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terça-feira, 31 de janeiro de 2012

E-BOOKS... CARREGANDO...


"O grande Gatsby foi atualizado pela última vez em 1924. Você não precisa de nova atualização, não é?" - Jonathan Franzen

Não tem jeito, todo mundo anda cansado das polêmicas envolvendo e-books, mas é quase impossível fugir do assunto. Ainda mais quando uma pessoa como Jonathan Franzen, o autor mais comentado dos últimos tempos, resolve entrar na briga. Para resumir a notícia: Franzen disse durante uma coletiva de imprensa no Hay Festival em Cartagena que os e-books estão corrompendo a sensação de permanência que os livros impressos carregam desde a sua invenção. Um livro impresso não muda. É o registro de um tempo, de um pensamento, de uma vontade e permanece com a forma que o seu autor lhe deu. Em contrapartida os e-books são fluídos. Lendo numa tela temos a sensação de que podemos deletar uma parte, mudar algo e mover tudo.

Detalhes curiosos e importantes: Franzen trabalha num computador sem conexão com a internet, a personagem Walter Berglund do seu romance Liberdade expressa uma ideia semelhante em relação à internet "All the real things, the authentic things, the honest things, are dying off" e seus livros ganharam versões em e-book.

O pensamento parece ingênuo, reacionário e apocalíptico - como muito defensores dos e-books vão dizer -, no entanto ele toca num ponto aparentemente inédito no debate: quem realmente vai garantir a permanência intacta de um livro eletrônico ao longo dos anos? Alguém poderia apagar ou alterar um livro por interesse próprio? Alguma corporação lucraria com isso?

Quando a Wikipédia surgiu muita gente reclamava de censura e controle na edição dos verbetes. A briga de Robert Darnton para digitalização do acervo da Biblioteca da Universidade de Harvard não é à toa. Estudos sobre os efeitos da internet em nossa memória pipocam por todos os lados - que o diga Nicholas Carr (A Geração Superficial / Editora Agir). Em tempos de SOPA, PIPA, caça a pirataria, Wikileaks, compartilhamento de dados e o escambau todo cuidado é pouco.

Voltando a Jonathan Franzen, penso no escritor Tom Rachman. Se ele estiver certo, Franzen (contra e-books), Zadie Smith (contra o Facebook), Jonathan Safran Foer (junto com seu irmão Joshua Foer contra a desmemoria da internet) e muita gente acima dos 30 anos serão os primeiros integrantes da geração que Rachman batizou como “românticos offline” - artigo muito interessante publicado pelo caderno Link, do Estadão.

(Um parêntese se me permitem. Tom Rachman também está numa matéria chamada "Internet imperfeita", publicada pelo Link. Ele fala mais detidamente sobre os "românticos offline", a reação que a hiperconectividade deve gerar em breve, a banalidade do Facebook e outras coisas mais. Vale lembrar que seu romance de estréia, Os imperfeccionistas, acaba de ser publicado em português pela editora Record).

Independente da força dos argumentos contra ou a favor, não existe uma conclusão definitiva sobre os e-books. Escritores, editores, livreiros e leitores estão no mesmo barco sem saber direito como se comportar em relação ao monólito que surgiu nos últimos anos. Parece mesmo que o fim dessa história vai ficar para depois. Enquanto isso debatemos e especulamos.

Ah! Jonathan Franzen estará na próxima edição da FLIP, em julho.

***

Em tempo, quero reproduzir uma nota sobre um futuro negro reservado ao e-book e publicada na coluna Painel das Letras, da Ilustrada/Folha de SP.
Pesquisa com editores americanos divulgada no Digital Book World, nesta semana em Nova York, mostrou um baque na empolgação com o e-book: só 28% creem que suas empresas melhorarão com a transição para o digital - eram 51% em 2011.
Aguardem cenas dos próximos capítulos.

*Imagem: reprodução do Twitter 'Emperor Franzen'

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domingo, 5 de junho de 2011

JONATHAN FRANZEN NA REVISTA VEJA



A revista Veja da semana passada tinha resenha de Jerônimo Teixeira para Liberdade, de Jonathan Franzen. Ocupando três página, o texto opta por revelar o forte caráter político do livro e aponta alguns pontos fracos. Tem ainda uma entrevista com o autor.

*imagem: reprodução.
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sexta-feira, 27 de maio de 2011

JONATHAN FRANZEN VEM A FLIP EM 2012

Vou confessar que estava esperando a presença do Jonathan Franzen na FLIP quando vi a notícia de que Liberdade seria publicado pela Companhia das Letras. No entanto, quando vi a programação oficial o nome dele não estava lá. Até fiz uma torcida, pensei em criar um hashtag "#vemfranzen". Quem sabe até já estava preparando um post especial para o momento do anúncio tal anúncio. Mas não foi dessa vez.

Esforços não faltaram. A Ilustrada de hoje tem uma entrevista com Jonathan Franzen e confirma a presença dele na FLIP do ano que vem - revela até as tentativas da Companhias das Letras para trazê-lo. Parece que ele não pode vir por incompatibilidade de agenda. Um pena! Seria um lançamento em grande estilo para Liberdade, um prestígio para a FLIP e nós teríamos a chance de ver um escritor em seu grande momento. Como todo mundo sabe, no ao passado ele foi eleito pela TIME como o grande romancista americano. As resenhas aqui no Brasil também não me deixam mentir.

Não tem problema. Guardamos o nosso entusiasmo para o próximo ano!

