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domingo, 23 de junho de 2013

A FICÇÃO ESTÁ NAS RUAS


Pode ser que meus comentários tenham chegado por aqui um pouco tarde. As ruas foram bastante movimentadas ao longo dessa semana e o assunto foi pauta obrigatória de todos os jornais, revistas, canais de TV, redes sociais e mesas de bar. Não havia uma única pessoa que não tivesse uma opinião a respeito. Que bom! Sendo assim, pode ser que tudo o que eu diga nesse momento já tenha sido dito e redito - em breve descubro. Meu "atraso" aconteceu porque também estive ocupado indo para a rua engrossar o coro dos descontentes e observar tudo o que está acontecendo. 

Tanto a interceptação de informações de usuários da internet feita pelo governo norte-americano (furo do jornal inglês The Guardian) quanto os protestos que tomam as ruas do Brasil inteiro fazem pensar, guardando as devidas proporções, no modo como a realidade está cada vez mais próxima da ficção. 

Se a minha apuração estiver correta, o primeiro romance que pregou um futuro distópico foi Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, de 1932. Em resumo, o livro descreve uma sociedade controlada pela ciência e dividida em castas rígidas para garantir a harmonia entre todos os seus habitantes. Qualquer elemento que possa desestabilizar essa estrutura é mantido ao longe, tome como exemplo a droga "soma" que os cidadãos consomem quando sentem tristeza, insegurança etc. A frase mote é "dois gramas de soma curam tudo". Quando o livro foi publicado a história parecia muito implausível. Mais de oitenta anos depois, temos remédios que curam até tristeza, a manipulação genética é uma realidade e o controle social parece uma obsessão constante. 

Alguns anos depois, foi a vez de 1984, de George Orwell - o romance mais lembrando por qualquer pessoa quando o assunto é distopia. Tamanha popularidade foi comprovada com a notícia de que as vendas desse livro cresceram 7,000% no período de 24 horas após o furo de reportagem do Guardian. Todo mundo deve conhecer um pouco do enredo: Winston Smith, um homem insignificante e solitário, luta em vão contra as forças opressoras do regime político totalitário instituído pelo Partido que desenvolveu uma série de aparatos de controle: o Grande Irmão, um mecanismo de vigilância que registra a vida pública e privada de todos os cidadãos; o Ministério da Verdade que trabalha falsificando documentos oficiais para beneficiar o regime; o Ministério do Amor que pratica a tortura; a Novafala instituída para renomear as coisas etc. Muitos críticos enxergaram o livro como uma alegoria dos regimes totalitários da Europa e do regime comunista da antiga União Soviética. Algumas pessoas chegaram a considerar que o futuro descrito por Orwell não parecia tão distante da realidade - vide os ensaios que compõe a edição desse livro publicada recentemente pela Companhia das Letras. O tempo passou, o livro permaneceu e quando todo mundo achava que o enredo não passava de ficção surge esse furo do Guardian e a frase dita por O'Brien, um membro do Partido, a Winston ecoa pelas ruas: "só nos interessa o poder em si. Nem riqueza, nem luxo, nem vida longa, nem felicidade: só o poder pelo poder, poder puro".

Vale dizer que muitos momentos descritos na novela A revolução dos bichos também demonstram em alguma medida o controle social, a busca pelo poder e a manipulação de informações para promover uma classe dominante. Aparentemente, essa alegoria dos regimes totalitários ficou para trás e esteve colada a realidade por num determinado contexto histórico.

Voltando a 1984 e saindo um pouco do ramo da política afim de ilustrar elementos da ficção que estão virando realidade, basta considerar a captação de dados que o Google e as redes sociais praticam conosco. Por mais paranoico que possa parecer, essas ferramentas estão nos observando e nos oferecendo serviços baseado nos cliques que distribuímos pelo ciberespaço. De modo que não vai demorar muito para que todas as pessoas virem um perfil de uma página na internet. Será que existe algum livro de ficção sobre isso?

Não posso deixar de citar outros dois clássicos da distopia futurista: Fahrenheit 451, de Ray Bradbury (publicado em 1953) e Laranja mecânica, de Anthony Burgess (publicado em 1962).  Com menos força, ambos descrevem algumas situações que tem reflexo na nossa sociedade contemporânea - controle do Estado, manipulação das informações etc.

Para finalizar, a revista norte-americana The Atlantic fez um pequeno artigo dizendo que na verdade Franz Kafka, e não George Orwell, pode nos ajudar a entender melhor os últimos acontecimentos do mundo. Segundo o artigo, o livro The digital person, de Daniel J. Solove aponta que O processo, de Kafka como uma metáfora:

"[o livro] retrata uma burocracia com fins inescrutáveis ​​que usa informações das pessoas para tomar decisões importantes sobre elas e nega ao povo a capacidade de participar na maneira como as suas informação é utilizada. Os problemas capturadas pela metáfora de Kafka são de um tipo diferente dos problemas causados ​​pela vigilância. Eles muitas vezes não resultam na inibição ou na paralisia. Em vez disso, eles são problemas de processamento de informação - o armazenamento, uso ou análise de dados - ao invés de coleta de informações. Eles afetam as relações de poder entre as pessoas e as instituições do Estado moderno. Eles não só frustram o indivíduo, criando uma sensação de desamparo e impotência, como também afetam a estrutura social, alterando o tipo de relações que as pessoas têm com as instituições que tomam decisões importantes sobre suas vidas." (tradução minha).

Quero acreditar que felizmente, o mundo real é bem mais complexo do que o sistema desenhado por todos esses escritores. Muitas forças atuam na realidade. Torcemos para que a democracia garanta a mudança requerida pela vontade da sociedade civil e o mundo da ficção distópica restrito aos livros.

