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segunda-feira, 9 de maio de 2016

JULGANDO LIVROS PELA CAPA (5): PORTUGAL X BRASIL

Eu sei que estou demorando para aparecer com atualizações por aqui, mas como diz um amigo meu: “devagar se vai ao longe”. Ele também tem outras máximas como: “devagar e sempre”, “a pressa é inimiga da perfeição”, “apressado como cru” etc. Por isso, não se preocupe porque em algum momento eu vou voltar com alguma novidade. Fique de olho!

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Como já faço há vários anos, achei que seria divertido comparar as capas dos mesmos livros em edições portuguesas e brasileiras - é o quinto ano da brincadeira. A capa é elemento muito importante para quem gosta de livros. Ela tem uma grande influência sobre o leitor porque funciona como uma porta de entrada para aquele universo que vamos acompanhar por algum tempo. Conheço muitas pessoas que compram livros pela capa - elas realmente existem e não há nada de errado com isso. Nem mesmo os livros digitais conseguiram abolir a capa, uma vez que essas imagens circulam pela internet e estão gritando nas estantes das livrarias online.

Quero lembrar que não sou especialista no assunto e estou comentando as capas descompromissadamente - com certa dose de humor, senão ninguém aguenta. Cada país tem a sua própria cultura visual e cada leitor tem uma preferência na hora de escolher um livro pela capa. As observações servem como um exercício especulativo sobre o trabalho do capista (ou da editora) na hora de dar uma "cara" ao livro.

A caixa de comentários está aberta para quem quiser participar - por favor, fiquem à vontade. As capas das edições brasileiras estão do lado esquerdo.


Submissão, de Michel Houellebecq
As duas edições tem capas diferentes, apesar de terem sido publicados pela mesma editora. O que reforça aquela conversa de que cada pais tem uma cultura visual própria. Acho curioso que a edição brasileira abriu mão dessa “moldura” que é uma marca característica das capas da Alfaguara - os portugueses mantiveram a “moldura”, por exemplo. Com isso, optamos por explorar todo o espaço disponível com esse fundo preto sobreposto pelo mapa da França envolto nesses desenhos arabescos. Acho muito bonito esse dourado que salta aos olhos. Os portugueses foram mais tradicionais: ficaram com a “moldura” e incluíram a Torre Eiffel - um ícone, o maior símbolo visual da França. Interessante que os arabescos estão nas duas capas envolvendo a França (seja pelo mapa, seja pela torre). Nesse caso, acho que temos um empate técnico.


Vá, coloque um vigia (Brasil) / Vai e põe uma sentinela (Portugal), de Harper Lee
Os portugueses não quiseram arriscar e escolheram a mesma capa da edição norte-americana - fazendo apenas as alterações necessárias. É uma capa bonita. Nós seguimos uma ideia parecida - reparem na árvore, nas cores -, mas numa versão mais limpa. Não é ruim. O que me incomoda um pouco é o excesso de informação que acaba poluindo o visual - o título em inglês, por exemplo. Ponto para os portugueses - ainda que a ideia não seja original


A resistência, de Julián Fuks
Outro exemplo de um livro publicado pela mesma editora em dois países diferentes, com capas diferentes. Algumas pessoas podem dizer que a mudança é mínima, já que a ideia de arquivo com fotos e textos está nas duas capas. Ainda que pequena, a alteração para mostrar que os portugueses preferem algo mais clássico. A seleção de fotos, a disposição delas, os escritos e o papelão com a fonte que imita máquina de escrever dão ares antigos. A nossa é mais concentrada nas fotografias (elas quase não aparecem por inteiro) e a capa fica mais “moderninha”. Ponto para a nossa edição.


Um outro amor (Brasil) / Um homem apaixonado (Portugal), de Karl Ove Knausgård
Parece que os portugueses optaram por fazer todo o projeto gráfico da série “Minha luta” com retratos do autor. A edição portuguesa do volume anterior - A morte do pai - tem essa mesma fotografia, esse mesmo enquadramento. Eu fico pensando se isso não confunde o leitor a ponto de fazê-lo crer que a história do livro é totalmente verídica. A edição brasileira é muito mais sugestiva. Ponto brasileiro.


A ilha da infância, de Karl Ove Knausgård
Eu quis colocar o terceiro volume da série “Minha luta” para dizer o seguinte: ao passo que os outros dois volumes - A morte do pai e Um outro amor - optaram pelo rosto do autor (com aquele enquadramento que mostra apenas uma parte), esse volume mostra o rosto inteiro. Como se o autor assumisse o projeto de contar a sua vida por inteiro, finalmente. O retrato é muito bem realizado, mas acho menos sugestivo. Vejam que a edição brasileira também tem uma figura humana, mas ela não tem relação com a figura do autor. Bem mais sugestivo. Ponto brasileiro outra vez.


A amiga genial, de Elena Ferrante
Talvez os portugueses não gostem mesmo de alusão, sugestão etc. eles devem gostar mais de substantivos concretos, do que abstratos. Brincadeiras à parte, eles optaram por uma foto que também foi usada na edição australiano do livro - com a diferença de que usaram uma “moldura“ que enquadra o rosto da garota no centro da capa. Não me agrada tanto. Seja como for é uma capa bonita - o fundo branco ficou elegante. A nossa edição tem essa ilustração das mulheres trajando maios, tomando sol e com chapéus que escondem o rosto. Fora o colorido alegre. Bem mais interessante, um pouco menos dramático. Ponto para a nossa edição.


