Mostrando postagens com marcador jennifer egan. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador jennifer egan. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

LITERATURA EM NOVAS FORMAS DE DISTRIBUIÇÃO


"Para a literatura prosperar na era digital ela precisa abraçar algo da sensibilidade da cultura pop e adotar novas formas de distribuição coerentes com a maneira como as pessoas consumem conteúdo."

A frase acima tem qualquer coisa de futurista e visionária. Parece que foi dita por um daqueles gurus da tecnologia que escrevem laudas na revista Wired. Na verdade, foi dita pelo jovem Scott Lindenbaum, um dos fundadores da Electric Literature, numa pequena conversa que tive com ele em junho do ano passado. Voltei a pensar nessa conversa por causa de "Caixa preta", o conto de Jennifer Egan que será postado a partir de hoje no twitter da editora Intrínseca com tradução de Juliana Romeiro.

(Falei dessa experiência envolvendo a autora num outro texto)

Não sei se a Jennifer conhece o Scott, provavelmente conhece porque a revista dele faz bastante sucesso nos Estados Unidos. Seja como for, ela captou o espírito desses tempos e lançou mão do twitter para publicar uma história de ficção (estimativas recentes apontam que o twitter é uma rede social com 100 milhões de usuários no mundo todo, ou seja, muita gente consome conteúdo por esse meio). Além disso, ao invés de simplesmente distribuir, ela experimenta outras maneiras de criar ficção por essa "ferramenta" usando narrativa em forma de notas, transportando uma personagem para um gênero narrativo diferente, publicando a história de maneira serializada etc. O conto foi publicado pela primeira vez no twitter da New Yorker e ganhou uma versão integral na edição impressa e no site da própria revista.

Egan usou um caderno japonês que tinha oito retângulos em cada página para escrever o conto. Curiosamente, antes mesmo de existir o twitter e o iPhone, os japoneses popularizaram uma forma de ficção que naquele tempo ficou conhecida como “romances de celular” (keitai shosetsu, em japonês) - uma espécie de pré-história da ficção nos meios eletrônicos. As histórias eram curtas e os leitores ainda podiam interagir, para termos uma ideia de qual avançado era o negócio. O sucesso foi tão grande que esses romances ganharam até versão impressa com vendas astronômicas.

Não sei dizer se a moda continua ou ganhou novos formatos. Afinal, os celulares de hoje tem telas maiores, cores e muitos aplicativos com uma infinidade de recursos. As pessoas também gastam muito mais tempo conferindo os aparelhos em busca de novas mensagens, fotos, check-ins etc. Aposto que todo mundo conhece um fulano que fica mexendo no celular durante a primeira meia hora do happy hour. Dessa forma, Egan tem de concorrer desonestamente com todo o resto. Só que não seria de todo mal acompanhar uma história escrita por ela enquanto a gente aguarda naquela fila sem fim para ver a exposição dos pintores impressionistas, no CCBB-SP.

O caderno Ilustríssima adiantou um trecho da tradução. Parece óbvio para alguns, mas os tuítes traduzidos conseguem ficar dentro dos 140 caracteres (dizem que ao traduzir um texto para o português ele aumenta em torno de 20% - alguém confirma a informação?).

Serviço: "Caixa preta" será transmitido diariamente pelo twitter da editora Intrínseca entre os dias 20 e 30 de agosto, das 22h às 23h, e comercializado em e-book a partir de 31 de agosto.

*P.S.: Sérgio Rodrigues teceu comentários super elogiosos sobre o conto. Tem tudo para ser uma experiência bacana - uma pena que esteja concorrendo com o horário da novela.

*P.S.: A bela capa de "Caixa preta" (reproduzida aqui em cima) ficou a cargo de Rafael Coutinho. Uma pena que a gente não vai vê-la em papel impresso - salvo se a gente imprimir na nossa casa.

Share/Save/Bookmark

quarta-feira, 11 de julho de 2012

BALANÇO OU O QUE EU VI DA FLIP 2012

Juro! Eu estava escrevendo um balanço sobre "o que eu vi da FLIP" (ainda dá tempo?) e começaria o texto dizendo que o escritor Francisco Dantas foi o que melhor sintetizou o espírito dessa edição ao dizer que não podemos exigir dos escritores muita desenvoltura diante de uma platéia e um microfone. Só que o Ubiratan Brasil, do Estadão, teve a mesma ideia e correu na minha frente. Uma pena! Seja como for, resolvi eleger o texto do Bira (ouvi um monte de gente chamando ele assim) a melhor análise da FLIP. Inclusive, assinaria embaixo do título da reportagem - "FLIP mantém desafio de balancear fama e intimismo".

Entendo que o público, muitas vezes, espera uma tremenda performance por parte dos escritores convidados. Acontece que alguns conseguem e outros não. Resta a pergunta: será que isso realmente torna a Festa mais desinteressante - para não dizer monótona?

Do que eu vi, achei a mesa com Gary Shteyngart e Hanif Kureishi muito bem humorada (do jeito que deveria ser e que o público queria que fosse, me parece). Em contrapartida, Jonathan Franzen... bem, Jonathan Franzen não agradou todo mundo, mas entendo as razões dele.

Não deixo de achar graça nos mediadores que ao começo de quase todas as mesas diziam "estamos diante do maior autor..." ou "estamos diante de grandes autores...". Ok, a gente sabe que eles são importantes do contrário não estariam por ali, certo?

Outro assunto que dominou todas as mesas foi o dilema da pátria: devemos pertencer ou não pertencer a este lugar, eis a questão? Fique claro que não estou falando com ironia - o assunto rendeu boas discussões e demonstrou como boa literatura pode surgir desses deslocamentos. A literatura (ou o gesto de escrever um livro) como forma de terapia também me pareceu meio dominante. Muitos escritores falaram a respeito.

***
Agora mudando um pouco para a cobertura da FLIP pelos jornais.

Como tudo na vida, um festival (seja literário ou não) sempre é uma experiência muito particular. Cada participante tem um modo muito distinto de ver as coisas. Quem esteve em Paraty pensou uma coisa, quem viu a transmissão das mesas pela internet pensou outra e quem acompanhou pelos jornais (ou pela internet nos blogs, Twitter, Facebook e afins) pensou outra completamente diferente. Fica difícil achar um discurso central que atenda todas as percepções.

Por isso, acho estranho alguém afirmar que a FLIP foi monótona, que um defeito foi mesas unindo escritores com afinidades (cheias de elogios mútuos), erros e mais erros e tudo o mais. Li um monte de gente dizendo essas coisas. Fiquei com a impressão de que a imprensa sempre espera conflitos nas mesas para criar um fato jornalístico e ter notícia (ter sobre o que falar). Afinal, se um escritor só fala das qualidades do outro não tem muito como atrair atenção de todo mundo. Ao lado de Jennifer Egan, Ian McEwan até fez uma piada sobre isso dizendo "Não seria muito mais divertido se odiássemos o trabalho um do outro?".

