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sábado, 31 de março de 2012

CADERNOS DE NÃO-FICÇÃO #4

O pessoal da Não Editora (Antônio Xerxenesky, Bruno Mattos, Samir Machado e Lu Thomé) acaba de lançar o quarto número dos Cadernos de Não-Ficção. Para quem ainda não conhece é bom saber que a revista é semestral e publica artigos diversos sobre literatura e dossiês temáticos. O tema central deste número é a "nova" (talvez nem tão nova, mas sempre surpreendentemente nova) literatura Argentina: Macedonio Fernández, Alan Pauls, Domingo F. Samiento e uma entrevista exclusiva com Ricardo Piglia. Tem também literatura brasileira com apontamentos sobre Os anões, de Verônica Stigger e outra entrevista exclusiva com Bernardo Carvalho. Tem muito mais coisas, inclusive as ilustrações de Luisa Hervé.

Para saber mais sobre basta fazer o download dos Cadernos ou acessar a versão folheável - todos estão disponíveis na íntegra.

*Imagem: reprodução da capa dos Cadernos #4.
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quarta-feira, 14 de março de 2012

DOCUMENTÁRIO E FICÇÃO: É TUDO VERDADE!

Na semana que vem começa o festival É Tudo Verdade dedicado ao cinema documentário. Daí você pode estar se perguntando: o que isso tem haver com prosa de ficção? Muita coisa. Ou melhor, três coisas: um documentário sobre Macedonio Fernández, outro sobre Jean-Claude Carrière e outro sobre Carolyn Cassady - a mulher de Neal Cassady e amante do escritor Jack Kerouac.

Macedonio Fernández é um documentário lançado em 1995 e dirigido pelo argentino Andrés Di Tella (diretor que ganhará uma retrospectiva no festival). O grande escritor Ricardo Piglia passeia por Buenos Aires para reconstruir a figura mítica de Macedonio Fernández - autor que continua exercendo até os dias atuais uma grande influência na literatura argentina. Não soa exagerada a afirmação de que para entendermos Jorge Luis Borges e Júlio Cortázar precisamos ler Macedonio Fernández. Recentemente a Cosac Naify publicou Museu do romance da eterna, livro inédito no Brasil com tradução de Gênese Andrade. Leitura altamente recomendada para quem deseja se aventurar no universo desse escritor.


O escritor e roteirista Jean-Claude Carrière também vira tema do documentário Carrière 250 Metros, dirigido por Juan Carlos Rulfo (filho do escritor Juan Rulfo). No filme Carrière refaz o percurso de sua vida pessoal que o leva a uma viagem em busca do diretor de teatro Peter Brook, o cineasta Milos Forman e o garçom de um hotel mexicano em que se hospedou com Luis Buñuel.


Para encerrar com chave de ouro os filmes ligados a prosa de ficção, o festival apresenta o documentário Com Amor, Carolyn, dirigido por Maria Ramstrom e Malin Korkeasalo. Jack Kerouac eternizou Neal Cassady, o muso inspirador de toda a geração Beat, na lendária personagem de Dean Moriarty. Entre o mito e a realidade estava Carolyn Cassady, a mulher que conviveu de perto com vários ícones fundamentais daquele movimento. Tudo o que ela tem para contar está bem distante da história que aparece em On the road - pé na estrada (lançado pela LPM com tradução de Eduardo Bueno). O documentário serve de aquecimento para o filme On the road, dirigido por Walter Salles com previsão de estréia em junho.

Vale a pena ver o trailer do documentário Com Amor, Carolyn com imagens incríveis de Neal Cassady dançando alucinado. Na semana passada também começou a circular na internet o trailer do filme On the road.

O festival É Tudo Verdade rola em São Paulo e Rio de Janeiro entre os dias 22 de março a 01 de abril. Em Brasília, de 10 a 15 de abril. Em Belo Horizonte, em maio. Detalhe: todas as sessões são gratuitas.

P.S.: não posso deixar de mencionar que também haverá exibição do vídeo Consideração do Poema, de Gustavo Rosa de Moura, Eucanaã Ferraz e Flávio Rosa de Moura que foi feito em comemoração do Dia D, dedicado a obra poética de Carlos Drummond de Andrade. Naquela época o vídeo circulou na internet, no youtube etc.

