segunda-feira, 9 de maio de 2016

JULGANDO LIVROS PELA CAPA (5): PORTUGAL X BRASIL

Eu sei que estou demorando para aparecer com atualizações por aqui, mas como diz um amigo meu: “devagar se vai ao longe”. Ele também tem outras máximas como: “devagar e sempre”, “a pressa é inimiga da perfeição”, “apressado como cru” etc. Por isso, não se preocupe porque em algum momento eu vou voltar com alguma novidade. Fique de olho!

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Como já faço há vários anos, achei que seria divertido comparar as capas dos mesmos livros em edições portuguesas e brasileiras - é o quinto ano da brincadeira. A capa é elemento muito importante para quem gosta de livros. Ela tem uma grande influência sobre o leitor porque funciona como uma porta de entrada para aquele universo que vamos acompanhar por algum tempo. Conheço muitas pessoas que compram livros pela capa - elas realmente existem e não há nada de errado com isso. Nem mesmo os livros digitais conseguiram abolir a capa, uma vez que essas imagens circulam pela internet e estão gritando nas estantes das livrarias online.

Quero lembrar que não sou especialista no assunto e estou comentando as capas descompromissadamente - com certa dose de humor, senão ninguém aguenta. Cada país tem a sua própria cultura visual e cada leitor tem uma preferência na hora de escolher um livro pela capa. As observações servem como um exercício especulativo sobre o trabalho do capista (ou da editora) na hora de dar uma "cara" ao livro.

A caixa de comentários está aberta para quem quiser participar - por favor, fiquem à vontade. As capas das edições brasileiras estão do lado esquerdo.


Submissão, de Michel Houellebecq
As duas edições tem capas diferentes, apesar de terem sido publicados pela mesma editora. O que reforça aquela conversa de que cada pais tem uma cultura visual própria. Acho curioso que a edição brasileira abriu mão dessa “moldura” que é uma marca característica das capas da Alfaguara - os portugueses mantiveram a “moldura”, por exemplo. Com isso, optamos por explorar todo o espaço disponível com esse fundo preto sobreposto pelo mapa da França envolto nesses desenhos arabescos. Acho muito bonito esse dourado que salta aos olhos. Os portugueses foram mais tradicionais: ficaram com a “moldura” e incluíram a Torre Eiffel - um ícone, o maior símbolo visual da França. Interessante que os arabescos estão nas duas capas envolvendo a França (seja pelo mapa, seja pela torre). Nesse caso, acho que temos um empate técnico.


Vá, coloque um vigia (Brasil) / Vai e põe uma sentinela (Portugal), de Harper Lee
Os portugueses não quiseram arriscar e escolheram a mesma capa da edição norte-americana - fazendo apenas as alterações necessárias. É uma capa bonita. Nós seguimos uma ideia parecida - reparem na árvore, nas cores -, mas numa versão mais limpa. Não é ruim. O que me incomoda um pouco é o excesso de informação que acaba poluindo o visual - o título em inglês, por exemplo. Ponto para os portugueses - ainda que a ideia não seja original


A resistência, de Julián Fuks
Outro exemplo de um livro publicado pela mesma editora em dois países diferentes, com capas diferentes. Algumas pessoas podem dizer que a mudança é mínima, já que a ideia de arquivo com fotos e textos está nas duas capas. Ainda que pequena, a alteração para mostrar que os portugueses preferem algo mais clássico. A seleção de fotos, a disposição delas, os escritos e o papelão com a fonte que imita máquina de escrever dão ares antigos. A nossa é mais concentrada nas fotografias (elas quase não aparecem por inteiro) e a capa fica mais “moderninha”. Ponto para a nossa edição.


Um outro amor (Brasil) / Um homem apaixonado (Portugal), de Karl Ove Knausgård
Parece que os portugueses optaram por fazer todo o projeto gráfico da série “Minha luta” com retratos do autor. A edição portuguesa do volume anterior - A morte do pai - tem essa mesma fotografia, esse mesmo enquadramento. Eu fico pensando se isso não confunde o leitor a ponto de fazê-lo crer que a história do livro é totalmente verídica. A edição brasileira é muito mais sugestiva. Ponto brasileiro.


A ilha da infância, de Karl Ove Knausgård
Eu quis colocar o terceiro volume da série “Minha luta” para dizer o seguinte: ao passo que os outros dois volumes - A morte do pai e Um outro amor - optaram pelo rosto do autor (com aquele enquadramento que mostra apenas uma parte), esse volume mostra o rosto inteiro. Como se o autor assumisse o projeto de contar a sua vida por inteiro, finalmente. O retrato é muito bem realizado, mas acho menos sugestivo. Vejam que a edição brasileira também tem uma figura humana, mas ela não tem relação com a figura do autor. Bem mais sugestivo. Ponto brasileiro outra vez.


