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segunda-feira, 29 de abril de 2013

UMA LISTA: VINTE E UM LIVROS DO SÉCULO 21 QUE TODO HOMEM DEVERIA LER (III)


Final (3 de 3)

-> para ler a primeira parte:  VINTE E UM LIVROS DO SÉCULO 21 QUE TODO HOMEM DEVERIA LER (I)

-> para ler a segunda parte:  VINTE E UM LIVROS DO SÉCULO 21 QUE TODO HOMEM DEVERIA LER (II)




15| Quenga de plástico (2011)
JULIANA FRANK
7Letras

Razão: quem não gosta de uma boa sacanagem? A estreia de Juliana Frank é melhor do que qualquer outro livro recente com conteúdo erótico que você tenha lido por aí. A ex-atriz pornô Leysla Kedman conta tudo sobre a sua vida sexual sem nenhuma censura! Tal qual uma Sherazade dos século 21, ela solta a língua e conquista o leitor usando todo o seu charme e poder de sedução. É uma história inteligente, despretensiosa e com muito bom humor.





16| Diário da queda (2010)
MICHEL LAUB
Companhias das Letras

Razão: um suposto acidente numa festa de aniversário tem consequências devastadoras na vida do narrador deste livro. O episódio serve como ponto de partida para um exame quase obsessivo de suas memórias a fim de responder a pergunta: como uma pessoa se torna o que ela é? Nesse mergulho em águas profundas nos deparamos com o diário deixado por seu avô, um sobrevivente de Auschwitz, e a história do seu pai com quem tem uma relação complicada. Nenhum livro da literatura brasileira promoveu uma reflexão tão contundente como esse.




17| O azul do filho morto (2002)
MARCELO MIRISOLA
Editora 34

Razão: A voz doentia do narrador desta confissão ficcional - um garoto triste e humilhado da classe média - goza de uma liberdade sem limites ao retirar a língua, os leitores e a própria literatura da sua doce zona de conforto mesclando um registro desbocado, termos chulos, palavrões e escatologias com imagens de grande força poética. O resultado é espontâneo, original, cru e explosivo.






18| Carvão animal (2011)
ANA PAULA MAIA
Record

Razão: um bombeiro, um cremador e um mineiro vivem marginalizados e inseridos num cotidiano bruto cercado pela morte e violência. O que une essas três personagens é o fogo, o carvão e as cinzas que ao mesmo tempo destroem a humanidade de cada um e servem como combustível para alimentar ódio, a brutalidade e a destruição.





19| Habitante irreal (2012)
PAULO SCOTT
Alfaguara


Razão: as desilusões políticas de uma geração que lutou com unhas e dentes por transformações, a figura do índio marginalizado nas cidades, as dificuldades de fugir para o exterior como imigrante ilegal e tantos outros temas que habitam a nossa cultura compõe um amplo retrato do Brasil contemporâneo.






20| Areia nos dentes (2010)
ANTÔNIO XERXENESKY
Record

Razão: nenhuma outra novela deste século foi capaz de uma mistura tão original: faroeste, famílias rivais, amores proibidos, relacionamento desajustado entre pai e filho, um escritor com dilema criativo, computadores, passado, presente e zumbis... tudo recheado com humor e boas doses de cultura pop. Precisa de mais alguma coisa?





21| Big Jato (2013)
XICO SÁ
Companhia das Letras

Razão: o livro descreve numa prosa coloquial e erudita a vida de um garoto, desde a infância até a idade adulta, lidando com a difícil escolha de crescer tendo como exemplo a figura do pai centrado e do tio beatlemaníaco ao mesmo tempo em que acompanha as transformações do mundo que o cerca.

*Imagens: capas dos livros são divulgação / ilustrações: montagem a partir de reproduções do Google.
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segunda-feira, 30 de abril de 2012

PARA ENTENDER THOMAS PYNCHON

"Um grito atravessa o céu .
Isso já aconteceu antes, mas nada que se compare com esta vez."
O arco-íris da gravidade.

“Agora, reduzir todo o cordame!”
“Ânimo... com jeito... muito bem! Preparar para zarpar!”
“Cidade dos Ventos, lá vamos nós!”
Contra o dia.



Acabou de sair pela Companhia das Letras Contra o dia, escrito por Thomas Pynchon em 2006. Fui até uma livraria conferir um exemplar de perto, afinal não existe e-book nenhum páreo para a experiência material de ter um livro como esse nas mãos. Ainda mais quando a gente se dá conta de que ele tem impressionantes 1088 páginas que pesam exatamente 141700 kg (não tive como pesar o exemplar na livraria, peguei a informação no site). É uma espécie de monolito (como aquele do filme 2001 - Uma odisséia no espaço) no meio das estantes. Não só pelo tamanho, mas pelo significado que ninguém consegue explicar por mais que se tente.

Nesse caso, cabe ao leitor se aventurar pelo árduo universo pynchoniano a fim de arrancar ou construir algum sentido. Para não atravessar sozinho esse deserto, preparei uma compilação com as resenhas de Contra o dia que eu consegui encontrar nas revitas e nos jornais - parece que nos blogs foi meio ignorado, apesar de Pynchon ter uma verdadeira legião de fãs na internet.

A nova conspiração de Pynchon - Revista Época
O que Groucho Marx tem a ver com Faroeste? - Revista Bravo! (resenha assinada por Antônio Xerxenesky - um fanático por Pynchon, sobretudo por Contra o dia)
Paródias Arquitetônicas - Estadão
Homem difícil - Folha de SP (via Conteúdo Livre)

Tem também uma nota na revista Veja - apenas disponível na edição digital no site.

