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quinta-feira, 15 de maio de 2014

JONATHAN SAFRAN FOER EM COPOS DESCARTÁVEIS


Jonathan Safran Foer é mesmo um sujeito inquieto. Um dia, ele estava sentado numa das mesas do restaurante de comida mexicana Chipotle sem nada para fazer e teve uma ideia: colocar pequenos textos nos copos descartáveis dos clientes a fim de distraí-los. Pois bem, a ideia foi aceita pelo restaurante norte-americano e os copos e sacolas começaram a circular nessa semana.

Os textos são assinados pelo próprio Safran Foer e por Malcolm Gladwell, Toni Morrison, George Saunders e Michael Lewis.

Será que alguma rede brasileira de comida bancaria a mesma ideia? Já pensou tomar um suco e depois ler no seu copo textos do Ricardo Lísias, Flavio Izhaki, Bernardo Carvalho e tantos outros?

Para quem não lembra, Foer é o autor dos romances Tudo se ilumina e Extremamente alto & incrivelmente perto. Também foi responsável pelo projeto do livro-objeto Tree of Codes baseado numa novela do escritor Bruno Schulz. Ele está preparando um novo romance que deve ser publicado nos Estados Unidos até o final desse ano. Vai se chamar Escape from Children's Hospital. Conta a história de um garoto de 9 anos que vive uma experiência traumática que afeta para sempre a sua vida e a vida das pessoas ao seu redor.


Abaixo tem o texto do Foer que está num dos copos da Chipotle (para quem tá morrendo de vontade de ler):


Two-Minute Personality TestBy Jonathan Safran Foer

What’s the kindest thing you almost did? Is your fear of insomnia stronger than your fear of what awoke you? Are bonsai cruel? Do you love what you love, or just the feeling? Your earliest memories: do you look though your young eyes, or look at your young self? Which feels worse: to know that there are people who do more with less talent, or that there are people with more talent? Do you walk on moving walkways? Should it make any difference that you knew it was wrong as you were doing it? Would you trade actual intelligence for the perception of being smarter? Why does it bother you when someone at the next table is having a conversation on a cell phone? How many years of your life would you trade for the greatest month of your life? What would you tell your father, if it were possible? Which is changing faster, your body, or your mind? Is it cruel to tell an old person his prognosis? Are you in any way angry at your phone? When you pass a storefront, do you look at what’s inside, look at your reflection, or neither? Is there anything you would die for if no one could ever know you died for it? If you could be assured that money wouldn’t make you any small bit happier, would you still want more money? What has been irrevocably spoiled for you? If your deepest secret became public, would you be forgiven? Is your best friend your kindest friend? Is it any way cruel to give a dog a name? Is there anything you feel a need to confess? You know it’s a “murder of crows” and a “wake of buzzards” but it’s a what of ravens, again? What is it about death that you’re afraid of? How does it make you feel to know that it’s an “unkindness of ravens”?

Imagem: reprodução do site VanityFair.
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sexta-feira, 13 de setembro de 2013

QUANDO A RUA APARECE NA LITERATURA - EM MEMÓRIA A MARSHALL BERMAN

Jane Jacobs
Tem gente que lê dois ou três livros ao mesmo tempo sem perder uma linha do enredo - uma questão de comportamento, hábito, organização, gosto pessoal, sei lá. Conheço pessoas que realizam esse verdadeiro milagre num mundo em que a publicação de livros se multiplica a números exponenciais e exigem agilidade (ou melhor, "rebolado") para acompanhar TUDO o que chega às livrarias, mas eu mesmo não consigo. Quer dizer, até consigo se for um trabalho. Mantenho o foco, crio um método de anotações e sigo em frente. Já para as leituras de prazer eu dedico muita atenção e exclusividade. Leio d-e-v-a-g-a-r. É claro que no meio do caminho faço pausas (com tempo de duração variado) para atender prazos de leitura mais urgentes ou viver a vida (atender ao telefone, ir ao mercado, responder emails, tomar uma cerveja, assistir a um filme, encontrar os amigos etc.). A MTV tinha uma vinheta que dizia: "desligue a TV e vá ler um livro". Em determinados momentos, eu diria o seguinte: "feche o livro e vá para a rua" - se você costuma ler no iPad, Kindle e outros leitores digitais pode usar dizer "desligue o livro e...".

Pois bem, um livro que estou lendo por prazer nesse momento é Morte e vida de grandes cidades, de Jane Jacobs. Não tem nada de ficção, por isso não coloquei a capinha naquele campo "lendo" do blog. O livro foi publicado em 1961 quando as cidades norte-americanas eram assoladas pelo trabalho racionalista, organizador e um tanto higienista dos grandes arquitetos e urbanistas modernos - entre eles, Robert Moses e Le Corbusier. Jacobs usou sua verve de jornalistica-ativista contra essa mentalidade demonstrando que o elemento mais precioso da cidade está escondido na sua diversidade urbana espontânea ocupando ruas e calçadas, misturando prédios antigos com novos, bairros mesclando comércio, fábricas, praças, cinemas, bares, casas, restaurantes, escolas, parques e todo o resto. Suas ideias foram tão influentes que permanecem atuais e repercutem até hoje entre os urbanistas. Sobretudo nesse momento em que as metrópoles estão renascendo como símbolo de um urbanismo mais espontâneo. Apesar de carregar alguns aspectos técnicos que podem parecer enfadonhos para os 'não iniciados', Jacobs constrói seus argumentos com uma prosa recheada de inteligência, beleza e simplicidade narrando sua experiência pessoal com várias histórias de pessoas que moram na cidade por causa de sua diversidade vibrante.

Cheguei ao livro da Jane Jacobs depois de ler o ensaio histórico e literário Tudo que é sólido desmancha no ar, de Marshall Berman - li nos tempos da faculdade para a minha monografia de conclusão da especialização cujo tema era a representação da cidade real em As cidades invisíveis, de Italo Calvino (na vida é muito importante ter ambições). Por causa do prazo de entrega eu fui deixando o livro de Jacobs para depois, outras leituras apareceram e na metade do mês passado a vez dela chegou. Leituras de prazer, lembra? Foi pensando no livro dela e nessa história de um livro que puxa outro que fiquei triste ao ler a notícia de que Marshall Berman tinha morrido. Infelizmente, não o conheci pessoalmente, não era meu professor, amigo ou parente, mas era alguém brilhante por quem eu tinha muita admiração. Ele esteve algumas vezes no Brasil e nunca tive oportunidade de vê-lo de perto. Minha última chance teria sido em 2007 quando ele foi anunciado como um dos convidados do Fronteiras do Pensamento, mas cancelou a participação por problemas de saúde. Uma pena!

