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terça-feira, 13 de maio de 2014

O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO AGORA?



Nas duas últimas semanas o Twitter (aquela rede social dos 140 caracteres) ganhou dois novos usuários ilustres: os escritores David Mitchell (@david_mitchell) e Ricardo Lísias (@ricardolisias). 


Ao contrário do que parece não se trata de um novo experimento literário usando o microblog. Mitchell vai publicar seu novo romance The Bone Clock, em setembro, e está aproveitando o serviço para promover o livro. Já Lísias - que não vai publicar nenhum livro por enquanto - está usando o serviço para se comunicar mesmo.

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Em tempo, Os mil outonos de Jacob de Zoet, de David Mitchell (com tradução de Daniel Galera) deve chegar às livrarias no segundo semestre e Divórcio (um livro muito genial sobre o qual eu gostaria de escrever algumas linhas) continua na recebendo boas resenhas.

*Imagem: reprodução da tela do Twitter.

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sexta-feira, 21 de março de 2014

NOTAS #45


DAVID FOSTER WALLACE POP
A vida do escritor David Foster Wallace durante a turnê de lançamento do monumental romance Infinite Jest será registrada no filme "The End of the Tour", dirigido James Ponsoldt - se não me engano, um diretor independente ainda pouco conhecido. A história será baseada no livro Although Of Course You End Up Becoming Yourself: A Road Trip with David Foster Wallace, escrito por David Lipsky quando era repórter da revista Rolling Stone e recebeu a missão de acompanhar Foster Wallace numa viagem de cinco dias para escrever um perfil sobre o sujeito que seria o escritor mais importante da literatura norte-americana contemporânea. Acontece que o perfil não foi publicado e anos mais tarde (após o suicídio de Wallace) o material virou um tremendo livro. O ator e comediante Jason Segel foi escalado para o papel de David Foster Wallace e o ator Jesse Eisenberg será David Lipsky.

O filme ainda não tem previsão de lançamento, mas as gravações já começaram e uma foto de bastidores (acima) está rodando a internet.

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Eu não sabia, mas o livro Breves entrevistas com homens hediondos ganhou uma versão para o cinema dirigida por John Krasinski - em 2009.

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No segundo semestre, a Companhia das Letras deve publicar a tradução de Caetano Galindo para Infinite Jest. O romance póstumo The pale king também está nos planos da editora, mas a tradução deve ficar para o ano que vem.

ACELERA!
Uma empresa norte-americana que estava de olho no mercado de aplicativos para celular pegou carona na mesma ideia daqueles antigos curso de "leitura dinâmica e memorização" e criou o Spritz, um aplicativo que aos poucos treina o seu olhar para ler até 600 palavras por minuto - não conheço uma pessoa que seja capaz de tamanha destreza. Não sei dizer em que medida essa leitura apressada pode ser proveitosa quando lidamos com textos de ficção mais elaborados (que tem como foco um trabalho de linguagem mais cuidadoso, poético, evocativo etc., onde o barato é curtir as palavras ao invés de chegar na última linha do livro). Talvez seja uma habilidade interessante para revisores, preparadores ou pessoas que trabalham com grandes quantidades de texto a toque de caixa. Pensar que os cursos de leitura dinâmica - será que ainda existem? - eram vendidos naqueles comerciais de TV estilo "ligue agora e adquira..." ou por meio daqueles vendedores que abordavam a gente na escola, no shopping ou na rua.

CLARO COMO HEMINGWAY
Você gosta de escrever e não consegue encontrar ninguém para revisar seus textos e dar aquele toque estilístico especial? Pois bem, agora existe um aplicativo que faz tudo isso por você e ainda deixa o seu texto com o mesmo estilo do famoso escritor Ernest Hemingway. Basta acessar o aplicativo, inserir o seu texto e pronto. 

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Estranho foi descobrir que alguns usuários inseriram textos do próprio Hemingway e o aplicativo fez algumas sugestões de alteração. Deve ser algum erro no algoritmo. 

