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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

JULGANDO LIVROS PELA CAPA (3): PORTUGAL X BRASIL

Desde que comecei o blog peguei uma bela ideia emprestada e todos os anos faço uma brincadeira comparando as capas dos mesmos livros em edições portuguesas e brasileiras. Para não perder a tradição faço uma nova rodada nesse ano. Vale lembrar que tamanha diferença entre as capas portuguesas e brasileiras não deve causar muito espanto, afinal cada país tem uma cultura visual muito particular e algo atrai os portugueses pode não atrair os brasileiros - evidentemente. O exercício de olhar as capas lado a lado serve para especular sobre o trabalho do capista na hora de resolver o problema de dar uma cara para um livro e vendê-lo para o leitor.

Digo de antemão que não sou especialista no assunto, portanto estou comentando sem muito compromisso. A caixa de comentários está aberta para quem quiser participar - por favor, fique à vontade. As capas das edições brasileiras estão do lado esquerdo.



1Q84, de Haruki Murakami
É difícil encontrar uma imagem que sintetize a epopeia onírica tão característica desse escritor japonês. Os portugueses optaram por uma capa limpa com uma brincadeira envolvendo o título do livro e uma linha vermelha cortando a brancura do fundo. Nós optamos pelas cores e pelo grafismo que lembra a bandeira do Japão - respeitando a clássica moldura das capas da Alfaguara. As duas não chegam perto da escolha certeira do design norte-americano Chip Kidd (ele optou por usar dois rostos japoneses por baixo do título do romance e deu uma cara para as suas personagens principais), mas foram não deixam de ser boas soluções. Empate.


A confissão da leoa, de Mia Couto
Não tem como fugir das garras dessa leoa, por isso ela aparece nas duas capas. Na versão portuguesa ela é selvagem e ameaçadora frente ao pequeno caçador. A cor amarela é uma marca das capas do selo Caminho, mas não deixa de lembrar o sol tropical de Moçambique. A versão brasileira tem a silhueta misteriosa da leoa, quase fictícia frente ao realismo da fotografia dos meninos pobres. Capta mais a atmosfera do romance. Ponto pra gente.



Laços de família, de Clarice Lispector
Demorou um pouco, mas a fama internacional de Clarice Lispector chegou a Portugal. Isso não quer dizer que ela não era conhecida por lá. Sua redescoberta promoveu uma série de reedições pela Quetzal. A foto da jovem Clarice é linda, mas não deixa de conferir ao livro um ar de biografia. Sendo assim, a capa brasileira ganha pontos por criar uma ilustração que resume alguns contos do livro.



Nada a dizer, de Elvira Vigna
Tem como não se render a bela imobilidade tediosa do casal que está na edição brasileira? Tudo se encaixa perfeitamente: o vazio que cerca o desenho, o equilíbrio das cores etc. No entanto, a edição portuguesa não fica atrás com essa fotografia em preto e branco, o olho fechado e o braço que cobre a boca (a cena muda, como alguns diriam). Empate técnico.


On the road - Pé na estrada, de Jack Kerouac
As duas reedições aproveitaram o lançamento do filme de Walter Salles baseado no livro de Jack Kerouac. A versão brasileira seguiu colada ao cartaz oficial do filme - é uma escolha muito comum para ligar um produto ao outro. Em termos de beleza para os olhos funciona como cartaz, não sei como capa de livro. A fotografia da versão portuguesa tem os inseparaveis amigos beatniks (Kerouac e Cassady - acho que o Burroughs também aparece ao fundo) e pareceu mais clássica. Ponto para os portugueses. Não tem como não sentir certo sorriso ao pensar no título Pela estrada a fora.


Passageiro do fim do dia, de Rubens Figueiredo
Não tem muito que falar da capa portuguesa. A ideia pode até ser boa, mas a realização é ruim. Ponto para a capa brasileira com a fotografia do ônibus em movimento.