*imagem: reprodução.
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domingo, 15 de maio de 2011

JONATHAN FRANZEN NA GQ



A edição brasileira da revista QG tem um artigo curtinho escrito por Chuck Klosterman falando sobre Jonathan Franzen. O encontro deles aconteceu num trem quando Klosterman foi entrevistar Franzen na ocasião do lançamento de Liberdade. O artigo é um pouco raso, quase não toca em assuntos propriamente literários: fala de fama, da capa da Time e fica mais centrado na figura do escritor mais badalado dos últimos anos - um pouco menos que Roberto Bolaño, eu diria.

Klosterman diz que Franzen "é um pouco arrogante. Mas não intragável" e que ele não curte "nem um pouco" fazer turnês para lançamento de livros.

Acho que o momento mais curioso é quando Franzen revela seu gosto musical. Ainda jovem ele ouvia Moody Blues, Grateful Dead e Talking Heads, mas hoje só ouve música na academia. Figuram no seu playlist, segundo o artigo, Jackson 5, M.I.A., Grace Jones, Rolling Stones, Steely Dan e Mission of Burma.

***

Por ocasião do lançamento de Liberdade, a Companhia das Letras vai relançar As correções em edição econômica. Esse livro não causou o mesmo burburinho, exceto pela comentada recusa de Franzen em aparecer no book club da apresentadora Oprah Winfrey. De qualquer forma é uma obra-prima e teve diversos elogios mais "contidos" de crítica e público.

A capa dessa edição econômica é bem bonita. Não dá vontade de trocar a edição de 2003?

*imagem: reprodução.

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terça-feira, 19 de abril de 2011

JONATHAN FRANZEN ESTÁ CHEGANDO

Aos poucos estão surgindo mais notícias sobre a chegada do romance que abalou a mídia norte-americana. Liberdade, de Jonathan Franzen tem previsão de lançamento em 26 de maio pela Companhia das Letras. Em Portugal o romance será lançado na próxima segunda-feira - mais detalhes da edição portuguesa aqui.

A Livraria da Folha postou um pequeno trecho inédito do romance com tradução feita por Sergio Flaksman. No site também tem um comentário sobre a trajetória do livro lá nos Estados Unidos. Vou reproduzir aqui o parágrafo inicial para quem está curioso:


"Uma coisa ótima do jovem Walter era o quanto ele torcia para Patty vencer. Enquanto Eliza antes só demonstrava pequenos respingos insatisfatórios de parcialidade a seu favor, Walter lhe dedicava abundantes infusões de hostilidade contra qualquer um (seus pais, seus irmãos) que a deixassem aborrecida. E como ele era tão intelectualmente honesto em outros aspectos da vida, tinha uma credibilidade impecável quando criticava sua família e se alistava nos planos questionáveis que ela formulava para lidar com isso. Podia não ser exatamente o que ela queria num homem, mas era insuperável em sua dedicação, provendo Patty do apoio furibundo que, naquela época, ela precisava mais ainda que de amor".
A capa (imagem acima) foi criada por Elisa v. Randow. Uma simpática cerca bem ao estilo americano. Gostei porque fugiu a imagem ruim da edição americana (aquela do passarinho) e foi bem além daquela letra grande na edição inglesa e portuguesa (que não ficou ruim, mas acho que a nossa é bem melhor).

*imagem: reprodução.
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terça-feira, 5 de abril de 2011

A MULHER QUE VENCEU FRANZEN

O romance A visit from the goon squad, de Jennifer Egan venceu o Tournament of Books 2011. A notícia é bem curiosa, pois ela venceu o favoritismo de Jonathan Franzen e seu aclamado romance, Freedom. A disputa foi bem acirrada e a decisão deve ter sido bem difícil para os dezessete jurados, imagino. O placar ficou assim: A visit from the goon squad 9 x 8 Freedom.

Com bem noticiou o LA Times, Jennifer Egan também ganhou o National Book Critics Circle Awards em março desse ano. Detalhe: ela estava disputando o prêmio com David Grossman, Paul Murray, Hans Keilson e Jonathan Franzen - outra vez.


Jennifer Egan nasceu em 1962, nos Estados Unidos. Ela já publicou nas revistas New Yorker, Harper's e New York Times magazine. Publicou um livro de contos e quatro romances. Se não estou enganado, The invisible circus ganhou tradução para o português e saiu pela editora Record com o título de Uma história a três - pegando carona na versão cinematográfica do livro.


*imagem: reprodução do NY Times.


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sexta-feira, 1 de abril de 2011

NOTAS #22



Jack Kerouac
No mês passado, o blog americano Vol.1 Brooklyn fez um card estampando Jack Kerouac. O card foi feito para comemorar o aniversário do escritor beatnik que nasceu em 12 de março de 1922 e se estivesse vivo iria completar 89 anos. Além do desenho o card tem um trecho de Visões de Cody.

O rei está pálido
Desde janeiro The pale king, de David Foster Wallace está sendo considerado por muitos como o lançamento do ano no mercado editorial americano. O livro está em pré-venda na Amazon e todo mundo está desesperado atrás de uma cópia para ler antes. Três resenhas de peso pintaram na imprensa essa semana para aumentar as expectativas em torno do livro. No New York Times, "Maximized Revenue, Minimized Existence" por Michiko Kakutani; na revista GQ, "Too Much Information" por John Jeremiah Sullivan; e na revista TIME, "Unfinished Business" por Lev Grossman - o mesmo que escreveu o perfil de Jonathan Franzen como o melhor romancista americano. O lançamento acontece em 15 de abril, nos Estados Unidos.

