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segunda-feira, 30 de abril de 2012

PARA ENTENDER THOMAS PYNCHON

"Um grito atravessa o céu .
Isso já aconteceu antes, mas nada que se compare com esta vez."
O arco-íris da gravidade.

“Agora, reduzir todo o cordame!”
“Ânimo... com jeito... muito bem! Preparar para zarpar!”
“Cidade dos Ventos, lá vamos nós!”
Contra o dia.



Acabou de sair pela Companhia das Letras Contra o dia, escrito por Thomas Pynchon em 2006. Fui até uma livraria conferir um exemplar de perto, afinal não existe e-book nenhum páreo para a experiência material de ter um livro como esse nas mãos. Ainda mais quando a gente se dá conta de que ele tem impressionantes 1088 páginas que pesam exatamente 141700 kg (não tive como pesar o exemplar na livraria, peguei a informação no site). É uma espécie de monolito (como aquele do filme 2001 - Uma odisséia no espaço) no meio das estantes. Não só pelo tamanho, mas pelo significado que ninguém consegue explicar por mais que se tente.

Nesse caso, cabe ao leitor se aventurar pelo árduo universo pynchoniano a fim de arrancar ou construir algum sentido. Para não atravessar sozinho esse deserto, preparei uma compilação com as resenhas de Contra o dia que eu consegui encontrar nas revitas e nos jornais - parece que nos blogs foi meio ignorado, apesar de Pynchon ter uma verdadeira legião de fãs na internet.

A nova conspiração de Pynchon - Revista Época
O que Groucho Marx tem a ver com Faroeste? - Revista Bravo! (resenha assinada por Antônio Xerxenesky - um fanático por Pynchon, sobretudo por Contra o dia)
Paródias Arquitetônicas - Estadão
Homem difícil - Folha de SP (via Conteúdo Livre)

Tem também uma nota na revista Veja - apenas disponível na edição digital no site.

***

Ainda não li Contra o dia porque ainda nem comprei (cof!). Perdi uma promoção de lançamento com desconto de 20%, fato que lamentei imensamente para o vendedor da livraria. Como ele não me deu o desconto e a promoção ainda não tem previsão de retorno, resolvi esperar.

Seja como for, sei do mito em torno de Thomas Pynchon e acho muito curioso que um dos mais importantes escritores norte-americanos do século XX seja ao mesmo tempo tão cultuado e tão impopular. Não é algo gratuito, existem algumas explicações para o fato: os livros são herméticos, tem muitas referências obscuras, enredos complexos e repletos de "exercícios" de linguagem. Há um Pynchon mais simples, claro! Como aponta Xerxenesky V. (1963), Vineland (1990) e Vício inerente (2009) são mais palatáveis - os dois primeiros estão esgotados e o último acabou de sair também pela Cia das Letras.

A tradução foi feita por Paulo Henriques Britto que, segundo li, manteve contato direto com Pynchon para sanar algumas eventuais dúvidas de tradução. Acho importante comentar isso porque Pynchon não é muito dado a aparições públicas, nunca concede entrevistas e vive escondido por Nova York. Guardadas as devidas proporções, é quase um Dalton Trevisan flanando por Curitiba.

Se bem que ele flerta com o universo pop. Dizem que dublou a si mesmo num episódio dos Simpsons e também dublou o trailer de Vício inerente.

***

Contra o dia parece que está páreo a páreo com O arco-íris da gravidade (em tamanho e em complexidade). Aliás, André de Leones e Xerxenesky organizaram um programa da Rádio Batura (IMS) comentando O arco-íris. O mesmo livro será analisado em agosto num curso ministrado por Ricardo Lísias só com romances longos. Quem ficou interessado em Pynchon e quer saber mais sobre o cara pode ficar de olho no programa e no curso.

Tem um trecho de Contra o dia disponível aqui.

