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quinta-feira, 24 de abril de 2014

O PRIMEIRO CAPÍTULO DE NW, DE ZADIE SMITH



A lista com "dez escritoras que você vai querer ler" deixou de fora um lançamento bastante aguardado: NW, da escritora inglesa Zadie Smith. Confesso que o gestou foi intencional, pois a Srta. Smith merece um espaço reservado só para ela. 

Além de ser uma escritora muito bonita e elegante, Zadie também é mãe de duas crianças, professora da Universidade de Nova York e nas horas vagas escreve artigos brilhantes para várias revistas inglesas e norte-americanas. Desde que publicou seu primeiro romance, Dentes brancos, em 2000, a crítica especializada a considera um dos maiores talentos de sua geração. Por isso, não foi nenhuma supresa quando seu nome apareceu duas vezes na seleção da Granta com "os melhores escritores britânicos" - sem mencionar os vários prêmios literários que ganhou. Quer mais um motivo para tamanha exclusividade? Ela é uma das poucas escritoras que tem uma fonte tipográfica batizada com seu nome. Coisa para poucos.

NW vem cercado de grande expectativa porque teve boa repercussão no mercado editorial anglófono e seu lançamento marcou o fim de um regime de sete ano sem publicar ficção. A história se passa em Caldwell, um conjunto habitacional localizado em Willesden na área noroeste de Londres - o "NW" do título vem de North West, nome em inglês dessa região da cidade. A propósito, Zadie nasceu em Willesden, por isso conhece tão profundamente a história do lugar.

NW será publicado pela Companhia das Letras com tradução de Sara Grünhagen e chega às livrarias no próximo dia 25/04. Para matar a curiosidade de alguns leitores a editora muito gentilmente antecipou o primeiro capítulo do livro.


NW

1.

O sol gordo demora-se nas torres de celular. Tinta antiescalada revela-se sulfurosa em portões de escola e postes de luz. Em Willesden as pessoas andam descalças, as ruas tornam-se europeias, há uma mania de comer fora. Ela mantém-se na sombra. Ruiva. No rádio: eu sou a única autora do dicionário que me define. Uma boa frase — escreva-a no verso de uma revista. Numa rede, no jardim de um apartamento-porão. Cercado, por todos os lados. 

Quatro jardins adiante, no conjunto habitacional, uma garota triste no terceiro andar grita para ninguém em bom inglês. Sacada de Julieta, projetando-se por milhas. Não é bem assim. Não, não é bem assim. Nem comece. Cigarro na mão. Corpulenta, vermelho-lagosta. 

Eu sou a única
Eu sou a única autora 

Lápis não deixa marca em folha de revista. Ela leu em algum lugar que papel brilhante dá câncer. Todo mundo sabe que não deveria estar tão quente. Flor murcha e maçãzinhas amargas. Pássaros cantando as melodias erradas nas árvores erradas cedo demais no ano. Nem comece com essa porra! Olhe: a pança queimada da garota descansa na grade. Eis o que Michel gosta de dizer: nem todo mundo pode ser convidado para a festa. Não neste século. Opinião cruel — ela não compartilha dela. Nem tudo no casamento é compartilhado. Sol amarelo alto no céu. Cruz azul numa haste branca, clara, definitiva. O que fazer? Michel está no trabalho. Ele ainda está no trabalho. 

Eu sou a
a única

Cinza cai no jardim abaixo, depois vem a bituca, depois o maço. Mais alto que os pássaros e os trens e o trânsito. Único sinal de sanidade: um minúsculo dispositivo enfiado no ouvido dela. Eu disse pra ele parar de tomar liberdades. Cadê o meu cheque? E ela fica me enchendo o saco com besteira. Maldita liberdade. 

Eu sou a única. A única. A única

Ela abre a mão, deixa o lápis rolar. Toma a sua liberdade. Nada mais pra escutar além dessa maldita garota. Pelo menos de olhos fechados há outra coisa pra ver. Manchas pretas viscosas. Percevejos aquáticos se lançando, ziguezagueando. Zigue. Zague. Rio vermelho? Lago de lava no inferno? As pontas da rede. Os papéis tombam no chão. Eventos mundiais e propriedade e filme e música caem na grama. E também esporte e as breves descrições dos mortos.



*Imagem: capa do livro/divulgação.