***

ATUALIZAÇÃO: se você ficou bastante interessado em assistir um desses documentários fique atento para os dias e horários de exibição. Por enquanto, só temos informações de São Paulo e do Rio de Janeiro. Logo mais deve sair as datas da itinerância programada para Belo Horizonte e Brasília. Não custa lembrar que a programação está sujeita a alterações.

Com Amor, Carolyn
Dir. Maria Ramstrom e Malin Korkeasalo

São Paulo
Dia 30/03 - Cinesesc, 17h
Dia 31/03 - CCBB, 19h

Rio de Janeiro
Dia 28/03 - CCBB, 10:30h
Dia 30/03 - CCBB, 18:30h

Macedonio Fernández
Dir. Andrés di Tella

São Paulo
Dia 23/03 - CCBB, 17h
Dia 28/03 - CCBB, 11h

Rio de Janeiro
Dia 29/03 - CCBB, 14:30h
Dia 01/04 - CCBB, 10:30h

Carrière 250 Metros
Dir. Juan Carlos Rulfo

São Paulo
Dia 24/03 - Cinemateca, 16h
Dia 01/04 - Cinesesc, 15h

Rio de Janeiro
Dia 26/03 - Espaço Itaú de Cinema Botafogo, 17h
Dia 01/04 - Oi Futuro Ipanema, 20h

Consideração do Poema
Dir. Gustavo Rosa de Moura, Eucanaã Ferraz e Flávio Rosa de Moura

São Paulo
Dia 28/03 - Cinesesc, 19h
Dia 30/03 - MIS, 14h

Rio de Janeiro
Dia 29/03 - Espaço Itaú de Cinema Botafogo, 19h
Dia 01/04 - Instituto Moreira Salles, 18h

*Imagens: divulgação Cosac Naify / reprodução internet e divulgação do filme.

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segunda-feira, 28 de novembro de 2011

UMA ANOTAÇÃO DE RICARDO PIGLIA

Em tempos de discussões sobre a literatura, a internet, a crítica, o autor, a obra e as afirmações de Paulo Coelho nada melhor do que Ricardo Piglia para iluminar nossos pensamentos:
A narração social se deslocou do romance para o cinema e depois do cinema para as séries, e agora está passando das séries para os facebooks e twitters e demais redes da internet. O que envelhece e perde a vigência fica solto e mais livre: quando o público do romance do século 19 se deslocou para o cinema, foram possíveis as obras de Joyce, de Musil e de Proust. Quando o cinema é relegado como meio de massa pela TV, os cineastas dos "Cahiers du Cinéma" resgatam os velhos artesãos de Hollywood como grandes artistas; agora que a TV começa a ser substituída massivamente pela web, valorizam-se as séries como forma de arte. Em breve, como o avanço tecnológico, os blogs e os velhíssimos e-mails e as mensagens de texto serão exibidos nos museus. Que lógica é esta? Só se torna artístico -só se politiza- o que caduca e está "atrasado".
Observações de Ricardo Piglia, retiradas de seus diários em Princeton e publicadas pelo caderno Ilustríssima com tradução de Paulo Werneck.

*Imagem: "Mammon" por Mariana Fonseca / Reprodução.
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segunda-feira, 26 de setembro de 2011

NOTAS #29


Escritores de papel
Vi na Ilustríssima e não pude resistir. O livro Literary Greats Paper Dolls, de Tim Foley tem cerca de 30 escritores de língua inglesa para você recortar e colar neles roupinhas de seus famosos personagens. Tem Arthur Conan Doyle vestido de Sherlock Holmes, Agatha Christie como Miss Marple, Charles Dickens em fantasma do natal passado e outros tantos. A ideia é bastante original e não deixa de ser muito divertida. Bem que alguma editora podia se animar e fazer uma versão nacional. Já pensou José de Alencar vestido como Peri? Algumas imagens do livro de Tim Foley estão disponíveis aqui.

Não é para qualquer um
A notícia mais comentada na semana passada foi o anúncio de que o escritor George R.R. Martin é o mais novo integrante do clube "escritores que venderam 1 milhão de livros digitais no Kindle". Se não estou enganado, a Amazon está considerando o total de vendas dos cinco livros da série As crônicas de gelo e fogo. James Patterson, Charlaine Harris, Stieg Larsson e Suzanne Collins também atingiram seu milhão de vendas no Kindle por causa da publicação de séries. Só que chegar a esse número não é para qualquer um, mesmo escrevendo séries. Stephenie Meyer e sua saga Crepúsculo, por exemplo, não conseguiu.