*Imagem: divulgação.
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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

COMO ESCREVER UMA RESENHA RUIM

Em tempos de malhar a crítica literária, nada melhor do que criar um prêmio para a resenha literária "mais raivosa, engraçada ou mordaz dos últimos tempos" publicada em jornais ou revistas. Assim nasceu o "Hatchet Job of the Year" (ou "Serviço de Machadinha do Ano", como traduziu Sérgio Rodrigues no Todoprosa). O prêmio organizado pelo site inglês Omnivore Criticism Digested está na sua primeira edição e foi entregue em 7 de fevereiro. O ganhador foi Adam Mars-Jones pela resenha de Ao anoitecer, de Michael Cunningham. Segundo os organizadores, o objetivo do prêmio "é levantar o perfil dos críticos profissionais e promover a integridade e inteligência no jornalismo literário".

Este artigo, publicado originalmente no blog da Melville House (9/2/2012), trata dos problemas envolvendo uma resenha crítica.


"Eu tive sorte que todas as críticas ruins que eu tive foram escritas por idiotas." - Geoff Dyer sobre críticas negativas

Por Nathan Ihara
Tradução de Rafael R.


Geoff Dyer, um indicado ao primeiro prêmio "Hatchet Job of the Year" por sua resenha negativa para The Sense of na Ending, de Julian Barnes (Adam Mars-Jones ganhou o prêmio no dia 7 de fevereiro pela resenha de Ao anoitecer, de Michael Cunningham, como consta no site do prêmio), foi entrevistado na semana retrasada pelo jornal inglês The Guardian e disse algumas coisas tipicamente engraçadas e inteligentes sobre a natureza da crítica. Ele adverte contra o fascínio (talvez agravado por este prêmio) por escrever "frases espirituosas e condenáveis", à custa de "precisão de... julgamento".

Ele chama de "ingenuidade" pensar que os críticos não vão escrever sobre seus amigos ou inimigos . E ele traz à tona uma das minhas queixas de estimação pessoais sobre resenhas de livros: "Um dos problemas com resenhar é que os jornais estão obcecados com que suas resenhas apareçam primeiro – estar atualizado ao invés de ter tempo para formar uma visão mais considerável".

Como publicista, acho frustrante que editores de livros não queiram ou não possam atribuir resenhas de livros apenas alguns meses (ou semanas) após a janela de "oportunidade".

Dyer também critica um dos tipos mais comuns de resenhas negativas (uma resenha ruim de uma resenha ruim!):
Eu detesto quando um resenhista resume o enredo e adiciona algumas coisas no final sobre o estilo. Você está enfatizando a qualidade da escrita, mas de alguma maneira você correndo o risco de negligenciar a qualidade do julgamento.
O que me faz pensar num outro dos meus aborrecimentos críticos: que os resenhistas muitas vezes não conseguem apresentar claramente os seus próprios critérios estéticos antes de lançar ataques ou elogios. No exemplo acima, Dyer descreve o crítico comum que assume que algumas frases mal escritas significam um livro ruim. Dyer implica um critério crítico diferente: ele não está muito preocupado com a qualidade de escrita – há problemas maiores a serem considerados. Muitos argumentos aparentes sobre a qualidade de um livro ("Uma idéia brilhante!" versus "Horrivelmente escrito!") não estão realmente em desacordo sobre o livro. Pelo contrário, estas resenhas apenas expressam por baixo, mas frequentemente desarticulados, os conflitos sobre critérios para a “boa” arte.

Não seria mais fácil se os resenhistas fossem mais francos sobre o que eles querem? Por que, eu me pergunto, será que devemos ser forçados a inferir um sistema fundamental de avaliação dos resenhistas? (Respondendo minha própria pergunta: eu suspeito que muitos críticos não analisaram devidamente sua própria doutrina subjacente). Me parece evidente que qualquer crítico profissional deve ter por aí em algum lugar na web uma declaração formal de seus critérios literários. Essa lista não precisa (não deve) ser abrangente, mas pode fornecer uma base para a compreensão de como responder a um dado escrito por um crítico. Sem esses critérios, ler resenhas de livros parece um pouco como ser testemunha de uma condenação sem qualquer pista sobre a natureza da lei.

