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segunda-feira, 9 de maio de 2016

JULGANDO LIVROS PELA CAPA (5): PORTUGAL X BRASIL

Eu sei que estou demorando para aparecer com atualizações por aqui, mas como diz um amigo meu: “devagar se vai ao longe”. Ele também tem outras máximas como: “devagar e sempre”, “a pressa é inimiga da perfeição”, “apressado como cru” etc. Por isso, não se preocupe porque em algum momento eu vou voltar com alguma novidade. Fique de olho!

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Como já faço há vários anos, achei que seria divertido comparar as capas dos mesmos livros em edições portuguesas e brasileiras - é o quinto ano da brincadeira. A capa é elemento muito importante para quem gosta de livros. Ela tem uma grande influência sobre o leitor porque funciona como uma porta de entrada para aquele universo que vamos acompanhar por algum tempo. Conheço muitas pessoas que compram livros pela capa - elas realmente existem e não há nada de errado com isso. Nem mesmo os livros digitais conseguiram abolir a capa, uma vez que essas imagens circulam pela internet e estão gritando nas estantes das livrarias online.

Quero lembrar que não sou especialista no assunto e estou comentando as capas descompromissadamente - com certa dose de humor, senão ninguém aguenta. Cada país tem a sua própria cultura visual e cada leitor tem uma preferência na hora de escolher um livro pela capa. As observações servem como um exercício especulativo sobre o trabalho do capista (ou da editora) na hora de dar uma "cara" ao livro.

A caixa de comentários está aberta para quem quiser participar - por favor, fiquem à vontade. As capas das edições brasileiras estão do lado esquerdo.


Submissão, de Michel Houellebecq
As duas edições tem capas diferentes, apesar de terem sido publicados pela mesma editora. O que reforça aquela conversa de que cada pais tem uma cultura visual própria. Acho curioso que a edição brasileira abriu mão dessa “moldura” que é uma marca característica das capas da Alfaguara - os portugueses mantiveram a “moldura”, por exemplo. Com isso, optamos por explorar todo o espaço disponível com esse fundo preto sobreposto pelo mapa da França envolto nesses desenhos arabescos. Acho muito bonito esse dourado que salta aos olhos. Os portugueses foram mais tradicionais: ficaram com a “moldura” e incluíram a Torre Eiffel - um ícone, o maior símbolo visual da França. Interessante que os arabescos estão nas duas capas envolvendo a França (seja pelo mapa, seja pela torre). Nesse caso, acho que temos um empate técnico.


Vá, coloque um vigia (Brasil) / Vai e põe uma sentinela (Portugal), de Harper Lee
Os portugueses não quiseram arriscar e escolheram a mesma capa da edição norte-americana - fazendo apenas as alterações necessárias. É uma capa bonita. Nós seguimos uma ideia parecida - reparem na árvore, nas cores -, mas numa versão mais limpa. Não é ruim. O que me incomoda um pouco é o excesso de informação que acaba poluindo o visual - o título em inglês, por exemplo. Ponto para os portugueses - ainda que a ideia não seja original


A resistência, de Julián Fuks
Outro exemplo de um livro publicado pela mesma editora em dois países diferentes, com capas diferentes. Algumas pessoas podem dizer que a mudança é mínima, já que a ideia de arquivo com fotos e textos está nas duas capas. Ainda que pequena, a alteração para mostrar que os portugueses preferem algo mais clássico. A seleção de fotos, a disposição delas, os escritos e o papelão com a fonte que imita máquina de escrever dão ares antigos. A nossa é mais concentrada nas fotografias (elas quase não aparecem por inteiro) e a capa fica mais “moderninha”. Ponto para a nossa edição.


Um outro amor (Brasil) / Um homem apaixonado (Portugal), de Karl Ove Knausgård
Parece que os portugueses optaram por fazer todo o projeto gráfico da série “Minha luta” com retratos do autor. A edição portuguesa do volume anterior - A morte do pai - tem essa mesma fotografia, esse mesmo enquadramento. Eu fico pensando se isso não confunde o leitor a ponto de fazê-lo crer que a história do livro é totalmente verídica. A edição brasileira é muito mais sugestiva. Ponto brasileiro.


A ilha da infância, de Karl Ove Knausgård
Eu quis colocar o terceiro volume da série “Minha luta” para dizer o seguinte: ao passo que os outros dois volumes - A morte do pai e Um outro amor - optaram pelo rosto do autor (com aquele enquadramento que mostra apenas uma parte), esse volume mostra o rosto inteiro. Como se o autor assumisse o projeto de contar a sua vida por inteiro, finalmente. O retrato é muito bem realizado, mas acho menos sugestivo. Vejam que a edição brasileira também tem uma figura humana, mas ela não tem relação com a figura do autor. Bem mais sugestivo. Ponto brasileiro outra vez.