Entendo que a ideia de mesas conjuntas pressupõe um deba

te, mas tenho a impressão que uma parte da platéia está mais interessada em ver o escritor falando sobre qualquer coisa do que debatendo assuntos propriamente (cof!) literários. Valter Hugo Mãe, para citar um caso, falou sobre o desejo de ter filhos, sobre a alegria dos brasileiros, leu carta e conquistou a platéia. Não houve debate, discussão ou polêmica e desconheço uma pessoa que não tenha gostado (quer dizer, teve gente que não gostou só que ele tinha uma platéia inteira a seu favor).

Discursos políticos e "conflitos" (não propriamente por discordância ou saia justa entre autores) estiveram presentes na mesa com Adonis e Amin Maalouf (não vi, estou me baseando no texto do Bira e nas coisas que li) e na mesa com Zoé Valdés e Dany Laferrière (vi e achei bastante política a postura dela ao falar francês - ela é cubana - e a força do discurso dele falando sobre a ditadura haitiana). Evidentemente, nenhum deles atirou fogo na tenda dos autores. O gesto político foi sutil, mas perceptível.

Para não me extender muito, deixo o caso do Jonathan Franzen para um outro momento.

***
Parece meio anacrônico fazer um texto sobre a FLIP - agora que a Festa já acabou e outra edição só no ano que vem. No entanto, estive na FLIP e queria muito ter feito uma cobertura um pouco "em tempo real". Infelizmente, faço o blog sozinho e conseguir acesso a internet em Paraty é meio complicado. Também fiquei avesso a ideia de escrever sobre as mesmas coisas que os jornais estavam publicando. Além disso, tem a transmissão ao vivo das mesas pela internet e teve até transcrição que o blog da Companhia das Letras com todo (ou quase todo) diálogo dos autores da editora (trabalho da Diana Passy).

Pensando em pautas, me deu vontade de escrever sobre tudo o que não é propriamente literatura. Tipo, o sanduíche que Jennifer Egan não comeu; o passeio anônimo de Gary Shteyngart pela beira do canal; Ian McEwan esbanjando seu humor inglês e Teju Cole com um olhar muito curioso por tudo. Para não dizer dos escritores brasileiros (alguns até com nome na lista da Granta) que estavam circulando bem à vontade pela Praça da Matriz. Ah! Teve a história da camisa engomada do Francisco Dantas... fica pra próxima.

***

Não posso deixar de falar do telão que deu problema em vários momentos e da tradução meio sofrida - Vila Matas leu em espanhol um poema de Fernando Pessoa (na mesa de cabeceira que eu vi do telão, ali bem na areia da praia) e houve uma "tradução" para o português que diferia muito do poema original; imagina a versão que Ian McEwan não estava ouvindo? Tudo bem, a culpa não é dos tradutores e nem da organização porque não é possível prever o que determinado autor vai ler naquele momento. Alguém tem alguma solução?

***

Devo voltar ao assunto FLIP uma ou duas vezes mais - prometo!

*Imagem: exposição "os leitores"/André Conti - peguei do flickr da FLIP.

Share/Save/Bookmark

segunda-feira, 28 de maio de 2012

A CAIXA PRETA DE JENNIFER EGAN FICA NO TWITTER

Sem nenhuma sombra de dúvida o posto de musa da próxima edição da FLIP pertence a escritora norte-americana Jennifer Egan. Sua ousadia com as fronteiras formais que separaram os gêneros conto e romance aliada as histórias tocantes e humanas das personagens de A visita cruel da tempo chamaram atenção dos leitores e dos críticos ao redor do mundo. Ela ainda foi premiada com um Pulitzer, um National Book Critics Circle e derrotou Jonathan Franzen na final do Tournament of Books. Fique assinalado que isso não é tarefa das mais simples.

Pois bem, na FLIP, Jennifer Egan vai dividir a mesa 'Pelos olhos do outro' com ninguém menos que Sir Ian McEwan - alguém que dispensa muitas apresentações; se você não conhece só precisa saber que ele é num dos dez maiores escritores vivos, autor do melhor romance escrito na primeira década dos anos 2000, ganhador do Man Booker Prize e autor de mais de uma dezena de romances. Considerando as façanhas anteriores da jovem Egan arrisco dizer que ela vai tirar tudo de letra e fazer bonito. Bem diferente da musa do ano passado - a bela Pola Oloixarac - que foi "engolida" pelo português valter hugo mãe, seu companheiro de mesa. Sir McEwan já esteve numa outra edição da FLIP, por isso não vai ganhar uma mesa só para ele apesar de sua importância.

***

Nessa semana, Egan voltou a ser assunto porque está publicando um conto pelo twitter da revista New Yorker - começou na quinta-feira e vai durar por 10 dias com transmissões todas as noites. O conto chamado "Black Box" vai integrar a edição temática da New Yorker sobre ficção científica, mas será publicado primeiro pelo twitter a pedido da autora. A história tem como protagonista a personagem Lulu, de A visita cruel do tempo, que anos mais tarde está trabalhando como espiã do governo norte-americano.

Egan contou que estava interessada em experimentar com o formato que o twitter proporciona: a restrição do espaço, a independência de cada sentença, uso de ação ao invés de descrição, trabalhar uma personagem num gênero diferente etc. Porém, ao contrário de outras experiências envolvendo o uso do twitter para escrever ficção, ela planejou a história do começo ao fim num caderno japonês que tinha oito retângulos em cada página e editou o material final.

Quem quiser pode acompanhar o desenvolvimento do conto de duas maneiras: através do twitter todas as noites ou na íntegra no site da New Yorker após a transmissão pelo twitter.

***

Outros experimentos do gênero já aconteceram antes. Se não estou enganado, Marcelino Freire criou uma série de microcontos pelo twitter - chamado "Conto Nanico". Cada conto nanico (ou tweet) era uma história com começo e fim. Existia individualmente e não compreendiam um texto mais longo dividido em pedaços.

O escritor norte-americano John Wray também tem experiência semelhante. A personagem 'Citizen', de seu livro Afluentes do rio silêncioso, ganhou vida própria e protagoniza uma história em série que já dura anos. Não tem uma forma fixa de romance ou conto em que os acontecimentos vão se desenrolando numa sequência e culminam num desfecho. Também não tem tamanho e nem duração de tempo definidas. Ele pretende que cada tweet seja o mais espontâneo, real e improvisado o possível.

***

Infelizmente não temos como saber ainda se essas experiências vão resultar num novo formato de escrever ficção. Só o tempo será capaz de responder. Bom saber que tem muita gente tentando, sobretudo gente do calibre de Jennifer Egan.

***

Em tempo volto a dizer que a Intrinseca vai publicar O torreão, romance escrito por Jennifer Egan antes do sucesso de A visita cruel do tempo. O que significa que teremos muito assunto para tratar com ela.

