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quinta-feira, 31 de maio de 2012

QUERELAS DO BRASIL OU DA LITERATURA BRASILEIRA


Será Clarice Lispector capaz de romper com o nosso complexo de vira-latas?

Fiquei pensando nisso depois de ler um artigo no jornal Los Angeles Times sobre o relançamento de quatro livros dela nos Estados Unidos em nova tradução e novo projeto gráfico -
Perto do coração selvagem (tradução: Alison Entrekin), Água viva (tradução: Stefan Tobler), A paixão segundo G.H. (tradução: Idra Novey) e Um sopro de vida (tradução: Johnny Lorenz). Os livros estão saindo pela editora New Directions com coordenação e supervisão de Benjamin Moser que além de ser o autor da biografia Clarice, também traduziu para o inglês A hora da estrela, lançado ano passado pela mesma New Directions.

O artigo do L.A. Times, além de muito elogioso, apresenta Clarice Lispector aos leitores norte-americanos, conta um pouco do enredo de cada livro, fala das novas traduções e termina dizendo que a escritora deveria ser colocada nas prateleiras entre Franz Kafka, James Joyce e Virginia Woolf - três grandes escritores do século XX.

Aqui eu volto para o ponto inicial, pois como todo mundo sabe o brasileiro tem uma tendência a tratar sua própria literatura com certo descaso. Parece que a gente lê, crítica e comenta com muito entusiasmo os autores estrangeiros porque achamos que a literatura do lado de lá sempre é mais verdinha. Dizemos que os argentinos tem a melhor literatura da América Latina, ficamos com inveja dos chilenos e seus feitos, veneramos os norte-americanos e admiramos a literatura europeia (dividindo nossa atenção de forma equivalente entre ingleses, franceses, espanhóis e alemães). Os argentinos conquistaram a América do Norte e a Europa com Borges, Cortázar, César Aira e companhia. Os chilenos estão dando um baile com Bolaño e Alejandro Zambra. Os norte-americanos tem os seus milagrosos cursos de escrita criativa. Os europeus tem a tradição. E o Brasil?

A coisa muda bastante de figura quando um gringo vem e nos diz que temos grandes autores. Dessa maneira somos capazes de reconhecer o nosso talento e beleza. Aceitamos aquele escritor que estava bem ali, debaixo do nosso nariz. Só que mesmo quando isso acontece nosso complexo vira-latas anda a espreita e pensamos: a gente de fato dá alguma bola para a literatura nacional? Será que esse autor consegue retirar nossa literatura da periferia para colocá-la no centro?

Fique claro que estou me referindo apenas a ficção contemporânea - mas com uma cabeça na Clarice Lispector.

O problema (sabiamente batizado por Nelson Rodrigues de complexo vira-latas) não é novo. Pelo contrário: é mais ancestral do que a gente pode imaginar. Remete as formações da nossa literatura onde a questão da identidade sempre foi um conflito. Como se reconhecer em algo que a gente não consegue definir exatamente? Para ser nacional precisa ter índios, mulatas, carnaval, futebol e pobreza? Como romper essa barreira? Na impossibilidade de vencer o desafio proposto ouvimos aos montes que a literatura brasileira comparada a estrangeira é ruim. Sobretudo da crítica acadêmica: Antonio Candido afirmando que, “comparada às grandes, a nossa literatura é pobre e fraca. Mas é ela, não outra, que nos exprime”; e porque não lembrar também do caso Alcir Pécora na série "Desentendimento", do Instituto Moreira Salles - resumindo a conversa Pécora acha que a literatura perdeu importância. Daí não me espanta os jovens críticos da internet (e da acadêmia) e o pessoal dos cadernos culturais dedicarem laudas e mais laudas à literatura estrangeira.

(Aqui eu faço um parênteses para lembrar não só de Nelson Rodrigues, mas também de Tom Jobim e Caetano Veloso reclamando do mesmo problema em relação a nossa cultura. Caetano, certa vez, disse que os cadernos culturais do país dedicavam páginas inteiras a bandas que não tinham tanta importância em seus países de origem e não dedicavam uma linha crítica aos brasileiros. A transposição cabe para a literatura).

Estou juntando numa mesma panela vários ingredientes diferentes, promovendo digressões, borrando matizes, generalizando. Mas não deixo de pensar que a enorme repercussão de Clarice Lispector nos Estados Unidos deve esbarrar na Inglaterra e possivelmente no resto da Europa. Assim, venceríamos nossa vergonha em relação a literatura estrangeira e imbuídos de algum orgulho poderíamos dizer: "somos bonitos pra caramba". Aliando isso ao nosso belo momento econômico, a força da nossa jovem literatura (que está fervilhando de bons escritores - acreditem!) e aos nossos tímidos avanços no campo da leitura teremos uma combinação perfeita para mudar nosso descaso com nossa própria literatura.