A amiga genial, de Elena Ferrante
Talvez os portugueses não gostem mesmo de alusão, sugestão etc. eles devem gostar mais de substantivos concretos, do que abstratos. Brincadeiras à parte, eles optaram por uma foto que também foi usada na edição australiano do livro - com a diferença de que usaram uma “moldura“ que enquadra o rosto da garota no centro da capa. Não me agrada tanto. Seja como for é uma capa bonita - o fundo branco ficou elegante. A nossa edição tem essa ilustração das mulheres trajando maios, tomando sol e com chapéus que escondem o rosto. Fora o colorido alegre. Bem mais interessante, um pouco menos dramático. Ponto para a nossa edição.


Uma aventura secreta do Marquês de Bradomin, de Teresa Veiga
Aqui nós temos uma partida bem difícil. A edição brasileira é artística: o fundo branco, a montagem com os livros, a fonte manuscrita etc. Muito bom! Seja como for, é difícil resistir aos encantos dessa ilustração que caracteriza tanto as edições da Tinta da China. É minimalista, é quase ingênuo, quase naïf, mas é lindo. Acho que nesse caso é empate.


Pureza (Brasil) / Purity (Portugal), de Jonathan Franzen
O grafismo da edição portuguesa remete ao sol - as linhas, a cor - e tem a ver com a história do livro. O resultado final, me parece deixar a desejar. A nossa edição, em contrapartida, é um desbunde. É uma fotografia, com uma cor alucinante, as nuvem rarefeitas… e tem esse sol que fica escondido pela letra “u”. Fora a composição do título em sílabas que vão esmaecendo. É muita pureza, com o perdão do trocadilho. Ponto para o Brasil.


Primeiros contos (Brasil) / Primeiras histórias (Portugal), de Truman Capote
Eis outro julgamento difícil. O papel pardo, a fonte de máquina de escrever e o retrato do autor ainda jovem envolto na moldura conversam perfeitamente. Sintetiza uma ideia, um conceito. Já a edição brasileira ganha pela liberdade (e coragem) de colocar uma bela foto do autor inteira - sem cortes. Causam a mesma impressão de um autor ainda jovem, ainda em formação, trajando sandálias. A disposição do título também é elegante, com essa cor verde. Pode ser empate, né!?

*Capas: divulgação


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sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

JULGANDO LIVROS PELA CAPA (4): PORTUGAL X BRASIL

Se você acompanha esse blog desde o começo deve saber que todos os anos faço uma brincadeira comparando as capas dos mesmos livros em edições portuguesas e brasileiras. Nem preciso dizer que virou tradição, pois será o quinto ano da brincadeira.

Vale lembrar que não sou especialista no assunto e estou comentando as capas descompromissadamente - com certa dose de humor, senão ninguém aguenta. Cada país tem a sua própria cultura visual e cada consumidor tem uma preferência na hora de escolher um livro pela capa. As observações servem como um exercício especulativo sobre o trabalho do capista (ou da editora) na hora de dar uma "cara" ao livro.

A caixa de comentários está aberta para quem quiser participar - por favor, fiquem à vontade. As capas das edições brasileiras estão do lado esquerdo.



A graça infinita (Brasil) / A piada infinita (Portugal), de David Foster Wallace
A edição portuguesa saiu em 2012 e a nossa no final do ano passado. Lá, eles optaram por uma imagem de TV em estilo vintage. Imagino que pegaram carona num ensaio do autor em que ele expõe uma longa teoria sobre certos traços da ficção pós-moderna pensando na quantidade de horas diárias que ficamos em frente a TV. Não foi uma ideia ruim. Seja como for, nada é páreo para a capa e o projeto gráfico de Alceu Chiesorin Nunes, Nik Neves e Elisa Braga que dispensa explicações. Ponto para Brasil por unanimidade do júri!



Acqua Toffana, de Patricia Melo
Faz um tempo que os livros dela estão saindo por uma nova editora aqui no Brasil e ganhando um novo projeto gráfico. Esse livro especificamente ganhou uma capa mais abstrata que não diz muita coisa. Já a edição portuguesa vem com esse quarto de rosto de mulher - conta um pouco sobre o enredo do livro (muito pouco). Ficou elegante. Ponto para os portugueses.