A amiga genial, de Elena Ferrante
Talvez os portugueses não gostem mesmo de alusão, sugestão etc. eles devem gostar mais de substantivos concretos, do que abstratos. Brincadeiras à parte, eles optaram por uma foto que também foi usada na edição australiano do livro - com a diferença de que usaram uma “moldura“ que enquadra o rosto da garota no centro da capa. Não me agrada tanto. Seja como for é uma capa bonita - o fundo branco ficou elegante. A nossa edição tem essa ilustração das mulheres trajando maios, tomando sol e com chapéus que escondem o rosto. Fora o colorido alegre. Bem mais interessante, um pouco menos dramático. Ponto para a nossa edição.


Uma aventura secreta do Marquês de Bradomin, de Teresa Veiga
Aqui nós temos uma partida bem difícil. A edição brasileira é artística: o fundo branco, a montagem com os livros, a fonte manuscrita etc. Muito bom! Seja como for, é difícil resistir aos encantos dessa ilustração que caracteriza tanto as edições da Tinta da China. É minimalista, é quase ingênuo, quase naïf, mas é lindo. Acho que nesse caso é empate.


Pureza (Brasil) / Purity (Portugal), de Jonathan Franzen
O grafismo da edição portuguesa remete ao sol - as linhas, a cor - e tem a ver com a história do livro. O resultado final, me parece deixar a desejar. A nossa edição, em contrapartida, é um desbunde. É uma fotografia, com uma cor alucinante, as nuvem rarefeitas… e tem esse sol que fica escondido pela letra “u”. Fora a composição do título em sílabas que vão esmaecendo. É muita pureza, com o perdão do trocadilho. Ponto para o Brasil.


Primeiros contos (Brasil) / Primeiras histórias (Portugal), de Truman Capote
Eis outro julgamento difícil. O papel pardo, a fonte de máquina de escrever e o retrato do autor ainda jovem envolto na moldura conversam perfeitamente. Sintetiza uma ideia, um conceito. Já a edição brasileira ganha pela liberdade (e coragem) de colocar uma bela foto do autor inteira - sem cortes. Causam a mesma impressão de um autor ainda jovem, ainda em formação, trajando sandálias. A disposição do título também é elegante, com essa cor verde. Pode ser empate, né!?

*Capas: divulgação


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quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

CASMURROS NO FACEBOOK


Depois de muito tempo o ‪#‎Casmurros‬ finalmente se rendeu as redes sociais e está entrando de cabeça no facebook. Tem gente que vai dizer que o blog "traiu o movimento", mas não é nada disso. O blog já estava no twitter, no tumblr, no flickr, no issuu... só faltava mesmo o raio do facebook.
A ideia continua sendo comentar qualquer sorte de assunto ligado ao universo da prosa de ficção. Aqui no blog vai pintar resenhas, análises, opiniões, conversas, comentários, observações pessoas e bobagens. As atualizações aparecem lá e você pode acompanhar, comentar e compartilhar.
Eventualmente pode aparecer algum conteúdo exclusivo lá com chamada aqui no blog. Está tudo ligado e estou experimentando os formatos. Vamos ver onde isso vai parar.
Para quem não sabe, o #Casmurros começou em 2009 como um clube do livro, passou a blog de "notícias" e agora chega totalmente ao mundo dos compartilhamentos - a tal rede 2.0 ultra participativa.
Vai lá "curtir" e vem comigo que no caminho eu te explico.
Imagem: Facebook

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segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

APOSTAS PARA 2016 - NACIONAIS E ESTRANGEIRAS

Com esse advento dos celulares inteligentes e as redes sociais superconectadas a gente nem precisa ter voltado ao trabalho para procurar o termo "lançamentos de ficção 2016" no Google. Na estrada, no avião, no ônibus, em casa, na fazenda ou na praia mesmo você já deve saber de tudo. Na última semana do ano - quando supostamente todo mundo está pensando a que horas servem o champanhe - já circulavam listas completas com previsões de livros para esse ano. Sinal de que os tempos estão mesmo mudando, porque as nossas editoras não costumavam divulgar o cronograma de lançamentos do ano com tanta antecedência.

