Você está na FLIP e quer um conselho? Tente encontrar uma maneira de assistir a mesa com a escritora franco-iraniana Lila Azam Zanganeh. Ela será a musa dessa edição (me desculpe, Lydia Davis!) como bem adiantou Ronaldo Bressane numa reportagem para a revista Harper's Bazaar Brasil. Razões não faltam: além de muito bonita, simpática e inteligente, Lila fala português com um leve sotaque francês. Ela conta que fez questão de aprender o idioma assim que recebeu o convite da FLIP e começou a fazer aulas com um professor da USP pelo Skype. Não teve muita dificuldade porque domina seis línguas e desde pequena fala francês, persa e italiano. Como se não bastasse, Lila ainda é fã de Vladimir Nabokov (um dos escritores mais importante do século XX) e escreveu um livro muito original sobre o escritor relacionando sua obra ao tema da felicidade - O encantador: Nabokov e a felicidade, saiu pela Alfaguara. Ela divide a mesa com o carioca Francisco Bosco. Se não me engano, ainda há ingressos para a tenda do telão. *Imagem: Divulgação/FLIP.
Conheci o livro de Juli Zeh por causa de uma propaganda que eu vi na MTV. Durava quase dois minutos e tinha como trilha sonora a bombástica canção "Movement", do LCD Soundsystem. Ao final, aparecia em letras garrafais o título A menina sem qualidades. Talvez você não saiba, mas esse esse título faz referência direta ao livro O homem sem qualidade, de Robert Musil, considerado por dez entre dez críticos como a maior obra literária do século XX. Tudo o que você quiser saber sobre esse catatau de 1280 páginas, muito mais comentado do que propriamente lido, está espalhado na internet em resenhas, análises, comentários etc. Sua beleza está escondida num complexo emaranhado de referências políticas, econômicas e culturais do período que antecipa a Primeira Guerra Mundial. Musil queria fazer um livro sobre todas as coisas que existiam no mundo, a coisa levou anos e tomou proporções gigantescas até que seu editor recortou uma parte do projeto e publicou um livro quase enciclopédico por onde desfilam toda a sorte de personagens e histórias. Tem muito humor, apesar de parecer cabeçudo. Pois bem, a obra de Musil entrou em domínio público justamente em 2013 e quando vi a chamada na TV achei que fosse alguma homenagem. Foi assim, que cheguei em Juli Zeh. Na verdade, o livro foi publicado em 2004 e descobri que o título em alemão não é Das Mädchen ohne Eigenschaftenseu, mas Spieltrieb - uma daquelas famosas palavras alemãs que são bem difíceis de traduzir. Muito sabiamente, a edição em português traduzida por Marcelo Backes, tem um apêndice com diversas notas explicativas (que ajudam muito o leitor) e inclui uma rápida explicação do tradutor para a adoção do título. Lá, Backes conta que o título, em tradução literal, a tal palavra em alemão significa algo como 'lidicidade' ou 'pulsão para o jogo'. Acho que as duas possibilidades estariam aquém da beleza da história e dariam ao livro um ar um tanto esquisito. Foi comparando com outras traduções que Backes descobriu a versão francesa com o título de La fille sans qualités. Fazia todo o sentido, na medida em que o livro é quase uma atualização (uma releitura, uma homenagem, um estudo) ao livro de Robert Musil. Além disso, a escolha ajuda na circulação do nome de Juli Zeh - uma revelação da literatura alemã contemporânea inédita no Brasil, até então.
O enredo gira em torno do jogo perverso estabelecido por dois adolescentes Ada e Alev contra seu professor Smutek. Ela tem uma inteligência acima da média, leu todos os clássicos mais importantes da literatura aos 16 anos e sente um vazio existencial incapaz de ser preenchido. Ele encarna o duplo perfeito dela no desprezo pelas pessoas e pelo mundo. Juntos eles começam a seduzir e chantagear Smutek, um professor muito popular no colégio em que estudam. Tal qual Musil, A menina sem qualidades é ambicioso, um liquidificador de referências culturais da música pop e da literatura tendo como mentores Musil e Vladimir Nabokov - o nome da protagonista Ada tem ligação com o romance Ada ou ardor, de Nabokov. De modo resumido, o enredo funciona como uma espécie de sátira sobre os dilemas da crítica ao mundo contemporâneo (o grande vazio de sentido que ronda as pessoas, a crise de identidade, os problemas econômicos etc.), e sobre as dificuldades da adolescência. Muito viram uma filiação a tradição alemã de livros tendo jovens adolescentes como tema principal: vai desde a peça O despertar da primavera, de Frank Wedekind a Debaixo das rodas, de Herman Hesse; passando inclusive por outro livro de Musil, O jovem Törless. A menina sem qualidades teve tanto impacto que já ganhou uma versão para o teatro e para o cinema. Foi Marcelo Backes quem sugeriu para o diretor Felipe Hirsch a adaptação para a série da MTV. A trilha sonora conferiu um ar demasiado 'cult'. No livro, a banda favorita de Ada é Evanescence. *** Aqui tem um trecho de A menina sem qualidades - saiu pela editora Record. ***
Em tempo, além das muitas traduções do alemão para o português, Marcelo Backes acaba de publicar um novo romance, O último minuto - pela Companhia das Letras. Conta a história de um ex-treinador de futebol que, dentro da prisão, relata sua história de vida a um missionário. *Imagem: divulgação.