Dora Bruder, de Patrick Modiano
O Nobel de Literatura do ano passado também está em reedição com novo projeto gráfico. Dito isso, parece um pouco injusto avaliar a capa brasileira isoladamente porque ela faz parte de um conjunto de três livros - quando colocados, um ao lado do outro, formam o nome do autor. Infelizmente, estou comentando capas individualmente. Por isso, a edição portuguesa me parece mais charmosa com esse retrato em branco e preto estampado. Alguns podem alegar que estraga a imaginação do leitor ao dar um rosto à personagem. Acho que não. Ponto deles.



NW, de Zadie Smith
A capa portuguesa é um tanto desastrosa na escolha da tipografia e das cores - acho que nisso todos estão de acordo. Não sei dizer ao certo, mas quando vi pensei naqueles livros chatos de negócios e empreendimentos. Os ícones no rodapé também não dizem muita coisa. A nossa capa é melhor por várias razões: a sobriedade da cor preta, o recorte, o mapa, o minimalismo. Desculpem, mas esse é nosso.



A morte do pai - Minha luta 1, de Karl Ove Knausgård
Para avaliar as capas desse livro é preciso saber um pouco do enredo: o autor relembra os anos de sua infância e juventude na tentativa de decifrar a história do seu pai. No percurso ele rompe um pouco das fronteiras que separam os gêneros ficção, ensaio, biografia e memória. Por essa razão, a escolha de um retrato do autor para compor a capa da edição portuguesa parece um tanto redutiva, inadequada. A escolha da casinha isolada sob um céu chumbo é muito mais apropriada. Transmite simbolicamente a atmosfera do livro. Ponto pra gente.



Os luminares, de Eleanor Catton
A capa da edição brasileira é bem interessante porque joga com figuras do zodíaco, mapas astrais e constelações - elementos fundamentais para o enredo do livro. O contraste entre o fundo azul e o branco das linhas também ficou charmoso. No entanto, a edição portuguesa ganha pontos pela composição com as fases da lua, o rosto da pintura e o fundo branco. Esse é deles.



Forma de voltar a casa (Brasil) / Maneiras de voltar para casa (Portugal), de Alejandro Zambra
A comparação dessas duas capas tem um cheiro de covardia. Os portugueses optaram por uma foto muito poética e a cor do título também ficou muito bonita. Difícil não se render. Mas como desconsiderar a beleza originalíssima da edição brasileira? A cor, o fundo com grafismos, a tipografia… nesse caso é empate.



Habitante irreal, de Paulo Scott
Desenhos e ilustrações podem ter certo apelo para alguns leitores. Nisso a capa da edição portuguesa vai bem: mantém a identidade visual da editora e as cores são chamativas. Porém, não consigo decifrar a ligação da fogueira e da coruja com o enredo. A nossa capa é mais certeira. O fundo branco é muito elegante e o boneco do índio sem cabeça e em posição de luta parece flutuar no tempo e no espaço. Tudo a ver com o livro. Ponto nosso!



A paixão, de Almeida Faria
Outra avaliação bastante complicada. Estamos diante de dois estilos muito diferentes e muito específicos. A edição brasileira aponta para o moderno com a fotografia do vilarejo. A edição portuguesa aponta para o clássico com o desenho das três figuras humanas. Cada um com seu estilo. Empate técnico novamente.



A verdade sobre o caso Harry Quebert, de Joel Dicker
A pintura de Edward Hooper que estampa a capa da edição brasileira é muito charmosa. Traduz o clima da pequenina e pacata cidade do interior dos Estados Unidos onde a história acontece. Já a capa da edição portuguesa tem uma bela fotografia de Gregory Crewdson. Como não pensar na misteriosa Nola Kellergan e seu momento dramático? Pode ser empate, né?

*Imagens: divulgação. 
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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

JULGANDO LIVROS PELA CAPA (3): PORTUGAL X BRASIL

Desde que comecei o blog peguei uma bela ideia emprestada e todos os anos faço uma brincadeira comparando as capas dos mesmos livros em edições portuguesas e brasileiras. Para não perder a tradição faço uma nova rodada nesse ano. Vale lembrar que tamanha diferença entre as capas portuguesas e brasileiras não deve causar muito espanto, afinal cada país tem uma cultura visual muito particular e algo atrai os portugueses pode não atrair os brasileiros - evidentemente. O exercício de olhar as capas lado a lado serve para especular sobre o trabalho do capista na hora de resolver o problema de dar uma cara para um livro e vendê-lo para o leitor.

