O romance Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera está entre os finalistas do Prêmio Literário Casino da Póvoa atribuído pelo Festival Literário Correntes d'Escritas que acontece na cidade portuguesa Póvoa de Varzim. Ele vai concorrer com escritores bem conhecidos no Brasil como Valter Hugo Mãe, José Eduardo Agualusa, Javier Cercas, Teresa Veiga, Leonardo Padura, Lídia Jorge, entre outros. O vencedor será anunciado na abertura do festival, em 23 de fevereiro, e leva para casa um prêmio no valor de 20 mil Euros.
Vale lembrar que a edição portuguesa de Barba... publicada pela Quetzal é que está no páreo, pois só podem concorrer ao prêmio obras em português, editadas em Portugal, de autores de língua portuguesa ou espanhola.
Em 2012, o ganhador desse prêmio foi Rubem Fonseca com o romance Bufo & Spallanzani que foi publicado em Portugal pela Sextante Editora.
Ontem, na minha empolgação de falar das únicas exibições dos documentários sobre Mário de Andrade e Caio Fernando Abreu, esqueci de comentar outros dois casos em que a literatura vai ao cinema e a televisão, como você preferir.
O primeiro é a adaptação para o cinema do romance Mãos de cavalo, de Daniel Galera. A tarefa está nas mãos de Roberto Gervitz que além da direção, também assina o roteiro (parece que ele levou dois anos trabalhando nessa etapa até chegar a versão final). As filmagens começaram no meio de abril e devem seguir até o final de maio nas cidades de Porto Alegre e Farroupilha. O elenco terá Armando Babaioff, como Hermano, e Mariana Ximenes, como Adri. Fãs do livro estão curiosos para saber como o diretor vai dar conta do enredo fragmentado. É esperar pra ver. A estreia está prevista para o ano que vem. O outro caso está nas mãos do diretor de cinema e televisão Luiz Fernando Carvalho. Numa entrevista concedida a revista Serafina, ele contou que seus planos futuros incluem uma adaptação do romance Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves publicado em 2006 e ganhador do Prêmio Casa de las Américas; uma minissérie baseada em A aldeia de Stepántchikovo e seus habitantes, de Dostoiévski; e uma adaptação de Dois irmãos, de Milton Hatoum. Resta saber se o primeiro e o último serão para a TV ou cinema. Luiz Fernando é um sujeita bastante inquieto e está a frente de trabalhos incríveis e audaciosos como o filme Lavoura arcaica (baseado no livro de Raduan Nassar) e as minisséries A pedra do reino (baseada no livro de Ariano Suassuna), Capitu (baseado em Dom Casmurro, de Machado de Assis), Subúrbia (em colaboração com o escritor Paulo Lins), Alexandre e outros heróis (baseada no livro de Graciliano Ramos) e tantas coisas mais. Referências literárias e boas histórias não lhe faltam.
Se você está em São Paulo e gosta de literatura terá uma difícil missão pela frente. Na próxima quinta-feira, a cidade será ocupada por três eventos interessantes - todas acontecem quase ao mesmo tempo em pontos diferentes, ou seja, sem chance de aparecer um pouco em cada um. Às 19h, na Associação dos Advogados de São Paulo – AASP, acontece a abertura do evento Pauliceia Literária. A escritora Patrícia Melo terá sua obra esquadrinhada por Manuel da Costa Pinto. O evento é pago e os ingressos podem ser adquiridos pelo site. Às 19:30h, na Casa das Rosas, o escritor Ricardo Lísias estará no segundo encontro do Isto não é um perfil – Desmontando os escritores da prosa contemporânea organizado por Luiz Nadal. Vale lembrar que Lísias acaba de lançar Divórcio e não concedeu nenhuma entrevista para falar do romance - respondeu perguntas dos 'jornalistas' por email. Vai ser uma chance interessante de vê-lo pessoalmente. Tem um primeiro capítulo para degustação aqui. O evento é grátis. Às 20h, no SESC Consolação, a nova literatura britânica e brasileira será representada por Ben Markovits (ele largou o basquete pela literatura), Steven Hall, Antonio Prata e Daniel Galera. Os quatro estão na seleção de jovens autores da revista Granta - o número com jovens autores britânicos chegou às livrarias na semana passada - e vão falar sobre suas respectivas obras. Os livros do Markovits ainda não foram publicados no Brasil; já Steven Hall teve seu romance Cabeça Tubarão publicado pela Companhia das Letras (indiquei o livro na edição do fanzine sobre 'videogame'). O bate-papo será mediado por Marcelo Ferroni e tem entrada gratuíta. Difícil decidir, né? *** Pensa que acabou: como falei num texto anterior, na próxima sexta-feira acontece a FLAP! que vai até domingo junto com o evento Pauliceia Literária que também termina no domingo. *Imagem: ilustração de Diana Dorothèa Danon que está no livro São Paulo: 'Belle Époque'/reprodução.