***

De fato George R.R. Martin é um escritor de sucesso. Vejo diariamente pessoas circulando nas ruas com algum dos volumes de As crônicas de gelo e fogo embaixo do braço (sobretudo no metrô e ônibus). Parte do sucesso pode ser atribuída à adaptação para a TV exibida no canal HBO. Seja como for são livros de fantasia e aventura que estão satisfazendo o gosto dos leitores cansados de tanto realismo. O tamanho também não assusta ninguém - cada volume tem no mínimo 500 páginas. E teve gente dizendo que no futuro as pessoas só iam ler histórias curtas!

Piglia esgotado
Os ingressos para ver Ricardo Piglia em São Paulo esgotaram muito rapidamente no mesmo dia em que começaram a ser distribuídos (acho que foi algo em torno de três ou quatro horas, não consegui calcular). O escritor argentino fará uma conferência sobre "Romance e tradução". Nem tive chance de garantir um lugar. Como consolo, estou recomendando um vídeo com Piglia e outros escritores debatendo o papel do ciberespaço na literatura e na crítica - durante a feira do livro em Madri. Daqui ele segue para o RJ.


FILBA
Segundo disseram a participação dos brasileiros na FILBA não foi cercada de muita curiosidade por parte dos nossos hermanos - exceto quando o assunto era Clarice Lispector. A grande estrela do festival foi mesmo o escritor J.M. Coetzee. Os principais jornais argentinos abusaram de muitos adjetivos para dizer que a conferência de encerramento com a presença do escritor foi brilhante. Tentei encontrar algum vídeo da apresentação, mas parece que o festival não teve transmissão de vídeos na internet. Acabei reencontrando um vídeo antigo de Coetzee em conversa com Peter Sacks. Ele até sorri!

O poder das capas
Antonio Candido, em depoimento pessoal sobre Graciliano Ramos, disse que ficou impressionado quando viu a capa da primeira edição de Caetés - achou diferente. Emendou falando sobre a importância das novas capas dos livros naquela época, difundindo o modernismo com suas estéticas cubista, surrealista etc. Um célebre capista do período foi Santa Rosa. Pelas mãos dele passaram livros de Jorge Amado, José Lins do Rego, Lucio Cardoso, Mario de Andrade, Graciliano Ramos e muitos outros.

***

Falando em capa tenho mais duas coisas para comentar. A primeira é um post da semana passada sobre a tradição dos poloneses no campo do designe gráfico. Descobri um link com capas bem legais de edições polonesas das décadas de 70 e 80. A segunda é uma lista daquelas que só o Flavorwire consegue fazer com 20 capas de clássicos da literatura reinventadas e infelizmente nunca publicadas. A mais bonita na minha opinião é Franny & Zooey, de J.D. Salinger por Nan Lawson (acima).

Polêmicas
Para fechar as notas duas polêmicas: a propaganda da Caixa Econômica com Machado de Assis e o Prêmio Jabuti desclassificando obras de sua lista de concorrentes ao prêmio.

*Imagem: J.M. Coetzee reproduzido do Página 12; capas de livro reprodução/divulgação.
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quarta-feira, 10 de agosto de 2011

RICARDO PIGLIA DE VOLTA COM ALVO NOTURNO

Chega essa semana às livrarias Alvo noturno, de Ricardo Piglia - pela Companhia das Letras. O escritor finalmente quebra o jejum de mais de dez anos sem publicar ficção (seu último romance foi Dinheiro queimado - escrito em 1997) e parece que ele venceu uma espécie de bloqueio criativo. O esforço valeu a pena, pois o livro foi muito bem recebido pela crítica internacional e até recebeu o Prêmio Rómulo Gallegos.

A revista Época dessa semana tem uma reportagem sobre o romance com direito a entrevista com o autor (infelizmente só disponível para assinantes da revista). Piglia fala sobre seus "transtornos" criativos, a demora para escrever, seu processo de trabalhos e o medo de ter perdido seu talento. Ainda diz que está inspirado pela nova geração de autores de Buenos Aires e que prepara um próximo livro de contos com título provisório de Histórias personales.

Bem-vindo de volta, Piglia! Tem um trecho de Alvo noturno disponível aqui.

*imagem: divulgação.
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quinta-feira, 5 de maio de 2011

ENTÃO, VOCÊ QUER SER CRÍTICO LITERÁRIO? (2)


Ontem falei sobre a inflação simbólica das narrativas e uma literatura maior ou menor no Brasil. Hoje termino de comentar outras ideias que apareceram no debate da série Desentendimento e no artigo do caderno Prosa e Verso.

