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quinta-feira, 31 de maio de 2012

QUERELAS DO BRASIL OU DA LITERATURA BRASILEIRA


Será Clarice Lispector capaz de romper com o nosso complexo de vira-latas?

Fiquei pensando nisso depois de ler um artigo no jornal Los Angeles Times sobre o relançamento de quatro livros dela nos Estados Unidos em nova tradução e novo projeto gráfico -
Perto do coração selvagem (tradução: Alison Entrekin), Água viva (tradução: Stefan Tobler), A paixão segundo G.H. (tradução: Idra Novey) e Um sopro de vida (tradução: Johnny Lorenz). Os livros estão saindo pela editora New Directions com coordenação e supervisão de Benjamin Moser que além de ser o autor da biografia Clarice, também traduziu para o inglês A hora da estrela, lançado ano passado pela mesma New Directions.

O artigo do L.A. Times, além de muito elogioso, apresenta Clarice Lispector aos leitores norte-americanos, conta um pouco do enredo de cada livro, fala das novas traduções e termina dizendo que a escritora deveria ser colocada nas prateleiras entre Franz Kafka, James Joyce e Virginia Woolf - três grandes escritores do século XX.

Aqui eu volto para o ponto inicial, pois como todo mundo sabe o brasileiro tem uma tendência a tratar sua própria literatura com certo descaso. Parece que a gente lê, crítica e comenta com muito entusiasmo os autores estrangeiros porque achamos que a literatura do lado de lá sempre é mais verdinha. Dizemos que os argentinos tem a melhor literatura da América Latina, ficamos com inveja dos chilenos e seus feitos, veneramos os norte-americanos e admiramos a literatura europeia (dividindo nossa atenção de forma equivalente entre ingleses, franceses, espanhóis e alemães). Os argentinos conquistaram a América do Norte e a Europa com Borges, Cortázar, César Aira e companhia. Os chilenos estão dando um baile com Bolaño e Alejandro Zambra. Os norte-americanos tem os seus milagrosos cursos de escrita criativa. Os europeus tem a tradição. E o Brasil?

A coisa muda bastante de figura quando um gringo vem e nos diz que temos grandes autores. Dessa maneira somos capazes de reconhecer o nosso talento e beleza. Aceitamos aquele escritor que estava bem ali, debaixo do nosso nariz. Só que mesmo quando isso acontece nosso complexo vira-latas anda a espreita e pensamos: a gente de fato dá alguma bola para a literatura nacional? Será que esse autor consegue retirar nossa literatura da periferia para colocá-la no centro?

Fique claro que estou me referindo apenas a ficção contemporânea - mas com uma cabeça na Clarice Lispector.

O problema (sabiamente batizado por Nelson Rodrigues de complexo vira-latas) não é novo. Pelo contrário: é mais ancestral do que a gente pode imaginar. Remete as formações da nossa literatura onde a questão da identidade sempre foi um conflito. Como se reconhecer em algo que a gente não consegue definir exatamente? Para ser nacional precisa ter índios, mulatas, carnaval, futebol e pobreza? Como romper essa barreira? Na impossibilidade de vencer o desafio proposto ouvimos aos montes que a literatura brasileira comparada a estrangeira é ruim. Sobretudo da crítica acadêmica: Antonio Candido afirmando que, “comparada às grandes, a nossa literatura é pobre e fraca. Mas é ela, não outra, que nos exprime”; e porque não lembrar também do caso Alcir Pécora na série "Desentendimento", do Instituto Moreira Salles - resumindo a conversa Pécora acha que a literatura perdeu importância. Daí não me espanta os jovens críticos da internet (e da acadêmia) e o pessoal dos cadernos culturais dedicarem laudas e mais laudas à literatura estrangeira.

(Aqui eu faço um parênteses para lembrar não só de Nelson Rodrigues, mas também de Tom Jobim e Caetano Veloso reclamando do mesmo problema em relação a nossa cultura. Caetano, certa vez, disse que os cadernos culturais do país dedicavam páginas inteiras a bandas que não tinham tanta importância em seus países de origem e não dedicavam uma linha crítica aos brasileiros. A transposição cabe para a literatura).

Estou juntando numa mesma panela vários ingredientes diferentes, promovendo digressões, borrando matizes, generalizando. Mas não deixo de pensar que a enorme repercussão de Clarice Lispector nos Estados Unidos deve esbarrar na Inglaterra e possivelmente no resto da Europa. Assim, venceríamos nossa vergonha em relação a literatura estrangeira e imbuídos de algum orgulho poderíamos dizer: "somos bonitos pra caramba". Aliando isso ao nosso belo momento econômico, a força da nossa jovem literatura (que está fervilhando de bons escritores - acreditem!) e aos nossos tímidos avanços no campo da leitura teremos uma combinação perfeita para mudar nosso descaso com nossa própria literatura.

Para esclarecer: é verdade que Clarice Lispector faz um tremendo sucesso aqui no Brasil e goza de um grande número de leitores devotos. Quando publicou seu primeiro livro ganhou atenção merecida da crítica. Também não é a primeira vez que a sua obra está sendo traduzida para o mundo inteiro. Além disso, outros países (outra culturas) já alimentam interesse por ela faz tempo - acho que sobretudo na França. Jovens escritores da Argentina também tem admiração e chegam a citá-la como influência. A edição do ano passado do FILBA teve mesas temáticas dedicadas a sua obra.