Digo de antemão que não sou especialista no assunto, portanto estou comentando sem muito compromisso. A caixa de comentários está aberta para quem quiser participar - por favor, fique à vontade. As capas das edições brasileiras estão do lado esquerdo.



1Q84, de Haruki Murakami
É difícil encontrar uma imagem que sintetize a epopeia onírica tão característica desse escritor japonês. Os portugueses optaram por uma capa limpa com uma brincadeira envolvendo o título do livro e uma linha vermelha cortando a brancura do fundo. Nós optamos pelas cores e pelo grafismo que lembra a bandeira do Japão - respeitando a clássica moldura das capas da Alfaguara. As duas não chegam perto da escolha certeira do design norte-americano Chip Kidd (ele optou por usar dois rostos japoneses por baixo do título do romance e deu uma cara para as suas personagens principais), mas foram não deixam de ser boas soluções. Empate.


A confissão da leoa, de Mia Couto
Não tem como fugir das garras dessa leoa, por isso ela aparece nas duas capas. Na versão portuguesa ela é selvagem e ameaçadora frente ao pequeno caçador. A cor amarela é uma marca das capas do selo Caminho, mas não deixa de lembrar o sol tropical de Moçambique. A versão brasileira tem a silhueta misteriosa da leoa, quase fictícia frente ao realismo da fotografia dos meninos pobres. Capta mais a atmosfera do romance. Ponto pra gente.



Laços de família, de Clarice Lispector
Demorou um pouco, mas a fama internacional de Clarice Lispector chegou a Portugal. Isso não quer dizer que ela não era conhecida por lá. Sua redescoberta promoveu uma série de reedições pela Quetzal. A foto da jovem Clarice é linda, mas não deixa de conferir ao livro um ar de biografia. Sendo assim, a capa brasileira ganha pontos por criar uma ilustração que resume alguns contos do livro.



Nada a dizer, de Elvira Vigna
Tem como não se render a bela imobilidade tediosa do casal que está na edição brasileira? Tudo se encaixa perfeitamente: o vazio que cerca o desenho, o equilíbrio das cores etc. No entanto, a edição portuguesa não fica atrás com essa fotografia em preto e branco, o olho fechado e o braço que cobre a boca (a cena muda, como alguns diriam). Empate técnico.


On the road - Pé na estrada, de Jack Kerouac
As duas reedições aproveitaram o lançamento do filme de Walter Salles baseado no livro de Jack Kerouac. A versão brasileira seguiu colada ao cartaz oficial do filme - é uma escolha muito comum para ligar um produto ao outro. Em termos de beleza para os olhos funciona como cartaz, não sei como capa de livro. A fotografia da versão portuguesa tem os inseparaveis amigos beatniks (Kerouac e Cassady - acho que o Burroughs também aparece ao fundo) e pareceu mais clássica. Ponto para os portugueses. Não tem como não sentir certo sorriso ao pensar no título Pela estrada a fora.


Passageiro do fim do dia, de Rubens Figueiredo
Não tem muito que falar da capa portuguesa. A ideia pode até ser boa, mas a realização é ruim. Ponto para a capa brasileira com a fotografia do ônibus em movimento.



Axilas e outras histórias indecorosas, de Rubem Fonseca
A capa brasileira é muito elegante. Passeia entre o sublime e o grotesco, tal qual o título do livro sugere. A capa portuguesa parece mais literal. Só que não deixa de ser bonita com essa cor meio dourada e a ilustração chapada da moça em preto - cena do crime? Outro empate - desculpe.



Serena, de Ian McEwan
A história é igual, mas os títulos são diferentes. Não estranhe. É uma questão de tradução. Seja como for, a nossa capa é a melhor de todas as capas que eu já vi (incluindo as edições em inglês). Ela tem a propriedade de não revelar o rosto, de estar bem contextualizada no tempo e no lugar - uma maravilha. Já a capa portuguesa é meio duvidosa. Mais um ponto pra gente.

*Imagens: divulgação e reprodução.
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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

JULGANDO LIVROS PELA CAPA (2): PORTUGAL X BRASIL

No ano passado peguei uma bela ideia emprestada e fiz uma brincadeira comparando as capas dos mesmos livros em edições brasileiras e portuguesas. Para não perder a tradição e pensando em quanto isso seria divertido, faço uma nova rodada da brincadeira. Tamanha diferença entre as capas portuguesas e brasileiras não deve causar muito espanto, afinal cada país tem uma cultura visual muito particular e algo atrai os portugueses pode não atrair os brasileiros, evidentemente. O exercício de olhar as capas lado a lado servem para especularmos sobre o trabalho do capista na hora de resolver o problema de como dar um rosto a um livro e vendê-lo para o leitor.