Face oculta Sylvia Plath é mais conhecida por sua eletrizante obra poética e por seu romance A redoma de vidro. O que nem todo mundo sabe é que ela também manteve uma intensa produção de pinturas e desenhos paralela a sua obra como escritora. Parte desses desenhos serão exibidos pela primeira vez numa exposição na Mayor Gallery, em Londres. Ao contrário do que a gente imagina, os desenhos demonstram um enorme talento escondido. São cenas bem acabadas de natureza morta, vilas, cafés parisienses e objetos isolados. O desenho reproduzido acima curiosamente chama "The Bell Jar" e supostamente tem ligação com um pequeno trecho do romance.
Biblioteca secreta Quais eram os livros favoritos de Aldous Huxley? O que teria influenciado George Orwell? Será que Jorge Luis Borges lia romances policiais? A curiosidade sobre a leitura particular de grandes escritores muitas vezes ronda a nossa cabeça ao fechar de seus livros. A biblioteca secreta de cada um é algo tão pessoal que somente eles poderiam revelar. A correspondência de Samuel Beckett (que chegou as livrarias inglesas nessa semana) revela um pouco desse surpreendente segredo. Beckett cita em suas cartas sua admiração por Andrômaca, de Jean Racine, A volta ao mundo em 80 dias, de Júlio Verne, O castelo, de Franz Kafka e outros livros de Victor Hugo, Louis-Ferdinand Céline, Andre Malraux, William Faulkner e Albert Camus.
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A curiosidade dessas leituras fica por conta de O apanhador no campo de centeio, de J.D. Salinger (que Beckett afirma ter gostado muito) e A casa torta, de Agatha Christie (que ele achou bem cansativo).
Protestos na literatura Em tempos de "Ocupe Wall Street" e protestos pelo mundo, nada melhor de que ler grande literatura em que manifestações de descontentamento ganham destaque no enredo. Assim acontece em À espera dos Bárbaros, de J.M. Coetzee (em muitos livros de Nadine Gordimer também), Barnaby Rudge, de Charles Dickens, A educação sentimental, de Gustave Flaubert, A pastoral americana, de Philip Roth e Shirley, de Charlotte Brontë. Cenas de protesto também estão presentes na literatura nacional, sobretudo na obra de escritores das décadas de 30/40 e 60/70 - quando enfrentamos ditaduras militares.
Ficção áudio eletrônica (2) Na semana passada o projeto EletroFicção nos presenteou com a escritora Ana Paula Maia lendo um trecho do seu romance Carvão animal. Essa semana foi a vez de Luiz Ruffato ler o Fragmento 13 do romance Eles eram muitos cavalos - o escritor acaba de lançar Domingos sem Deus, quinto e último capítulo da série batizada Inferno provisório.
Tumblr quase literários Os tumblrs voltados a assuntos ligados ao universo literário estão pipocando na internet. Depois do hilariante "Tô gato?" - que mostra "os gigantes da literatura antes de sair pra balada" (do tipo imperdível!) - tem "Not Foster Wallace" com sósias do cultura escritor norte-americano e "Nabokov, Bitches" com fotos e frases do escritor russo. Se você conhece algum outro, por favor, mande uma mensagem que prometo postar aqui no blog.
James Franco O ator James Franco adora literatura e disso a gente não tem dúvida. Basta lembrar que ele já escreveu um elogiado livro de contos (Palo Alto: Stories), participou do book trailer de Gary Shteyngart e encarnou Allen Ginsberg no filme Howl. Recentemente Franco gravou de sua cama em áudio e vídeo a leitura do conto “William Wei", de Amie Barrodale para a revista Paris Review - o conto foi publicado na edição nº 197 da revista e está disponível para leitura aqui. o vídeo tem um pouco mais de treze minutos (sem corte ou edição). Quem quiser pode ouvir apenas o áudio clicando aqui.
