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segunda-feira, 31 de março de 2014

PROSA DE FICÇÃO BRASILEIRA EM 1964


Dan Brown e Rick Riordan nasceram em junho de 1964 e por serem recém-nascidos não tinham como saber o que se passava no Brasil, um longínquo país da América do Sul. Eles tão pouco podiam imaginar que anos mais tarde seriam dois dos maiores best-sellers da literatura "de aventura", vamos dizer assim. O fato é que em 1º de abril daquele ano, as Forças Armadas do Brasil tomaram o poder e instalaram no país o regime militar - ou ditadura militar - que durou por vinte e um anos. Foi um período obscuro para as liberdades individuais (houve censura brava aos meios de comunicação, repressão, exílio e tortura para pessoas opostas aos ideais do regime etc.), mas bastante iluminado para a cultura brasileira e para a nossa literatura, especialmente.

Naquele ano de 64, enquanto Jean-Paul Sartre ganhava o Prêmio Nobel de Literatura* e Saul Bellow publicava Herzog**, as editoras Civilização Brasileira, José Olympio, Martins e Editora do Autor eram responsáveis por alimentar as livrarias com uma enxurrada de livros de ficção. Essa produção era absorvida pela crítica em revistas, jornais e suplementos culturais que serviam como parâmetro para os leitores decidirem o que era interessante ou não (foi um período áureo porque tínhamos a revista Senhor, a Revista Civilização Brasileira, o suplemento literário do Jornal do Brasil etc.).

Infelizmente, dados sobre as tiragens e a quantidade de exemplares vendidos que poderiam apontar a circulação da nossa literatura entre os nossos leitores dependeria de uma pesquisa mais aprofundada e não consegui encontrar muita coisa. Considerando alguns dados do IBGE, não éramos um país de muitos leitores (há quem considere que não somos até hoje), pois a taxa de analfabetismo no Brasil na década de 60 era de 40,233% (faixa de pessoas com 15 anos e mais), ou seja, quase metade da população era incapaz de ler. Assim, a literatura brasileira era algo restrito a classe média que tinha dinheiro para consumir e aos círculos estudantis - trocando em miúdos, era coisa de intelectual. Embora a palavra "intelectual" soe pejorativa, vale dizer que durante todo o regime militar (sobretudo até 1968 quando acontece o AI-5) os intelectuais assumiram um papel central no debate político e na mobilização contra a repressão/censura uma vez que a cultura era o único espaço possível para exercício da liberdade.

A prosa de ficção brasileira publicada naquele ano não refletia diretamente o espírito de chumbo dos anos que viriam. Talvez esse papel estivesse reservado à crônica do período que saia diariamente nos jornais, sobretudo no trabalho de Carlos Heitor Cony cujo ponto alto de combate direto ao regime está em O ato e o fato, publicado naquele ano no calor da hora***. Olhando para um conjunto delimitado de lançamentos do ano de 1964 e sob um ponto de vista muito particular (o meu) considero que vivíamos um grande momento de experimentação formal do romance capaz de garantir a nossa literatura uma qualidade de alto nível - vide a prosa de introspecção de Autran Dourado, Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles, o nonsense humorístico de Campos de Carvalho e o jogo linguístico de Guimarães Rosa. Na outra ponta, também tínhamos a força da literatura regional com caráter de denúncia - vide Jorge Amado e José Cândido de Carvalho. No meio de campo tínhamos os contos enxutos e inventivos de Dalton Trevisan - vale registrar que Rubem Fonseca tinha acabado de publicar seu livro de estreia Os prisioneiros (1963).

Embora esse conjunto de obras seja primoroso houve uma divisão de opiniões em relação às mudanças que a literatura sofreu por conta do regime militar. Uma parte da crítica e da turma intelectual engajada classificava os romances psicológicos como alienados porque não tomavam partido da realidade social do país contra a política vigente. Já os romances realistas daquele ano pareciam demasiado alegóricos para o radicalismo político e a indignação com o estado das coisas. Foi com o endurecimento do regime nos anos pós-64, fechando editoras, caçando seus editores e proibindo a publicação de livros que nossa ficção pode absorver melhor a situação.