***ATUALIZAÇÃO: a edição da New Yorker acaba de sair - está bem bacana com textos de Sam Lipsyte, Anthony Burgess (falando sobre Laranja mecânica que fez aniversário semanas atrás), Jonatham Lethem, Junot Díaz, Ursula K. Le Guin, China Miéville, Margaret Atwood, Karen Russell, William Gibson e Jennifer Egan. A capa ficou por conta de Daniel Clowes. Egan conversou com Deborah Treisman, editora de ficção da revista, sobre o conto que está publicando e suas experiências com o twitter. A conversa está disponível em áudio (em inglês) nesse link.

* Imagem: reprodução do Google.

Share/Save/Bookmark

terça-feira, 22 de maio de 2012

LIVRO COM TRILHA SONORA


Tem gente que desliga tudo quando vai ler um livro: rádio, TV, MP3 Player, computador, celular etc. É importante estar no mais absoluto silêncio para se concentrar, entender o que está lendo e aos poucos adentrar aquele universo. O menor barulho distraí. Da maneira como estou falando não consigo esconder que me enquadro nessa categoria, sobretudo quando vou ler romances mais elaborados - literariamente falando. Caretice ou não é uma maneira. Já para ler revista, jornal ou livrinhos mais "leves" nada me incomoda. Posso estar até no show do Sonic Youth ouvindo aquela longa versão de "Diamond Sea" sem nenhum problema.

No entanto, estou pensando seriamente em abrir uma exceção depois que vi a trilha sonora sugerida por Alejandro Zambra para
Bonsai (para quem não viu, a trilha saiu na revista sãopaulo - que acompanha a Folha de SP aos domingos). Só tem música boa. Vai do étnico ao pop, do calmo ao agitado e do alto a baixo.

"La Jardinera", Violeta Parra
"Penas", Sandro (na versão de Aterciopelados)
"Rubí", Babasónicos
"How Could I Be Such a Fool", Frank Zappa
"Wave of Mutilation", Pixies
"A Night in", Tindersticks
"El Rey y Yo", Los Ángeles Negros
"You Can't Always Get What You Want", The Rolling Stones
"Standing in the Doorway", Bob Dylan
"So Like Candy", Elvis Costello
"A Man Needs a Maid", Neil Young
"Pink Moon", Nick Drake
"My Sharona", The Kinks
"I Didn't Know What Time It Was", Ella Fitzgerald
"50 Ways to Leave Your Lover", Paul Simon
"Superficies de Placer", Virus

***
Ainda não li Bonsai e nem preciso mentir que li, pois como adiantou a Raquel Cozer "dá para matar em uma hora e meia, se tanto" por conta das suas 96 páginas. Está na minha fila de leitura e estou pensando seriamente em passá-lo na frente de outros tantos que pretendo ler em algum momento. Zambra tem sido altamente recomendado por muita gente. Deve ser reflexo da FLIP, mas o nome dele já tinha aparecido naquela lista dos melhores jovens escritores em língua espanhola que saiu na Granta (essa edição também foi publicada aqui no Brasil no ano passado). Antes disso, em 2007, ele tinha sido eleito um dos 39 melhores escritores com menos de 39 anos. Ou seja, o chileno é mesmo um fenômeno. Prometo que eu volto ao assunto depois de ler Bonsai.
***

A visita do tempo cruel, de Jennifer Egan também pede uma trilha sonora. Não tinha como ser diferente considerando que as personagens principais estão diretamente envolvidas com música. Bennie Salazar teve uma banda na adolescência e depois tornou-se dono de uma gravadora. Muitas bandas dos anos 80 devem ter servido de inspiração para Egan. Para facilitar a vida, a Intrínseca montou uma trilha sonora bem legal:
"The Passenger", Iggy Pop
"Seventh World", ­The Sleepers
"Too Drunk to Fuck", Dead Kennedys
"Alive", Pearl Jam
"My Generation", The Who
"Search and Destroy", The Stooges
"Take Her Where the Boys Are", Eye Protection
"Kimberly", Patti Smith
"Ever", Flipper
"Six Pack", Black Flag
"I Just Want Some Skank", Circle Jerks
"No More Heroes", The Stranglers
"Media Control", The Nuns"Mercenaries", Negative Trend
"Frustration", Crime
"The American in Me", The Avengers
"Lexicon Devil", The Germs
"Heart of Glass", Blondie

***


Falando em Jennifer Egan, a Intrínseca promete para o mês que vem o lançamento de O torreão (tradução para The Keep, terceiro romance da autora que saiu nos Estados Unidos em 2006). A editora repetiu a decisão acertadíssima de chamar Rafael Coutinho para ilustrar a capa.

***

Finalizando as trilhas sonoras, A trama do casamento, de Jeffrey Eugenides tem na epígrafe um trecho de "Once in a lifetime", do Talking Heads. Sempre que eu ouço essa música me lembro do livro Menino de lugar nenhum, de David Mitchell quando o garoto Jason Taylor deixa de lado a vergonha, entra na pista de dança e avista a menina que ele está afim. Tem um trecho no tumblr.

Não dá para esquecer também trilha que Thomas Pynchon (ele mesmo) fez para Vício inerente.

***

É, definitivamente a gente está bem de literatura e música.

*Imagem: Zambra/reprodução blog da Cosac Naify; as demais divulgação.

Share/Save/Bookmark

sexta-feira, 27 de abril de 2012

UMA CONVERSA COM ELIF BATUMAN

Não existe muitas gente situada entre o universo da academia e do jornalismo com tanta facilidade e bom humor como Elif Batuman. Uma escritora turco-americano que recentemente ganhou fama narrando suas aventuras como doutorando em Literatura Comparada na Universidade de Stanford em seu primeiro livro, Os possessos - Aventuras com os livros russos e seus leitores. O livro é uma coletânea de ensaios sobre viagem, leitura, conferências acadêmicas, problemas de relacionamento e a antiga União Soviética. Ela continua escrevendo artigos prolificamente para revistas – no ano passado sua assinatura apareceu na London Review of Books, Paris Review, New Yorker, n +1 e New York Times, para citar algumas. Eu comecei a ficar de olho nos seus textos depois de ler Os possessos que me fez gargalhar tantas vezes que acabei tendo de ler em voz alta para quem estava a minha volta. Nas mãos de Batuman parece quase natural que uma conferência sobre Isaac Bábel pode deixar você rindo e chorando.

Deixando o humor de lado, é revigorante ter alguém jovem, inteligente e divertido que está chamando a atenção simplesmente por escrever sobre o quanto gosta de livros. Os possessos conclui: “Se eu pudesse recomeçar hoje, escolheria novamente a literatura. Se as respostas existem no mundo ou no universo, eu continuo achando que esse é o lugar onde nós vamos encontrá-las”. Depois de terminar Os possessos fiquei quase convencida a correr para um doutorado em literatura e imagino que eu não seja a única.