Marshall Berman
Tudo que é sólido... foi tão fundamental na minha vida que orientou quase todos os meus pensamentos sobre a modernidade, a teoria marxista, a crítica e o ensaismo - a tal ponto que estou lendo nesse momento um livro que foi muito importante para a formação teórica dele (com Um século em Nova York, Berman tentou 'imitar' o estilo de Jane Jacobs em Morte e vida de grandes cidades para mostrar o espetáculo da Times Square). 

E veja como as coisas são curiosas: com muito brilhantismo Tudo que é sólido... também faz eco ao grande debate sobre o direito à cidade, a ocupação das ruas e as diversas manifestações espalhadas pelo Brasil e pelo mundo. Um dos eixos condutores do livro é a rua como um símbolo da modernidade que aparece na literatura em escritores como Goethe, Baudelaire, Puchkin, Gogol, Dostoievski e James Joyce.

Por toda a era de Haussmann e Baudelaire, entrando no século XX, essa fantasia urbana cristalizou-se em torno da rua, que emergiu como símbolo fundamental da vida moderna. Da “Rua Principal” (Main Street) das pequenas cidades à “Grande Via Branca” ou à “Rua do Sonho” das metrópoles, a rua foi experimentada como um meio no qual a totalidade das forças materiais e espirituais modernas podia se encontrar, chocar-se e se misturar para produzir seus destinos e significados últimos. Era isso o que o Stephen Dedalus de Joyce tinha em mente com sua enigmática sugestão de que Deus estava lá fora, no “grito da rua”.

Viva Marshall Berman!

***



Para encerrar, quem ficou interessado no assunto deve ler urgentemente Tudo que é sólido desmancha no ar saiu pela Companhia das Letras (tradução de Carlos Felipe Moisés e Ana Maria L. Ioriatti). Aproveitando o ensejo, recomento alguns livros de ficção que aparecem no ensaio do Berman e demonstram que a literatura não é um assunto assim tão distante da realidade simbólica, política e filosófica das ruas.



Fausto, de Goethe (volume I e II)
Tradução de Jenny Klabin Segall
Editora 34

Apesar de ser um poema (esse blog é sobre prosa de ficção), Goethe foi o autor que melhor conseguiu dar tratamento literário ao mito do homem sábio que vendeu sua alma ao diabo para saber tudo sobre o amor, a magia e a ciência. O enredo serve como uma alegoria para as transformações históricas, sociais, políticas, científicas e artísticas da modernidade. 



Eugênio Oneguin, de Alexandr Pushkin
Tradução de Dário Castro Alves
Record

Outro livro em forma de poema (segundo alguns, quase um poema em prosa devido ao caráter narrativo). Conta a história de um jovem aristocrata russo tão entediado com a vida que recusa até o amor de uma bela moça. Os anos passam e tudo muda. É uma obra que exerceu grande influência na literatura russa.





Avenida Niévski, de Nikolai Gógol
Tradução de Rubens Figueiredo
Cosac Naify

Gógol faz um amplo panorama da vida cotidiana da cidade de São Petersburgo, capital do império russo. A avenida Niévski com seu movimento vibrante e seu desenho moderno serve como palco central para o desenlace de histórias quase fantásticas.




Memórias do subsolo, de Dostoiévski
Tradução de Boris Schnaiderman
Editora 34

Não se engane! As poucas páginas desse livro carregam uma das personagens mais importantes da literatura ocidental: o homem do subsolo. Um sujeito isolado do mundo que investe ferozmente contra todas as coisas, mas encontra na rua uma maneira de felicidade.





Ulysses, de James Joyce
Tradução de Caetano Galindo
Companhia das Letras

Para além da forma experimental e hermética, o romance mais importante do século XX conta a história de "um homem sai de casa pela manhã, cumpre com as tarefas do dia e, pela noite, retorna ao lar". Nesse passeio a cidade moderna brilha reluzente.



As flores do mal, de Charles Baudelaire
Tradução de Ivan Junqueira
Nova Fronteira

Influenciado pelas transformações urbanas de Paris e pela prosa sombria de Edgar Allan Poe (alguém se lembra do conto “O homem da multidão”), Baudelaire coloca em cena a figura do flâneur que capta a cidade moderna com toda a beleza de suas mazelas.



*Fotos: reprodução do Google/fonte difusa.

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sexta-feira, 30 de agosto de 2013

OBSERVAÇÕES SOBRE LITERATURA E VIDEOGAME



Um dos motivos que me fizeram ficar longe das atualizações desse blog atende pelo nome de "The Last of Us", o jogo da Naughty Dog para o PlayStation 3 (que pena que os jogos de videogame não contam com títulos em português - será um purismo da minha parte?). Um assunto desses num blog literário pode parecer estranho, mas se você me acompanha desde o começo já deve estar acostumado. Sempre falei do flerte cada dia mais estreito entre a literatura e o universo dos videogames.

Inclusive, a terceira edição do fanzine tratou do tema com dois grandes textos: um artigo sobre Cormac McCarthy no videogame e uma pequena entrevista com os designers Peter Smith e Charlie Hoey responsáveis por uma adaptação 8 bits de O grande Gatsby. Dali eu chamo atenção para um momento em que eles falam do desejo incontrolável que algumas pessoas da indústria dos games (escritores, críticos e empresários) não escondem de ninguém de que os jogos avancem a ponto de conseguir emular um filme ou livro.

Não sei dizer se no futuro o videogame conseguirá essa façanha porque cada meio narrativo (filme, livro ou jogo) tem as suas especificidades, mas - guardadas as devidas proporções - os jogos trilham esse caminho e parecem próximos de atingir esse objetivo.

"The Last of Us" é um caso a ser avaliado. Os desenvolvedores da Naughty Dog conseguiram a proeza de construir um jogo que nos envolve emocionalmente usando uma história bastante verossímil com personagens autênticas e uma trama cheia de reviravoltas - sem mencionar a riqueza dos detalhes gráficos, a beleza imagens e a qualidade do som. Basicamente, o jogo acontece num futuro não muito distante em que a humanidade é infectada por uma doença causada por um fungo que os transforma numa espécie de zumbis (parece um mundo apocalíptico, mas as cidades dos Estados Unidos servem de cenário com elementos fáceis de reconhecer - o prédio do Capitólio, o skyline de Pittsburgh, as rodovias, o Financial District, os subúrbios, uma universidade etc.). 