Um relato fidedigno, embora impregnado pelo espírito e pelo momento em que foi escrito, está no artigo “Prosa brasileira em 1964: balanço literário”, de Nelson Werneck Sodré (saiu na Revista Civilização Brasileira I, em março de 1965). O tom é melancólico. O autor diz que golpe foi responsável por interromper boas traduções de autores estrangeiros que estavam em curso e a publicação de prosa de autores brasileiros foi pobre - o artigo termina com a frase "Fizemos pouco ou fizemos muito, em 1964. Fizemos o que era possível". O destaque daquele ano fica por conta da crônica, sobretudo de cunho político, e do ensaio, um gênero que ganhava muito fôlego naquele momento.

Dito isso, fiz um levantamento informal e consegui encontrar uma lista com onze livros de prosa de ficção brasileira daquele ano. Certamente algumas coisas ficaram de fora. Tomei por base os nomes que ainda permanecem nas seleções da crítica e do cânone acadêmico. Se alguém se lembrar de outros livros, por favor, escrevam nos comentários.

O púcaro búlgaro
Campos de Carvalho
Civilização Brasileira







Verão no aquário
Lygia Fagundes Telles
Editora Martins









Manuelzão e Miguilim (Corpo de baile)****
João Guimarães Rosa
José Olympio









O coronel e o lobisomem
José Cândido de Carvalho
José Olympio









A paixão segundo GH
Clarice Lispector
Editora do Autor









A legião estrangeira
Clarice Lispector
Editora do Autor









Os pastores da noite
Jorge Amado
Martins









Uma vida em segredo
Autran Dourado
Civilização Brasileira








Antes, o verão
Carlos Heitor Cony
Civilização Brasileira






Morte na praça
Dalton Trevisan
Editora do Autor









Cemitério de elefantes
Dalton Trevisan
Civilização Brasileira










* Jean-Paul Sartre não só ganhou o Prêmio Nobel de Literatura como o recusou alegando que "nenhum escritor pode ser transformado em instituição".

** Trechos de Herzog, de Saul Bellow apareceram na revista Esquire, em julho de 1961, mas a primeira edição impressa em formato livro foi em 1964 pela editora Viking Press de Nova York.

*** Consta que durante a noite de lançamento, Cony autografou mais de 1600 exemplares do livro.


**** A obra Corpo de baile, de João Guimarães Rosa é composta por três novelas sendo que Campo geral, a primeira, foi publicado em 1956; em 1964, foi publicado Manuelzão e Miguilim com as novelas Campo Geral e Uma história de amor.

Imagens: capa dos livros reprodução.

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quinta-feira, 31 de outubro de 2013

DUAS REVISTAS


Amanhã chega às livrarias a nova edição da revista Serrote. A capa tem uma pintura feita por Jacob Lawrence que faz parte de uma série de pinturas chamada "Migração" retratando a migração dos afro-americanos do sul rural para o norte urbano dos Estados Unidos. A edição tem textos de Alejandro Zambra falando de computadores, Adam Gopnik comentando o estilo de Gertrude Stein, Milton Hatoum sobre Graciliano Ramos (ensaio lido na abertura da última FLIP), Julian Barnes sobre artes visuais e Alberto Manguel sobre cartas de amor.

***

Também saiu na gringa a nova edição da Granta com tema "After the War". Tem ficção de Yiyun Li e Paul Auster e ensaios assinados por Hari Kunzru e Herta Müller.

*Imagens: divulgação.
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segunda-feira, 11 de março de 2013

AS RUAS SÃO PARA LER



"As ruas são para dançar, para ler e muito mais".

Gente! Quero pedir uma pausa nos assuntos propriamente literários para falar de um outro assunto tão importante quanto.

Entre os dias 5 e 14 de abril vai acontecer em São Paulo a segunda edição do Festival BaixoCentro. Eu vou participar com dois projetos voltados a ficção: uma leitura "colaborativa" do livro Macunaíma, de Mário de Andrade e um ciclo de conversas com escritores sobre a representação da cidade de SP na ficção contemporânea (prometo falar em detalhes logo mais). Além dos projetos que estou organizando, o Festival terá mais de 500 atividades de música, cinema e vídeo, dança, performance, teatro, literatura, cultura digital, debates e oficinas. Detalhe: todas as atividades serão abertas e gratuitas.

O Festival é independente, colaborativo, sem iniciativa privada e sem leis de incentivo à cultura. A verba para realizar as atividades e garantir sua infra-estrutura básica vem de financiamento coletivo via crowdfunding e outras formas independentes de arrecadação (leilão, rifa, doações, por exemplo).