Digo de antemão que não sou especialista no assunto, portanto estou comentando sem muito compromisso. A caixa de comentários está aberta para quem quiser participar - por favor, fiquem a vontade. As capas das edições brasileiras estão do lado direito.
A grande arte, de Rubem Fonseca
Na reedição desse grande clássico contemporâneo os dois capistas pensaram na mesma coisa: uma faca. Não é à toa, já que esse elemento traduz bem o enredo do livro. Os portugueses optaram por uma singela ilustração que transpassa a capa e vai a contracapa, ao passo que a edição brasileira escolheu um raio-x dilacerante - para dizer o mínimo. Ponto para as duas.

a máquina de fazer espanhóis, de valter hugo mãe
A capa da Alfaguara portuguesa é bonita, mantém a identidade da marca e tem humor. No entanto, é difícil não se render aos encantos abstratos (querendo ser figurativos) de Lourenço Mutarelli e ao projeto gráfico caprichado da Cosac Naify. Como explica Paulo Chagas no blog da editora "o procedimento remetia aos papéis marmorizados das partes internas de antigas encadernações. Era como se a capa tivesse sido virada do avesso".

A noiva do tigre (A mulher do tigre, em Portugal), de Téa Obreht
Enquanto os portugueses "preferiram" a mesma capa dos norte-americanos, nós criamos um desenho de cores marcantes. Só que a edição portuguesa tem uma certa vantagem de não entregar tudo logo de cara. O tigre pela metade guarda o mistério entre ameaça e ajuda. O tigre da capa brasileira parece mansinho.

Os imperfeccionistas, de Tom Rachman
Um caso curioso de repetição. Tanto a edição portuguesa quanto a edição brasileira optaram pela mesma capa da edição americana. Se não estou enganado a mesma coisa aconteceu na Inglaterra, no Canadá, na Espanha e na Alemanha. Pobreza de ideias? Não sei dizer. Mas qual é o problema de reproduzir uma capa bem limpa e elegante como essa. Nem preciso dizer que o jornal ali diz tudo.

Liberdade, de Jonathan Franzen
Os portugueses seguiram colados a escolha da capa britânica e colocaram um imenso "L" gráfico com o detalhe pequeno da pena. No entanto, nos saímos melhor traduzindo a ideia de "liberdade" ao contrapor uma cerca (em estilo tipicamente americano, mas ao mesmo tempo universal) com um céu cheio de nuvens. Inclusive, acho nossa capa infinitamente superior a da edição norte-americana. Alguma coisa me incomoda naquele pássaro azul e naquelas letras meio de lado.

Livro, de José Luis Peixoto
O carinho de bebê na capa da edição portuguesa revela o ponto de partida do romance, nada que comprometa as surpresas que você vai encontrar no romance. Só que a capa brasileira com letras formando os desenhos dos azulejos portugueses é bem mais interessante - tem até textura por conta do relevo da impressão. Além disso, traduz bem a forma da segunda parte do livro. É bem metonímico o negócio. Nossa diferença cultural me leva a pensar será que em Portugal essa capa faria sentido?

*Tem uma curiosidade a respeito da edição portuguesa: a mesma imagem de capa foi usada no livro Tu ne jugeras point, de Armel Job (um escritor belga). Foi pura coincidência como está explicado aqui.
Os malaquias, de Andréa del Fuego
As duas capas são bonitas. Trabalham com a ideia de família. De qualquer forma, prefiro a capa brasileira: é mais clara e as sombras na parede mantém o segredo sobre a fisionomia das personagens.

Outra vida, de Rodrigo Lacerda
A nossa capa guarda algo de estático, nostálgico, triste. Sensação que as personagens do livro devem experimentar na pele, pois é sobre uma viagem de volta que trata o enredo. A capa portuguesa tem movimento, trânsito e mudança que ganham ares de tristeza graças aos guarda-chuvas abertos. Por mais colorido que sejam não deixa de ser triste.

Pornopopéia, de Reinaldo Moraes
A capa brasileira não revela nada. Parece que é uma foto de Reinaldo Moraes lendo alguma coisa. Serve para destacar o nome do livro em grandes letras vermelhas em cadência divertida. Em contrapartida a capa portuguesa leva a melhor com a brincadeira visual das formas femininas. Pode parecer clichê usar a "natureza" para retratar coisas mais picantes, mas considerando o enredo a imagem tem tudo a ver. Ponto para eles!