Seja como for, estou listando abaixo um apanhado de livros que consegui apurar aqui e acolá. Não posso deixar de mencionar que a maior parte dessa lista nacional é resultado do trabalho de Daniel Dago (do Pósfacio) - ela chegou até mim através do Facebook. Fiz pequenos acréscimos e retirei alguns livros de não-ficção. Tem o nome da editora e do autor - em alguns casos consta o título em português ou o título original já que a tradução deve estar em andamento. Não estou mencionando os autores que devem aparecer na FLIP e sempre agitam lançamentos.

Vale lembrar que são previsões e as editoras podem alterar os cronogramas - assim como pode pintar uma nova onda, tipo "romances fantásticos", "livros de blogueiros" etc. Tudo pode acontecer.

Entre os nacionais destaco a tradução para o português de O sumiço (La disparition), de Georges Perec feita por Zéfere (José Roberto Andrade Féres). O caderno Ilustríssima publicou um trecho aqui. Na gringa, fico com Don DeLillo que sempre escreve livros misteriosos e impressionantes sobre a paranoia - o grande tema do nosso século.

Se alguém descobrir ou souber de algum outro lançamento e quiser contribuir, por favor, mande um sinal de fumaça. Prometo ficar de olho e atualizar a lista a medida que receber as informações.


AUTÊNTICA
O sumiço, de Georges Perec

PLANETA
O alado, de Arthur Japin
Tentando fazer algo da vida, de Hendrik Groen
O delírio total, de Noman Ohler
The invention of nature: Alexander von Humboldt’s New World, de Andrea Wulf

ESTAÇÃO LIBERDADE
O museu do silêncio e A fórmula do professor, de Yoko Ogawa
Botchan, de Natsume Soseki
Guerra de gueixas, de Nagai Kafu
Ensaio sobre o maníaco dos cogumelos, de Peter Handke
1913 – o verão do século, de Florian Illies
Cada um morre por si, de Hans Fallada
Medeia vozes, de Christa Wolf
Malina, de Ingeborg Bachman
Meu nome seja Gantenbein, de Max Frisch
No país do cervo branco, de Chen Zhongshi
O garoto do riquixá, de She Lao
Divã ocidental-oriental, de Goethe
Contos escolhidos, de E.T.A. Hoffmann
Natan, o sábio, de G. E. Lessing
Não adianta morrer, de Francisco Maciel

RÁDIO LONDRES
O refugiado e O homem sem doença, de Arnon Grunberg
Está tudo tranquilo lá em cima e Dez gansos brancos, de Gerbrand Bakker
Corvo, de A.J.A Symons
Quando tinha cinco anos eu me matei, de Howard Buten
Segunda mão, de Michael Zadoorian
Butcher’s crossing, de John Williams (trad. Alexandre Barbosa de Souza)
Réparer les vivants, de Maylis de Kerangal

ALFAGUARA
Uma virgem boba, de Ida Simons
Bonita Avenue, de Peter Buwalda

ZAHAR 
Os livros da selva, de Rudyard Kipling
As aventuras de Robin Hood, Alexandre Dumas
O homem invisível, de H.G. Wells

INTRÍNSECA
A brief history of seven killings, de Marlon James

RECORD
A tradutora, de Cristóvão Tezza
The end of story, de Lydia Davis
When the doves disappeared, de Sofi Oksanen

CARAMBAIA
O músico cego e Em má companhia, de Vladimir Korolenko
Corações cicatrizados, de Max Blecher

JOSÉ OLYMPIO
The early stories, de Truman Capote

COMPANHIA DAS LETRAS
City on fire, de Garth Risk Hallberg
How to be both, de Ali Smith
Sorgo vermelho, de Mo Yan
Os Buddenbrooks, de Thomas Mann
A montanha mágica, de Thomas Mann
Minha luta: livro 4 - Dancing in the dark e The morning star, de Karl Ove Knausgård
Como se estivéssemos em um palimpsesto de putas, de Elvira Vigna
A história dos meus dentes, de Valeria ­Luiselli
Purity, de Jonathan Franzen
Um retrato do artista quando jovem, de James Joyce
Cloud atlas, de David Mitchell
Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust (com tradução de Mario Sergio Conti)
O gattopardo, de Tomasi di Lampedusa
Contos, de Tomasi di Lampedusa
Como se o mundo fosse um bom lugar, de Marçal Aquino
Leão com leão, de Antonia Pellegrino
F, de Daniel Kehlmann
Buy me the sky: the truth about China's one-child generation, de Xinran
Soy loco por ti América, de Javier Arancibia Contreras
Central Europa, de William T. Vollmann
A vida invisível de Eurídice Gusmão, de Martha Batalha
La septième fonction du langage, de Laurent Binet
Vozes de Chernobil e War's unwomanly face, de Svetlana Alexievich (ganhadora do Nobel)