***

Tradição / Inovação

Pécora tem razão quando diz que a literatura "não tem como se fingir de recém-nascida, livre para não ter memória e amar integralmente a si própria como invenção de grau zero". A questão aqui pode ser explicada pela falta/excesso de repertório cultural do escritor quando produz algo ou pela falta de manejo do crítico quando ignora o diálogo daquela obra com o seu tempo e com a tradição que a precede.

O apagamento do passado e o esquecimento da história são os males do nosso tempo moderno/pós-moderno que contaminam todas as áreas do conhecimento humano. Não são um privilégio da literatura, certamente. Pior para ela cuja origem está na antiguidade clássica - ou antes mesmo, se pensarmos nas narrativas orais.

Acontece que desde o começo do século XX "fazer o novo" é a palavra de ordem. Todo escritor pensa em algum dia superar o que ficou para trás na literatura. Mas o peso da tradição e as inovações trazidas pelo século XX (que já se tornaram tradição faz tempo) não deixaram muito espaço para novas invenções.

A inovação, no sentido de superação, vive uma espécie de colapso e percebemos que as coisas na história não seguem sempre em linha reta, progressivamente rumo ao futuro glorioso.

Não há saída para romper com a representação subjetiva ou objetiva da realidade. Para que isso aconteça precisamos de uma transformação na nossa humanidade, nas nossas percepções do mundo. Independente de inovações linguísticas e modificações nas categorias narrativas, contar histórias é algo intrínseco ao ser humano: não acaba e não cansa.

Reforço essa ideia com uma citação do Tao Lin, um escritor americano. Elas estão num ensaio para o The New York Observer chamado Does the Novel Have a Future?. Partindo de perguntas como "que tipos de romances existem hoje?" ou "qual o futuro do romance?", ele constrói argumentos para demonstrar como esse tipo de discussão no desvia daquilo que é mais importante: escrever. Vou colocar abaixo um trecho que traduzi livremente, meio ao pé da letra:

"Um certo discurso literário, sobre o que os outros devem ou não fazer com sua arte, provavelmente vai sempre existir como uma distração do ato de escrever romances.

(...)

Romances - e memórias - são talvez os relatos mais abrangentes que os seres humanos podem transmitir, de suas experiências particulares, para outros seres humanos. Nestes termos, há apenas um tipo de romance: a tentativa humana de transferir ou transmitir alguma parte ou a versão do seu mundo de númeno para outro do mundo do númeno.

(...)

Portanto, eu atualmente me sinto mais interessado na leitura/criação de romances que não são melhorias ou inovações de outros romances. Eu quero ver cada romance potencial como definitivamente e inevitavelmente único, aperfeiçoável apenas em relação a si mesmo e só a partir da perspectiva singular do seu criador. Eu quero aprender sobre a experiência única de um outro ser humano a partir de relatos que ele mesmo fizer enquanto animadamente ciente de que só ele, independentemente do que os outros estão pensando ou fazendo, tenha acesso sobre o que ele esta relatando".
Pode ser que em algum lugar, nesse exato momento, exista alguém "fazendo o novo". Porém, contar história interessantes é tão importante quanto. Isso retira das nossas costas a responsabilidade de fazer obrigatoriamente algo novo. A imposição que parece que não deixa com que a gente avance.

Cabe ao escritor a tentativa de dialogar com o que existiu, recombinando e recomeçando tudo outra vez.

***

Da crítica

A briga dos escritores com a crítica, dos leitores com a crítica e dos críticos com a crítica, está enraizada no esvaziamento do seu discurso que oscila ora entre o jargão acadêmico e ora entre repetição de esquemas interpretativos e releases jornalísticos.