Axilas e outras histórias indecorosas, de Rubem Fonseca
A capa brasileira é muito elegante. Passeia entre o sublime e o grotesco, tal qual o título do livro sugere. A capa portuguesa parece mais literal. Só que não deixa de ser bonita com essa cor meio dourada e a ilustração chapada da moça em preto - cena do crime? Outro empate - desculpe.



Serena, de Ian McEwan
A história é igual, mas os títulos são diferentes. Não estranhe. É uma questão de tradução. Seja como for, a nossa capa é a melhor de todas as capas que eu já vi (incluindo as edições em inglês). Ela tem a propriedade de não revelar o rosto, de estar bem contextualizada no tempo e no lugar - uma maravilha. Já a capa portuguesa é meio duvidosa. Mais um ponto pra gente.

*Imagens: divulgação e reprodução.
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sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

REVISTAS LITERÁRIAS - ANTES QUE O ANO ACABE



Acaba de pintar nas livrarias a edição "S" da revista Arte & Letra: estórias. O número tem contos de três escritores de língua espanhola: o chileno Manuel Rojas, o argentino Pablo Ramos e o espanhol Rafael Barrett. Outros destaques são H. P. Lovecraft, Alfred Jarry, Graham Greene e Anatole France, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1921.

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Já a Granta inglesa continua investindo bastante na divulgação do número especial com "os melhores jovens escritores brasileiros". Alguns selecionados estão em turnê de lançamento pela Inglaterra e Estados Unidos falando sobre a nova literatura brasileira e a experiência de participar da Granta. Na internet, os editores da revista começaram uma série sobre bons escritores que ainda não foram traduzidos. A estréia foi brasileira com Michel Laub recomendando Daniel Pellizzari, Laura Erber recomendando André Sant’Anna e Ricardo Lísias recomendando José Luiz Passos.

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A revista Esquire publicou no iPad mais um número do suplemento 'fiction for men' ou 'ficção para machos' - como eles mesmos gostam de dizer. A lista conta com os dez livros de ficção e não ficção mais bacanas do ano segundo escolha dos editores. Uma pena que a seleção tenha ficado restrita somente aos autores norte-americanos ou ingleses. Entre os escolhidos estão: Beautiful ruins, de Jess Walter; Capital, de John Lanchester; At last, de Edward St. Aubyn e The three day affair, de Michael Kardos. Os autores são desconhecidos dos leitores brasileiros, mas a lista serve como uma referência pra gente ficar de olho e fugir um pouco da literatura estritamente feminina.

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Também acaba de sair a edição de inverno da Paris Review. Conhecida por suas entrevistas quase definitivas, a revista decidiu inovar neste número publicando trechos de um bate-papo informal e cheio de conteúdo entre Donald Antrim, Elif Batuman e John Jeremiah Sullivan - três dos melhores escritores e ensaistas norte-americanos do momento. Tem também ficção inédita de James Salter.

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Falando em revistas, vocês viram que Clarice Lispector está na capa da revista BookForum?

*Imagem: divulgação.

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quinta-feira, 31 de maio de 2012

QUERELAS DO BRASIL OU DA LITERATURA BRASILEIRA


Será Clarice Lispector capaz de romper com o nosso complexo de vira-latas?

Fiquei pensando nisso depois de ler um artigo no jornal Los Angeles Times sobre o relançamento de quatro livros dela nos Estados Unidos em nova tradução e novo projeto gráfico -
Perto do coração selvagem (tradução: Alison Entrekin), Água viva (tradução: Stefan Tobler), A paixão segundo G.H. (tradução: Idra Novey) e Um sopro de vida (tradução: Johnny Lorenz). Os livros estão saindo pela editora New Directions com coordenação e supervisão de Benjamin Moser que além de ser o autor da biografia Clarice, também traduziu para o inglês A hora da estrela, lançado ano passado pela mesma New Directions.

O artigo do L.A. Times, além de muito elogioso, apresenta Clarice Lispector aos leitores norte-americanos, conta um pouco do enredo de cada livro, fala das novas traduções e termina dizendo que a escritora deveria ser colocada nas prateleiras entre Franz Kafka, James Joyce e Virginia Woolf - três grandes escritores do século XX.