ATELIÊ EDITORAL
Doutor Fausto acompanhado de História do Dr. Fausto
Epigramas, de Marcial

BIBLIOTECA AZUL
Ana de Amsterdam, de Ana Cássia Rebelo
The meursault investigation, de Kamel Daoud
The fishermen, de Chigozie Obioma
Obras completas - volume B, de Adolfo Bioy Casares
A história de um novo nome, de Elena Ferrante

EDITORA 34
A educação sentimental, de Gustave Flaubert
Contos de Kolimá, de Varlam Chalámov
A escavação, de Andrei Platónov
Os sete enforcados, de Leonid Andrêiev
Sátántangó, de László Krasznahorkai
A câmara escura de Dâmocles, de W.F. Hermans
Uma outra juventude, duas novelas de Mircea Eliade

CASA DA PALAVRA
Desamparo, de Inês Pedrosa
O coro dos defuntos, de António Tavares

ROCCO
In a dark, dark wood, de Ruth Ware
Vozes do oceano, de Aline Valek
Santos fortes, de Leandro Karnal

MARTINS FONTES
A longa way to water, de Linda Sue Park
A casa dos ratos, de Karina Schaapman
Vlo e Stiekel, de Peter Koolwijk
Felicidade, de Mies van Hout
Jane, a raposa e eu, de Fanny Britt e Isabelle Arsenault

GRUA
The price of value, de David A. Smith

HEDRA
Os holandeses (1839-1938) - 16 contos de 16 autores
O coração frio, de Wilhelm Hauff

COSAC NAIFY (com o fim da editora fica em aberto)
Ilíada, de Homero
Chicas muertas, de Selva Almada
Infância, adolescência e juventude, de Liev Tolstói
A fragata Johanna Maria, de Arthur van Schendel
Mal Aria, de Carmen Stephan
Os sertões, de Euclides da Cunha (edição crítica de Walnice Nogueira Galvão)


GRINGOS (considerando o mercado editorial norte-americano e de língua inglesa)

The high mountains of Portugal, de Yann Martel
The lost time accidents, de John Wray
Innocents and others, de Dana Spiotta
My struggle: book five, de Karl Ove Knausgaard
Our young man, de Edmund White
Zero K, de Don DeLillo
LaRose, de Louise Erdrich
Modern lovers, de Emma Straub
The noise of time, de Julian Barnes
Barkskins, de Annie Proulx
Here I am, de Jonathan Safran Foer

*Imagens: divulgação


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DANIEL GALERA CONCORRE A PRÊMIO EM PORTUGAL


O romance Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera está entre os finalistas do Prêmio Literário Casino da Póvoa atribuído pelo Festival Literário Correntes d'Escritas que acontece na cidade portuguesa Póvoa de Varzim. Ele vai concorrer com escritores bem conhecidos no Brasil como Valter Hugo Mãe, José Eduardo Agualusa, Javier Cercas, Teresa Veiga, Leonardo Padura, Lídia Jorge, entre outros. O vencedor será anunciado na abertura do festival, em 23 de fevereiro, e leva para casa um prêmio no valor de 20 mil Euros.

Vale lembrar que a edição portuguesa de Barba... publicada pela Quetzal é que está no páreo, pois só podem concorrer ao prêmio obras em português, editadas em Portugal, de autores de língua portuguesa ou espanhola.

Em 2012, o ganhador desse prêmio foi Rubem Fonseca com o romance Bufo & Spallanzani que foi publicado em Portugal pela Sextante Editora.

*imagem: divulgação
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quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

RECADO


Está quase na hora de dizer adeus ao ano que termina e saudar o ano que vai começar! Por isso, o blog faz uma pausa de hoje até a primeira semana do ano de 2016. Sei que fiquei um bom tempo sem aparecer, mas tenham em mente que o blog não acabou. Prometo que eu volto logo. 

Feliz ano novo!
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ONDE VIVIAM OS MODERNISTAS?


O assunto mais curioso dessa semana foi a descoberta da garçonnière que pertenceu ao escritor Oswald de Andrade. O local ficava no terceiro andar de um prédio na Rua Libero Badaró, 67, no centro de São Paulo. Foi ali que Oswald reuniu parte da turma que viria a realizar a Semana de Arte de Moderna de 1922.

