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domingo, 23 de junho de 2013

A FICÇÃO ESTÁ NAS RUAS


Pode ser que meus comentários tenham chegado por aqui um pouco tarde. As ruas foram bastante movimentadas ao longo dessa semana e o assunto foi pauta obrigatória de todos os jornais, revistas, canais de TV, redes sociais e mesas de bar. Não havia uma única pessoa que não tivesse uma opinião a respeito. Que bom! Sendo assim, pode ser que tudo o que eu diga nesse momento já tenha sido dito e redito - em breve descubro. Meu "atraso" aconteceu porque também estive ocupado indo para a rua engrossar o coro dos descontentes e observar tudo o que está acontecendo. 

Tanto a interceptação de informações de usuários da internet feita pelo governo norte-americano (furo do jornal inglês The Guardian) quanto os protestos que tomam as ruas do Brasil inteiro fazem pensar, guardando as devidas proporções, no modo como a realidade está cada vez mais próxima da ficção. 

Se a minha apuração estiver correta, o primeiro romance que pregou um futuro distópico foi Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, de 1932. Em resumo, o livro descreve uma sociedade controlada pela ciência e dividida em castas rígidas para garantir a harmonia entre todos os seus habitantes. Qualquer elemento que possa desestabilizar essa estrutura é mantido ao longe, tome como exemplo a droga "soma" que os cidadãos consomem quando sentem tristeza, insegurança etc. A frase mote é "dois gramas de soma curam tudo". Quando o livro foi publicado a história parecia muito implausível. Mais de oitenta anos depois, temos remédios que curam até tristeza, a manipulação genética é uma realidade e o controle social parece uma obsessão constante. 

Alguns anos depois, foi a vez de 1984, de George Orwell - o romance mais lembrando por qualquer pessoa quando o assunto é distopia. Tamanha popularidade foi comprovada com a notícia de que as vendas desse livro cresceram 7,000% no período de 24 horas após o furo de reportagem do Guardian. Todo mundo deve conhecer um pouco do enredo: Winston Smith, um homem insignificante e solitário, luta em vão contra as forças opressoras do regime político totalitário instituído pelo Partido que desenvolveu uma série de aparatos de controle: o Grande Irmão, um mecanismo de vigilância que registra a vida pública e privada de todos os cidadãos; o Ministério da Verdade que trabalha falsificando documentos oficiais para beneficiar o regime; o Ministério do Amor que pratica a tortura; a Novafala instituída para renomear as coisas etc. Muitos críticos enxergaram o livro como uma alegoria dos regimes totalitários da Europa e do regime comunista da antiga União Soviética. Algumas pessoas chegaram a considerar que o futuro descrito por Orwell não parecia tão distante da realidade - vide os ensaios que compõe a edição desse livro publicada recentemente pela Companhia das Letras. O tempo passou, o livro permaneceu e quando todo mundo achava que o enredo não passava de ficção surge esse furo do Guardian e a frase dita por O'Brien, um membro do Partido, a Winston ecoa pelas ruas: "só nos interessa o poder em si. Nem riqueza, nem luxo, nem vida longa, nem felicidade: só o poder pelo poder, poder puro".

Vale dizer que muitos momentos descritos na novela A revolução dos bichos também demonstram em alguma medida o controle social, a busca pelo poder e a manipulação de informações para promover uma classe dominante. Aparentemente, essa alegoria dos regimes totalitários ficou para trás e esteve colada a realidade por num determinado contexto histórico.

Voltando a 1984 e saindo um pouco do ramo da política afim de ilustrar elementos da ficção que estão virando realidade, basta considerar a captação de dados que o Google e as redes sociais praticam conosco. Por mais paranoico que possa parecer, essas ferramentas estão nos observando e nos oferecendo serviços baseado nos cliques que distribuímos pelo ciberespaço. De modo que não vai demorar muito para que todas as pessoas virem um perfil de uma página na internet. Será que existe algum livro de ficção sobre isso?

Não posso deixar de citar outros dois clássicos da distopia futurista: Fahrenheit 451, de Ray Bradbury (publicado em 1953) e Laranja mecânica, de Anthony Burgess (publicado em 1962).  Com menos força, ambos descrevem algumas situações que tem reflexo na nossa sociedade contemporânea - controle do Estado, manipulação das informações etc.

Para finalizar, a revista norte-americana The Atlantic fez um pequeno artigo dizendo que na verdade Franz Kafka, e não George Orwell, pode nos ajudar a entender melhor os últimos acontecimentos do mundo. Segundo o artigo, o livro The digital person, de Daniel J. Solove aponta que O processo, de Kafka como uma metáfora:

"[o livro] retrata uma burocracia com fins inescrutáveis ​​que usa informações das pessoas para tomar decisões importantes sobre elas e nega ao povo a capacidade de participar na maneira como as suas informação é utilizada. Os problemas capturadas pela metáfora de Kafka são de um tipo diferente dos problemas causados ​​pela vigilância. Eles muitas vezes não resultam na inibição ou na paralisia. Em vez disso, eles são problemas de processamento de informação - o armazenamento, uso ou análise de dados - ao invés de coleta de informações. Eles afetam as relações de poder entre as pessoas e as instituições do Estado moderno. Eles não só frustram o indivíduo, criando uma sensação de desamparo e impotência, como também afetam a estrutura social, alterando o tipo de relações que as pessoas têm com as instituições que tomam decisões importantes sobre suas vidas." (tradução minha).

Quero acreditar que felizmente, o mundo real é bem mais complexo do que o sistema desenhado por todos esses escritores. Muitas forças atuam na realidade. Torcemos para que a democracia garanta a mudança requerida pela vontade da sociedade civil e o mundo da ficção distópica restrito aos livros.

PS.: Não preciso explicar de que maneira esses livros servem para ilustrar a insatisfação brasileira nas ruas. Acho que está claro: burocracia, peso do Estado, manipulação das informações, aparelhos ideológicos e segue em frente.

Imagem: Reprodução de um cartaz que encontrei no Google.

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sexta-feira, 26 de agosto de 2011

TRANSMISSÃO: TOM MCCARTHY


Tom McCarthy é um escritor ainda inédito por aqui. Nenhum de seus livros ganhou tradução, seus contos não apareceram em nenhuma revista e ele também não concedeu nenhuma entrevista. Seja como for parece que estamos perdendo senão um grande nome da literatura contemporânea, pelo menos uma pessoa bastante interessada em teorizar sobre romances (ou sobre literatura).