***

Ainda não li Contra o dia porque ainda nem comprei (cof!). Perdi uma promoção de lançamento com desconto de 20%, fato que lamentei imensamente para o vendedor da livraria. Como ele não me deu o desconto e a promoção ainda não tem previsão de retorno, resolvi esperar.

Seja como for, sei do mito em torno de Thomas Pynchon e acho muito curioso que um dos mais importantes escritores norte-americanos do século XX seja ao mesmo tempo tão cultuado e tão impopular. Não é algo gratuito, existem algumas explicações para o fato: os livros são herméticos, tem muitas referências obscuras, enredos complexos e repletos de "exercícios" de linguagem. Há um Pynchon mais simples, claro! Como aponta Xerxenesky V. (1963), Vineland (1990) e Vício inerente (2009) são mais palatáveis - os dois primeiros estão esgotados e o último acabou de sair também pela Cia das Letras.

A tradução foi feita por Paulo Henriques Britto que, segundo li, manteve contato direto com Pynchon para sanar algumas eventuais dúvidas de tradução. Acho importante comentar isso porque Pynchon não é muito dado a aparições públicas, nunca concede entrevistas e vive escondido por Nova York. Guardadas as devidas proporções, é quase um Dalton Trevisan flanando por Curitiba.

Se bem que ele flerta com o universo pop. Dizem que dublou a si mesmo num episódio dos Simpsons e também dublou o trailer de Vício inerente.

***

Contra o dia parece que está páreo a páreo com O arco-íris da gravidade (em tamanho e em complexidade). Aliás, André de Leones e Xerxenesky organizaram um programa da Rádio Batura (IMS) comentando O arco-íris. O mesmo livro será analisado em agosto num curso ministrado por Ricardo Lísias só com romances longos. Quem ficou interessado em Pynchon e quer saber mais sobre o cara pode ficar de olho no programa e no curso.

Tem um trecho de Contra o dia disponível aqui.

*Imagem: divulgação.
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terça-feira, 27 de dezembro de 2011

A LITERATURA E O VIDEOGAME

De uns tempos para cá, uma da obsessão dos "nerds" do Vale do Silício é criar um game que tenha tanta complexidade narrativa quanto Moby Dick, de Herman Melville. Quem confirma o fato é o jornalista Harold Goldberg. O caderno Link (do Estadão) publicou um artigo interessantíssimo assinado por ele comentando as ideias por trás de seu livro All Your Base Are Belong to Us: How Fifty Years of Videogames Conquered Pop Culture (importado - ainda sem previsão de lançamento em português).

No tal artigo, Goldberg menciona a ascensão dos desenvolvedores de jogos nas últimas décadas a verdadeiros "mestres do ritmo, do clima e dos diálogos de uma narrativa". A ponto de fazerem os jogares sentirem um nó na garganta, por exemplo. A certa altura ele diz "a história de um jogo pode ser tão envolvente quanto a trama de um best-seller da literatura".

Não restam dúvidas quanto a capacidade dos games de criarem universos tão imersivos quanto os romances. Sobretudo se pensarmos em jogos tão populares quanto LA Noire ou a série God of War. Mas será mesmo que grandes obras da literatura podem render grandes jogos? Por enquanto a resposta é não. Como tudo na vida, a literatura e os jogos de videogame são "narrativas" com uma linguagem própria e específica. A experiência de ler algumas palavras nas páginas de um romance é bem diferente de acionar o avatar de um jogo a fim de vencer um obstáculo. Da mesma forma que as ações dos avatares não fazem muito sentido quando transportadas para os livros. Sendo assim, melhor encararmos um jogo como um jogo e um romance como um romance - ainda que entre os dois universos tenham retirado suas inspirações uns dos outros.

Foi partindo dessas ideias que pensei no tema videogame para a terceira edição do fanzine. É saudável que a literatura deixe de lado aquele ambiente sacro em que muitos gostam de trancafiá-la para se aproximar de um tema pop - para não dizer, um tema do cotidiano das pessoas. Ao longo do ano vários "joguinhos" inspirados no universo literatura foram aparecendo. Talvez o mais famoso tenha sido a adaptação de O grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald para a versão 8 bits em estética Nintendo. Ambos estão presentes no fanzine por meio de um trecho da nova tradução feita por Vanessa Bárbara (saiu pela Penguin-Companhia); e de uma entrevista com os dois desenvolvedores do jogo. Vale dizer que não foi a primeira vez que o romance de Fitzgerald foi adaptado para os games, a Big Fish Games também fez uma tentativa meio frustrada.

Outros destaques do fanzine são: o artigo de escrito especialmente por G. Christopher Williams relacionando o universo do Cormac McCarthy com os videogames; e o texto de Antônio Xerxenesky imaginando dez romances como se fossem videogames. Não podia faltar também uma recomendação de três livros que viraram jogos - os jogadores podem opinar se a adaptação foi boa ou ruim.

A cereja do bolo está nas ilustrações em estilo 8 bits feitas para a edição com exclusividade pelo designer Grafilu. Para fazer o download do fanzine Casmurros #3 basta clicar nesse link.

*Imagem: reprodução da tela inicial do jogo The great Gatbsy.
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terça-feira, 20 de dezembro de 2011

CASMURROS #3




Nessa edição: Simone Campos, Cormac McCarthy, Flann O'Brien, Georges Perec, F. Scott Fitzgerald, Antonio Xerxenesky e mais. Ilustrações: Grafilu.