Como vou participar com dois projetos acho justo colaborar, divulgar e ajudar na arrecadação. Por isso, ajude a realizar o Festival contribuindo com o financiamento coletivo. É só entrar em http://catarse.me/BaixoCentro2013 e fazer sua doação com o mínimo de R$ 10. Lá você também encontra o orçamento completo (e detalhado) e fica sabendo onde será gasto todo o dinheiro arrecadado. Em troca de cada valor doado você recebe uma recompensa e, mais importante do que isso, garante a realização de um Festival colorido para mim, para você e para toda a cidade.

Ficou interessado e quer saber mais sobre o movimento BaixoCentro é só clicar aqui


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terça-feira, 24 de julho de 2012

TREVO - REVISTA DE FICÇÃO (2)

No final de abril, falei sobre uma nova revista de ficção pitando na internet. Pois bem, não demorou quase nada e chegou o primeiro número da TREVO - você pode ler onde quiser no computador, ereader, celular etc. Tem um monte de textos inéditos de jovens escritores brasileiros e ilustrações da Mariana Lucio de Oliveira.

Vida longa a TREVO!

*Imagem: reprodução.
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segunda-feira, 30 de abril de 2012

TREVO - REVISTA DE FICÇÃO

Uma nova revista de ficção vai pintar em breve na internet. Se fosse dez anos atrás a notícia causaria certo espanto e passaria despercebida - para não dizer desacreditada - por muita gente. Mas como todo mundo sabe a ficção (incluindo as resenhas, artigos e ensaios voltados ao tema) está sumindo das mídias impressas e ganhando muito terreno na internet. Portanto, nós vamos saldar com muita naturalidade a chegada da revista TREVO.

O pessoal do blog Sete Doses (Thiago Kaczuroski e André Toso - o blog Sete Doses virou livro e deixou de existir) junto com o designer Lex Designo estão por trás do projeto. A revista será bimestral só com textos de ficção de novos autores e distribuição gratuita na internet em formato folheável no site, versão PDF para tablets, versão Kindle e uma versão só de texto para quem quiser imprimir ou ler no celular. O primeiro número não terá um tema específico, deverá sair com 6 ou 8 textos de ficção inéditos e ilustrações assinadas por Mariana Lúcio.

Quem ficou interessado pode acompanhar novidades nessa fanpage do Facebook.

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terça-feira, 20 de dezembro de 2011

CASMURROS #3




Nessa edição: Simone Campos, Cormac McCarthy, Flann O'Brien, Georges Perec, F. Scott Fitzgerald, Antonio Xerxenesky e mais. Ilustrações: Grafilu.

TAMANHO: 5.22MB
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quarta-feira, 26 de outubro de 2011

LITERATURA BRASILEIRA NO EUROPALIA

No final a programação literária do Festival EUROPALIA (Festival Internacional de Artes que acontece em várias cidades da Bélgica e algumas cidades da Holanda de outubro/2011 a janeiro/2012) não ficou desinteressante, nem tão popular como queriam os organizadores belgas. É que a edição desse ano homenageia a cultura brasileira. Pelo que os jornais daqui diziam, os organizadores do festival queriam uma programação mais popular - nas entrelinhas esperavam algo mais clichê para lotar as apresentações.

A comitiva de escritores que participam da programação é formada por João Almino, Beatriz Bracher, Bernardo Carvalho, Daniel Galera, Paulo Lins, Lourenço Mutarelli (que também vai fazer uma exposição), Nuno Ramos, Silviano Santiago, Veronica Stigger, João Ubaldo Ribeiro, Sergio Sant'Anna e Reinaldo Moraes.

Além disso, haverá uma exposição de fotos de Clarice Lispector, conferências com Vilma Arêas (sobre Clarice) e Beatriz Resende (sobre literatura feminina) e dois grandes simpósios com temas "Interpretações literárias do Brasil moderno e contemporâneo" e "Literatura Brasileira no contexto Latino Americano".