Uma aventura secreta do Marquês de Bradomin, de Teresa Veiga
Aqui nós temos uma partida bem difícil. A edição brasileira é artística: o fundo branco, a montagem com os livros, a fonte manuscrita etc. Muito bom! Seja como for, é difícil resistir aos encantos dessa ilustração que caracteriza tanto as edições da Tinta da China. É minimalista, é quase ingênuo, quase naïf, mas é lindo. Acho que nesse caso é empate.


Pureza (Brasil) / Purity (Portugal), de Jonathan Franzen
O grafismo da edição portuguesa remete ao sol - as linhas, a cor - e tem a ver com a história do livro. O resultado final, me parece deixar a desejar. A nossa edição, em contrapartida, é um desbunde. É uma fotografia, com uma cor alucinante, as nuvem rarefeitas… e tem esse sol que fica escondido pela letra “u”. Fora a composição do título em sílabas que vão esmaecendo. É muita pureza, com o perdão do trocadilho. Ponto para o Brasil.


Primeiros contos (Brasil) / Primeiras histórias (Portugal), de Truman Capote
Eis outro julgamento difícil. O papel pardo, a fonte de máquina de escrever e o retrato do autor ainda jovem envolto na moldura conversam perfeitamente. Sintetiza uma ideia, um conceito. Já a edição brasileira ganha pela liberdade (e coragem) de colocar uma bela foto do autor inteira - sem cortes. Causam a mesma impressão de um autor ainda jovem, ainda em formação, trajando sandálias. A disposição do título também é elegante, com essa cor verde. Pode ser empate, né!?

*Capas: divulgação


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sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

JULGANDO LIVROS PELA CAPA (4): PORTUGAL X BRASIL

Se você acompanha esse blog desde o começo deve saber que todos os anos faço uma brincadeira comparando as capas dos mesmos livros em edições portuguesas e brasileiras. Nem preciso dizer que virou tradição, pois será o quinto ano da brincadeira.

Vale lembrar que não sou especialista no assunto e estou comentando as capas descompromissadamente - com certa dose de humor, senão ninguém aguenta. Cada país tem a sua própria cultura visual e cada consumidor tem uma preferência na hora de escolher um livro pela capa. As observações servem como um exercício especulativo sobre o trabalho do capista (ou da editora) na hora de dar uma "cara" ao livro.

A caixa de comentários está aberta para quem quiser participar - por favor, fiquem à vontade. As capas das edições brasileiras estão do lado esquerdo.



A graça infinita (Brasil) / A piada infinita (Portugal), de David Foster Wallace
A edição portuguesa saiu em 2012 e a nossa no final do ano passado. Lá, eles optaram por uma imagem de TV em estilo vintage. Imagino que pegaram carona num ensaio do autor em que ele expõe uma longa teoria sobre certos traços da ficção pós-moderna pensando na quantidade de horas diárias que ficamos em frente a TV. Não foi uma ideia ruim. Seja como for, nada é páreo para a capa e o projeto gráfico de Alceu Chiesorin Nunes, Nik Neves e Elisa Braga que dispensa explicações. Ponto para Brasil por unanimidade do júri!



Acqua Toffana, de Patricia Melo
Faz um tempo que os livros dela estão saindo por uma nova editora aqui no Brasil e ganhando um novo projeto gráfico. Esse livro especificamente ganhou uma capa mais abstrata que não diz muita coisa. Já a edição portuguesa vem com esse quarto de rosto de mulher - conta um pouco sobre o enredo do livro (muito pouco). Ficou elegante. Ponto para os portugueses.



Dora Bruder, de Patrick Modiano
O Nobel de Literatura do ano passado também está em reedição com novo projeto gráfico. Dito isso, parece um pouco injusto avaliar a capa brasileira isoladamente porque ela faz parte de um conjunto de três livros - quando colocados, um ao lado do outro, formam o nome do autor. Infelizmente, estou comentando capas individualmente. Por isso, a edição portuguesa me parece mais charmosa com esse retrato em branco e preto estampado. Alguns podem alegar que estraga a imaginação do leitor ao dar um rosto à personagem. Acho que não. Ponto deles.



NW, de Zadie Smith
A capa portuguesa é um tanto desastrosa na escolha da tipografia e das cores - acho que nisso todos estão de acordo. Não sei dizer ao certo, mas quando vi pensei naqueles livros chatos de negócios e empreendimentos. Os ícones no rodapé também não dizem muita coisa. A nossa capa é melhor por várias razões: a sobriedade da cor preta, o recorte, o mapa, o minimalismo. Desculpem, mas esse é nosso.



A morte do pai - Minha luta 1, de Karl Ove Knausgård
Para avaliar as capas desse livro é preciso saber um pouco do enredo: o autor relembra os anos de sua infância e juventude na tentativa de decifrar a história do seu pai. No percurso ele rompe um pouco das fronteiras que separam os gêneros ficção, ensaio, biografia e memória. Por essa razão, a escolha de um retrato do autor para compor a capa da edição portuguesa parece um tanto redutiva, inadequada. A escolha da casinha isolada sob um céu chumbo é muito mais apropriada. Transmite simbolicamente a atmosfera do livro. Ponto pra gente.