TAMANHO: 5.22MB
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quinta-feira, 18 de agosto de 2011

O ENFANT TERRIBLE DA CALIFÓRNIA ESTÁ DE VOLTA!

Bret Easton Ellis, o enfant terrible mais amado e odiado da literatura norte-americana, está de volta com um novo romance, Suítes imperiais (publicado pela editora Rocco com tradução de Ryta Vinagre).

O autor resgatou as personagens de seu romance de estréia, Abaixo de zero, para mostrar que ele não estava exagerando quando escreveu aquela história de degradação adolescente na Los Angeles dos anos 80. Muito daquilo virou realidade. Parece que em Suítes imperiais, Clay, Julian, Blair, Rip e Trent estão mais velhos e são pessoas bem-sucedidas. Ao contrário do que a gente pode imaginar, eles não estão mergulhados em reflexões sobre ficar mais velho. Todos continuam sua jornada pelo mundo do consumismo, das drogas, do sexo e da violência em doses industriais. É como se desde os anos 80 as coisas só tenham piorado e o futuro certamente será ainda mais violento e sombrio.

Como bem apontou o escritor Antônio Xerxenesky numa resenha para o Jornal do Brasil: "A produção de Ellis é irregular, acidentada, mas também variada e curiosa, não apenas por um “possível retrato da sociedade”, mas pela habilidade nas experimentações formais do autor". Ellis experimentou o hiperrealismo narrativo, o fluxo de consciência, fez sátira de humor ácido, usou e abusou da autoficção e tocou em temas que eram verdadeiros tabus para a sociedade americana. Não é qualquer escritor que passeia por um leque tão variado de formatos.

(Aqui cabe um parêntese: Bret Easton Ellis fez falta na segunda edição do fanzine. De uma maneira ou de outra a maioria dos assuntos desse segundo número giravam em torno da autoficção. Ellis não apareceu, mas esteve presente na narrativa dos jovens franceses Pierric Bailly, Lolita Pille e Sacha Sperling. A influência dele sobre eles me parece bastante nítida. Assim como William Burroughs, J.D. Salinger, Michel Houellebecq e outros mais).

Para promover o livro nos Estados Unidos a editora de lá preparou um trailer cinematográfico - com direito a trilha sonora de Radiohead. Além disso, eles prepararam uma playlist na internet para você ouvir enquanto lê o romance - dá até para ouvir playlists sugeridas para outros romances do autor. Para Suítes imperiais tem Elvis Costello, Duran Duran, The National, Bruce Sprinsteen, Counting Crows, David Bowie etc. Para ouvir a playlist é só clicar aqui. O trailer do livro está logo abaixo:



Não contente, a editora ainda convidou a produtor It's alive animation para criar um curta de animação baseado em Suítes imperiais. A animação ficou a cargo de Sascha Ciezata.



N momento, Bret Easton Ellis está trabalhando com Paul Schrader num filme de terror sobre tubarões. Parece que o filme vai se chamar "Bait", com direção de Paul Schrader e roteiro dele. Deve ficar pronto no ano que vem.

Outra notícia super bacana: simultaneamente ao lançamento de Suítes imperiais pela Rocco, a L&PM prepara a reedição, em formato pocket, de Abaixo de zero e Psicopata americano. Abaixo há um trecho de Suítes imperiais, gentilmente cedido pela editora Rocco:


*imagem: divulgação.

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sábado, 16 de julho de 2011

NOTAS #27

Fantasmas literários

Antônio Xerxenesky lança na próxima semana o livro de contos A página assombrada por fantasmas em Porto Alegre (dia 21 de julho na Palavraria Livraria) e no Rio de Janeiro (dia 26 de julho na Livraria Prefácio - com direito a bate-papo mediado por Leonardo Villa-Forte). Ainda não há data para lançamento em São Paulo. Fiquei mais curioso para ler esse livro depois desse comentário do Emilio Fraia: "A paranóia deflagrada pela leitura é uma das maneiras de ler os contos deste livro. Mas existem outras. Trata-se também de textos que homenageiam e ironizam os gêneros. E de um mundo cujas promessas de aventura se cumprem exclusivamente nos livros ou a partir deles".

Paul Murray



O book club do jornal Telegraph está fazendo um tour pelas livrarias do Reino Unido. Em sua mais recente viagem, o book club esteve na The Linlithgow Bookshop em Edimburgo, na Escócia. O escritor Paulo Murray participou do evento lendo um trecho do romance Skippy Dies - ainda sem tradução para o português.

Produtos do pinguim
A Penguin dos Estados Unidos resolveu co
memorar seu aniversário de um jeito bem diferente. A editora criou uma edição limitada de shapes de skate usando a imagem de capa de alguns de seus livros clássicos - entre eles: Dharma Bums, de Jack Kerouac e As aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain. Para concorrer ao mimo os leitores precisam enviar fotos de seus skates com o seu clássico da Penguin preferido. Os ganahadores serão escolhidos por votação popular. Mais informações estão disponíveis em http://tinyurl.com/6acgxr2

***

Pegando carona na promoção da Penguin, a editora Michelle Witte resolveu criar uma série imaginária de band-aids com a mesma ideia. A brincadeira tem um tom irônico, mas não deixa de ser comercialmente atraente. Quem não se lembra das pessoas colando band-aids no tênis na década de 90? http://tinyurl.com/6h4bbae

Diversão


Um vídeo curtinho com o escritor Jack Kerouac jogando sinuca.

