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quinta-feira, 31 de outubro de 2013

ADAM THIRLWELL: LIVRO COM FORMA E CONTEÚDO


Enquanto escrevia sobre J.J. Abrams e a celebração do livro como objeto (em toda a sua materialidade ao contrário dos ebooks achatados e virtuais) acabei me deparando com o intrigante Kapow!, de Adam Thirlwell. O livro saiu no ano passado pela editora inglesa Visual Editions com um design muito particular: variação de fontes, páginas dobradas (quando você desdobra elas aumentam), caixas de texto dentro dos parágrafos, parágrafos partidos ao meio, textos que correm em vários sentidos da página e assim segue. Para entender melhor assista esse vídeo. Tudo do jeito que a turma da Visual Editions e os seus fãs gostam (eles só fazem coisa caprichada - procure saber). O design foi criado por Frith Kerr, do Studio Frith.

As pessoas mais rabugentas certamente olham para o livro e pensam "bonitinho, mas ordinário - não passa de um fetiche gráfico". Ledo engado!


Kapow! foi saudado pela crítica inglesa justamente porque alia forma e conteúdo (como todos os livros da Visual Editions). O narrador da história é um escritor que mora em Londres e começa a acompanhar os eventos da Primavera Árabe pela televisão e pela internet, ao mesmo tempo. Tudo vai aparentemente bem até que pensamentos e observações de outros personagem que estão em Londres e no Egito começam a tomar conta da história - tal qual a revolução que o narrador está presenciando a distância. 

Adam Thirlwell estava interessado em experimentar a digressão como um elemento importante na construção desse livro (ele pega carona na tradição de Laurence Sterne, Robert Musil, Philip Roth, Javier Marias e tantos outros para levar o recurso ao limite extremo - parece que deu muito certo). Sua ousadia não brotou do dia para noite. Ele tem outros dois livros publicados Política (saiu pela Companhia das Letras, em 2004, mas está esgotado e fora de catálogo) e The Escape, ainda inédito no Brasil. Além disso, ele apareceu duas vezes na edição especial da revista Granta com os melhores jovens escritores ingleses, em 2003 e 2013. Não é pouca coisa.

Vejam que curioso, na edição da Granta dedicada aos escritores brasileiros foi Thirlwell quem apresentou Michel Laub aos ingleses. Ele virou fã e uma qualidade que destaca em Laub é justamente a digressão das histórias.

Voltando ao começo, dificilmente Kapow! vai ganhar tradução para o português - quem sabe? Portanto, vale a pena recorrer a edição original, ficar de olho na produção desse rapaz e celebrar o livro-objeto.

*Imagem: Amélie Bonhomme/reprodução
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quinta-feira, 10 de novembro de 2011

LEITOR QUE NEM EU, QUE NEM QUEM?


Lorin Stein, o aclamado editor da Paris Review, mantém uma seção no blog da revista em que responde perguntas vindas dos leitores da própria revista. Se não estou enganado essa seção é semanal. Toda a sorte de perguntas relacionadas ao universo da literatura aparecem nesse espaço e são respondidas com bastante entusiasmo pelo editor. Os leitores chegam até a pedir conselhos e escrevem em busco de algum conforto que os atormenta.

Na semana passada, um leitor mais desinibido perguntou ao Sr. Stein qual grande livro ele deveria ter lido e nunca leu. Curiosamente, o editor respondeu dizendo que nunca leu, por exemplo, clássicos da literatura como Jane Eyre (Charlotte Bronte), Viagem ao fim da noite (Louis-Ferdinand Céline), A consciência de Zeno (Italo Svevo), O amante de Lady Chatterley (D. H. Lawrence), Meridiano de sangue (Cormac McCarthy), O arco-íris da gradidade (Thomas Pynchon), A vida e as opiniões do cavalheiro Tristram Shandy (Laurence Sterne) e outras coisas mais.

(Quem quiser ver a resposta completa pode clicar aqui).

É irresistível não olhar com uma pequena desconfiança para o episódio - será que tanto a pergunta quanto a resposta não seriam ficcionais? No entanto, a revista Paris Review goza de imenso prestígio e credibilidade, de modo que arriscar essa reputação seria um golpe baixo.

Seja como for, senti um enorme alívio por nunca ter lido uma série de livros que deveria ter lido e ainda não li. Tenho uma fila de leitura que só aumenta a cada dia. Por exemplo, ainda não li 2666 e nem Os detetives selvagens (Roberto Bolaño, ambos). Também não li O Mestre e margarida (Mikhail Bulgakov), Menino de engenho (José Lins do Rego) e nenhum livro do Chico Buarque exceto Estorvo. Liberdade, o novo clássico de Jonathan Franzen, está intocado na minha estante - estou esperando passar um pouco o tempo. E tantas outras coisas mais que nem lembro. Fiquei com vontade de que todo mundo confessasse pelo menos um grande livro que nunca leu - ia ser bem divertido.

Conclusão ululante, meus caros amigos: se nem Lorin Stein leu tudo, que dirá a gente.

*Imagem: reprodução.

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