Os luminares, de Eleanor Catton
A capa da edição brasileira é bem interessante porque joga com figuras do zodíaco, mapas astrais e constelações - elementos fundamentais para o enredo do livro. O contraste entre o fundo azul e o branco das linhas também ficou charmoso. No entanto, a edição portuguesa ganha pontos pela composição com as fases da lua, o rosto da pintura e o fundo branco. Esse é deles.



Forma de voltar a casa (Brasil) / Maneiras de voltar para casa (Portugal), de Alejandro Zambra
A comparação dessas duas capas tem um cheiro de covardia. Os portugueses optaram por uma foto muito poética e a cor do título também ficou muito bonita. Difícil não se render. Mas como desconsiderar a beleza originalíssima da edição brasileira? A cor, o fundo com grafismos, a tipografia… nesse caso é empate.



Habitante irreal, de Paulo Scott
Desenhos e ilustrações podem ter certo apelo para alguns leitores. Nisso a capa da edição portuguesa vai bem: mantém a identidade visual da editora e as cores são chamativas. Porém, não consigo decifrar a ligação da fogueira e da coruja com o enredo. A nossa capa é mais certeira. O fundo branco é muito elegante e o boneco do índio sem cabeça e em posição de luta parece flutuar no tempo e no espaço. Tudo a ver com o livro. Ponto nosso!



A paixão, de Almeida Faria
Outra avaliação bastante complicada. Estamos diante de dois estilos muito diferentes e muito específicos. A edição brasileira aponta para o moderno com a fotografia do vilarejo. A edição portuguesa aponta para o clássico com o desenho das três figuras humanas. Cada um com seu estilo. Empate técnico novamente.



A verdade sobre o caso Harry Quebert, de Joel Dicker
A pintura de Edward Hooper que estampa a capa da edição brasileira é muito charmosa. Traduz o clima da pequenina e pacata cidade do interior dos Estados Unidos onde a história acontece. Já a capa da edição portuguesa tem uma bela fotografia de Gregory Crewdson. Como não pensar na misteriosa Nola Kellergan e seu momento dramático? Pode ser empate, né?

*Imagens: divulgação. 
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segunda-feira, 30 de junho de 2014

PARA QUEM VAI À FLIP E DECIDIU NA ÚLTIMA HORA...

E aí comprou ingressos para a FLIP? Acho que nem a Copa do Mundo foi capaz de impedir uma pequena correria por parte da plateia interessada em comprar ingressos para as mesas da Festa Literária de Paraty. Fiz uma consulta informal agora pouco e mais da metade da programação já não tem entradas - restam apenas 5 mesas. A novidade da programação desse ano é a entrada gratuíta tanto para o show de abertura (com a cantora Gal Costa) quanto para a transmissão das mesas pelo telão. Para tristeza geral da nação, o telão saí da beira da praia e vai para a Praça da Santa Casa; saudades de assistir as mesas com o pé na areia e uma cerveja na mão. Era quase um oásis.

Resta saber se haverá banco suficiente para todo o público que decidiu acompanhar pelo telão. Será que vão distribuir aqueles banquinhos de papelão?

Bom, vamos supor que você lembrou que a Copa acaba em duas semanas e decidiu de última hora fazer as malas rumo a Paraty para acompanhar a Festa. No entanto, um agravante te preocupa: você não leu nenhum livro dos autores convidados. Como resolver esse problema e não fazer feio?

Para ter dar uma mão eu criei uma tabela relacionando livros curtos, médios e longos (bem longos) de 216autores de prosa de ficção que estarão na FLIP. Como sempre, não tenho um daqueles infográficos super transados. Improvisei uma tabela no estilo vintage - que lembra os tempos do jornal em preto e branco (ainda bem que essas coisas do passado estão na moda).

Monte a tabela tomando como base a informação de que uma pessoa lê em média 15 páginas por hora. Usando esse dado, a tabela ficou assim:

Clique para aumentar
É evidente que na vida cotidiana nem tudo é tão estático assim. Pode ser que você seja um sujeito que consegue ler mais de 15 páginas por hora, bem como pode dispor de mais tempo de leitura aos finais de semana ou dias de folga do trabalho (lembrando que estamos no mês das férias escolares). Mesmo que você seja um sujeito "MUITO OCUPADO", vai conseguir ler pelo menos dois ou três livros. Esqueça os três catataus Jhumpa Lahiri, Joël Dicker e Eleanor Catton e fique com as opções de menor número de páginas.

Não desanime e não arrume desculpa.

*PS.: Listei um conto de Vladímir Sorókin que está na Nova antologia do conto russo porque o livro Dostoievski-Trip é uma peça de teatro - nada que impeça você de compreender um pouco do universo desse escritor. 

*Tabela: Rafael R.

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sexta-feira, 27 de junho de 2014

2ª RODADA - COPA DO MUNDO DE LITERATURA


Para continuar no tema "Copa do Mundo", volto aqui para dizer que terminou hoje a primeira rodada da Copa do Mundo de Literatura. Mantenho atualizações dos resultados quase diárias no Twitter. Apenas 16 livros seguem no torneio e as disputas recomeçam na próxima segunda-feira com dois jogos por dia.