Acompanhamos e protagonizamos a história de Joel, um sujeito durão que perdeu a filha de uma forma trágica enquanto tentava fugir da epidemia. Anos depois, ele sobrevive numa zona de quarentena e por obra do destino embarca numa missão de escoltar uma menina especial chamada Ellie até um grupo de pessoas que pode encontrar a cura para a infecção. No percurso muitas coisas vão acontecer - não vou contar mais nada para não estragar a surpresa.

Os dialógos são muito bem sacados (não parecem nem um pouco artificiais), tem humor, tem drama, tem suspense e tem transformação das personagens. As cenas não cortam a ação de modo abrupto e tudo se desenrola com lógica e sutileza. Outro trunfo muito plausível, tal qual a vida real temos de investigar os ambientes em busca de suprimentos para sobreviver (precisamos encontrar armas, aperfeiçoá-las, achar munição - que acaba se você desperdiçar -, 'alimentos', kits médicos e todo o resto). Joel também coleciona manuais que ensinam a montar explosivos, afiar facas etc. Como narradores-protagonistas comandamos três personagens (a filha de Joel, Joel e Ellie) e manipulamos a câmera para ver o ambiente.

Comparando ingenuamente o jogo aos romances, me parece claro que a narrativa não joga com mecanismos mais complexos como lacunas, fluxo de consciência e matizes psicológicos das personagens. Ficamos num nível mais superficial. Também faz falta a materialidade linguística que opera verdadeiros milagres ao contrário das artes visuais que precisam apreender tudo em imagens para fazer o expectador imergir na 'história'.

Seja como for, "The Last of Us" representa um avanço na sonhada aproximação com as artes literária e cinematográfica. Li alguns críticos comentando que esse jogo é tão espetacular que ele até impõe um desafio de ser superado - o que pode demorar muito para acontecer. Vamos acompanhar.

***

Em tempo... 

Mais cedo comentei a Copa de Literatura Brasileira e enquanto escrevia sobre "The Last of Us" me lembrei de um papo recorrente que associa a Copa ao fato de sermos tão fissurados por videogames que criamos um combate literário - como se a literatura pudesse servir para tal finalidade: um contra o outro tendo por objetivo a vitória. Acho prudente dizer que nem todos os participantes da Copa são assim tão ligados em videogame e todos reconhecem logo na largada a dificuldade que é comparar dois livros pela natureza singular e subjetiva de cada obra e gosto (estou falando de uma impressão muito particular, pois não conheço todo mundo da Copa pessoalmente). O intuíto da Copa, como está descrito no site, é promover o debate em torno da ficção brasileira contemporânea expondo as justificativas dos jurados e as falhas no processo de escolher ("premiar"?) o "melhor". Portanto, senhores, aviso que a ocorrência de um texto sobre videogames e literatura ao lado de um outro texto sobre a Copa é mera coincidência. E tenho dito!

Daqui a pouco eu volto com mais... LITERATURA.

*Imagem: reprodução
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segunda-feira, 6 de maio de 2013

LIVRO POPULAR QUE NEM QUEM?



Outro dia, comentando sobre a figura do jogador Neymar como divulgador dos sucessos musicais brasileiros, coloquei no ar a seguinte pergunta: seria ele capaz de repetir a mesma façanha caso o produto fosse um livro? Em tom de brincadeira, recomendei que ele aparecesse com um exemplar de Os sertões, de Euclides da Cunha.

De fato, não temos como comparar dois campos da cultura tão distintos como a música (me refiro a música popular ou a canção popular como alguns preferem) e o livro. Enquanto o primeiro é uma experiência corporal, imediata e coletiva; o segundo demanda concentração, esforço intelectual e uma quase solidão. 

A música conta com a facilidade de penetrar mais facilmente na vida das pessoas através da TV, do rádio e da internet com os downloads e compartilhamentos em redes sociais. Como produto cultural, um disco não consome muito tempo. A gente pode colocar ele para tocar e seguir com as nossas tarefas do cotidiano - o famoso fundo musical. Você pode tomar contato com uma música que nunca ouviu até quando anda na rua.

Até a chegada da internet e dos leitores digitais, o livro não contava com nenhum meio de divulgação que não fosse o jornal e a revista - impressos. A coisa mais difícil do mundo era ouvir uma propagando no rádio ou na TV. Aos poucos a coisa está mudando, mas não vejo como dispensar dessa relação de consumo a vontade do leitor. Por mais que a gente faça propaganda, ele precisa se aproximar do livro, mexer, comprar e embarcar nas redes daquela história. Do contrário não tem livro e nem leitura.

Portanto, por mais que o Neymar ajude na divulgação, não temos como saltar essa outra parte do trabalho que compete ao leitor.

***

Uma boa maneira de medir esse retorno, seria ficar de olho nas dicas de leitura que estão ficando famosas nos programas de TV.

Outro dia, vi a cantora Ivete Sangalo dizendo no Esquenta!, da Regina Casé que seu livro de cabeceira é Cem anos de solidão, de Gabriel Garcia Marques. Será que as vendas desse livro aumentaram?

Aliás, o Esquenta! tem uma biblioteca recebe doações dos seus convidados. Por exemplo, a atriz Dira Paes doou Chove nos campos de Cachoeira, de Dalcídio Jurandir; o guitarrista Dado Villa Lobos doou A montanha mágica, de Thomas Mann; a atriz Lilia Cabral doou Dom Casmurro, de Machado de Assis; e o comediante Fábio Porchat doou A revolução dos bichos, de George Orwell.

Você pode consultar o acervo da biblioteca no site do programa. Lá eu descobri também que o Pe Lu (da banda Restart) doou Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago. Será que as fãs da banda compraram ou procuraram saber mais coisas sobre livro?

***

A apresentadora Ana Maria Braga também abriu um espaço semanal no seu programa batizado de Cantinho da Leitura. Na semana passada, o ator Alexandre Nero recomendou Big Jato, de Xico Sá. 

Pesquisando o assunto na internet, encontrei um blogueira fazendo campanha para que o programa da Ana Maria abraçasse a causa da leitura e fizesse um clube do livro - tal qual o popular book club organizado pela apresentadora Oprah Winfrey (ela já leu William Faulkner e recebeu pessoalmente, autores do calibre de Jonathan Franzen).