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segunda-feira, 15 de abril de 2013

OS MELHORES ESCRITORES BRITÂNICOS - 2013


Dando continuidade a série "Os melhores jovens escritores..." pelo mundo, a revista Granta (versão inglesa) acaba de publicar sua aguardada edição dedicada aos britânicos - os editores costumam publicar um número desses a cada década desde 1983. Dessa forma, a revista está apostando suas fichas em vinte escritores que poderam ser grandes nomes no futuro - como foi com Martin Amis, William Boyd, Kazuo Ishiguro, Salman Rushdie, Julian Barnes e Ian McEwan que estiveram em edições anteriores.

Algumas curiosidades: mulheres representam mais da metade da lista (são 12 ao total), nem todos nasceram na Grã-Bretanha ou tem ascendência britânica, a maioria já acumula indicações para prêmios literários importantes, dois nomes estavam na seleção de 2003 (Zadie Smith e Adam Thirlwell), cinco autores estão estreando na literatura (Jenni Fagan, Nadifa Mohamed, Sunjeev Sahota, Taiye Selasi e Evie Wyld).

Gostei de saber que Steven Hall e Naomi Alderman usaram seus talentos para criar histórias em jogos de videogame.

Os vinte selecionados são:

Naomi Alderman
Tahmima Anam
Ned Beauman
Jenni Fagan
Adam Foulds
Xiaolu Guo
Sarah Hall 
Steven Hall
Joanna Kavenna
Benjamin Markovits
Nadifa Mohamed
Helen Oyeyemi 
Ross Raisin
Sunjeev Sahota
Taiye Selasi
Kamila Shamsie
Zadie Smith
David Szalay
Adam Thirlwell
Evie Wyld

Felizmente alguns já tem livros publicados no Brasil. Pela editora Nova Fronteira saiu Michelangelo, o tatuador, de Sarah Hall. Já a Alfaguara publicou Sombras marcadas, de Kamila Shamsie; a Record publicou Uma era de ouro, de Tahmima Anam; e a Intrinseca publicou A menina Ícaro, de Helen Oyeyemi. A Companhia das Letras foi a que mais lançou os ingleses por aqui: Cabeça Tubarão, de Steven Hall; Política, de Adam Thirlwell e todos os livros de Zadie Smith (sendo que NW deve sair até o final do ano).

A seleção certamente vai jogar nova luz sobre esses escritores e outras traduções devem ganhar as livrarias brasileiras em breve.

*Imagem: divulgação.
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sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

LEITURAS DO ANO



Fugindo das manjadas listas de "melhores do ano", o site gringo The Millions organizou mais uma edição da série "Year in Reading" em que escritores (norte-americanos em sua maioria) falam sobre os livros que leram e gostaram no ano de 2012. Jeffrey Eugenides, por exemplo, adorou o badalado romance Stone Arabia, de Dana Spiotta que figurou no clube do livro da New Yorker. 

Hari Kunzru, autor do livro Gods Without Men (que será traduzido pela editora Nossa Cultura, em 2013), terminou de ler a monumental trilogia Seu rosto amanhã, de Javier Marias.

Já Zadie Smith foi direto ao ponto elegendo sem nenhuma justificativas Sonhos de trem, de Denis Johnson (quase ganhador do Pulitzer nesse ano) e Building Stories, de Chris Ware. Simples assim!

Para finalizar, Paul Murray, autor do romance Skippy Dies - ainda não traduzido no Brasil -, escolheu Wolf Hall, da premiadíssima Hilary Mantel e HHhH, de Laurent Binet.

A série "Year in Reading" ainda não terminou, mas pode ser consultada aqui.

*Imagem: reprodução do Google.
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quarta-feira, 18 de abril de 2012

NOTAS #36


Romance a caminho
Assim vai ser a capa do novo romance de Zadie Smith que chega às livrarias inglesas em setembro e vai se chamar NW. A história se passa em Caldwell, um conjunto habitacional localizado em Willesden na área noroeste de Londres - o NW do título vem de North West, nome em inglês dessa parte da cidade. Zadie Smith nasceu em Willesden, por isso conhece tão profundamente a história do lugar. Ela tinha explorado o mesmo bairro em Dentes brancos, seu romance de estréia lançado por aqui em 2003 pela Companhia das Letras. NW será o quarto romance de Zadie - quase sete anos depois de Sobre a beleza.