O escritor foi convidado para a edição desse ano do Festival Literário Internacional de Edimburgo - um festival bastante curioso que por conta do verão dura 17 dias e tem muitas atrações. Ele participou de uma mesa intitulada "Noise, signal and word: how writing works" (em tradução livre "Ruído, sinal e palavra: como funciona a escrita") para explicar algumas de suas ideias sobre a figura do autor na literatura.

(Infelizmente o Festival não tem transmissão online das mesas e também não guardou nenhum arquivo em vídeo dessa apresentação. O que eu sei li na cobertura do jornal Guardian. Foi de lá que tirei um resumo das coisas que Tom McCarthy falou nessa mesa.)

Pegando carona nos temas que estão no romance C (um romance ambientado em pleno começo do século XX quando os grandes meios de comunicação sem fio estavam sendo inventados), Tom McCarthy propôs ideias para demonstrar que a literatura não tem autor. Para ele, escrever não é um ato de auto-expressão, nem uma maneira de compartilhar nossos sentimentos. A escrita é apenas transmissão da linguagem que fala por nós. Assim, os livros nada mais são do que "câmaras de eco" (lugares em que ecoam a linguagem que nos ronda). Consequentemente, os melhores livros são aqueles que conseguem sintonizar a linguagem e os pensamentos que estão espalhados por ai.

Para ilustrar essa apresentação, McCarthy falou sobre o mito de Orfeu em Ovídio, Rainer Maria Rilke e mostrou um trecho do filme Orfeu, de Jean Cocteau (1949). Nesse filme, Orfeu vive as voltas com um rádio de carro que sintoniza sempre vozes transmitidas por um poeta do além. São mensagens cifradas que lembram códigos. McCarthy também mostrou a música Antenna, da banda Kraftwerk. Ela está no disco Radio-Activity (1975) repleto de temas ligados a rádios, energia nuclear, ondas sonoras, transmissões e antenas. A letra minimalista de Antenna diz o seguinte: "I'm the antenna catching vibration/ You're the transmitter give information/ I'm the transmitter I give information / You're the antenna catching vibration".

Não é a primeira vez que essas ideias circulam no meio literário. Nos anos 50 os estruturalistas franceses já falavam disso - Roland Barthes foi um dos primeiros a teorizar sobre a morte do autor. Toda a turma do Nouveau Roman (Alain Robbe Grillet, Nathalie Sarraute, Michel Butor, Marguerite Duras, Claude Simon) construiu sua obra a partir desse caminho. O pessoal do OuLiPo também. No entanto não deixa de ser interessante o fato de um escritor do nosso tempo voltar a essas ideias para usá-las como tema de seu processo de escrita - não digo como forma, já que ele não está experimentando com a linguagem, nem apagando categorias narrativas. É como se McCarthy esteve se esforçando para chamar nossa atenção ao retorno natural que o romance e a literatura podem tomar - fazer da inovação uma tradição e recuperar isso tudo com um novo olhar. Dessa forma, quem sabe, a gente não pode encontrar uma solução para a angústia de ter de sempre superar o que esteve atrás de nós.

Em tempo, Tom McCarthy já está trabalhando num novo romance que vai ser sobre poluição e meio ambiente. Quem quiser ler os romances já publicados por ele, pode recorrer a tradução portuguesa ou encarar as edições inglesas - diretamente do original.

*imagem: reprodução daqui.


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sábado, 25 de junho de 2011

O VERÃO DOS GRINGOS


Na semana passada, o caderno Ilustríssima publicou um "Diário de Londres" assinado por Vaguinaldo Marinheiro - correspondente da Folha de SP em Londres. Ele comecava o texto falando sobre a chegada do verão na Inglaterra. O verão tem mesmo um poder transformador em todos os países temperados do hemisfério norte. Por lá, as altas temperaturas são celebradas com festivais de música, apresentações ao ar livre e muita leitura. O jornais e revistas são os melhores termômetros para saber o que está acontecendo com a literatura de lá.

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A edição de verão da revista Paris Review tem a segunda parte do romance O terceiro Reich, de Roberto Bolaño, ficção de Jonathan Lethem (The empty room - disponível no site da revista) e entrevista com William Gibson - um dos papas da ficção científica. O editor, Lorin Stein, continua com seu projeto de renovar o espírito da revista com o lançamento da versão para iPad e e-readers.

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O jornal inglês Guardian, publicou uma reportagem com alguns escritores contando qual foi a melhor leitura de férias da vida deles. AS Byatt, por exemplo, contou da inesquecível experiência de ler todos os volumes de Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust - detalhe, em francês. Jonathan Coe relembra a leitura de Narciso e Goldmund, de Hermann Hesse. Para Jennifer Egan foi A história secreta, de Dona Tartt e Jonathan Franzen recordou Gente independente, de Halldôr Laxness. Tem ainda William Gibson, John Gray, David Lodge, Will Self, Colm Tóibín e outros.

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A New Yorker também publicou sua clássica edição dupla de ficção. Turbinada com textos de autores como George Saunders, Jhumpa Lahiri, Jeffrey Eugenides, Vladimir Nabokov, Jennifer Egan, Téa Obreth, Junot Díaz e Salvatore Scibona - (os links são para os textos que estão disponíveis para leitura no site).

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Aproveitando essa edição dupla da New Yorker, o time do Book Bench perguntou para os escritores que figuram na edição quais os livros que eles pretendem ler durante a temporada.

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Nós moramos num país tropical e não estejamos no verão. No entanto, tivemos o lançamento da edição nº 08 da revista Serrote. Tem ensaio de Orhan Pamuk (Sérgio Rodrigues comentou no Todoprosa), ficção de Lydia Davis inspirada em Flaubert, ensaio de Juliet Litman sobre as consequencias do 11 de setembro na literatura norte-americana, prefacio do romance Museu de sombras, de Gesualdo Bufalino, texto de Raul Pompéia e muitas coisas mais.

*imagem: reprodução.

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sexta-feira, 3 de junho de 2011

É O MUNDO LITERÁRIO FEMININO

Que me perdoem os rapazes leitores desse blog, mas há uma discussão urgente em torno do feminino abalando os pilares literários. E o negócio está ficando sério demais para ser simplesmente deixado de lado.

Olha para trás, parece que tudo começou com a exposição New Publications da artista plástica Daniela Comani numa galeria de arte em Los Angeles. A fim de criticar a ausência feminina no cânone literário ocidental, a artista escolheu cinquenta e dois clássicos da literatura ocidental e mudou o gênero de seus títulos - de masculino para feminino e vice-versa.