***

Termino com a mesma pergunta do começo: será que essas ações em conjunto conseguem tornar o livro mais popular?

*Imagem: montagem a partir de frames do programa Esquenta!/reprodução

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sexta-feira, 23 de março de 2012

MAD MEN: LIVROS E REFERÊNCIAS LITERÁRIAS

Hoje no mundo é assim: há tantos filmes, novelas, programas e séries de TV para assistir quanto livros para ler. Portanto, acho que não vai parecer nenhum pecado se eu disser que assisti somente dois ou três episódios da série Mad Men (não perguntem a temporada porque não sei responder - descobri por esses dias que a quinta temporada estréia domingo nos Estados Unidos, para provar como ando por fora dessa cronologia).

Desculpem se estou decepcionando os fãs da série que podem ter pensando que eu não perdia um capítulo depois do meu texto sobre as capas vintage de Richard Yates com gostinho de Mad Men. Não acompanho os episódios (capítulos) mais de perto por falta de tempo. Prometo que vou repensar tudo depois do que vou falar agora.

É que a série fez tanto sucesso que criou uma onda de livros com temas dos anos 50. Tem livros de culinária, bebida, ilustração, filosofia, moda, ensaios críticos, calendários, propaganda e até guia de ruas e estilo. Para não falar em toda enxurrada de outros produtos. Bem às vésperas da estréia da quinta temporada descobri um blog ligado a Biblioteca Pública de Nova York que mapeia os livros ou referências literárias da série. Acredite! Todo mundo ali lê bastante. Mesmo quando não estão com um livro nas mãos, as personagens falam sobre livros que estão lendo ou os roteiristas encaixam alguma citação (tem John Cheever, Balzac, Mark Twain, Agatha Christie, Jack Kerouac etc). Pelas imagens que consegui ver na internet, a direção de arte tem o maior cuidado ao usa as edições daquela época - todas com cara de nova.

Se você é fã da série pode procurar no Twitter pelo hashtag #MadMen #Reading para descobrir mais coisas. Abaixo tem uma lista dos livros que foram mencionados no blog - vou colocar o título em português quando o livro já tiver tradução; não estou mencionando os livros de não-ficção:

O espião que saiu do frio, de John Le Carré
As aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain
As aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain
The Clue of the Black Keys, de Carolyn Keene
The Twenty-One Balloons, de William Pène DuBois
O crisântemo e a espada, de Ruth Benedict
O grupo, de Mary McCarthy
Confissões de um publicitário, de David Ogilvy
O som e a fúria, de William Faulkner
A nau dos insensatos, de Katherine Ann Porter
O diamante do tamanho do Ritz e outros contos, de F. Scott Fitzgerald
Marjorie Morningstar, de Herman Wouk
Agonia e êxtase, de Irving Stone
Meditations in an Emergency, de Frank O’Hara
A revolta de Atlas, de Ayn Rand
O melhor de tudo, de Rona Jaffe
Exodus, de Leon Uris
O amante de Lady Chatterley, de D.H. Lawrence
Moby Dick, de Herman Melville

ATUALIZAÇÃO: lembrei de um tumblr que faz o levantamento de referência literárias dos Simpsons - mais especificamente da Lisa Simpson.

*Imagem: reprodução.
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sábado, 10 de março de 2012

A LITERATURA COMO JOGO OU O JOGO DA LITERATURA




Lamento informar, mas o jogo que aparece no vídeo acima não existe. O site UCBComedy fez uma paródia de humor ácido com um jogo de tabuleiro chamado Pictionary em que grupos de jogadores tentam identificar palavras específicas a partir de desenhos feitos por seus colegas. No Brasil, o equivalente mais próximo desse jogo talvez seja o Imagem&Ação (me corrijam se eu estiver errado, por favor). No vídeo, a coisa ficou engraçada porque os jogadores tem de adivinhar palavras retiradas de livros de Cormac McCarthy, A estrada e Meridiano de sangue. Quem está mais familiarizado com o universo do autor sabe que qualquer sentença desses dois livros está recheada de imagens fortes, sombrias e macabras – notem que estou usando um certo eufemismo. Para termos uma ideia o jogo imaginário do vídeo vem acompanhado de uma ampulheta com areia negra e lápis feitos a partir de ossos de cavalos mortos. Reparem na jogadora tentando desenhar cadáveres e imaginem a si mesmos adivinhando do que se trata. É ou não é apocalíptico?



Deixando de lado a brincadeira fiquei pensando nos desdobramentos que a ficção está ganhando ultimamente. Cada vez mais aparecem notícias sobre obras virando jogos de tabuleiro e ganhando versões para videogames, sem mencionar as infinitas adaptações para o cinema, séries e especiais de TV etc. É como se a literatura estivesse adentrando o universo do entretenimento contemporâneo e virando um bem de consumo da indústria cultural. O fenômeno deve ser visto de forma positiva, afinal que mal pode haver nessa aproximação? Evidentemente, a obra de ficção sofre certos achatamentos na transposição para o novo meio. Infelizmente não existe outro jeito já que cada meio tem sua linguagem específica. Não dá para transformar a complexidade de alguém como o juiz Holden num jogo qualquer, por exemplo. No entanto, acredito que um adolescente pode criar interesse por Geoffrey Chaucer depois de jogar The Road to Canterbury; da mesma forma que qualquer pessoa pode ler Carta a uma senhorita em Paris, de Julio Cortázar depois de ter contato com Rabbits for my closet.


Um pouco dessa atmosfera permeou o #Casmurros_3 (terceira edição do fanzine com o tema videogame). Lá estão a versão 8 bits de O grande Gatsby, o aplicativo de Orgulho preconceito e zumbis, o game com gráficos alucinantes de Dante's inferno, as muitas versões de jogos para a obra de Jorge Amado e um texto divertido de António Xerxenesky imaginando clássicos da literatura como videogame. Curiosamente, também tem um texto de G. Christopher Williams sobre Cormac McCarthy e a dinâmica dos jogos eletrônicos.

Embora os desdobramentos da ficção sejam um campo repleto de oportunidades, a ideia por trás do fanzine também era mostrar como a literatura explora o conceito de jogo desde a "invenção" do romance no século XVIII. Por jogo estou me referindo as obras de ficção que trabalham com a forma a fim de acionar a astúcia do leitor diante do livro. Pense, por exemplo, nos romances escritos em mise en abyme (narrativas que contém outras narrativas dentro de si), nas brincadeiras com a linguagem típicas da OuLiPo e do noveau roman, no quebra-cabeça do enredo (saltando capítulos, indo e voltando no tempo), na ruptura da fronteira entre quem lê e quem narra etc. Tudo isso convida o leitor a participar da narrativa construindo o sentido do texto.