Eu tive sorte o suficiente de passar algum tempo com Batuman na Universidade de Koç, nos arredores de Istambul, onde ela é atualmente uma escritora em residência. Nós conversamos sobre seus planos para o próximo livro, seus pensamentos sobre a ficção contemporânea e o que é exatamente tão engraçado na academia.

No que você está trabalhando?

Pela primeira vez eu tenho um contrato com a New Yorker – ao invés de ser freelancer. É diferente porque eles me ajudam propondo idéias, ao invés de me jogar ou forçar algo. O último texto que escrevi para eles era sobre a fanática cultura do futebol, que não é uma história que eu teria proposto por minha própria conta. Foi interessante fazer algo assim, algo fora de minha zona de conforto e também fora da minha zona de interesse. Mas é uma cultura complicada e alguma coisa nisso sempre vai ser interessante se você se forçar a descobrir alguma coisa a mais.

Eu não tenho tido tempo para começar um outro livro. Tenho algumas idéias que gostaria de explorar. Até o momento de conseguir contrato para o primeiro livro, cerca de metade dos meus ensaios já tinham sido publicados. Eu não tive a experiência de sentar e escrever um livro a partir do zero. Quero brincar mais com ficção e não-ficção. Na verdade, eu queria que Os possessos fosse ficção para que eu pudesse tomar mais liberdades. Mas como é baseado em coisas verdadeiras havia muita pressão para que fosse não-ficção e quando é o seu primeiro livro você tem de fazer o que lhe dizem para fazer.

Você tem planos mais concretos para o próximo livro?

Bom, eu estive pensando sobre como muitos dos escritores que eu conheço são incrivelmente bons escrevendo e-mail e muitas vezes eu acho seus e-mails mais atraentes do que as coisas que eles escrevem nos livros. Está ligado a essa coisa que eu citei sobre Tchekhov em Os possessos, sobre como todo mundo tem duas vidas uma aberta, conhecida por todos, e outra desconhecida, acontecendo em segredo. O e-mail é um tipo de vida desconhecida enquanto os textos publicados são a vida conhecida. Isso é algo que eu tentei fazer em Os possessos, especialmente no capítulo "Palácio de gelo". Eu aproveitei o texto que escrevi para a New Yorker e tentei completá-lo com a dimensão humana que não tinha aparecido na revista. Eu quero resgatar algumas das coisas que escrevi e preencher com a história pessoal que as contextualiza. Do contrário, você tem uma jornalista nova-iorquina, uma diletante profissional, que está apenas indo de coisa em coisa e nenhuma delas está ligada as outras. Quando você tem sorte o suficiente para gostar do seu trabalho é uma parte enorme do seu pensamento. E uma das coisas que eu gosto no romance clássico é que ele mostra todas as camadas de pensamento que as pessoas têm; seus trabalhos, casamentos, amigos e os pensamentos sobre política está tudo entrelaçado. Mas eu quero escrever mais sobre sexo neste próximo livro; acho que sexo é um problema muito grande que as pessoas não conhecem o suficiente. E eu não fui capaz de fazer isso em Os possessos porque era não-ficção.

Então um livro de ficção vai expor mais sobre sua vida pessoal?

Sim. É tão estranho para mim que a primeira maneira pela qual você classifica um escritor ou um livro seja ficção contra não-ficção. Como podem ser essas as categorias mais importantes? Não faz nenhum sentido. É muito claro que, como em Um milhão de pedacinhos, se você escreve um livro de ficção e o chama de não-ficção existem todos os tipos de problemas. Mas qual é o problema se você escreve um livro não-ficção e o chama de ficção? Isso era o que os romancistas faziam até 75 ou 100 anos atrás. Hoje é como se você esperasse a ficção para inventar tudo isso que algumas pessoas fazem. Por exemplo, eu acho que Jonathan Franzen realmente tira todas aquelas coisas da cabeça, o que é incrível. Mas esse não é o tipo de escritor que eu sou, não é um bom aproveitamento do meu tempo para inventar coisas.

Falando em Jonathan Franzen, você escreveu um artigo na London Review of Books um tempo atrás que era muito crítico sobre a ficção contemporânea. Mas você também disse em entrevistas que você gosta de Franzen, bem como de outros escritores, e recentemente escreveu um artigo muito elogioso sobre o novo livro de Jennifer Egan, A visita cruel do tempo. Você consegue definir o que esses escritores estão fazendo que supere o que você vê como armadilhas da ficção contemporânea em geral?

Liberdade não tem muitas das características que eu associo com oficina de ficção. Ele manteve um pequeno número de personagens e entrou nessas personagens completamente. Não houve criação exagerada de nostalgia a partir do nada. O diálogo era muito bom e não havia um grande número de personagens menores para acompanhar. Era sobre como conciliar o sexo com algum tipo de vida diária – uma questão sobre a qual tenho pensado bastante. Um monte de pensamento e angústia entra no pensamento por esse problema. Você encontra angústia no que eu penso como oficina de ficção, mas há uma suposição de que todos já compartilham essa angústia e sabem o que é e é realmente irônico. Mas ele realmente fez o trabalho de campo e mostrou o que é tão terrível em todas as coisas.

O livro de Jennifer Egan tinha um monte de características do que eu normalmente considero como oficina de ficção ou contos da New Yorker e demorei um pouco para entrar no livro. O enredo sempre introduz aqueles personagens com nomes estúpidos e idiossincrasias estúpidas. Eles estão vivendo aquela vida deprimente e sem sentido que não parece que estão sendo investigados. De repente, de alguma maneira estas pequenas histórias, onde as falhas das personagens seriam tão próximas do que elas são no ser humano, se reúnem e ressoam de uma forma muito brilhante. De certa forma eu acho que é um livro muito mais interessante e formalmente radical do que Liberdade. Será interessante ver o que ela vai fazer em seguida. As pessoas tem feito romance através de contos ou um ciclo de contos faz algum tempo, não foi ela que inventou isso. Mas acho que ela fez algo realmente diferente com isso. Ela começou escrevendo uma história sobre o tempo, para escrever um livro de contos no estilo de Proust e foi o que ela fez . Há algo afirmativo em ver uma grande ambição bem executada e bem sucedida.

Seu livro tem um monte de ensaios muito engraçados sobre conferências acadêmicas, como "Babel na Califórnia". Você acha possível encontrar uma grande quantidade de comédia numa bolsa de estudo em literatura russa ou você consegue esse mesmo tipo de história em qualquer disciplina?

Eu me pergunto muito sobre isso. Não tenho certeza porque não passei muito tempo em outras disciplinas. Meu palpite é que você pode encontrar histórias engraçadas em qualquer disciplina. Mas muito do que me atraiu para a literatura russa era que uma mesma coisa é engraçado e triste ao mesmo tempo. Não é como Dickens, onde algumas coisas são coisas incrivelmente engraçadas e outras melodramáticas, trágicas. As coisas são engraçadas desta maneira melancólica. Você vira o objeto e vê o lado engraçado disso. As pessoas que vão estudar literatura russa estão particularmente sintonizadas com isso, então acho que é possível que coisas especialmente engraçadas aconteçam.