Se eu fechar os olhos agora, de Edney Silvestre
A nossa edição é mais bonita. A "limpeza" de informações valoriza a foto no alto. ficou elegante. Já a capa portuguesa vai bem quando recupera elementos do enredo e vai mal quando coloca o título grande em vermelho. Parece que pesou um pouco, embora lembre o jogo de fechar os olhos alertando para abri-los. Será isso?

*Imagens: divulgação e reprodução.

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segunda-feira, 21 de novembro de 2011

NOTAS #32

Capas
Alguns leitores ainda não eram nem nascidos quando esses livros foram lançados (nem mesmo eu, para falar a verdade). Portanto, imagino que todos devem ter muita curiosidade em saber como foi a capa da primeira edição de Alice no país das maravilhas, Anna Karenina, Mrs Dalloway, O som e a fúria, Trópico de câncer, Ulysses, O almoço nu e alguns outros mais. Pois o Flavorwire fez uma lista bem legal com a capa da primeira edição de 20 livros bem conhecidos (os que citei antes estão entre eles). A capa acima é do livro Laranja mecânica, de Anthony Burgess em 1962. A lista completa está disponível em http://tinyurl.com/7nuedct

Os melhores de 2011
Já começou na imprensa anglófona mais uma temporada para eleger os melhores lançamentos de ficção do ano. É a chance daquele leitor que passou o ano inteiro metido em recuperar as leituras atrasadas do ano passado saber o que vale a pena ler no ano que vem - ou até o final desse ano, quem sabe. Certamente quase todas as listas gringas serão unânimes quanto aos livros The Marriage Plot, de Jeffrey Eugenides; A Visit From the Goon Squad, de Jennifer Egan; The Pale King, de David Foster Wallace; 1Q84, de Haruki Murakami e A mulher do tigre, de Téa Obreht, para citar alguns.

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Vale lembrar que todos estes livros já têm previsão de lançamento em terras brasileiras. A Companhia das Letras deve lançar The Marriage Plot no primeiro semestre de 2012 e The Pale King - ainda sem data prevista. A Visit From The Goon Squad sai pela Intrínseca provavelmente no ano que vem. 1Q84 também deve chegar no ano que vem pela Alfaguara. A mulher do tigre foi publicado pela Leya Brasil com tradução de Santiago Nazarian.

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Nas listas que vi até agora fiquei surpreso com a menção a There but for me, de Ali Smith e O mapa e o território, de Michel Houellebecq (que a editora Record prometeu para esse ano, mas deve ficar para o ano que vem).

Bolaño HTML5
A nova edição da revista Granta (me refiro a inglesa mesmo, pois a revista está ganhando edições no mundo inteiro) com o tema "Horror" publicou o conto El Hijo del Coronel, de Roberto Bolaño - em inglês ficou The Colonel’s Son. A história de uma menina mordida por um zumbi ganhou uma versão em HTML5 com desenhos de Owen Freeman e dos web designers do escritório Jocabola. A animação percorreu a internet instantes depois de ter sido postada na página da revista. É realmente alucinante! Está disponível em http://tinyurl.com/cbeo2lc

Entrevista Sebald
O escritor alemão W.G. Sebald faleceu em 14 de dezembro de 2001 vítima de um acidente de carro. Dias antes do incidente, Sebald concedeu uma entrevista para a rádio KCRW (por conta do lançamento em inglês de Austerlitz) em que fala de suas influências literárias e sobre questões pertinentes a sua obra. A entrevista em inglês está disponível em http://tinyurl.com/6gkayu9

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Na edição #2 do fanzine Casmurros há um ensaio de Rick Poynor sobre algo que sempre me intrigou nos livros de Sebald: as fotografias. O ensaio chama "W.G. Sebald: escrevendo com imagens". O fanzine está disponível para download aqui.

Ruim de livro
Há dezenove anos o suplemento británico Literary Review entrega um prêmio literário que desperta o riso dos mais atirados e rubores no rosto dos mais pudicos: o Bad Sex in Fiction Award. Ganha o prêmio o autor que escrever a pior cena de sexo num romance lançado durante o ano. O jornal Guardian adiantou que entre os indicados desse ano estão Stephen King com uma cena de 11.22.63, Haruki Murakami com o badalado 1Q84. Mais nomes devem surgir até a entrega do prêmio em 6 de dezembro.