Resenhas
Logo depois de "a resenha está morta, mas juro que não fui eu", topei com uma fala do escritor Martins Amis. Ela está na contracapa do livro Como funciona a ficção, do crítico da revista New Yorker:
"Não presto atenção nem levo a sério as resenhas literárias. Não se aprende nada com elas. Mas o que o crítico James Wood diz me interessa."
Evidentemente, a frase foi inserida para promover o livro. No entanto, espécie de ato falho, serve como mais um ponto de reflexão sobre a 'arte' (vamos chamar assim) de fazer resenhas.



Liberdade, liberdade
Os portugueses já estão contando as horas para o lançamento do romance Liberdade, de Jonathan Franzen. Não custa lembrar que esse foi o romance mais comentado do ano passado. O livro tem previsão de lançamento em 18 de abril e já está em pré-venda em algumas lojas. Saí pela editora Dom Quixote. A capa segue o mesmo designer elegante da edição inglesa - bem melhor que a capa americana. No Brasil, Liberdade será publicado em maio pela Companhia das Letras.

Ouça um bom conselho
O jornalista Michael Gove escreveu um artigo para o Telegraph dizendo que as crianças deveriam ler 50 livros por ano. Bastou uma semana para que Iain Hollingshead, outro jornalista do Telegraph, fizesse uma lista com 50 livros que as crianças não devem ler antes de morrer. Entre os escolhidos somente clássicos da literatura: Ulisses, 1984, O grande Gatsby, Orgulho e preconceito etc. Num estilo bem satírico, o jornalista explica porque cada um desses livros deve ser afastado das crianças. Sobre Crime e castigo, por exemplo, ele diz "um conto de angústia mental e intensos dilemas morais. Felizmente, é mais curto do que Guerra e paz". A lista completa está disponível em http://tinyurl.com/4jbduhu

Conto coletivo
O jornal português Público convidou o escritor Gonçalo M. Tavares para dar início a construção de um conto coletivo. Batizada de Conto Público a experiência contou com a participação de 26 leitores e foi finalizada no mês passado com direito a publicação na revista que acompanha o jornal. A experiência colaborativa está ficando cada vez mais frequente - já vi muitas outras acontecendo. Embora a história pudesse caminhar para um lugar sem volta, Gonçalo M. Tavares ajudou na edição e participou em momentos pontuais. O resultado pode ser conferido em http://tinyurl.com/3rfu2lq

*imagem: reprodução.
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quarta-feira, 9 de março de 2011

TOURNAMENT OF BOOKS E COPA DE LITERATURA


Começou ontem o Tournament of Books 2011. A primeira disputa já teve cara de clássico: Freedom, de Jonathan Franzen enfrentou Kapitoil, de Teddy Wayne. Depois de mostrar seus argumentos, o jurado escolheu Freedom - o romance mais comentado do ano passado. Será que o falatório geral influenciou a decisão final do jurado? Só lendo a justificativa.

Eu imagino que a tarefa dos jurados nesse torneio não será nada fácil. Entre os concorrentes figuram nomes que concorreram ao National Book Award, Man Booker Prize e ao Pulitzer. Veja a lista:

Freedom, de Jonathan Franzen
Kapitoil, de Teddy Wayne
Room, de Emma Donoghue
Bad Marie, de Marcy Dermansky
Savages, de Don Winslow
The Finkler question, de Howard Jacobson
A visit from the good squad, de Jennifer Egan
Skippy dies, de Paul Murray
Nox, de Anne Carson
Lords of misrule, de Jaimy Gordon
Next, de James Hynes
So much for that, de Lionel Shriver
Super sad true love story, de Gary Shteyngart
Model home, de Eric Puchner
The particular sadness of Lemon Cake, de Aimee Bender
Bloodroot, de Amy Greene

Para quem não conhece o Tournament of Books é um campeonato em que dezesseis livros se enfrentam em esquema mata-mata. Ao todo são quatro grandes rodadas. Quem tiver melhor avaliação do jurado segue na disputa até a grande final. Nesse torneio participam apenas livros em língua inglesa. O intuito não é escolher apenas um dos livros mais bacanas do ano, mas promover a discussão de ideias em torno de livros que foram bem recepcionados pela crítica.

O Tournament tem disputas diárias e a primeira rodada termina na próxima semana. O ganhador do jogo de ontem, como falei, foi Freedom, de Jonathan Franzen. Hoje, quem ganhou foi Room, de Emma Donoghue.

Quem pensa que só os falantes da língua inglesa tem esse privilégio estão enganados. Nós temos a nossa Copa de Literatura Brasileira que começou no mês passado - já comentei aqui. As duas primeiras disputas, ou os dois primeiros jogos, elegeram Como desaparecer completamente, de André de Leones e O filho da mãe, de Bernardo Carvalho. O próximo jogo acontece na próxima semana. Você pode vestir a camisa do seu livro preferido, acompanhar e comentar a justificativa de cada jurado. As discussões estão muito boas.

*imagem: reprodução da tabela do Tournament of Books.
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sábado, 25 de dezembro de 2010

UM COMENTÁRIO SOBRE AS CORREÇÕES


Terminei na semana retrasada a leitura de As correções, de Jonathan Franzen. Estava devendo um comentário sobre o escritor mais famoso do ano e sobre um livro que é uma pequena obra-prima. Devo dizer que o livro de Franzen é longo e lento para os nossos tempos de dispersão e pouca concentração. Portanto essa leitura exige atenção. O livro é um pequeno catatau de fôlego cumprido. Por isso levei algum tempo para ler. No meio do caminho tive alguns contratempos, mas ao me afastar da leitura pude pensar melhor sobre o que estava lendo. E foi curioso ler As correções perto do Natal, no ano de centenário de Tolstói, na época da estréia do novo filme das Crônicas de Nárnia e no momento em que todos falam de Franzen. Parece que todas as coisas aconteceram juntas.

