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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

COMO ESCREVER UMA RESENHA RUIM

Em tempos de malhar a crítica literária, nada melhor do que criar um prêmio para a resenha literária "mais raivosa, engraçada ou mordaz dos últimos tempos" publicada em jornais ou revistas. Assim nasceu o "Hatchet Job of the Year" (ou "Serviço de Machadinha do Ano", como traduziu Sérgio Rodrigues no Todoprosa). O prêmio organizado pelo site inglês Omnivore Criticism Digested está na sua primeira edição e foi entregue em 7 de fevereiro. O ganhador foi Adam Mars-Jones pela resenha de Ao anoitecer, de Michael Cunningham. Segundo os organizadores, o objetivo do prêmio "é levantar o perfil dos críticos profissionais e promover a integridade e inteligência no jornalismo literário".

Este artigo, publicado originalmente no blog da Melville House (9/2/2012), trata dos problemas envolvendo uma resenha crítica.


"Eu tive sorte que todas as críticas ruins que eu tive foram escritas por idiotas." - Geoff Dyer sobre críticas negativas

Por Nathan Ihara
Tradução de Rafael R.


Geoff Dyer, um indicado ao primeiro prêmio "Hatchet Job of the Year" por sua resenha negativa para The Sense of na Ending, de Julian Barnes (Adam Mars-Jones ganhou o prêmio no dia 7 de fevereiro pela resenha de Ao anoitecer, de Michael Cunningham, como consta no site do prêmio), foi entrevistado na semana retrasada pelo jornal inglês The Guardian e disse algumas coisas tipicamente engraçadas e inteligentes sobre a natureza da crítica. Ele adverte contra o fascínio (talvez agravado por este prêmio) por escrever "frases espirituosas e condenáveis", à custa de "precisão de... julgamento".

Ele chama de "ingenuidade" pensar que os críticos não vão escrever sobre seus amigos ou inimigos . E ele traz à tona uma das minhas queixas de estimação pessoais sobre resenhas de livros: "Um dos problemas com resenhar é que os jornais estão obcecados com que suas resenhas apareçam primeiro – estar atualizado ao invés de ter tempo para formar uma visão mais considerável".

Como publicista, acho frustrante que editores de livros não queiram ou não possam atribuir resenhas de livros apenas alguns meses (ou semanas) após a janela de "oportunidade".

Dyer também critica um dos tipos mais comuns de resenhas negativas (uma resenha ruim de uma resenha ruim!):
Eu detesto quando um resenhista resume o enredo e adiciona algumas coisas no final sobre o estilo. Você está enfatizando a qualidade da escrita, mas de alguma maneira você correndo o risco de negligenciar a qualidade do julgamento.
O que me faz pensar num outro dos meus aborrecimentos críticos: que os resenhistas muitas vezes não conseguem apresentar claramente os seus próprios critérios estéticos antes de lançar ataques ou elogios. No exemplo acima, Dyer descreve o crítico comum que assume que algumas frases mal escritas significam um livro ruim. Dyer implica um critério crítico diferente: ele não está muito preocupado com a qualidade de escrita – há problemas maiores a serem considerados. Muitos argumentos aparentes sobre a qualidade de um livro ("Uma idéia brilhante!" versus "Horrivelmente escrito!") não estão realmente em desacordo sobre o livro. Pelo contrário, estas resenhas apenas expressam por baixo, mas frequentemente desarticulados, os conflitos sobre critérios para a “boa” arte.

Não seria mais fácil se os resenhistas fossem mais francos sobre o que eles querem? Por que, eu me pergunto, será que devemos ser forçados a inferir um sistema fundamental de avaliação dos resenhistas? (Respondendo minha própria pergunta: eu suspeito que muitos críticos não analisaram devidamente sua própria doutrina subjacente). Me parece evidente que qualquer crítico profissional deve ter por aí em algum lugar na web uma declaração formal de seus critérios literários. Essa lista não precisa (não deve) ser abrangente, mas pode fornecer uma base para a compreensão de como responder a um dado escrito por um crítico. Sem esses critérios, ler resenhas de livros parece um pouco como ser testemunha de uma condenação sem qualquer pista sobre a natureza da lei.

Algumas das melhores resenhas (a-hã, meus critérios) estão menos interessados em avaliar um livro do que descobrir ou revelar um critério útil. Por exemplo, no “Hatchet Job” de Marte-Jones para Ao anoitecer, de Cunningham, ele começa com a declaração: "Nada faz um romance parece mais vulnerável, mais nu, do que uma blindagem de referências literárias". Agora sabemos que um critério pelo qual Mars-Jones mede ficção. Ele teve a decência de ser dogmático. Bem longe dos padrões, ele está definindo sua regra: a referencialidade, particularmente se procura fazer um texto parecer mais significativo e poderoso, tem o efeito inverso de fazer um livro (ou escritor) parecer inseguro. Sem levar em conta se você concorda ou discorda desta afirmação, agora você pode ler o resto da resenha sabendo o que o resenhista destaca e acredita – o que lhe permite avaliar a forma como ele avalia.

Nathan Ihara é publicista da Melville House. Anteriormente, ela trabalhou como crítica literária do LA Weekly. O artigo foi reproduzido com permissão da editora.

*Imagem: Adam Mars-Jones recebendo o prêmio / reprodução hatchetjoboftheyear.com
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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

QUEM LÊ TANTA REVISTA?

Muito antes da internet existir, escritores e críticos literários usavam jornais e revistas como meio de circulação de novas ideias. As páginas quase artesanalmente impressas esquentavam o debate crítico e faziam circular novas obras de ficção. Tal ambiente pode conviver pacificamente com a internet por um tempo, mas desde os anos 2000 o mundo impresso vem sofrendo golpes que são aparentemente irreversíveis.

Para não soar muito apocalíptico levo em consideração o seguinte fato: com a internet aconteceu uma espécie de retorno a maneira artesanal de fazer jornalismo. As revistas mais bacanas de hoje se alimentam de fontes do passado - estou pensando, por exemplo, na Piauí e no caderno Ilustríssima que fogem um pouco da pauta do momento, propõe novas pautas etc. Aponto algumas razões simples para essa tendência: havia liberdade de espaço (os textos não precisavam ter um tamanho determinado), ninguém ficava refém da pauta do momento, havia tempo para pensar numa agenda, o processo era "artesanal" (sem muitos esquemas, fórmulas ou formatos) e o texto era muito importante.

Para não ficar somente no terreno das ideias, comentários, opiniões e impressões fiz um levantamento de algumas revistas literárias (ou quase literárias) que foram importantes na história da imprensa brasileira. Na verdade, aproveitei o ensejo para incluir algumas revistas "marginais" que ecoam o espírito do "jornalismo" artesanal - queria dizer "diferenciado" só que o termo não pega muito bem.