UM CONTO, POR FAVOR
Carlos Henrique Schroeder é um sujeito inquieto. Além de leitor, escritor, tuiteiro, agitador cultural, editor-executivo da revista Pessoa e curador do Festival Nacional do Conto, ele ainda encontra tempo para organizar a coleção Formas Breves, da e-galáxia, totalmente dedicada ao gênero conto. Qualquer leitor que tenha um e-reader pode comprar um conto por R$ 1,99. Entre os autores da coleção estão Miguel Sanches Neto, André de Leones e José Luiz Passos, mas a ideia é lançar um conto inédito por semana.


CAMALEÃO
O escritor inglês David Mitchell, também conhecido como o camaleão da literatura inglesa, vai publicar um novo romance em setembro. The Bone Clocks vai contar a história de uma pessoa ao longo de seis décadas tendo como ponto de partida o ano de 1984.

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A tradução do elogiado romance Os mil outonos de Jacob de Zoet deve sair pela Companhia das Letras ainda esse ano. Bem que a FLIP poderia convidá-lo.

*Fotos: reprodução do Google e Twitter.

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quinta-feira, 21 de março de 2013

DUAS VEZES DAVID MITCHELL



Por essa ninguém esperava! Na semana passada a Companhia das Letras anunciou que vai publicar Cloud Atlas, de David Mitchell - atendendo ao pedido dos leitores. Trata-se do terceiro livro publicado pelo autor britânico e tem um enredo ambicioso ao cruzar seis histórias diferentes que estão separadas pelo tempo e espaço. O livro recebeu várias indicações para prêmios literários, venceu o primeiro Tournament of Books (em 2004) e no ano passado ganhou uma adaptação para o cinema pelas mãos dos irmãos Wachowski e Tom Tykwer (de Corra, Lola, Corra).

A mesma editora também está com tudo pronto para o lançamento de outro romance de Mitchell, Os mil outonos de Jacob de Zoet. Tinha previsão de sair no ano passado, mas acabou ficando para esse. Inclusive alguns trechos da tradução apareceram no tumblr do Daniel Galera - responsável por verter para o português do Brasil.

Os dois lançamentos vem para suprimir a falta de contato que nós temos com um dos escritores mais celebrados do momento. Antes disso, só tinhamos a disposição Menino de lugar nenhum (publicado pela própria Companhia das Letras) e a tradução de Atlas das Nuvens que saiu em Portugal (pela Editorial Presença).

*Imagem: divulgação / site do autor.

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sexta-feira, 31 de agosto de 2012

NOTAS #39

Favorito ao Nobel
A editora Alfaguara divulgou a capa definitiva do livro
1Q84, de Haruki Murakami cujo primeiro volume (com 450 páginas) deve chegar ás livrarias brasileiras em novembro. Os outros dois volumes terão lançamento em 2013.

Man Booker Prize 2012
A shortlist do Man Booker Prize foi anunciada. Entre os seis concorrentes estão os estreantes Jeet Thayil com Narcopolis e Alison Moore com The Lighthouse; os veteranos Deborah Levy com Swimming Home, Will Self com Umbrella e Tan Twan Eng com The Garden of Evening Mists; e a ganhadora do prêmio em 2009, Hilary Mantel com Bring up the Bodies.

A crítica inglesa considera que Hilary Mantel é a favorita dentre os finalistas - ela está quase com o caneco na mão porque também lidera o ranking de apostas da casa Ladbrokes. As únicas coisas que podem estragar sua festa são Will Self (outro forte candidato que está praticamente empatados com Mantel no painel da Ladbrokes) e o fato de ter ganhado o prêmio recentemente.


Campeão de vendas
No dia 15 de setembro chega às livrarias Cinquenta tons mais escuros, o segundo livro da trilogia escrita pela autora inglesa E.L. James. Parece que 90% da tiragem inicial de 350 mil exemplares já foi comprada pelos leitores na pré-venda. A ansiedade é tão grande que muitas leitores estão recorrendo a traduções piratas que estão espalhadas na internet - a maioria delas deve ter sido feita pelo Google Tradutor e tem muitos problemas. As mulheres estão desesperadas.

A Intrínseca liberou as 30 primeiras páginas como aperitivo - para acalmar os ânimos.

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A trilogia vai virar filme, mas por enquanto nenhuma data prevista para lançamento foi anunciada.