*Imagem reprodução.
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segunda-feira, 26 de setembro de 2011

NOTAS #29


Escritores de papel
Vi na Ilustríssima e não pude resistir. O livro Literary Greats Paper Dolls, de Tim Foley tem cerca de 30 escritores de língua inglesa para você recortar e colar neles roupinhas de seus famosos personagens. Tem Arthur Conan Doyle vestido de Sherlock Holmes, Agatha Christie como Miss Marple, Charles Dickens em fantasma do natal passado e outros tantos. A ideia é bastante original e não deixa de ser muito divertida. Bem que alguma editora podia se animar e fazer uma versão nacional. Já pensou José de Alencar vestido como Peri? Algumas imagens do livro de Tim Foley estão disponíveis aqui.

Não é para qualquer um
A notícia mais comentada na semana passada foi o anúncio de que o escritor George R.R. Martin é o mais novo integrante do clube "escritores que venderam 1 milhão de livros digitais no Kindle". Se não estou enganado, a Amazon está considerando o total de vendas dos cinco livros da série As crônicas de gelo e fogo. James Patterson, Charlaine Harris, Stieg Larsson e Suzanne Collins também atingiram seu milhão de vendas no Kindle por causa da publicação de séries. Só que chegar a esse número não é para qualquer um, mesmo escrevendo séries. Stephenie Meyer e sua saga Crepúsculo, por exemplo, não conseguiu.

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De fato George R.R. Martin é um escritor de sucesso. Vejo diariamente pessoas circulando nas ruas com algum dos volumes de As crônicas de gelo e fogo embaixo do braço (sobretudo no metrô e ônibus). Parte do sucesso pode ser atribuída à adaptação para a TV exibida no canal HBO. Seja como for são livros de fantasia e aventura que estão satisfazendo o gosto dos leitores cansados de tanto realismo. O tamanho também não assusta ninguém - cada volume tem no mínimo 500 páginas. E teve gente dizendo que no futuro as pessoas só iam ler histórias curtas!

Piglia esgotado
Os ingressos para ver Ricardo Piglia em São Paulo esgotaram muito rapidamente no mesmo dia em que começaram a ser distribuídos (acho que foi algo em torno de três ou quatro horas, não consegui calcular). O escritor argentino fará uma conferência sobre "Romance e tradução". Nem tive chance de garantir um lugar. Como consolo, estou recomendando um vídeo com Piglia e outros escritores debatendo o papel do ciberespaço na literatura e na crítica - durante a feira do livro em Madri. Daqui ele segue para o RJ.


FILBA
Segundo disseram a participação dos brasileiros na FILBA não foi cercada de muita curiosidade por parte dos nossos hermanos - exceto quando o assunto era Clarice Lispector. A grande estrela do festival foi mesmo o escritor J.M. Coetzee. Os principais jornais argentinos abusaram de muitos adjetivos para dizer que a conferência de encerramento com a presença do escritor foi brilhante. Tentei encontrar algum vídeo da apresentação, mas parece que o festival não teve transmissão de vídeos na internet. Acabei reencontrando um vídeo antigo de Coetzee em conversa com Peter Sacks. Ele até sorri!

O poder das capas
Antonio Candido, em depoimento pessoal sobre Graciliano Ramos, disse que ficou impressionado quando viu a capa da primeira edição de Caetés - achou diferente. Emendou falando sobre a importância das novas capas dos livros naquela época, difundindo o modernismo com suas estéticas cubista, surrealista etc. Um célebre capista do período foi Santa Rosa. Pelas mãos dele passaram livros de Jorge Amado, José Lins do Rego, Lucio Cardoso, Mario de Andrade, Graciliano Ramos e muitos outros.

***

Falando em capa tenho mais duas coisas para comentar. A primeira é um post da semana passada sobre a tradição dos poloneses no campo do designe gráfico. Descobri um link com capas bem legais de edições polonesas das décadas de 70 e 80. A segunda é uma lista daquelas que só o Flavorwire consegue fazer com 20 capas de clássicos da literatura reinventadas e infelizmente nunca publicadas. A mais bonita na minha opinião é Franny & Zooey, de J.D. Salinger por Nan Lawson (acima).

Polêmicas
Para fechar as notas duas polêmicas: a propaganda da Caixa Econômica com Machado de Assis e o Prêmio Jabuti desclassificando obras de sua lista de concorrentes ao prêmio.