De verdade, comecei a pensar nesse assunto depois que fiquei sabendo que o Arquivo Público do Estado de São Paulo está com um projeto chamado "Memória da Imprensa". Uma parte do acervo foi digitalizada e está disponível na internet para consulta. O material se concentra em publicações de São Paulo, tem jornais e revistas do século 19 e 20 divididos por temas como política e cultura. Vale a pena perder um pouco de tempo vasculhando o acervo e encontrar algumas raridades como contos de Eça de Queiroz, homenagem ao escritor Raul Pompéia, críticas ao livro Dom Casmurro. É uma verdadeira volta ao passado.

Não está no Arquivo do Estado (mas está no setor de raridades da Biblioteca Mário de Andrade e na Brasiliana USP) as duas revistas mais badaladas da Semana de 22: a Revista de Antropofagia que circulou no ano de 1929 tendo Oswald de Andrade, Mário de Andrade junto com a nata do Modernismo brasileiro; e a Revista Klaxon que circulou entre 1922 e 1923 contando com a colaboração de grande parte do mesmo pessoal da Antropofagia.

Nos anos 30, no Rio de Janeiro, a efervescência literária acontecia por meio de duas revistas: Dom Casmurro (circulou entre 1937 e 1944) que teve entre seus colaboradores Joel Silveira e muitos escritores da segunda fase do Modernismo - Jorge Amado foi chefe de redação da revista; e a concorrente Revista Acadêmica, de Carlos Lacerda e Murilo Miranda.

De volta a São Paulo, entre os anos 1941 e 1944, a crítica paulistana foi privilegiada pela Revista Clima. Tinha um ar acadêmico pois foi fundada por ilustres estudantes da USP como Paulo Emílio Salles Gomes, Décio de Almeida Prado, Antonio Cândido, Rui Coelho, Gilda de Mello e Souza e Lourival Gomes Machado.

Saltando um pouco as décadas, vale lembrar do mítico semanário Pasquim - que teve uma antologia em três volumes editada recentemente pela Desiderata. Ali surgiu os textos soltos, as entrevistas sem corte, o bom humor, as ilustrações chapadas, os assuntos tabu para uma época em que ninguém devia falar a respeito e tantas outras coisas. Foi também nesse semanário que a intelectualidade brasileira apareceu fazendo resistência ao regime militar e a censura. Também descobri recentemente o Jornal EX graças uma edição fac similar da Imprensa Oficial. O jornal era mensal, foi publicado entre 1973 e 1975, e tinha um tom altamente provocador e inventivo. Outra revista dessa mesma época, recuperada pela Elvira Vigna, foi a Revista Pomba. Acho que não foi tão conhecida como as outras, mas tinha uma linha de pensamento bem parecida.

Para finalizar, uma revista bacana de Porto Alegre chamada Revista 80, inspirada na Granta, editada pelo pessoal da LPM. A história da está no blog da editora contada por Ivan Pinheiro Machado.

Devo ter lembrado de um período áureo da imprensa brasileira que não deve voltar. Pode parecer um pouco de saudosismo, mas não é. Olhando para essa tradição a gente pode recolher informações e boas ideias que apontem alternativas para a crítica, para a imprensa, para os blogs e para todo mundo que deseja sobreviver a era da internet (da diluição da informação e todas essas coisas que a gente está careca de ouvir). Também acho importante conhecer esse passado para não sair por aí achando que está fazendo alguma coisa nova sem saber que muita coisa realmente já aconteceu.

Com certeza, muitas revistas ficaram de fora. Se alguém sentir falta ou lembrar de alguma coisa, pode me avisar que faça as atualizações.

*Imagem: reprodução.
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segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

UMA CRÍTICA EQUILIBRADA (2)

Na semana passada o caderno Babelia convidou alguns renomados críticos de diversos países para pensar sobre a possibilidade de construir uma crítica literária equilibrada em tempos de internet. Por mais complexa que seja a questão, o caderno acabou propondo uma saída com dez itens que devem ajudar a crítica literária a sobreviver tanto na mídia impressa, quanto digital.

Tom semelhante deve pautar o II Seminário Internacional de Crítica Literária que acontece essa semana no Itaú Cultural. Os convidados são de altíssimo nível e os temas das mesas prometem boas discussões. Tomara que saíam dali boas ideias e propostas.

Esquentando e antecipando um pouco o debate, a coluna Painel das Letras, da Ilustrada, conversou com umas das convidadas do seminário, Marjorie Perloff - crítica literária, ensaísta e professora. Em breves linhas ela recomendou: "use menos jargão, evite disputas acadêmicas que não interessam ao leitor, invista em revisões de texto, para escapar do "vale tudo" da blogosfera". Pode parecer uma conclusão óbvia, mas não é.

A coluna ainda conversou rapidamente com outros dois convidados. Vale a pena dar uma olhada rápida - disponível aqui.

*Imagem: reprodução.
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segunda-feira, 28 de novembro de 2011

UMA CRÍTICA EQUILIBRADA

Defender a crítica acadêmica é algo fora de moda. O negócio é malhá-la até onde a gente consegue. Indo na contra-mão desse corolário contemporâneo, o caderno Babelia, do jornal espanhol El País, trouxe uma reportagem especial interessantíssima chamada "Radiografía de la crítica literaria". Vinte críticos literários (misturando gente da Europa e dos Estados Unidos) foram convidados a fazer uma avaliação da crítica na era da internet e apontar sugestões para que tanto a crítica, quanto a obra e seus autores continuem tendo importância.

A discussão é extensa, complexa e está bem longe do seu fim, de modo que não consigo resumí-la aqui em alguns parágrafos. Os convidados traram de temas centrais como a função da crítica, seu estado atual, sua perda de influência e poder, suas virtudes, defeitos e desafios. Recomendo aos que se interessam pelo assunto que acessem a reportagem para tomar contato com essas ideias - disponível em

A tentativa do jornal tem o seu mérito por ser equilibrada, deixando de lado as visões apocalípticas ou integradas sobre a internet e o futuro da crítica. Sobretudo quando ao fim, a reportagem propõe dez regras para uma crítica literária equilibrada:
1. Situar o autor, dizer quem é ele e o que o livro representa na sobre sua obra.
2. Localizar o livro e julgá-lo pela perspectiva de uma longa tradição literária.
3. Fundamentar com argumentos e exemplos para que o leitor compreenda e avalie.
4. Informar, educar e entreter.
5. Pouca sinopse e enredo.
6. Informar sobre o estilo, o significado e simbolismo do livro.
7. Dizer o que pensa o autor sobre o tema do livro.
8. Dizer o que o crítico pensa sobre o que o autor do livro disse sobre o assunto do livro.
9. Nem bater nem babar, uma opinião ponderada e uma fundamentação comprovada são mais convincentes que uma explosão.
10. Proibir adjetivos publicitários, quem deve concluí-los é o leitor.
Estamos tão imersos na confusão desse momento que fica difícil fazer uma avaliação autocrítica. Eliminar a lógica desse sistema exige muito esforço e renúncia por parte de muita gente, mas quem está realmente disposto a pagar o preço?