Paralelo ao festival, a revista literária Marginales publica três contos de autores brasileiros com o tema Amazônia: Fin du monde, de Beatriz Bracher, Trois Voyages en Amazonie, de João Almino e À la découverte des Amazones, de Silviano Santiago. Outra revista, chamada Indications, também pretende publicar resenhas dos livros de Chico Buarque de Hollanda, Milton Hatoum, Luis Fernando Veríssimo, João Ubaldo Ribeiro, Paulo Lins, Luiz Alfredo Garcia-Roza e entrevista com Bernardo Carvalho.

(O festival é bem amplo. Tem música, dança, teatro, circo, filmes etc. Além desses escritores, nossa literatura também será representada por vários poetas - entre eles Augusto de Campos, homenageado da próxima Balada Literária -, não comentei esse item porque este blog é voltado a ficção em prosa).

Todas as informações estão disponíveis no site do festival - aqui.

*Imagem: reprodução.
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sexta-feira, 9 de setembro de 2011

FICÇÃO "NUM TEMPO DE CATÁSTROFES" - 9/11

Domingo os atentados que aconteceram em 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos completam dez anos. Acho que todo mundo se lembra do que estava fazendo naquele dia e naquele exato momento. Como muita gente, lembro de ter visto na TV o instante em que o segundo avião bateu numa das torres. Não demorou muito e as torres despencaram. Foi um negócio chocante e inacreditável.

O maior atentado terrorista da história marcou o início do século XXI e mudou muita coisa não só na sociedade americana como no mundo todo. A ficção também foi afetada. Muitos romances norte-americanos escritos após o 11 de setembro procuraram refletir a imensidão daqueles eventos na vida do cidadão comum. O jornalista Antonio Gonçalves Filho (do Estadão), num balanço sobre o romance da primeira década desse século, resumiu o clima geral da literatura a partir desses eventos - recomendo da leitura do artigo. Para ele, o romance abraçou o tema da culpa e do terror político por meio da experiência pessoal dos indivíduos. No mesmo artigo, Antônio fala que os romances emblemáticos de "um tempo de catástrofes" são Homem em queda, de Don DeLillo e A estrada, de Cormac McCarthy.

Os jornais e revistas estão lançando uma série de reportagens especiais em torno do tema. A New Yorker, por exemplo, preparou um número especial com textos de Colum McCann, Zadie Smith, Jonathan Sanfran Foer, Elif Batuman e ficção de novos escritores sobre o mundo pós-ataques. A Ilustrada e o Estadão tem reportagens e listas de livros com as transformações sofridas pela indústria cultural.

Pensando especificamente sobre a ficção, a revista Granta (edição inglesa) vai publicar um número especial chamado "Dez anos depois". A edição tem um olhar multifacetado sobre o que aconteceu e trás histórias de gente ao redor do mundo sobre a vida após a queda das torres. Num podcast sobre o lançamento da revista, John Freeman recomendou cinco romances que tratam do evento:

Homem em queda, de Don DeLillo
Extremamente alto & incrivelmente perto, de Jonathan Sanfran Foer
Os filhos do imperador, de Claire Messud
Complo contra a América, de Philip Roth
Terrorista, de John Updike
Indendiário, de Chris Cleave

Vocês lembram de mais romances emblemáticos sobre o 11 de setembro?

*Imagem: reprodução da capa da Granta.
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quinta-feira, 4 de agosto de 2011

TODA A FICÇÃO DA NEW YORKER

A revista New Yorker é uma das revistas mais "trendy" do planeta. Foi criada na década de 20, soube se adaptar muito bem a passagem do tempo e inventou um estilo único. Os perfis políticos, as longas reportagens, os famosos cartoons e as capas são verdadeiros marcos na história do jornalismo.

No meio de todas essas coisas, a revista ainda criou um espaço para publicar textos de ficção de autores renomados internacionalmente. Como fica difícil acompanhar tudo o que aparece nas suas 47 edições anuais alguma santa alma criou um banco de dados com toda a ficção já publicada pela revista.

É um banco de dados para a gente guardar nos favoritos!

*imagem: reprodução da capa da revista.
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POR QUE ESCRITORES NÃO DEVEM BLOGAR?

Vi no GalleyCat uma notícia curiosa e pensei em abrir algumas ideias a respeito. A notícia dizia que há duas semanas atrás a blogueira e escritora americana Livia Blackburne escreveu um longo post dizendo que escritores não deveriam se dedicar aos blogs porque "blogar é uma perda de tempo". Simplificando o post, os três principais para que os escritores abandonassem seus blogs eram:

1. Blogar é melhor para os escritores de não-ficção porque eles compartilham os seus conhecimentos com um público específico, estar ligado com o público pode ajudar as vendas.