Trevas ilustradas
Muito gente deve ter ouvido falar de Matt Kish por causa de uma tarefa hérculea: fazer um desenho para cada página de Moby Dick, de Herman Melville (falei do cara aqui). O trabalho inteiro levou dois anos para ficar pronto e o resultado final foi tão bacana que ganhou uma versão em livro impresso. No mês passado, Kish anunciou que seu próximo trabalho será criar 100 ilustrações para uma nova edição do clássico Coração das trevas, de Joseph Conrad. O livro será lançado nos Estados Unidos pela editora Tin House em outubro de 2013.

***
Os desenhos de Coração das trevas não serão publicados integralmente no blog de Kish - ao contrário do que aconteceu com o projeto Moby Dick. O autor promete divulgar mais ou menos 30 desenhos conforme o andamento do trabalho.

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Como aperitivo para os curiosos, Kish publicou duas ilustrações que devem integrar uma antologia bem bacana chamada The Graphic Canon - Volume 3 (com lançamento nos Estados Unidos previsto para o segundo semestre desse ano). O grande barato dessa antologia é fazer uma releitura em desenhos do canône literário desde século XIX até primeira década do século XXI. O volume 1 vai de Gilgamesh até Ligações perigosas; o volume 2 vai de Orgulho e preconceito até O médico e o monstro; e o volume 3 vai de Coração das trevas até Infinite Jest. Dica para alguma editora brasileira que esteja interessa em publicar ilustrações, quadrinhos etc.

Madrugadas literárias
Na quinta-feira acontece a inauguração do Espaço Cultural Walden - fica em SP na Praça da República, bem perto do cruzamento da São Luís com a Ipiranga. O lugar nasce com uma certa vocação literária com festas agendadas para abril tendo Dw Ribatski e Bumbo Caixa, seu projeto sonoro. Em maio, João Paulo Cuenca aparece para um after-party do lançamento de A última madrugada - seu livro de crônicas que sai mês que vem pela Leya. Vamos combinar que ninguém é de ferro e todo mundo que gosta de literatura também gosta de uma boa festa.

Barba e bigode
Um novo comportamento social está ressurgindo entre os homens: a barba e o bigode. Foi pensando nisso que o pessoal da Estamparia Literária criou uma linha de produtos inteiramente dedicada a essa tendência. Tem marcador de página, caderneta, bloco de notas e bolsa, todos inspirados em grandes autores da literatura universal. Tem William Faulkner, Eça de Queiroz, Aluísio Azevedo, Fernando Pessoa, Ezra Pound, Edgar Allan Poe, Marcel Proust e Gustave Flaubert.

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Quero fazer a minha contribuição e recomendar ao pessoal que faça uma lista inspirada nas barbas e nos bigodes dos clássicos russos Fiódor Dostoiévski, Liev Tolstoi e Anton Tchekhov. Ou então nos norte-americanos Kurt Vonnegut, Ernest Hemingway e Mark Twain. Quem sabe ainda nos escritores do Reino Unido James Joyce (aproveitem o Bloomsday em junho), Arthur Conan Doyle, George Orwell, Salman Rushdie, D.H. Lawrence e Joseph Conrad. Pode ter uma versão realismo mágico de Gabriel García Márquez ou fantástica à lá Julio Cortázar. Quem sabe uma linha totalmente nacional inspirada nas barbas e bigodes de Machado de Assis, José de Alencar, Jorge Amado, Bernardo Guimarães, Manuel Antônio de Almeida, Raul Pompéia, Monteiro Lobato e Euclides da Cunha.

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Alguém me soprou algumas sugestões de autores brasileiros contemporâneos: Daniel Galera, Paulo Scott, João Paulo Cuenca e Joca Reiners Terron, Michel Laub e Daniel Pellizzari.