Logo depois, em tom de celebração a questão feminina, a revista Granta lançou uma edição com o tema "The F Word" ("A palavra F", em tradução literal) mostrando como o feminismo continua tentando romper o poderoso domínio masculino no mundo. Na autoria dos textos mulheres (e somente mulheres) de diversas partes do mundo olhando para a questão feminina. Entre elas Lydia Davis, A.S. Byatt e Téa Obreht num texto de introdução a um ensaio fotográfico de Clarisse d’Arcimoles. Se não estou enganado é a primeira vez que a revista se dedica ao tema. De quebra o site da Granta disponibiliza mais conteúdos: um podcast entre Sigrid Rausing, editora da revista, e duas escritoras, Rachel Cusk e Taiye Selasi; um post sobre as "bíblias do feminismo" no mundo com direito a discussão no twitter protagonizado pelos leitores (leitoras!) dizendo quais são suas "bíblias" particulares; tem ainda o prefácio de Helen Dunmore para uma nova edição do romance Rumo ao farol, de Virgína Woolf que está saindo na Inglaterra - ninguém melhor do Woolf para corroar esse tema.

Curiosamente, a revista Esquire (publicação voltada ao público masculino) divulgou em seu site uma lista com 75 livros que todos os homens deveriam ler. Nenhuma novidade, listas surgem a toda momento e escolhem os temas mais diversos. A seleção inclusive tem um mérito particular por incluir medalhões da literatura: Dostoiévski, Tolstói, John Le Carré, Raymond Carver, Jorge Luís Borges, John Steibeck, Cormac McCarthy, James Joyce, Philip Roth, John Updike, Ernest Hemingway, William Faulkner, Saul Bellow, Charles Bukowski, Joseph Conrad, F. Scott Fitzgerald, Salman Rushdie, Kingsley Amis, Vladimir Nabokov, Don DeLillo e tantos outros. Porém, o que poderia ser uma lista à toa causou uma grande indignação feminina por citar apenas uma única escritora: Flannery O'Connor. Como em tempos de internet todas as notícias se espalham com facilidade não faltaram manifestações nas redes sociais contrárias a Esquire. A revista Joyland, por exemplo, fez uma lista com 250 livros escritos por mulheres que todos os homens deveriam ler. Pode ser que a revista não tenha feito de propósito, vai saber.

Em outro momento, o Book Bench da New Yorker, sem querer, também tocou no assunto literatura feminina. Elizabeth Minkel escreveu um post - Bad Romance? - comentando uma pesquisa sobre os danos que os romances podem causar as mulheres (víciam, por exemplo). Ela até toca na polêmica envolvendo a escritora Jennifer Egan, recém-ganhadora do prêmio Pulitzer. Numa entrevista ao Wall Street Journal, Egan falou contra o gênero Chick-Lit.

O caso V.S. Naipaul
Para encerrar o assunto, essa semana V.S. Naipaul, escritor renomado e ganhador do prêmio Nobel, atacou a literatura feita por mulheres. Segundo reportagem do Guardian, quando perguntado se poderia haver alguma escritora que se igualasse a ele a resposta foi "eu acho que não". Ele citou Jane Austen dizendo "não posso compartilhar suas ambições sentimentais" e ainda disse "eu leio um texto e em um ou dois parágrafos consigo saber se foi escrito por uma mulher ou não". O jornal lembra que Naipaul sempre diz coisas que ganham repercussão citando a desavença entre ele e Paul Theroux que foi dissipada nessa mesma semana.

Em forma de brincadeira, o Guardian criou um jogo em que os leitores são convidados a descobrir se o trecho foi escrito por um homem ou uma mulher. Seria muito engraçado ver o desempenho de Naipaul. Será que ele teria mais acertos do que erros?

No Brasil
Entre nós, brasileiros, a literatura feita por mulheres também sofre do mesmo mal. Quem quiser entender mais sobre o assunto pode recorrer ao artigo Feminismo e literatura no Brasil, de Constância Lima Duarte que foi publicado pela revista Estudos Avançados. Tem também o clássico livro A literatura feminina no Brasil contemporâneo, de Nelly Novaes Coelho.

À guisa de conclusão listo algumas escritoras brasileiras que todos os homens deveriam ler: Rachel de Queiroz, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles, Marina Colassanti, Hilda Hilst, Carola Saavedra, Verônica Stigger, Andréa Del Fuego, Cecília Giannetti, Tatiana Salem Levy, Carol Bensimon, Lívia Sganzerla Jappe e Vanessa Bárbara.

Alguém sugere mais alguma?

*imagens: reprodução.

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segunda-feira, 9 de maio de 2011

NOTAS #25



Lolita na web
Um vídeo raro mostra Vladimir Nabokov comentando a capa de diferentes edições estrangeiras de seu romance Lolita. O vídeo acima é apenas uma parte de um programa chamado “USA: The Novel”. Além de comentar as capas, o escritor lê um trecho do mesmo livro e ainda fala sobre diversos outros assuntos. O programa na íntegra está disponível em http://tinyurl.com/3fc9h8q

Ficção eletrônica
O jornalista e escritor Luís Henrique Pellanda está com um projeto muito bacana: levar a literatura aos domínios eletrônicos. A idéia é integrar música com leitura de textos e disponibilizar o material no site http://eletroficcao.wordpress.com . O teaser de lançamento é eletrizante. Já tem bastante coisa no site.

A voz da sabedoria
Como diz aquele velho ditado: "se conselho fosse bom ninguém dava, vendia". No entanto, quando o conselho vem de alguém como V.S. Naipaul é mais prudente ficar bem atento. O escritor britânico nascido em Trinidad e Tobago tem sete conselhos para escritores iniciantes: não escreva frases longas; cada frase deve fazer uma afirmação clara; não use palavras muito grandes; nunca use palavras cujo significado você não tem certeza; os iniciantes devem evitar o uso de adjetivos, exceto os de cor, tamanho e número; evite o abstrato; todo dia, durante pelo menos seis meses, pratique a escrita desta maneira: palavras pequenas, curtas e claras, frases concretas.