2. "Tempo gasto no blog é tempo gasto longe de outra coisa: escrevendo outro livro, contatando um clube do livro, trabalhando meio período e investindo esse dinheiro em publicidade ou com um agente”.

3. Escritores de romances blogam muitas vezes se concentram na arte de escrever ao invés de se concentram em seus próprios leitores, criando "uma conferência escrita interminável". Enquanto isso ajuda a "encontrar novos amigos, desenvolvimento profissional e aprendizagem do seu ofício", não significa necessariamente aumentar as vendas de livros.
Logo depois ela escreveu um outro post dizendo que embora blogar seja perda de tempo, John Locke (aquele que vendeu 1 milhão de livros no Kindle em cinco meses) achou um caminho certo para aumentar suas vendas.

É certo que o post e as ideias giram muito em torno do mercado editorial americano. No entanto, se pensarmos no mercado editorial brasileiro acho que a Livia Blackburne vai ter razão. A internet realmente facilitou a divulgação e circulação de novos escritores, mas isso não significa que ela mudou a maneira como fazemos e pensamos o universo literário.

Um caso brasileiro
No final dos anos 90 e começo dos anos 2000 alguns dos nossos escritores ficaram conhecidos por meio da internet. O blog foi uma ferramenta fundamental para mostrar o trabalho de gente que estava escrevendo, mas que ainda não tinha alcançado reconhecimento mais amplo. Só que essa "geração" de escritores conseguiu publicar livros impressos e deixou da internet um pouco de lado. De modo que é raro ver novos escritores publicando ficção em blogs. Quase não se vê.

Não que o blog (e a internet) tenha perdido importância para a literatura. Pelo contrário, os blogs junto com as redes sociais ocupam o lugar da divulgação, do debate de ideias, das resenhas, das informações sobre um escritor, da reunião de leitores, das agendas de feiras, festas etc. Pode ser que antes da Livia Blackburne a gente já tivesse percebido que como escritores era mais importante se dedicar ao trabalho do que ao blog.

Pegando um caso mais brasileiro, Daniel Galera e Joca Reiners Terron falaram sobre o blog como ferramenta para escritores na reportagem Internet não anula estratégias de marketing, do jornal Gazeta do Povo. O pensamento dos dois sintetiza bastante coisa. Na reportagem Galera resume o caso da seguinte forma:
“A internet se firmou como um grande catalisador das relações entre
autores, leitores e críticos, e não como um novo meio para publicação de
literatura. A discussão literária da internet ainda se dá em torno de livros
impressos”.
E o Joca disse o seguinte:
Terron, que concorda que a rede serve mais para reunir os interessados em literatura, acredita que as grandes editoras ainda detêm o “selinho ISO 9000 de qualidade literária”.
Expandindo um pouco mais a fala dos dois, é possível dizer que de fato o grande número de discussões que rolam na internet gira em torno dos livros impressos e a internet por si só não parece capaz de legitimar alguém como escritor. O livro impresso é a verdadeira confirmação de que aquela pessoa exerce aquele ofício. Pensando dessa forma fica difícil imaginar a existência de um tipo de literatura que seja da internet. Por isso faz mais sentido usar a internet como meio de divulgação do trabalho do que formatação do trabalho em si.

Outro exemplo bacana foi a antologia ENTER, organizada pela Heloísa Buarque de Hollanda e pensada para o mundo virtual. A antologia não pretendia mostrar escritores que eram apenas da internet, mas mostrar a internet como potencia de visibilidade e acessibilidade da literatura. Tanto que a maioria dos 37 escritores que participaram tinham um pé fincado no mundo impresso. E gosto de falar desse caso porque existe um comentário da Heloísa que deixa bem claro a relação entre internet e produção de ficção:
"Não existe uma literatura de internet, mas, sim, práticas literárias na rede, que são diversificadas. E a antologia mostra que o que expandiu foi a palavra. Não foi a literatura do ponto de vista tradicional e canônico. Essa que preza a qualidade e a autoridade continua, e também hospedada na internet”.
Depois dessas longas explicações gostaria de abrir uma discussão em torno dessas ideias. Será mesmo que para um novo escritor blogar é perda de tempo? Será que existem escritores na internet? Será que existem escritores ou grupos de escritores que fazem da internet o seu laboratório de criação?