Algumas das melhores resenhas (a-hã, meus critérios) estão menos interessados em avaliar um livro do que descobrir ou revelar um critério útil. Por exemplo, no “Hatchet Job” de Marte-Jones para Ao anoitecer, de Cunningham, ele começa com a declaração: "Nada faz um romance parece mais vulnerável, mais nu, do que uma blindagem de referências literárias". Agora sabemos que um critério pelo qual Mars-Jones mede ficção. Ele teve a decência de ser dogmático. Bem longe dos padrões, ele está definindo sua regra: a referencialidade, particularmente se procura fazer um texto parecer mais significativo e poderoso, tem o efeito inverso de fazer um livro (ou escritor) parecer inseguro. Sem levar em conta se você concorda ou discorda desta afirmação, agora você pode ler o resto da resenha sabendo o que o resenhista destaca e acredita – o que lhe permite avaliar a forma como ele avalia.

Nathan Ihara é publicista da Melville House. Anteriormente, ela trabalhou como crítica literária do LA Weekly. O artigo foi reproduzido com permissão da editora.

*Imagem: Adam Mars-Jones recebendo o prêmio / reprodução hatchetjoboftheyear.com
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sexta-feira, 1 de abril de 2011

NOTAS #22



Jack Kerouac
No mês passado, o blog americano Vol.1 Brooklyn fez um card estampando Jack Kerouac. O card foi feito para comemorar o aniversário do escritor beatnik que nasceu em 12 de março de 1922 e se estivesse vivo iria completar 89 anos. Além do desenho o card tem um trecho de Visões de Cody.

O rei está pálido
Desde janeiro The pale king, de David Foster Wallace está sendo considerado por muitos como o lançamento do ano no mercado editorial americano. O livro está em pré-venda na Amazon e todo mundo está desesperado atrás de uma cópia para ler antes. Três resenhas de peso pintaram na imprensa essa semana para aumentar as expectativas em torno do livro. No New York Times, "Maximized Revenue, Minimized Existence" por Michiko Kakutani; na revista GQ, "Too Much Information" por John Jeremiah Sullivan; e na revista TIME, "Unfinished Business" por Lev Grossman - o mesmo que escreveu o perfil de Jonathan Franzen como o melhor romancista americano. O lançamento acontece em 15 de abril, nos Estados Unidos.

Resenhas
Logo depois de "a resenha está morta, mas juro que não fui eu", topei com uma fala do escritor Martins Amis. Ela está na contracapa do livro Como funciona a ficção, do crítico da revista New Yorker:
"Não presto atenção nem levo a sério as resenhas literárias. Não se aprende nada com elas. Mas o que o crítico James Wood diz me interessa."
Evidentemente, a frase foi inserida para promover o livro. No entanto, espécie de ato falho, serve como mais um ponto de reflexão sobre a 'arte' (vamos chamar assim) de fazer resenhas.



Liberdade, liberdade
Os portugueses já estão contando as horas para o lançamento do romance Liberdade, de Jonathan Franzen. Não custa lembrar que esse foi o romance mais comentado do ano passado. O livro tem previsão de lançamento em 18 de abril e já está em pré-venda em algumas lojas. Saí pela editora Dom Quixote. A capa segue o mesmo designer elegante da edição inglesa - bem melhor que a capa americana. No Brasil, Liberdade será publicado em maio pela Companhia das Letras.