***

Também sobrou para a internet na coluna de Daniel Piza para o Caderno 2. Pode parecer ranzinza, mas ele tem um pouco de razão:
Quando houve o surgimento da moda dos blogs, muitos articulistas, principalmente os mais jovens, saudaram a chegada de uma linguagem e tecnologia que iria combater a mídia "mainstream", com estilo mais autoral, atitude mais independente, interação mais democrática. Rodo por alguns blogs, sobretudo de moda, e vejo exatamente o contrário: escrita primária, comprometimento publicitário, busca da audiência pela audiência. Já os twitters, já chamados imprecisamente de microblogs, parecem confirmar cada vez mais a impressão de José Saramago: são grunhidos virtuais. Alguns de música postam um vídeo e só acrescentam a expressão "uau" ou "uhu" ou "ooôôoo". Isso que é argumento.
*Imagem: reprodução do caderno Babelia.
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sexta-feira, 25 de novembro de 2011

PAULO COELHO, BERNARDO CARVALHO E A LITERATURA (E CRÍTICA) NA INTERNET

Caramba! Vi uma notícia dizendo que em entrevista ao programa da apresentadora Ana Maria Braga, o escritor Paulo Coelho disse a seguinte frase: "As redes sociais são uma forma de literatura". Imediatamente me lembrei de um artigo escrito por Bernardo Carvalho para a revista Piauí - Em defesa da obra cujo resumo pode ser apresentado da seguinte forma: "As corporações da mídia querem que os escritores trabalhem de graça, não façam arte e exponham a vida privada na internet – e contam com o apoio de Paulo Coelho".

Fiquei sabendo do artigo através de Sérgio Rodrigues, do Todoprosa, num post em que conversa com Michel Laub e indiretamente com Bernardo Carvalho sobre a crítica em tempos de internet.

Recomendo vivamente a leitura desses textos. Por aqui, estou ruminando ideias e nem me atrevo a emitir nenhuma opinião depois de ler esse trecho:
"É assim que o chamado “valor social” (a capacidade que os indivíduos têm de influenciar uns aos outros através de suas opiniões em blogs, Twitters e páginas pessoais em sites de relacionamento) começa a despertar interesse no mercado virtual."
*Imagem: reprodução daqui.
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terça-feira, 18 de outubro de 2011

A LITERATURA BRASILEIRA NO MUNDO, JOÃO PAULO CUENCA E UMA PERGUNTA



De fato há um crescente interesse de outros países pela literatura contemporânea feita no Brasil. Lembrei da história surreal contada por Benjamin Moser na Ilustríssima sobre uma viagem a Tbilisi, capital da Geórgia, carregando livros brasileiros para estudantes de português naquele país - veja só uma coisa dessas. Depois teve a Feira de Frankfurt e toda aquela atenção voltada aos programas de incentivo para divulgação da nossa literatura no mundo. Nesse meio tempo também teve a FILBA em Buenos Aires com uma parte da programação dedicada aos brasileiros. E agora me deparo com esse vídeo em que o escritor João Paulo Cuenca fala para espanhóis sobre a nossa literatura!

Cuenca comenta a boa fase de jovens escritores no Brasil, a má vontade da academia para o contemporâneo, a falta de um jovem crítico interessante e a mania dos estrangeiros de buscar em nossa literatura apenas aspectos folclóricos. Concordo com tudo o que ele disse e fiquei com uma questão na cabeça: a crítica.

Crise ou apatia da crítica (mesmo da jovem crítica) me parece algo universal. Todo mundo está tentando encontrar uma maneira de tornar a crítica relevante para o grande público. Mas confesso que vendo o vídeo pensei nessa longa discussão que muita gente acha chata. Fiquei pensando onde será que está a nossa Zadie Smith, o nosso Geoff Dyer, a nossa Michiko Kakutani, o nosso James Woods etc? Será que essa figura ainda está em formação? Será que a internet é um meio fértil para esse trabalho? Vai ver ele/ela está bem embaixo do nosso nariz e a gente nem sabe.

P.S.: Alguém sabe se na França, na Espanha, na Alemanha ou na Geórgia alguém se preocupa com esse tipo de coisa? Devo estar redondamente enganado, mas não senti esse clima na Argentina.

(Voltando ao JP Cuenca: ele foi convidado para participar do Festival Vivamérica, na Espanha. A mesa tinha o curioso tema de "Rapsodas, escribidores y ventrílocuos". A ideia era discutir novas formas de literatura que existem entre o legado da tradição e as tecnologias do futuro. Quem quiser pode assistir a palestra na íntegra aqui. Cuenca fala de Changeman, Jaspion, Ultraman, bonecos em geral, bonecas japonesas e muitas outras coisas mais. É bem divertido e dura apenas 20 minutos).
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segunda-feira, 12 de setembro de 2011

O MUNDO IDEAL DA LITERATURA

Já devo ter falado mais de uma vez que gosto muito do blog do Michel Laub. Também gosto dos livros dele, mas confesso que não li todos. Fiquei apenas com dois: O gato diz adeus e Diário da queda. Ambos são muito bem escritos - com isso quero dizer que ele tem bastante controle do enredo; sabe o que vai dizer, como dizer e o efeito que pretende causar (pelo menos essa foi a minha impressão de leitura). Pelas coisas que acompanho, ele parece refletir muito sobre escritor um romance no mundo de hoje (pós-tudo!) e ser brasileiro (nossa literatura é periférica).

Mas gosto também do blog. Lá tem a parte crítica, as reflexões do Michel Laub sobre a literatura. Os posts são curtos, variados e dizem exatamente aquilo que precisam dizer - sem introdução, nariz de cera ou firula. Muitos "conselhos" de lá servem como um ponto de orientação para mim - e estou falando muito sério.

Para entender o que estou dizendo, recomendo a leitura da série "Mundo ideal". Trata-se de uma sequência de posts em que outros escritores listam propostas literárias para o mundo de agora - ou para um mundo ideal de agora que pode ser que nunca se realize. Tem propostas para o romance por Ana Paula Maia, propostas para o conto por Santiago Nazarian, propostas para a crítica por Antônio Xerxenesky e até proposições do próprio Laub para a crítica literária e o ano novo.

Aproveita o embalo e olhada nos posts dele para o blog da Cia das Letras. Depois você me diz...