*Imagem: J.M. Coetzee reproduzido do Página 12; capas de livro reprodução/divulgação.
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sábado, 17 de setembro de 2011

MIL CAPAS POLONESAS

Não sou um profundo conhecedor da história do design gráfico, mas sei que os poloneses são verdadeiros gênios no assunto. Motivados pela herança cultural que carregavam e pelo contexto político do país (sempre envolvido em disputas territoriais, invasões, guerras e regimes comunistas totalitários), os artistas poloneses criaram um estilo único de comunicação visual que continua a influenciar as novas gerações de designers gráficos. Parece até que existe um esforço por parte dos artistas poloneses contemporâneos para que a tradição não acabe.

Um dos exemplos mais conhecidos da escola polonesa são os cartazes. A história toda começa no final século XIX, mas tem seu grande momento logo após o final da Segunda Guerra Mundial - tendo seu desdobramento ao longo das décadas seguintes. Em "The legacy of Polish Poster Design", um artigo da Smashing Magazine, tem uma explicação bem interessante explicando algumas razões que levaram os poloneses a se dedicarem aos cartazes:

"Três observações importantes devem ser feitas. Primeiro, naquele momento o cartaz era basicamente a única forma permitida de expressão artística individual. Em segundo lugar, o Estado não estava preocupado muito com a forma como os cartazes pareciam. Terceiro, o fato de que a indústria era controlada pelo Estado acabou por ser uma bênção disfarçada: ao trabalhar fora das restrições comerciais de uma economia capitalista, os artistas poderiam expressar plenamente seu potencial. Eles não tinham outra escolha senão tornar-se designers profissionais de cartazes e é por isso que eles se dedicaram tão completamente a esta arte". (tradução livre feita por mim)
Os interessados nessa história podem saber um pouco mais nesse blog (em português). O Google Images está cheio de exemplos dos cartazes - a maioria de filmes.

Do cartaz para a capa dos livros (ou outros campos de atuação do design gráfico) foi apenas uma questão de tempo. Uma parte específica dessa história foi resgatada no recente livro 1000 Polish Book Covers - publicado no ano passado pela editora 40000 Painters Publishing. Os trabalhos foram selecionados por Aleksandra e Daniel Mizienliński que são designers gráficos e criadores do Hipopotam Studio. Imagino que os dois devem ter tido um trabalhão para chegar ao resultado final. Só que deve ter valido muito a pena, pois a tiragem foi totalmente vendida.

Abaixo uma galeria com algumas páginas do livro:



*Imagens: 40000 Painters Publishing/divulgação.
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quinta-feira, 21 de julho de 2011

ENCAPANDO KAFKA

A notícia não é tão nova (aliás, deve ser bem velha para os tempos de hoje), mas tem aparecido tanta notícia sobre Franz Kafka que não pude ignorar essa coleção de capas criadas pelo designer Peter Mendelsund. Os oito livros foram lançados pela editora americana Schocken - se não estou enganado é um selo da Knopf Doubleday Publishing Group.

Como Peter mesmo afirma no post original de seu blog, Kafka sempre foi um autor que primeiro lhe vinha a cabeça quando perguntavam "para qual escritor você gostaria muito de criar capas?". Por ser um de seus autores preferidos não foi difícil pensar um novo projeto gráfico. Ele gosta tanto que elencou uma série de qualidades bastante kafkianas:
"A economia, o humor negro, a impenetrabilidade provocativa; o brilho do pensamento-experiência; o sabor hierático e esotérico das construções; a desorientadora cadência da prosa; a impecável, a lógica mágica interna que impulsiona as marionetes mecânicas de sua trabalho; o judaísmo muito discutido (como se isso fosse fácil de analisar); as "abstrações concretas" (nas palavras de Zadie Smith )..."

A ideia dele foi colocar olhos nas capas porque eles lembram aquela sensação de paranóia, de estar sendo observado. O que convenhamos, casa muito bem com as histórias do autor. Outra coisa foi abusar cores para fugir do preto, bege ou vermelho que costumam aparecer nos livros de Kafka. A diversidade de cores reforça o humor, a ironia e o seu sentimentalismo.

Abaixo montei uma galeria com as capas:



Peter Mendelsund é um designer muito conhecido pelos trabalhos que cria para as capas de livros nos Estados Unidos. Além de Kafka, ele assinou a capa dos livros de Stieg Larsson, Peter Carey, Adam Ross, Liev Tolstói, Fiódor Dostoiévski e muitos outros. Uma parte do portfólio dele está aqui.

*imagens: reprodução das capas assinada por Peter Mendelsund.
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