Mas no meu conhecimento todos os acadêmicos são muito engraçados. Eles são todos marginalizados da vida real de alguma maneira e todos são conscientes disso. Eles são muito auto-reflexivos e onde há auto-reflexão e amplitude de leitura tende a haver humor. Não é uma regra fixa. Você encontra muitos acadêmicos sem humor, especialmente em outros países e nas gerações mais velhas. Mas os acadêmicos americanos têm um bom senso de humor e não são tão inibidos. Se querem fazer algo louco eles seguem em frente e fazem.

Mas a academia literária é engraçada, especialmente o estudos do romance. O romance tem tudo a ver com essa disjunção cômica entre os livros e a realidade. Como você poderia ter um emprego que incorpora isso senão sendo um estudante do romance? Você está no mundo como pessoa, mas seu trabalho é estudar. É uma situação muito cômica, mas também triste. Como o romance russo é triste e engraçado ao mesmo tempo.

Em Os possessos você descreve um aluno simplesmente como alguém que estudou "narradores não confiáveis". Descrever as pessoas só dessa forma, por algo muito específico a que elas tem dedicado suas vidas a estudar, é muito engraçado - e também trágico.

Sim, isso ainda é perfeitamente verdade. Até que você pensa em colocá-los nesses termos é perfeitamente normal. Todo mundo tem uma especialidade. Mas quando você pensa em responder à pergunta "O que você faz da vida?" Uma resposta do tipo "Eu estudo esta doença das células brancas do sangue" ou "eu estudo narração inverossímil" é muito engraçada.

Um cara numa mesa sobre Dostoievski em que eu estive recentemente falava sobre como você não pode acreditar no que diz o homem subterrâneo de Dostoievski porque ele é a única pessoa a que você tem acesso e você não sabe se aquilo é verdade ou não. De repente alguém na platéia disse: "Claro! Desse ponto de vista é muito semelhante a Erasmo, porque você não pode dizer o que é a verdade!" Foi como se eles descobrissem a narração inverossímil ali mesmo na frente dos meus olhos. Foi completamente estranho. Toda a cultura literária na Turquia é estranha porque todo mundo é assim generalista.

Como tem sido viver em Istambul? O que você tem pensado e escrito sobre a cidade?

Eu não sinto como se estivesse vivendo em Istambul porque estou neste escritório o tempo todo. Eu trabalho aqui até tarde, perco o ônibus e depois vou a pé para casa por essa floresta por 25 minutos. Eu me sinto mais como se estivesse vivendo no país dos esquilos do que no país do povo turco. Não vou muito ao centro da cidade. Quando terminar minha residência eu quero mudar para o centro de algum lugar. Eu tenho alguns amigos e pessoas que conheço que estão na cena literária e parece que coisas interessantes estão acontecendo. E mesmo que coisas interessantes não estejam acontecendo, as pessoas pensam que coisas interessantes estão acontecendo. Na Rússia, as pessoas pensam que o tempo bom ficou para trás. Jornalistas estão sendo tratados como lixo, o clima está ficando feio, muito feio e o buraco entre ricos e pobres é cada vez maior. Comparado com isso, a Turquia parece ser um lugar onde as pessoas ainda são otimistas com literatura e cultura e gostaria de saber sobre o que eles estão otimistas.

Você tem algum conselho para alguém que quer ser escritor?

Para mim, [escrever] é desativar o censor que diz que você está escrevendo algo ruim, portanto pare de escrever. É como ir ao ginásio. Uma vez que você ir para o ginásio você nunca lamenta que você foi para lá. Uma vez que você senta e escreve, mesmo que você diga que o que você está escrevendo é ruim e não o está levando a lugar nenhum, o ato cognitivo de mexer em frases está fazendo de você um escritor melhor. Você só tem que lembrar disso e não se censurar. Ao escrever não-ficção teve um monte de vezes que imaginei várias vozes de pessoas irritantes na minha cabeça que ficariam ofendidas ou irritadas porque eu tinha escrito isso ou aquilo. Aprender a desligar isso era útil num sentido amplo. Você tem que ter certeza que é só você e a tela do computador e que outras pessoas só vão entrar naquilo mais tarde.

O outro lado disso é que também é muito útil pensar em seu texto como algo que você está contando para alguém. Um dos meus livros favoritos que li recentemente é Gilead, de Marilynne Robinson, porque foi escrito em forma de cartas. Isso me fez lembrar de um livro para crianças que eu li e reli, em Nova York, quando estava visitando minha mãe, From The Mixed up Files of Mrs. Basil E. Frankweiler, de EL Konigsburg. É escrito pela Senhora Basil E. Frankweiler, dela para o seu procurador, nomeando as disposições que têm de ser feitas em sua vontade. Mas na verdade é a história dos netos do procurador que fugiram de casa para ficar no Metropolitan Museum a fim de resolverem um mistério artístico. Foi escrito para uma pessoa muito particular, da mesma maneira que Gilead é escrito para uma pessoa muito particular. Eu acho que é uma convenção arbitrária para escrever para o público. Mesmo quando você tem um livro que é escrito em primeira pessoa, quem está realmente escrevendo para o público? Eu pensei que isso estava restaurando um componente muito importante perdido da escrita, escrever para uma pessoa específica. Tenho pensado mais nisso. É algo que meu editor me disse quando estava trabalhando em Os possessos. Ele disse: "Eu acho que você deveria escrever isso para minha mãe. Minha mãe ama esse livro, mas ela não sabe que adora. Se você continuar usando palavras como ‘sobre-determinada’, ela nunca vai saber que adora”. Tratava-se de tirar o jargão sem retirar a teoria ou deixar estúpido. Foi algo realmente útil.

Atualmente a literatura russa ocupa uma grande parte da sua vida, cultura e escrita. Você acha que nunca vai se cansar de literatura russa?

Sim! Claro que acho que vou. Quando você escreve e promove um livro, você não é especialista em nada exceto em ter escrito aquele livro. No meu caso era um livro muito pequeno e idiossincrático que não tinha um conhecimento enciclopédico de muito coisa, mas os livros têm que torná-lo um especialista em alguma coisa. Você entra neste circuito de festivais e eu estava em todos esses painéis sobre a Rússia com Sheila Fitzpatrick, Pavel Basinski e essas feras dos estudos eslavos. Sendo assim, imagino que o meu próximo livro não vai ter muito a ver com literatura russa e depois haverá outra fresta para me encaixar. Não acho que eu vá fundo como uma especialista em literatura russa por muito mais tempo.

Os possessos - Aventuras com os livros russos e seus leitores
Elif Batuman
Editora Leya
344 páginas











Esta conversa foi publicada originalmente no blog Full Stop em 14 de dezembro de 2011. Reprodução e tradução para o português com permissão do blog.