Hoje foi ao ar a minha participação na Copa de Literatura Brasileira 2013. Fiquei muito lisonjeado com o convite dos organizadores e confesso para vocês que senti uma responsabilidade enorme ao saber que teria de avaliar Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera e Habitante irreal, de Paulo Scott. Se você estava num outro país sem acesso a internet aqui vai uma explicação para o temor: foram os dois livros mais comentados da temporada mais recente da literatura brasileira. Para compor minha 'resenha', tentei ler quase tudo o que escreveram a respeito e ruminei durante muitas semanas algumas ideias que anotei em papéis espalhados. Se fosse possível, passava os dois para a próxima rodada de avaliações, mas não dá! Tanto o livro do Galera quanto o do Scott são dignos de nota e precisam ser lidos - basta ter boa vontade para enxergar as qualidades, reconhecer os defeitos e deixar de lado a rabugice contra a literatura brasileira contemporânea (essa palavra que faz muita gente ficar com cara de nojo - vai entender). A Copa é divertida justamente por colocar nova luz e promover mais debate sobre livros que poderiam ficar perdidos nas estantes das livrarias ou das bibliotecas públicas e privadas. Por isso, teria sido muito chato se Habitante irreal tivesse sido retirado dessa edição desde o começo (apenas para registrar, Paulo Scott pediu para que os organizadores retirassem o livro da Copa). Bom, agora chega de papo-furado. Para ler a resenha vai lá no site da Copa e não deixe de acompanhar as outras partidas porque ainda tem várias avaliações que vão ser briga de cachorro grande - como dizem popularmente. *Imagem: reprodução da Copa.
A FLIP anunciou a programação completa da sua décima primeira edição que acontece entre os dias 3 e 7 de julho. Como os curadores gostam de lembrar, a Festa é um evento de artes, humanidades e ideias cujo eixo central é a literatura. O que não engessa os assuntos das mesas e permite mudanças, inovações, experiências e surpresas aos expectadores. Quem não se lembra do ano em que o homenageado foi o sociólogo Gilberto Freire? Não estou menosprezando a importância de sua obra, mas destacando o fato de que com essa manobra a FLIP estava ampliando seu repertório condutor. Portanto, não causa espanto os debates sobre cinema, artes plásticas e arquitetura. O chamariz que confere popularidade a Festa está nessas mesas não necessariamente literárias com Gilberto Gil, Maria Bethânia lendo Fernando Pessoa ao lado de Cleonice Berardinelli, Nelson Pereira dos Santos ao lado da cantora Miúcha e uma mesa com Eduardo Coutinho (gênio). A grande surpresa foi Michel Houellebecq. Acho que ninguém esperava já que ele tinha cancelado a sua participação na Festa, em 2011, alegando problemas pessoais. Resta torcer para que nada aconteça e ele venha. Apesar de ser uma figura aparentemente serena, seus livros sempre despertam debates apaixonados. No romance Partículas elementares, por exemplo, uma das personagens diz "Se havia um país detestável, era justamente, e especificamente, o Brasil”. Em 2008, quando ele esteve no Brasil para o Fronteiras do Pensamento, falou sobre o futebol como uma válvula de escape para o instinto de combate do ser humano. Em 2010, muita gente acusou Houellebecq de plágio quando O mapa e o território ganhou o Prix Goncourt - o livro contém trechos que foram retirados da Wikipédia. Vai ser no mínimo curioso. A tarefa de fazer Houellebecq falar está nas mãos do jovem escritor e crítico espanhol Javier Montes. Será que vão conversar em francês? Ele já morou em Paris, Lisboa, Rio de Janeiro e Buenos Aires, tem experiência com tradução e domína outras línguas. Quem quiser conhecer um pouco dele pode recorrer aquela edição da Granta com Os melhores jovens escritores em espanhol. Montes também apresentou Emilio Fraia para o mundo na edição inglesa da Granta dedicada aos escritores brasileiros. No mais, no terreno da prosa de ficção, a FLIP apostou em nomes ainda pouco conhecido pelos leitores brasileiro como o norueguês Karl Ove Knausgård, o francês Laurent Binet, a norte-americana Lydia Davis e o francês Jérôme Ferrari (ganhador do Prix Goncourt do ano passado). Um pouco mais conhecidos são o bósnio Aleksandar Hemon cuja obra tem sido publicada por aqui pela editora Rocco desde 2002, o irlandês John Baville publicado no Brasil desde o final dos anos 80 pelas editoras Globo, Rocco e Nova Fronteira e o norte-americano Tobias Wolff que apesar de ter livros publicados em português anda meio sumido das estantes - acho que só catálogo. No quesito popularidade, os escritores brasileiros levam vantagem. Três dos prosadores mais comentados da temporada marcam presença: Paulo Scott, José Luiz Passos e Daniel Galera. E para aqueles críticos que acreditam que a não-ficção está mais interessante do que a ficção, vale as mesas entre