*imagem: reprodução Diary of the book-lover.

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quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

FANZINE: CASMURROS

Estou um pouco ausente do blog, mas por uma razão bem bacana. Na semana que vem devo lançar a primeira edição de um fanzine sobre prosa de ficção vinculado ao blog. Depois de alguns contratempos já estou na fase de revisão final do material. Cruzem os dedos para tudo dar certo!

O fanzine também vai se chamar CASMURROS. Gostaria de ter feito o lançamento no final do ano passado, mas estavamos em período de festas de final de ano. Juntando isso com outros problemas, achei melhor adiar os trabalhos.

O tema do primeiro número será "EDIÇÃO LONGA". Uma brincadeira com os romances longos que andam dominando as prateleiras das livrarias. Vai ter ficção, ensaios e trechos de alguns romances que foram lançados ou ainda serão lançados esse ano. Ainda vou comentar bastante sobre o fanzine por aqui.

Para não deixar todo mundo muito curioso, uma pequena amostra da capa:



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segunda-feira, 22 de novembro de 2010

FESTA FICÇÃO!


Quem disse que o pessoal das letras não gosta de festa? Estréia amanhã a festa FICÇÃO organizada por Carola Gonzalez e Renata Megale. Todo mês personalidades do mundo das letras vão dominar as pick-ups do clubinho Alberta#3 em São Paulo.

Na primeira edição quem coloca o povo para dançar são os escritores Michel Laub e Daniel Galera, Marcos Sacchi (o capista da editora Conrad) e André Conti (editor da Cia das Letras). A noite promete bastante. Será que o Daniel Galera vai de rock and roll, pop anos 80 e brasilidades? Vai ter até um drinque especial "NÃO FICÇÃO!".

INFO:

Ficção - 23.11 - 22h
Alberta#3
Avenida São Luís, 272 - República
Preços: R$30 na porta ou R$20 com nome na lista


*imagem: reprodução.
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domingo, 18 de julho de 2010

CONFERÊNCIAS DE WILLIAM FAULKNER NA INTERNET


Nos anos de 1957 e 1958, William Faulkner foi escritor-residente na Universidade da Virgínia, Estados Unidos. Durante esse período, ele fez diversas leituras, apresentou palestras e respondeu perguntas dos estudantes da Universidade. Algumas dessas palestras gravadas em fitas magnéticas foram recentemente digitalizadas e publicadas na internet. A Universidade também disponibilizou um farto material com imagens e textos explicativos sobre esse período em que o escritor esteve por lá.

Stephen Railton, professor da Universidade da Virgínia e um dos organizadores do material, disse em entrevista ao site NPR que nessas palestras o escritor "estava tentando fazer com que o seu trabalho e sua visão da condição humana fossem acessíveis a tantas pessoas quanto possível".

Como sabemos, William Faulkner é tido como um escritor de difícil compreensão por causa de seu estilo. Em seus romances, ele recorre a múltiplos narradores e faz uso constante do chamado fluxo de consciência - técnica narrativa que transcreve tudo o que se passa na mente de uma personagem, quebrando a linearidade do tempo e do espaço. Além disso, Faulkner escreve períodos muito longos repletos de intervenções e fragmentações. Tudo isso exige do leitor muita concentração para remontar a história a fim de compreendê-la.

No entanto, esse "hermetismo" não deve ser encarado como uma barreira. Há muitos contos e alguns romances que são bastante acessíveis e podem servir para um primeiro contato com sua vasta obra. A experiência de ler Faulkner é única justamente porque ele criou histórias fortes que tratam de temas humanos e bastante universais.

Não deixa de ser curioso ouvir as explicações de um dos maiores escritores do século XX - ganhador do Prêmio Nobel de Literatura e duas vezes ganhador do Prêmio Pulitzer de Ficção. Tomara que essas gravações sirvam para jogar nova luz sobre os seus livros.