Por acaso, três partidas literárias vão coincidir com os jogos das oitavas de final da Copa do Mundo que acontece nos campos de futebol: Brasil x Chile, Alemanha x Argélia e Estados Unidos x Bélgica. Prometem ser as disputas mais emocionantes.  A situação está muito complicada para o romance Budapeste, de Chico Buarque que vai enfrentar Noturno do Chile, de ninguém menos que Roberto Bolaño. É provável que no campo literário a gente leve a pior, porque na avaliação não existe o fator sorte.

Abaixo o calendário de jogos:

Brasil x Chile 30/06 - Jeff Waxman
Budapeste, de Chico Buarque (Brasil)
Noturno do Chile, de Roberto Bolaño (Chile)

Japão X Itália 30/06 - Rhea Lyons
1Q84 - os 3 volumes, de Haruki Murakami (Japão)
The Days of Abandonment, de Elena Ferrante (Itália)

Honduras x Bosnia Herzegovina 1/7 – Stephen Sparks
Senselessness, de Horacio Castellanos Moya (Honduras)
Como o soldado conserta o gramofone, de Saša Stanišić (Bósnia e Herzegovina)

Alemanha x Argélia 1/7 – Florian Duijsens
Austerlitz, de WG Sebald (Alemanha)
The Sexual Life of an Islamist in Paris, de Leila Marouane (Argélia)

México x Austrália 2/7 – Chad W. Post
Rostos na multidão, de Valeria Luiselli (México)
Barley Patch, de Gerald Murnane (Austrália)

Costa do Marfim x Uruguai 2/7 - Elianna Kan
Alá e as crianças - soldados, de Ahmadou Kourouma (Costa do Marfim)
The Rest Is Jungle, de Mario Benedetti (Uruguai)

França x Argentina 3/7 – Tom Roberge
O mapa e o território, de Michel Houellebecq (França)
Um acontecimento na vida do pintor viajante, de César Aira (Argentina)

Estados Unidos x Bélgica 3/7 - Lori Feathers
The Pale King, de David Foster Wallace (Estados Unidos)
The Misfortunates, de Dimitri Verhulst (Bélgica)

Armem suas torcidas!

*Imagem: divulgação.

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quinta-feira, 19 de junho de 2014

O TIME DO BRASIL NA COPA


Eu não sou especialista em futebol, mas a turma do Pelé Calado é. Eles fizeram uma leitura espetacular da atuação da seleção brasileira após a partida com o México que terminou em zero a zero para frustração dos torcedores. 

Enquanto o urro transcendental não chega, apelamos para a imaginação e inventamos uma seleção de futebol que nunca existiu. Foi mais ou menos isso o que fez a Penguin Books quando escalou um time estelar das letras brasileiras. O gol conta com Machado de Assis; a defesa fica por conta de Graciliano Ramos, Mario de Andrade, Lima Barreto e Arthur Azevedo; no meio-campo tem Paulo Coelho, Euclides da Cunha e Guimarães Rosa; no ataque Jorge Amado, Clarice Lispector e Daniel Galera.

Com um time desses, a gente consegue ganhar e jogar bonito.

***

Você concorda com essa escalação? Quem você chamaria? A caixa de comentários está aberta para você dizer qual é o time dos seus sonhos.

*Imagem: reprodução.
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quarta-feira, 11 de junho de 2014

MERCADO EDITORIAL PARTICIPATIVO 2.0


Faz tempo que eu quero comentar sobre a Bookstorming - uma plataforma de financiamento coletivo voltada exclusivamente a publicação de livros que convida o leitor a assumir em alguma medida o papel de produtor editorial. Para dar o pontapé inicial, ele precisa apoiar financeiramente a ideia; se a meta estipulada for atingida o livro entra em produção. Nessa etapa, o leitor vai acompanhar o processo e poderá sugerir mudanças na criação da capa, projeto gráfico etc. Depois de impresso o livro chega à casa do leitor com alguns mimos como embalagem personalizada ou marcadores de página.

Não é a primeira vez que o modelo de "crowdfunding" é usado para para publicar livros, mas a iniciativa é pioneira porque foca apenas no mercado editorial e conta com o benefício de ter um time de editores (Arthur Granado, Raquel Maldonado, Fabrício Fuzimoto e Breno Barreto) que selecionam projetos relevantes e os submetem a aprovação dos leitores - ou seja, os editores facilitam a vida do leitor na medida em que o ajuda com a parte de encontrar um livro. 

Outra vantagem da plataforma é colocar em evidência algum autor iniciante ou independente que tenha conseguido sucesso ao financiar seu livro. Conquistando esse primeiro passo, o autor poderá encontrar um público leitor, um nicho de mercado e, quem sabe, ter contratos com médias ou grandes editoras - caso não queira permanecer no esquema de financiamento coletivo e julgar a proposta interessante. Surge um mercado intermediário que não é dependente das tiragens que encalham e encontram problemas de distribuição.

A Bookstorming também poderá criar um público leitor que terá paixão pelo livro que financiar. Quem sabe esse leitor não crie gosto pelo hábito e passe a ler outros livros, frequente livrarias, eventos e tudo o mais.