Listas 1
Está na hora de matar a saudade das listas do Flavorwire. Dessa vez, o site preparou uma lista com dez escritores japoneses que você precisa conhecer. Entre eles há escritores já bastante conhecidos por aqui como Kenzaburo Oe e Haruki Murakami; escritores sendo descobertos como Ryu Murakami; e escritores pouco divulgados como Shintaro Ishihara e Natsuo Kirino. A lista completa está disponível em http://tinyurl.com/3g6aynv

***

Outra lista interessante do mesmo Flavorwire: as dez melhores entrevistas da revista Paris Review. Reproduzo aquia lista: Jonathan Franzen, Vladimir Nabokov, Marilynne Robinson, Michel Houellebecq, William Faulkner, Kurt Vonnegut, Ralph Ellison, Jorge Luis Borges, Toni Morrison e Joan Didion. A lista completa está disponível em http://tinyurl.com/5tkf2yz

Listas 2
O escritor Edward Docx fez uma lista para o Guardian com os dez personagens mais dementes da história da literatura. A lista foi encabeçada por Don Quixote, personagem de Miguel de Cervantes. Outros citados são: Mickey Sabbath, personagem de Philip Roth; Gregor Samsa, do livro de Franz Kafka; Charles Kinbote, de Fogo pálido - Vladimir Nabokov; Alex, do livro Laranja mecânica - Anthony Burgess. Claro que não poderia faltar o Hamlet do Shakespeare. A lista completa está disponível em http://tinyurl.com/42jx5kg

Vila-Matas em São Paulo
O escritor espanhol Enrique Vila-Matas está com as malas prontas para visitar o Brasil. Ele vem a São Paulo para participar de dois eventos: palestra no III Congresso Internacional de Jornalismo Cultural no dia 17 de maio; e evento de lançamento do livro Dublinesca no Instituto Cervantes no dia 18 de maio. O evento contará com uma palestra e sessão de autógrafos. O jornal Rascunho publicou um trecho inédito do romance Dublinesca disponível em http://tinyurl.com/4ywprzf
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sábado, 7 de maio de 2011

MACHADO DE ASSIS INFLUENCIOU WOODY ALLEN?



Não importa que o The New York Times Book Review tenha comparado Machado de Assis a Flaubert, Thomas Hardy ou Henry James. Nem que o New York Times tenha classificado o livro como "uma obra-prima da ironia epicurista". Woody Allen disse que só leu Memórias Póstumas de Brás Cubas porque o livro era fino. Salvo por poucas páginas! Ainda bem que não mandaram para ele um exemplar d'Os Sertões, de Euclides da Cunha. Seria descartado no primeiro contato.

Finda a tarefa, Woody falou que o livro era muito original e poderia ter sido escrito ontem - pela inventividade e tudo o mais. Sorte de Woody não ter passado a vida sem conhecer o nosso maior clássico. E tem gente que acha Machado de Assis velho, pode? Isso para não citar aquelas pessoas que acusam Machado de estragar o gosto dos adolescentes pela leitura. Ora vejam só!

O que eu mais me intrigou mesmo nessa história foi as semelhanças entre o livro do Bruxo do Cosme Velho e a obra de Woody Allen. Reparem: a narrativa metalinguística e a conversa com o leitor, tão típicas em Machado, sempre figuram nos filmes do Woody; A conturbada relação de amor de Brás com Marcela e Virgília serviriam como uma luva para o cineasta americano; e o que dizer do capítulo "O delírio", "O velho diálogo de Adão e Eva" e tantos outros? Dignos de Zelig, não?; isso para não falar da ironia, do humor, da agilidade... não sei, começo a achar que Machado de Assis deixa Woody Allen no chinelo!

Agora, será que Woody Allen leu uma edição de inglesa ou americana? Será que tinha aquele posfácio escrito pela Susan Sontag?

*imagem: reprodução da capa das edições americana e inglesa.

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sexta-feira, 6 de maio de 2011

AS DECLARAÇÕES DE MARTIN AMIS



O escritor Martin Amis tem mesmo um senso de humor bem peculiar. Nas últimas semanas, o escritor inglês tem sido notícia a todo o momento graças as suas declarações ácidas.

Num programa de TV da BBC chamado Falks on Fiction, ele fez o seguinte comentário sobre literatura infantil:



"As pessoas me perguntam se eu nunca pensei em escrever um livro infantil. Eu digo, 'Se eu tivesse uma grave lesão cerebral eu bem que poderia escrever um livro infantil', mas por outro lado a idéia de estar consciente de para quem você está direcionando a história é um anátema [maldição] para mim, porque, na minha opinião, a ficção é liberdade e quaisquer restrições sobre isso são intoleráveis​​. Eu nunca iria escrever sobre alguém que me obrigou a escrever em um registro inferior do que o que eu posso escrever." (tradução minha)

O comentário causou certa revolta em alguns ingleses. Pensando nisso, o pessoal do blog BookLust fez um desenho de Amis para cada personagem clássico da literatura infantil. O resultado não deixa de ser engraçado, sobretudo pela feição emburrada de Amis e seu inseparável cigarro. Os desenhos fizeram tanto sucesso que até foram paras nas páginas dos jornais ingleses.

Na semana passada, em pleno auge do assunto casamento real, Amis falou poucas e boas sobre o Reino Unido e sua monarquia para o Le Nouvel Observateur (o jornal é francês, mas o link da notícia é do Guardian). Parece até que está preparando um livro sobre o assunto. Detalhe: Amis está de mudança da Inglaterra, vai morar em Nova York.

Também na semana passada, ele publicou um artigo no Guardian falando sobre Christopher Hitchens. Dessa vez foi por uma razão nobre, ele elogiou a inteligência e engenho retórico do amigo - tem até uma foto dos dois juntos num bar em 1985.

Deixando as polêmicas de lado, está saindo por aqui A viúva grávida - seu livro mais recente que saiu na Inglaterra no ano passado.

*imagem: reprodução do blog Booklust.

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sexta-feira, 29 de abril de 2011

NOTAS #24



Futuro lançamento
Quarto, de Emma Donoghue chegará em breve as livrarias brasileiras. O livro será lançado pela editora Verus com tradução de Vera Ribeiro. No ano passado o romance esteve em quase todas as listas de melhores de 2010 e chegou a ser finalista do Man Booker Prize. O romance conta uma história estranha e bastante original: um menino de 5 anos vive num quarto com sua mãe desde que nasceu. Donoghue já confessou em entrevistas algumas de suas influências: Michael Cunningham, Dave Eggers, David Foster Wallace, Alice Munro, Philip Pullman e Jane Austen. Acima a capa da edição brasileira.