Gainsbourgianas
Não me canso de falar aqui da saudosa coluna Trilha Sonora que era publicada pelo Caderno 2, aos sábados. João Paulo Cuenca e Daniel Galera foram dois escritores que passaram pela coluna contando um pouco dos seus gostos musicais. Para matar a saudade, encontrei um podcast da revista BRAVO! com o editor Paulo Roberto Pires. Aproveitando o lançamento do filme Gainsbourg - O homem que amava as mulheres, ele escolheu cinco canções clássicas do mítico cantor e compositor francês: Je T'aime Moi Non Plus, Black Trombone, La Javanaise, L'Anamour, Je Suis Venu Te Dire Que Je M'En Vais. O podcast está disponível em http://tinyurl.com/5w9ymx4

Kafka no cinema
No final do mês começam as filmagens de um curta metragem inspirado na novela A metamorfose, de Franz Kafka. Os diretores David Yohe e Jason Goldberg fizeram um vídeo contando um pouco mais sobre o projeto. Dá pra ver que vai ser um pequeno filme de terror moderno. O vídeo está disponível em http://vimeo.com/24549645

Festas
As melhores festas são aquelas paras as quais a gente não foi convidado, eis uma verdade. Pensando nisso, o site Flavorwire organizou um lista com as dez melhores festas da literatura que a gente não pode comparecer. Pelo menos não de verdade, apenas imaginariamente. Na lista tem a festa de aniversário de Mrs. Dalloway (de Virginia Woolf), todos aquelas festa que acontecem em O grande Gatsby (de F. Scott Fitzgerald), o chá alucinatório em Alice no país das maravilhas (de Lewis Carroll), o misterioso baile em Madame Bovary (de Gustave Flaubert) e mais festas em Abaixo de zero, de Bret Easton Ellis, O teste de ácido do refresco elétrico, de Tom Wolfe etc. A lista completa está disponível em http://tinyurl.com/6hubxub

*imagem: reprodução.
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segunda-feira, 20 de junho de 2011

O QUE TEM PORTO ALEGRE?



Porto Alegre é um lugar que intriga a gente que não é de lá. Você já reparou na quantidade de escritores gaúchos que aparecem todos os meses? Nunca estive na cidade, mas sei que eles têm uma cena literária bastante sólida apoiada pelos congressos, feiras de livro, prêmios literários, editoras, fanzines, blogs e bares da cidade (o elemento mais importante).

Os gaúchos têm tantos escritores que pegaram o modelo da Copa de Literatura e fizeram um campeonato regional só deles. O Gauchão de Literatura vai para a segunda edição com quarenta e oito concorrentes, todos com romances que foram publicados em 2009 ou 2010. É tanta gente que o torneio é dividido em três fases e começa no dia 4 de julho com previsão de terminar só em dezembro.

Não contentes, lá mesmo em Porto Alegre, o pessoal do StudioClio criou um projeto um pouco similar chamado Sport Club Literatura. Funciona assim: uma vez por mês todo mundo se reúne para assistir um jogo com duas disputas - uma histórica "denominada Coliseu (com clássicos e épicos da literatura) e uma pelada chamada Com-ca versus Sem-ca (com jogos mais alternativos, modernos, com ou sem critérios)". A diferença é que no Sport Club Literatura as partidas são ao vivo com a presença da torcida, de dois julgadores e um mediador. Ah! Os autores envolvidos na disputa não são necessariamente gaúchos.

O primeiro jogo acontece na próxima terça-feira (21 de junho) - tem de comprar ingresso para assistir. Na disputa da série Coliseu: Orgulho e preconceito, de Jane Austen enfrenta Middlemarch, de George Elliot com os juízes Milton Ribeiro e Joana Bosak. Na pelada vai ter um duelo de gigantes: 2666, de Roberto Bolaño e Liberdade, de Jonathan Franzen. Os juízes serão Antônio Xerxenesky e Carlos André Moreira.

Até deu vontade de comprar uma passagem para Porto Alegre, né?

*imagem: reprodução da Wikipédia.

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terça-feira, 3 de maio de 2011

ENTÃO, VOCÊ QUER SER CRÍTICO LITERÁRIO? (1)


Os argumentos de Alcir Pécora em relação a crise da literatura contemporânea brasileira (e em certa medida mundial, por que não?) causaram um pequeno beco sem saída. Quem não responde aos argumentos do crítico parece que atesta o fato de que vivemos um momento de conformação total. Por outro lado, quem responde acaba contribuindo para a tal inflação da "bolha de produção simbólica de hoje". O impasse vale mais para a internet - blogs e redes sociais - pois me parece que foi aqui que o falatório ganhou mais corpo. Nos jornais e revistas, apenas o Prosa & Verso e a coluna Painel das Letras, da Ilustrada, tocaram no assunto.

Seja como for, o debate da série Desentendimento e o artigo no Prosa & Verso serviram para reafirmar, reforçar e trazer à baila algumas ideias que incomodam muita gente e circulam soltas no meio acadêmico, nas críticas de jornal/revista e nas mesas dos botequins. Qualquer pessoa que lida com literatura vive as voltas com essas ideias - ou pelo menos deveriam viver. Não gostaria que o debate esfriasse porque dele podem brotar novas ideias e bons argumentos.