Alguns torcem pelo fim da crítica e alguns já deram ela como morta. Mas quando uma coisa desaparece é que ela ganha mais importância. Eis uma ideia que aparece nos diários do escritor Ricardo Piglia, que encontrei no blog Todoprosa, do Sérgio Rodrigues:

“A crítica literária é a mais afetada pela situação atual da literatura. Desapareceu do mapa. Em seus melhores momentos – com Iuri Tinianov, Franco Fortini ou Edmund Wilson – foi uma referência na discussão pública sobre a construção do sentido em uma comunidade. Não resta nada dessa tradição. Os melhores – e mais influentes – leitores atuais são historiadores, como Carlo Ginzburg, Robert Darnton, François Hartog ou Roger Chartier. A leitura dos textos passou a ser assunto do passado ou do estudo do passado.”
Antes de sumir, a crítica precisa se reinventar - tanto quanto os escritores. O próprio Pécora falou sobre isso numa entrevista para a revista "Floema", da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (encontrei via Prosa e Verso e recomendo a leitura). Lá ele diz que a crítica precisa ser exercida em várias frentes, precisa trabalhar para fazer surgir "um conjunto de metáforas e formas novas de lidar com eles" e o mais interessante:

"(...) também acho que a crítica de cultura deve ocupar prioritariamente o campo da língua portuguesa e não o do jargão de área acadêmica. Para que o espaço de linguagem crítica no jornal seja mais do que uma glosa descorada do que já existe (descoradamente) no espaço acadêmico, para que esse espaço possa funcionar não só como orientação do consumo e do gosto, mas também como lugar de reflexão atenta à especificidade dos novos objetos do presente, são necessários estudo e erudição".
Não deixa de ser uma saída interessante, mas que exige tempo e esforço.

Também acho que as inúmeras discussões a respeito de mercado editorial, dos livros e leitores eletrônicos, do fim da literatura, do fim do romance também nos desviam do que está acontecendo na literatura agora. Seria interessante ouvir o que um escritor tem a dizer sobre o seu processo de trabalho, suas intenções, sua pesquisa e todo o resto.

Outra coisa que falta à crítica é acabar com essa indisposição para enfrentar e vasculhar o que está sendo produzido. O Michel Laub, novamente, tem um texto bem interessante sobre isso para o blog da Companhia das Letras - Os clichês do escritor e os clichês da crítica:

"O uso do clichê e do jargão é apenas um exemplo da subjetividade intrínseca a qualquer julgamento literário. (...) ok, mas o resultado de tais premissas e escolhas é bom ou ruim, funciona ou não dentro do que se propõe — nas regras que o autor determina, e não o crítico —, e por quê?

(...)

Existem os best-sellers de público, com fórmula reconhecível por qualquer leitor com experiência, e os best-sellers de crítica, que se escondem — às vezes por décadas e séculos — entre a chamada “literatura de qualidade”. Por razões que valeriam um texto à parte, no entanto, é sempre possível encontrar em algum ponto deles a prova de que o escritor capitulou — em termos ideológicos, morais e técnicos, por falta de talento, esforço ou coragem — ao o pior dos clichês, que é o do imaginário comum de uma época. Ou seja, aquilo que os outros, incluindo a crítica, esperam que digamos. Quando tudo o que deveríamos perseguir é aquilo que, usando meios que podem parecer os menos literários possíveis, queremos e precisamos dizer."
Alguém, não me lembro quem, num desses congressos culturais, disse que a internet (blogs e redes sociais) é livre para criar críticas pois tem espaço (coisa que está sumindo dos jornais e revistas) e não está ligadas a nenhuma instituição. No entanto a internet sofre de um mal inerente a ela mesma: falar indefinidamente sobre um determinado assunto sem acrescentar nada de relevante - a tal inflação simbólica das narrativas. Como muitos debates críticos estão migrando para a internet, seria natural que essas questões não sejam deixadas de lado. Só que esse ainda é um terreno meio movediço.

Irrelevância das narrativas

A preferência da leitura crítica à produção de ficção (de literatura) me faz lembrar a briga de Lee Spiegel no The New Yorker Observer. Entre tantas coisas, o crítico cultural americano também disse que prefere ler não ficção a ficção, e diz ainda que a não ficção está ocupando o lugar da ficção - um gênero irrelevante, peça de museu para os dias de hoje. Será mesmo?

Não quero arriscar dizendo autores representativos de alguma coisa. Mas no final do ano passado, o Caderno 2, do Estadão, fez uma reportagem bem interessante sobre o romance dessa primeira década do século XXI.

E para quem quer entender mais sobre o que aconteceu e está acontecendo na literatura brasileira, recomendo um texto do Sérgio Rodrigues, do Todoprosa - Notícia da atual literatura brasileira: instinto de internacionalidade. Ele resume o embate dos nossos escritores em encontrar uma saída para impasse da irrelevância da narrativa nacional.

Existe espaço para o que é bem realizado, só precisa haver tempo para acontecer e boa vontade para avaliar.