Para esclarecer: é verdade que Clarice Lispector faz um tremendo sucesso aqui no Brasil e goza de um grande número de leitores devotos. Quando publicou seu primeiro livro ganhou atenção merecida da crítica. Também não é a primeira vez que a sua obra está sendo traduzida para o mundo inteiro. Além disso, outros países (outra culturas) já alimentam interesse por ela faz tempo - acho que sobretudo na França. Jovens escritores da Argentina também tem admiração e chegam a citá-la como influência. A edição do ano passado do FILBA teve mesas temáticas dedicadas a sua obra.

***

Em tempo, críticas e notícias a respeito do relançamento das obras de Clarice Lispector nos Estados Unidos saíram nas páginas gringas da Vogue, da Publisher's Weekly, da Quarterly Conversation e nos blogs The Millions e da editora Tin House. Benjamin Moser também foi convidado para um podcast muito bacana chamado That Other Word. Contos dela também apareceram recentemente na Paris Review e no projeto Recommended Reading (do pessoal da Electric Literature).

As edições da New Directions estão ganhando textos de apresentação de Caetano Veloso, Jonathan Franzen, Pedro Almodovar, Colm Toíbín e Orhan Pamuk.

***

Não posso deixar de citar o caso de Woody Allen que numa entrevista do ano passado afirmou que tinha adorado Memórias Póstumas de Brás Cubas. Será que isso tornou Machado de Assis mais popular?

Também quero lembrar dois textos do qual peguei emprestado algumas ideias: "Notícia da atual literatura brasileira: instinto de internacionalidade", de Sérgio Rodrigues (uma resenha sobre romance de João Paulo Cuenca com brilhante descrição de toda a trajetória da literatura brasileira desde a sua formação e os problemas de identidade nacional até uma luz do fim do túnel, uma saída para o impasse com o "instinto de internacionalidade" - recomendo vivamente, inclusive é possível reconhecer certos trechos que retirei dali); e "A irrelevância da literatura brasileira", de Joca Reiners Terron (com ideias e explicações da maior importância - inclusive no fato de César Aira achar nossa literatura a melhor do continente e comentar seu entusiasmo com Sérgio Sant'Anna cuja obra ele mesmo está traduzindo e divulgando. Será que vamos ler mais Sérgio Sant'Anna?).

*Imagem: reprodução do Google.

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sexta-feira, 25 de novembro de 2011

PAULO COELHO, BERNARDO CARVALHO E A LITERATURA (E CRÍTICA) NA INTERNET

Caramba! Vi uma notícia dizendo que em entrevista ao programa da apresentadora Ana Maria Braga, o escritor Paulo Coelho disse a seguinte frase: "As redes sociais são uma forma de literatura". Imediatamente me lembrei de um artigo escrito por Bernardo Carvalho para a revista Piauí - Em defesa da obra cujo resumo pode ser apresentado da seguinte forma: "As corporações da mídia querem que os escritores trabalhem de graça, não façam arte e exponham a vida privada na internet – e contam com o apoio de Paulo Coelho".

Fiquei sabendo do artigo através de Sérgio Rodrigues, do Todoprosa, num post em que conversa com Michel Laub e indiretamente com Bernardo Carvalho sobre a crítica em tempos de internet.

Recomendo vivamente a leitura desses textos. Por aqui, estou ruminando ideias e nem me atrevo a emitir nenhuma opinião depois de ler esse trecho:
"É assim que o chamado “valor social” (a capacidade que os indivíduos têm de influenciar uns aos outros através de suas opiniões em blogs, Twitters e páginas pessoais em sites de relacionamento) começa a despertar interesse no mercado virtual."
*Imagem: reprodução daqui.
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quinta-feira, 5 de maio de 2011

ENTÃO, VOCÊ QUER SER CRÍTICO LITERÁRIO? (2)


Ontem falei sobre a inflação simbólica das narrativas e uma literatura maior ou menor no Brasil. Hoje termino de comentar outras ideias que apareceram no debate da série Desentendimento e no artigo do caderno Prosa e Verso.

***

Tradição / Inovação

Pécora tem razão quando diz que a literatura "não tem como se fingir de recém-nascida, livre para não ter memória e amar integralmente a si própria como invenção de grau zero". A questão aqui pode ser explicada pela falta/excesso de repertório cultural do escritor quando produz algo ou pela falta de manejo do crítico quando ignora o diálogo daquela obra com o seu tempo e com a tradição que a precede.