Ouça um bom conselho
O jornalista Michael Gove escreveu um artigo para o Telegraph dizendo que as crianças deveriam ler 50 livros por ano. Bastou uma semana para que Iain Hollingshead, outro jornalista do Telegraph, fizesse uma lista com 50 livros que as crianças não devem ler antes de morrer. Entre os escolhidos somente clássicos da literatura: Ulisses, 1984, O grande Gatsby, Orgulho e preconceito etc. Num estilo bem satírico, o jornalista explica porque cada um desses livros deve ser afastado das crianças. Sobre Crime e castigo, por exemplo, ele diz "um conto de angústia mental e intensos dilemas morais. Felizmente, é mais curto do que Guerra e paz". A lista completa está disponível em http://tinyurl.com/4jbduhu

Conto coletivo
O jornal português Público convidou o escritor Gonçalo M. Tavares para dar início a construção de um conto coletivo. Batizada de Conto Público a experiência contou com a participação de 26 leitores e foi finalizada no mês passado com direito a publicação na revista que acompanha o jornal. A experiência colaborativa está ficando cada vez mais frequente - já vi muitas outras acontecendo. Embora a história pudesse caminhar para um lugar sem volta, Gonçalo M. Tavares ajudou na edição e participou em momentos pontuais. O resultado pode ser conferido em http://tinyurl.com/3rfu2lq

*imagem: reprodução.
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terça-feira, 29 de março de 2011

A RESENHA ESTÁ MORTA MAS JURO QUE NÃO FUI EU


Falar sobre uma crise das resenhas me parece algo complicado. Não cheguei a uma conclusão final, mas penso bastante no assunto. A verdade é que ultimamente sinto um certo mal estar quando vou ler resenhas escritas por outras pessoas ou mesmo quando vou escrever as minhas - muito embora eu mais leia resenhas do que as escreva propriamente. Pensando nisso, vou apresentar alguns argumentos para promover reflexões sobre o tema. Espero não me perder no meio do redemoinho e espero não acabar refém do próprio assunto que estou comentando.

Não sou eu quem está alardeando a crise da resenha. Tenho a impressão de que o assunto surgiu em forma de burburinho na imprensa americana assim que as resenhas foram sumindo das páginas dos jornais e revistas. Foi o passo decisivo para que surgisse na internet uma onda enorme de blogs dedicados ao assunto. Um processo bem parecido aconteceu com as resenhas de discos e de filmes, em partes.

O problema foi que a resenha migrou do mundo impresso para o mundo virtual com prejuízos. O comentário analítico deu lugar a paráfrase do enredo, da história, da trama e os resenhistas esqueceram de falar sobre aquilo que sustenta tudo isso. Eles deixaram de lado a beleza particular da construção de uma obra de ficção. Quase não existem analises teóricas, não se fala em narrador, personagem, tempo, espaço e linguagem.

No final, ninguém sabe os pontos fortes e fracos do livro: o que é instigante nele? Como funciona aquele universo? O que foi que aquele autor fez com o material de que dispunha nas mãos? O comentário crítico fica resumido ao "gostei" e "não gostei". Tudo é bem leve.

As resenhas mais encorpadas, por outro lado pecam por dois problemas: ora ficam presas a um formato quadrado e pouco inventivo; ora abusam dos jargões acadêmicos e demonstram abertamente sua estrutura teórica demais. A vontade de comprovar uma teoria é tão grande que o prazer do texto morre. Aquele universo permanece inacessível ao leitor. Tudo é bem pesado.

A saturação também aconteceu pela enorme quantidade de lugares que oferecem a mesma coisa. Todo mundo vê tanta resenha na internet que acaba se cansando de tamanha superficialidade. A maioria sempre diz a mesma coisa, mas em palavras diferentes. O pior de tudo é que esses comentários podem causar danos aos livros.

No entanto, no horizonte do improvável surgem algumas saídas. A escritora Zadie Smith, por exemplo, parece apontar um caminho interessante. Ela assumiu o lugar de Benjamin Moser na coluna de resenhas da revista Harper's. Numa conversa com Gemma Sieff (editora da revista), Zadie Smith aos poucos redesenha as fronteiras das resenhas - sem nenhum sofrimento ou sem recorrer aos aparatos teóricos. Recomendo a leitura – o papo entre as duas é uma lição.