Aqui eu volto para o ponto inicial, pois como todo mundo sabe o brasileiro tem uma tendência a tratar sua própria literatura com certo descaso. Parece que a gente lê, crítica e comenta com muito entusiasmo os autores estrangeiros porque achamos que a literatura do lado de lá sempre é mais verdinha. Dizemos que os argentinos tem a melhor literatura da América Latina, ficamos com inveja dos chilenos e seus feitos, veneramos os norte-americanos e admiramos a literatura europeia (dividindo nossa atenção de forma equivalente entre ingleses, franceses, espanhóis e alemães). Os argentinos conquistaram a América do Norte e a Europa com Borges, Cortázar, César Aira e companhia. Os chilenos estão dando um baile com Bolaño e Alejandro Zambra. Os norte-americanos tem os seus milagrosos cursos de escrita criativa. Os europeus tem a tradição. E o Brasil?

A coisa muda bastante de figura quando um gringo vem e nos diz que temos grandes autores. Dessa maneira somos capazes de reconhecer o nosso talento e beleza. Aceitamos aquele escritor que estava bem ali, debaixo do nosso nariz. Só que mesmo quando isso acontece nosso complexo vira-latas anda a espreita e pensamos: a gente de fato dá alguma bola para a literatura nacional? Será que esse autor consegue retirar nossa literatura da periferia para colocá-la no centro?

Fique claro que estou me referindo apenas a ficção contemporânea - mas com uma cabeça na Clarice Lispector.

O problema (sabiamente batizado por Nelson Rodrigues de complexo vira-latas) não é novo. Pelo contrário: é mais ancestral do que a gente pode imaginar. Remete as formações da nossa literatura onde a questão da identidade sempre foi um conflito. Como se reconhecer em algo que a gente não consegue definir exatamente? Para ser nacional precisa ter índios, mulatas, carnaval, futebol e pobreza? Como romper essa barreira? Na impossibilidade de vencer o desafio proposto ouvimos aos montes que a literatura brasileira comparada a estrangeira é ruim. Sobretudo da crítica acadêmica: Antonio Candido afirmando que, “comparada às grandes, a nossa literatura é pobre e fraca. Mas é ela, não outra, que nos exprime”; e porque não lembrar também do caso Alcir Pécora na série "Desentendimento", do Instituto Moreira Salles - resumindo a conversa Pécora acha que a literatura perdeu importância. Daí não me espanta os jovens críticos da internet (e da acadêmia) e o pessoal dos cadernos culturais dedicarem laudas e mais laudas à literatura estrangeira.

(Aqui eu faço um parênteses para lembrar não só de Nelson Rodrigues, mas também de Tom Jobim e Caetano Veloso reclamando do mesmo problema em relação a nossa cultura. Caetano, certa vez, disse que os cadernos culturais do país dedicavam páginas inteiras a bandas que não tinham tanta importância em seus países de origem e não dedicavam uma linha crítica aos brasileiros. A transposição cabe para a literatura).

Estou juntando numa mesma panela vários ingredientes diferentes, promovendo digressões, borrando matizes, generalizando. Mas não deixo de pensar que a enorme repercussão de Clarice Lispector nos Estados Unidos deve esbarrar na Inglaterra e possivelmente no resto da Europa. Assim, venceríamos nossa vergonha em relação a literatura estrangeira e imbuídos de algum orgulho poderíamos dizer: "somos bonitos pra caramba". Aliando isso ao nosso belo momento econômico, a força da nossa jovem literatura (que está fervilhando de bons escritores - acreditem!) e aos nossos tímidos avanços no campo da leitura teremos uma combinação perfeita para mudar nosso descaso com nossa própria literatura.

Para esclarecer: é verdade que Clarice Lispector faz um tremendo sucesso aqui no Brasil e goza de um grande número de leitores devotos. Quando publicou seu primeiro livro ganhou atenção merecida da crítica. Também não é a primeira vez que a sua obra está sendo traduzida para o mundo inteiro. Além disso, outros países (outra culturas) já alimentam interesse por ela faz tempo - acho que sobretudo na França. Jovens escritores da Argentina também tem admiração e chegam a citá-la como influência. A edição do ano passado do FILBA teve mesas temáticas dedicadas a sua obra.