O apagamento do passado e o esquecimento da história são os males do nosso tempo moderno/pós-moderno que contaminam todas as áreas do conhecimento humano. Não são um privilégio da literatura, certamente. Pior para ela cuja origem está na antiguidade clássica - ou antes mesmo, se pensarmos nas narrativas orais.

Acontece que desde o começo do século XX "fazer o novo" é a palavra de ordem. Todo escritor pensa em algum dia superar o que ficou para trás na literatura. Mas o peso da tradição e as inovações trazidas pelo século XX (que já se tornaram tradição faz tempo) não deixaram muito espaço para novas invenções.

A inovação, no sentido de superação, vive uma espécie de colapso e percebemos que as coisas na história não seguem sempre em linha reta, progressivamente rumo ao futuro glorioso.

Não há saída para romper com a representação subjetiva ou objetiva da realidade. Para que isso aconteça precisamos de uma transformação na nossa humanidade, nas nossas percepções do mundo. Independente de inovações linguísticas e modificações nas categorias narrativas, contar histórias é algo intrínseco ao ser humano: não acaba e não cansa.

Reforço essa ideia com uma citação do Tao Lin, um escritor americano. Elas estão num ensaio para o The New York Observer chamado Does the Novel Have a Future?. Partindo de perguntas como "que tipos de romances existem hoje?" ou "qual o futuro do romance?", ele constrói argumentos para demonstrar como esse tipo de discussão no desvia daquilo que é mais importante: escrever. Vou colocar abaixo um trecho que traduzi livremente, meio ao pé da letra:

"Um certo discurso literário, sobre o que os outros devem ou não fazer com sua arte, provavelmente vai sempre existir como uma distração do ato de escrever romances.

(...)

Romances - e memórias - são talvez os relatos mais abrangentes que os seres humanos podem transmitir, de suas experiências particulares, para outros seres humanos. Nestes termos, há apenas um tipo de romance: a tentativa humana de transferir ou transmitir alguma parte ou a versão do seu mundo de númeno para outro do mundo do númeno.

(...)

Portanto, eu atualmente me sinto mais interessado na leitura/criação de romances que não são melhorias ou inovações de outros romances. Eu quero ver cada romance potencial como definitivamente e inevitavelmente único, aperfeiçoável apenas em relação a si mesmo e só a partir da perspectiva singular do seu criador. Eu quero aprender sobre a experiência única de um outro ser humano a partir de relatos que ele mesmo fizer enquanto animadamente ciente de que só ele, independentemente do que os outros estão pensando ou fazendo, tenha acesso sobre o que ele esta relatando".
Pode ser que em algum lugar, nesse exato momento, exista alguém "fazendo o novo". Porém, contar história interessantes é tão importante quanto. Isso retira das nossas costas a responsabilidade de fazer obrigatoriamente algo novo. A imposição que parece que não deixa com que a gente avance.

Cabe ao escritor a tentativa de dialogar com o que existiu, recombinando e recomeçando tudo outra vez.

***

Da crítica

A briga dos escritores com a crítica, dos leitores com a crítica e dos críticos com a crítica, está enraizada no esvaziamento do seu discurso que oscila ora entre o jargão acadêmico e ora entre repetição de esquemas interpretativos e releases jornalísticos.

Alguns torcem pelo fim da crítica e alguns já deram ela como morta. Mas quando uma coisa desaparece é que ela ganha mais importância. Eis uma ideia que aparece nos diários do escritor Ricardo Piglia, que encontrei no blog Todoprosa, do Sérgio Rodrigues:

“A crítica literária é a mais afetada pela situação atual da literatura. Desapareceu do mapa. Em seus melhores momentos – com Iuri Tinianov, Franco Fortini ou Edmund Wilson – foi uma referência na discussão pública sobre a construção do sentido em uma comunidade. Não resta nada dessa tradição. Os melhores – e mais influentes – leitores atuais são historiadores, como Carlo Ginzburg, Robert Darnton, François Hartog ou Roger Chartier. A leitura dos textos passou a ser assunto do passado ou do estudo do passado.”
Antes de sumir, a crítica precisa se reinventar - tanto quanto os escritores. O próprio Pécora falou sobre isso numa entrevista para a revista "Floema", da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (encontrei via Prosa e Verso e recomendo a leitura). Lá ele diz que a crítica precisa ser exercida em várias frentes, precisa trabalhar para fazer surgir "um conjunto de metáforas e formas novas de lidar com eles" e o mais interessante:

"(...) também acho que a crítica de cultura deve ocupar prioritariamente o campo da língua portuguesa e não o do jargão de área acadêmica. Para que o espaço de linguagem crítica no jornal seja mais do que uma glosa descorada do que já existe (descoradamente) no espaço acadêmico, para que esse espaço possa funcionar não só como orientação do consumo e do gosto, mas também como lugar de reflexão atenta à especificidade dos novos objetos do presente, são necessários estudo e erudição".
Não deixa de ser uma saída interessante, mas que exige tempo e esforço.