Na falta de conseguir articular um texto longo, montei uma colcha de retalhos de reflexões alheias que servem como diálogo para a situação apontada por Pécora. Não quero definir ou encerrar o assunto, acho difícil alguém fazer isso. Os textos nem sempre são reações diretas a série Desentendimento ou ao artigo. Fui catando por aí o que me parecia significativo, mais interessante. Será que também vou contribuir para a "inflação simbólica das narrativas"?

***

Sobre a inflação simbólica das narrativas

A tal "inflação simbólica das narrativas" é uma manifestação da era da internet. A invenção dos blogs e redes sociais foi aos poucos detonando a importância vertical da figura do crítico e causou uma horizontalização nos discursos, conversas, comentários, opiniões, etc. (peguei a ideia emprestada do Alexandre Matias, editor do caderno Link do Estadão).

As ferramentas de comunicação abriram portas para que todas as pessoas pudessem manifestar a sua voz - independente de terem algo importante a dizer. Consequentemente ficamos fissurados em buscar, compartilhar e opinar sobre tudo o que nos cerca. É por isso que postamos em blogs e redes sociais as nossas conversas privadas e as nossas ações, antes mesmo delas acontecerem de fato.

Não podemos impedir. É um processo sem volta que está causando uma série de transformações na leitura/produção de literatura. Somente com o tempo vamos saber analisar se essas mudanças são boas ou ruins e para onde elas estão nos levando. Nesse momento, precisamos aprender a conviver com elas. Tem gente acompanhando de perto e discutindo tudo isso em congressos, encontros, simpósios, palestras, livros e também na internet.

Até aproveito para comentar a falta de debates destinados ao assunto "literatura e internet" nesses congressos de cultura digital. Se não me engano, só na última edição da Campus Party aconteceu uma mesa, meio tímida, dedicada ao tema.

Acho interessante um post do escritor Michel Laub que aborda, ainda que de forma breve, a interação entre a literatura e a internet - Três (possíveis) motivos para a internet mudar a literatura. Pode ser que algumas direções estejam apontadas ali.

***

Maior / Menor

A bronca do Álcir Pécora também tem razão de ser. Todo mundo (leitores, escritores, editores, críticos e livreiros) está esperando por um escritor que seja o novo Guimarães Rosa ou a nova Clarice Lispector. Alguém que ponha a literatura em risco e mostre o inesperado. É saudável para a nossa literatura que esse nível de exigência exista e tenha o seu lugar garantido. É isso que permite elevar a qualidade da nossa produção literária. No entanto, não podemos desprezar o lugar da experimentação, nem negar a possibilidade de erro de um escritor em formação, nem impedir que os defeitos da nossa literatura apareçam.

Reconhecemos o lugar periférico da literatura brasileira no mundo. Portanto, exigir dos nossos escritores que sejam excelentes e que apresentem soluções originais o tempo todo, acaba gerando uma espécie de esterilização da criação - ao menos essa é a impressão que isso me causa. Parece que a crítica quer matar aquilo que precisa existir a fim de proporcionar o aparecimento do novo Guimarães Rosa ou da nova Clarice Lispector. O que leva tempo.

No entanto, o fato de garantir a existência de uma literatura "menor" (mediana ou ruim) não quer dizer que o novo, o instigante e o arriscado vá surgir dali. Dizendo de outra maneira, a existência de literaturas "menores" garante saúde ao mercado editorial e pode servir de trampolim para o aparecimento de algo "maior".

A ideia não é minha, achei num texto bem interessante do escritor Antonio Xerxenesky - Pelo luxo de uma literatura do tipo “menor”. Além de muito argumentos certeiros, há um comentário de Roberto Bolaño que ilumina a nossa falta de espaço para a literatura "mediana":

“Escritores que cultivaram o gênero fantástico, no sentido mais restrito do termo, temos muito pouco, para não dizer nenhum, entre outras coisas porque o subdesenvolvimento não permite a literatura de gênero. O subdesenvolvimento só permite a obra maior. A obra menor é, na paisagem monótona ou apocalíptica, um luxo inalcançável. Claro, isso não significa que nossa literatura esteja repleta de obras maiores, muito pelo contrário, mas sim que o impulso inicial só permite essas expectativas, que logo a mesma realidade que as propiciou se encarrega de frustrar de diferentes modos.”
Embora a fala de Bolaño seja dirigida a literatura de gênero, ela pode também ser estendida para a literatura (me refiro, especificamente, a prosa de ficção) como um todo.

***

O assunto é longo e enfadonho. Vou encerrar por aqui, mas continuo amanhã. Pretendo falar sobre cegueira voluntária em relação ao passado, crítica e irrelevância da ficção.

*imagem: reprodução.
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sexta-feira, 8 de abril de 2011

DOIS ITENS PARA PENSAR NO FINAL DE SEMANA


O blog do Instituto Moreira Salles tem uma seção bem interessante chamada "Desentendimento". Nela dois convidados debatem opiniões diferentes sobre um assunto comum. Na seção desse mês Beatriz Rezende e Alcir Pécora falaram sobre a literatura brasileira contemporânea com mediação de Paulo Roberto Pires. Salvo uma perda de foco na discussão aqui e ali, o vídeo serve como um painel em menor escala de dilemas que a gente vira e mexe enfrenta na vida, nas conversas de botequim e nos congressos acadêmicos. Recomendo ver inteiro - aqui.

Assistindo ao vídeo a gente tem a impressão de que não existe salvação para aqueles que gostariam de se tornar escritores ou críticos literários. A crise que atinge as artes contemporâneas parece tão real que chega a nos imobilizar. No entanto, não podemos ser tão apocalípticos assim! Há boa literatura no mundo e há boa literatura no Brasil.