Pós-modernos
Parodiando Drummond com todo o respeito: "E como ficou chato ser eterno. Agora serei pós-moderno". Uma lista de livros pós-modernos pintou outro dia no Flavorwire. Fiquei impressionado com a quantidade de ficção pós-moderna norte-americana que está passando ao largo das traduções em português. De dez livros, sete estão inéditos por aqui: The Recognitions, de William Gaddis (que acabou de ganhar uma nova edição nos Estados Unidos); Infinite Jest, de David Foster Wallace (vai sair pela Companhia das Letras, mas ainda não tem previsão); Sixty Stories, de Donald Barthelme (dele encontrei apenas um livro publicado no Brasil em 1975, Vida de cidade pela Artenova); House of Leaves, de Mark Z. Danielewski; Wittgenstein’s Mistress, de David Markson (dele a revista Serrote publicou um excerto de Isto não é um romance); Blood and Guts in High School, de Kathy Acker; e The Sot-Weed Factor, de John Barth (dele já saiu por aqui Ópera flutuante e Quimera com edições do Círculo do Livro).

***

Entendo que apostar num autor pós-moderno pode ser um risco considerando o nosso mercado editorial (em expansão). Poderia existir uma editora de pequeno porte que pudesse criar uma identidade de autores desse estilo. Assim os livros poderiam ser trabalhos mais separadamente com baixas tiragem para atender um mercado bem pequeno, mas existente.

*Imagens: reprodução do Google.

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segunda-feira, 24 de outubro de 2011

UMA NOITE COM ZADIE SMITH


Na semana passada a escritora inglesa participou de um encontro sobre escrita criativa no Miller Theatre, em Nova York. Vestindo um turbante vermelho e um casaquinho preto, Zadie Smith foi impecável com seu belo sotaque e afinado senso de humor inglês.

Texto: Rodrigo Bottura, de Nova Iorque.

***

Para um Miller Theater lotado de rostos inquietos que carregavam as ansiedades e incertezas de futuros escritores em seus 20 anos de idade, Zadie Smith falou do porquê de se escrever. Após percorrer a visão de vários escritores acerca do ato da escrita - começando com Horácio, passando pelo onipresente Vladimir Nabokov e concluindo com George Orwell - a escritora nos lembrou que escrever não é garantia de autoridade em nossa cultura.

Aliás, de mesmo modo, ela diz que os editores também não são garantia de qualidade. Muitos escritores bons passam a vida inteira sem serem publicados e muitos escritores ruins são publicados diariamente na internet. Zadie culpa a internet pelo fim dos debatidos direitos autorais, o que transformou o ato de escrever ficção em um aterro de energia mal-direcionada. Longe de desencorajar os estudantes, que acharam tempo entre as aulas e provas de meio de semestre para se apertar na audiência com seus caderninhos, ela queria nos lembrar de os que escritores escrevem pela frase, pela atenção a beleza e para, acima de tudo, demonstrar que o são.

Essa necessidade de provar que escritores ainda existem explicaria as feiras literárias. Hoje em dia, diz ela, “temos que percorrer o globo para provarmos nossa existência”. Ainda que pareça sem sentido e absurdo ser escritor em nossa época, ela os convidou a escrever para terminar a página, para usar, manipular e se dispersar na linguagem, para exercer uma das poucas capacidades que não estão ligadas ao poder monetário. Para quem achou que aqui caberia uma palavra sobre os protestos de Wall Street, vale lembrar que ela não acredita que ninguém hoje em dia escreva ficção para acabar com o capitalismo monolítico. Não, escritores escrevem para ver como as coisas são realmente, já que a realidade reproduz as distorções de seu tempo.

Quando perguntada se escrevia em grupo, ela respondeu que quando começou a escrever, a escrita era algo que se fazia as escondidas e que apesar de ter estudado língua e literatura inglesa na Inglaterra, ela lia muito nas aulas, mas escrevia muito pouco. Apesar disso, disse ainda ser a favor dos cursos de escrita, da qual é professora na NYU, porque eles a permitem ter uma vida acadêmica sem nunca ter tido um PHD. O que faz sentido se aceitarmos a sua metáfora de que escritores hoje em dia se aproximam mais de artesões do que de artistas, construindo suas cadeiras sem saber se servirão para alguém sentar ou para fazer fogueira. Acima de tudo, o que Zadie Smith lembrou aquele grupo de jovens impacientes da Ivy League, é de que é preciso ir com calma, olhar para o micro, de que ler um romance em duas semanas não é ler um romance e de que para se ler nas entrelinhas, é preciso primeiro ler-se as linhas.

*Imagem: reprodução.