São especulações e divagações. Vale experimentar.

***

Para ficar no tema da mobilização, colaboração, coletividade, o primeiro livro da plataforma é Desordem, uma antologia de contos escrita por Natércia Pontes, Cristiano Baldi, Erika Mattos da Veiga, Paulo Bullar, Patrick Brock, Olavo Amaral e Katherine Funke.

Até o momento o projeto já alcançou 57% da meta estabelecida e faltam 9 dias para encerrar o prazo. O preço do livro é R$ 35,00 (com frete já incluso). Para ajudar Desordem a sair do forno basta acessar o site da Bookstorming - lá você pode ler trechos do livro, entender mais sobre a plataforma e tirar dúvidas.

*Imagem: reprodução.
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segunda-feira, 31 de março de 2014

PROSA DE FICÇÃO BRASILEIRA EM 1964


Dan Brown e Rick Riordan nasceram em junho de 1964 e por serem recém-nascidos não tinham como saber o que se passava no Brasil, um longínquo país da América do Sul. Eles tão pouco podiam imaginar que anos mais tarde seriam dois dos maiores best-sellers da literatura "de aventura", vamos dizer assim. O fato é que em 1º de abril daquele ano, as Forças Armadas do Brasil tomaram o poder e instalaram no país o regime militar - ou ditadura militar - que durou por vinte e um anos. Foi um período obscuro para as liberdades individuais (houve censura brava aos meios de comunicação, repressão, exílio e tortura para pessoas opostas aos ideais do regime etc.), mas bastante iluminado para a cultura brasileira e para a nossa literatura, especialmente.

Naquele ano de 64, enquanto Jean-Paul Sartre ganhava o Prêmio Nobel de Literatura* e Saul Bellow publicava Herzog**, as editoras Civilização Brasileira, José Olympio, Martins e Editora do Autor eram responsáveis por alimentar as livrarias com uma enxurrada de livros de ficção. Essa produção era absorvida pela crítica em revistas, jornais e suplementos culturais que serviam como parâmetro para os leitores decidirem o que era interessante ou não (foi um período áureo porque tínhamos a revista Senhor, a Revista Civilização Brasileira, o suplemento literário do Jornal do Brasil etc.).

Infelizmente, dados sobre as tiragens e a quantidade de exemplares vendidos que poderiam apontar a circulação da nossa literatura entre os nossos leitores dependeria de uma pesquisa mais aprofundada e não consegui encontrar muita coisa. Considerando alguns dados do IBGE, não éramos um país de muitos leitores (há quem considere que não somos até hoje), pois a taxa de analfabetismo no Brasil na década de 60 era de 40,233% (faixa de pessoas com 15 anos e mais), ou seja, quase metade da população era incapaz de ler. Assim, a literatura brasileira era algo restrito a classe média que tinha dinheiro para consumir e aos círculos estudantis - trocando em miúdos, era coisa de intelectual. Embora a palavra "intelectual" soe pejorativa, vale dizer que durante todo o regime militar (sobretudo até 1968 quando acontece o AI-5) os intelectuais assumiram um papel central no debate político e na mobilização contra a repressão/censura uma vez que a cultura era o único espaço possível para exercício da liberdade.

A prosa de ficção brasileira publicada naquele ano não refletia diretamente o espírito de chumbo dos anos que viriam. Talvez esse papel estivesse reservado à crônica do período que saia diariamente nos jornais, sobretudo no trabalho de Carlos Heitor Cony cujo ponto alto de combate direto ao regime está em O ato e o fato, publicado naquele ano no calor da hora***. Olhando para um conjunto delimitado de lançamentos do ano de 1964 e sob um ponto de vista muito particular (o meu) considero que vivíamos um grande momento de experimentação formal do romance capaz de garantir a nossa literatura uma qualidade de alto nível - vide a prosa de introspecção de Autran Dourado, Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles, o nonsense humorístico de Campos de Carvalho e o jogo linguístico de Guimarães Rosa. Na outra ponta, também tínhamos a força da literatura regional com caráter de denúncia - vide Jorge Amado e José Cândido de Carvalho. No meio de campo tínhamos os contos enxutos e inventivos de Dalton Trevisan - vale registrar que Rubem Fonseca tinha acabado de publicar seu livro de estreia Os prisioneiros (1963).

Embora esse conjunto de obras seja primoroso houve uma divisão de opiniões em relação às mudanças que a literatura sofreu por conta do regime militar. Uma parte da crítica e da turma intelectual engajada classificava os romances psicológicos como alienados porque não tomavam partido da realidade social do país contra a política vigente. Já os romances realistas daquele ano pareciam demasiado alegóricos para o radicalismo político e a indignação com o estado das coisas. Foi com o endurecimento do regime nos anos pós-64, fechando editoras, caçando seus editores e proibindo a publicação de livros que nossa ficção pode absorver melhor a situação.