*imagem: reprodução.
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terça-feira, 19 de abril de 2011

NOTAS #23


Biblioteca particular
A foto no alto mostra um dos livros da biblioteca particular de David Foster Wallace. É o romance Players, de Don Delillo repleto de anotações de toda a sorte e com uma letra miúda. O livro é parte do arquivo do escritor que está no Harry Ransom Center, na Universidade do Texas, Estados Unidos.

***

Na semana passada, Foster Wallace voltou a ser o centro das atenções por conta do lançamento de The pale king - romance que ele deixou inacabado. Além das resenhas críticas em importantes jornais e revistas, Wallace ganhou um curioso ensaio assinado por Jonathan Franzen na revista New Yorker (os dois eram amigos e o ensaio fala sobre o amor). A revista disponibilizou temporariamente o ensaio no Facebook para quem desse um "curtir".

***

Já Harry Ransom Center organizou um leitura de The pale king na data de seu lançamento. Paralelamente ao evento havia uma exposição com itens do arquivo do escritor, incluindo um livro que Foster Wallace usou para pesquisa enquanto se preparava para escrever The Pale King.

Trecho inédito
A Ilustríssima deu um presente para os leitores do escritor Ricardo Piglia. O caderno trouxe uma entrevista com o autor e publicou em primeira mão um trecho da tradução de Alvo noturno, romance que será lançado em agosto pela Companhia das Letras. Infelizmente, o site do jornal não menciona o nome do tradutor. Para os que desejam um aperitivo o trecho está disponível em http://tinyurl.com/3g2kvse

Atualização: a tradutora do trecho publicado pela Ilustríssima é Heloisa Jahn.

Dada
A notícia não deve ser tão nova, mas é de extrema importância. O site Ubuweb disponibilizou em seu acervo virtual os três primeiros números da revista Dada - idealizada por Tristan Tzara e ligada ao movimento Dadaísta. Há desenhos, pinturas, poemas e textos assinados pelos artistas do grupo vanguardista, incluindo o famoso Manifesto Dada de 1918. As edições estão disponíveis em http://tinyurl.com/7fpkvm

Parabéns, Beckett
Na semana passada o aniversário de Samuel Beckett foi comemorado com entusiasmo. O The New York Review os Books liberou um artigo escrito por Colm Tóibin chamado Happy Birthday, Sam! - publicado originalmente em 2006. Junto com o artigo havia uma série de ótimas ilustrações assinadas por David Levin. O texto está disponível em http://tinyurl.com/3bktxh2 e as ilustrações em http://tinyurl.com/3sz59pq

Literatura norte-americana
Dois lançamentos da literatura norte-americana devem aparecer em breve nas prateleiras das livrarias brasileiras. Segundo a coluna Painel das Letras publicada na Ilustrada, o romance Room, de Emma Donoghue teve os direitos adquiridos pela Editora Verus; e The tiger's wife, de Tea Obreht foi adquirido pela Leya Brasil. Os dois romances foram recebidos com boas críticas pela imprensa dos Estados Unidos, sendo Room um dos melhores do ano passado e The tiger's wife um dos mais aguardados desse ano.

Entendimento?
Desdobrando um pouco o debate da série Desentendimento, O Instituto Moreira Salles fez quatro perguntas ao escritor Bernardo Carvalho. O escritor foi citado no debate "como um exemplo de autor que não se encaixa no perfil de ‘literatura nacional’". As perguntas e respostas estão disponíveis em http://tinyurl.com/43uv842

*imagem: reprodução.
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quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

O ROMANCE NA PRIMEIRA DÉCADA

Na última semana de 2010, pouco antes de encerrarmos a primeira década dos anos 2000, o Estadão, por meio do Caderno 2, preparou uma série de reportagens que serviram como um balanço das artes nos últimos dez anos. Achei o trabalho bastante primoroso e queria ter comentado por aqui bem antes do ano terminar, mas infelizmente não foi possível. Por isso, faço agora.