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sexta-feira, 29 de abril de 2011

GEOFF DYER - ESCRITOR E ENSAISTA



Preparando a próxima edição do fanzine, tive uma vontade enorme de incluir um artigo escrito por Geoff Dyer. "Não custa nada tentar", pensei. Seria bom ao mesmo tempo para o fanzine, para quem gosta do escritor e para aqueles que vão descobri-lo. Só que infelizmente, não consegui o artigo. Uma pena!

Geoff Dyer esteve recentemente no Brasil para o lançamento da última edição da revista Serrote que publicou seu ensaio “Sobre ser filho único”. Naquela semana, ele fez uma palestra no Centro Cultural do Instituto Moreira Salles sobre um assunto do qual ele tem grande domínio: o ensaio pessoal. Partindo da experiência pioneira de Montaigne, Dyer falou sobre a natureza do ensaio. Um gênero ao mesmo tempo sedutor e perigoso por conta de sua aparente liberdade. Sem definir ou limitar nada, falando de maneira bastante clara, pausada e objetiva. Coloquei a primeira parte acima, mas nesse link é possível assistir a palestra inteira - aliás, recomendo! Depois de assistir, vocês vão entender a delícia que é um ensaio escrito por ele.

“Sobre ser filho único” está na edição da Serrote e na coletânea de ensaios publicada em 2010 na Inglaterra com o título Working the room e no mês passado nos Estados Unidos com o título Otherwise known as the human condition. Se não me engano, alguns desses ensaios foram publicados esparsadamente em jornais e revistas. Em seu blog, a revista Paris Review definiu o livro como "um curioso armário de opiniões que variam entre fotografia, arte e literatura, combinados com a abordagem experimental de Dyer para tópicos tão amplos como incursões no mundo estrangeiro, e sua busca pela combinação perfeita de cappuccino com donut".

Tanto talento tem grandes admiradores, como a escritora Zadie Smith. Ambos são ingleses e vivem refletindo e escrevendo ótimos textos críticos de toda natureza - ensaios, porque não. Numa conferência sobre escrever resenhas para revistas, Zadie Smith falou sobre ele:

"Geoff é reveladoramente direto, sem deixar faltar nenhum tipo de complexidade intelectual. Ele diz exatamente o que ele quer dizer, o mais diretamente possível. E os resultados são impressionantes para mim, e também uma espécie de... a única coisa que invejo no Geoff, e desejo esperançosamente, quando eu ficar um pouco mais velha, é apenas a variedade de seus interesses".

No Brasil, se não me fala a pesquisa, só foram publicados três livros dele: Ioga para quem não esta nem aí, O instante contínuo e Jeff em Veneza, morte em Varanasi. A obra dele compreende algo em torno de doze livros - fora o restante.

Quem ficou interessado e quer saber mais tem de ler: O olhar errante de Geoff Dyer um perfil escrito por James Wood e publicado no blog do IMS; a reportagem e entrevista de Raquel Cozer na época do lançamento de Jeff em Veneza, morte em Varanasi; a entrevista para o blog da revista Paris Review sobre Otherwise known as the human condition.

*vídeo: reprodução.
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terça-feira, 26 de abril de 2011

OUÇA UM BOM CONSELHO


Desde o ano passado, se não me engano, o jornal inglês Guardian tem perguntado aos escritores algumas regras de ouro para as pessoas que desejam se aventurar na área. A série tem conselhos de pessoas bem conhecidas. Vou reproduzir abaixo alguns conselhos em tradução meio literal:

Zadie Smith

Quando criança, certifique-se de que você leu um monte de livros. Gaste mais tempo fazendo isso do que qualquer outra coisa.

Quando adulto, tente ler sua própria obra como um estranho leria, ou melhor ainda, como seu inimigo leria.

Não romantize a sua "vocação". Você pode escrever tanto frases boas quanto ruins. Não existe um "estilo de vida de escritor". Tudo o que importa é o que você deixa escrito na página.

Evite panelinhas, gangues, grupos. A presença de uma multidão não vai fazer o seu texto ser melhor do que ele é.

Trabalhe num computador desconectado da internet.

Will Self

Pare de ler ficção - é tudo mentira mesmo, e a ficção não tem nada a lhe dizer que você já não saiba (assumindo, isto é, que você já leu muita ficção no passado; se você não leu você não tem qualquer tipo de interesse muito menos em ser um escritor de ficção).