O responsável pela descoberta foi o historiador José Roberto Walker e quem conta a história em riqueza de detalhes é o jornalista Luís Antônio Giron no caderno Ilustríssima, da Folha de SP.

Tomara que alguém inclua o endereço num roteiro literário da cidade.

*imagem: reprodução da Wikipédia/domínio público
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terça-feira, 29 de dezembro de 2015

RETROSPECTIVA: O QUE TEVE EM 2015

Vocês notaram que eu estive muito ausente do Casmurros ao longo desse ano - já expliquei num texto anterior. Pois bem, a guisa de retrospectiva compilei as coisas mais importantes que aconteceram. Vai que você (assim como eu) também esteve fora e quer saber dos fatos que marcaram o ano.

> O RETORNO


Harper Lee publicou um novo romance quase 55 anos depois de praticamente abandonar a literatura. O livro inédito se chama Vá, coloque um vigia e chegou as nossas livrarias pela editora José Olympio com tradução Beatriz Horta. É uma continuação do clássico O sol é para todos e, ao contrário do que você pode imaginar, não decepciona. Valeu a espera.

Fernando Bonassi também é outro retorno notório. Ele andava sumido da prosa de ficção, parece que estava envolvido com outros trabalhos (ele também é roteirista e dramaturgo), mas reapareceu esse ano com o romance Luxúria.

> O APARECIMENTO


Precisamos saudar a chegada de O pai morto, de Donald Barthelme com tradução Daniel Pellizzari - o lançamento é da Rocco e foi pouco comentado. O escritor norte-americano falecido em 1989, aos 58 anos, ainda era inédito no Brasil. Ele foi aclamado pela crítica anglófona como um autor de estilo pós-moderno e tinha Machado de Assis, Gabriel García Márquez e François Rabelais como influências confessas. Tomara que a editora aposte nas traduções dos contos - o file mignon da obra de Barthelme.

> O FIM
Impossível não falar no fechamento da Cosac Naify. A notícia é triste porque era uma editora preocupada em publicar inéditos, novos, antigos, boas traduções e edições bem acabadas. Uma pena! Não sou especialista no assunto, mas tomara que não seja sinal de uma crise do setor de negócios do livro. A boa notícia é que o catálogo será absorvido por outras editoras.


Também chega ao fim a revista Arte & Letra: Estórias, publicada pela editora curitibana Arte & Letra. Ela cumpria uma função muito interessante de publicar autores brasileiros em começo de carreira, traduzir autores estrangeiros inéditos no país e colocar em circulação autores do passado que andavam meio esquecidos. As edições eram caprichadas. O último número - com a letra Z - saiu esse mês e tem Almeida Faria, Marta Brunet, Selva Almada, Rogério Pereira e outros. Vai fazer falta!

> O COMEÇO
Para compensar as perdas, temos os ganhos. A editora Carambaia abriu as portas em 2015 focada em publicar "obras esquecidas ou nunca traduzidas de autores em domínio público" - os clássicos da literatura sejam famosos ou obscuros. As tiragens são pequenas, as edições têm projeto gráfico primoroso e a venda é apenas pela internet. Notem que é uma editora muita específica para um público muito específico. Vida longa!

Já abriu as portas, em esquema reduzido, a Patuscada Livraria, Bar e Café - deve começar com força mesmo no ano que vem. A empreitada é do Eduardo Lacerda, editor Patuá. Como o próprio nome já diz vai ser uma livraria e um espaço para celebrar a literatura através de eventos, palestras, espaço de leitura e ponto de encontro para tomar uma bebida. Vida longa (2)!


Outra novidade é a revista digital Peixe-elétrico, empreitada do Tiago Ferro, do Ricardo Lísias e da Mika Matsuzake. A revista sai a cada dois meses e fica à venda nos sites da amazon, apple, google play, kobo, livraria cultura e saraiva. Já está no terceiro número com textos de fôlego. Vida longa (3)!

> EFEMÉRIDES
Sem nenhuma sombra de dúvida, a efeméride mais importante desse ano foi o centenário de nascimento do semiólogo francês Roland Barthes celebrado em 12 de novembro. Ele nunca escreveu um livro de ficção, mas via no texto literário uma espécie de zona livre do "fascismo" do significado - na semiologia tudo é concebido como um sistema de significação seja uma imagem, um gesto, um som, um objeto etc. Em seus últimos anos de vida começou a esboçar algumas ideias para um romance batizado de Vita nova. Infelizmente o projeto foi interrompido pela sua morte abrupta. Seja como for, ele produziu uma obra fundamental para iluminar a sociedade do século XX e XXI, sobretudo se considerarmos todo o conflito linguistico e discursivo que permeia a política, a cultura e a sociedade atual.