*Imagem: Mapa da fictícia ilha de Utopia, livro homônimo de Thomas Morus (ou Thomas More), de 1516 / reprodução Google.
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sábado, 11 de junho de 2011

CRÍTICA E LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA

Não sei se as pessoas ainda estão interessadas em ler sobre aquela polêmica em torno da crítica e da literatura brasileira contemporânea. No entanto, aproveito o texto de Wilson Alves-Bezerra no Prosa & Verso - Ainda sobre a literatura brasileira contemporânea - para postar dois vídeos do 3° Congresso Internacional de Jornalismo Cultural que aconteceu no mês passado. Os debates são interessantes por misturar quem faz e quem crítica literatura.

O primeiro debate pergunta "Qual o papel da crítica literária hoje: seus equívocos e seus acertos" com discussão de Rubens Figueiredo, Alcir Pécora e Daniel Piza. O segundo tem como tema a pergunta "O que quer e o que pode a literatura brasileira hoje? Ela tem autonomia estética e influência social?" com Fabio de Souza Andrade, Noemi Jaffe, Rodrigo Lacerda e mediação de Raquel Cozer.





*Vídeos: reprodução youtube.
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quarta-feira, 18 de maio de 2011

LITERATURA CABEÇA


Enquanto estamos aqui sentados discutindo o fim da crítica e o aumento no número de leitores no Brasil a revolução está acontecendo lá fora. Começou hoje no Rio de Janeiro o projeto "Oi Cabeça", com curadoria de Heloisa Buarque de Holanda e Cristiane Costa. A ideia é discutir justamente o futuro da literatura e da crítica com gente que está botando a mão na massa.

Até o fim do ano, o projeto pretende reunir uma vez por mês especialistas do Brasil e do mundo para conversar sobre temas que deixam qualquer crítico do sáculo passado de cabelo em pé.

O primeiro encontro rolou ontem com o tema "O fim da crítica e o auge dos fãs", com Nancy Baym, Mauricio Mota e Pedro Carvalho. Nancy, por exemplo, é uma norte-americana especialista no fenômeno chamado fandom - quando um grupo de pessoas (fãs) se reúne em torno de um determinado assunto. O assunto rende discussão, pois admite que a crítica não importa mais e o fã é o agente que consegue fazer verdadeira mobilizações em torno do seu objeto de desejo. Assim qual necessidade tem um crítico mediador?

Os próximos encontros têm os temas: "Novos espaços para a literatura", "Realidade aumentada", "Rumos da cibercultura", "Literatura expandida", "Os novos gêneros e-literários" e "Personagens, estratégias narrativas e engajamento nos games". Em dezembro acontece um labfest - espaço para troca e criação de novas ideias.

Vale lembrar que a Heloisa Buarque de Holanda não embarcou nessas ideias por esses dias. O envolvimento dela com as novas mídias vêm de longa data. É importante garantir o aparecimento de um evento como esse independente dos frutos que ele pode gerar.

*imagem: foto de Nancy Baym/reprodução.

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quarta-feira, 11 de maio de 2011

A LITERATURA VAI AO CONGRESSO


O debate sobre crítica literária e literatura brasileira devem continuar no 3º Congresso Internacional de Jornalismo Cultural que acontece na semana que vem em São Paulo. Haverá duas mesas sobre o assunto: a primeira tem como tema a pergunta “Qual o papel da crítica literária hoje? Seus equívocos e seus acertos”, com Ignácio de Loyola Brandão, Alcir Pécora, Daniel Piza e mediação de Cassiano Elek Machado; a segunda tem como tema a pergunta “O que quer e o que pode a literatura brasileira hoje. Ela tem autonomia estética e influência social?” com Fabio de Souza Andrade, Noemi Jaffe, Rodrigo Lacerda e mediação de Raquel Cozer.

Promete ser o ponto alto do congresso para os minimamente interessados nesses dois assuntos. Certamente as questões levantadas na série Desentendimento vão ganhar corpo novamente - comentei em duas partes: I e II.

Fora isso, o congresso conta com a presença do escritor espanhol Enrique Vila-Matas (mediação de Paulo Roberto Pires) e do escritor cubano Pedro Juan Gutiérrez (mediação de Xico Sá).

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**ATUALIZAÇÃO: O Congresso tem um hotsite que fará toda a cobertuda do que está acontecendo no SESC. Inclusive tem transmissão ao vivo de algumas palestras, entrevistas gravadas e programas ao vivo. O link é esse aqui http://tinyurl.com/5vtmqz3

*imagem: reprodução.
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quinta-feira, 5 de maio de 2011

ENTÃO, VOCÊ QUER SER CRÍTICO LITERÁRIO? (2)


Ontem falei sobre a inflação simbólica das narrativas e uma literatura maior ou menor no Brasil. Hoje termino de comentar outras ideias que apareceram no debate da série Desentendimento e no artigo do caderno Prosa e Verso.

***

Tradição / Inovação

Pécora tem razão quando diz que a literatura "não tem como se fingir de recém-nascida, livre para não ter memória e amar integralmente a si própria como invenção de grau zero". A questão aqui pode ser explicada pela falta/excesso de repertório cultural do escritor quando produz algo ou pela falta de manejo do crítico quando ignora o diálogo daquela obra com o seu tempo e com a tradição que a precede.

O apagamento do passado e o esquecimento da história são os males do nosso tempo moderno/pós-moderno que contaminam todas as áreas do conhecimento humano. Não são um privilégio da literatura, certamente. Pior para ela cuja origem está na antiguidade clássica - ou antes mesmo, se pensarmos nas narrativas orais.

Acontece que desde o começo do século XX "fazer o novo" é a palavra de ordem. Todo escritor pensa em algum dia superar o que ficou para trás na literatura. Mas o peso da tradição e as inovações trazidas pelo século XX (que já se tornaram tradição faz tempo) não deixaram muito espaço para novas invenções.

A inovação, no sentido de superação, vive uma espécie de colapso e percebemos que as coisas na história não seguem sempre em linha reta, progressivamente rumo ao futuro glorioso.

Não há saída para romper com a representação subjetiva ou objetiva da realidade. Para que isso aconteça precisamos de uma transformação na nossa humanidade, nas nossas percepções do mundo. Independente de inovações linguísticas e modificações nas categorias narrativas, contar histórias é algo intrínseco ao ser humano: não acaba e não cansa.

Reforço essa ideia com uma citação do Tao Lin, um escritor americano. Elas estão num ensaio para o The New York Observer chamado Does the Novel Have a Future?. Partindo de perguntas como "que tipos de romances existem hoje?" ou "qual o futuro do romance?", ele constrói argumentos para demonstrar como esse tipo de discussão no desvia daquilo que é mais importante: escrever. Vou colocar abaixo um trecho que traduzi livremente, meio ao pé da letra:

"Um certo discurso literário, sobre o que os outros devem ou não fazer com sua arte, provavelmente vai sempre existir como uma distração do ato de escrever romances.

(...)