Me parece que o debate acerta em cheio quando diz que a própria academia está matando a literatura, que a crítica se encontra fora do eixo e que não temos público leitor - conclusões não tão inéditas, mas comentadas com conhecimento de causa.

***

Do outro lado e num outro momento, Antônio Xerxenesky escreveu um texto que resume bem a cobrança imposta aos escritores nacionais: "ser "o novo Guimarães Rosa", "a nova Clarice Lispector", mais do que produzir uma ficção fantástica despretensiosa e divertida". Tenho cá pra mim que mesmo que esse sujeito apareça, vamos sempre querer mais. Uma perseguição parecida acontece em outras áreas: queremos ganhar o Oscar, o Prêmio Nobel etc.

Mais do que Guimarães Rosa e Clarice Lispector, a gente precisa romper com essa fixação para colocar a academia nos eixos e criar melhores condições para que novos leitores apareçam no pedaço.

Questões para a gente pensar no final de semana.

*imagem: reprodução.
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sábado, 26 de março de 2011

SOCIEDADES SECRETAS

O blog da Cosac Naify nos deu um pequeno presente ao promover o lançamento da novela História abreviada da literatura portátil, de Enrique Vila-Matas - publicado originalmente em 1985. Explico melhor: a editora convidou autores para escreverem relatos sobre "sociedades secretas que conheceram e/ou fizeram parte". As histórias foram publicadas no blog da editora em três partes - para acompanhar Top Secret, Top Secret II e Top Secret III.

O livro de Vila-Matas conta a história de um grupo de intelectuais do começo do século XX que funda uma sociedade secreta a fim de promover "o amor à escrita como diversão, a insolência, o espírito inovador e a autoria de obras que pudessem caber facilmente numa maleta". O grupo se autodenomina sociedade portátil ou sociedade shandy. Segundo o narrador do romance, o nome da sociedade teria várias explicações e significados possíveis - o que lembrar as explicações de Tristan Tzara para o nome do movimento Dadaísta. Aliás, Tzara é uma das personagens da novela junto com Marcel Duchamp, García Lorca, Walter Benjamin e tantos outros escritores, pintores e artistas. Detalhe: todos eles existiram realmente e nas mãos de Vila-Matas acabam virando personagens de ficção.

Seguindo o mesmo padrão de misturar a realidade com a ficção, Daniel Galera, Antonio Xerxenesky, Vanessa Barbara, Sérgio Rodrigues, Júlio Pimentel Pinto, Chico Mattoso e Joca Reiners Terron criaram história curiosas, engraçadas e até certo ponto, verídicas. Dessa vez, as personagens são Thomas Bernhard, Georges Bataille e uma galeria de escritores estrangeiros e nacionais se reunindo em torno da comida ou debatendo a literatura portátil.

Em tempo, Enrique Vila-Matas vai participar do 3º Congresso Internacional de Jornalismo Cultural em maio desse ano.
*imagens: divulgação.

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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

ENTREVISTA - ANTÔNIO XERXENESKY


No mês passado li Areia nos dentes, livro de estréia de Antônio Xerxenesky. O romance tinha sido lançado em 2008 pela Não Editora e ganhou uma nova edição no ano passado pela Rocco.

Numa olhada de relance, a gente pensa que Areia nos dentes é um livro sobre o velho oeste com seus caubóis, saloons e xerifes. No entanto, o livro quebra todos esses clichês, brinca com estereótipos, renova o gênero e faz os mortos voltarem a vida - sim, tem zumbis no meio! De quebra, a história também fala da difícil relação entre pais e filhos e dos dilemas que um escritor enfrenta quando está criando.

A leitura é rápida e bastante envolvente. Acho que um pouco disso vem do fato do livro ter sido escrito num estilo cinematográfico. A gente lê imaginando cenas, lembrando de filmes de velho oeste, etc. Parece que em breve haverá uma adaptação da história para o cinema.

Antônio Xerxenesky nasceu em Porto Alegre, em 1984. Além de escritor, ele também trabalha como editor na Não Editora e tem um blog. Muito gentilmente, ele topou responder umas perguntas sobre o livro, a carreira de escritor e sobre Porto Alegre.

Gostaria de começar falando de Porto Alegre, afinal a cidade tem muitos escritores já consagrados e sempre coloca novos escritores em circulação. Como é a cena literária da cidade?

Sei que o resto do país costuma ver o Rio Grande do Sul como um “celeiro de novos autores”. De fato, muita coisa boa surgiu no estado, mas, ao mesmo tempo, temos uma cena literária bastante peculiar. Há muitos casos de “autores locais” que fazem um sucesso estrondoso no estado, mas que são completamente desconhecidos no resto do país. Já eu, sei lá por qual motivo, sou mais lido no resto do Brasil do que no Rio Grande do Sul (pelo menos em termos de vendas – e de comentários em geral, pois demorou mais de ano para algum blog gaúcho resenhar meu livro). Não me pergunte por que isso acontece, não faço a menor ideia. Em termos de “cena”, no sentido de “escritores se reunindo”, isso é bem forte. Há vários grupos de escritores que sempre se encontram nos mesmos bares. Todavia, escritores juntos falam de tudo menos de literatura.

Li que você planejou bastante o romance entre a primeira ideia e o resultado final. Para você esse negócio de inspiração não existe? O planejamento minucioso tem um resultado eficiente, dá para medir?