ABC da literatura
O caderno Babelia do jornal espanhol El país publicou um abecedário dos últimos 70 anos de literatura na Espanha. O texto faz uma espécie de brincadeira com a publicação do sétimo volume do projeto História da literatura espanhola, organizado por Jordi Gracia e Domingo Ródenas. O volume tem como subtítulo "Perda e recuperação da modernidade: 1939-2010". No abecedário verbetes como boom, censura, exílio, gerações, Juan Ramón Jiménez e vanguarda ajudam o leitor a compreender um pouco da história recente da literatura daquele país. O texto está disponível em http://tinyurl.com/6f6cahq

Segredos revelados
O jornal inglês Guardian colocou alguns escritores bastante conhecidos na parede e perguntou: o que faz um escritor? De onde vem as ideias? Você tem uma rotina? Como você começa a escrever um romance? Lápis ou computador? Dor ou prazer? Assim escritores como Ian McEwan, Hilary Mantel, Howard Jacobson, PD James, entre outros, revelaram o segredo de seu ofício. O artigo completo está disponível em http://tinyurl.com/5uy86uc

Lusofonia

De maio a dezembro, o Centro Nacional de Cultura em Portugal retoma o ciclo de palestras Balanço literário da década no mundo lusófono. As mesas tratam de temas como o romance brasileiro, a literatura na África lusófona, o acordo ortográfico, o mundo editorial e questões de tradução. O evento é organizado em parceria com a PNETLiteratura. Mais informações estão disponíveis em http://tinyurl.com/3ghan32

Bolañomania
O podcast de ficção da revista New Yorker de março teve uma história de Roberto Bolaño. O escritor peruano, Daniel Alarcón leu o conto Gómez Palacio - publicado pela revista New Yorker em agosto de 2005, mas consta originalmente no livro Putas assassinas. Antes e depois de ler a história, Alarcón fala sobre seu contato com o obra de Bolaño e comenta as impressões que o conto lhe causa. A leitura de Alarcón está disponível em http://tinyurl.com/3d295ll e o conto em inglês está disponível em http://tinyurl.com/28drxx



Jovem escritora
A editora Nova Fronteira lançou o primeiro livro de contos da escritora Yiyun Li, Tempo de boas preces. São dez histórias que revelam o assustador destino de milhões de chineses. O livro vem de uma boa trajetória, recebeu o PEN/Hemingway Award (ganhou também outras prêmios) e teve duas histórias adaptadas para o cinema. Não foi à toa que Yiyun Li entrou para a lista dos 20 escritores com menos de 40 anos da revista New Yorker.

***

Da mesma autora, a Nova Fronteira publicou o romance Os excluídos, que ganhou uma capa diferente em sua segunda edição (foto acima). Para saber mais sobre Yiyun Li recomendo reportagem e entrevista concedia à Raquel Cozer - disponível em http://tinyurl.com/3lbypgt

*imagem: reprodução.
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terça-feira, 26 de abril de 2011

OUÇA UM BOM CONSELHO


Desde o ano passado, se não me engano, o jornal inglês Guardian tem perguntado aos escritores algumas regras de ouro para as pessoas que desejam se aventurar na área. A série tem conselhos de pessoas bem conhecidas. Vou reproduzir abaixo alguns conselhos em tradução meio literal:

Zadie Smith

Quando criança, certifique-se de que você leu um monte de livros. Gaste mais tempo fazendo isso do que qualquer outra coisa.

Quando adulto, tente ler sua própria obra como um estranho leria, ou melhor ainda, como seu inimigo leria.

Não romantize a sua "vocação". Você pode escrever tanto frases boas quanto ruins. Não existe um "estilo de vida de escritor". Tudo o que importa é o que você deixa escrito na página.

Evite panelinhas, gangues, grupos. A presença de uma multidão não vai fazer o seu texto ser melhor do que ele é.

Trabalhe num computador desconectado da internet.

Will Self

Pare de ler ficção - é tudo mentira mesmo, e a ficção não tem nada a lhe dizer que você já não saiba (assumindo, isto é, que você já leu muita ficção no passado; se você não leu você não tem qualquer tipo de interesse muito menos em ser um escritor de ficção).

Viva a vida e escreva sobre a vida. De fato não há fim em se fazer muitos livros, mas já existem muitos livros sobre os livros.

A vida do escritor é essencialmente a do confinamento solitário - se você não pode lidar com isso você não precisa pôr em prática.

Cheguei nesses conselhos depois de ler a entrevista de Lygia Fagundes Telles na Ilustrada. Quando perguntada sobre os jovens escritores de hoje, ela respondeu e aconselhou:

Eles me parecem ainda mais ansiosos do que nós éramos. Ansiosos por escrever e por aparecer. E a ansiedade é o maior perigo para um escritor.

Para completar a rodada de conselhos, sugiro também uma leitura na série "Conselhos literários fundamentais", do Sérgio Rodrigues no blog Todoprosa.

*imagem: reprodução.
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domingo, 26 de dezembro de 2010

NOTAS #13


Onde nascem as ideias
Cezar de Almeida e Roger Bassetto organizaram um livro bem diferente dos que estamos acostumados a ver no mercado editorial brasileiro: Sketchbooks - As páginas desconhecidas do processo criativo. Não é graphic novel, HQ, nem livro de ilustração. A dupla registrou imagens dos cadernos de rascunho de 26 artistas contemporâneos brasileiros para mostrar o método criativo de cada um deles. Entre os convidados estão Angeli, Carla Café, Guto Lacaz, Kiko Farkas Lourenço Mutarelli, Rafael Grampá, entre outros. Legal para ver como nascem as ideias - na foto o sketchbook do escritor Lourenço Mutarelli.

Os melhores do ano
Alguns escritores estrangeiros disseram seus livros preferidos de 2010 ao longo dessas duas últimas semanas. O editor da revista Paris Review, Lorin Stein, gostou do livro O caminho de Swann, de Marcel Proust na nova tradução de Lydia Davis. Tom McCarthy, o autor do romance C, gostou de Malina, de Ingeborg Bachmann. Michael Cunningham gostou de Room, de Emma Donoghue e The hunger games, de Suzanne Collins. Paul Harding, o ganhador do Pulitzer 2010, gostou de The country of the pointed firs, de Sarah Orne Jewett e The enchanted wanderer, de Nikolai Leskov. Chimamanda Ngozi Adichie gostou de Red dust road, de Jackie Kay. A S Byatt gostou de Gold boy, Emerald girl: stories, de Yiyun Li. Geoff Dyer gostou de This is not a novel, de David Markson. Dave Eggers gostou de The book of night women, de Marlon James. Colm Tóibín gostou de A mulher foge, de David Grossman.