Na minha pesquisa sobre o assunto descobri que diversos estudiosos apontam A vida e as opiniões do cavalheiro Tristam Shandy, de Laurence Sterne como um livro pioneiro na "tradição" do jogo literatura. O narrador desse romance abusa das digressões criando uma espécie de enredo que nunca termina. Um novo assunto surge toda vez que pensamos que ele vai concluir algum acontecimento para finalmente acompanharmos uma história até seu final. Há também as muitas interferências gráficas (desenhos de cruz, círculos etc), as páginas em branco e as páginas com emblema bem no meio do livro.

Outros exemplos de jogo literário aparecem nos livros Dans le labyrinthe, de Alain Robbe-Grillet; Fogo pálido, de Vladimir Nabokov e finalmente na experiência seminal de O jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar. Não posso deixar de mencionar também O castelo de destinos cruzado, Se um viajante numa noite de inverno... e tantos outros romances escritos por Ítalo Calvino.

Acho que ainda estamos por descobrir esse jogo literário em The atrocity exhibition, de JG Ballard; At Swim-Two-Birds, de Flann O'Brien (cujo o trecho inicial ganhou tradução no mesmo número do fanzine) e nos livros do escritor sérvio Milorad Pavic – que faleceu recentemente. Nenhum desses ainda foi publicado em português apesar de serem livros importantes na literatura contemporânea (ou pós-moderna, se você preferir).

Dificilmente esses livros vão ganhar versão em jogos de tabuleiro ou videogame. Resta ao leitor desafiar a si mesmo e encarar a iniciativa de decifrar o desafio, montar o quebra-cabeças e ganhar o jogo. Alguém se lembra de mais algum livro desse tipo?

*Imagens/Video: reprodução.

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terça-feira, 20 de dezembro de 2011

CASMURROS #3




Nessa edição: Simone Campos, Cormac McCarthy, Flann O'Brien, Georges Perec, F. Scott Fitzgerald, Antonio Xerxenesky e mais. Ilustrações: Grafilu.

TAMANHO: 5.22MB
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quinta-feira, 27 de outubro de 2011

O LEITOR ESCOLHE QUEM LEVA O PRÊMIO

O prêmio da revista QUEM para melhor escritor do ano não é tradicional e ainda não tem tanta repercussão, mas achei a lista de indicados bem elaborada. O único problema é misturar escritores de prosa e poesia. Acho difícil comparar e avaliar as duas coisas juntas.

Dentre os finalistas estão concorrendo Afonso Henriques Neto, Ana Paula Maia, Elvira Vigna, Mano Melo, Max Mallmann, Michel Laub, Paulo Roberto Pires, Rubens Figueiredo e Thiago Mello.

Não acompanho o prêmio desde o começo, mas sei que funciona assim: um júri composto por especialistas no assunto em conjunto com a redação da revista escolhem os indicados. Depois que a lista é divulgada, começa a votação popular através do site para escolher um vencedor em cada categoria.

O júri desse ano foi formado por Claufe Rodrigues (poeta, compositor e jornalista), Ítalo Moriconi (professor de literatura da UERJ) e Raquel Cozer (jornalista e dona do blog A biblioteca de Raquel).

Para votar é só clicar aqui.

*Imagem: reprodução.
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sexta-feira, 30 de setembro de 2011

O NOBEL PODE SER DELE?


Quando outubro vem se aproximando é sempre assim: começam as especulações sobre quem será o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura. Para manter o suspense e a surpresa, os organizadores do prêmio divulgam uma agenda com todas as datas para anúncio dos vencedores tomando o cuidado de deixar a categoria literatura em aberto. Até o tal anúncio não tem lista de indicados, lista longa, lista curta, nada. Acho que nem mesmo os adivinhadores do futuro conseguem matar essa charada. O grande termômetro do prêmio continua sendo a casa de apostas Ladbrokes.

Segundo o ranking deles, os mais cotados ao prêmio são:

1. Adonis
2. Thomas Tranströmer
3. Péter Nádas
4. Thomas Pynchon e Assia Djebar (empatados)
5. Ko Un
6. Les Murray e Haruki Murakami (empatados)
7. Mircea Cartarescu
8. K. Satchidanandan
9. Philip Roth, Cormac McCarthy, John Banville, Colm Toibin, Joyce Carol Oates, Don DeLillo e Antonio Lobo Antunes (todos empatados).

O nome de Adonis, poeta e ensaísta sírio, já foi cogitado anteriormente para o prêmio, mas ele nunca chegou lá. De olho nos número da Ladbrokes parece que esse ano o Nobel é dele e ninguém tasca. Sobretudo depois dos eventos da Primavera Árabe e das manifestações pró-democracia na Síria - Adonis tem uma poesia de forte cunho social e seus discursos costumam ser sempre carregados no tom político. Só um azarão poderia melar os planos de Adonis (nunca se sabe).

É bom lembrar que a Ladbrokes nem sempre acerta. Não me esqueço que no ano passado, segundo a casa de apostas, Tom McCarthy era tido como o nome certo para ganhar o Man Booker Prize. Na última hora ganhou o escritor Howard Jacobs.

De língua portuguesa, apenas o escritor Lobo Antunes é citado e sem muitas chances - ele está num distante décimo lugar empatado com muitos outros. Ano passado ganhou o escritor Mario Vargas Llosa. O que diminuem as chances da academia sueca olhar novamente para os escritores latino-americanos, segundo muita gente acredita.

Agora é sentar e esperar ou quem sabe fazer uma "fézinha".

*Imagem: Wikipédia.

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terça-feira, 19 de julho de 2011

RÁDIO LITERATURA

No programa Amores Expressos de 28/4 o cronista e escritor Antônio Prata disse um negócio interessante: "a banalização da literatura seria maravilhosa se a literatura fosse uma coisa acessível a todos e o escritor fosse igual a um arquiteto ou engenheiro". Evidentemente a frase está fora do contexto original, mas significa exatamente o que precisa significar. Afinal, seria muito bom se a literatura deixasse de ser uma coisa sagrada, intocável e inacessível como parece para muita gente.

Daí a importância de ideias simples que possam levar a literatura para as multidões, sem muita mistificação e mantendo compromisso com a qualidade - evitando desvios desnecessários e abordagens mirabolantes.