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Em tempo, críticas e notícias a respeito do relançamento das obras de Clarice Lispector nos Estados Unidos saíram nas páginas gringas da Vogue, da Publisher's Weekly, da Quarterly Conversation e nos blogs The Millions e da editora Tin House. Benjamin Moser também foi convidado para um podcast muito bacana chamado That Other Word. Contos dela também apareceram recentemente na Paris Review e no projeto Recommended Reading (do pessoal da Electric Literature).

As edições da New Directions estão ganhando textos de apresentação de Caetano Veloso, Jonathan Franzen, Pedro Almodovar, Colm Toíbín e Orhan Pamuk.

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Não posso deixar de citar o caso de Woody Allen que numa entrevista do ano passado afirmou que tinha adorado Memórias Póstumas de Brás Cubas. Será que isso tornou Machado de Assis mais popular?

Também quero lembrar dois textos do qual peguei emprestado algumas ideias: "Notícia da atual literatura brasileira: instinto de internacionalidade", de Sérgio Rodrigues (uma resenha sobre romance de João Paulo Cuenca com brilhante descrição de toda a trajetória da literatura brasileira desde a sua formação e os problemas de identidade nacional até uma luz do fim do túnel, uma saída para o impasse com o "instinto de internacionalidade" - recomendo vivamente, inclusive é possível reconhecer certos trechos que retirei dali); e "A irrelevância da literatura brasileira", de Joca Reiners Terron (com ideias e explicações da maior importância - inclusive no fato de César Aira achar nossa literatura a melhor do continente e comentar seu entusiasmo com Sérgio Sant'Anna cuja obra ele mesmo está traduzindo e divulgando. Será que vamos ler mais Sérgio Sant'Anna?).

*Imagem: reprodução do Google.

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sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

NOTAS #34

Watt
O Harry Ransom Center na Universidade do Texas disponibilizou na internet um manuscrito desconhecido de Watt, segundo romance de Samuel Beckett. Escrito durante a Segunda Guerra, entre 1940 e 1945, o manuscrito é composto por 945 páginas divididas em seis cadernos e folhas soltas. Tem rabiscos, desenhos e muitas anotações. Watt foi publicado apenas em 1953 pela Olympia Press apesar de ter sido concluído no final da Guerra.

Leitura de areia
As férias estão chegando ao fim, mas ainda dá tempo de aproveitar os últimos dias de praia para tirar o atraso da leitura. Foi pensando nisso que a revista VIP preparou uma seleção bem bacana de livros "fáceis de acompanhar". Tem A ilha do tesouro, de Robert Louis Stevenson em edição caprichada da Record; A gente se acostuma com o fim do mundo, de Martin Page em tradução para o português de Bernardo Ajzenberg; Ficção de polpa: Crime!, reunindo contos de vários autores que saiu pela Não Editora e muitas outras coisas. Tem até e-books para os mais tecnológicos. A lista completa está disponível em http://tinyurl.com/7qbu8ao

Lispector em Portugal
Continuando a boa fase internacional, a obra da escritora Clarice Lispector acaba de ser adquirida em Portugal pela editora Relógio d'Água. Até 2018, a editora promete reeditar os livros de Clarice e lançar outras obras de ficção, os livros infanto-juvenis e demais compilações de textos.

Ficção árabe e asiática
O mundo árabe vive um momento de grandes mudanças desde o ano passado com a explosão de movimentos sociais organizados exigindo o fim da corrupção e da tirania em seus regimes políticos. É nesse importante contexto que vai acontecer a quinta edição do International Prize for Arabic Fiction. Bem distante do exotismo a ficção contemporânea produzida nesses países reflete sobre questões de identidade pessoal, do exílio e das transformações políticas. Nesse ano concorrem ao prêmio The vagrant, de Jabbour Douaihy e The druze of Belgrade, de Rabee Jaber (ambos do Líbano); Embrace on Brooklyn Bridge, de Ezzedine Choukri Fishere e The Unemployed, de Nasser Iraq (ambos do Egito); The Women of al-Basatin, de Habib Selmi (da Tunísia); e Toy of Fire, de Bashir Mufti (da Argélia).

