episódios, mas em instantes. O instante em que Howard percebe que está deixando sua família. O instante em que George percebe que ele vai morrer. Eu passo muito tempo expandindo esses momentos. Sabe quando você compra um cortador de grama, olha para o manual de instruções e tem aqueles desenhos separados: as porcas, parafusos e pequenas partes das rodas. Isso é basicamente o que eu faço. Eu só expando esses momentos, analiso e olho para a personagem.

Mas também, em certa medida, o assunto se prestou a uma arquitetura associativa e não linear. Não só por causa da alucinação e desilusão de sua consciência, mas também porque muito do romance é interior – eu pensei nisso como se movimentar por associação, como a mente faz. Quando olhamos em pensamento para a vida que vivemos, ela não é linear. Nós a organizamos em padrões lineares, porque todos nós temos que colocar os sapatos e depois ir trabalhar, mas sua mente se move muito por associação. Então, o assunto e o meu método de escrita de alguma forma complementam um ao outro.

TP: Eu não costumo dar muita bola para o falatório antes do lançamento de um livro, mas Elizabeth McCracken [crítica americana] escreveu algo que realmente me marcou. Ela chamou o livro de um "manual de instruções sobre a maneira de olhar para quase tudo". Você parece obcecado com os mínimos detalhes – seja paisagem, animais, relógios ou um vendedor ambulante – e suas descrições seguem mais para a linguagem poética do que nós costumamos ver num monte de textos de ficção contemporânea. Quando você lê ficção, você é mais atraído para a linguagem e descrição do que para o enredo?

PH: Como leitor, com certeza. Mas observação e descrição são refratadas através da personagem – para mim, o enredo é um predicado da personagem. Então, quando eu descrevo em detalhes uma paisagem ou um artefato ou qualquer outra coisa, tudo é encurtado através de um indivíduo. Nunca é apenas uma paisagem descrita em detalhes; é uma paisagem da maneira como ela é apreendida por uma mente. Particularmente quando se trata de coisas relacionadas a paisagem e alguma densidade de linguagem, um dos santos padroeiros do livro, e da maneira como escrevo, é Wallace Stevens. A maneira como ele descreve o clima – as auroras do outono e a excitação do verão; o clima e as estações do ano como ocasiões para a comunhão da mente consigo mesma; o drama de consciência. Porque A restauração das horas é tão interior, senti uma espécie de consequente necessidade de ser o mais concreto possível com a linguagem. Inclinando-se muito sobre o abstrato e o conceitual, é fácil ficar boiando. Em A restauração das horas, esse cara está, basicamente, deitado na cama pensando, então todas as cenas e coisas sobre as quais ele pensa tinham que ter correlacionadas imagens literais e concretas, mesmo que isso permaneça iminente e físico e não simplesmente se dissolva em idéia pura.

TP: Uma coisa que realmente me impressionou em A restauração das horas é que você conseguiu canalizar uma tradição que remonta a uma série de escritores do século 19, mas não há nada arcaicos sobre o estilo ou idioma. Você pode falar um pouco sobre suas influências e como você foi capaz de tornar a escrita transcendentalista soar tão contemporânea?

PH: É, talvez eu pense nisso a partir de um ângulo ligeiramente diferente, mas eu vou fundo no espírito da coisa. Eu adoro os transcendentalistas. Emerson está no topo da minha lista. Thoreau não está muito atrás. Também penso em Hawthorne, Melville... mesmo Wallace Stevens vem desse tipo de tradição. Emily Dickenson – escritores assim. Algumas pessoas realmente pensam que A restauração das horas tem uma espécie de sensação arcaica, talvez porque se passa 90 ou 100 anos atrás, e vai ainda mais para trás. Algumas dessas coisas tem a ver com o fato de que eu gosto da idéia de despir algumas das distrações mais proeminentes da cultura material atual, que eu acho que pode configurar uma espécie de véu de ruído branco – é difícil ver ou ouvir o pensamento de alguém. Além disso, eu estava muito consciente quando eu estava escrevendo sobre o perigo, isso porque eu estava fazendo aquelas coisas e tinha essas afinidades. Eu estava consciente de que poderia cair numa prosa que soasse demasiado arcaico, que, então, soaria como muito educada. Eu acho que há uma espécie de formalidade na escrita, do tipo que faz parecer arcaico, mas eu tentei intencionalmente não usar sintaxe ou dicção arcaica – exceto em alguns lugares muito deliberados, principalmente nas citações de O horologista lógico [um livro fictício de 1783 que é citado ao longo do romance]. Eu tentei usar esse contraste; a prosa no resto de A restauração das horas não parece tão arcaica, porque ela é colocada junto de coisas que são intencionalmente arcaicas. Voltando a uma pergunta anterior, quando escrevo prosa eu me vejo como escrevendo poesia. É lírico, é pastoral – eu acho que por causa do meio transcendental – mas estou indo descaradamente para um tipo de densidade máxima de linguagem, imagem e significado em cada frase, sem que haja colapso sobre si mesma e se torne empolada ou impenetrável. Eu acho que talvez se você colocar todas essas coisas juntas, e mirar no ideal de precisão e exatidão, isso impede de soar arcaico.