A longa introdução foi para dizer que no último domingo a Rádio Batuta do Instituto Moreira Salles estreou uma série de programas chamada "Prefácios". Coordenada por Francisco Bosco e com apresentação de Flávio Moura, a série pretende convidar autores para conversar sobre seus livros preferidos ou livros que gostariam de prefaciar algum dia. Até o momento foram gravados 13 programas que serão disponibilizados um a cada domingo no site da rádio.

O primeiro programa contou com a presença de valter hugo mãe falando sobre A metamorfose, de Franz Kafka. (Detalhe: o programa foi gravado em Paraty durante a FLIP e logo após a sua arrebatadora participação na mesa "Pontos de fuga", com a escritora Pola Oloixarac). valter hugo mãe fala da influência de Kafka na sua obra e destrincha alguns pontos que considera importantes na novela.

A agenda para os próximos programas é essa: 24/7 - João Ubaldo Ribeiro; 31/7 - Milton Hatoum; 7/8 - Paulo Henriques Britto; 14/8 - Andrés Neuman; 21/8 - Bernardo Carvalho; 28/8 - Alexei Bueno e 4/9 - Rodrigo Lacerda.

[via Caderno 2]

*imagem: reprodução Google.
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quinta-feira, 30 de junho de 2011

A LITERATURA NO TEMPO DOS APPS


As discussões e os comentários literários sempre se dão em torno de livros impressos, mas a era digital já está dando sinais de que vai disputar uma fatia desse bolo. Se a tentativa será próspera ou não, só o tempo dirá. Mas nas últimas semanas tem sido constante as notícias em torno de aplicativos gratuitos desenvolvidos para iPad, iPhone e Androids.

Se não estou enganado o primeiro caso sério que despertou o mundo das letras foi o aplicativo do poema The Waste Land (A Terra Desolada), de T.S. Eliot. Nele é possível não só ler o poema em forma de texto, como escolher a pessoa que vai ler o poema para você (tem Viggo Mortensen, o próprio Eliot e outros) e assistir um vídeo com uma leitura dramática feita pela atriz Fiona Shaw. Tem também vários menus explicativos, outros vídeos explicativos, fotos da vida de Eliot e as imagens do manuscrito original com as anotações e tudo o mais.

Depois foi a vez da turbinada versão "definitiva" do clássico beatnik On the road, de Jack Kerouac. O aplicativo tem tanto material que o romance em si parece ter menos importante. Tem vídeos, fotos inéditas, muitos menus explicativos e tanta coisa que teria de me estender por mais de um post para explicar. Imagino que deve ser difícil ler o livro ser se distrair e ficar tentado a mexer em alguma coisa. Vale como um belo exemplar de colecionador ou material de consulta para pesquisadores.

Existem também os aplicativos não tão sofisticados - diria rudimentares perto desses dois novos - dos livros Alice no país das maravilhas, de Lewis Caroll (que chamou atenção por causa do vídeo no youtube) e A guerra dos mundos, de H.G. Wells (é interativo, mas um pouco limitado).

Para completar a lista, a editora Penguin dos Estados Unidos acabou de lançar um aplicativo para iPhone em comemoração aos seus 65 anos. O aplicativo oferece a lista completa de obras publicadas pela Penguin Classics, separadas por título ou autor. Você pode ainda pesquisar por assunto, gênero, período histórico ou simplesmente chacoalhar o seu celular para ele te sugerir um livro. Isso sem falar nos joguinhos, interatividade com o Facebook e tal. É um aplicativo apenas de consulta da lista de livros que a editora publica. Eles estão de olho naquele consumidor antenado com a tecnologia - em breve esse aplicativo deve permitir compra de e-books.

Pensando no futuro, mas lembrando o passado

Olhando esses aplicativos, me lembrei da minha adolescência quando existiam aqueles CD-ROMs interativos que pareciam ser coisa do futuro - alguém lembra disso? O negócio tinha mil complicações, um designer meio quadrado e travava totalmente o computador. Eles eram vendidos como verdadeiras enciclopédias eletrônicas que iriam facilitar a vida do seu filho na escola. Felizmente o negócio não vingou depois do boom da internet.

O princípio dos aplicativos é bem parecido com o dos CD-ROMs, a diferença é a imaterialidade. Você não vai ter de reservar espaço na escrivaninha para nada. Tudo é virtual, numa base de dados que fica lá na China e você acessa através de servidores na internet. Uma beleza.

É fácil entrar naquelas discussões sobre a morte do livro, o mundo pós-humano, a era das máquinas e o desejo virtual. No entanto, não acredito que os "apps" vão mudar a nossa maneira de ler romances ou nosso interesse por livro em papel - pelo menos por um longo tempo. Até agora todas essas novidades facilitam a vida na hora de fazer pesquisa ou encontrar aquele livro cujo nome você esqueceu. Também ajudam quando você queria ter aquele livro bem a mão.

Para as editoras, criar um aplicativo com seu catálogo não deixa de ser um negócio interessante. Mas para o leitor os benefícios não são lá tantos entusiasmantes. Para a literatura do futuro muito menos. Pode ser que a pessoa que vai revolucionar a maneira como lemos ainda esteja para surgir nos próximos cem anos.

*imagens: reproduções.
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quarta-feira, 18 de maio de 2011

LITERATURA CABEÇA


Enquanto estamos aqui sentados discutindo o fim da crítica e o aumento no número de leitores no Brasil a revolução está acontecendo lá fora. Começou hoje no Rio de Janeiro o projeto "Oi Cabeça", com curadoria de Heloisa Buarque de Holanda e Cristiane Costa. A ideia é discutir justamente o futuro da literatura e da crítica com gente que está botando a mão na massa.

Até o fim do ano, o projeto pretende reunir uma vez por mês especialistas do Brasil e do mundo para conversar sobre temas que deixam qualquer crítico do sáculo passado de cabelo em pé.

O primeiro encontro rolou ontem com o tema "O fim da crítica e o auge dos fãs", com Nancy Baym, Mauricio Mota e Pedro Carvalho. Nancy, por exemplo, é uma norte-americana especialista no fenômeno chamado fandom - quando um grupo de pessoas (fãs) se reúne em torno de um determinado assunto. O assunto rende discussão, pois admite que a crítica não importa mais e o fã é o agente que consegue fazer verdadeira mobilizações em torno do seu objeto de desejo. Assim qual necessidade tem um crítico mediador?