Viva a vida e escreva sobre a vida. De fato não há fim em se fazer muitos livros, mas já existem muitos livros sobre os livros.

A vida do escritor é essencialmente a do confinamento solitário - se você não pode lidar com isso você não precisa pôr em prática.

Cheguei nesses conselhos depois de ler a entrevista de Lygia Fagundes Telles na Ilustrada. Quando perguntada sobre os jovens escritores de hoje, ela respondeu e aconselhou:

Eles me parecem ainda mais ansiosos do que nós éramos. Ansiosos por escrever e por aparecer. E a ansiedade é o maior perigo para um escritor.

Para completar a rodada de conselhos, sugiro também uma leitura na série "Conselhos literários fundamentais", do Sérgio Rodrigues no blog Todoprosa.

*imagem: reprodução.
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terça-feira, 29 de março de 2011

A RESENHA ESTÁ MORTA MAS JURO QUE NÃO FUI EU


Falar sobre uma crise das resenhas me parece algo complicado. Não cheguei a uma conclusão final, mas penso bastante no assunto. A verdade é que ultimamente sinto um certo mal estar quando vou ler resenhas escritas por outras pessoas ou mesmo quando vou escrever as minhas - muito embora eu mais leia resenhas do que as escreva propriamente. Pensando nisso, vou apresentar alguns argumentos para promover reflexões sobre o tema. Espero não me perder no meio do redemoinho e espero não acabar refém do próprio assunto que estou comentando.

Não sou eu quem está alardeando a crise da resenha. Tenho a impressão de que o assunto surgiu em forma de burburinho na imprensa americana assim que as resenhas foram sumindo das páginas dos jornais e revistas. Foi o passo decisivo para que surgisse na internet uma onda enorme de blogs dedicados ao assunto. Um processo bem parecido aconteceu com as resenhas de discos e de filmes, em partes.

O problema foi que a resenha migrou do mundo impresso para o mundo virtual com prejuízos. O comentário analítico deu lugar a paráfrase do enredo, da história, da trama e os resenhistas esqueceram de falar sobre aquilo que sustenta tudo isso. Eles deixaram de lado a beleza particular da construção de uma obra de ficção. Quase não existem analises teóricas, não se fala em narrador, personagem, tempo, espaço e linguagem.

No final, ninguém sabe os pontos fortes e fracos do livro: o que é instigante nele? Como funciona aquele universo? O que foi que aquele autor fez com o material de que dispunha nas mãos? O comentário crítico fica resumido ao "gostei" e "não gostei". Tudo é bem leve.

As resenhas mais encorpadas, por outro lado pecam por dois problemas: ora ficam presas a um formato quadrado e pouco inventivo; ora abusam dos jargões acadêmicos e demonstram abertamente sua estrutura teórica demais. A vontade de comprovar uma teoria é tão grande que o prazer do texto morre. Aquele universo permanece inacessível ao leitor. Tudo é bem pesado.

A saturação também aconteceu pela enorme quantidade de lugares que oferecem a mesma coisa. Todo mundo vê tanta resenha na internet que acaba se cansando de tamanha superficialidade. A maioria sempre diz a mesma coisa, mas em palavras diferentes. O pior de tudo é que esses comentários podem causar danos aos livros.

No entanto, no horizonte do improvável surgem algumas saídas. A escritora Zadie Smith, por exemplo, parece apontar um caminho interessante. Ela assumiu o lugar de Benjamin Moser na coluna de resenhas da revista Harper's. Numa conversa com Gemma Sieff (editora da revista), Zadie Smith aos poucos redesenha as fronteiras das resenhas - sem nenhum sofrimento ou sem recorrer aos aparatos teóricos. Recomendo a leitura – o papo entre as duas é uma lição.

Antes de mais nada, Smith prefere ser chamada de resenhista no lugar de crítica. Ela diz que prefere escrever sobre os livros recorrendo as suas próprias percepções pessoais, evocando a figura de Virgínia Woolf que tinha essa abordagem em seus textos. Na coluna, Smith pretende ler e comentar as coisas que lhe causam um interesse particular uma certa estranheza. Na primeira New Books, publicada esse mês, Smith falou sobre Thomas Bernhard, Javier Marías e Sharifa Rhoden-Pitts.