As correções é uma variação daquele tema do cidadão americano que pertence a classe média, mora nos subúrbios das grandes cidades ou no interior do país e tem uma família formada basicamente por marido, mulher e filhos. A diferença está na maneira como Jonathan Franzen desenvolve esse tema tão comum na literatura norte-americana – penso na tradição de John Updike, Don Dellilo e tantos outros atrás deles.

Ao concentrar todos os seus esforços na construção de suas cinco personagens, os integrantes da família Lambert, Franzen ataca a base daquilo que os Estados Unidos exporta para o mundo todo: o sonho americano. Evidentemente, o ideal de sonho americano já se espalhou e está entranhado na cultura ocidental. Os Lambert, assim como muitas famílias ao redor do mundo, não conseguem alcançar a tão sonhada estabilidade da vida tendo sucesso profissional e felicidade pessoal. Todo mundo sonha com isso. De alguma maneira a gente acredita que esse ideal humano possa abençoar os americanos e os habitantes dos países desenvolvidos, de modo que todos sejam assim como nos comerciais de TV e nos filmes de Hollywood. Por isso, atacar esse monumento da propaganda é sintomático. Não estou dizendo que Franzen inventou tudo isso. Desde que a literatura existe, os temores humanos ganham contornos nas páginas dos livros. Franzen é parte dessa cadeia.

A beleza de As correções está na grandiosidade humanamente trágica das personagens. Como muita gente disse, no momento em que Franzen publicou o romance a literatura pós-moderna (anti-realista, cheia de jogos linguísticos e estruturais) estava no auge nos Estados Unidos. Ele usou o realismo, não de modo retrogrado, para escrever um livro sobre seres humanos que poderiam estar ao nosso lado. Muitos também viram o romance como um pequeno painel do governo Bush e da sensação de ser americano depois dos ataques do 11 de setembro.

Anotei algumas interpretações bem particulares, ligando o romance a essa realidade americana:

Gary, o filho mais velho, mora na Filadélfia com sua mulher e seus três filhos. Sua “nova família” serve como uma espécie de contraponto para a “velha família”. Nela todos os novos valores da América estão presentes: o consumismo desenfreado das crianças, a manipulação emocional da mulher psicologicamente desestruturada, a depressão e a paranóia que rodam a sua vida. Gary queria uma vida diferente, mas ele tenta ser essencialmente racional e pragmático mesmo quando vê que todas as coisas fogem ao seu controle. Ele é incapaz de amar qualquer pessoa, seja sua mulher, seus filhos, seus pais e seus irmãos assim como o contrário também é verdade: ninguém consegue amá-lo. A coleção de fotografias antigas dos Lambert que ele tenta organizar serve como ilustração da sua condição: Gary é capaz de sentir alguma coisa quando olha de longe para elas. Para Gary, inconscientemente, a opressão de sua mãe é a razão de toda a sua infelicidade. Por isso ele tem um certo ódio direcionado a ela.

Chip, o filho do meio, mora em Nova York. Inteligente e bonito, ele se tornou professor numa universidade e tinha tudo para ter um futuro brilhante até que seu narcisismo o levou a manter relações sexuais com uma aluna. Sem emprego e sem vontade de procurar uma outra vaga, ele leva a vida tentando escrever roteiros para cinema. Enquanto Gary é depressivo e paranóico, Chip é narcisista e egocêntrico. Ele não é capaz de se importar com ninguém a não ser consigo mesmo. Por isso ele não se liga a família e não sofre com os problemas que seu pai, sua mãe e seus irmãos enfrentam. De alguma forma, a sua estada na Lituânia representa simbolicamente a política internacional dos Estados Unidos para com outros países menos desenvolvidos do mundo.

Denise, a filha caçula, também mora na Filadélfia. Depois de se casar em segredo e frustrar os planos de sua mãe, ela deseja se tornar uma chef de cozinha. A chance chega às suas mãos através de Brian, um homem rico que vai patrocinar a construção de um restaurante de primeira linha. Tudo começa a ir por água abaixo quando ela se envolve com Robin, a esposa de Brian. Denise é competitiva ao extremo, mas incapaz de controlar suas emoções.

Enid e Alfred, os pais, representam tudo aquilo que os Estados Unidos foram um dia. São parte da geração que viu os Estados Unidos se tornarem um país extremamente influente para o mundo todo.

Enid tenta ostentar a aparência de que sua família é realmente estável e feliz. Ela não quer enxergar os problemas de Gary, os trabalhos escusos de Chip e nem os relacionamentos estranhos de Denise. Embora saiba que nem tudo acontece como ela planeja, para suas amigas, ela conta sempre o contrário do que acontece com seus filhos. Frustrada com a doença de Alfred, Enid busca por um conforto nos antidepressivos – a grande cura para o seu sofrimento. Triste é perceber que ela sofre calada as frustrações da vida e sonha em ter toda a sua família reunida para um último Natal. Um Natal como aqueles dos comerciais de TV.

Alfred parece ser o símbolo dos Estados Unidos. Um senhor velho demais que está doente, mas que não perdeu a lucidez. Ele resiste o tempo todo a ajuda de qualquer pessoa, tem constantes alucinações de perseguição e qualquer gesto que tenha de fazer são verdadeiras batalhas. Em torno dele gira toda a família e todos os grandes conflitos. Os ataques do 11 de Setembro, a era Bush, os problemas econômicos e todos os problemas políticos nos Estados Unidos se assemelham a situação de Alfred.