A literatura vai ao teatro...
No SESC Belenzinho, em São Paulo, a Sutil Companhia de Teatro está em cartaz com a peça O livro de itens do paciente Estevão inspirada no livro O paciente Steve, de Sam Lipsyte. Conta a história de Steve, um homem que foi diagnosticado com uma doença incurável e sem nome. A peça fica em cartaz até 21/10 com apresentações sextas e sábados, às 18h e domingo, às 17 h. Já o livro está fora de catálogo, mas disponível em sebos - foi publicado em 2003 pela Editora Globo.

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No Centro Cultural Correios, no Rio de Janeiro, Marco Nanini está em cartaz com a peça A arte e a maneira de abordar seu chefe para pedir um aumento baseada num livro homônimo de Georges Perec. Tudo o que precisa ser dito sobre o enredo está no título. Numa entrevista para o jornal Folha de SP, o ator disse que teve vontade levar o texto ao teatro por causa do seu caráter experimental - tal qual um manual de anti-ajuda o leitor espera dicas práticas para conseguir um aumento de salário, mas é surpreendido pelos pensamentos obsessivos da personagem que chega a montar um organograma prevendo todas as situações possíveis e imagináveis entre "sim" e "não". A peça fica em cartaz até 28/10 com apresentações de sexta a domingo, às 19h. O livro está disponível nas livrarias - foi lançado pela Companhia das Letras em 2010 e tem tradução magnífica de Bernardo Carvalho.

Bom momento para celebrar os 30 anos sem Georges Perec.

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No Teatro Novelas Curitibanas, em Curitiba, o grupo Teatro de Breque está em cartaz com o espetáculo Em breve nos cinemas livremente inspirado em estruturas narrativas e temas da obra de David Foster Wallace. A peça fica em cartaz até 14/10 com apresentações de quinta a domingo, às 20h. Por enquanto, o único livro de David Foster Wallace disponível em português é Breves entrevistas com homens hediondos - foi lançado pela Companhia das Letras em 2005 e tem tradução de José Rubens Siqueira.

... e ao cinema
Em outubro estreia nos Estados Unidos Cloud Atlas, um filme dirigido pelos irmãos Wachowski e por Tom Tykwer (o diretor do filme Corra, Lola, corra) baseado no ambicioso romance de David Mitchell. O livro é composto de seis histórias interligadas que numa espiral vertiginosa através do tempo e espaço vão do século XIX ao futuro apocalíptico. Mitchell é tido pelos críticos anglófanos como um dos melhores escritores de sua geração por causa do seu experimentalismo formal e temático - como um camaleão, ele muda bruscamente seu estilo de um livro para outro. O único romance de Mitchell disponível em português é Menino de lugar nenhum publicado em 2008 pela Companhia das Letras com tradução de Daniel Pellizzari. Também estava previsto para esse ano a tradução de Os mil outonos de Jacob de Zoet, assinada por Daniel Galera - pela Cia das Letras.

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Cloud Atlas continua fora dos planos de tradução das editoras daqui. Quem quiser pode recorrer a tradução portuguesa de Helena Ramos e Artur Ramos que saiu pela editora Dom Quixote (um selo do grupo português Leya), em 2007. O livro recebeu o simpático título de Atlas das nuvens.

*Imagens: divulgação.

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sexta-feira, 12 de agosto de 2011

FRAGMENTOS DE "OS MIL OUTONOS DE JACOB DE ZOET"

Daniel Galera postou no tumblr dele mais alguns trechos da tradução que está fazendo para The thousand autumns of Jacob de Zoet, de David Mitchell - em português deve ficar com o título Os mil outonos de Jacob de Zoet. A Companhia das Letras tinha previsão de lançar o livro nesse semestre, mas acabou ficando para o ano que vem. Enquanto isso, a gente pode matar a curiosidade com esses trechos:

"Da torre da igreja de Domburg, Jacob viu muitas ventanias chegarem a galope da Escandinávia, mas um tufão oriental tem algo de senciente e ameaçador. A luz do dia é violentada; a floresta se debate no crepúsculo prematuro das montanhas; a baía negra enlouquece com as ondas agitadas; golfadas de espuma do mar borrifam os telhados de Dejima; a madeira range e suspira. Os marujos do Shenandoah estão descendo a terceira âncora; o primeiro imediato dá berros inaudíveis no tombadilho. Para o leste, os comerciantes chineses e a equipagem fazem o que podem para proteger o que possuem. O palanquim do intérprete atravessa a Praça Edo vazia; a fileira de plátanos balança e chicoteia; não se vê nenhum pássaro voando; os barcos dos pescadores vão sendo arrastados até a margem e açoitados em grupo. Nagasaki está se recolhendo para uma noite das piores.”