Também acho que as inúmeras discussões a respeito de mercado editorial, dos livros e leitores eletrônicos, do fim da literatura, do fim do romance também nos desviam do que está acontecendo na literatura agora. Seria interessante ouvir o que um escritor tem a dizer sobre o seu processo de trabalho, suas intenções, sua pesquisa e todo o resto.

Outra coisa que falta à crítica é acabar com essa indisposição para enfrentar e vasculhar o que está sendo produzido. O Michel Laub, novamente, tem um texto bem interessante sobre isso para o blog da Companhia das Letras - Os clichês do escritor e os clichês da crítica:

"O uso do clichê e do jargão é apenas um exemplo da subjetividade intrínseca a qualquer julgamento literário. (...) ok, mas o resultado de tais premissas e escolhas é bom ou ruim, funciona ou não dentro do que se propõe — nas regras que o autor determina, e não o crítico —, e por quê?

(...)

Existem os best-sellers de público, com fórmula reconhecível por qualquer leitor com experiência, e os best-sellers de crítica, que se escondem — às vezes por décadas e séculos — entre a chamada “literatura de qualidade”. Por razões que valeriam um texto à parte, no entanto, é sempre possível encontrar em algum ponto deles a prova de que o escritor capitulou — em termos ideológicos, morais e técnicos, por falta de talento, esforço ou coragem — ao o pior dos clichês, que é o do imaginário comum de uma época. Ou seja, aquilo que os outros, incluindo a crítica, esperam que digamos. Quando tudo o que deveríamos perseguir é aquilo que, usando meios que podem parecer os menos literários possíveis, queremos e precisamos dizer."
Alguém, não me lembro quem, num desses congressos culturais, disse que a internet (blogs e redes sociais) é livre para criar críticas pois tem espaço (coisa que está sumindo dos jornais e revistas) e não está ligadas a nenhuma instituição. No entanto a internet sofre de um mal inerente a ela mesma: falar indefinidamente sobre um determinado assunto sem acrescentar nada de relevante - a tal inflação simbólica das narrativas. Como muitos debates críticos estão migrando para a internet, seria natural que essas questões não sejam deixadas de lado. Só que esse ainda é um terreno meio movediço.

Irrelevância das narrativas

A preferência da leitura crítica à produção de ficção (de literatura) me faz lembrar a briga de Lee Spiegel no The New Yorker Observer. Entre tantas coisas, o crítico cultural americano também disse que prefere ler não ficção a ficção, e diz ainda que a não ficção está ocupando o lugar da ficção - um gênero irrelevante, peça de museu para os dias de hoje. Será mesmo?

Não quero arriscar dizendo autores representativos de alguma coisa. Mas no final do ano passado, o Caderno 2, do Estadão, fez uma reportagem bem interessante sobre o romance dessa primeira década do século XXI.

E para quem quer entender mais sobre o que aconteceu e está acontecendo na literatura brasileira, recomendo um texto do Sérgio Rodrigues, do Todoprosa - Notícia da atual literatura brasileira: instinto de internacionalidade. Ele resume o embate dos nossos escritores em encontrar uma saída para impasse da irrelevância da narrativa nacional.

Existe espaço para o que é bem realizado, só precisa haver tempo para acontecer e boa vontade para avaliar.

*imagem: reprodução.
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terça-feira, 26 de abril de 2011

OUÇA UM BOM CONSELHO


Desde o ano passado, se não me engano, o jornal inglês Guardian tem perguntado aos escritores algumas regras de ouro para as pessoas que desejam se aventurar na área. A série tem conselhos de pessoas bem conhecidas. Vou reproduzir abaixo alguns conselhos em tradução meio literal:

Zadie Smith

Quando criança, certifique-se de que você leu um monte de livros. Gaste mais tempo fazendo isso do que qualquer outra coisa.

Quando adulto, tente ler sua própria obra como um estranho leria, ou melhor ainda, como seu inimigo leria.