Romances - e memórias - são talvez os relatos mais abrangentes que os seres humanos podem transmitir, de suas experiências particulares, para outros seres humanos. Nestes termos, há apenas um tipo de romance: a tentativa humana de transferir ou transmitir alguma parte ou a versão do seu mundo de númeno para outro do mundo do númeno.

(...)

Portanto, eu atualmente me sinto mais interessado na leitura/criação de romances que não são melhorias ou inovações de outros romances. Eu quero ver cada romance potencial como definitivamente e inevitavelmente único, aperfeiçoável apenas em relação a si mesmo e só a partir da perspectiva singular do seu criador. Eu quero aprender sobre a experiência única de um outro ser humano a partir de relatos que ele mesmo fizer enquanto animadamente ciente de que só ele, independentemente do que os outros estão pensando ou fazendo, tenha acesso sobre o que ele esta relatando".
Pode ser que em algum lugar, nesse exato momento, exista alguém "fazendo o novo". Porém, contar história interessantes é tão importante quanto. Isso retira das nossas costas a responsabilidade de fazer obrigatoriamente algo novo. A imposição que parece que não deixa com que a gente avance.

Cabe ao escritor a tentativa de dialogar com o que existiu, recombinando e recomeçando tudo outra vez.

***

Da crítica

A briga dos escritores com a crítica, dos leitores com a crítica e dos críticos com a crítica, está enraizada no esvaziamento do seu discurso que oscila ora entre o jargão acadêmico e ora entre repetição de esquemas interpretativos e releases jornalísticos.

Alguns torcem pelo fim da crítica e alguns já deram ela como morta. Mas quando uma coisa desaparece é que ela ganha mais importância. Eis uma ideia que aparece nos diários do escritor Ricardo Piglia, que encontrei no blog Todoprosa, do Sérgio Rodrigues:

“A crítica literária é a mais afetada pela situação atual da literatura. Desapareceu do mapa. Em seus melhores momentos – com Iuri Tinianov, Franco Fortini ou Edmund Wilson – foi uma referência na discussão pública sobre a construção do sentido em uma comunidade. Não resta nada dessa tradição. Os melhores – e mais influentes – leitores atuais são historiadores, como Carlo Ginzburg, Robert Darnton, François Hartog ou Roger Chartier. A leitura dos textos passou a ser assunto do passado ou do estudo do passado.”
Antes de sumir, a crítica precisa se reinventar - tanto quanto os escritores. O próprio Pécora falou sobre isso numa entrevista para a revista "Floema", da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (encontrei via Prosa e Verso e recomendo a leitura). Lá ele diz que a crítica precisa ser exercida em várias frentes, precisa trabalhar para fazer surgir "um conjunto de metáforas e formas novas de lidar com eles" e o mais interessante:

"(...) também acho que a crítica de cultura deve ocupar prioritariamente o campo da língua portuguesa e não o do jargão de área acadêmica. Para que o espaço de linguagem crítica no jornal seja mais do que uma glosa descorada do que já existe (descoradamente) no espaço acadêmico, para que esse espaço possa funcionar não só como orientação do consumo e do gosto, mas também como lugar de reflexão atenta à especificidade dos novos objetos do presente, são necessários estudo e erudição".
Não deixa de ser uma saída interessante, mas que exige tempo e esforço.

Também acho que as inúmeras discussões a respeito de mercado editorial, dos livros e leitores eletrônicos, do fim da literatura, do fim do romance também nos desviam do que está acontecendo na literatura agora. Seria interessante ouvir o que um escritor tem a dizer sobre o seu processo de trabalho, suas intenções, sua pesquisa e todo o resto.

Outra coisa que falta à crítica é acabar com essa indisposição para enfrentar e vasculhar o que está sendo produzido. O Michel Laub, novamente, tem um texto bem interessante sobre isso para o blog da Companhia das Letras - Os clichês do escritor e os clichês da crítica:

"O uso do clichê e do jargão é apenas um exemplo da subjetividade intrínseca a qualquer julgamento literário. (...) ok, mas o resultado de tais premissas e escolhas é bom ou ruim, funciona ou não dentro do que se propõe — nas regras que o autor determina, e não o crítico —, e por quê?

(...)

Existem os best-sellers de público, com fórmula reconhecível por qualquer leitor com experiência, e os best-sellers de crítica, que se escondem — às vezes por décadas e séculos — entre a chamada “literatura de qualidade”. Por razões que valeriam um texto à parte, no entanto, é sempre possível encontrar em algum ponto deles a prova de que o escritor capitulou — em termos ideológicos, morais e técnicos, por falta de talento, esforço ou coragem — ao o pior dos clichês, que é o do imaginário comum de uma época. Ou seja, aquilo que os outros, incluindo a crítica, esperam que digamos. Quando tudo o que deveríamos perseguir é aquilo que, usando meios que podem parecer os menos literários possíveis, queremos e precisamos dizer."
Alguém, não me lembro quem, num desses congressos culturais, disse que a internet (blogs e redes sociais) é livre para criar críticas pois tem espaço (coisa que está sumindo dos jornais e revistas) e não está ligadas a nenhuma instituição. No entanto a internet sofre de um mal inerente a ela mesma: falar indefinidamente sobre um determinado assunto sem acrescentar nada de relevante - a tal inflação simbólica das narrativas. Como muitos debates críticos estão migrando para a internet, seria natural que essas questões não sejam deixadas de lado. Só que esse ainda é um terreno meio movediço.

Irrelevância das narrativas

A preferência da leitura crítica à produção de ficção (de literatura) me faz lembrar a briga de Lee Spiegel no The New Yorker Observer. Entre tantas coisas, o crítico cultural americano também disse que prefere ler não ficção a ficção, e diz ainda que a não ficção está ocupando o lugar da ficção - um gênero irrelevante, peça de museu para os dias de hoje. Será mesmo?

Não quero arriscar dizendo autores representativos de alguma coisa. Mas no final do ano passado, o Caderno 2, do Estadão, fez uma reportagem bem interessante sobre o romance dessa primeira década do século XXI.

E para quem quer entender mais sobre o que aconteceu e está acontecendo na literatura brasileira, recomendo um texto do Sérgio Rodrigues, do Todoprosa - Notícia da atual literatura brasileira: instinto de internacionalidade. Ele resume o embate dos nossos escritores em encontrar uma saída para impasse da irrelevância da narrativa nacional.

Existe espaço para o que é bem realizado, só precisa haver tempo para acontecer e boa vontade para avaliar.

*imagem: reprodução.
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terça-feira, 3 de maio de 2011

ENTÃO, VOCÊ QUER SER CRÍTICO LITERÁRIO? (1)


Os argumentos de Alcir Pécora em relação a crise da literatura contemporânea brasileira (e em certa medida mundial, por que não?) causaram um pequeno beco sem saída. Quem não responde aos argumentos do crítico parece que atesta o fato de que vivemos um momento de conformação total. Por outro lado, quem responde acaba contribuindo para a tal inflação da "bolha de produção simbólica de hoje". O impasse vale mais para a internet - blogs e redes sociais - pois me parece que foi aqui que o falatório ganhou mais corpo. Nos jornais e revistas, apenas o Prosa & Verso e a coluna Painel das Letras, da Ilustrada, tocaram no assunto.