Os próximos encontros têm os temas: "Novos espaços para a literatura", "Realidade aumentada", "Rumos da cibercultura", "Literatura expandida", "Os novos gêneros e-literários" e "Personagens, estratégias narrativas e engajamento nos games". Em dezembro acontece um labfest - espaço para troca e criação de novas ideias.

Vale lembrar que a Heloisa Buarque de Holanda não embarcou nessas ideias por esses dias. O envolvimento dela com as novas mídias vêm de longa data. É importante garantir o aparecimento de um evento como esse independente dos frutos que ele pode gerar.

*imagem: foto de Nancy Baym/reprodução.

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segunda-feira, 9 de agosto de 2010

DE VOLTA DA FLIP!


Eu prometi que ia atualizar o blog diretamente da FLIP, mas infelizmente não consegui. Não queria ficar carregando notebook para todos os lados. Atualizar de algum cybercafé também estava fora de cogitação, os preços eram um pouco salgados. Além disso, o intervalo entre as mesas não era suficiente para procurar algum lugar, escrever, postar e seguir em frente. Admito que a cobertura - praticamente online - feita pelos jornalistas é um trabalho de Hércules. Evidentemente, as equipes são grandes, por isso conseguem dar conta da maior parte. Sendo assim, todo mundo já leu toda sorte de comentários e juízos críticos sobre as mesas, os convidados, as festas, os eventos e acontecimentos.

Acho que depois da conferência de abertura o clima de críticas e aversão que rondava a FLIP se dissipou. O que não significa dizer que essa foi a melhor edição. Por lá, eu vi muita gente animada e bem disposta a participar da programação.

Vi quase todas as mesas do sábado e uma mesa do domingo. Gostei muito de tudo o que vi - exceto a mesa de Robert Crumb e Gilbert Shelton, uma decepção comentada por vários jornalistas, blogueiros, etc. Minhas mesas preferidas foram: Colum McCann e William Kennedy; Wendy Guerra e Carola Saavedra. Achei muito bom que o assunto "limites da narrativa" tenha surgido tanto numa mesa, quanto na outra. Afinal, acho que essa é uma preocupação que persegue todos os jovens escritores. Ainda é possível contar novas histórias? Será que existem limites? Nada melhor do que ouvir veteranos dizendo que cada narrativa é uma narrativa muito particular, como cada um de nós, com histórias diferentes.

Também gostei muito da mesa do Ferreira Gullar. Já tinha visto ele falando (não na FLIP) e também tinha ficado impressionado. Mas esse momento me pareceu significativo pelos 80 anos e pelo prêmio Camões - daí o motivo de terem dedicado a mesa a ele. Alguém até sugeriu que aquela fala final sobre o cosmos e o universo são as reflexões dele sobre o final da vida.

Enfim, impressionante e encantador. Por enquanto, não posso prometer melhor cobertura das próximas edições. Até lá, vou ter de esperar o andamento das coisas. Agora, é hora de voltar a vida normal e correr atrás do prejuízo.

*imagem: reprodução do flickr da FLIP.


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terça-feira, 3 de agosto de 2010

8ª FESTA LITERÁRIA INTERNACIONAL DE PARATY - FLIP


Muito bem, críticas, elogios e polêmicas à parte, hoje começa mais uma edição da FLIP. A programação completa já está na ponta da língua de todo mundo. As tendas já estão montadas. As livrarias também. Os autores já chegaram ou estão chegando aos poucos. O tempo está nublado e faz aquele friozinho típico da época. Pelo que li, a cidade ainda vive pacata. Os turistas, visitantes, estudantes, jornalistas e flipeiros devem começar a chegar amanhã.

Não conseguiu ingresso, não tem dinheiro ou não está a fim de ir? Não tem problema. Acompanhe todos os jornais, revistas, blogs e twitters que a está altura do campeonato já estão pegando fogo. Se você quiser ter sua própria opinião sobre alguma mesa, o site da FLIP te dá uma ajuda e faz transmissão ao vivo. Não vai faltar cobertura de informações.

Recomendo vivamente que todo mundo acompanhe: mesa 2 -Lionel Shriver e Patrícia Melo (duas escritoras que precisam ser lidas); as mesas 5 e 6 - com Robert Darnton, Peter Burke e John Makinson (sobre o tão falado futuro dos livros, para ouvir e pensar); mesa 9 - A. B. Yehoshua e Azar Nafisi (de como a literatura reflete as nossas questões políticas e sociais); mesa 10 - Salman Rushdie (para quem viu e não viu); mesa 12 - Colum McCann e William Kennedy (as cidades e suas histórias); mesa 14 - Robert Crumb e Gilbert Shelton (os mitos dos quadrinhos); mesa 17 - Wendy Guerra e Carola Saavedra (duas jovens escritoras). Quem puder acompanhar tudo, melhor.

Vou estar na FLIP também, mas depois falo mais sobre isso.

*imagem: reprodução do Flickr da FLIP.

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quarta-feira, 23 de junho de 2010

A LITERATURA NA SALA DE AULA COM AJUDA DA INTERNET



Eu já falei sobre dos problemas que enxergo nessa moda de usar vídeos na internet para divulgar livros. Mas como dizer alguma coisa quando esses vídeos servem para os professores estimularem seus alunos a lerem mais? É exatamente isso que o pessoal do LivroClip está fazendo: usando "a internet para levar os livros à sala de aula, na forma de animações, dicas de uso e fórum de debates". No site é possível encontrar uma animação sobre um determinado livro e ainda ler um pouco da biografia do autor e trechos do livro selecionado. As animações resumem bem o enredo das obras sem revelar muita coisa. E de fato causa em quem assiste uma imensa vontade de ler. Veja por exemplo o vídeo sobre A metamorfose, de Franz Kafka. A linguagem é bem simples, mas a comunicação é imediata. E quem sabe assim não acabam com aquele ideia que os alunos tem de que a literatura é chata?

Acima o vídeo de Dom Casmurro, de Machado de Assis - retirado do site LivroClip.
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domingo, 20 de junho de 2010

FUTEBOL COMBINA COM LITERATURA NA ÁFRICA DO SUL


Em época de Copa do Mundo, as atenções ficam todas voltadas para os televisores e as transmissões dos jogos. Tudo em Tvs de alta definição, tecnologia 3D, etc. Com as partidas encerradas é hora de se dedicar a leitura - coisa que apreciamos bastante. E o que nos reserva a literatura da África do Sul, país sede do mundial de futebol? Eu não tenho notícias sobre a produção literária mais recente deles. Mas, conheço dois nomes importantes da literatura mundial que nasceram naquele país: Nadine Gordimer e J. M. Coetzee. Ambos são ganhadores do Prêmio Nobel de Literatura - Nadine Gordimer em 1991 e J. M. Coetzee em 2003.