"Ao se barbear, o homem relê sua mais fiel autobiografia.”

“Gaivotas voam em rodas raiadas de sol sobre telhados luzidios e palha desalinhada, fisgando tripas na feira e escapando por cima de jardins cercados, muros cobertos por lanças e portas de triplo cadeado. Gaivotas pousam nos frontões caiados, nos pagodes cheios de rangidos e estábulos cheios de esterco; circulam sobre torres e sinos cavernosos e sobre praças escondidas em que vasos de urina descansam ao lado de poços tampados, observadas pelos tocadores de mula e pelos cachorros com focinho de lobo, ignoradas pelos tamanqueiros corcundas; sobem pelo pedregoso Rio Nakashima ganhando velocidade e passam por baixo dos arcos de suas pontes enquanto são avistadas das portas das cozinhas e acompanhadas pelos fazendeiros que andam nas cristas elevadas e rochosas. Gaivotas furam as nuvens de vapor que saem dos tachos das lavanderias; sobrevoam milhafres desfiando cadáveres felinos; estudiosos vislumbrando a verdade em padrões ínfimos; adúlteros nas casas de banho; rameiras de coração partido; megeras desmembrando lagostas e caranguejos; seus maridos limpando cavalas nas lajes; filhos de lenhadores amolando machados; fabricantes de velas derramando ceras; oficiais de olhar ferino espremendo taxas; laqueadores estiolados; tintureiros de pele pintada; gente dizendo meias-verdades para acalmar; mentirosos mentindo sem piscar; tecedores de tatames; cortadores de junco; caligrafistas de lábios manchados molhando pincéis; livreiros arruinados por livros encalhados; damas de companhia; provadores; camareiros ; pájens roubando; cozinheiros com o nariz escorrendo; cantinhos escuros de sótãos em que costureiras fuçam nos calos dos dedos; trabalhadores fingindo doença; porqueiros; caloteiros; devedores mascando os lábios e esbanjando desculpas; credores que já ouviram tudo apertando o cerco; prisioneiros assombrados por vidas mais felizes e velhos devassos com a mulher dos outros; professores esquálidos provocados a dar broncas; bombeiros agindo como saqueadores de ocasião; testemunhas caladas; juízes comprados; sogras cultivando roseiras-bravas e rancores; droguistas amassando pilões; palanquins levando filhas que ainda não casaram; freiras taciturnas; putas de nove anos de idade; as outrora belas e hoje carcomidas; estátuas de Jizo sendo ungidas com ramalhetes; sifilíticos espirrando por narizes apodrecidos; ceramistas; barbeiros; mascates de óleo; curtidores; cuteleiros; carroceiros de excrementos; porteiros; apicultores; ferreiros e cortineiros; torturadores; amas de leite; abjuradores; batedores de carteira; os recém-nascidos; os que crescem; os firmes e os dóceis; os enfermos; os moribundos; os fracos e os inconformados; por cima do telhado de um pintor que se afastou primeiro do mundo, depois da família, para mergulhar numa obra-prima que se afastou de seu criador; até voltar ao mesmo lugar, até onde o voo teve início, sobre a varanda da Sala do Último Crisântemo, onde uma poça de chuva da noite passada está evaporando; uma poça na qual o Magistrado Shiroyama observa os reflexos borrados de gaivotas voando em rodas raiadas de sol. Esse mundo, ele pensa, abriga uma única obra-prima, que é ele próprio.”

“A verdade de um mito… não está nas palavras, e sim nos padrões.”