Seja como for, o debate da série Desentendimento e o artigo no Prosa & Verso serviram para reafirmar, reforçar e trazer à baila algumas ideias que incomodam muita gente e circulam soltas no meio acadêmico, nas críticas de jornal/revista e nas mesas dos botequins. Qualquer pessoa que lida com literatura vive as voltas com essas ideias - ou pelo menos deveriam viver. Não gostaria que o debate esfriasse porque dele podem brotar novas ideias e bons argumentos.

Na falta de conseguir articular um texto longo, montei uma colcha de retalhos de reflexões alheias que servem como diálogo para a situação apontada por Pécora. Não quero definir ou encerrar o assunto, acho difícil alguém fazer isso. Os textos nem sempre são reações diretas a série Desentendimento ou ao artigo. Fui catando por aí o que me parecia significativo, mais interessante. Será que também vou contribuir para a "inflação simbólica das narrativas"?

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Sobre a inflação simbólica das narrativas

A tal "inflação simbólica das narrativas" é uma manifestação da era da internet. A invenção dos blogs e redes sociais foi aos poucos detonando a importância vertical da figura do crítico e causou uma horizontalização nos discursos, conversas, comentários, opiniões, etc. (peguei a ideia emprestada do Alexandre Matias, editor do caderno Link do Estadão).

As ferramentas de comunicação abriram portas para que todas as pessoas pudessem manifestar a sua voz - independente de terem algo importante a dizer. Consequentemente ficamos fissurados em buscar, compartilhar e opinar sobre tudo o que nos cerca. É por isso que postamos em blogs e redes sociais as nossas conversas privadas e as nossas ações, antes mesmo delas acontecerem de fato.

Não podemos impedir. É um processo sem volta que está causando uma série de transformações na leitura/produção de literatura. Somente com o tempo vamos saber analisar se essas mudanças são boas ou ruins e para onde elas estão nos levando. Nesse momento, precisamos aprender a conviver com elas. Tem gente acompanhando de perto e discutindo tudo isso em congressos, encontros, simpósios, palestras, livros e também na internet.

Até aproveito para comentar a falta de debates destinados ao assunto "literatura e internet" nesses congressos de cultura digital. Se não me engano, só na última edição da Campus Party aconteceu uma mesa, meio tímida, dedicada ao tema.

Acho interessante um post do escritor Michel Laub que aborda, ainda que de forma breve, a interação entre a literatura e a internet - Três (possíveis) motivos para a internet mudar a literatura. Pode ser que algumas direções estejam apontadas ali.

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Maior / Menor

A bronca do Álcir Pécora também tem razão de ser. Todo mundo (leitores, escritores, editores, críticos e livreiros) está esperando por um escritor que seja o novo Guimarães Rosa ou a nova Clarice Lispector. Alguém que ponha a literatura em risco e mostre o inesperado. É saudável para a nossa literatura que esse nível de exigência exista e tenha o seu lugar garantido. É isso que permite elevar a qualidade da nossa produção literária. No entanto, não podemos desprezar o lugar da experimentação, nem negar a possibilidade de erro de um escritor em formação, nem impedir que os defeitos da nossa literatura apareçam.

Reconhecemos o lugar periférico da literatura brasileira no mundo. Portanto, exigir dos nossos escritores que sejam excelentes e que apresentem soluções originais o tempo todo, acaba gerando uma espécie de esterilização da criação - ao menos essa é a impressão que isso me causa. Parece que a crítica quer matar aquilo que precisa existir a fim de proporcionar o aparecimento do novo Guimarães Rosa ou da nova Clarice Lispector. O que leva tempo.

No entanto, o fato de garantir a existência de uma literatura "menor" (mediana ou ruim) não quer dizer que o novo, o instigante e o arriscado vá surgir dali. Dizendo de outra maneira, a existência de literaturas "menores" garante saúde ao mercado editorial e pode servir de trampolim para o aparecimento de algo "maior".

A ideia não é minha, achei num texto bem interessante do escritor Antonio Xerxenesky - Pelo luxo de uma literatura do tipo “menor”. Além de muito argumentos certeiros, há um comentário de Roberto Bolaño que ilumina a nossa falta de espaço para a literatura "mediana":

“Escritores que cultivaram o gênero fantástico, no sentido mais restrito do termo, temos muito pouco, para não dizer nenhum, entre outras coisas porque o subdesenvolvimento não permite a literatura de gênero. O subdesenvolvimento só permite a obra maior. A obra menor é, na paisagem monótona ou apocalíptica, um luxo inalcançável. Claro, isso não significa que nossa literatura esteja repleta de obras maiores, muito pelo contrário, mas sim que o impulso inicial só permite essas expectativas, que logo a mesma realidade que as propiciou se encarrega de frustrar de diferentes modos.”
Embora a fala de Bolaño seja dirigida a literatura de gênero, ela pode também ser estendida para a literatura (me refiro, especificamente, a prosa de ficção) como um todo.

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O assunto é longo e enfadonho. Vou encerrar por aqui, mas continuo amanhã. Pretendo falar sobre cegueira voluntária em relação ao passado, crítica e irrelevância da ficção.

*imagem: reprodução.
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domingo, 13 de março de 2011

JAMES WOOD: O CRÍTICO LITERÁRIO

Como funciona a ficção, de James Wood chega ao Brasil cercado de comentários interessantes. Não estou me referindo a polêmica envolvendo a tradução do livro - quem quiser saber mais sobre esse assunto pode ler a explicação da tradutora Denise Bottmann e a resposta da editora Cosac Naify que foram publicadas no caderno Prosa & Verso.

Achei interessante acompanhar o comentário de Sérgio Rodrigues, no blog Todoprosa, e da crítica de literatura Flora Süssekind, no mesmo Prosa & Verso. Os dois falam de perspectivas diferentes sobre o mesmo livro, mas acho interessante a oposição porque de alguma maneira acaba refletindo um conflito que existe: para falar sobre como funciona a literatura temos de seguir uma abordagem acadêmica ou podemos usar uma abordagem menos "pretensiosa".

Também sugiro duas entrevistas que ele concedeu: uma para Daniel Piza, no caderno Sabático, e outra para o Prosa & Verso. Acho interessante ler esse material porque vem acompanhado de pequenos textos introdutórios que refletem mais pontos de vista sobre o livro. Acredito que mais textos devem vir por aí.