TP: Há uma espiritualidade tranquila no seu trabalho que eu acho que está faltando em um monte de ficção contemporânea (o seu antigo professor Marilynne Robinson é uma exceção óbvia) e eu ouvi que você é um grande leitor de teologia. Gostaria que você falasse sobre como o seu trabalho ou seu pensamento é influenciado por pessoas como Karl Barth, ou Martinho Lutero. Ou até mesmo alguém como William James?

PH: Todas as pessoas que você acabou de menciona eu acho que você pode alinhá-las numa formação de desfile militar, todos eles vem da mesma tradição – o pensamento protestante reformado. Eu cresci aqui em Boston como um tipo de ateu neutro. Eu lia meu Nietzsche e mais nada, mas eu não era um ateu dogmático – eu não era doutrinário; eu não tenho nada contra a religião. Depois de ter estudado com Marilynne Robinson por muitos anos, me ocorreu que se eu lhe perguntasse de onde vinha sua fonte estética, intelectual, sua sofisticação e integridade emocional, ela certamente me diria que era de sua religião. Ela me diria que isso vinha de sua leitura desta tradição. Dado que eu respeito muito ela, eu estaria inclinado a respeitar a sua resposta, seu próprio cálculo de si mesma. Então, eu comecei a ler essas coisas e eu achei que eles eram incrivelmente belas – profundamente preocupado com a narrativa e a cosmologia. Foi muito mais do que a sujeira popular que você vê na imprensa entre Richard Dawkins e os Criacionistas – os pequenos rascunhos sujos dessas coisas. Quanto mais profundamente eu os leio, mais eu percebo que se você se isola dessas tradições de pensamento, você está se isolando da maior parte da história intelectual ocidental, até mesmo da maioria do pensamento Pós-Segunda Guerra Mundial. É quase como um tipo de censura, como "a religião é ruim para você, não perca tempo olhando para a teologia". Eu leio alguém como Karl Barth e é o pensamento humano mais bonito e esteticamente agradável que já eu encontrei. Em A restauração das horas, já que é ficção, eu não sou obrigado a me envolver em apologética ou oferecer provas, mas eu posso explorar as coisas. Eu posso brincar com elas de forma dramática e estética, e tipo ver como essas pessoas são responsáveis ​​por si mesmos em termos de concepções espirituais de quem eles são no universo.