*Imagens: retrato de Elif Batuman reprodução e capa do livro divulgação.
Share/Save/Bookmark

sexta-feira, 13 de abril de 2012

CRISTOVÃO TEZZA ENCONTROU JENNIFER EGAN



Queria escrever sobre o belo romance de Jennifer Egan que acabei de ler na semana passada - A visita do tempo cruel. Porém, me deparei com a notícia de que o livro de Egan está disputando com O filho eterno, de Cristovão Tezza o prêmio de €100,000 euros oferecido pelo IMPAC Dublin Literary Award. Tezza pode concorrer ao prêmio pois seu livro foi traduzido para o inglês por Alison Entrekin.

Evidentemente os dois não estão sozinhos na disputa - há mais oito escritores concorrendo. Seja como for, não podemos passar despercebidos ao fato de que nosso querido escritor Cristovão Tezza encontrou Jennifer Egan, a mulher de olhos azuis que derrotou Jonathan Franzen no Tournament of Books do ano passado. Se um deles ganhar vai se juntar a Javier Marias, Herta Müller, Michel Houellebecq, Orhan Pamuk, Colm Tóibin, Per Petterson, Colum McCann e outros ganhadores de edições passadas.

***

Para mim parece surpreendente que Jennifer Egan de um chega pra lá em todo mundo que anda dizendo por aí que o romance está morto. Seu livro tem um pouco de tudo: esfacelamento do tempo, narrador em primeira e terceira pessoa, fluxo de consciência e até um capítulo em formato de Power Point - acredite se quiser. Fora a beleza da história cheia de uma urgência juvenil de enfrentar a vida sem saber de que maneira. As personagens erram muito, às vezes perdem feio e às vezes ganham aprendendo uma lição. Igualzinho a tudo o que acontece com a gente na vida real só que transformado em ficção.

Juro! Para mim foi uma espécie de catarse. Eu queria fazer parte daquela turma, dar conselhos para cada um deles, protegê-los das coisas ruins e tudo o mais. É duro constatar que tempo realmente nos alcança por mais que a gente tente correr dele. Mais duro do que isso é perceber que nós temos nas mãos várias possibilidades de fazer tudo diferente na nossa vida e que por obra do acaso (ou do destino, se você preferir) fazemos ao contrário do que realmente gostaríamos que fosse. Isso vale para a gente e para as pessoas que gostamos. O romance de Jennifer Egan é uma ode a vida - sem exageros.

(Estou me dando conta de que tudo o que estou dizendo está assumindo um tom piegas e sentimental, mas se você ler o livro vai entender do que eu estou falando).

Muita gente que leu O filho eterno, de Cristovão Tezza relata as mesmas sensações de catarse. Acontece uma identificação com a história daquele pai com o filho. Pode não ser um livro tão inventivo na forma (comparado ao Power Point de Egan), mas explora com maturidade impar a figura do narrador e suas ações de contar, mostrar e esconder. É um livro e tanto que ganhou diversos prêmios aqui no Brasil e garantiu a Tezza um reconhecimento merecido.

***

Em tempo, o ganhador do IMPAC Dublin Literary Award será anunciado em 13 de junho. Bem antes de Egan vir à FLIP. Analisando friamente as chances do prêmio para nas mãos de Tezza são pequenas, mas elas existem. Cruzem os dedos.

*Imagem: reprodução do Google.
Share/Save/Bookmark

domingo, 18 de março de 2012

FLIP 2012 ATÉ AGORA...


Faltam pouco mais de três meses para o início da décima edição da FLIP e até agora temos 14 nomes confirmados - ou seja, estamos chegando a metade da programação oficial considerando a média de 30 convidados por ano. Na mesa de abertura teremos Silviano Santiago falando sobre Carlos Drummond de Andrade - o poeta mineiro que será o grande homenageado.

Por causa dos dez anos da FLIP, a organização está convidando escritores que já estiveram em edições passadas. Com isso voltam Ian McEwan (veio em 2004), Enrique Vila-Matas (veio em 2005 e também esteve por aqui ano passado no Congresso da revista CULT) e o gaúcho Luis Fernando Veríssimo (segundo informação do jornal O Globo ele esteve na FLIP em 2003, 2004, 2005 e 2008).

Se a FLIP pretende chamar um grande nome de cada edição passada quero fazer uma sugestão: poderíamos ter a escritora Toni Morrison, de 2006 (ela vai lançar novo romance nesse ano); César Aira, de 2007 - já que J.M. Coetzee não vem; e Michel Laub, de 2008 (autor de um dos melhores romances do ano passado).

Vem pela primeira vez o espanhol Javier Cercas, a cubana Zoé Valdés, os norte-americanos Jennifer Egan, Jonathan Franzen e Teju Cole (apesar de ter nascido nos Estados Unidos foi criado na Nigéria), o francês Jean-Marie Gustave Le Clézio e o poeta sírio - e sempre candidato ao Prêmio Nobel - Adonis. Da parte dos críticos vem Richard Sennett, Stephen Jay Greenblatt e James Shapiro, os dois últimos são especialistas em Shakespeare. Na semana passada, a Companhia das Letras confirmou a participação do português José Luis Peixoto na programação paralela da Festa.

Nos últimos dez anos, o crescimento em todo o Brasil das feiras literárias, congressos, eventos e lançamentos com a participação de escritores diluíram um pouco o impacto da programação da FLIP na opinião pública. Isso não quer dizer que a Festa esteja se tornando irrelevante. Pelo contrário, a FLIP ajudou a construir o nosso "mercado" de eventos literários de grande porte (pelo que me lembro, antes a gente só tinha a Bienal do Livro) e continua sendo a maior do setor. Somente um evento de prestígio internacional como a FLIP pode trazer alguns medalhões da literatura mundial como o poeta Adonis e o escritor Jonathan Franzen, para citar dois convidados desse ano. Não é aleatória a escolha da revista Granta de anunciar seu número especial com os melhores jovens escritores brasileiros durante a Festa. Também não podemos desprezar a enorme movimentação nas vendas de livros. Um escritor convidado para a FLIP certamente vende muito bem - ainda mais quando sua participação comove a platéia.

Lembro de ter lido em algum lugar que os organizadores da FLIP, Liz Calder e Mauro Munhoz, tem planos de expandi-la para Campinas, Porto Feliz e até para a Inglaterra. O que lembra muito Hay Festival, evento que inspirou a FLIP e tem ramificações em várias partes do mundo. Enquanto a expansão não acontece alguns autores convidados ficam no Brasil e participam de lançamentos ou palestras em São Paulo e no Rio.

Mais nomes internacionais devem aparecer em breve. Os nomes nacionais costumam ser anunciados por último. Espero que eles apareçam aos montes. Vamos cruzar os dedos.