Outro fato importante foram os 70 anos de morte do escritor Mário de Andrade o que tecnicamente coloca toda a sua obra em domínio público. Vieram reedições de livros que estavam sumidos, a escolha para ser o autor homenageado da FLIP e até uma carta inédita endereçada a Manuel Bandeira em que ele falava a respeito da sua homossexualidade.


Vale lembrar os cem anos de publicação de A metamorfose, de Franz Kafka. Aquela famosa novela em que depois de uma noite de sonhos intranquilos um caixeiro viajante chamado Gregor Samsa encontra-se "em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso".

Também fez aniversário de 40 anos o romance Lavoura arcaica, de Raduan Nassar - publicado originalmente em 1975.

***

> PRÊMIOS
O ano também foi de prêmios literários - muita gente diz que não dá à mínima, mas sempre tenta descobrir quem ganhou o quê. Vamos a eles:

Bad sex in fiction
Se você acompanha o Casmurros já deve saber que o bad sex premia as cenas mais constrangedoras de sexo da literatura. O ganhador do ano foi List of the lost, de Morrissey - a incursão do cantor e compositor inglês na prosa de ficção (ainda inédito em português). O livro é sobre uma equipe de revezamento de corrida que nos anos de 1970, em Boston, acidentalmente mata um demônio que amaldiçoa todos. A maioria das resenhas foi negativa, portanto, o livro era um forte candidato ao prêmio. O trecho sexual apontado pelos jurados é o seguinte:

‘At this, Eliza and Ezra rolled together into the one giggling snowball of full-figured copulation, screaming and shouting as they playfully bit and pulled at each other in a dangerous and clamorous rollercoaster coil of sexually violent rotation with Eliza’s breasts barrel-rolled across Ezra’s howling mouth and the pained frenzy of his bulbous salutation extenuating his excitement as it whacked and smacked its way into every muscle of Eliza’s body except for the otherwise central zone.’

Nobel
A vencedora foi a bielorrussa Svetlana Alexievich. Ela é autora de livros de não-ficção (grandes reportagens com tratamento quase literário). A decisão da Academia Sueca teve motivações não só políticas considerando que a Rússia está no centro do debate político mundial, mas também estéticas já que a não-ficção tem ganhado papel de destaque ante a ficção.

Man Booker Prize
O prêmio inglês foi para A brief history of Seven Killings, de Marlon James. É a primeira vez em que um autor de jamaicano ganha esse prêmio. O livro conta a história de uma tentativa de assassinato de Bob Marley, em 1976, na Jamaica e as consequências desse evento na guerra de combate ao crack, em 1980, em Nova York e na política jamaicana dos anos 90

National Book Award
O prêmio de ficção foi para Fortune Smiles: stories, de Adam Johnson. Para quem não lembra, ele é o autor de Jun Do (The orphan master's son), livro que ganhou o Pulitzer, em 2013

Pulitzer
O ganhador foi Toda luz que não podemos ver, de Anthony Doerr que antes mesmo de ser premiado já estava nas nossas livrarias - saiu pela Intrinseca com tradução de Maria Carmelita Dias.

Prêmios literários franceses: Goncourt, Renaudot, Médicis e Zorba
As instituições francesas resolveram premiar autores pouco conhecidos foram do mundo francófono. Os vencedores dos prêmios Renaudot, Médicis e Zorba respectivamente foram: D'après une histoire vraie, de Delphine de Vigan; Titus n'aimait pas Bérénice, de Nathalie Azoulai e La terre sous les ongles, de Alexandre Civico. Exceção ao Goncourt que premiou La Boussole, de Mathias Énard - ele tem um livro publicado no Brasil pela L&PM

Prêmio José Saramago
O ganhador desse ano foi As primeiras coisas, de Bruno Vieira Amaral. É o romance de estreia desse jovem autor português - ele tem apenas 37 anos. A imprensa portuguesa fez críticas muito boas a respeito. Alguém para ficarmos de olho.