Antes de mais nada, Smith prefere ser chamada de resenhista no lugar de crítica. Ela diz que prefere escrever sobre os livros recorrendo as suas próprias percepções pessoais, evocando a figura de Virgínia Woolf que tinha essa abordagem em seus textos. Na coluna, Smith pretende ler e comentar as coisas que lhe causam um interesse particular uma certa estranheza. Na primeira New Books, publicada esse mês, Smith falou sobre Thomas Bernhard, Javier Marías e Sharifa Rhoden-Pitts.

Posto de outra forma, um resenhista pode colocar mais de si mesmo numa resenha usando suas próprias percepções ao invés de percepções críticas. Ele pode falar o quanto quiser de um livro, usando seus vários argumentos. Já o crítico é uma personalidade comprometida com seu modelo e seu distanciamento teórico. Ele precisa usar um espaço limitado para explicar e comprovar tudo aquilo que deseja.

Outro sujeito que está tentando salvar a resenha de seu estado capenga é Ron Charles, editor do Washington Post. O cara decidiu fazer algumas de suas resenhas em forma de vídeo. O resultado pode parecer um pouco com programa de auditório, mas tem a sua carga crítica.

Há também as resenhas assinadas por James Wood, editor da revista New Yorker e autor do livro Como funciona a ficção. O método dele está mais próximo do que Zadie Smith pretende fazer. Ainda que ela pratique com maior liberdade, me parece.

Como disse, o assunto não está concluído. Acho importante dizer que não estou tentando pichar a academia e todos os esforços que vem de lá – eu também sou fruto dela. Deve haver outras razões que expliquem o estado atual da resenha: entre a vida e a morte. Outras pessoas também devem estar propondo novos modelos e tentando fazer a sua parte. Quando se trata de previsões para o futuro na área da crítica, as coisas parecem um pouco nebulosas.

*imagem: reprodução.
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segunda-feira, 14 de junho de 2010

A FALTA DE COBERTURA DA IMPRENSA QUANDO OS LIVROS SÃO A NOTÍCIA


Ouço muita gente falando a respeito da pequena atenção que os jornais e revistas tem dedicado aos livros. As resenhas e críticas estão sumindo. Quase não há mais espaço para essas coisas nas seções de cultura. Talvez a única exceção seja o caderno SABÁTICO do Estadão que circula aos sábados - único caderno dedicado totalmente ao assunto. Mas o problema parece que não se restringe somente ao Brasil. John Palattella, um jornalista americano, escreveu um artigo para o The Nation falando como os livros estão sumindo dos semanários americanos - The Death and Life of the Book Review (A Morte e a Vida da Crítica Literária). Por crítica literária, devemos entender a cobertura de notícias referente a livros e ao mercado editorial, de maneira ampla.

É evidente que no artigo muitos fatos mencionados tratam da realidade da imprensa americana. Porém, alguns pontos servem para ilustrar a nossa situação. Sobretudo quando Palatella menciona a internet. Vou destacar dois pontos que considero importantes:

1. Na imprensa atual, a crítica literária sofre de um problema cultural e não apenas econômico. Os jornais e revistas estão contendo custos para sobreviverem nesse momento de incertezas quanto ao seu futuro. Na tentativa de ter um produto mais rentável, apelam para notícias que sejam mais vendáveis e cortam ou reduzem o conteúdo que julgam pouco popular - como é o caso da crítica literária. Ao contrário desse pensamento, Palatella demonstra que são os próprios jornais e revistas os responsáveis por essa redução já que dentro das redações impera uma atitude "anti-intelectual" (uma falta de interesse dos jornalistas por ideias diferentes do senso-comum).