PS.: Não preciso explicar de que maneira esses livros servem para ilustrar a insatisfação brasileira nas ruas. Acho que está claro: burocracia, peso do Estado, manipulação das informações, aparelhos ideológicos e segue em frente.

Imagem: Reprodução de um cartaz que encontrei no Google.

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terça-feira, 31 de maio de 2011

NOTAS #26


Gêneros literários
Daniela Comani, uma artista plástica italiana radicada na Alemanha, costuma investigar em seu trabalho questões ligadas ao gênero feminino. Seu objetivo é mostrar que as mulheres não ocupam a história mundial do século XX e muito menos o cânone literário ocidental. Na série de trabalhos New Publications, a artista escolheu cinquenta e dois clássicos da literatura inglesa, espanhola, francesa, alemã e italiana e mudou o gênero de seus títulos. Assim, a capa de Os irmãos Karamozov ganha o título de As irmãs Karamozov; Madame Bovary vira Monsieur Bovary; e Dom Quixote se transforma em Dona Quixote. Não deixa de ser curioso e provocativo. A mostra está em exibição na Charlie James Gallery em Los Angeles.

Listas
O site Flavorwire (sempre com as listas das dez melhores coisas relacionadas à literatura) pediu a revista literária One Story (especializada em publicar contos) que escolhesse os dez maiores contos de todos os tempos. Na votação da equipe vários nomes foram citados e a editora da revista escolheu os clássicos - tudo segundo uma ordem bem particular, pessoal e aleatória. É fato que a nomeação é discutível, mas tem o mérito de mostrar uma reunião de contos não tão citados. Entre eles, “Para Esmé, com amor e sordidez”, de JD Salinger; “Os mortos”, de James Joyce; “Um senhor muito velho com umas asas enormes”, de Gabriel Garcia Marquez; “É difícil encontrar um homem bom”, de Flannery O’Connor; e “Catedral”, de Raymond Carver. A lista completa está disponível em http://tinyurl.com/3lrnta5

Áudio Huxley
Entre 1956 e 1957 a rádio americana CBS organizou uma série experimental de leituras dramáticas. Na estréia do programa nada menos do que uma adaptação em duas partes do clássico romance de ficção científica Admirável mundo novo, de Aldous Huxley. A peça que tem introdução e narração do próprio Huxley reapareceu na internet. O programa está disponível em duas partes: parte 1 e parte 2. [via openculture]

140 caracteres
No ano passado Jeff Howe criou no twitter um enorme clube do livro chamado "One Book, One Twitter". A experiência foi muito bem sucedida e teve cerca de 12 mil pessoas ao redor do mundo lendo Deuses americanos, de Neil Gaiman. Para tristeza de muitos, tudo terminou subitamente da mesma forma como começou - afinal, na internet as coisas às vezes são um pouco efêmeras. No entanto, Howe com a ajuda da revista The Atlantic recuperou a ideia. Dessa vez, o clube do livro foi rebatizado de "1book140" e vai ter um livro por mês comentado por seus seguidores. Dia primeiro de junho começam as leituras e discussões em torno de O assassino Cego, de Margaret Atwood - o primeiro livro escolhido pelos quase 5 mil seguidores. Quem quiser se aventurar só precisa seguir o perfil http://twitter.com/1book140 .




Moby Dick em imagens
Os desenhos incríveis de Matt Kish para cada páginas de Moby Dick serão publicados em livro. O ilustrador e artista plástico americano gosta tanto do romance de Herman Melville que em agosto de 2009 decidiu criar uma ilustração para cada página do livro. Ele fazia apenas um desenho por dia e postava o material num blog da internet. A longa jornada terminou em janeiro desse ano. O livro Moby-Dick in pictures: one drawing for every page vai sair pela editora Tin House em outubro numa edição caprichada que além dos desenhos inclui trechos do monumental romance da baleia. Os desenhos estão disponíveis em http://tinyurl.com/yajkgzu

34 leituras íntimas
A editora 34 em parceria com a Casa de Francisca realiza amanhã a quinta edição da série 34 leituras íntimas. Dessa vez, os escritores João Paulo Cuenca e Chico Mattoso vão ler trechos selecionados de obras com o tema Leituras de deformação. Quem estiver por lá vai ouvir histórias de outros escritores que revolucionaram a vida e a maneira de fazer literatura de Cuenca e Mattoso. Em outras edições o evento já reuniu Antonio Prata, Humberto Werneck, Verônica Stigger, Leandro Sarmatz, Beatriz Bracher, Noemi Jaffe, Fabrício Corsaletti e Fabiano Calixto. É importante reservar seu lugar com antecedência pois a Casa de Francisca é um pequeno café-teatro que costuma lotar. O endereço é Rua José Maria Lisboa, 190 - São Paulo.

A notícia Franzen da semana
Na semana em que Jonathan Franzen é assunto em diversos jornais e revistas, nada melhor do que reavivar a notícia Franzen da semana (para quem não se lembra, isso foi uma brincadeira que fiz no ano passado, quando Franzen estava fazendo um sucesso enorme nos Estados Unidos e na Europa). O Gotham Writers' Workshop perguntou a ele quais os conselhos para enfrentar o terrível bloqueio criativo. Franzen não titubeou e contou alguns macetes: "A certa altura, muitas vezes depois de meses de fracasso e frustração, eu sou forçado a parar e proceder a uma auto-análise através de anotações e conversa com amigos confiáveis". A conversa toda está disponível em http://tinyurl.com/3wcuwoh

*imagens: reprodução.
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