Se você olhar para Emerson, ele era um ministro unitarista e deixou a igreja. Como você sabe, o censo comum sobre isso é ele deixou a igreja por pastos mais verdes. Mas se você olhar de fora para a tradição de que ele veio, há um forte argumento a ser construído de que ele deixou a igreja para encontrar Deus. Essa é a tradição protestante – pelo menos o pensando e a escrita com a qual eu estou familiarizado. Há um anti-autoritarismo embutido, a presunção de que a igreja institucional é uma construção humana; isso sempre vai endurecendo, e é antitético ao pensamento verdadeiramente piedoso. Para eles, o que realmente importa, é você e escritura. Os unitaristas romperam com os calvinistas; os calvinistas romperam com os luteranos; os luteranos romperam com os católicos; os católicos romperam com os judeus; os judeus romperam com os babilônios. É uma bela tradição, e parece bem ligada nesta compreensão de perseguição religiosa e desse tipo de pensamento. Os melhores teólogos, por exemplo, Karl Barth, viam a bíblia como uma obra de literatura e isso não rebaixa a sua autoridade normativa ou santa. Ele é um leitor atento do texto. É um uso muito mais sofisticado da imaginação e do intelecto. Faz você pensar sobre o que falamos quando falamos de Deus. Quando você olha para alguém como Dawkins, ele só perverte tudo isso dizendo: "se você acredita em Deus, você acredita em um homem velho de barba branca sentado num trono". É claro que isso é ridículo. Mas aí você percebe que pessoas como Dawkins nunca leram uma palavra de teologia, eles contam com o preconceito popular – ou em todo o positivismo materialista que compreenderam mal em suas, você sabe, 101 aulas de Wittgenstein. Se tudo é feito de matéria, e não há tal coisa como o espírito, então o que tudo isso significa é que não temos idéia do que é a natureza da matéria. Estou perfeitamente disposto a admitir que tudo é feito de coisas, mas isso só significa que nós não sabemos realmente o que são as coisas. Para mim, a teologia, a poesia e a arte caminham lado a lado com a física. Essa versão do materialismo é totalmente antiquada, fora de moda, a mecânica newtoniana. Eles estão sempre reclamando que não é testável, não é falsificável, mas os mais sofisticados experimentos da mecânica quântica só fazem a natureza da matéria mais ambígua do que jamais foi antes – está tudo dependente de observador. Se você é um escritor, há uma tensão muito legal anti-realista na mecânica quântica. Influência supraluminal e dependência da realidade do observador – tudo isso fala com a natureza experimental e participativa da consciência humana. Quando traduzidos para a ficção é parte da característica. Há uma passagem em A restauração das horas onde Howard está andando pela floresta. Quando ele se vira para olhar para a sua carroça, ele tem certeza de que cada vez que vira a cabeça tudo por trás dele desaparece ou muda. De certa forma, isso é apenas brincar com a física quântica, apenas em um sentido narrativo.

TP: O New York Times mencionou que o primeiro livro que você escreveu se passa em uma mina de prata mexicana do século 16. Será que o seu próximo livro vai uma mudança radical de A restauração das horas? Ou esse é o material que você ainda está interessado em trabalhar?

PH: Tenho pronto provavelmente 75% do primeiro rascunho do próximo romance. O título dele é Enon, que é a cidade em Massachusetts em que George Crosby morre. Em sua mente, era para onde ele fugia de sua juventude no Maine. É o nome colonial original de Wenham, a cidade em que cresci, um pouco ao norte de Boston. Portanto, este próximo livro é sobre um dos netos de George. Seu nome é Charlie Crosby. Ele faz uma pequena aparição em A restauração das horas. Então, é sobre ele e sua filha, Kate. A ação é subsequente àquela de A restauração das horas. Situado no mesmo local, mas não é uma sequência em si. Como Charlie faz o seu caminho através do enredo ou das circunstâncias do romance, George vai aparecer como parte do tipo de reservatório de memórias e pontos de referência de Charlie. Mas não é uma continuação da ação de A restauração das horas. Eu tenho uma idéia de retornar com um terceiro livro ligado a mesma família, para que eu possa criar a minha própria e pequena Nova Inglaterra Yoknapatawpha um dia desses.

Esta conversa foi publicada originalmente no blog da editora Tin House em 10 de janeiro de 2011. Ela reproduzido e traduzida para o português com permissão de Tony Perez.

*Imagens: retrato de Paul Harding reprodução de Pulitzer.org e capa do livro divulgação.


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sexta-feira, 29 de abril de 2011

NOTAS #24



Futuro lançamento
Quarto, de Emma Donoghue chegará em breve as livrarias brasileiras. O livro será lançado pela editora Verus com tradução de Vera Ribeiro. No ano passado o romance esteve em quase todas as listas de melhores de 2010 e chegou a ser finalista do Man Booker Prize. O romance conta uma história estranha e bastante original: um menino de 5 anos vive num quarto com sua mãe desde que nasceu. Donoghue já confessou em entrevistas algumas de suas influências: Michael Cunningham, Dave Eggers, David Foster Wallace, Alice Munro, Philip Pullman e Jane Austen. Acima a capa da edição brasileira.