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Em tempo, críticas e notícias a respeito do relançamento das obras de Clarice Lispector nos Estados Unidos saíram nas páginas gringas da Vogue, da Publisher's Weekly, da Quarterly Conversation e nos blogs The Millions e da editora Tin House. Benjamin Moser também foi convidado para um podcast muito bacana chamado That Other Word. Contos dela também apareceram recentemente na Paris Review e no projeto Recommended Reading (do pessoal da Electric Literature).

As edições da New Directions estão ganhando textos de apresentação de Caetano Veloso, Jonathan Franzen, Pedro Almodovar, Colm Toíbín e Orhan Pamuk.

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Não posso deixar de citar o caso de Woody Allen que numa entrevista do ano passado afirmou que tinha adorado Memórias Póstumas de Brás Cubas. Será que isso tornou Machado de Assis mais popular?

Também quero lembrar dois textos do qual peguei emprestado algumas ideias: "Notícia da atual literatura brasileira: instinto de internacionalidade", de Sérgio Rodrigues (uma resenha sobre romance de João Paulo Cuenca com brilhante descrição de toda a trajetória da literatura brasileira desde a sua formação e os problemas de identidade nacional até uma luz do fim do túnel, uma saída para o impasse com o "instinto de internacionalidade" - recomendo vivamente, inclusive é possível reconhecer certos trechos que retirei dali); e "A irrelevância da literatura brasileira", de Joca Reiners Terron (com ideias e explicações da maior importância - inclusive no fato de César Aira achar nossa literatura a melhor do continente e comentar seu entusiasmo com Sérgio Sant'Anna cuja obra ele mesmo está traduzindo e divulgando. Será que vamos ler mais Sérgio Sant'Anna?).

*Imagem: reprodução do Google.

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terça-feira, 21 de junho de 2011

MACHADO DE ASSIS INFLUENCIOU WOODY ALLEN? (2)


Meia-noite em Paris, novo filme do Woody Allen entrou em cartaz nos cinemas no final de semana. Por conta do filme, encontrei uma outra entrevista com Woody Allen falando sobre os livros que serviram de inspiração para o seu trabalho. Ele fala novamente sobre Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis e dessa vez um pouco mais detidamente:

O livro transforma a mortalidade e as aventuras amorosas em comédia e está mergulhado num pessimismo irônico que parece familiar aos seus filmes. Como o livro influenciou você?

Não é que o livro me influenciou, ele ressoou em mim, da mesma maneira como quando vejo filmes de Ingmar Bergman. Eles significam algo para mim por causa de suas preocupações e da sua visão de vida. Ele despertou algo em mim, da mesma forma que O Apanhador no campo de centeio fez. Era sobre um assunto que eu gostava e tratava com grande sagacidade, grande originalidade e sem sentimentalismo.
Nas demais perguntas o livro aparece de viés. O entrevistador pega apenas os temas e tenta relacionar com os filmes de Woody Allen, mas ele desconversa um pouco. Uma pena que Woody não tenha comentado mais sobre as impressões de leitura. Não dá para afirmar que o livro foi uma influência, mas os temas de Machado de Assis são de fato muito familiares aos seus filmes.

*Imagem: reprodução do filme Meia-noite em Paris.

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sábado, 7 de maio de 2011

MACHADO DE ASSIS INFLUENCIOU WOODY ALLEN?



Não importa que o The New York Times Book Review tenha comparado Machado de Assis a Flaubert, Thomas Hardy ou Henry James. Nem que o New York Times tenha classificado o livro como "uma obra-prima da ironia epicurista". Woody Allen disse que só leu Memórias Póstumas de Brás Cubas porque o livro era fino. Salvo por poucas páginas! Ainda bem que não mandaram para ele um exemplar d'Os Sertões, de Euclides da Cunha. Seria descartado no primeiro contato.

Finda a tarefa, Woody falou que o livro era muito original e poderia ter sido escrito ontem - pela inventividade e tudo o mais. Sorte de Woody não ter passado a vida sem conhecer o nosso maior clássico. E tem gente que acha Machado de Assis velho, pode? Isso para não citar aquelas pessoas que acusam Machado de estragar o gosto dos adolescentes pela leitura. Ora vejam só!

O que eu mais me intrigou mesmo nessa história foi as semelhanças entre o livro do Bruxo do Cosme Velho e a obra de Woody Allen. Reparem: a narrativa metalinguística e a conversa com o leitor, tão típicas em Machado, sempre figuram nos filmes do Woody; A conturbada relação de amor de Brás com Marcela e Virgília serviriam como uma luva para o cineasta americano; e o que dizer do capítulo "O delírio", "O velho diálogo de Adão e Eva" e tantos outros? Dignos de Zelig, não?; isso para não falar da ironia, do humor, da agilidade... não sei, começo a achar que Machado de Assis deixa Woody Allen no chinelo!

Agora, será que Woody Allen leu uma edição de inglesa ou americana? Será que tinha aquele posfácio escrito pela Susan Sontag?

*imagem: reprodução da capa das edições americana e inglesa.

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