De certa maneira lembra a humanidade das personagens de Tolstói, como muitos já disseram. Será um exagero? Agora é o momento de esperar por Freedom que deve ser lançado por aqui no ano que vem.

*imagem: reprodução do Google.

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segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

A ALEGRIA DAS LISTAS


Semanas atrás o New York Times publicou um ensaio falando sobre a alegria das listas. O texto faz uma brincadeira criando uma lista de poetas e escritores que interrompem a nossa leitura para nos obrigar a ler listas, catálogos, enumerações, e tudo o mais. Tem autores de todos vários momentos da história da literatura: os clássicos e os modernos. Lembra a ideia por trás do livro A vertigem das listas, de Umberto Eco.

O assunto ganha corpo, sobretudo nessa época, perto do fim do ano. Há listas por todos os lados: o melhor romance, o melhor conto, o melhor autor, a melhor capa e assim por diante. Entra ano e saí ano, coisa tome proporções enormes. Mas a verdade é que nós adoramos listas. A lista exerce um imenso poder de sedução porque ela define aquilo que não conseguimos compreender, citando Umberto Eco novamente. Também não deixo de pensar que uma lista pode servir como um filtro para aquelas pessoas que estiveram ocupadas o ano inteiro com outros assuntos e precisam de um lugar que concentre essa informação - gesto que combina muito com o nosso tempo. Além disso, as listas são instrutivas, divertidas, multiformes, perigosas, confusas e às vezes definitivas.

Para se ter uma ideia, praticamente todos os jornais e revistas americanas já definiram os livros do ano. Nem preciso dizer que Freedom, de Jonathan Franzen esteve em todas essas listas. O romance The imperfectionists, de Tom Rachman também foi bastante citado.

Por aqui, o assunto também já está circulando com força. A eleição do melhor do ano organizada pelo Todoprosa, de Sérgio Rodrigues terminou na sexta-feira. Ganhou O único final feliz para uma história de amor é um acidente, de João Paulo Cuenca, na categoria nacional, e 2666, de Roberto Bolaño, na categoria estrangeira.

Também na sexta-feira, o jornal O Globo começou uma votação pela internet para escolher os seus melhores de 2010. A categoria “melhor livro" mistura ficção e não ficção. Tem Roberto Bolaño, Cristovão Tezza, João Paulo Cuenca, Ian McEwan e outros. Os internautas podem votar aqui.

Com um projeto mais ambicioso, o programa Espaço Aberto da Globonews quer eleger os melhores livros da primeira década do novo milênio. Um júri composto por André Seffrin, Claufe Rodrigues, Edney Silvestre, Flávio Carneiro, Heloisa Buarque de Hollanda, Humberto Werneck, Livia Garcia-Roza, Lúcia Riff, Luciana Savaget e Ricardo Costa escolheu livros de prosa e poesia. Os escolhidos serão anunciados no último programa do ano, dia 31/12. Internautas também podem ajudar votando aqui.

Só que nem tudo é festa, a coluna de Daniel Piza no Estadão disse o seguinte sobre os melhores livros do ano: "É isso aí: poucas e boas reedições, releituras e, para quebrar a modorra, ensaios científicos. Mas é melhor viver disso do que de falsas novidades e velhas picaretagens".

*imagem: reprodução Google.

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Atualização: A revista Bravo! também montou uma lista com os melhores livros nacionais da década e liberou os cinco primeiros colocados no site. Quem quiser acompanhar as listas internacionais pode ficar de olho aqui.

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domingo, 12 de dezembro de 2010

NOTAS #12


Edição vintage
Uma edição antiga do livro O mágico de Oz, de Lyman Frank Baum autografado pelos atores do filme será leiloada essa semana nos Estados Unidos. A edição foi um presente do ator Jack Haley para o seu filho, com cinco anos na época - no filme Jack Haley fez o papel do Homem de lata. Entre as pessoas que autografaram o livro estão Judy Garland (Dorothy), Frank Morgan (o mágico), Jack Haley (o homem de lata), Ray Bolger (o espantalho), Bert Lahr (o leão covarde), Billie Burke (a bruxa boa) Margaret Hamilton (a bruxa malvada do oeste), o diretor do filme Victor Fleming, etc. O mais interessante é que Toto, o cachorrinho de Dorothy, também registrou sua patinha.

Pedaços de Frankstein
O manuscrito original do romance Frankstein, de Mary Shelley será exibido pela primeira vez num museu em Oxford, Inglaterra. A mostra ainda conta com outras peças raras de propriedade da escritora e sua família. Depois da Inglaterra a mostra parte para Nova York.

Saul Bellow lê
O centro cultural 92nd Street Y, em Nova York, revirou seus arquivos de áudio e disponibilizou na internet uma leitura de Saul Bellow para o livro O legado de Humboldt - existe apenas uma edição desse livro pela Nova Fronteira, mas está fora de catálogo. Foi com esse romance que Bellow faturou o Prêmio Pulitzer de ficção em 1976. A leitura tem 11 minutos de duração e está disponível em aqui.