Na parte dedicada a literatura, especialmente a prosa de ficção, Antonio Gonçalves Filho destaca os atentados do 11 de Setembro de 2001 como o ponto de partida inicial para a transformação do romance como o conhecemos - "Abc do terror" e "Coetzee brilha no ano da autoficção". Ao invés de decretar sua morte, o jornalista diz que o romance abraçou o tema da culpa e do terror político por meio da experiência pessoal dos indivíduos:


"A politização da literatura e o revisionismo histórico marcaram definitivamente a primeira década do século, assim como a incorporação da experiência pessoal num romance de natureza autobiográfica disfarçada - a que se deu o nome de bioficção, ou autoficção, com o preferem outros".
A partir dessas afirmações surgem os escritores importantes que justificam essas três tendências que o romance contemporâneo vem seguindo: terror, culpa e autoficção/bioficção. Homem em queda, de Don Delillo seria o livro que inaugura o caminho do terror. O romance fala sobre uma personagem que sobreviveu ao ataque das Torres Gêmeas, mas não consegue retornar a vida como ela era antes do incidente. A tendência segue caminho com A estrada, de Cormac McCarthy - igualmente apocalíptico e desesperançoso.

A questão da culpa e da autoficção/bioficção aparecem em As benevolentes, de Jonathan Littel - segundo Antonio Gonçalves é o melhor romance da década; Reparação, de Ian McEwan - também apontado igualmente por muitos críticos como o romance da década -; dois livros de J. M. Coetzee - Diário de um ano ruim e Verão; e Neve de Orhan Pamuk.

Eu acrescentaria a lista de culpa e autoficção/bioficção os livros do alemão W. G. Sebald - são uma experiência única e diferentes de tudo o que a gente pode imaginar -, do espanhol Javier Marías - tão grandioso quanto Sebald, aliás, uma de suas influências -, dos argentinos Ricardo Piglia e César Aira - fazem uma brincadeira entre a história de verdade e a ficção - e o chileno Roberto Bolaño - que também faz ficção usando um pouco da história latina.

O interessante da reportagem é apontar com consistência um caminho que está passando bem diante dos nossos olhos. Tem a ver com aquilo que falei num outro post de querer pegar o novo e puxá-lo pelo rabo. Certamente o romance está trilhando diversos caminhos, mas esse parece ser um dos mais instigantes no momento.

*imagem: reprodução do Estadão.

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domingo, 3 de outubro de 2010

LITERATURA ARGENTINA NA FEIRA DE FRANKFURT


A Feira do Livro de Frankfurt começa na próxima quarta-feira e esse ano o país convidado de honra será a Argentina. Por isso, não é à toa que a maioria dos nossos cadernos culturais desse final de semana está carregada de artigos falando sobre a literatura de ficção dos nossos hermanos. Também é possível reparar a grande quantidade de autores daquele país que estão chegando as nossas livrarias. Não é por falta de mérito, a literatura contemporânea deles figura entre as melhores do mundo.

Antes de entrar nesse assunto, gostaria de comentar a Feira de Frankfurt. Diferente dos festivais literários que a gente conhece, a feira é essencialmente um lugar de negócios - ainda que escritores "do momento" como Jonathan Franzen e Günter Grass marquem presença. Durante 5 dias, as editoras do mundo inteiro se reúnem para tratar de futuros contratos, fazer contatos e conferir as novidades do mercado editorial. Assim tem sido pelo menos desde 1949, ano em que a feira tomou esse formato moderno.

Além da Argentina, o e-book será outro tema onipresente e deve dominar as conversas de quem estiver por lá. Parece até que a organização da feira esta preparando uma série de conferências sobre o Kindle, o iPad e outros produtos similares. Para nós, leitores, acho interessante observar que a feira dita algumas tendências no lançamento de livros. Muitos outros escritores argentinos devem ser traduzidos entre o final do ano e primeiro semestre do ano que vem. Não custa lembrar que a Granta Espanha acabou de lançar uma edição especial com jovens escritores de língua espanhola - detalhe: oito deles são da Argentina.

Para mostrar que a literatura argetina vai muito além de Jorge Luis Borges e Julio Cortázar, o caderno Babelia, do El Pais, selecionou na semana passada alguns escritores argentinos que são destaque nas letras nacionais. A lista inclui escritores e poetas. Abaixo, comento apenas os escritores de prosa de ficção:

Sergio Chejfec
Embora tenha nascido em Buenos Aires, ele vive na Venezuela. Já publicou em torno de 12 livros entre romances, ensaios e poemas. No Brasil, "Boca de lobo" da editora Amauta é seu único livro publicado.

Ricardo Piglia
Um dos grandes nomes da literatura argentina contemporânea. Já publicou diversos romances e ensaios críticos. Lançou um novo romance esse ano - "Blanco Nocturno" -, é um dos convidados da próxima edição da FLIPorto. Também já esteve na FLIP. Entre seus livros publicados em português estão os romances "Dinheiro queimado", "Respiração artificial", "A invasão" e "Nome falso" (os dois primeiros pela Companhia das Letras e os demais pela Iluminuras).