O vencedor será anunciado em 27 de março.

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A região compreendida pelo sul e leste da Ásia também passa por um bom momento na ficção. O tradicional Man Asian Literary Prize teve dificuldades para escolher cinco concorrentes na edição desse ano. Tanto que a organização do prêmio decidiu incluir sete livros na lista final para revolver o problema. A decepção foi a ausência de 1Q84, de Haruki Murakami - um fênomeno de vendas e sucesso de crítica, merecia ao menos uma indicação. Concorrem ao prêmio The wandering falcon, de Jamil Ahmad (Paquistão); Rebirth, de Jahnavi Barua, The sly company of people who care, de Rahul Bhattacharya e River of smoke, de Amitav Ghosh (os três da Índia); Please look after mom, de Kyung-Sook Shin (Coréia do Sul); Dream of Ding Village, de Yan Lianke (China); e The lake, de Banana Yoshimoto (Japão).

O vencedor será anunciado em 15 de março.

Encontro de gigantes
Quando dois grandes escritores se encontram a conversa pode ser sobre qualquer assunto. De amenidades a questões profundamente filosóficas. E quando Henry Miller encontra Anaïs Nin? Um vídeo mostra a conversa dos dois em torno de sonhos e morte... http://tinyurl.com/8xt6o7a

Bad boys e bad girls da literatura
Ao contrário do que muita gente pensa nem só de bons mocinhos vive a literatura. Há também os garotos malvados (ou bad boys, se você preferir). O blog Flavorwire com suas divertidas listas escolheu dez escritores que provocam um verdadeiro reboliço no mundo literário e sempre dão o que falar. Entre outros, a lista tem o hors concours Michel Houellebecq, a família Kingsley e Martin Amis, Norman Mailer, Salman Rushdie e quem diria até Jonathan Franzen. A lista completa está em... http://tinyurl.com/6pxlrmf

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As mulheres também não ficam atrás. O mesmo Flavorwire preparou uma lista com as mulheres más da literatura. Tem Alice Walker, Sylvia Plath, Simone de Beauvoir e outras mais... http://tinyurl.com/73s3ob8

*Imagem: reprodução do Harry Ransom Center.
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terça-feira, 29 de novembro de 2011

A HORA DE CLARICE (2)

Tem muita gente que gosta de Clarice Lispector, mas também tem muita gente que não gosta - em parte pelo grande culto que os leitores, críticos e estudantes dedicam a sua figura seminal dentro da literatura brasileira, em parte por aquela quantidade enorme de spams, e-mails, cartinhas de namorado(a) e correntes apócrifas que circulam na internet. Vale a máxima "quem nunca recebeu uma mensagem de tipo?". Um pouco da mesma aversão deve acontecer em maior ou menor medida com Carlos Drummond, Fernando Pessoa, Rubem Fonseca e Luis Fernando Veríssimo que costumam lotar nossas caixas de mensagens, mural do Facebook e tudo o mais.

Para quem gosta tudo certo. Para quem não gosta um aviso: estamos às vésperas da primeira comemoração do dia "A hora de Clarice" (próximo dia 10 de dezembro, data em que ela nasceu). Portanto, ela será um assunto bastante presente. Já falei disso por aqui.

A antipatia à Clarice Lispector também existe por causa da enorme influência que ela exerceu nos escritores que vieram depois dela. Sempre dizem: "Clarice matou uma geração de escritores". Ainda hoje a gente escuta um pouco daquela voz narrativa - lembro, por exemplo, do livro que avaliei para o Gauchão de Literatura 2011; Clarice era ao mesmo tempo enredo e forma de um dos livros.