2. Na internet tudo o que importa é ser o mais rápido a dar a notícia. Como os jornais e revistas reduzem a crítica literária no meio impresso, a internet passa a ocupar esse espaço deixado. Porém, na internet existe uma obsessão em ser o primeiro a dar uma notícia e colocar no site o máximo de conteúdo que você puder. Não importa a qualidade, mas o quão rápido você pode ser. Palatella ainda fala que muitas redações não se preocupam em colocar um conteúdo incorreto no site - depois é possível corrigir na edição impressa que tem muito mais credibilidade.

No Brasil, a rasa cobertura literária feita pela imprensa tem origem no problema da educação e da pouca expressão do mercado editorial - quase não lemos e compramos poucos livros. Talvez com uma cobertura maior e mais interessante dos jornais e revistas, pudessemos mudar um pouco esse quadro. Afinal, os jornais e revistas são os responsáveis por colocar em circulação as opiniões críticas a respeito de um livro. Muita gente pode conhecer, comprar e ler um livro pelo simples fato de ter lido uma crítica a respeito dele.

Falta um pouco de ousadia na imprensa: não apostam em ideias novas e fazem resenhas de livros para cumprir tabela. Conter custos não é razão para reduzir a critíca literária. Muito pelo contrário, uma boa cobertura pode atrair novos leitores e aumenta a venda de um livro. Essa mesma falta de ousadia acontece na internet. De fato, existe uma obsessão em ter uma quantidade de notícias pouco relevantes. E infelizmente, quem gera conteúdo copia muita coisa. Sem contar a dispersão que a internet provoca no leitor. Clicando em links e se perdendo em informações.

Termino com as mesmas palavras que John Palatella: "Apesar da turbulência e das inúmeras dúvidas, acho que não há momento melhor que o presente para que a imprensa faça a cobertura de livros" (tradução minha). Recomendo a leitura do artigo.

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sábado, 8 de maio de 2010

UM MANUAL DE ANTIAJUDA PARA PEDIR AUMENTO

A arte e a maneira de abordar o seu chefe para pedir um aumento
De Georges Perec
Tradução de Bernardo Carvalho
Companhia das Letras

Você vai para o trabalho. Chegando na sua mesa você decide que hoje é o dia de pedir um aumento ao seu chefe. Mas como você vai fazer isso? Tentando responder essa pergunta simples um turbilhão de pensamentos infestam a sua cabeça. Seu cérebro, rapidamente, começa a pensar em todas as situações que você pode enfrentar nesse empreitada. Passado um certo tempo você abandona a ideia por hoje e volta ao seu trabalho. É mais ou menos essa a sensação que nos temos em A arte e a maneira de abordar seu chefe para pedir um aumento, de Georges Perec.

O enredo pode ser resumido da seguinte maneira: um funcionário quer pedir um aumento ao chefe e começa a pensar em situações que exigem respostas simples, como “sim” e “não”. Para cada resposta diferente ele terá uma direção a seguir. No entanto, o que pode parecer um simples roteiro acaba se transformando numa espécie de labirinto vertiginoso cujo fim sempre será retornar a sua mesa. As situações se misturam de tal forma que tudo fica estranho e muito engraçado.

Evidentemente há um tom de crítica implícito nesse livro: crítica ao trabalho, a sociedade de consumo, ao capitalismo, etc. Também há uma armadilha: o leitor menos atento pode comprar o livro em busca de um manual de soluções e encontrar uma série de problemas sem solução. George Perec não é um autor muito conhecido. Nos anos 60 ele integrou um famoso grupo de vanguarda da literatura francesa, chamado OuLiPo. Uma das propostas desse grupo, consequentemente de Perec, consistia em escrever histórias com alguns elementos que combinados de diversas maneiras poderiam resultar em histórias diferentes. George Perec pensou em escrever esse livro depois de ter se deparado com um organograma empresarial. A arte e a maneira... foi publicado em 1968 depois da morte do autor.
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