“Antes da chamada noturna, Jacob sobe na Torre de Vigia e tira o caqui do bolso do casaco. Os dedos de Aibagawa Orito deixaram marcas na fruta madura e ele encaixa nelas os próprios dedos, aproxima o presente das narinas, aspira sua doçura abrasiva e rola a sua redondeza sobre os lábios rachados. Me arrependo da minha confissão, pensa, mas que escolha eu tinha? Ele eclipsa o sol com o caqui: o planeta brilha alaranjado como uma lanterna de abóbora. Há uma espécie de poeira ao redor do chapéu e do caule pretos. Sem faca ou colher à mão, ele prende uma pontinha da casca cerosa nos indicadores e a rasga; o suco escorre pelo corte; ele lambe os pingos adocicados, suga fora um naco gotejante de carne filamentosa e o prende suavemente, suavemente, contra o céu da boca, onde a polpa se desintegra em jasmim fermentado, canela oleosa, melão perfumado, ameixas derretidas… e no coração da fruta ele encontra dez ou quinze pedras chatas, da mesma cor marrom e formato dos olhos asiáticos. O sol se foi agora, as cigarras calam, lilases e turquesas turvam e se diluem em cinzas sucedidos por cinzas ainda mais escuros. Um morcego passa a poucos metros, perseguido por sua própria turbulência felpuda. Não há o mais tênue sopro de vento. A fumaça sobe da chaminé da cozinha do Shenandoah e vai se desmanchando em torno da proa do brigue. As portinholas estão abertas e a água carrega o som de dez dúzias de marujos jantando no seu ventre; e como um diapasão posto a vibrar, Jacob reverbera com as partes e com o todo de Orito, com tudo que faz com que ela seja ela. A promessa feita a Anna arranha sua consciência como um esmeril, Mas Anna, ele pensa com desconforto, está muito afastada em milhas e anos; e ela me deu o seu consentimento, ela praticamente me deu o seu consentimento, e além disso ela jamais ficaria sabendo, e o estômago de Jacob ingere o presente escorregadio de Orito. A Criação não terminou na sexta noite, ocorre ao jovem. A Criação se desdobra ao redor de nós, apesar de nós e através de nós, na velocidade dos dias e das noites, e gostamos de chamá-la de Amor.”

David Mitchell, Os mil outonos de Jacob de Zoet via Daniel Galera.

*Imagem: hoita/reprodução do flickr.
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sexta-feira, 3 de junho de 2011

DAVID MITCHELL E ADAM ROSS A CAMINHO

Dois romances que singelamente deram o que falar em 2010 estão em tradução para o português. The thousand autumns of Jacob de Zoet, de David Mitchell e Mr. Peanut, de Adam Ross devem chegar as prateleiras das livrarias brasileiras no segundo semestre desse ano.

David Mitchell pode ser considerado um escritor veterano. Publicou cinco romances, todos muito diferentes entre si, que nunca passaram despercebidos por crítica e leitores. Além de contar boas histórias, ele tem um estilo muito particular que o permite escrever histórias de natureza variada indo dos monumentais romances com múltiplos narradores ao longo dos séculos a simplicidade da vida de um menino gago nos anos 80. James Wood, num perfil sobre o escritor para a New Yorker, disse que Mitchell tem mais histórias na cabeça do que maneiras de realizá-las. Em The thousand autumns... Mitchell recria a atmosfera do Japão no começo do século XIX para contar a história de amor de Jacob de Zoet, um mercador holandês, por Orito Aibagawa, uma parteira japonesa.

O livro está sendo traduzido pelo escritor Daniel Galera - tradutor de John Cheever, Zadie Smith, Jonathan Safran Foer e Irvine Welsh. Galera postou no tumblr dele um trecho da tradução. É curto, mas dá para acompanhar a beleza da prosa de Mitchell.

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Adam Ross é um escritor novato, mas autor de um romance bastante "pretensioso" para um estreante - como muita gente falou. Para se ter uma ideia, ninguém menos que Stephen King - o mestre do terror(!) - disse que Mr. Peanut lhe causou pesadelos. Falou mais, é "um fascinante olhar sobre o lado negro do casamento desde Quem tem medo de Virgínia Woolf?". A tal pretensão de Ross está na estrutura do romance. Ele queria construir uma história que lembrasse uma fita de Moebius - aquela fita que tem apenas "um lado" e não tem fim. Além da estrutura repetida, o livro tem alusões ao universo dos videogames, ao filme Janela indiscreta, de Alfred Hitchcock, a obra do artista M.C.Escher e remete a Raymond Carver, Cheever e Updike. Já nasce como grande literatura.