ABC da literatura
O caderno Babelia do jornal espanhol El país publicou um abecedário dos últimos 70 anos de literatura na Espanha. O texto faz uma espécie de brincadeira com a publicação do sétimo volume do projeto História da literatura espanhola, organizado por Jordi Gracia e Domingo Ródenas. O volume tem como subtítulo "Perda e recuperação da modernidade: 1939-2010". No abecedário verbetes como boom, censura, exílio, gerações, Juan Ramón Jiménez e vanguarda ajudam o leitor a compreender um pouco da história recente da literatura daquele país. O texto está disponível em http://tinyurl.com/6f6cahq

Segredos revelados
O jornal inglês Guardian colocou alguns escritores bastante conhecidos na parede e perguntou: o que faz um escritor? De onde vem as ideias? Você tem uma rotina? Como você começa a escrever um romance? Lápis ou computador? Dor ou prazer? Assim escritores como Ian McEwan, Hilary Mantel, Howard Jacobson, PD James, entre outros, revelaram o segredo de seu ofício. O artigo completo está disponível em http://tinyurl.com/5uy86uc

Lusofonia

De maio a dezembro, o Centro Nacional de Cultura em Portugal retoma o ciclo de palestras Balanço literário da década no mundo lusófono. As mesas tratam de temas como o romance brasileiro, a literatura na África lusófona, o acordo ortográfico, o mundo editorial e questões de tradução. O evento é organizado em parceria com a PNETLiteratura. Mais informações estão disponíveis em http://tinyurl.com/3ghan32

Bolañomania
O podcast de ficção da revista New Yorker de março teve uma história de Roberto Bolaño. O escritor peruano, Daniel Alarcón leu o conto Gómez Palacio - publicado pela revista New Yorker em agosto de 2005, mas consta originalmente no livro Putas assassinas. Antes e depois de ler a história, Alarcón fala sobre seu contato com o obra de Bolaño e comenta as impressões que o conto lhe causa. A leitura de Alarcón está disponível em http://tinyurl.com/3d295ll e o conto em inglês está disponível em http://tinyurl.com/28drxx



Jovem escritora
A editora Nova Fronteira lançou o primeiro livro de contos da escritora Yiyun Li, Tempo de boas preces. São dez histórias que revelam o assustador destino de milhões de chineses. O livro vem de uma boa trajetória, recebeu o PEN/Hemingway Award (ganhou também outras prêmios) e teve duas histórias adaptadas para o cinema. Não foi à toa que Yiyun Li entrou para a lista dos 20 escritores com menos de 40 anos da revista New Yorker.

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Da mesma autora, a Nova Fronteira publicou o romance Os excluídos, que ganhou uma capa diferente em sua segunda edição (foto acima). Para saber mais sobre Yiyun Li recomendo reportagem e entrevista concedia à Raquel Cozer - disponível em http://tinyurl.com/3lbypgt

*imagem: reprodução.
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segunda-feira, 7 de junho de 2010

ALGUNS ESCRITORES SELECIONADOS PELA NEW YORKER EM PORTUGUÊS

Como falei na semana passada, a revista New Yorker lançou hoje a edição especial com os 20 jovens escritores com menos de 40 anos. Segundo o editor da revista, esse conjunto é uma grande promessa para a ficção contemporânea. Descobri que 8 dos 20 escritores já tem romances publicados no Brasil. Bom para os leitores brasileiros que podem acompanhar a produção desse grupo ao mesmo tempo que o resto do mundo. No fim, os 20 escritores nem são tão desconhecidos assim. Segue a lista dos romances já publicados:

Meio Sol Amarelo
Chimamanda Ngozi Adichie
Ed. Companhia das Letras

E Nos Chegamos Ao Fim
Joshua Ferris
Ed. Nova Fronteira

Extremamente Alto & Incrivelmente Perto / Tudo Se Ilumina
Jonathan Safran Foer
Ambos pela Ed. Rocco

A História Do Amor
Nicole Krauss
Ed. Companhia das Letras

Radio Cidade Perdida
Daniel Alarcón
Ed. Rocco

Os Excluidos
Li Yiyun
Ed. Nova Fronteira

As Belas Coisas, Que E Do Ceu Conte-Las
Dinaw Mengestu
Ed. Nova Fronteira

Absurdistão
Gary Shteyngart
Ed. Rocco

O Picaro Russo
Gary Shteyngart
Ed. Geração Editorial
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