Lolita na web Um vídeo raro mostra Vladimir Nabokov comentando a capa de diferentes edições estrangeiras de seu romance Lolita. O vídeo acima é apenas uma parte de um programa chamado “USA: The Novel”. Além de comentar as capas, o escritor lê um trecho do mesmo livro e ainda fala sobre diversos outros assuntos. O programa na íntegra está disponível em http://tinyurl.com/3fc9h8q
Ficção eletrônica O jornalista e escritor Luís Henrique Pellanda está com um projeto muito bacana: levar a literatura aos domínios eletrônicos. A idéia é integrar música com leitura de textos e disponibilizar o material no site http://eletroficcao.wordpress.com . O teaser de lançamento é eletrizante. Já tem bastante coisa no site.
A voz da sabedoria Como diz aquele velho ditado: "se conselho fosse bom ninguém dava, vendia". No entanto, quando o conselho vem de alguém como V.S. Naipaul é mais prudente ficar bem atento. O escritor britânico nascido em Trinidad e Tobago tem sete conselhos para escritores iniciantes: não escreva frases longas; cada frase deve fazer uma afirmação clara; não use palavras muito grandes; nunca use palavras cujo significado você não tem certeza; os iniciantes devem evitar o uso de adjetivos, exceto os de cor, tamanho e número; evite o abstrato; todo dia, durante pelo menos seis meses, pratique a escrita desta maneira: palavras pequenas, curtas e claras, frases concretas.
Listas 1 Está na hora de matar a saudade das listas do Flavorwire. Dessa vez, o site preparou uma lista com dez escritores japoneses que você precisa conhecer. Entre eles há escritores já bastante conhecidos por aqui como Kenzaburo Oe e Haruki Murakami; escritores sendo descobertos como Ryu Murakami; e escritores pouco divulgados como Shintaro Ishihara e Natsuo Kirino. A lista completa está disponível em http://tinyurl.com/3g6aynv
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Outra lista interessante do mesmo Flavorwire: as dez melhores entrevistas da revista Paris Review. Reproduzo aquia lista: Jonathan Franzen, Vladimir Nabokov, Marilynne Robinson, Michel Houellebecq, William Faulkner, Kurt Vonnegut, Ralph Ellison, Jorge Luis Borges, Toni Morrison e Joan Didion. A lista completa está disponível em http://tinyurl.com/5tkf2yz
Listas 2 O escritor Edward Docx fez uma lista para o Guardian com os dez personagens mais dementes da história da literatura. A lista foi encabeçada por Don Quixote, personagem de Miguel de Cervantes. Outros citados são: Mickey Sabbath, personagem de Philip Roth; Gregor Samsa, do livro de Franz Kafka; Charles Kinbote, de Fogo pálido - Vladimir Nabokov; Alex, do livro Laranja mecânica - Anthony Burgess. Claro que não poderia faltar o Hamlet do Shakespeare. A lista completa está disponível em http://tinyurl.com/42jx5kg
Vila-Matas em São Paulo O escritor espanhol Enrique Vila-Matas está com as malas prontas para visitar o Brasil. Ele vem a São Paulo para participar de dois eventos: palestra no III Congresso Internacional de Jornalismo Cultural no dia 17 de maio; e evento de lançamento do livro Dublinesca no Instituto Cervantes no dia 18 de maio. O evento contará com uma palestra e sessão de autógrafos. O jornal Rascunho publicou um trecho inédito do romance Dublinesca disponível em http://tinyurl.com/4ywprzf
A paixão do professor Humbert Humbert pela ninfeta Dolores Haze será alvo das nossas conversas novamente. Lolita, o polêmico romance de Vladimir Nabokov, ganhará reedição pela Alfaguara com nova tradução assinada por Sérgio Flaksman.
O livro vai integrar o relançamento da obra de Nabokov pela Alfaguara. Se não me engano, no total serão 13 livros sendo que Os originais de Laura e A verdadeira vida de Sebastian Knight abriram a coleção.
Logo mais a capa, no melhor estilo Alfaguara, deve figurar num site com mais de 150 capas de edições do mundo inteiro.