Misteriosamente Alice Pepin, que é alérgica a amendoins, aparece morta com um amendoim na garganta. O primeiro suspeito do crime é o marido dela, David Pepin. A coisa fica complicada quando descobrimos que os dois investigadores envolvidos no caso também tem relações estranhas com suas esposas.

O livro está sendo traduzido pelo escritor Daniel Pellizzari - tradutor de David Foster Wallace, Hunter S. Thompson, Lawrence Durrell, William S. Burroughs, Irvine Welsh e adivinhem: David Mitchell.

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Autores favoritos de David Mitchell: Italo Calvino, Haruki Murakami, John Banville, Vladimir Nabokov, George Eliot, Muriel Spark e Ursula K Le Guin.

Autores favoritos de Adam Ross: Saul Bellow, Vladimir Nabokov, Joseph conrad, Italo Calvino, Haruki Murakami, Alice Munro.


*Imagem: reprodução.
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domingo, 17 de outubro de 2010

DAVID MITCHELL: O CAMALEÃO

Outro dia, Kazuo Ishiguro disse que sentiu o espírito da velhice chegando quando se deparou com o primeiro romance escrito pelo inglês David Mitchell. Para Ishiguro, os livros de Mitchell tinham uma força imaginativa capaz de nos deixar de joelhos. A percepção não é compartilhada apenas por ele, críticos e leitores do mundo inteiro assinariam embaixo dessas palavras.

Pode parecer exagero, mas David Mitchell tem uma trajetória impressionante que justifica o excesso de elogio. Com apenas 41 anos, ele publicou cinco belos romances - todos são sucesso de crítica e público -, ganhou diversos prêmios importantes e foi três vezes indicado ao Man Booker Prize. Mitchell também foi citado pela revista Granta como um dos melhores jovens escritores britânicos. Seu estilo já foi comparado ao de escritores de peso como Tolstói, Dostoiévski, Mark Twain, Lawrence Sterne, James Joyce, Vladimir Nabokov, Thomas Pynchon, J.D. Salinger, Raymond Chandler, Don DeLillo, Haruki Murakami, William Gibson, Ursula K. LeGuin, Ítalo Calvino, Jorge Luis Borges e tantos outros.

O enorme talento de Mitchell vem de sua capacidade de contar boas histórias e de criar várias vozes diferentes para seus personagens. Ele é uma espécie de camaleão. Ghostwritten e Cloud Atlas, por exemplo, são romances que trabalham com múltiplas histórias contadas por personagens que pertencem ao passado, ao presente e ao futuro e todos são muito diferentes entre si e se conectam em algum aspecto. A maneira original de Mitchell de balançar as estruturas narrativas e mexer tanto na forma quanto no conteúdo lhe rendeu o rótulo de escritor experimental. Isso não deve servir como barreira para os leitores, Mitchell escreve livros cheios de humanidade.

Aqui no Brasil, seu único livro publicado é Menino de lugar nenhum - saiu pela Companhia das Letras. O romance conta a história de Jason Taylor, um garoto de 13 anos que vive com sua família na cidadezinha de Black Swan Green, na Inglaterra, em plenos anos 80. A maioria dos dilemas da adolescência são abordados com enorme originalidade e inventividade linguística. Taylor sofre por ser adolescente, por não figurar entre os garotos mais populares da escola em que estuda e por ser gago. Para escapar da truculência dos outros meninos, ele tenta de todas as maneiras não chamar atenção de ninguém. O casamento de seus pais também parece desmoronar aos poucos. Como pano de fundo, a Inglaterra da era Margaret Thatcher está concentrada na Guerra das Malvinas e na recessão econômica que assolou todo o mundo.

A proeza do romance vem de seu protagonista. Jason Taylor tem de enfrentar sozinho a dura tarefa de ser adolescente e aos poucos adentrar a vida dos adultos, como a gente na vida real. Acompanhando de perto essa fase da vida desse garoto, lemos passagens inteiras recheadas de uma imaginação fértil típica de alguém dessa idade: a velha da floresta, o menino morto no lago, os túneis secretos, a madame apreciadora de arte, o hospício da cidade - a gente não pode distinguir se Jason imagina ou vive de fato esses acontecimentos. David Mitchell disse uma vez que boas personagens são as únicas capazes de sustentar romances que lidam com experimentação de forma e conteúdo.