Posto de outra forma, um resenhista pode colocar mais de si mesmo numa resenha usando suas próprias percepções ao invés de percepções críticas. Ele pode falar o quanto quiser de um livro, usando seus vários argumentos. Já o crítico é uma personalidade comprometida com seu modelo e seu distanciamento teórico. Ele precisa usar um espaço limitado para explicar e comprovar tudo aquilo que deseja.

Outro sujeito que está tentando salvar a resenha de seu estado capenga é Ron Charles, editor do Washington Post. O cara decidiu fazer algumas de suas resenhas em forma de vídeo. O resultado pode parecer um pouco com programa de auditório, mas tem a sua carga crítica.

Há também as resenhas assinadas por James Wood, editor da revista New Yorker e autor do livro Como funciona a ficção. O método dele está mais próximo do que Zadie Smith pretende fazer. Ainda que ela pratique com maior liberdade, me parece.

Como disse, o assunto não está concluído. Acho importante dizer que não estou tentando pichar a academia e todos os esforços que vem de lá – eu também sou fruto dela. Deve haver outras razões que expliquem o estado atual da resenha: entre a vida e a morte. Outras pessoas também devem estar propondo novos modelos e tentando fazer a sua parte. Quando se trata de previsões para o futuro na área da crítica, as coisas parecem um pouco nebulosas.

*imagem: reprodução.
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quinta-feira, 21 de outubro de 2010

NOTAS #5


Zadie Smith pop
Zadie Smith, além de ser uma escritora talentosa, está se tornando também uma das mais populares de sua geração. O blog Londonist, por exemplo, mapeou e fotografou alguns lugares de Londres que aparecem no livro de estréia da autora, Dentes brancos. Além disso, o designer Henrik Kubel criou uma fonte baseada na capa da edição americana do romance Sobre a beleza. A fonte foi batizada de "Zadie".

Missão cumprida
Pelo visto a tarefa dos 36 escritores diferentes que se reuniram para escrever um romance em 6 dias foi bem sucedida. O desafio de cada um deles era escrever por duas horas e entregar o material para o próximo autor que iria continuar a história. A maratona foi totalmente voltada para a internet, com transmissão ao vivo pelo site e cobertura através de Facebook e Twitter. O resultado final já está disponível na internet no site http://www.thenovellive.org/

Larsson guerrilheiro
Segundo informações do jornal Telegraph, Stieg Larsson passou um ano treinando guerrilheiras na África. Eram mulheres que faziam parte de um grupo marxista que lutava pela libertação e independência da Eritréia, na Etiópia. Quem divulgou essa passagem da vida de Larsson foi um amigo íntimo, João Henrique Holmberg. Todo o episódio se passou antes de Larsson se tornar o famoso ator da trilogia Millenium.

Estréia na internet
Mais escritores estão aderindo ao mundo da internet. Só nessa semana foram três: o escritor veterano Milton Hatoum, a estreante Lívia Sganzerla Jappe e a escritora internacional Isabel Allende - o blog é escrito por uma assistente, mas parece que a pedido de Isabel.

Livros preferidos
A semana não pode ser completa sem qualquer notícia envolvendo o escritor Jonathan Franzen. Depois de ser escolhido oficialmente pelo book club da apresentadora Oprah Winfrey, Franzen confessou suas leituras preferidas. Ele não quis economizar e citou 27 livros, entre eles: Seize the day, de Saul Bellow; O céu que nos protege, de Paul Bowles; Ruído branco, de Don Delillo; The Hamlet, de William Faulkner; Desesperados, de Paula Fox; Something happened, de Joseph Heller; Song of Solomon, de Toni Morrison; Uma questão pessoal, de Kenzaburo Oe; todos os livros de Alice Munro; Os filhos da meia-noite, de Salman Rushdie; The familiy Moskat, de Isaac Bashevis Singer. Parece engraçado dizer isso, mas de alguma maneira a obra de Franzen tem semelhanças com esses escritores.

Mais trilha sonora
Depois de Daniel Galera, foi a vez João Paulo Cuenca dizer qual a sua trilha musical preferida para o Caderno2, do Estadão. A trilha vai do soft eletrônico "Odessa - Caribou" ao rock alternativo com as canções "Shelter - The XX", "Metal heart - Cat Power" e "These are my twisted words - Radiohead". Ele também não deixou de fora o clássico "The köln concert - Keith Jarret" e a canção mais cortante "Girl from the north country - Bob Dylan.