*Imagem: reprodução do Flickr da FLIP.

Share/Save/Bookmark

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

APOSTAS PARA 2012 - NACIONAIS E ESTRANGEIROS

Falar de novos lançamento é uma boa maneira de dar boas-vindas ao ano que acabou de começar. Na era da internet parece que o tempo urge e as pessoas ficam ansiosas por qualquer novidade. Que atire a primeira pedra aquele sujeito que acabou de voltar da praia e não procurou o assunto "lançamentos 2012" no Google.

Nossas editoras (que não costumavam comentar muito o assunto) divulgaram muitas informações para deleite dos leitores. Por isso, estou listando abaixo os livros que vão aparecer nas prateleiras das livrarias antes do que você pensa. Assim a gente dá o pontapé inicial nesse ano que está com uma preguiça danada de começar. Não estou mencionando os autores que devem pintar na FLIP e sempre agitam lançamentos.

Lembrando que são lançamentos previstos. As editoras podem alterar as datas.

Se alguém descobrir ou lembrar de algum outro lançamento e quiser contribuir, por favor, me mande um sinal de fumaça. Prometo ficar de olho e atualizar a lista a medida que receber as informações.


INTRÍNSECA
A visita cruel do tempo, de Jennifer Egan (capa com ilustrações de Rafael Coutinho)
The art of fielding, de Chad Harbach

L&PM
Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf (com tradução de Denise Bottman)
Jack Kerouac and Allen Ginsberg: The Letters, com organização de Bill Morgan e David Stanford.

ALFAGUARA
1Q84, de Haruki Murakami (com tradução de Lica Hashimoto previsto para o segundo semestre)
O novo romance ainda sem título de Ronaldo Correia de Brito
O céu dos suicidas, de Ricardo Lisias
Reedição das obras completas de Mário Quintana

GLOBO
Novas obras de Herta Müller
Anatomía de un instante, de Javier Cercas
As mil e uma noites - volume 4 (com tradução de Mamede Mustafá Jarouche)
Comédia Humana, de Honoré Balzac (serão lançados os primeiros quatro volumes com tradução de Paulo Rónai)

OBJETIVA
Vida e destino, de Vassily Grossman

AMARYLIS
Contos, de Ivan Búnin

ROCCO
The sense of an ending, de Julian Barnes

RECORD
Os imperfeccionistas, de Tom Rachman
O mapa e o território, de Michel Houellebecq
Parrot and Olivier in America, de Peter Carey

EDITH (selo de Marcelino Freire)
Guia de Ruas Sem Saída, de Joca Reiners Terron com desenhos de André Ducci

COMPANHIA DAS LETRAS
Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera
O lugar mais sombrio, de Milton Hatoum
Como se o mundo fosse um bom lugar, de Marçal Aquino
Novos romances de Carola Saavedra, Carlos de Britto e Mello, Zulmira Ribeiro Tavares, Cecilia Giannetti (provavelmente pela série Amores Expressos), Elvira Vigna Luiz Alfredo Garcia-Roza e Noemi Jaffe.
Chamadas telefônicas, de Roberto Bolaño
Receitas para mulheres tristes, de Hector Abad
Os enamoramentos, de Javier Marías
A trama do casamento, de Jeffrey Eugenides (com direito a versão de bolso de As virgens suicidas - tradução de Daniel Pelizzarri)
Contra o dia, de Thomas Pynchon
As coisas, de Georges Perec
Livro, de José Luis Peixoto
Sunset Park, de Paul Auster
Fora do tempo, de David Grossman
A casa do silêncio, de Orhan Pamuk
O legado de Humboldt, de Saul Bellow
Miguel Street, de V.S. Naipaul
Histórias abensonhadas, de Mia Couto
Ulysses, de James Joyce
Ligações perigosas, de Choderlos de Laclos
Open city, de Teju Cole
Mr. Peanut, de Adam Ross
The great house, de Nicole Krauss
O homem é um grande faisão, de Herta Müller
The thousand autumns of Jacob de Zoet, de David Mitchell (com tradução de Daniel Galera)
Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust (com tradução de Mario Sergio Conti)
Strong Motion, de Jonathan Franzen
Focus, de Arthur Miller
HHhH, de Laurent Binet
Senhora, de José de Alencar
Clara dos Anjos, de Lima Barreto

Os quadrinhos de Angeli, Laerte, Lourenço Mutarelli, Caco Galhardo, Gustavo Duarte e Rafael Campos Rocha, Angélica Freitas e Odyr Bernardi, Ronaldo Bressane e Fábio Cobiaco, Vanessa Barbara e Fido Nesti, e Emilio Fraia e DW Ribatski

Reedição das obras completas de Carlos Drummond de Andrade (homenageado da FLIP 2012)

BENVIRÁ
Pássaros na boca, de Samanta Schweblin (ela estará em abril na Bienal do Livro de Brasília)

EDITORA 34
Contos de Kolimá, de Varlam Chalámov
Novelas, de Nikolai Leskov
O adolescente, de Fiódor Dostoiévski (com tradução de Paulo Bezerra)
Oblomov, de Ivan Goncharóv
Meu companheiro de estrada e outros contos, de Máximo Górki (com tradução de Boris Schnaiderman)
Contos de Canterbury, de Geoffrey Chaucer(com tradução de Paulo Vizioli)

COSAC NAIFY
A brincadeira favorita, de Leonard Cohen
Lojas de Canela e Sanatório, de Bruno Schulz (livro em que aparece a novela Rua dos Crocodilos que serviu de base para o livro-objeto Tree of codes, de Jonathan Safran Foer)
Cães heróis, de Mario Bellatin

ILUMINURAS
Pomas, um tostão cada, de James Joyce (com tradução de Alípio Correia da Franca Neto)
O Gato e o diabo, de James Joyce (com tradução de Dirce Waltrick do Amarante)
De santos e sábios, de James Joyce (um livro de ensaios com traduções de Dirce Waltrick, Sergio Medeiros, Caetano Galindo e André Cechinel)
Stephen herói, de James Joyce (com tradução de Alípio Correia da Franca Neto)

BERTRAND BRASIL
The Finkler Question, de Howard Jacobson

EDITORA NOVA FRONTEIRA
The long song, de Andrea Levy


NA GRINGA ANGLÓFONA
The Map and the Territory, de Michel Houellebecq
Distrust That Particular Flavor, de William Gibson
What We Talk About When We Talk About Anne Frank, de Nathan Englander
Varamo, de Cesar Aira
Gods Without Men, de Hari Kunzru
The New Republic, de Lionel Shriver
Hot Pink, de Adam Levin
The Secret of Evil, de Roberto Bolaño
The Hunger Angel, de Herta Muller
Waiting for Sunrise, de William Boyd
Home, de Toni Morrison
The Newlyweds, de Nell Freudenberger
The Chemistry of Tears, de Peter Carey
Railsea, de China Mieville
The Lower River, de Paul Theroux
Lionel Asbo: The State of England, de Martin Amis
No Time Like the Present, de Nadine Gordimer
Umbrella, de Will Self
NW, de Zadie Smith
Zoo Time, de Howard Jacobson

*imagem: capa de A visita cruel do tempo e The secret evil/reprodução.