Oceanos (antigo Portugal Telecom)
Pelo que entendi, o prêmio foi remodelado e no total são quatro premiados - independente de serem livros de prosa ou poesia. Nesse ano, os três primeiros foram de prosa Mil rosas roubadas, de Silviano Santiago; Por escrito, de Elvira Vigna e A primeira história do mundo, de Alberto Mussa

Apca
Associação Paulista de Críticos de Artes escolheu o romance O senhor agora vai mudar o corpo, de Raimundo Carrero e o livro de contos Jeito de matar lagartas, de Antonio Carlos Viana

Fundação Biblioteca Nacional
Os premiados foram o romance Turismo para cegos, de Tércia Montenegro e o livro de contos Sem vista para o mar, de Carol Rodrigues

Jabuti
Parece que nesse ano correu tudo bem, não houve nenhum problema, nenhuma polêmica e os vencedores foram Quarenta dias, de Maria Valéria Rezende e o livro de conto Sem vista para o mar, de Carol Rodrigues que já tinha levado o prêmio Fundação Biblioteca Nacional

SP de Literatura
O vencedor na categoria melhor livro do ano foi Tempo de espalhar pedras, de Estevão Azevedo. Já na categoria autor estreante com mais de 40 anos o vencedor foi Nossa terra – vida e morte de uma santa suicida, de Micheliny Verunschk e na categoria autor estreante com menos de 40 anos o vencedor foi Enquanto deus não está olhando, de Débora Ferraz.



Sesc de Literatura
Os vencedores desse ano foram Antes que seque, de Marta Barcellos e Desterro, de Sheyla Smanioto

***

A caixa de comentários permanece aberta para quem quiser relembrar outros acontecimentos desse ano. Prometo que volto a qualquer momento, antes de 2016 chegar.

*Imagem das capinhas: divulgação / montagem: Rafael R. 
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terça-feira, 15 de dezembro de 2015

PRESENTES DE NATAL 2015 (II)

Muita gente viu as dicas de presentes de natal e escreveu dizendo que estão com problemas do tipo: a) não sabem como presentear aquele amigo que compra livros toda semana e já tem tudo (ou quase tudo); b) aquele amigo que já está cansado de ganhar livro todos os anos; c) aquele amigo que é escritor (esse caso pode ser um misto das duas situações anteriores).

Não tem problema. Montei uma lista com dez dicas de presentes que fogem dos livros de prosa de ficção, mas que passeiam pelos temas “literários” - vamos dizer assim. Para agradar a gregos e troianos.

O serviço inclui imagem do produto, preço e nome da loja onde você pode encontrá-lo. Lembrando que os preços podem variar em função de ofertas promocionais, descontos, compra pela internet, saldão etc. Não se esqueça de ficar atento ao prazo de entrega nos casos de compra pela internet.

Boas compras!


1. Agenda 2016 com gravura de Goeldi Chuva na Livraria Cultura, R$ 54,90

2. Terrário em livro, da Simone Prokropp na Estar Móveis, R$ 420,00

3. Camiseta TV com desenho do escritor Millôr Fernandes na loja do IMS, R$ 39,90

4. Pôster Volúpia e Ilusão, da Hilda Hilst na Obscena Lucidez, R$ 31,00

5. Aparador de livros O pequeno príncipe na Tok Stok, R$ 48,50

6. Caderninhos Um ano de páginas em branco do Cícero Papelaria, R$ 60,00

7. Marcador de livro James Joyce na Estamparia Literária, R$ 14,00

8. Caneca Retrô Vaca na Uatt, R$ 39,90

9. Livro de fotografias Cabanagem, de André Penteado (Editora Madalena / Editora Terceiro Nome). O fotógrafo percorreu as cidades do Pará em busca de marcas que fatos históricos deixaram no presente. O envelope que embala o livro tem duas versões: verde ou vermelha. Pode ser encontrado na Livraria Madalena, R$ 150,00

10. Caixa decorativa Marvel na Etna, R$ R$ 119,90

*Imagem das capinhas: divulgação / montagem: Rafael R.
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segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

PRESENTES DE NATAL 2015

Não, não, não e não! O Casmurros não acabou. É que eu fui ali ler um livro bem longo e o trabalho, mais as coisas da vida foram me chamar. Por isso que eu fiquei ausente esse tempo todo. Enquanto estive fora tantas coisas aconteceram no mundo da ficção que eu levaria uma vida inteira para repassar tudo. Seria um trabalho hercúleo e o resultado um tanto inútil. Afinal, vivemos um tempo frenético, lancinante, hiperconectado e com altas doses de informação. Em questão de segundos a gente sabe que a Dona Maria acabou de levar um tombo lá nos confins da China. Sendo assim, só me resta lançar mão daquela máxima: "notícia velha não faz comida boa".