Apenas para situar: James Wood é crítico da revista New Yorker e no livro ele aborda algumas categorias literárias (personagem, linguagem, narrador etc.) sem usar jargões acadêmicos. Pelo que eu li, tudo acontece meio em tom de conversa e sem aquele peso da responsabilidade crítica. É essa abordagem de James Wood que está no centro da questão.

Quando foi lançado nos Estados Unidos em 2008, o livro também rendeu diversas discussões. Figurou inclusive entre a lista dos mais vendidos.

Ainda não li o livro de Wood e acho bacana que ele chegue causando esses comentários. Isso estimula a gente a ler o livro para tirar nossas conclusões, ouvir os posicionamentos e encontrar um caminho para a tal "críse da crítica", quem sabe algum dia.

*imagem: divulgação.

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segunda-feira, 11 de outubro de 2010

COMO NASCE UM CRÍTICO LITERÁRIO?


Todo mundo sabe que a figura do crítico em seus mais diversos campos de atuação passa por um momento delicado. A crítica perdeu seu apelo popular e está cada dia mais restrita ao universo da academia. Por sua vez, a academia também perdeu o prumo e não consegue mais amadurecer o pensamento no sujeito que tem pressa para todas as coisas. Contudo, a formação de um crítico pode levar anos. Não há como mudar isso, nem mesmo na era da internet que impõe velocidade e concisão ao comentário.

Mas a pergunta sobre a formação de um crítico literário é bastante pertinente. Uma enorme quantidade de livros são publicados todas as semanas, freneticamente. Em tempos nebulosos e incertos como os que vivemos, as pessoas não devem abrir mão do pensamento crítico. Por isso, o crítico ainda é fundamental. Talvez ele precise se reinventar - assunto para um outro post.

Na verdade, a pergunta me motiva a falar de livros que nossos futuros críticos de prosa de ficção precisam ler. Em primeiro lugar, qualquer pessoa que deseja trilhar esse caminho precisa ler muito - todos os romances, novelas e contos possíveis e imagináveis. Ler é a parte fundamental do ofício. Muita gente, na ânsia de compreender o funcionamento dos romances, pula uma etapa e lê antes a teoria. O percurso está errado. Como disse Antônio Arnoni Prado num ensaio para o Sabático sobre Lima Barreto: "hoje, o bom estudante de Letras é aquele que "sabe" teoria, não o que "lê" literatura e amadurece nas obras a consciência crítica de seu próprio repertório". Pense bem nisso. Não sabe por onde começar suas leituras? Então comece pelos clássicos e leia autores do mundo todo.

Quando você achar que já leu bastante, vá para a teoria. Novamente, comece com um clássico: Poética, de Aristóteles. Nele encontramos as bases para entender a literatura na sua concepção mais filosófica. Depois disso, você vai precisar de um manual de teoria da literatura, recomendo os seguintes: Teoria da Literatura, de Vitor Manuel de Aguiar e Silva; e Teoria da literatura e metodologia dos estudos literários, de René Wellek e Austin Warren. O primeiro vai ajudar a compreender a história e os conceitos fundamentais da literatura; o segundo, analisa não só os elementos estruturais da literatura, mas também questões da teoria da literatura como ciência. Os dois livros são áridos, podem servir como material de consulta.

Para não ficar apenas nos estrangeiros, um pouco de literatura brasileira. Nesse aspecto Antônio Candido e Alfredo Bosi são dois grandes mestres. De Antonio Candido, leia tudo o que você puder. Se não tiver tempo, duas obras essenciais são Formação da literatura brasileira e Literatura e sociedade. Para um panorama histórico bem amplo, vale conferir História concisa da Literatura Brasileira, de Alfredo Bosi.

Voltando aos estrangeiros, considero Teoria da literatura - Formalistas russos uma outra leitura fundamental. O livro está fora de catálogo e não existem reedições desde 1973. Provavelmente alguns sebos podem encontrar essa obra rara. Apesar de parecer datado, a crítica formalista fornece bom corpo de análise. Um pouco mais complexo, mas igualmente útil é Análise estrutural da narrativa, de Roland Barthes. Para bagunçar um pouco todos os conceitos que você aprendeu até aqui, vale a leitura de Terry Eagleton, Teoria da literatura: uma introdução.

No campo específico da prosa, meus dois preferidos - nem áridos e nem difíceis demais de entender - são Aspectos do romance, de E.M. Forster e A ascensão do romance, de Ian Watt.

Garanto que mesmo depois de você ler tudo isso, ainda estará no meio do caminho. Mas não se assuste. Acredite em você e siga em frente. Não se esqueça de viver um pouco e não tenha pressa. Só a experiência de vida e o tempo são capazes de amadurecer a nossa cabeça.

*imagem: retirei daqui.
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segunda-feira, 14 de junho de 2010

A FALTA DE COBERTURA DA IMPRENSA QUANDO OS LIVROS SÃO A NOTÍCIA


Ouço muita gente falando a respeito da pequena atenção que os jornais e revistas tem dedicado aos livros. As resenhas e críticas estão sumindo. Quase não há mais espaço para essas coisas nas seções de cultura. Talvez a única exceção seja o caderno SABÁTICO do Estadão que circula aos sábados - único caderno dedicado totalmente ao assunto. Mas o problema parece que não se restringe somente ao Brasil. John Palattella, um jornalista americano, escreveu um artigo para o The Nation falando como os livros estão sumindo dos semanários americanos - The Death and Life of the Book Review (A Morte e a Vida da Crítica Literária). Por crítica literária, devemos entender a cobertura de notícias referente a livros e ao mercado editorial, de maneira ampla.

É evidente que no artigo muitos fatos mencionados tratam da realidade da imprensa americana. Porém, alguns pontos servem para ilustrar a nossa situação. Sobretudo quando Palatella menciona a internet. Vou destacar dois pontos que considero importantes:

1. Na imprensa atual, a crítica literária sofre de um problema cultural e não apenas econômico. Os jornais e revistas estão contendo custos para sobreviverem nesse momento de incertezas quanto ao seu futuro. Na tentativa de ter um produto mais rentável, apelam para notícias que sejam mais vendáveis e cortam ou reduzem o conteúdo que julgam pouco popular - como é o caso da crítica literária. Ao contrário desse pensamento, Palatella demonstra que são os próprios jornais e revistas os responsáveis por essa redução já que dentro das redações impera uma atitude "anti-intelectual" (uma falta de interesse dos jornalistas por ideias diferentes do senso-comum).

2. Na internet tudo o que importa é ser o mais rápido a dar a notícia. Como os jornais e revistas reduzem a crítica literária no meio impresso, a internet passa a ocupar esse espaço deixado. Porém, na internet existe uma obsessão em ser o primeiro a dar uma notícia e colocar no site o máximo de conteúdo que você puder. Não importa a qualidade, mas o quão rápido você pode ser. Palatella ainda fala que muitas redações não se preocupam em colocar um conteúdo incorreto no site - depois é possível corrigir na edição impressa que tem muito mais credibilidade.