Leitura indispensável e Flip
Manuel da Costa Pinto, o próximo diretor de programação da Flip, contou para a revista Platero, organizada pela livraria Martins Fontes, as leituras que considera indispensáveis. Entre as indicações estão: A princesa de Clèves, de Madame de Lafayette; O vermelho e o negro, de Stendhal; O idiota, de Dostoiévski; Dom Casmurro, de Machado de Assis; Os sete loucos & Os lança-chamas, de Roberto Arlt; O estrangeiro, de Albert Camus; O Gattopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa; e Desonra, de J. M. Coetzee.

***

Quem está curioso para saber o que Manuel da Costa Pinto anda pensando sobre a próxima Flip pode conferir uma entrevista que ele concedeu à jornalista Mona Dorf. Segundo adiantou, ele não pense em mexer no formato já consagrado da Festa. Por outro lado, pensa em convidar mais autores de língua francesa e italiana. Ele até fala sobre alguns autores que gostaria de convidar, mas que considera presenças pouco prováveis. A entrevista está disponível em http://tinyurl.com/23t8uc3

Hay Festival 2011
O Hay Festival 2011 acontecerá entre os dias 26 de maio to 5 de junho. Alguns escritores convidados foram anunciados essa semana. Devem comparecer a cidadezinha do festival que inspirou a nossa Flip, os escritores Howard Jacobson ganhador do Man Booker Prize; Jean-Marie Le Clezio, o ganhador do Nobel de Literatura em 2008 e Philip Pullman, autor do livro O bom Jesus e o infame Cristo. Mais escritores devem ser anunciados em breve.

In memoriam
A edição de retrospectiva 2010 da revista TIME incluiu o escritor português José Saramago na lista de pessoas importantes que faleceram ao longo do ano. Harold Bloom foi o autor do texto em homenagem ao escritor. Diz ele, "José Saramago, que eu me lembro com muito carinho, será uma parte permanente do cânone ocidental. Ele foi o primeiro escritor de língua portuguesa a ganhar o prêmio Nobel...". O texto completo está disponível em http://tinyurl.com/2dbhs3d

Leitura recomendada
O escritor Michael Cunningham, autor do romance As horas, contou a New York Magazine cinco romances que melhor descrevem Nova York. Os eleitos foram: A era da inocência, de Edith Wharton; Franny and Zooey, de J. D. Salinger; Time and again, de Jack Finney; A luz que cai, de Jay McInerney; e Deixe o grande mundo girar, de Colum McCann. Cunningham acabou de lançar seu novo romance By nightfall - ainda sem tradução para o português.

Podcast
O jornal inglês Guardian está organizando um podcast sobre livros. O podcast na verdade não é novo, mas foi reformulado e está com conteúdo de primeira linha. Toda semana o editor Claire Armitstead promove entrevistas, leituras e discussões com escritores. Entre as pérolas estão Colm Tóibín lendo Music at Annahullian, de Eugene McCabe e Anne Enright lendo Gordo, de Raymond Carver. O arquivo é grande e está disponível em http://tinyurl.com/yztdqtz

*imagem: reprodução.

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sexta-feira, 5 de novembro de 2010

NOTAS #7


Tesouros da internet
Em 1925 o Fausto, de Goethe ganhou uma edição ilustrada pelo irlandês Harry Clarke. Ele fez cerca de 80 desenhos monocromáticos inspirados na história do homem que fez um pacto com o diabo. O tema é perfeito para as figuras surrealistas e atormentadas que estão espalhadas pelo livro. Clarke foi bastante cultuado pela psicodelia dos anos 60 e 70. A edição rara está disponível na internet em http://tinyurl.com/2d9rhrm

Lobo Antunes inédito
Nesta semana, Sôbolos rios que vão chegou as livrarias de Portugal. Trata-se do novo romance de António Lobo Antunes. O nome do romance vem de um verso de Camões. Algo entre a memória e a ficção, o livro conta a história de um homem que relembra os acontecimentos mais importantes de sua vida depois de sair de uma sala de cirurgia. Um rio de vozes inunda esse universo e todas elas correm para o seu fim.

A morte lhe cai bem
A revista Forbes lançou mais uma de suas famosas listas. Dessa vez a categoria era 'as treze personalidades mortas mais rentáveis'. Entre Michael Jackson, Elvis Prestley e John Lennon estavam dois escritores: J.R.R. Tolkien que morreu aos 81 anos vítima de uma úlcera e Stieg Larsson que morreu aos 50 anos vítima de um ataque do coração. Tolkien é autor do livro O senhor dos anéis e rende algo em torno de $50 milhões. Já Larsson com sua trilogia Millenium rende cerca de $15 milhões. Pode ser que a adaptação dos livros de Larsson para o cinema em Hollywood ajude a mudar esse quadro.

Polêmica
O livro Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato está envolvido em polêmica. O Conselho Nacional de Educação recomendou que esse livro fosse banido das escolas públicas em todo o Brasil por ser racista. O Sítio do Picapau Amarelo é uma das obras mais importantes da literatura infanto juvenil brasileira. O Ministério da Educação está avaliando a restrição.

Gabo na ativa
Gabriel Garcia Márquez está ocupado escrevendo um novo romance. O anúncio foi feito por seu editor na ocasião do lançamento de Yo no Vengo a Decir Un Discurso. A notícia contraria o boato de que Gabo iria abandonar a literatura e não iria mais escrever nenhum livro. O novo romance não tem data certa para publicação, mas deve se chamar "Nos encontraremos em Agosto" - em tradução livre.

Bloqueio criativo - a notícia Franzen da semana
Jonathan Franzen confessou ao jornal britânico Guardian na semana passada que a vergonha o impediu de escrever por uma década. Não se trata de uma pequena vaidade literária que ronda todos os escritores. Franzen tinha vergonha de tudo, incluindo pudor em relação a um caso amoroso e sua inexperiência sexual. A situação lhe causou um bloqueio criativo que só terminou graças aos sábios conselhos de sua mãe e de um amigo. Pobre Franzen!

*imagem: reprodução do desenho de Harry Clarke para a edição do Fausto.

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quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A MEMÓRIA DE DH LAWRENCE

A memória de DH Lawrence está ameaçada. Um centro cultural em Nottinghamshire, Inglaterra, que divulga a obra do escritor DH Lawrence poderá ser fechado por um decisão do conselho distrital de Broxtowe. Entre as obras do acervo do centro cultural, estão cópias do processo que DH Lawrence sofreu após a publicação do romance O amante de Lady Chatterley. As notícias são do jornal Guardian que recebeu uma carta assinada por Salman Rushdie, Martin Amis e outros nomes importantes. Todos estão envolvidos na situação para tentar reverter a decisão e salvar a obra de um dos maiores escritores da literatura inglesa.