Um relato fidedigno, embora impregnado pelo espírito e pelo momento em que foi escrito, está no artigo “Prosa brasileira em 1964: balanço literário”, de Nelson Werneck Sodré (saiu na Revista Civilização Brasileira I, em março de 1965). O tom é melancólico. O autor diz que golpe foi responsável por interromper boas traduções de autores estrangeiros que estavam em curso e a publicação de prosa de autores brasileiros foi pobre - o artigo termina com a frase "Fizemos pouco ou fizemos muito, em 1964. Fizemos o que era possível". O destaque daquele ano fica por conta da crônica, sobretudo de cunho político, e do ensaio, um gênero que ganhava muito fôlego naquele momento.

Dito isso, fiz um levantamento informal e consegui encontrar uma lista com onze livros de prosa de ficção brasileira daquele ano. Certamente algumas coisas ficaram de fora. Tomei por base os nomes que ainda permanecem nas seleções da crítica e do cânone acadêmico. Se alguém se lembrar de outros livros, por favor, escrevam nos comentários.

O púcaro búlgaro
Campos de Carvalho
Civilização Brasileira







Verão no aquário
Lygia Fagundes Telles
Editora Martins









Manuelzão e Miguilim (Corpo de baile)****
João Guimarães Rosa
José Olympio









O coronel e o lobisomem
José Cândido de Carvalho
José Olympio









A paixão segundo GH
Clarice Lispector
Editora do Autor









A legião estrangeira
Clarice Lispector
Editora do Autor









Os pastores da noite
Jorge Amado
Martins









Uma vida em segredo
Autran Dourado
Civilização Brasileira








Antes, o verão
Carlos Heitor Cony
Civilização Brasileira






Morte na praça
Dalton Trevisan
Editora do Autor









Cemitério de elefantes
Dalton Trevisan
Civilização Brasileira










* Jean-Paul Sartre não só ganhou o Prêmio Nobel de Literatura como o recusou alegando que "nenhum escritor pode ser transformado em instituição".

** Trechos de Herzog, de Saul Bellow apareceram na revista Esquire, em julho de 1961, mas a primeira edição impressa em formato livro foi em 1964 pela editora Viking Press de Nova York.

*** Consta que durante a noite de lançamento, Cony autografou mais de 1600 exemplares do livro.


**** A obra Corpo de baile, de João Guimarães Rosa é composta por três novelas sendo que Campo geral, a primeira, foi publicado em 1956; em 1964, foi publicado Manuelzão e Miguilim com as novelas Campo Geral e Uma história de amor.

Imagens: capa dos livros reprodução.

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sexta-feira, 14 de junho de 2013

SIM! NÓS TEMOS UMA MUSA

Terminou hoje a votação para apontar a musa da literatura brasileira contemporânea. Teve gente que não 'curtiu' muito a brincadeira e soltou o verbo nos comentários - até de Luciano Huck e Pedro Bial me chamaram (loucura! loucura! loucura!).

Nem preciso lembrar que foi tudo uma brincadeira nada sexista (no blog da Rafaela Gimenes tá acontecendo uma eleição para escolher o muso - peguei carona na mesma ideia) para promover a beleza e o talento de dez escritoras que estão fazendo a nossa prosa de ficção acontecer. Não me canso de repetir que, em alguns momentos, a literatura se leva muito a sério e um pouco de descontração não faz mal a ninguém - pode até aproximar as pessoas que andam afastadas do assunto.

Como falei, alguns nomes ficaram de fora porque a seleção foi feita no esquema 'toró de ideias'. Teve gente que sentiu falta de nomes da poesia, mas este blog é somente sobre prosa de ficção. Faltou, por exemplo, Manoela Sawitzki, Adriana Lisboa, Carola Saavedra, Natércia Pontes e Juliana Frank. Faço um "mea culpa".

Vamos ao resultado! No total foram 805 votos - lembrando que qualquer pessoa podia votar mais de uma vez em candidatas diferentes (não tinha bloqueio).


Valeu todo mundo que votou e comentou!
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quarta-feira, 12 de junho de 2013

PARA QUEM VAI À FLIP E DECIDIU NA ÚLTIMA HORA...

E aí comprou ingressos para a FLIP? Se você esqueceu completamente da vida e perdeu a data, saiba que restam poucos ingressos para a tenda dos autores. Para minha surpresa, em menos de uma semana, até a Tenda do Telão já tem ingressos esgotados para algumas mesas (o encontro entre Lydia Davis e John Banville, por exemplo, está totalmente vendido - oba!). Portanto, se você quer ver as mesas em Paraty é bom correr.

Bom, vamos supor que você decidiu de última hora fazer as malas, comprar ingressos e participar da Festa mas não leu nenhum livro dos autores convidados. Como você pode resolver esse problema e não fazer feio? 

Para não fugir a tradição (que começou no ano passado - cof!), resolvi dar uma força e criei uma tabela relacionando livros de 17 autores de ficção que estarão na FLIP (só inclui autores de prosa de ficção e ensaio porque o blog é focado nesses gêneros). Nem preciso dizer que eu queria criar um daqueles infográficos super transados, mas não deu. O jeito foi improvisar e criar uma tabela no melhor estilo vintage.

Para entender a tabela você precisa saber que os parâmetros foram os seguintes: uma pessoa lê em média 15 páginas por hora. Usando esse dado, a tabela ficou assim:


(clique para aumentar)

Olhando mais detalhadamente, a gente pode constatar que você pode ler pelo menos dois ou três livros mesmo que seja um sujeito muito ocupado. Considere também a possibilidade de ler mais de 15 páginas por hora (usei uma média aleatória) - o que vai significar mais um livro para ler.