Chinua Achebe ganha prêmio
A notícia é um pouco antiga, mas vale ser mencionada. O escritor nigeriano Chinua Achebe foi o ganhador do Gish Prize 2010. Achebe é autor do aclamado romance O mundo se despedaça - escrito em 1958 e traduzido para mais de 50 línguas. Graças ao seu sucesso, Achebe abriu portas para que diversos escritores africanos pudessem ser reconhecidos internacionalmente. O Gish Prize concede um prêmio de $300,000 de dólares para personalidades da cultura que façam trabalhos inovadores e diferenciados. Sobre o prêmio Achebe disse "Quando eu era criança, crescendo na Nigéria, se tornar um escritor era um sonho distante. Agora é uma realidade para muitos escritores africanos, não apenas para mim. O prêmio Gish reconhece a longa viagem que os meus colegas e eu temos tido, e eu estou orgulhoso e grato por isso". O prêmio foi entregue em outubro, nos Estados Unidos.

A notícia Franzen da semana (por que não?)
Na semana passada eu disse que iria publicar a última "notícia Franzen" do ano. No entanto, tenho de fazer uma ressalva. O problema é que Jonathan Franzen voltou a ser bastante comentado desde que os jornais resolveram divulgar suas listas de melhores romances do ano. Freedom está em absolutamente todas as listas. Para completar, Franzen concedeu uma entrevista para a nova edição da revista Paris Review e está num longo perfil da revista GQ. Além disso, ele participou essa semana do clube do livro da apresentadora Oprah Winfrey. Parece que dessa vez correu tudo bem e ele não se recusou a participar do programa.

O perfil da GQ está disponível em http://tinyurl.com/2833qer

A entrevista para a Paris Review não está disponível na internet. Alguns trechos importantes podem ser lidos em http://tinyurl.com/2bwwhgd

Um vídeo com Franzen respondendo pergunta dos leitores do clube do livro da Oprah Winfrey está disponível em http://tinyurl.com/23mahab

*imagem: reprodução LA Times.

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sábado, 20 de novembro de 2010

NOTAS #9


Ilustre Quixote
O pintor Jean de Bosschère fez desenhos impressionantes para uma edição do livro Dom Quixote de La Mancha datada de 1922. Nas mãos de Bosschère o cavaleiro de Cervantes ganhe uma aura espiritualista e obscura, bem ao do estilo do pintor. Quixote também foi ilustrado por outros pintores como Gustave Doré, Albert Dubout e Salvador Dali. Os desenhos de Bosschère estão disponíveis em http://tinyurl.com/2facvad

Mano Kerouac
Num período paranóico Jack Kerouac iria trazer a prosa espontânea das ruas dos Estados Unidos para dentro de seu mítico romance On the road. Cinquenta e três anos mais tarde Mike Lacher, escritor e designer, decidiu que a linguagem do romance precisava de uma atualização. Por isso, ele criou o tumblr On the bro'd. A ideia é simples: reescrever cada sentença de On the road na linguagem dos brothers. O resultado pode ser conferido em http://onthebrod.tumblr.com/

Pinguim danado
A editora Penguin está lançando uma caixa contendo 100 postcards diferentes com algumas de suas capas clássicas. A coleção é parte das comemorações dos seus 75 anos da editora. Tem desde as primeiras capas com duas faixas laranjas até edições mais modernas. Nem é preciso lembrar que o designer das capas da Penguin fizeram história e causam inveja no mundo todo. Como dizem, a Penguin sabe renovar um clássico.

Livros do ano
Sérgio Rodrigues do blog Todoprosa está organizando uma votação dos livros do ano lançados no Brasil. No total a lista dos concorrentes contará com dez autores brasileiros e dez autores estrangeiros. Os internautas e leitores podem indicar livros de sua preferência, sempre justificando a escolha com bons argumentos. Sérgio já deu pistas de que 2666, de Roberto Bolaño estará na lista. A votação começa em dezembro.

Manuscritos ameaçados
O Victoria and Albert Museum em Londres está em busca de doações para salvar os manuscritos de três romances de Charles Dickens. Entre as raridades estão David Copperfield e Um conto de duas cidades. Os manuscritos tem mais de 150 anos e estão bastante desgastados. Segundo o museu, a última restauração desses manuscritos foi feita nos anos 60.

A notícia Franzen da semana
Jonathan Franzen leu um trecho de seu badalado romance Freedom no 92nd Street Y, em Nova York. Ele subiu ao palco carregando uma valise, parecia um pouco tímido no começo e leu com rapidez os primeiros parágrafos. Depois ele foi acalmando e deu mais espaço para risada do público nos trechos irônicos. Ele dividiu a noite com a escritora Lorrie Moore, ambos responderam a perguntas enviadas pelo público logo após a leitura. Mais solto, Franzen fez graça e divertiu a platéia. Um trecho da leitura está disponível em http://tinyurl.com/234op6t

*imagem: reprodução do livro Dom Quixote.

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sexta-feira, 12 de novembro de 2010

NOTAS #8


Contos de fadas
Livros de contos de fadas sem ilustrações são muito sem graça. Quanto mais caprichada a ilustração, mais vamos gostar do livro. Pensando nisso, uma pessoa apaixonada por contos de fadas criou um Flickr para reunir ilustrações de livros bem antigos. A coleção conta com desenhos do principal trio de ilustradores do começo do século XX: Edmund Dulac, Arthur Rackham e Charles Robinson. Mais imagens estão disponíveis em http://tinyurl.com/y9srzkv

Nobel sem descanso
Mario Vargas Llosa mal ganhou o prêmio Nobel de Literatura e já retornou ao trabalho. Ele foi convidado pela Universidade de Princenton para ministrar um curso sobre técnicas do romance e outro sobre o escritor argentino Jorge Luis Borges. Vargas Llosa ainda lançou essa semana um novo romance, El sueño del celta. Ainda inédito no Brasil, esse livro tem previsão de lançamento em 2011 pela editora Alfaguara.