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Para dar mais brilho as comemorações uma notícia muito bacana: a charmosa revista Paris Review incluiu na sua edição de inverno dois contos de Clarice Lispector. A escritora figura ao lado de Paul Murray, Adam Wilson e Roberto Bolaño (com a quarta e última parte do romance O terceiro Reich - que a gente já está lendo desde o começo do ano). A edição ainda tem uma entrevista com Jeffrey Eugenides, o escritor mais comentado do ano na imprensa anglófona por conta de The Marriage Plot depois de Haruki Murakami. Aliás, um comentário à parte: em se tratando de Paris Review deve ser uma entrevista matadora.

*Imagem: reprodução daqui.
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terça-feira, 22 de novembro de 2011

A HORA DE CLARICE

A exemplo do que aconteceu com Carlos Drummond de Andrade, no DiaD, o Instituto Moreira Salles e editora Rocco promovem no próximo dia 10 de dezembro "A hora de Clarice". O intuíto do evento é comemorar o aniversário da escritora Clarice Lispector e promover sua obra em todo o país. A programação prevê palestras, dramatizações, contações de histórias, além de ações na internet e nos pontos de venda. Por enquanto, foram confirmados José Miguel Wisnik, José Castello, Nadia Gotlieb e Pedro Vasquez - mais atividades serão anunciadas em breve.

O evento acontece no momento em que a obra da escritora também está em evidência internacional. Alguns escritores gringos já confessaram ter sofrido influência de Clarice. Os festivais Europalia e FILBA desse ano tiveram mesas dedicadas a ela. A editora norte-americana New Directions, em projeto coordenado por Benjamin Moser, pretende relançar em 2012 cinco livros dela com nova tradução e novo projeto gráfico (aliás, a biografia escrita por Moser pode virar filme). Obras dela também estão saindo na Espanha.

Por aqui, as obras completas de Clarice saíram pela editora Rocco num projeto que terminou em março do ano passado.

*Imagem: reprodução da Wikipédia.
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segunda-feira, 3 de outubro de 2011

CLARICE LISPECTOR GANHA O MUNDO


Clarice Lispector apareceu no caderno Babelia por conta de alguns lançamentos na Espanha. A editoria Siruela, que já tinha publicado grande parte da ficção da escritora, acaba de lançar Só para mulheres e Minhas queridas (ambos lançados por aqui pela Rocco - que relançou toda a obra da escritora com novo projeto gráfico). O primeiro livro resgata uma serie de crônicas e textos escritos por Clarice para diversos jornais usando pseudônimos; o segundo reúne a correspondência dela com suas irmãs. Na Espanha também esta saindo uma biografia escrita por Laura de Freitas.

Para completar a boa fase, vi que a editora americana New Directions pretende relançar em 2012 cinco livros de Lispector com nova tradução e novo projeto gráfico (foto acima). Benjamin Moser vai cuidar da tradução e o projeto gráfico fica a cargo de Paul Sahre. Haverá texto de introdução de escritores renomados - Colm Toibin será um deles.

Isso porque nem falei que a biografia de Clarice escrita por Moser poderá virar filme.

* Imagem: reprodução.
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domingo, 18 de setembro de 2011

ANDRÉS BARBA E OUTROS ESCRITORES NA SOMBRA


O caderno Babelia, do jornal El País, traz em sua capa uma lista de escritores espanhóis admirados por seu pares, com boa trajetória desde a primeira publicação, reconhecimento de crítica, prêmios na bagagem e relativo sucesso internacional, mas que ainda não se tornaram um sucesso entre os leitores espanhóis.

A história parece mais comum do que a gente imagina. Sobretudo se pensarmos em tempos de super produção de livros, crescimento vertiginoso de editoras (e selos) e do aparecimento de escritores de boa qualidade. Tudo se complica! A reportagem tenta encontrar razões para explicar o fenômeno, só que no fim prevalece o imponderável.

No blog Painel das Letras, Josélia Aguiar fez um levantamento e descobriu que dos autores citados na reportagem apenas Andrés Trapiello tem livros publicados no Brasil. Buscando mais informações por aqui, descobri que o livro Bingo!, de Esther Tusquets saiu em Portugal e por aqui pelo selo Minotauro - do grupo Almedina. Aliás, esse selo tem uma coleção inteiramente dedicada a escritores espanhóis.