Não romantize a sua "vocação". Você pode escrever tanto frases boas quanto ruins. Não existe um "estilo de vida de escritor". Tudo o que importa é o que você deixa escrito na página.

Evite panelinhas, gangues, grupos. A presença de uma multidão não vai fazer o seu texto ser melhor do que ele é.

Trabalhe num computador desconectado da internet.

Will Self

Pare de ler ficção - é tudo mentira mesmo, e a ficção não tem nada a lhe dizer que você já não saiba (assumindo, isto é, que você já leu muita ficção no passado; se você não leu você não tem qualquer tipo de interesse muito menos em ser um escritor de ficção).

Viva a vida e escreva sobre a vida. De fato não há fim em se fazer muitos livros, mas já existem muitos livros sobre os livros.

A vida do escritor é essencialmente a do confinamento solitário - se você não pode lidar com isso você não precisa pôr em prática.

Cheguei nesses conselhos depois de ler a entrevista de Lygia Fagundes Telles na Ilustrada. Quando perguntada sobre os jovens escritores de hoje, ela respondeu e aconselhou:

Eles me parecem ainda mais ansiosos do que nós éramos. Ansiosos por escrever e por aparecer. E a ansiedade é o maior perigo para um escritor.

Para completar a rodada de conselhos, sugiro também uma leitura na série "Conselhos literários fundamentais", do Sérgio Rodrigues no blog Todoprosa.

*imagem: reprodução.
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sábado, 26 de março de 2011

SOCIEDADES SECRETAS

O blog da Cosac Naify nos deu um pequeno presente ao promover o lançamento da novela História abreviada da literatura portátil, de Enrique Vila-Matas - publicado originalmente em 1985. Explico melhor: a editora convidou autores para escreverem relatos sobre "sociedades secretas que conheceram e/ou fizeram parte". As histórias foram publicadas no blog da editora em três partes - para acompanhar Top Secret, Top Secret II e Top Secret III.

O livro de Vila-Matas conta a história de um grupo de intelectuais do começo do século XX que funda uma sociedade secreta a fim de promover "o amor à escrita como diversão, a insolência, o espírito inovador e a autoria de obras que pudessem caber facilmente numa maleta". O grupo se autodenomina sociedade portátil ou sociedade shandy. Segundo o narrador do romance, o nome da sociedade teria várias explicações e significados possíveis - o que lembrar as explicações de Tristan Tzara para o nome do movimento Dadaísta. Aliás, Tzara é uma das personagens da novela junto com Marcel Duchamp, García Lorca, Walter Benjamin e tantos outros escritores, pintores e artistas. Detalhe: todos eles existiram realmente e nas mãos de Vila-Matas acabam virando personagens de ficção.

Seguindo o mesmo padrão de misturar a realidade com a ficção, Daniel Galera, Antonio Xerxenesky, Vanessa Barbara, Sérgio Rodrigues, Júlio Pimentel Pinto, Chico Mattoso e Joca Reiners Terron criaram história curiosas, engraçadas e até certo ponto, verídicas. Dessa vez, as personagens são Thomas Bernhard, Georges Bataille e uma galeria de escritores estrangeiros e nacionais se reunindo em torno da comida ou debatendo a literatura portátil.

Em tempo, Enrique Vila-Matas vai participar do 3º Congresso Internacional de Jornalismo Cultural em maio desse ano.
*imagens: divulgação.

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domingo, 13 de março de 2011

JAMES WOOD: O CRÍTICO LITERÁRIO

Como funciona a ficção, de James Wood chega ao Brasil cercado de comentários interessantes. Não estou me referindo a polêmica envolvendo a tradução do livro - quem quiser saber mais sobre esse assunto pode ler a explicação da tradutora Denise Bottmann e a resposta da editora Cosac Naify que foram publicadas no caderno Prosa & Verso.

Achei interessante acompanhar o comentário de Sérgio Rodrigues, no blog Todoprosa, e da crítica de literatura Flora Süssekind, no mesmo Prosa & Verso. Os dois falam de perspectivas diferentes sobre o mesmo livro, mas acho interessante a oposição porque de alguma maneira acaba refletindo um conflito que existe: para falar sobre como funciona a literatura temos de seguir uma abordagem acadêmica ou podemos usar uma abordagem menos "pretensiosa".

Também sugiro duas entrevistas que ele concedeu: uma para Daniel Piza, no caderno Sabático, e outra para o Prosa & Verso. Acho interessante ler esse material porque vem acompanhado de pequenos textos introdutórios que refletem mais pontos de vista sobre o livro. Acredito que mais textos devem vir por aí.