Autorretrato de Borges
O americano Burt Britton, co-fundador da lendária livraria New York Books & Company, conheceu de perto muitos escritores e outras figuras ilustres. Para cada um deles Britton fazia um pedido curioso: desenhar um autorretrato. A brincadeira ficou tão série que acabou virando uma coleção particular muito cobiçada - inclusive toda a coleção foi a leilão no ano passado e arrecadou lances altíssimos. Entre os escritores que se autorretrataram estão: Maurice Sendak, Margaret Atwood, Saul Bellow, Jorge Luis Borges, Roald Dahl, Allen Ginsberg, Stephen King, Cormac McCarthy, Norman Mailer, John Updike, Tom Wolfe e muitos outros. Uma parte desses desenhos pode ser vista em http://tinyurl.com/3x2zxeg

Nos bastidores
Dois autores do universo da prosa de ficção estão por trás do especial Afinal, o que querem as mulheres?: João Paulo Cuenca e Cecília Giannetti. Ambos escreveram o roteiro do seriado e contaram com a coautoria de Michel Melamed e do diretor Luiz Fernando Carvalho. Em entrevista os dois disseram da diferença entre escrever um livro solitariamente e de escrever para a TV em parceria com mais pessoas. Com duração de seis episódios e exibição semanal, o seriado vai ao ar na TV Globo.

Escolha editorial da Amazon
A megaloja Amazon fez a sua tradicional lista de melhores livros lançados no ano. Na categoria ficção os dez livros escolhidos são: Matterhorn, de Karl Marlantes; Freedom, de Jonathan Franzen; A mulher foge, de David Grossman; The Imperfectionists, de Tom Rachman; Major Pettigrew's Last Stand, de Helen Simonson; The Hand That First Held Mine, de Maggie O'Farrell ; Skippy Dies, de Paul Murray; One Day, de David Nicholls; Memory Wall, de Anthony Doerr e The Lonely Polygamist, de Brady Udall.

Honra ao mérito
Toni Morrison recebeu na França a Ordem Nacional da Legião de Honra - a maior condecoração de honra concedida pelo governo francês. Durante a cerimônia de entrega na semana passada Frederico Mitterrand, o ministro da cultura, disse que Morrison "incorpora a melhor parte da América, o que fundamenta o amor à liberdade nos sonhos mais intensos". Além de ser unanimidade de crítica como uma das melhores escritoras de seu tempo, Morrison também já ganhou o Prêmio Pulitzer e foi a primeira mulher negra a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura.

A noticia Franzen da semana

O jornal britânico Guardian disponibilizou o vídeo de uma entrevista com Jonathan Franzen. Sarfraz Manzoor, colaborador do jornal, pergunta ao escritor sobre o novo romance - Freedom, sobre a amizade com David Foster Wallace e sobre a política nos Estados Unidos. É interessante observar os óculos que foram cobiçados por uma dupla de malucos numa festa na Inglaterra e a imensa calma de Franzen ao responder as perguntas. O vídeo está disponível em http://tinyurl.com/2wjg5ql

*imagem: reprodução.


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quinta-feira, 30 de setembro de 2010

JONATHAN FRANZEN POP

Na imagem: Michael Chabon, Jonathan Franzen, Tom Wolfe e Gore Vidal nos Simpsons.

Depois da famigerada capa da Time, Jonathan Franzen continua sendo um dos assuntos mais comentados no mundo literário anglo-saxônico. Há uma série de razões para o falatório: Oprah Winfrey selecionou o livro para o seu famoso book club; na semana passada "Freedom" foi publicado na Inglaterra com direito a entrevista do autor para o Guardian e resenha do livro no Telegraph - aliás, achei a capa da edição inglesa bem mais bonita; por uma ou duas semanas "Freedom" chegou a desbancar o fenômeno Stieg Larsson na lista de e-books mais vendidos do Kindle na categoria ficção; etc.

Tamanha repercussão não podia deixar de ser acompanhada por brincadeiras e ironias. Achei bem interessante a paródia feita pelos editores da revista The Stranger em conjunto com o escritor Tao Lin. Eles fizeram uma perfeita reprodução da Time, começando pela capa com a mesma borda vermelha, o mesmo ângulo para a foto do escritor e a mesma chamada: "O maior romancista americano", nesse caso Tao Lin. O artigo escrito por Tao Lin falando dele mesmo continua com a mesma ideia reproduzindo linha por linha o texto escrito pelo jornalista Lev Grossman para a Time, mas invertendo seus sentidos.

O assunto também virou uma série de quadrinhos chamada "Imperador Franzen", fazendo referência a série Star Wars, tendo Franzen no papel do temido vilão Darth Vader e colocando os escritores Jonathan Sanfran Foer e Gary Shteyngart na ação. Se não me engano existe até um perfil no twitter com o nome de "emperor franzen".

Me parece que essas movimentações não visam um ataque direto a Jonathan Franzen e a qualidade de sua obra. Pelo contrário, Franzen é mesmo uma unanimidade nesse quesito. Todas essas críticas, na verdade, acompanham o período de transição pelo qual passa a literatura norte-americana. Os novos escritores não são americanos no sentido estreito do termo, alguns nasceram fora dos Estados Unidos, tem formação multicultural, visão de mundo diferente: há negros, orientais, latinos e muitas mulheres. A bronca dos americanos é justamente não ter na sua grande mídia mais espaço e variedade capaz de abarcar todas essas diferenças.