Não desanime, não arrume desculpa e vá ler um livro.
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sábado, 6 de abril de 2013

BAIXOCENTRO - LIVRO NA RUA - MACUNAÍMA




Para não esquecer: sei que já falei bastante disso, mas não custa lembrar. Hoje tem leitura colaborativa do livro "Macunaíma", de Mário de Andrade na Praça Marechal Deodoro - 16h. Venha! Tire seu exemplar da estante, leia um capítulo, traga comida, bebidas e cuide do seu lixo. Vamos ocupar as ruas da cidade com leitura.

Vai ter cobertura através do Twitter, Flickr e Facebook (na fanpage do Festival BaixoCentro). Acompanhe toda a programação no site festival.baixocentro.org 

#vemprarua #baixocentro #asruassaoparadancar #casmurros

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quinta-feira, 14 de março de 2013

AS APOSTAS DO CÂNDIDO



Rogério Pereira é mesmo uma figura inquieta na cena literária de Curitiba. Além de fundador e editor do jornal Rascunho, ele ainda organiza o Paiol Literário, dirige a Biblioteca Pública do Paraná e coordena o jornal Cândido (publicado pela mesmo Biblioteca). Não pense que termina por aqui, Rogério planeja criar o Prêmio Rascunho de Literatura. Por enquanto esse projeto não tem data para acontecer e ainda está fase de elaboração. Quem quiser saber mais sobre ele precisa ler o perfil escrito por Eliane Brum - A vingança de Rogério.

Pois bem, Rogério e o time de organizadores do jornal Cândido fizeram uma pesquisa com 15 críticos literários a fim de apontar os dez escritores mais promissores da literatura brasileira contemporânea. Apostas desse tipo não são novidade. Outras seleções do tipo pipocam desde os anos 2000 (quem não se lembra das antologias Geração 90: manuscritos de computador e Geração 90: os transgressores organizadas por Nelson de Oliveira). O próprio jornal Rascunho publicou uma seleção em 2011. Seja como for, no ano em que a literatura brasileira está em destaque internacional, as apostas não deixam de causar curiosidade e frisson.

Participaram da enquete os críticos, jornalistas e tradutores Álvaro Costa e Silva, José Castello, Schneider Carpeggiani, Christian Schwartz, Miguel Conde, Rodrigo Gurgel, Bruno Zeni, Carlos André Moreira, Caetano Galindo, José Carlos Fernandes, Ricardo Costa, André Seffrin, Cassiano Elek Machado, João Cezar de Castro Rocha e Luís Augusto Fischer.

As apostas são Paulo Henriques Britto, Cristovão Tezza, Michel Laub, Nelson de Oliveira, Angelica Freitas, Milton Hatoum, Bernardo Carvalho, André Sant'Anna, Ricardo Lísias e Daniel Galera.

A edição ainda conta com uma reportagem de Luiz Rebinski Junior analisando a geração contemporânea de escritores brasileiros e comentando o resultado da enquete; e tem uma entrevista com o crítico Álcir Pécora que sintetiza o assunto da seguinte maneira “Os bons autores hão de surgir quando surgirem”.

O jornal circula com distribuição gratuita na cidade de Curitiba, mas pode ser acessado em versão digital na internet.

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Em tempo, aproveito para dizer que o Casmurros também fez uma seleção em 2010 - 20 escritores com menos de 40 anos. Tem até uma série de pequenas entrevistas com os eleitos (nem todos, mas quase).

*Imagem: capa do Cândido/divulgação

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segunda-feira, 11 de março de 2013

AS RUAS SÃO PARA LER



"As ruas são para dançar, para ler e muito mais".

Gente! Quero pedir uma pausa nos assuntos propriamente literários para falar de um outro assunto tão importante quanto.

Entre os dias 5 e 14 de abril vai acontecer em São Paulo a segunda edição do Festival BaixoCentro. Eu vou participar com dois projetos voltados a ficção: uma leitura "colaborativa" do livro Macunaíma, de Mário de Andrade e um ciclo de conversas com escritores sobre a representação da cidade de SP na ficção contemporânea (prometo falar em detalhes logo mais). Além dos projetos que estou organizando, o Festival terá mais de 500 atividades de música, cinema e vídeo, dança, performance, teatro, literatura, cultura digital, debates e oficinas. Detalhe: todas as atividades serão abertas e gratuitas.

O Festival é independente, colaborativo, sem iniciativa privada e sem leis de incentivo à cultura. A verba para realizar as atividades e garantir sua infra-estrutura básica vem de financiamento coletivo via crowdfunding e outras formas independentes de arrecadação (leilão, rifa, doações, por exemplo).

Como vou participar com dois projetos acho justo colaborar, divulgar e ajudar na arrecadação. Por isso, ajude a realizar o Festival contribuindo com o financiamento coletivo. É só entrar em http://catarse.me/BaixoCentro2013 e fazer sua doação com o mínimo de R$ 10. Lá você também encontra o orçamento completo (e detalhado) e fica sabendo onde será gasto todo o dinheiro arrecadado. Em troca de cada valor doado você recebe uma recompensa e, mais importante do que isso, garante a realização de um Festival colorido para mim, para você e para toda a cidade.