Menino de lugar nenhum é um romance em parte autobiográfico. Sua forma é mais convencional do ponto de vista da estrutura, mas isso não significa dizer que se trata de um romance menor. E o David Mitchell da vida real também é ligeiramente gago. Ele lida bem com isso falando mais pausadamente e pensando bastante no momento de responder perguntas - só por curiosidade, ouvi um podcast do Guardian que tem Mitchell como entrevistado.

Torço para que mais traduções dele cheguem por aqui. Acho que as mais urgentes são Cloud Atlas e o recente The Thousand Autumns of Jacob de Zoet.

*imagem: reprodução do New York Times.
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sexta-feira, 1 de outubro de 2010

NOTAS #2


Kindle para internet
A Amazon está fazendo testes de uma nova ferramenta chamada "Kindle for the Web" - literalmente, Kindle para Internet. O serviço permite que as pessoas possam compartilhar em blogs e redes sociais trechos de livros que estão lendo ou querem recomendar. O Youtube, por exemplo, trabalha com o mesmo princípio quando o usuário quer "incorporar" um vídeo no blog. Por enquanto, só usuários cadastrados no site da Amazon podem usar a ferramenta.

Pynchonmania
O escritor Thomas Pynchon vai tomar conta das nossas estantes nos próximos meses. A Companhia das Letras vai publicar em novembro "Vício inerente", romance escrito no ano passado pelo consagrado autor de "O arco-íris da gravidade". No Youtube está circulando um vídeo que segundo contam foi narrado por Thomas Pynchon em carne e osso. No ano que vem a Companhia também promete lançar "Contra o dia", escrito em 2006 e que tem mais de 1100 páginas na versão em inglês. O vídeo de "Vício inerente" está disponível em http://tinyurl.com/krj8ap

Manuscritos raros
A Biblioteca Britânica está digitalizando aos poucos seu acervo com mais de mil raros manuscritos gregos. O resultado do trabalho está disponível gratuitamente na internet e pode ser consultado em http://www.bl.uk/manuscripts. Há fábulas de Esopo, salmos, entre outros.

Reminiscências
O escritor Kazuo Ishiguro revelou alguns de seus livros favoritos para os leitores do book club da apresentadora Oprah Winfrey. Não é difícil perceber uma pequena influência que essas leituras exerceram na obra de Ishiguro. Ele mesmo justifica suas escolhas. Por exemplo, a maneira de conduzir uma narrativa em primeira pessoa está em Charlotte Bronté; o humor sem nenhum compromisso com as coisas difíceis da vida está em P.G. Wodehouse; as lembranças de casa e o medo de que a realidade traía a nossa memória vem de Homero. Cormac McCarthy e David Mitchell são as curiosidades da lista. McCarthy foi escolhido por causa do fascínio que velho oeste americano e seus caubóis exercem em nosso imaginário; já a força imaginativa de Mitchell fez Ishiguro perceber que estava realmente ficando mais velho.

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Os livros escolhidos foram: "Villete", de Charlotte Bronté; "Então tá, Jeeves", de P.G. Wodehouse; "Meridiano de sangue", de Cormac McCarthy; "Ghostwritten", de David Mitchell; "South of the Border, West of the Sun", de Haruki Murakami; "A odisséia", de Homero.

Lado B
Os livros de Shel Silverstein já comoveram inúmeras crianças e adultos com suas histórias poéticas e suas inconfundíveis ilustrações. Shel também era um compositor de mão cheia e tinha uma banda de rock and roll cujo disco mais conhecido é Freakin' At The Freakers Ball. Estão circulando na internet algumas histórias bem interessantes por trás da gravação desse disco. A melhor delas diz respeito as canções que nunca foram lançadas como: "Fuck'Em", "I love my right hand" e "I am not a fag". Como os títulos sugerem são canções politicamente incorretas até mesmo para os anos 70 e que revelam um certo humor negro do cartunista. Algumas dessas canções estão disponíveis no YouTube em http://tinyurl.com/2g746bj e http://tinyurl.com/3c6q53

*imagem: reprodução desse site.

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