Alan Pauls
Embora seja um escritor de fama recente, Pauls já escreve romances, ensaios e contos desde 1984. No Brasil já foram publicados "O passado" (que também foi adaptado ao cinema por Hector Babenco) e "História do pranto" - ambos pela Cosac Naify.

Juan José Saer
Quase um veterano da literatura argentina que faleceu recentemente, em 2005. Uma das qualidades de Saer, segundo a crítica, é manejar a linguagem para construir novas propostas narrativas. Felizmente grande parte de sua obra de ficção já ganhou tradução para o português. Alguns destaques: "O enteado" - lançado pela Iluminuras -, "O grande", "As nuvens", "A ocasião" e "A pesquisa", todos publicados pela Companhia das Letras.

Rodolfo Fogwill
Morto em Agosto desse ano, era um sujeito cuja personalidade em certos momentos chegou a ter mais fama que a obra. Segundo dizem, gostava bastante de substâncias ilícitas e não perdia muito tempo escrevendo seus textos. Teve uma produção bem diversificada entre romances, contos, ensaios e poemas. "Os pichicegos" é seu único livro em português, publicado pela Casa da Palavra.

Guillermo Martínez
Bastante conhecido e traduzido pelo mundo inteiro, mas pouco comentado no Brasil. Teve até um conto publicado pela revista New Yorker. Já lançou 5 livros de ficção e outros livros de ensaios. Por aqui já foram lançados: "Crimes imperceptíveis" e "Sobre Roderer" - ambos pela Planeta do Brasil.

Pablo de Santis
A maioria de seus livros é voltada para o público infanto-juvenil, mas escreveu também romances voltados ao público adulto. Ganhou fama em 2007 depois de ganhar o prêmio Planeta-Casa de América. No Brasil já foram lançados "Inventor de jogos", livro infantil pela Girrafinha e seu romance premiado "O enigma de Paris", pela Planeta do Brasil.

Leopoldo Brizuela
Já publicou quatro livros, nenhum ainda foi traduzido para o português. Admirador de John Berger e dos conterrâneos Pablo de Santis e Guillermo Martínez, ele segue uma certa tradição da literatura argentina de misturar história e ficção.

César Aira
Outro grande nome da literatura dos pampas. Sua obra é marcada por um forte experimentalismo sem fronteiras: gêneros se misturam, o real cruza o irreal, personagens de outros romances reaparecem, etc. O leitor tem um grande desafio de entrar nesse universo e dar forma ao que lê. Ele já esteve na FLIP e tem apenas três novelas traduzidas para o português: "As noites de flores", "Um acontecimento na vida do pintor viajante", ambos pela Nova Fronteira e "A trombeta de vime", pela Iluminuras.

Marcelo Cohen
Autor pouco comentado, mesmo pela crítica argentina. Seus livros são conhecidos pela inventividade e experimentação linguística. Abarcam a literatura fantástica e a ficção científica, renunciando ao realismo puro. Tem muitos livros já publicados, mas nenhum traduzido para o português.

Martín Kohan
Também tem uma obra diversificada: já escreveu contos, romances e ensaios. É crítico e professor de teoria literária na Argentina. Já esteve na FLIP e seu romance "Ciências morais", premiado com o Herrald, foi publicado pela Companhia das Letras. Há também um outro romance "Duas vezes junho" da Amauta, porém está esgotado.

Muita gente reclama que o mercado editorial brasileiro é resistente a literatura produzida na América Latina. Exceto os clássicos, poucos autores conseguem romper essa barreira. Tenho a impressão de que a recíproca é verdadeira: nossos autores também são pouco traduzidos e divulgados por lá - há quem diga que mesmo aqui nossos autores são pouco divulgados. Outro dia, li um comentário a respeito da dificuldade de traduzir autores brasileiros pelo mundo - não me lembro onde foi.

Retomando o assunto Feira de Frankfurt, o Brasil já foi convidado de honra em 1994 e voltará a ocupar esse lugar na feira em 2013 - um ano antes da Copa do Mundo de Futebol e num período em que todas as atenções do mundo devem mesmo se voltar para o nosso país. Pode ser que o convite ajude a modificar um pouco esse cenário literário.

*imagem: divulgação.
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