Andrés Barba ganhou tradução para o português por causa de um conto publicado na antologia da Granta com os melhores jovens escritores em espanhol - lançada aqui pelo selo Alfaguara. Barba já esteve no Brasil participando de um encontro de escritores brasileiros e espanhóis no Instituto Cervantes - junto com ele estavam Luis Magrinyá, Marcos Giralt e Marta Sanz, todos apareceram na lista do Bebelia. Tem até entrevista de Barba para um programa de TV em Minas Gerais (junto com Marta Sanz).

Sobre Andrés Barba, descobri uma curiosidade: entre os escritores que o influenciaram está Clarice Lispector. Uma crônica escrita por ela serviu como inspiração para que ele escrevesse o livro As mãos pequenas - também publicado pelo selo Minotauro, dentro da coleção de escritores espanhóis (portanto, pode ser que em breve esse livro apareça em nossas livrarias).

Quem ficou curioso, pode ler o conto publicado pela Granta (em inglês - The coming flood) aqui.

*Imagem: selo Minotauro.

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sexta-feira, 4 de março de 2011

CONTOS DE CARNAVAL


Juro que eu estava preparando um post para falar a respeito dos foliões amantes da literatura. Enquanto elaborava umas ideias na minha cabeça me deparei com a pequena antologia online: contos brasileiros de carnaval orgazinada pelo Sérgio Rodrigues do blog Todoprosa. A ideia é muito boa e inclui contos de João do Rio, Clarice Lispector, Aníbal Machado, Lygia Fagundes Telles, Rubem Fonseca e até um conto inédito de autoria do próprio Sergio Rodrigues - ainda inédito em livro.

Pegando carona, aqui vai a minha contribuição: Duas cartas, de Luis Henrique Pellanda que foi publicado em Macaco ornamental - livro de estréia do escritor que é de Curitiba. Li recentemente e recomendo bastante não só pelo enorme talento do Pellanda, mas também porque tem um outro conto de carnaval chamado Embaixadores de Xanadu. Infelizmente não achei na internet.

Outro conto que pode integrar a antologia online é Um dia de entrudo, de Machado de Assis. Quem disse que ele também não escreveu o seu.

Alguém se lembra de mais algum?

*imagem: reprodução Google.
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sábado, 26 de fevereiro de 2011

NOTAS #19



Capas vivas
Calma, leitor! A imagem acima pertence a Thomas Allen, um artista plástico americano. Ele faz montagens usando apenas recortes de capas de livros vintage. Depois de selecionar, recortar com cuidado, montar e fotografar o resultado final causa uma impressão de tridimensionalidade. As capas estão vivas e interagindo. E tem uma montagem melhor que a outra. Descobri o cara no blog do Almir de Freitas - Não me Culpem pelo Aspecto Sinistro.

A estante sentimental
Milton Hatoum está preparando um novo romance que será publicado ainda esse ano. Um trecho desse novo livro foi publicado na seção "_ficção" da revista Piauí com o título de Aura. À coluna Painel das Letras, assinada por Josélia Aguiar, o escritor amazonense confessou dez livros que considera sentimentalmente importantes. Entre eles estão: Coração das trevas, de Joseph Conrad; A educação sentimental, de Gustave Flaubert; Luz em agosto, de William Faulkner; Infância, de Graciliano Ramos; Dublinenses, de James Joyce e O processo, de Franz Kafka. A lista completa está disponível em http://tinyurl.com/4h4qbjj

Questão de gênero
Você escreve como homem ou como mulher? Inspirado por um artigo publicado na revista do New York Times, Shlomo Argamon e Moshe Koppel desenvolveram um algoritmo capaz de detectar o gênero de um escritor. Para fazer um teste, peguei o trecho inicial de O som e a fúria, de William Faulkner. O resultado final foi: "o autor desse trecho é homem". Outro teste, dessa vez com um trecho de Pornopopéia, de Reinaldo Moraes. Confirmado: "o autor desse trecho é homem". Para não ter mais dúvida, outro teste com um trecho de Felicidade clandestina, de Clarice Lispector. O resultado foi: "o autor desse trecho é homem". Será que o algoritmo não entende a língua portuguesa? O formulário para os testes está disponível em http://tinyurl.com/yafgus