Ficou interessado e quer saber mais sobre o movimento BaixoCentro é só clicar aqui


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sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

A TENDÊNCIA AO FETICHISMO LITERÁRIO


O site Ponto Eletrônico publicou nessa semana um curioso infográfico com dados sobre a literatura brasileira contemporânea tendo como base uma longa pesquisa feita pela professora da UNB e crítica literária, Regina Dalcastagnè. É quase um perfil socioeconômico dos escritores brasileiros e das personagens que habitam os livros que eles escrevem. 

Infográfico que o pessoal do PontoEletrônico.
Olhando assim descompromissadamente (abandonando a seriedade acadêmica da pesquisa) não pude deixar de pensar na quantidade de listas, gráficos e infográficos com temas literários que estão surgindo por aí. A coisa toda vai desde o percentual de tristeza de Emma Bovary, passa pelas palavras mais usadas por Balzac e chega nos romances que terminam com a mesma palavra - como bem apontou Sérgio Rodrigues no Todoprosa (também foi daqui que eu peguei emprestado o termo "fetichismo literário" que dá nome ao meu texto).

Provavelmente devo estar cometendo um erro de parâmetro ao misturar o joio com o trigo. Afinal, grande parte dessas maravilhas visuais são brincadeiras "inúteis" que nos lembram que a literatura não precisa ser levada tão a sério o tempo todo - um pouco de humor é bom para dessacralizar. Não excluo o meu blog disso. No entanto, no caso específico desse infográfico sobre a literatura brasileira, a questão muda de figura porque vem envolvida pelo crivo da academia.

Gráfico que mostra dados sobre o comportamento das personagens em Madame Bovary, de Gustave Flaubert.

Notem, não estou questionando a seriedade ou os dados levantados pela pesquisa, mas vejo problema nas conclusões distorcidas que os leitores podem ter quanto tudo fica fora do contexto. Portanto, quando você for concluir alguma coisa sobre esse infográfico tenha em mente que o corpo de trabalho da pesquisa foi delimitado pelos seguintes fatores: 
"(1) foi escrito originalmente em português, por autor brasileiro nato ou naturalizado;(2) foi publicado pela Companhia das Letras, Record ou Rocco;(3) teve sua primeira edição entre 1990 e 2004;(4) não estava rotulado como romance policial, ficção científica, literatura de auto-ajuda ou infanto-juvenil."*
*Na própria pesquisa a professora explica direitinho porque escolheu trabalhar com esse recorte.

Portanto, não dá para dizer que a literatura brasileira atual tem essa cara do infográfico porque os dados estão dentro de uma delimitação e deixam de fora muita coisa. Sobretudo quando consideramos que a realidade editorial do Brasil mudou bastante de 2004 até hoje. Só para citar alguns fatores: tivemos a FLIP que espalhou e inspirou muitas feiras literárias por todo o país, os programas de incentivo a leitura do governo brasileiro (nas três esferas), a proliferação de escritores com a chegada da internet, a visibilidade da literatura produzida nas periferias das grandes cidades, a movimentação das editoras brasileiras e até a recente ascensão dos nossos escritores no cenário internacional.

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Wordle, espécie de programa que contabiliza as palavras, aplicado a obra do escritor Balzac

Sempre que me deparo com essas listas, gráficos e infográficos me lembro do romance Se um viajante numa noite de inverno..., de Italo Calvino (escrito em 1979). De maneira resumida, o livro conta a história de um leitor que senta confortavelmente numa poltrona para ler mas um erro de encadernação interrompe a história no auge. O leitor volta a livraria, troca o livro e outro erro de encadernação acontece atrapalhando a leitura. Irritado, ele volta a livraria e assim acontecem várias coisas. Numa dessas reviravoltas ele conhece uma leitora chamada Ludmila, por quem se apaixona.

Pois bem, a leitora tem uma irmã chamada Lotaria - uma mocinha versada nos estudos acadêmicos - obcecada por encontrar nos livros nada mais que "ideias para um estudo crítico". O processo dela é simples: Lotaria põe o livro num computador e numa fração de segundos obtém uma lista de palavras de onde pode tirar suas "ideias" (tal qual pode acontecer nas listas, gráficos e infográficos da internet).

De alguma maneira, ela encarna a figura do leitor que não quer ser leitor - não perde tempo lendo e interpretando um livro. Ao reduzir os livros a mera estatística tudo fica empobrecido: livro, leitura, atividade crítica e mesmo criação literária.
"O que é de fato a leitura de um texto senão o registro de certas recorrências temáticas, certas insistências de formas e significados? A leitura eletrônica me fornece uma lista das frequências  o que me basta para ter uma ideia dos problemas que o livro propõe a meu estudo crítico. Naturalmente, as frequências mais altas são as registradas pelas listas de artigos, pronomes, partículas; mas não é nisso que detenho minha atenção. Concentro-me logo nas palavras mais ricas de significado, aquelas que podem dar uma imagem bastante precisa do livro". (Se um viajante numa noite de inverno... p. 191)
Sem parecer moralista, mas propondo uma reflexão: existe alguma maneira de ler um livro sem ler um livro?

*Imagens: reprodução dos sites em que os infográficos aparecem.

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