Apenas para situar: James Wood é crítico da revista New Yorker e no livro ele aborda algumas categorias literárias (personagem, linguagem, narrador etc.) sem usar jargões acadêmicos. Pelo que eu li, tudo acontece meio em tom de conversa e sem aquele peso da responsabilidade crítica. É essa abordagem de James Wood que está no centro da questão.

Quando foi lançado nos Estados Unidos em 2008, o livro também rendeu diversas discussões. Figurou inclusive entre a lista dos mais vendidos.

Ainda não li o livro de Wood e acho bacana que ele chegue causando esses comentários. Isso estimula a gente a ler o livro para tirar nossas conclusões, ouvir os posicionamentos e encontrar um caminho para a tal "críse da crítica", quem sabe algum dia.

*imagem: divulgação.

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sexta-feira, 4 de março de 2011

CONTOS DE CARNAVAL


Juro que eu estava preparando um post para falar a respeito dos foliões amantes da literatura. Enquanto elaborava umas ideias na minha cabeça me deparei com a pequena antologia online: contos brasileiros de carnaval orgazinada pelo Sérgio Rodrigues do blog Todoprosa. A ideia é muito boa e inclui contos de João do Rio, Clarice Lispector, Aníbal Machado, Lygia Fagundes Telles, Rubem Fonseca e até um conto inédito de autoria do próprio Sergio Rodrigues - ainda inédito em livro.

Pegando carona, aqui vai a minha contribuição: Duas cartas, de Luis Henrique Pellanda que foi publicado em Macaco ornamental - livro de estréia do escritor que é de Curitiba. Li recentemente e recomendo bastante não só pelo enorme talento do Pellanda, mas também porque tem um outro conto de carnaval chamado Embaixadores de Xanadu. Infelizmente não achei na internet.

Outro conto que pode integrar a antologia online é Um dia de entrudo, de Machado de Assis. Quem disse que ele também não escreveu o seu.

Alguém se lembra de mais algum?

*imagem: reprodução Google.
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sábado, 20 de novembro de 2010

NOTAS #9


Ilustre Quixote
O pintor Jean de Bosschère fez desenhos impressionantes para uma edição do livro Dom Quixote de La Mancha datada de 1922. Nas mãos de Bosschère o cavaleiro de Cervantes ganhe uma aura espiritualista e obscura, bem ao do estilo do pintor. Quixote também foi ilustrado por outros pintores como Gustave Doré, Albert Dubout e Salvador Dali. Os desenhos de Bosschère estão disponíveis em http://tinyurl.com/2facvad

Mano Kerouac
Num período paranóico Jack Kerouac iria trazer a prosa espontânea das ruas dos Estados Unidos para dentro de seu mítico romance On the road. Cinquenta e três anos mais tarde Mike Lacher, escritor e designer, decidiu que a linguagem do romance precisava de uma atualização. Por isso, ele criou o tumblr On the bro'd. A ideia é simples: reescrever cada sentença de On the road na linguagem dos brothers. O resultado pode ser conferido em http://onthebrod.tumblr.com/

Pinguim danado
A editora Penguin está lançando uma caixa contendo 100 postcards diferentes com algumas de suas capas clássicas. A coleção é parte das comemorações dos seus 75 anos da editora. Tem desde as primeiras capas com duas faixas laranjas até edições mais modernas. Nem é preciso lembrar que o designer das capas da Penguin fizeram história e causam inveja no mundo todo. Como dizem, a Penguin sabe renovar um clássico.

Livros do ano
Sérgio Rodrigues do blog Todoprosa está organizando uma votação dos livros do ano lançados no Brasil. No total a lista dos concorrentes contará com dez autores brasileiros e dez autores estrangeiros. Os internautas e leitores podem indicar livros de sua preferência, sempre justificando a escolha com bons argumentos. Sérgio já deu pistas de que 2666, de Roberto Bolaño estará na lista. A votação começa em dezembro.

Manuscritos ameaçados
O Victoria and Albert Museum em Londres está em busca de doações para salvar os manuscritos de três romances de Charles Dickens. Entre as raridades estão David Copperfield e Um conto de duas cidades. Os manuscritos tem mais de 150 anos e estão bastante desgastados. Segundo o museu, a última restauração desses manuscritos foi feita nos anos 60.

A notícia Franzen da semana
Jonathan Franzen leu um trecho de seu badalado romance Freedom no 92nd Street Y, em Nova York. Ele subiu ao palco carregando uma valise, parecia um pouco tímido no começo e leu com rapidez os primeiros parágrafos. Depois ele foi acalmando e deu mais espaço para risada do público nos trechos irônicos. Ele dividiu a noite com a escritora Lorrie Moore, ambos responderam a perguntas enviadas pelo público logo após a leitura. Mais solto, Franzen fez graça e divertiu a platéia. Um trecho da leitura está disponível em http://tinyurl.com/234op6t

*imagem: reprodução do livro Dom Quixote.