*imagem: reprodução.
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domingo, 19 de setembro de 2010

O GOSTO LITERÁRIO DOS PRESIDENCIÁVEIS

Não achei nada mau o artigo do caderno Prosa & Verso sobre os livros favoritos dos nossos principais candidatos à Presidência da República. Acho o assunto pouco comentado, merecia maior atenção por parte da imprensa especialidade. Imagine um longo perfil dos nossos candidatos baseado em seus hábitos de leitura? Alguém poderia flagrar cada um deles indo a livraria, lendo um livro num momento de descanso ou qualquer coisa do gênero.

Os candidatos também tem uma grande exposição durante esse período de campanha política. O fato de aparecerem com algum livro poderia, de uma maneira tímida, aguçar a curiosidade dos eleitores em torno daquele objeto. Mais ou menos como aconteceu com Barack Obama: em 2008 ele recomendou amplamente a leitura de Terras baixas, de Joseph O'Neill; esse ano causou certo frisson ao sair de uma livraria carregando Freedom, de Jonathan Franzen.

Segundo o artigo do jornal, nossos presidenciáveis preferiram citar apenas os clássicos. Ao contrário de Obama, nenhum deles mencionou algum escritor 'novo' ou ainda vivo - com exceção de Dilma Rousseff que está lendo "El hombre que amaba los perros”, de Leonardo Padura Fuentes. Marina Silva foi a única que não citou nenhum escritor de ficção, falou mais dos grandes acadêmicos que compõe a sua biblioteca.

Os campeões na preferência dos candidatos são Fiódor Dostoiévski e Guimarães Rosa. Ambos foram citados por três dos quatro candidatos. Achei curioso as particularidades: Dilma falou de Proust e seu "Em busca do tempo perdido"; Serra falou de Nelson Rodrigues e Machado de Assis - praticamente leu toda a obra inteira; e Plínio disse que gosta de F. Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway e Gabriel García Márquez.

*As caricaturas são do Estadão.com.br

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domingo, 15 de agosto de 2010

MAIS UM POUCO DE JONATHAN FRANZEN

Jonathan Franzen está realmente vivendo um bom momento, independente da aparente crise instaurada na literatura dos Estados Unidos. Freedom, seu novo romance, recebeu críticas positivas do jornal New York Times e da revista New York. O livro será lançado no final desse mês nos Estados Unidos. Porém, dois trechos inéditos já apareceram na revista New Yorker: Good Neighbors e Agreeable.

Freedom conta a história da família Berglund formada pelo casal Patty e Walter Berglund e o filho adolescente, Joey. Eles parecem constituir aquele tipo de família ideal, até o momento em que as coisas começam a mudar sem nenhum motivo aparente. O filho se muda de casa, o marido arruma um emprego estranho, um antigo amigo do marido reaparece e a mulher já não é mais quem costumava ser. O romance serve como uma grande metáfora dos nossos tempos, com pessoas lutando para aprender a viver num mundo tão confuso.

Não foi à toa que a revista Time estampou Franzen na capa com as seguintes palavras: "O grande escritor americano - Ele não é o mais rico ou o mais famoso. Suas personagens não solucionam mistérios, não tem poderes mágicos ou vivem no futuro. Porém em seu novo romance, Jonathan Franzen nos mostra a maneira como nós vivemos hoje". Uma crítica velada aos fenômenos literários que estão dominando a lista de livros mais vendidos.

Enquanto Freedom não chega, podemos ler em português As correções (foi publicado pela Companhia das Letras, com tradução de Sérgio Flaksman). Esse romance ganhou diversos prêmios da crítica e rendeu a Franzen comparações com o melhor de John Updike, Thomas Mann e Don Delillo. O livro também se concentra sobre um núcleo familiar: os Lambert. Enid sente que já cumpriu seu papel de mãe e esposa; Alfred é uma aposentado que está sofrendo as consequência do mal de Parkinson; Gary, Chip e Denise, os três filhos do casal, vivem suas próprias tragédias pessoais espalhados pelos Estados Unidos. Um retrato bastante interessante da família americana nos anos 90.

Aproveitando que Jonathan Franzen está na moda, quero reproduzir aqui dez regras pessoais que ele usa quando vai escrever um livro. O artigo original saiu no Guardian (Ten rules for writing fiction) e revela as regras seguidas por diversos escritores. A tradução é minha e foi feita literalmente:
1. O leitor é um amigo, não um adversário, não um espectador.

2. Ficção não é uma aventura pessoal de um autor para o assustador ou o desconhecido não vale a pena escrever por nada a não ser pelo dinheiro.

3. Nunca use a palavra "então" como uma conjunção - nós temos "e" para este fim. Substituir "então" é a preguiçosa ou a desatenta não-solução do escritor para o problema de muitos "es" na página.

4. Escreva na terceira pessoa a menos que uma voz muito distinta em primeira pessoa se ofereça irresistivelmente.

5. Quando a informação se torna livre e universalmente acessível, uma volumosa pesquisa para um romance é desvalorizada junto com ele.

6. A mais pura ficção autobiográfia requer pura invenção. Ninguém nunca escreveu uma história mais autobiográfica do que "A Metamorfose".

7. Você vê mais ainda reunindo do que perseguindo depois.

8. É duvidoso que qualquer pessoa com uma conexão à internet em seu local de trabalho está escrevendo boa ficção.

9. Verbos interessantes raramente são muito interessantes.

10. Você tem que amar antes que você possa ser implacável.

*imagem: reprodução do site da Cia das Letras.
P.S: A Companhia das Letras também publicou um outro livro de Franzen, chamado A zona de desconforto - no entanto, eu quis privilegiar apenas as obras de ficção do autor.

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