Diferente do espetáculo proporcionado pelo futebol mundial, a literatura de ambos aponta para os problemas sociais vividos pela África do Sul desde a época do apartheid. Sem muito panfletarismo, a obra dos dois rompe a fronteiras da África e acaba revelando questões enfretadas pelo homem universalmente. Melhor ainda é saber que a literatura deles fica melhor a cada nova obra. Coetzee, por exemplo, acaba de lançar um novo romance bastante elogiado pela critica. Tanto um quanto outro também se tornaram referência para os novos escritores.

Muitos romances de Gordimer e Coetzee já ganharam tradução para português.

* imagem: http://nobelprize.org


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sexta-feira, 4 de junho de 2010

A THE PARIS REVIEW TEM UM BLOG

Desde 1 de Junho a revista The Paris Review tem um blog. A editora Lorin Stein diz que a "missão" do blog é manter contato com os leitores da revista entre uma edição e outra. Eles também querem escrever e chamar a atenção para tudo aquilo que eles mais gostam: literatura e artes.

O blog me parece bem promissor e antenado com os tempos atuais. Não dá para dizer que eles estão lançando uma tendência porque a internet e os blogs já existem faz tempo. Acho, na verdade, que eles demoraram bastante para entrar no mundo virtual. Só estão confirmando a tendência. E vejam que trata-se de uma das revistas mais importantes do mundo quando o assunto é literatura. Desde 1953, ela entrevista e fotografa de maneira particular escritores que são ou vão se tornar grandes nomes da literatura. É uma revista que criou um modelo, realmente. E agora está aderindo a internet, como muitas outras estão fazendo. Nem preciso dizer que eles também tem uma conta no twitter.
*imagem: capa da Paris Review de 1953 - via google.

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segunda-feira, 17 de maio de 2010

LITERATURA E CRÍTICA EM CRISE?


Flora Süssekind, crítica literária, escreveu no final do mês de Abril um texto para o caderno Prosa&Verso do jornal O Globo. O texto se chamava A crítica como papel de bala. Seu mote principal era demonstrar o conservadorismo e a falta de relevância que reina na crítica literária atual do Brasil.

Num momento furioso, ela diz do crítico:

"retorno às figuras todo-poderosas do especialista monotemático, do agenciador com capacidade de trânsito inter-institucional e do colecionador de miudezas, às interlocuções preferencialmente de baixa densidade dos minicursos e palestras-espetáculo, do universo das regras técnicas e das normas genéricas e subgenéricas, fixadas acriticamente em oficinas de adestramento, à glamorização midiática de instituições autocomplacentes como a Academia Brasileira de Letras e correlatas, a formas variadas de culto a personalidades literárias, em geral mortas (e Clarice Lispector, Leminski, Ana Cristina Cesar têm sido objeto preferencial de dramaturgias miméticas, curadorias acríticas, ficções e comentários “à maneira de”), mas também em vida veem-se autores, mal lançados em livro, se converterem em máscaras que, com frequência, os aprisionam em marcas registradas mercadológicas de difícil descarte".
De fato, nós temos de admitir que a crítica literária feita por aqui realmente não está na sua melhor fase. De maneira simples o que a gente vive é uma dicotomia entre pessoas da acadêmia e o grande público - que aparentemente está por fora.

Os cadernos que tratam de literatura nos jornais e nas revistas - e falam para o grande público - parecem não ter a mesma relevância que tinham antigamente. Muitas vezes os textos parecem muito quadrados e presos a fórmulas. Faltam resenhas melhor elaboradas que promovam a reflexão em quem lê. Também falta sair do lugar comum e estimular os leitores a buscarem algo que seja novo e diferente. A impressão é de que a literatura interessante não está nos jornais e revistas.

Por outro lado, as publicações acadêmicas parecem muito fechadas em si mesmas - portanto, falam para um público mais específico. A academia está mais interessada em autores que promovem experimentação de linguagem, etc. E isso, felizmente ou infelizmente, nunca terá um alcance maior. Quando essa circulação não acontece, existe o mesmo problema de repetição de temas e falta de críticas mais profundas. O escritor Sérgio Rodrigues, em resposta ao texto de Flora, sintetizou bem um dos problema da acadêmia:

"[a] crítica passou a valorizar dois novos modelos textuais para a literatura
contemporânea, ambos virginais. De um lado, em rendição incondicional à
antropologia, o das “vozes” dos despossuídos literários: mulheres, negros, gays,
favelados. Do outro, pelo qual parece se inclinar Süssekind, o da “transgressão”
que “rompe com tudo o que está aí”, em geral sem ter lido uma fração minimamente
aceitável de “tudo o que está aí” – e aqui a rendição do crítico se dá frente ao
mito de corte religioso da pureza refundadora. Escrever “mal”, ser incapaz de
construir um personagem, reinventar a pólvora modernista, aborrecer o leitor
desavisado, tudo isso é considerado preferível a ser mais um a perpetuar aquele
jogo ideológico chamado literatura".
Evidentemente o problema com a crítica literária vai bem mais além do que esses dois campos de força. A crise parece acontecer em todos os setores da crítica cultural nos dias de hoje. Veja por exemplo a fala comum das pessoas: "quem lê os críticos?". Muita gente torce o nariz para críticos de cinema, de teatro, de balé e até para críticos literários. Assim sendo é fácil pensar: a crítica ainda é relevante? Para quem?

Tudo isso resulta num outro grande desafio sem fim, anterior a crítica, que é a educação no Brasil. Exemplos não faltam: má formação de professores, desinteresse de alunos pelo conhecimento acadêmico, universidades em ruínas e tudo o mais que a gente pode lembrar.

No Congresso de Jornalismo Cultural, orgazinado pela revista CULT, alguns debatedores apontaram a possibilidade da internet ser o meio termo entre a crítica dos jornais/revistas e a crítica acadêmica. Tudo porque aparentemente a internet é um espaço livre. Quem escreve não tem o compromisso de vender e agradar. Sobretudo num tempo em que as mídias impressas estão ficando cada vez mais enxutas. Mas quem vai puxar primeiro a sardinha para sua brasa?

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