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p.s.: quando estava escrevendo esse post, nem me dei conta de que a publicação do livro O amante de Lady Chatterley está completando 50 anos. O livro foi escrito originalmente em 1928, mas devido a problemas judiciais só pode ser publicado na Inglaterra em 1960. Para comemorar a data, a Penguin Books está lançando uma edição de aniversário. Além da bela capa (imagem ao lado), o volume ainda contém dois ensaios sobre o romance. Por essas e outras tantas razões, D.H. Lawrence merece ter sua memória preservada.


*imagem: reprodução da Wikipedia.

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domingo, 17 de outubro de 2010

DAVID MITCHELL: O CAMALEÃO

Outro dia, Kazuo Ishiguro disse que sentiu o espírito da velhice chegando quando se deparou com o primeiro romance escrito pelo inglês David Mitchell. Para Ishiguro, os livros de Mitchell tinham uma força imaginativa capaz de nos deixar de joelhos. A percepção não é compartilhada apenas por ele, críticos e leitores do mundo inteiro assinariam embaixo dessas palavras.

Pode parecer exagero, mas David Mitchell tem uma trajetória impressionante que justifica o excesso de elogio. Com apenas 41 anos, ele publicou cinco belos romances - todos são sucesso de crítica e público -, ganhou diversos prêmios importantes e foi três vezes indicado ao Man Booker Prize. Mitchell também foi citado pela revista Granta como um dos melhores jovens escritores britânicos. Seu estilo já foi comparado ao de escritores de peso como Tolstói, Dostoiévski, Mark Twain, Lawrence Sterne, James Joyce, Vladimir Nabokov, Thomas Pynchon, J.D. Salinger, Raymond Chandler, Don DeLillo, Haruki Murakami, William Gibson, Ursula K. LeGuin, Ítalo Calvino, Jorge Luis Borges e tantos outros.

O enorme talento de Mitchell vem de sua capacidade de contar boas histórias e de criar várias vozes diferentes para seus personagens. Ele é uma espécie de camaleão. Ghostwritten e Cloud Atlas, por exemplo, são romances que trabalham com múltiplas histórias contadas por personagens que pertencem ao passado, ao presente e ao futuro e todos são muito diferentes entre si e se conectam em algum aspecto. A maneira original de Mitchell de balançar as estruturas narrativas e mexer tanto na forma quanto no conteúdo lhe rendeu o rótulo de escritor experimental. Isso não deve servir como barreira para os leitores, Mitchell escreve livros cheios de humanidade.

Aqui no Brasil, seu único livro publicado é Menino de lugar nenhum - saiu pela Companhia das Letras. O romance conta a história de Jason Taylor, um garoto de 13 anos que vive com sua família na cidadezinha de Black Swan Green, na Inglaterra, em plenos anos 80. A maioria dos dilemas da adolescência são abordados com enorme originalidade e inventividade linguística. Taylor sofre por ser adolescente, por não figurar entre os garotos mais populares da escola em que estuda e por ser gago. Para escapar da truculência dos outros meninos, ele tenta de todas as maneiras não chamar atenção de ninguém. O casamento de seus pais também parece desmoronar aos poucos. Como pano de fundo, a Inglaterra da era Margaret Thatcher está concentrada na Guerra das Malvinas e na recessão econômica que assolou todo o mundo.

A proeza do romance vem de seu protagonista. Jason Taylor tem de enfrentar sozinho a dura tarefa de ser adolescente e aos poucos adentrar a vida dos adultos, como a gente na vida real. Acompanhando de perto essa fase da vida desse garoto, lemos passagens inteiras recheadas de uma imaginação fértil típica de alguém dessa idade: a velha da floresta, o menino morto no lago, os túneis secretos, a madame apreciadora de arte, o hospício da cidade - a gente não pode distinguir se Jason imagina ou vive de fato esses acontecimentos. David Mitchell disse uma vez que boas personagens são as únicas capazes de sustentar romances que lidam com experimentação de forma e conteúdo.

Menino de lugar nenhum é um romance em parte autobiográfico. Sua forma é mais convencional do ponto de vista da estrutura, mas isso não significa dizer que se trata de um romance menor. E o David Mitchell da vida real também é ligeiramente gago. Ele lida bem com isso falando mais pausadamente e pensando bastante no momento de responder perguntas - só por curiosidade, ouvi um podcast do Guardian que tem Mitchell como entrevistado.

Torço para que mais traduções dele cheguem por aqui. Acho que as mais urgentes são Cloud Atlas e o recente The Thousand Autumns of Jacob de Zoet.

*imagem: reprodução do New York Times.
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sexta-feira, 8 de outubro de 2010

TUDO SOBRE MARIO VARGAS LLOSA

O ganhador do prêmio Nobel de Literatura foi o escritor peruano Mario Vargas Llosa. A Academia Sueca surpreendeu mais uma vez pois ninguém esperava que um escritor latino-americano pudesse ganhar o prêmio. A casa de apostas Ladbrokes também errou feio, os nomes mais cotados eram Ngugi wa Thiong'o, Cormac McCarthy e Haruki Marukami - nenhum ganhou. Se não me engano, o nome de Vargas Llosa nem aparecia na lista de apostadores. Ninguém esperava, nem mesmo o próprio escritor. Mais tarde, ele confessou em entrevista coletiva que não acreditou quando recebeu a notícia. Achou que se tratava de um trote por telefone.

De qualquer forma, a escolha da Academia foi certeira. Vargas Llosa é um escritor conhecido mundialmente, mesmo por aqueles que nunca leram os seus livros. Nós compartilhamos um pouco da felicidade do país premiado já que ganhou um latino-americano. Nos reconhecemos nele. Tem aquele ar de "estamos em casa".

A internet foi mais uma vez o melhor meio para acompanhar a cobertura dessa premiação. Depois do anúncio - transmitido ao vivo pelo site da organização do Prêmio Nobel - todos os blogs, revistas, jornais e outros sites já estavam replicando a informação e escrevendo comentários. O nome de Vargas Llosa chegou a ser o primeiro da lista dos trending topics do twitter mundial.