*imagem: reprodução do site faulkner.lib.virginia.edu

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sexta-feira, 25 de junho de 2010

OS BRITANICOS TAMBÉM TEM SEUS NOVOS ESCRITORES

A famosa lista da New Yorker com seus 20 escritores com menos de 40 anos continua dando o que falar na imprensa internacional. Afinal, quem disse que somente a New Yorker pode fazer uma lista como essas? Pensando nisso, Lorna Bradbury, jornalista do Telegraph, escreveu um artigo perguntando Are these Britain’s best 20 novelists under 40? (São esses os 20 melhores romancistas britânicos com menos de 40?).

Incomodados com o fato de os britânicos terem tido a mesma lista há quase dez anos atrás (feita em 2003 pela revista Granta), Lorna e a equipe do Telegraph resolveram juntar forças e fazer uma nova lista. Durante as entrevistas e pesquisas, eles descobriram as diferenças que existem entre a ficção americana e a ficção britânica.

Entre tantas coisas, o artigo fala sobre a força comercial da revista New Yorker; critica o fato da lista não ter muitas novidades (quase todos os escritores já tinham publicado algum livro); e comenta o quanto os escritores americanos são frutos dos cursos de escrita criativa (o que não deixa de ser bastante curioso).

A lista do Telegraph seguiu os mesmo critérios da lista preparada pela New Yorker - existem algumas particularidades, é claro. O que eu acho bastante interessante é a possibilidade de termos mais um olhar sobre a produção literária contemporânea. Vamos conhecer novos escritores, encarar novos estilos, novas maneiras de pensar e ouvir sempre boas histórias que merecem serem contadas. Sem dizer que essas listas movimentar o mercado editorial. Isso é bom para todo mundo.

A lista: Chris Cleave (nasc. 1973); Rana Dasgupta (nasc. 1971); Adam Foulds (nasc. 1974); Sarah Hall (nasc. 1974); Steven Hall (nasc. 1975); Mohsin Hamid (nasc. 1971); Anjali Joseph (nasc. 1978); Joanna Kavenna (nasc. 1974); Benjamin Markovits (nasc. 1973); China Miéville (nasc. 1972); Paul Murray (nasc. 1975); Patrick Neate (nasc. 1970); Ross Raisin (nasc. 1979); Dan Rhodes (nasc. 1972); Kamila Shamsie (nasc. 1973); Zadie Smith (nasc. 1975); David Szalay (nasc. 1974); Adam Thirlwell (nasc. 1978); Scarlett Thomas (nasc. 1972); Evie Wyld (nasc.1980).

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segunda-feira, 7 de junho de 2010

ALGUNS ESCRITORES SELECIONADOS PELA NEW YORKER EM PORTUGUÊS

Como falei na semana passada, a revista New Yorker lançou hoje a edição especial com os 20 jovens escritores com menos de 40 anos. Segundo o editor da revista, esse conjunto é uma grande promessa para a ficção contemporânea. Descobri que 8 dos 20 escritores já tem romances publicados no Brasil. Bom para os leitores brasileiros que podem acompanhar a produção desse grupo ao mesmo tempo que o resto do mundo. No fim, os 20 escritores nem são tão desconhecidos assim. Segue a lista dos romances já publicados:

Meio Sol Amarelo
Chimamanda Ngozi Adichie
Ed. Companhia das Letras

E Nos Chegamos Ao Fim
Joshua Ferris
Ed. Nova Fronteira

Extremamente Alto & Incrivelmente Perto / Tudo Se Ilumina
Jonathan Safran Foer
Ambos pela Ed. Rocco

A História Do Amor
Nicole Krauss
Ed. Companhia das Letras

Radio Cidade Perdida
Daniel Alarcón
Ed. Rocco

Os Excluidos
Li Yiyun
Ed. Nova Fronteira

As Belas Coisas, Que E Do Ceu Conte-Las
Dinaw Mengestu
Ed. Nova Fronteira

Absurdistão
Gary Shteyngart
Ed. Rocco

O Picaro Russo
Gary Shteyngart
Ed. Geração Editorial
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sexta-feira, 4 de junho de 2010

QUEM SÃO OS 20 JOVENS ESCRITORES MAIS IMPORTANTES DO MOMENTO

E o New York Times divulgou a lista dos 20 escritores com menos de 40 anos que estarão na edição especial da revista New Yorker. "Temos 10 homens e 10 mulheres, satíricos e modernos, de Miami e Etiopia e Peru e Chicago. E nenhum deles nasceu antes de 1970", diz o jornal. Só o tempo poderá dizer se eles são mesmo os escritores mais importantes desses últimos 40 anos. A verdade é que a lista serve como um parametrô para ficarmos de olho na ficção produzida atualmente.