Não me encaixo em nenhum dos extremos (nem 100% razão, nem 100% inspiração). Sou bastante racional e faço muitas anotações e diagramas, mas, ao mesmo tempo, na “hora do vamos ver”, deixo a imaginação correr solta e corrijo e refino o texto só em um segundo momento.

Nos agradecimentos do livro, você diz que Thomas Pynchon e Cormac McCarthy foram duas inspirações - especialmente Against the day e Onde os velhos não têm vez. De Pynchon você tirou o tema da vingança familiar, a inventividade no formato narrativo, a multiplicidade de enredos, etc. De McCarthy você tirou o tema dos "caubóis modernos" e os ares do velho oeste sem lei. É isso mesmo? O que esses dois escritores representam para você?

É mais ou menos isso. Para ser um pouco mais específico, de Pynchon eu roubei a questão de inserir um desvario metafísico no meio de alguma cena bem kitsch. Um pastiche com coração, digamos. De McCarthy, poxa, eu não saberia nem dizer o que foi que eu roubei dele, mas aquele capítulo que é o diário do pai, aquilo seria impossível sem a leitura de McCarthy.

Seu livro também tem influências do cinema - você cita pelo menos seis diretores nos agradecimentos. Hoje em dia é difícil a gente ler um livro e não pensar nele de forma cinematográfica. Tem gente que até diz assim "quando vai virar filme?". As imagens no universo da literatura serão devoradas pela fotografia, cinema, TV, vídeo e videogame?

Eu diria que “cinema e games” são influências inevitáveis. Por mais que minhas referências mais concretas, na hora de pensar um conto ou um romance, sejam literárias, me parece impossível fugir da influência audiovisual. Tenho um passado muito forte de cinefilia e sou um gamer compulsivo. Isso acaba vazando na prosa.

A figura do caubói é admirada pelo fato de viver num mundo meio solitário, sem leis, onde a honra fala mais alto. Esse tipo de caubói aparece no livro encarnado nos irmãos Marlowe, em Míguel Ramírez, mas não em Juan Ramírez. Por que você quis mexer nesse estereótipo? Além disso, tive a impressão de que os Marlowe e os Ramírez rivalizavam sem saber o motivo real disso, são apenas suspeitas, não é?

Um dos objetivos do Areia nos dentes foi justamente o de brincar com estereótipos. E qual estereótipo mais forte do que o caubói machão? Por isso, fiz de Juan Ramírez, o protagonista, um covarde, inseguro não só na hora de trocar tiros, mas inseguro em termos familiares (sua relação com o pai) e sexuais (sua relação com a namoradinha da infância). Quanto às rivalidades, é uma boa pergunta. Não sei o que me levou a fazer isso, de nunca deixar claro os motivos da rivalidade. Quis criar a ideia de que sempre houve um ódio entre as famílias, mas que é um ódio tão antigo que ninguém sequer lembra a causa original.

Você disse que começou a escrever o livro antes dos zumbis voltarem a ser um sucesso. Eles estão no cinema, na TV e na literatura. O zumbi finalmente vai tomar o lugar do vampiro? Por que você acha que os zumbis fascinam tanto as pessoas?

Quando eu escrevi o livro, em 2007, estava começando o revival de zumbis, mas não tinha chegado a esse ponto de saturação midiática. Não aguento mais piadinhas envolvendo zumbis, cansou. Acho que zumbis são fascinantes justamente porque podem servir de símbolo para uma variedade enorme de coisas, pois se situam em um lugar indefinido, entre a vida e a morte. Eles são figuras híbridas por excelência.

Achei curioso o fato de Juan, narrador da história, registrar a história em máquina de escrever e depois passar ao computador - não sem alguma dificuldade. Você não acha que para um autor a moda antiga, ele usa técnicas narrativas bastante sofisticadas?

Hmmm... essa é uma pergunta bem perspicaz... De fato, ele usa técnicas narrativas sofisticadas demais para ele... E, no entanto, há menção de que Ulisses, de Joyce, era o livro favorito dele. Além do mais, há uma sugestão de que o livro talvez estivesse sendo escrito por um garoto no sul do Brasil, que escreveria sobre um velho escrevendo um western...

Juan reflete o tempo inteiro sobre o modo como os romances são construídos. Ele também cita vários filmes quando está pensando na vida. As preocupações dele são de alguma forma as suas preocupações em relação ao fato de escrever um livro?

Você matou a charada. Eu emprestei muitas dúvidas minhas, como autor, ao narrador. Outras eu forjei. Mas é isso aí.

O crítico Sérgio Rodrigues escreveu no blog Todoprosa um post interessante chamado "Notícia da atual literatura brasileira: instinto de internacionalidade". Ele repassa parte da história da literatura brasileira para falar de um fantasma que ronda nossas ideias: como criar uma literatura nacional e lidar com aquilo que é estrangeiro. Seu livro tem diversos elementos estrangeiros e o Brasil não aparece no enredo. Você se preocupa com esse deslocamento? Como você enxerga essa questão?

A questão me preocupa loucamente. Eu penso nesse assunto o tempo todo, mas não consigo chegar a uma conclusão. Meu autor brasileiro favorito do momento, André Sant’Anna, é um escritor completamente nacional, intraduzível, que nunca seria assimilado lá fora. Já Areia nos dentes, por outro lado, tenho a impressão de que poderia ter sido escrito em qualquer canto da América Latina... Mas não sei o que pensar disso. Quer dizer, penso muito nisso, mas é um assunto tão complexo. Esse fato não me preocupou durante a escrita, pois o romance saiu de forma bem natural. Claro que eu penso que “escrevo literatura brasileira contemporânea”, logo meu romance se encaixará na “cena de literatura brasileira contemporânea”. No entanto, vivemos uma cena tão plural e diversificada...