Se a Playboy americana tem Madame Bovary, a Playboy brasileira tem muito mais. Joca Reiners Terron compartilhou com a gente nada menos do que 25 trepadas literárias que ele selecionou para a revista. A seleção inclui James Joyce, Julio Cortázar, Hilda Hilst, Raduan Nassar, Vladimir Nabokov, Dalton Trevisan e muitos outros. Claro que tem Marquês de Sade, D.H. Lawrence e George Bataille. Emma Bovary certamente ficaria com as faces coradas.
*imagem: pintura de Eugène Delacroix / reprodução.
Vladimir Nabokov levou muito tempo escrevendo seu romance mais conhecido - Lolita. Depois de pronto, ele ainda teve de esperar dois anos até que finalmente conseguiu publicá-lo. O romance saiu primeiro na França pela Olympia Press, uma pequena editora famosa por publicar livros polêmicos. A publicação nos Estados Unidos só aconteceu em 1958 depois que Graham Greene concedeu uma entrevista elogiando bastante o livro. Segundo consta, Lolita vendeu 100 mil exemplares nas primeiras três semanas de lançamento.
Uma série de problemas tiveram origem com esse sucesso repentino. O romance foi caçado e retirado de circulação em alguns países. Muitos viram no livro indícios comunistas - basta lembrar que nesse período o mundo vivia a Guerra Fria e Nabokov é de origem russa. Outros acharam que o livro atacava a moral e os bons costumes das famílias tradicionais. Isso sem mencionar os que tentavam achar correspondências entre a vida do autor e a obra.
Tamanho escândalo somente com Madame Bovary, de Flaubert ou com As flores do mal, de Baudelaire. Talvez alguns romances do beatnicks. Mas mundialmente falando, acho difícil superarem o caso de Lolita.
Para surpresa geral, encontrei uma resenha brilhante sobre Lolita. Foi escrita pelo crítico Wilson Martins para o antigo Suplemento Literário, do Estadão. Também localizei um site que organizou as capas das diversas edições de Lolita publicadas pelo mundo inteiro. Faltou apenas a capa da edição lançada pela coleção Biblioteca da Folha, em 2003 - por isso coloquei a capa no post.
"Em algum momento, ele também parou de fazer a barba - eram os primeiros dias dos anos 1970, e muitos de seus colegas usavam barba, mas Affenlight imaginava que a sua era diferente: não era a barba de um hippie, mas uma antiga, de escritor, do tipo que aparecia nos daguerreótipos esmaecidos daqueles livros que ele estava aprendendo a amar."
Chad Harbach. A arte do jogo.
"(...) (eu mesmo, sem ir mais longe, sou virgem. A não ser que se considere a felação interrompida de Brígida um desvirginamento. Mas isso é fazer amor com uma mulher? Não deveria simultaneamente ter lhe chupado o sexo para considerar que de fato fizemos amor? Para que um homem deixe de ser virgem deve introduzir o pau na vagina de uma mulher e não na sua boca, no seu cu ou na sua axila? Para considerar que fiz de verdade amor devo previamente ejacular? Isso tudo é muito complicado)."
Roberto Bolaño. Os detetives selvagens.
"Por algum tempo a Crítica acompanha a Obra, depois a Crítica se desvanece e são os leitores que a acompanham. A viagem pode ser comprida ou curta. Depois os leitores morrem um a um, e a Obra segue sozinha, muito embora outra Crítica e outros Leitores pouco a pouco se ajustem à sua singradura. Depois a Crítica morre outra vez, os Leitores morrem outra vez, e sobre esse rastro de ossos a Obra segue sua viagem rumo à solidão. Aproximar-se dela, navegar em sua esteira é um sinal inequívoco de morte segura, mas outra Crítica e outros Leitores dela se aproximam, incansáveis, e o tempo e a velocidade os devoram. Finalmente a Obra viaja irremediavelmente sozinha na Imensidão. E um dia a Obra morre, como morrem todas as coisas, como se extinguirá o Sol e a Terra, o Sistema Solar e a galáxia, e a mais recôndita memória dos homens. Tudo o que começa como comédia acaba como tragédia."
Roberto Bolaño. Os detetives selvagens.