Os escolhidos são: Chimamanda Ngozi Adichie, 32; Chris Adrian, 39; Daniel Alarcón, 33; David Bezmozgis, 37; Sarah Shun-lien Bynum, 38; Joshua Ferris, 35; Jonathan Safran Foer, 33; Nell Freudenberger, 35; Rivka Galchen, 34; Nicole Krauss, 35; Yiyun Li, 37; Dinaw Mengestu, 31; Philipp Meyer, 36; C. E. Morgan, 33; Téa Obreht, 24; Z Z Packer, 37; Karen Russell, 28; Salvatore Scibona, 35; Gary Shteyngart, 37; and Wells Tower, 37.

Achei bacana o que o editor da revista New Yorker, David Remniock, disse sobre esses 20 escritores: "Se eles tivessem muito em comum, seria muito chato. (...) Este não é um agrupamento estético. O grupo é um grupo de promessa, enorme promessa. Há pessoas ali que são muito convencionais em suas abordagens narrativas, e há pessoas que têm uma grande ênfase na voz. Há pessoas que estão de alguma forma trazendo a você as notícias de uma outra cultura". (tradução livre)

A edição especial da New Yorker deve chegar as bancas na semana que vem.
*imagem: reprodução da capa "Future of American Writing" da New Yorker de 1999 - a última edição a fazer esse concurso.

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domingo, 30 de maio de 2010

PRÊMIO SP DE LITERATURA 2010

Via Estadão: Saem os finalistas do Prêmio SP de Literatura 2010

Melhor Livro do Ano (de 2009)
Bernardo Carvalho, O Filho da Mãe (Companhia das Letras)
Chico Buarque, Leite Derramado (Companhia das Letras)
João Ubaldo Ribeiro, O Albatroz Azul (Nova Fronteira)
Luiz Ruffato, Estive em Lisboa e Lembrei de Você (Companhia das Letras)
Ondjaki, AvóDezanove e o Segredo dos Soviéticos (Companhia das Letras)
Paulo Rodrigues, As Vozes do Sótão (Cosac Naify)
Raimundo Carrero, A Minha Alma é Irmã de Deus (Record)
Reinaldo Moraes, Pornopopeia (Objetiva)
Ricardo Lísias, O Livro dos Mandarins (Alfaguara)
Rodrigo Lacerda, Outra Vida (Alfaguara)

Melhor Livro do Ano - Autor Estreante (de 2009)
Brisa Paim Duarte, A Morte de Paula D. (Edufal - Alagoas)
Carlos de Brito e Mello, A Passagem Tensa dos Corpos (Companhia das Letras)
Carol Bensimon, Sinuca Embaixo D'água (Companhia das Letras)
Cíntia Lacroix, Sanga Menor (Dublinense)
Claudia Lage, Mundos de Eufrásia (Record)
Edney Silvestre, Se eu Fechar os Olhos Agora (Record)
Ivana Arruda Leite, Hotel Novo Mundo (Editora 34)
Ivone Castilho Benedetti, Immaculada (WMF Martins Fontes)
Lívia Sganzerla Jappe, Cisão (7 Letras)
Maria Carolina Maia, Ciranda de Nós (Grua Livros)
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quinta-feira, 20 de maio de 2010

A NOVA FICÇÃO AMERICANA

A New Yorker, a revista mais cool dos Estados Unidos e talvez do mundo inteiro, e seus editores bastante influentes está preparando uma edição especial para o mês de Junho. A edição vai trazer textos de ficção inéditos de 20 jovens escritores americanos. O concurso foi aberto pela revista e a seleção final com os melhores deve sair em breve. Será uma edição para todo mundo ficar de olho.

*ao lado a reprodução da capa "Future of American Writing" da New Yorker de 1999 - a primeira edição a fazer esse concurso. (via The L Magazine)

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segunda-feira, 3 de maio de 2010

FICÇÃO CONTEMPORÂNEA POR Karl Erik Schøllhammer


Vale a pena ler: Karl Erik Schøllhammer em entrevista a revista CULT sobre seu livro Ficção brasileira contemporânea.

capa do livro: divulgação
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