A próxima geração
Em passagem pelo Brasil, o Nobel Mario Vargas confessou que acompanha a atual literatura peruana nas obras de Daniel Alarcón e Santiago Roncagliolo. Os dois jovens escritores já são bastante conhecidos e estiveram nas listas da revista New Yorker e Granta, respectivamente.


*imagem: reprodução Telegraph


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quarta-feira, 22 de setembro de 2010

NOTAS #1

Joseph Conrad em Graphic Novel
A editora inglesa Self Made Hero está lançando uma graphic novel para Coração das trevas (imagem), de Joseph Conrad, ilustrado com desenhos feitos à lapis pela artista queniana Catherine Anyango. O texto foi adaptado por David Zane Mairowitz. Considerado a obra-prima de Conrad, esse romance narra a viagem de Marlowe pelas selvas africanas em busca de um comprador de marfim chamado Kurtz. A graphic novel ainda inclui trechos do diário do congo escrito por Joseph Conrad.

Criador e criatura
Em 1975, William Burroughs não só assistiu a um show do Led Zeppelin como também entrevistou Jimmy Page e escreveu um longo artigo sobre tudo o que viu. Aliás, muita gente atribui a Burroughs a invenção da palavra 'heavy metal' que teria aparecido pela primeira vez em seu romance, Almoço nu. O artigo entitulado "Rock Magic: Jimmy Page, Led Zeppelin, And a search for the elusive Stairway to Heaven" foi publicado numa revista underground, chamada Crawdaddy e reapareceu na internet. Embora tenha gostado do show, Burroughs ficou imensamente preocupado com os riscos de que algum acidente pudesse acontecer a qualquer momento. O artigo pode ser lido na integra em http://bit.ly/55ElJh

Troca de colunistas
A escritora Zadie Smith vai assinar a coluna "New Books" da revista americana Harper's. Ela vai ocupar o lugar de Benjamin Moser que continuará contribuindo com a revista. Além de ser uma escritora reconhecida internacionalmente, Smith já demonstrou seu poder crítico escrevendo ensaios de fôlego para revistas como The New York Review of Books, por exemplo. A primeira coluna assinada por ela deve ser publicada em Março do ano que vem.

Cartas de Oscar Wilde
Uma coleção de cartas escritas por Oscar Wilde vão a leilão na Inglaterra em 24 de Setembro próximo. A descoberta dessa correspondência está causando interesse em muita gente por causa de seu conteúdo. São cartas de Wilde endereçadas com bastante afeto a Alsager Vian, seu colega e editor da Society Magazines em 1887. As cartas foram escritas anos antes de Oscar Wilde ter sido condenado por atentado violento ao pudor e ter sido submetido a dois anos de trabalhos forçados.

A intimidade de Roland Barthes
O diário escrito por Roland Barthes em 1977, logo após a morte de sua mãe, será publicado pela editora Hill and Wang. Mourning diary conta com 330 anotações que mostram as reflexões subjetivas e o estado de tristeza em que o grande semiótico da cultura francesa se encontrava naquele momento. A revista New Yorker divulgou algumas imagens do diário em http://nyr.kr/ds6HZW

Uma tarefa nada fácil
O arco-íris da gravidade, cultuado romance de Thomas Pynchon, foi ilustrado pelo artista plástico Zak Smith. Usando muitas pinturas e fotos experimentais, ele conta que tentou traduzir literalmente os trechos do livro em imagens página por página. O resultado final do trabalho foi exposto no Whitney Museum em Nova York e faz parte do acervo permanente do Walker Art Center na cidade americana de Minneapolis. As ilustrações também estão disponíveis na internet em http://bit.ly/L1m9F

Paris Review na era da internet
O editor Lorin Stein está cumprindo a sua promessa de renovar a revista Paris Review. A edição de outono é o primeiro número sob seu comando e está recheada de ares franceses: Michel Houellebecq é um dos entrevistados e Lydia Davis escreveu um artigo sobre Flaubert. De olho na internet Stein também reformulou inteiramente o site da revista. Além do novo visual, o site conta com um blog diário e grande parte do conteúdo impresso está disponível - incluindo, por exemplo, a entrevista de E. M. Foster para a edição nº 1.

*Imagem: reprodução.
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