"Vou até o armário. Tiro de lá uma caixa vermelha, dentro dela dezessete cadernos dos quais não consegui me livrar. Penso, o que será do passado quando os rastros se forem e ficar apenas a memória. Como se os rastros dissessem alguma coisa. Os rastros contam sempre outra história. Abro um dos cadernos, leio com cuidado o primeiro parágrafo, sinto como se o lesse pela primeira vez. E talvez seja, uma leitura divorciada da emoção, do acontecimento em si. As palavras parecem ter perdido sua substância, como uma fruta que tivesse perdido sua carne e restasse apenas a casca. A casca das palavras é frágil e ressecada. Eu te amo, diz o texto. Talvez entre o eu te amo e o amor propriamente dito haja um espaço intransponível. Talvez o tempo que passa. Mas não apenas. Talvez um inevitável desencontro. Essa incoerência. Leio o texto como se fosse parte de um romance. Talvez seja isso, e quando o amor acaba resta apenas a ficção."
Carola Saavedra. O inventário das coisas ausentes.
"Naquela noite eu não consegui sossegar, fiquei andando pela casa, de um lado para o outro no quarto, subindo e descendo a escada, entrando e saindo dos cômodos do térreo. Parece que eu era maior que o mundo, tudo cabia em mim, e já não havia espaço para eu me expandir. A humanidade era pequena, a história era pequena, o planeta era pequeno, sim, até o universo, que diziam ser infinito, era pequeno. Eu era maior que tudo. Aquele era um sentimento fantástico, mas me deixava inquieto, pois o mais importante nele era a expectativa, o que estava por vir, o que eu faria, e não o que eu estava fazendo ou já tinha feito.
Como aplacar tudo aquilo que me queimava por dentro?
Forcei-me a ficar deitado na cama, a me manter imóvel, a não mexer um músculo, não importava quanto tempo, até que o sono chegasse. Estranhamente, ele não demorou mais que alguns minutos, estava à espreita como um caçador fica à espreita da sua presa distraída, e eu não teria nem percebido o disparo não fosse um súbito tremor no pé, algo que me alertou para meus pensamentos, que estavam em outro mundo, era como se eu estivesse no convés de um barco enquanto uma baleia enorme mergulhava bem perto, nas profundezas, e eu conseguia vê-la, embora isso fosse impossível do local onde me encontrava. Era o começo de um sonho, compreendi, um sonho que se apoderava do meu ego, onde este se transformava no que o cercava, pois foi isso que aconteceu quando eu tremi, eu era um sonho, o sonho era eu.
Tornei a fechar os olhos.
Não se mexa, não se mexa, não se mexa..."
Karl Ove Knausgard. A morte do pai - minha luta 1
"Qual era o problema? Seria a nota estridente e doentia que soava por toda a sociedade o que eu não suportava, aquela nota que se erguia de todas as pseudopessoas e pseudolugares e pseudoconflitos que vivenciávamos ao longo de toda a nossa vida, de tudo aquilo que víamos sem participar, e a distância a que a vida moderna tinha se afastado de tudo o que era nosso, de tudo que era inalienável, do aqui e do agora? Neste caso, se o objeto do meu anseio era mais realidade, mais presença, eu não devia simplesmente aceitar tudo o que me rodeava? E acima de tudo ansiar por coisas mais distantes? Ou será que eu reagia contra o elemento pré-fabricado no mundo, contra a rotina inexorável que seguíamos, que tornava tudo previsível a ponto de termos que investir em entretenimento para sentir uma ponta de emoção? Toda vez que eu saía pela porta eu sabia o que ia acontecer, o que eu havia de fazer. Assim era nos momentos pequenos, eu ia ao supermercado fazer compras, me sentava em um café com um jornal, buscava as crianças no jardim de infância, e assim era nos momentos grandes, desde o primeiro contato com a sociedade, o jardim da infância, até o último contato, a casa de repouso. Ou seria a igualdade que se espalhava mundo afora e que tornava tudo menor à base da repulsa que eu sentia? Quem viaja pela Noruega hoje em dia vê as mesmas coisas por toda parte. As mesmas estradas, as mesmas casas, os mesmos postos de gasolina, as mesmas lojas. Até os anos 1960 era possível notar como a cultura mudava quando se ia até Gudbrandsdalen, por exemplo, com as estranhas construções de madeira preta, tão austeras e tristes, que hoje permanecem enclausuradas como pequenos museus em uma cultura que em nada se diferencia daquela de onde se estava vindo ou para onde se estava indo. E a Europa, que cada vez mais está a caminho de se tornar um grande país igual por toda parte. O mesmo, o mesmo, sempre o mesmo. Ou seria porque a luz que brilhou sobre o mundo e fez com que tudo parecesse compreensível ao mesmo tempo o esvaziou de sentido? Seriam talvez as florestas que tinham desaparecido, os animais que tinham sido extintos, as antigas tradições que jamais voltariam a existir?"