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quinta-feira, 2 de setembro de 2010

MAIS OBSERVAÇÕES SOBRE O CONTAR


O crítico Sérgio Rodrigues do blog Todoprosa escreveu um post interessante essa semana sobre a questão da trama nas nossas narrativas comtemporâneas - o post se chama "O gosto de contar". Gostaria de repercutir o post que ele escreveu e ampliar o problema comentando mais alguns pontos que julgo interessantes.

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Realmente a trama, o enredo, a história ou o conteúdo é um ponto importante para que o leitor possa se sentir atraído pelo que está lendo. É por meio dela que ele vai experimentar a forma da narrativa e o exercício de linguagem de um determinado autor. Quando o conteúdo consegue se adequar a forma temos um encontro extraordinário e muito difícil de atingir. Lionel Shriver falou sobre essa questão numa entrevista recente ao programa Entrelinhas, da TV Cultura. Em muitos momentos é amargo mastigar e engolir "a fibra dura de exercícios de linguagem", como diz Sérgio. Mas nem sempre esse descaso com a trama é intencional por parte do autor. Tampouco é fruto de um ódio oculto que ele mantém em relação a literatura. Na verdade, penso eu, a morte da trama é parte de um processo histórico que vem ocorrendo desde o final do século XIX e ganhou força com as vanguardas artísticas no começo do século passado. Diante do impasse de sempre criar algo novo, o caminho encontrado por muitos escritores foi atacar a trama, denunciar a linguagem e o processo de feitura das narrativas literárias. A ideia era revelar a linguagem e matá-la - como apontou Roland Barthes, Michel Foucault, etc. Talvez a maior expressão desse processo tenha ganhado corpo justamente com os franceses do Nouveau Roman e da OuLiPo.

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Não podemos esquecer que os romances, contos e fábulas estão inseridas no contexto histórico em que são produzidos - elas refletem sobre as questões de uma determinada sociedade e sobre um determinado tempo, no momento em que são escritos. Embora a gente leia com certa distância, não podemos considerar essas obras isoladas desse contexto.

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O leitor é uma figura importante, mas o processo narcisista de olhar para uma história e querer reconhecer apenas a si mesmo precisa ser balançado. O leitor precisa encarar o fato de que o livro que está lendo é árido porque naquele momento aquele experimento foi importante. O leitor também precisa tentar passar por alguns desafios que o texto impõe. Inclusive o de ser desvendado como linguagem.

***

Vivemos um momento em que contar boas histórias é muito importante, porque os leitores estão mesmo atrás delas. A forma demasiado elaborada não interessa muito. Chego a pensar que os leitores tendem a comentar muito mais a história do que a forma de um livro, mesmo que esse livro consiga conciliar as duas coisas de maneira harmônica. Esses fatos provam que o experimento de linguagem, como proposto pelas vanguardas e como querem os defensores da forma, não triunfou. As vanguardas do começo do século passado ficaram datadas.

***

Valorizar a trama também não significa que dizer ela deve ser altamente elaborada. Muitas histórias boas são frutos de tramas muito simples. "Mrs Dalloway", de Virgínia Wolf, por exemplo, é um romance sobre uma mulher que está preparando uma festa de aniversário. Os contos de Tchekhov também são sobre acontecimentos banais. Os contos escritos pelos autores modernos também estão cheio de outros exemplos. O autor não precisa ir em busca de "passar uma rasteira no leitor" e surpreendê-lo sempre. Muitas vezes importa mais a maneira como a trama é desenvolvida do que como ela vai se concluir. Talvez seja nesse momento que surja o privilégio da linguagem.

***

Os exercícios de linguagem e os textos mais experimentais nascem do nosso desejo de criar o novo e encontrar novas formas de expressão. Isso é algo do nosso tempo moderno - ou pós-moderno, se preferirem. É um tipo de exercício que não pode simplesmente ser deixado de lado porque para a narrativa literária ele compõe uma dialética entre forma e conteúdo.

***

Para concluir, penso que realmente esse gesto de contar histórias nunca vai acabar. Nem a fonte de onde elas brotam. Porque cada ser humano possuí tem uma experiência muito particular da vida. Cada um enxerga as coisas a sua maneira. É dessa riqueza, dessa diversidade que vem as histórias, as tramas, os enredos. As hitórias vão durar até que o último ser humano deixe de existir - "e depois disso, que diferença faz?", como disse Sérgio no post dele.