Se vocês esteve desconectado, não leu os jornais, não ligou a TV e quer saber mais sobre o escritor peruano, recorra à internet. Para facilitar compilei alguns links que são interessantes:

Muitas informações podem ser encontradas na Folha de SP e no Estadão. Os dois jornais prepararam um especial bem completo tanto na versão impressa quanto no site. Do Estadão eu recomendo dois links importantes: a entrevista que Vargas Llosa concedeu ao Sabático - antes de ser anunciado como ganhador do Nobel - e um infográfico com a trajetória de vida dele. O New York Times cobriu a entrevista coletiva que ele concedeu, depois do pronunciamento da Academia Sueca. Outros jornais também deram a mesma notícia. Há também uma entrevista para a Paris Review e um texto do escritor William Boyd sobre Vargas Llosa no Guardian.

Aliás, o mesmo Guardian fez uma lista com os romances essenciais de Vargas Llosa:

A cidade e os cachorros (1963), Tia Julia e o escrevinhador (1977), A guerra do fim do mundo (1981), A festa do bode (2000) e Travessuras da menina má (2006). Todos foram publicados no Brasil pela editora Alfaguara - exceto A festa do bode que está fora de catálogo.

Claro, tem muito mais coisas espalhadas pelo Google.

*imagem: reprodução do Guardian.


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domingo, 15 de agosto de 2010

MAIS UM POUCO DE JONATHAN FRANZEN

Jonathan Franzen está realmente vivendo um bom momento, independente da aparente crise instaurada na literatura dos Estados Unidos. Freedom, seu novo romance, recebeu críticas positivas do jornal New York Times e da revista New York. O livro será lançado no final desse mês nos Estados Unidos. Porém, dois trechos inéditos já apareceram na revista New Yorker: Good Neighbors e Agreeable.

Freedom conta a história da família Berglund formada pelo casal Patty e Walter Berglund e o filho adolescente, Joey. Eles parecem constituir aquele tipo de família ideal, até o momento em que as coisas começam a mudar sem nenhum motivo aparente. O filho se muda de casa, o marido arruma um emprego estranho, um antigo amigo do marido reaparece e a mulher já não é mais quem costumava ser. O romance serve como uma grande metáfora dos nossos tempos, com pessoas lutando para aprender a viver num mundo tão confuso.

Não foi à toa que a revista Time estampou Franzen na capa com as seguintes palavras: "O grande escritor americano - Ele não é o mais rico ou o mais famoso. Suas personagens não solucionam mistérios, não tem poderes mágicos ou vivem no futuro. Porém em seu novo romance, Jonathan Franzen nos mostra a maneira como nós vivemos hoje". Uma crítica velada aos fenômenos literários que estão dominando a lista de livros mais vendidos.

Enquanto Freedom não chega, podemos ler em português As correções (foi publicado pela Companhia das Letras, com tradução de Sérgio Flaksman). Esse romance ganhou diversos prêmios da crítica e rendeu a Franzen comparações com o melhor de John Updike, Thomas Mann e Don Delillo. O livro também se concentra sobre um núcleo familiar: os Lambert. Enid sente que já cumpriu seu papel de mãe e esposa; Alfred é uma aposentado que está sofrendo as consequência do mal de Parkinson; Gary, Chip e Denise, os três filhos do casal, vivem suas próprias tragédias pessoais espalhados pelos Estados Unidos. Um retrato bastante interessante da família americana nos anos 90.

Aproveitando que Jonathan Franzen está na moda, quero reproduzir aqui dez regras pessoais que ele usa quando vai escrever um livro. O artigo original saiu no Guardian (Ten rules for writing fiction) e revela as regras seguidas por diversos escritores. A tradução é minha e foi feita literalmente:
1. O leitor é um amigo, não um adversário, não um espectador.

2. Ficção não é uma aventura pessoal de um autor para o assustador ou o desconhecido não vale a pena escrever por nada a não ser pelo dinheiro.

3. Nunca use a palavra "então" como uma conjunção - nós temos "e" para este fim. Substituir "então" é a preguiçosa ou a desatenta não-solução do escritor para o problema de muitos "es" na página.

4. Escreva na terceira pessoa a menos que uma voz muito distinta em primeira pessoa se ofereça irresistivelmente.

5. Quando a informação se torna livre e universalmente acessível, uma volumosa pesquisa para um romance é desvalorizada junto com ele.

6. A mais pura ficção autobiográfia requer pura invenção. Ninguém nunca escreveu uma história mais autobiográfica do que "A Metamorfose".

7. Você vê mais ainda reunindo do que perseguindo depois.

8. É duvidoso que qualquer pessoa com uma conexão à internet em seu local de trabalho está escrevendo boa ficção.

9. Verbos interessantes raramente são muito interessantes.

10. Você tem que amar antes que você possa ser implacável.

*imagem: reprodução do site da Cia das Letras.
P.S: A Companhia das Letras também publicou um outro livro de Franzen, chamado A zona de desconforto - no entanto, eu quis privilegiar apenas as obras de ficção do autor.

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terça-feira, 20 de julho de 2010

CAIXAS COM MANUSCRITOS INÉDITOS DE FRANZ KAFKA

Disputas judiciais envolvendo familiares ou herdeiros de escritores renomados trazem verdadeiros prejuízos para leitores e editoras do mundo todo. E o que poderia ser um benefício para gerações de futuros leitores pode virar dor de cabeça para as editoras.

Essa semana o Guardian, um jornal inglês, publicou um artigo dizendo que quatro caixas que pertenceram a Max Brod podem conter manuscritos inéditos de Franz Kafka. Como se sabe, Kafka deixou toda a sua obra sob responsabilidade de Max Brod assim que morreu. A pedido do escritor, Brod deveria ter destruído todo o material. Felizmente o amigo ignorou o pedido e publicou alguns livros de Kafka que ficaram inacabados - verdadeiras obras-primas da literatura do século XX. Perseguido por nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, Max Brod fugiu para Israel levando consigo todos os manuscritos de Kafka. Lá, Brod teve um relacionamento com Esther Hoffe para quem deixou em testamento os diretos sobre a obra de Kafka. A atual disputa, segundo o jornal, envolve justamente as filhas de Esther Hoffe e o estado de Israel.

Aqui no Brasil a situação não é muito diferente. A revista Época publicou essa semana uma matéria chamada "Profissão: herdeiro" explicando as questões em que estão envolvidas a obras de Oswald de Andrade, Nelson Rodrigues, Graciliano Ramos, entre outros.

A Folha de SP também publicou uma matéria na Ilustrada sobre o mesmo assunto. Porém, o foco era apenas na obra de Cecília Meireles. A matéria está disponível apenas para assinantes.

* imagem: reprodução do Guardian.


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