No Brasil, a rasa cobertura literária feita pela imprensa tem origem no problema da educação e da pouca expressão do mercado editorial - quase não lemos e compramos poucos livros. Talvez com uma cobertura maior e mais interessante dos jornais e revistas, pudessemos mudar um pouco esse quadro. Afinal, os jornais e revistas são os responsáveis por colocar em circulação as opiniões críticas a respeito de um livro. Muita gente pode conhecer, comprar e ler um livro pelo simples fato de ter lido uma crítica a respeito dele.

Falta um pouco de ousadia na imprensa: não apostam em ideias novas e fazem resenhas de livros para cumprir tabela. Conter custos não é razão para reduzir a critíca literária. Muito pelo contrário, uma boa cobertura pode atrair novos leitores e aumenta a venda de um livro. Essa mesma falta de ousadia acontece na internet. De fato, existe uma obsessão em ter uma quantidade de notícias pouco relevantes. E infelizmente, quem gera conteúdo copia muita coisa. Sem contar a dispersão que a internet provoca no leitor. Clicando em links e se perdendo em informações.

Termino com as mesmas palavras que John Palatella: "Apesar da turbulência e das inúmeras dúvidas, acho que não há momento melhor que o presente para que a imprensa faça a cobertura de livros" (tradução minha). Recomendo a leitura do artigo.

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sexta-feira, 4 de junho de 2010

A THE PARIS REVIEW TEM UM BLOG

Desde 1 de Junho a revista The Paris Review tem um blog. A editora Lorin Stein diz que a "missão" do blog é manter contato com os leitores da revista entre uma edição e outra. Eles também querem escrever e chamar a atenção para tudo aquilo que eles mais gostam: literatura e artes.

O blog me parece bem promissor e antenado com os tempos atuais. Não dá para dizer que eles estão lançando uma tendência porque a internet e os blogs já existem faz tempo. Acho, na verdade, que eles demoraram bastante para entrar no mundo virtual. Só estão confirmando a tendência. E vejam que trata-se de uma das revistas mais importantes do mundo quando o assunto é literatura. Desde 1953, ela entrevista e fotografa de maneira particular escritores que são ou vão se tornar grandes nomes da literatura. É uma revista que criou um modelo, realmente. E agora está aderindo a internet, como muitas outras estão fazendo. Nem preciso dizer que eles também tem uma conta no twitter.
*imagem: capa da Paris Review de 1953 - via google.

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segunda-feira, 17 de maio de 2010

LITERATURA E CRÍTICA EM CRISE?


Flora Süssekind, crítica literária, escreveu no final do mês de Abril um texto para o caderno Prosa&Verso do jornal O Globo. O texto se chamava A crítica como papel de bala. Seu mote principal era demonstrar o conservadorismo e a falta de relevância que reina na crítica literária atual do Brasil.

Num momento furioso, ela diz do crítico:

"retorno às figuras todo-poderosas do especialista monotemático, do agenciador com capacidade de trânsito inter-institucional e do colecionador de miudezas, às interlocuções preferencialmente de baixa densidade dos minicursos e palestras-espetáculo, do universo das regras técnicas e das normas genéricas e subgenéricas, fixadas acriticamente em oficinas de adestramento, à glamorização midiática de instituições autocomplacentes como a Academia Brasileira de Letras e correlatas, a formas variadas de culto a personalidades literárias, em geral mortas (e Clarice Lispector, Leminski, Ana Cristina Cesar têm sido objeto preferencial de dramaturgias miméticas, curadorias acríticas, ficções e comentários “à maneira de”), mas também em vida veem-se autores, mal lançados em livro, se converterem em máscaras que, com frequência, os aprisionam em marcas registradas mercadológicas de difícil descarte".
De fato, nós temos de admitir que a crítica literária feita por aqui realmente não está na sua melhor fase. De maneira simples o que a gente vive é uma dicotomia entre pessoas da acadêmia e o grande público - que aparentemente está por fora.

Os cadernos que tratam de literatura nos jornais e nas revistas - e falam para o grande público - parecem não ter a mesma relevância que tinham antigamente. Muitas vezes os textos parecem muito quadrados e presos a fórmulas. Faltam resenhas melhor elaboradas que promovam a reflexão em quem lê. Também falta sair do lugar comum e estimular os leitores a buscarem algo que seja novo e diferente. A impressão é de que a literatura interessante não está nos jornais e revistas.

Por outro lado, as publicações acadêmicas parecem muito fechadas em si mesmas - portanto, falam para um público mais específico. A academia está mais interessada em autores que promovem experimentação de linguagem, etc. E isso, felizmente ou infelizmente, nunca terá um alcance maior. Quando essa circulação não acontece, existe o mesmo problema de repetição de temas e falta de críticas mais profundas. O escritor Sérgio Rodrigues, em resposta ao texto de Flora, sintetizou bem um dos problema da acadêmia:

"[a] crítica passou a valorizar dois novos modelos textuais para a literatura
contemporânea, ambos virginais. De um lado, em rendição incondicional à
antropologia, o das “vozes” dos despossuídos literários: mulheres, negros, gays,
favelados. Do outro, pelo qual parece se inclinar Süssekind, o da “transgressão”
que “rompe com tudo o que está aí”, em geral sem ter lido uma fração minimamente
aceitável de “tudo o que está aí” – e aqui a rendição do crítico se dá frente ao
mito de corte religioso da pureza refundadora. Escrever “mal”, ser incapaz de
construir um personagem, reinventar a pólvora modernista, aborrecer o leitor
desavisado, tudo isso é considerado preferível a ser mais um a perpetuar aquele
jogo ideológico chamado literatura".
Evidentemente o problema com a crítica literária vai bem mais além do que esses dois campos de força. A crise parece acontecer em todos os setores da crítica cultural nos dias de hoje. Veja por exemplo a fala comum das pessoas: "quem lê os críticos?". Muita gente torce o nariz para críticos de cinema, de teatro, de balé e até para críticos literários. Assim sendo é fácil pensar: a crítica ainda é relevante? Para quem?

Tudo isso resulta num outro grande desafio sem fim, anterior a crítica, que é a educação no Brasil. Exemplos não faltam: má formação de professores, desinteresse de alunos pelo conhecimento acadêmico, universidades em ruínas e tudo o mais que a gente pode lembrar.

No Congresso de Jornalismo Cultural, orgazinado pela revista CULT, alguns debatedores apontaram a possibilidade da internet ser o meio termo entre a crítica dos jornais/revistas e a crítica acadêmica. Tudo porque aparentemente a internet é um espaço livre. Quem escreve não tem o compromisso de vender e agradar. Sobretudo num tempo em que as mídias impressas estão ficando cada vez mais enxutas. Mas quem vai puxar primeiro a sardinha para sua brasa?

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