Podcast
A revista New Yorker convidou a escritora Anne Enright para participar do seu podcast de ficção. Cada mês a "ultracool" editora Deborah Treisman convida escritores para escolherem um conto que já tenha sido publicado pela revista. Anne Enright escolheu The swimmer, de John Cheever. Ela disse que leu o conto, assistiu a adaptação do conto num filme de 1968 estrelado por Burt Lancaster e ficou impressionada com a melancolia e a beleza da história. O conto também está na coletânea 28 contos de John Cheever, com seleção de Mario Sergio Conti publicado pela Companhia das Letras. O conto se chama O nadador e a tradução foi feita por Jorio Dauster. O podcast com leitura de Anne Enright está disponível em http://tinyurl.com/49rcxvh

Velhos safados
Quase toda semana o blog Flavorwire nos manda um post bacana. Dessa vez, eles fizeram uma lista com dez escritores que pode ser que sejam velhos bem safados. A listatem algumas escolhas evidentes como Charles Bukowski, Geoffrey Chaucer, Vladimir Nabokov e Henry Miller. Porém, causa surpresa saber que James Joyce, John Updike, Michel Houellebecq, Philip Roth e até William Shakespeare já tenham sofrido das fraquezas da carne. Alguém se arrisca a fazer uma lista parecida com escritores brasileiros?



Videogame literário
Uma das notícias mais comentadas das últimas semanas tem sido o game baseado no livro O grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald. Não é a primeira vez que essa história vira um jogo, a empresa Big Fish Games já desenvolveu um jogo para PC. A diferença é que a nova versão tem mais "jogabilidade" e os desenhos têm aquele apelo vintage do Nintendo antigo. Será que Fitzgerald é o escritor preferido dos gamemaníacos?

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Em tempo, o blog do caderno Prosa e Verso descobriu um outro jogo baseado na peça Esperando Godot, de Samuel Beckett. Com certa nostalgia, o visual do jogo imita o bom e velho Atari. Ah! E você pode escolher se quer jogar com o Didi ou com o Gogo - apelido das personagens Vladimir e Estragon. O jogo existencialista baseado no teatro do absurdo está disponível em http://tinyurl.com/4dl4pxl

*imagens: reprodução do Google.

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sexta-feira, 28 de maio de 2010

A REDESCOBERTA DE CLARICE LISPECTOR


A editora Rocco finalizou em Março/2010 o projeto de reeditar os livros de Clarice Lispector. As novas edições ganharam capas com ilustrações bem legais e alguns romances foram relançados em tratamento especial - por exemplo, o romance A hora da estrela que vem acompanhado de um áudio-livro.

É difícil conhecer alguém que tenha lido Clarice Lispector e não tenha gostado. Acho que ela é o tipo de escritora, que por conta da maneira como escreve, aflora a sensibilidade dos seus leitores. Nunca me esqueço de Carla Camurati, a diretora de cinema, dizendo sobre a sua predileção pela escritora. Aliás, tem um texto dela falando sobre o conto de Clarice que ela mais gosta na coletânea Clarice na cabeceira - também editado pela Rocco.

Tenho vários romances e contos preferidos. A hora da estrela, primeiro o filme (direção de Suzana Amaral) e depois o livro, foi a minha porta de entrada no universo da escritora. Depois veio Amor, um conto do livro Laços de família, que me deixou inquieto por semanas. Em seguida foi Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres. Nunca me esqueço meu medo diante de A paixão segundo GH. E meu entusiasmo diante de Água viva. E tantos outros.

Essa reedição é uma chance para novos leitores descobrirem Clarice (maneira como todos a tratam intimamente). E uma chance para lermos Clarice com olhos renovados. Acho que todas as vezes que relermos será sempre uma redescoberta.

Se você não conhece, mas quer conhecer, recomendo que começe pelos contos.
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