Por isso, vamos em frente!

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Voltei e já que estou retornando em dezembro, não pude fugir daquela tradição de todos os anos e organizei uma seleção de presentes para o natal. Para animar as comemorações e agitar um pouco a poeria deste blog. No "guia de compras" entraram apenas livros de ficção em prosa lançados ao longo do ano de 2015. A intenção é ajudar na hora das compras de última hora para o amigo secreto e tudo o mais. Com essas dicas você não vai fazer feio - pode ter certeza.

O serviço inclui imagem de capa do livro, título, autor, tradutor, preço e link para o site das editoras. O preço pode variar dependendo da livraria em que você compra em função de ofertas promocionais, programas de fidelidade, descontos, compra pela internet, importação, saldão etc.

Boas compras!

S, de J. J. Abrams e Doug Dorst com tradução de Alexandre Martins e Alexandre Raposo (Intrinseca; R$ 99,90). Um livro do passado é o ponto de encontro de dois leitores do presente que se comunicam por anotações, cartas, recortes de jornal, fotografias, cartões postais, mapas e bússolas. O leitor celebra o livro como objeto físico ao mesmo tempo em que tem o desafio de decifrar o mistério escondido em suas estórias cruzadas.

Contos completos, de Liev Tolstói com tradução de Rubens Figueiredo (Cosac Naify; R$ 139,90). O autor de romances clássicos e monumentais demonstra com sutileza a arte do conto em edição completa, caprichada e definitiva.

As rãs, de Mo Yan com tradução de Amilton Reis (Companhia das Letras; R$ 52,90). A beleza deste romance está concentrada não só na maneira como o autor trata o tema principal da estória - a política do filho único na China -, mas também na sua escrita alucinante, irônica, cheio de humor negro e personagens femininas marcantes.

Viva a música, de Andrés Caicedo com tradução de Luis Reyes Gil (Rádio Londres; R$ 29,90). Espécie de romance de formação em que a jovem Maria del Cármem Huerta abandona a vida pequeno burguesa para dar uma volta no mundo crú, urbano e selvagem de Cali regado a doses industriais de drogas e música.

Luxúria, de Fernando Bonassi (Record; R$ 40,00). Quase uma pequena alegoria do que acontece no momento político-econômico do país: crença na satisfação através do consumo; onda conversadora; crise hídrica e outras tantas coisas mais. É o retorno de Bonassi a literatura de ficção.

O negociante de inícios de romances, de Matéi Visniec com tradução de Tanty Ungureanu (É Realizações; R$ 59,90). Imagine um mundo repleto de softwares que são capazes de escrever livros e você é um aspirante a escritor desanimado da vida. Um belo dia você encontra um sujeito que ditou a frase de abertura dos principais romances de Camus, Kafka, Mann e outros mais. É claro que você vai negociar com ele.

A amiga genial, de Elena Ferrante com tradução de Maurício Santana Dias (Biblioteca Azul; R$ 44,90). Outro romance de formação. A misteriosa escritora italiana que não faz aparição pública conta a estória de uma longa amizade entre duas garotas na cidade de Nápoles, na década de 1950.

Talco de vidro, de Marcello Quintanilha (Veneta; R$ 59,90). Nessa história em quadrinhos uma dentista entra numa crise existencial pesadíssima movida pela inveja. Aos poucos, sua vida estável ganha contornos de terror psicológico em preto e branco.

O dia do gafanhoto e outros textos, de Nathaniel West com tradução de Alcebíades Diniz (Carambaia; R$ 87,90). Uma novela que retrata em contornos bem definidos o bastidor amargo de Hollywood em meio a crise de 1929. De bônus, a edição inclui contos, ensaios e um poema inédito do autor.

A resistência, de Julián Fuks (Companhia das Letras; R$ 34,90). Em 1976, a vida de uma família argentina é atingida em cheio pelo duro do regime político daquele país. As consequências são inúmeras e o filho mais novo será o responsável por revelar os fatos.

O adolescente, de Fiódor Dostoiévski com tradução de Paulo Bezerra (Editora 34; R$ 84,00). Um jovem de 20 anos, filho bastardo, tem o sonho de se tornar milionário para superar a sua origem humilde e arma um plano. Nem tudo vai bem quando ele tenta colocar o projeto em ação. Mais um romance de formação.

*Imagem das capinhas: divulgação / montagem: Rafael R. 

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sábado, 28 de novembro de 2015

CARREGANDO...

Frame de "Mourir Auprès de Toi", dirigido por Spike Jonze, 2011


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