Minhas referências são, em sua maioria, estrangeiras. Ao mesmo tempo, o Areia nos dentes parece um livro “periférico”, escrito em uma região que consome, sem filtros, tudo quanto é porcaria produzida lá fora. Eu disse antes que ele poderia ter sido escrito em qualquer canto da América Latina. Com isso também digo que é um livro profundamente latino-americano. Enfim, estou andando em círculos e não consigo responder direito as suas perguntas.

Quais escritores brasileiros foram influências para você, além de Daniel Galera e André Sant’Anna? E qual é o lugar da literatura brasileira dentro da sua formação como escritor?

Soará estranho o que vou dizer a seguir. Daniel Galera e André Sant’Anna: coloco ambos, sem dúvida, como dois dos meus escritores brasileiros favoritos. E, no entanto, quase não me influenciaram. O que escrevo não tem nada a ver com o que eles escrevem. Dentes guardados, do Galera, serviu de “incentivo” para que eu começasse a escrever, e, no entanto, não moldou meu estilo. Acho que existem, sim, escritores nacionais que me influenciam, como Sérgio Sant’Anna e Joca Reiners Terron, mas é uma influência mais sutil, não tão marcada como Pynchon ou Vila-Matas. É claro que amo coisas mais canônicas, como o velho Machadão, porém não diria que foram relevantes na minha “formação” como escritor.

Você pode adiantar alguma coisa sobre seu novo livro, parece que ele vai ser chamar A página assombrada por fantasmas? Qual será o enredo? Já está escrevendo?

O livro já foi entregue para a minha editora no final de novembro (de 2010) e está em processo de edição. A qualquer momento receberei a lista de sugestões de mudanças, aquelas coisas. O que posso adiantar? Bem, que estou louco para que saia o livro para eu poder falar de outra coisa além do Areia nos dentes...

Brincadeiras à parte, é um livro bem metaliterário (a la Vila-Matas, Bolaño e cia.), mas, ao mesmo tempo, acessível e humano (isso espero). Gosto muito do livro, mas não faço ideia de como será recebido. Trata-se de uma obra radicalmente diferente do meu romance, e não sei como o público leitor vai reagir.

*imagem: divulgação.
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segunda-feira, 25 de outubro de 2010

A LITERATURA DE AGORA, AGORA


Chovem perguntas sempre que alguém fala sobre a literatura brasileira feita agora. Muita gente quer saber, por exemplo, se existe um grupo de escritores com as mesmas características, qual é o estilo de cada um, quais marcas eles vão deixar, o que eles fazem de inovador, etc. Esclarecer todos esses pontos é uma tarefa digna de Hércules. Acho que nem mesmo um crítico literário consegue fazer esse apanhado sem cometer pequenas injustiças.

O crítico Alfredo Bosi conseguiu criar um modelo bastante satisfatório para esse tipo de análise na antologia O conto brasileiro contemporâneo, publicada em 1974. A coletânea reúne contos de 18 escritores que naquele período já eram consagrados. Entre eles: Guimarães Rosa, Lygia Fagundes Telles, Osman Lins, Dalton Trevisan, Autran Dourado, Clarice Lispector, Rubem Fonseca e Moacyr Scliar. No entanto, o mais interessante do livro está no ensaio introdutório: Situação e formas do conto brasileiro contemporâneo. Bosi, de maneira ampla, faz um apanhado crítico e histórico para explicar as situações do conto brasileiro produzido logo após a morte dos grandes escritores modernistas. No percurso ele fala sobre a diversidade de estilos, forma, conteúdo, etc.

No começo dos anos 2000, o escritor Nelson de Oliveira publicou duas antologias com o mesmo tema de apresentar um panorama de novos escritores - Geração 90: transgressores e Geração 90: manuscritos de computador. Porém, mais do que analisar Nelson queria colocar em circulação uma nova leva de escritores que produzia e não era muito conhecida. A publicação dessas duas antologias foi cercada de discussões. Alguns críticos acharam a seleção parcial, outros acharam mera promoção, etc.

Pensando com meus botões - e considerando o distanciamento histórico - acho que Bosi conseguiu êxito no seu trabalho porque naquela época não tínhamos uma profusão de novos escritores como temos hoje. A realidade do mercado editorial brasileiro era diferente. A crítica literária também era muito mais forte. Evidentemente, Bosi é um dos nossos maiores críticos e não quero dizer com isso que ele não seria capaz de refazer uma seleção semelhante. Mas pensando nas coletâneas de Nelson Oliveira, posso sentir as dificuldades que mesmo um crítico como Alfredo Bosi teria.

As questões centrais são: dar conta da imensa variedade de estilos; acompanhar e filtrar a enorme produção de livros que temos hoje; refletir e analisar com profundidade essa seleção. O processo não deixa de ser arbitrário, na medida em que "admiramos livros diferentes em momentos diferentes da vida, por diferentes razões". Também é difícil pensar numa literatura que seja escrita por toda uma geração ao mesmo tempo e com as mesmas características. Só a prova do tempo é capaz de fazer uma espécie de seleção natural desses escritores.

Para não parecer desanimado, recomendo um post bem bacana do escritor Antônio Xerxenesky sobre a nossa atual flora e fauna literária e suas lacunas - de alguma forma foi esse post que me motivou a pensar nesses temas.

*imagem: reprodução Google
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