*imagem: reprodução do Google.

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segunda-feira, 17 de maio de 2010

LITERATURA E CRÍTICA EM CRISE?


Flora Süssekind, crítica literária, escreveu no final do mês de Abril um texto para o caderno Prosa&Verso do jornal O Globo. O texto se chamava A crítica como papel de bala. Seu mote principal era demonstrar o conservadorismo e a falta de relevância que reina na crítica literária atual do Brasil.

Num momento furioso, ela diz do crítico:

"retorno às figuras todo-poderosas do especialista monotemático, do agenciador com capacidade de trânsito inter-institucional e do colecionador de miudezas, às interlocuções preferencialmente de baixa densidade dos minicursos e palestras-espetáculo, do universo das regras técnicas e das normas genéricas e subgenéricas, fixadas acriticamente em oficinas de adestramento, à glamorização midiática de instituições autocomplacentes como a Academia Brasileira de Letras e correlatas, a formas variadas de culto a personalidades literárias, em geral mortas (e Clarice Lispector, Leminski, Ana Cristina Cesar têm sido objeto preferencial de dramaturgias miméticas, curadorias acríticas, ficções e comentários “à maneira de”), mas também em vida veem-se autores, mal lançados em livro, se converterem em máscaras que, com frequência, os aprisionam em marcas registradas mercadológicas de difícil descarte".
De fato, nós temos de admitir que a crítica literária feita por aqui realmente não está na sua melhor fase. De maneira simples o que a gente vive é uma dicotomia entre pessoas da acadêmia e o grande público - que aparentemente está por fora.

Os cadernos que tratam de literatura nos jornais e nas revistas - e falam para o grande público - parecem não ter a mesma relevância que tinham antigamente. Muitas vezes os textos parecem muito quadrados e presos a fórmulas. Faltam resenhas melhor elaboradas que promovam a reflexão em quem lê. Também falta sair do lugar comum e estimular os leitores a buscarem algo que seja novo e diferente. A impressão é de que a literatura interessante não está nos jornais e revistas.

Por outro lado, as publicações acadêmicas parecem muito fechadas em si mesmas - portanto, falam para um público mais específico. A academia está mais interessada em autores que promovem experimentação de linguagem, etc. E isso, felizmente ou infelizmente, nunca terá um alcance maior. Quando essa circulação não acontece, existe o mesmo problema de repetição de temas e falta de críticas mais profundas. O escritor Sérgio Rodrigues, em resposta ao texto de Flora, sintetizou bem um dos problema da acadêmia:

"[a] crítica passou a valorizar dois novos modelos textuais para a literatura
contemporânea, ambos virginais. De um lado, em rendição incondicional à
antropologia, o das “vozes” dos despossuídos literários: mulheres, negros, gays,
favelados. Do outro, pelo qual parece se inclinar Süssekind, o da “transgressão”
que “rompe com tudo o que está aí”, em geral sem ter lido uma fração minimamente
aceitável de “tudo o que está aí” – e aqui a rendição do crítico se dá frente ao
mito de corte religioso da pureza refundadora. Escrever “mal”, ser incapaz de
construir um personagem, reinventar a pólvora modernista, aborrecer o leitor
desavisado, tudo isso é considerado preferível a ser mais um a perpetuar aquele
jogo ideológico chamado literatura".
Evidentemente o problema com a crítica literária vai bem mais além do que esses dois campos de força. A crise parece acontecer em todos os setores da crítica cultural nos dias de hoje. Veja por exemplo a fala comum das pessoas: "quem lê os críticos?". Muita gente torce o nariz para críticos de cinema, de teatro, de balé e até para críticos literários. Assim sendo é fácil pensar: a crítica ainda é relevante? Para quem?

Tudo isso resulta num outro grande desafio sem fim, anterior a crítica, que é a educação no Brasil. Exemplos não faltam: má formação de professores, desinteresse de alunos pelo conhecimento acadêmico, universidades em ruínas e tudo o mais que a gente pode lembrar.

No Congresso de Jornalismo Cultural, orgazinado pela revista CULT, alguns debatedores apontaram a possibilidade da internet ser o meio termo entre a crítica dos jornais/revistas e a crítica acadêmica. Tudo porque aparentemente a internet é um espaço livre. Quem escreve não tem o compromisso de vender e agradar. Sobretudo num tempo em que as mídias impressas estão ficando cada vez mais enxutas. Mas quem vai puxar primeiro a sardinha para sua brasa?

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