Share/Save/Bookmark

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

NOTAS #32

Capas
Alguns leitores ainda não eram nem nascidos quando esses livros foram lançados (nem mesmo eu, para falar a verdade). Portanto, imagino que todos devem ter muita curiosidade em saber como foi a capa da primeira edição de Alice no país das maravilhas, Anna Karenina, Mrs Dalloway, O som e a fúria, Trópico de câncer, Ulysses, O almoço nu e alguns outros mais. Pois o Flavorwire fez uma lista bem legal com a capa da primeira edição de 20 livros bem conhecidos (os que citei antes estão entre eles). A capa acima é do livro Laranja mecânica, de Anthony Burgess em 1962. A lista completa está disponível em http://tinyurl.com/7nuedct

Os melhores de 2011
Já começou na imprensa anglófona mais uma temporada para eleger os melhores lançamentos de ficção do ano. É a chance daquele leitor que passou o ano inteiro metido em recuperar as leituras atrasadas do ano passado saber o que vale a pena ler no ano que vem - ou até o final desse ano, quem sabe. Certamente quase todas as listas gringas serão unânimes quanto aos livros The Marriage Plot, de Jeffrey Eugenides; A Visit From the Goon Squad, de Jennifer Egan; The Pale King, de David Foster Wallace; 1Q84, de Haruki Murakami e A mulher do tigre, de Téa Obreht, para citar alguns.

***

Vale lembrar que todos estes livros já têm previsão de lançamento em terras brasileiras. A Companhia das Letras deve lançar The Marriage Plot no primeiro semestre de 2012 e The Pale King - ainda sem data prevista. A Visit From The Goon Squad sai pela Intrínseca provavelmente no ano que vem. 1Q84 também deve chegar no ano que vem pela Alfaguara. A mulher do tigre foi publicado pela Leya Brasil com tradução de Santiago Nazarian.

***

Nas listas que vi até agora fiquei surpreso com a menção a There but for me, de Ali Smith e O mapa e o território, de Michel Houellebecq (que a editora Record prometeu para esse ano, mas deve ficar para o ano que vem).

Bolaño HTML5
A nova edição da revista Granta (me refiro a inglesa mesmo, pois a revista está ganhando edições no mundo inteiro) com o tema "Horror" publicou o conto El Hijo del Coronel, de Roberto Bolaño - em inglês ficou The Colonel’s Son. A história de uma menina mordida por um zumbi ganhou uma versão em HTML5 com desenhos de Owen Freeman e dos web designers do escritório Jocabola. A animação percorreu a internet instantes depois de ter sido postada na página da revista. É realmente alucinante! Está disponível em http://tinyurl.com/cbeo2lc

Entrevista Sebald
O escritor alemão W.G. Sebald faleceu em 14 de dezembro de 2001 vítima de um acidente de carro. Dias antes do incidente, Sebald concedeu uma entrevista para a rádio KCRW (por conta do lançamento em inglês de Austerlitz) em que fala de suas influências literárias e sobre questões pertinentes a sua obra. A entrevista em inglês está disponível em http://tinyurl.com/6gkayu9

***

Na edição #2 do fanzine Casmurros há um ensaio de Rick Poynor sobre algo que sempre me intrigou nos livros de Sebald: as fotografias. O ensaio chama "W.G. Sebald: escrevendo com imagens". O fanzine está disponível para download aqui.

Ruim de livro
Há dezenove anos o suplemento británico Literary Review entrega um prêmio literário que desperta o riso dos mais atirados e rubores no rosto dos mais pudicos: o Bad Sex in Fiction Award. Ganha o prêmio o autor que escrever a pior cena de sexo num romance lançado durante o ano. O jornal Guardian adiantou que entre os indicados desse ano estão Stephen King com uma cena de 11.22.63, Haruki Murakami com o badalado 1Q84. Mais nomes devem surgir até a entrega do prêmio em 6 de dezembro.

*Imagem reprodução.
Share/Save/Bookmark

terça-feira, 19 de abril de 2011

JENNIFER EGAN FATUROU O PULITZER 2011

Você já deve saber que A visit from the goon squad, de Jennifer Egan faturou mais um prêmio. Dessa vez, a autora ganhou o prêmio Pulitzer de melhor ficção. Os outros indicados na mesma categoria eram The privileges, de Jonathan Dee e The surrendered, de Chang-rae Lee.

Desde que foi lançado, esse romance vem ganhando diversos elogias da crítica. Figurou na lista de melhores romances do ano passado, ganhou o prêmio National Book Critics Circle e ainda venceu Jonathan Franzen no Tournament of Books.

Nas palavras do júri do Pulitzer, A visit from the goon squad é uma investigação inventiva sobre amadurecer e ficar mais velho em plena era digital, mostrando uma curiosidade apaixonante sobre as mudanças culturais em grande velocidade.

Espero que alguma editora brasileira esteja de olho e compre os direitos do livro para lançamento por aqui.

***

No ano passado Paul Harding foi o ganhador do prêmio. Seu romance A restauração das horas foi lançado no mês passado pela editora Nova Fronteira.

---

ATUALIZAÇÃO: Nem bem esse post teve tempo de esfriar e já chegou uma notícia importante. Segundo o Publishnews, A visit from de goon squad será publicado no Brasil pela editora Intrínseca. Não existe previsão de lançamento ainda. A mesma editora também deve lançar The keeper, outro romance de Jennifer Egan.

*imagem: reprodução.
Share/Save/Bookmark

terça-feira, 5 de abril de 2011

A MULHER QUE VENCEU FRANZEN

O romance A visit from the goon squad, de Jennifer Egan venceu o Tournament of Books 2011. A notícia é bem curiosa, pois ela venceu o favoritismo de Jonathan Franzen e seu aclamado romance, Freedom. A disputa foi bem acirrada e a decisão deve ter sido bem difícil para os dezessete jurados, imagino. O placar ficou assim: A visit from the goon squad 9 x 8 Freedom.

Com bem noticiou o LA Times, Jennifer Egan também ganhou o National Book Critics Circle Awards em março desse ano. Detalhe: ela estava disputando o prêmio com David Grossman, Paul Murray, Hans Keilson e Jonathan Franzen - outra vez.


Jennifer Egan nasceu em 1962, nos Estados Unidos. Ela já publicou nas revistas New Yorker, Harper's e New York Times magazine. Publicou um livro de contos e quatro romances. Se não estou enganado, The invisible circus ganhou tradução para o português e saiu pela editora Record com o título de Uma história a três - pegando carona na versão cinematográfica do livro.


*imagem: reprodução do NY Times.


Share/Save/Bookmark