Lila Azam Zanganeh e Francisco Bosco, Roberto Calasso e Jeanne-Marie Gagnebin (eles vão falar sobre Kafka e Baudelaire) e Geoff Dyer e John Jeremiah Sullivan (promete ser o ponto alto da Festa no domingo em que as pessoas costumam ir embora). No mais, a gente sempre espera que a FLIP traga um escritor por quem somos apaixonados. Só que o mercado editorial no Brasil mudou, as Bienais do Livro estão tentando se reinventar, feiras estão crescendo, eventos menores estão surgindo e as editoras estão mais sintonizadas com isso. O que significa dizer que a gente não precisa esperar só pela FLIP para ver aquele autor que a gente gosta. Logo mais, ele pode pintar por aí na sua cidade. *** Tenho certeza que eu, você e muita gente distribuiu palpites da programação nas conversas de mesa de botecos. Como acontece com o futebol, todo mundo tem uma escalação de sua preferência na cabeça. Algo me dizia que Zadie Smith e David Mitchell finalmente viriam (dois nomes em evidência nesse momento e cujos livros mais recentes devem sair em português logo mais). Não rolou. No mais, lamentei a 'não-vinda' de Chuck Palahniuk e olhando a programação geral, teria incluído Elif Batuman (uma das melhores 'ensaistas' do momento). Faltou uma mesa que contemplasse quadrinhos. Enfim, a lista é longa. Quem sabe numa outra oportunidade. E você? Qual seria a sua escalação? p.s.: deixei de fora os comentários sobre poesia porque o blog trata de prosa de ficção. no entanto, sei que vai ter coisa bacana. (Foto: Walter Craveiro/Flip)
LOURENÇO MUTARELLI Companhia das Letras Razão: nenhum livro reproduz tão bem a atmosfera da incomunicabilidade que ronda o ser humano quanto este. Por mais que as páginas estejam preenchidas por diálogos vertiginosos nós temos a sensação de que sempre resta alguma coisa para ser dita. Nosso desconforto aumenta quando vemos que os elementos narrativos (como espaço e tempo) foram reduzidos ao mínimo essencial e o narrador está completamente mudo - ou seja, o sujeito que deveria nos contar a história está "ausente" e se limita a mostrar as vozes das personagens sem nenhum filtro; assim o leitor vai caminhando por um enredo cujo pontapé inicial está no reaparecimento insólito de Paulo.
9| Terra de casas vazias (2013)
ANDRÉ DE LEONES
Rocco
Razão: muita gente já escreveu sobre a morte, mas o livro de André de Leones compreende essa finitude em toda a sua dimensão: da morte concreta sempre nos espiando (com seu grande olho que nunca fecha) até morte simbólica encarnada na solidão, no medo e isolamento. Mas sempre existe esperança por menor que seja.
10| Gran Cabaret Demenzial (2007) VERÔNICA STIGGER Cosac Naify Razão: quando tudo parece normal demais, corra para a literatura e veja que uma boa dose de nonsense com boas pitadas de humor negro fazem muito bem a saúde. Os contos desse livro são exatamente assim: escatológicos, irônicos, violentos e surrealistas. Por isso mesmo divertido e originalíssimos. Ainda bem!
11| Deus foi almoçar (2013)
FERRÉZ
Planeta
Razão: ao invés de colar a realidade a ficção, Ferréz aponta para a direção contrária e usa as armas da literatura para tentar mudar o mundo que nos cerca. Calixto é um homem que vive uma rotina pesada e aos poucos sente o vazio da existência quando tudo isso começa a perder o sentido. Assim começa sua difícil jornada em busca de redenção. Mas como escolher um caminho quando não queremos seguir por ele?
12| Hotel novo mundo (2009) IVANA ARRUDA LEITE Editora 34 Razão: o primeiro romance de Ivana Arruda Leite tem como cenário as histórias sórdidas e bem humoradas que habitam os hotéis baratos do centro de São Paulo. Várias personagens se encontram para contar seus dramas e sonhos para Renata - uma mulher que abandonou vida pequeno-burguesa carioca para viver sua liberdade anonimamente numa das maiores cidades do mundo.
13| A máquina do saudosismo (2009) - da antologia Futuro Presente
ATAÍDE TARTARI
Record
Razões: a história do nosso ilustre desconhecido parece ficção científica, mas não é. Ele estreou na literatura em 1987 com o livro EEUU 2076 DC, assinado com o pseudônimo de A. A. Smith. Depois disso, seus contos ficaram restritos ao público leitor de fanzines de ficção científica. Ele reapareceu - já com o nome de Ataíde Tartari - no começo dos anos 2000 com dois livros em inglês: Amazon e Tropical Shade. Sua "segunda" estréia aconteceu em 2009 na coletânea Futuro presente, organizada por Nelson de Oliveira. É nesse livro que está o conto "A máquina do saudosismo". Depois de morto, César ressuscita em 2217 e encontra a cidade de São Paulo totalmente transformada por prédios altíssimos, robôs e empresários que pensam apenas no lucro. Desapontado, ele constrói uma máquina capaz de simular a realidade e transportá-lo virtualmente para o século 21 com seus amigos e amores. Ataíde acaba de publicar dois ebooks (por enquanto, ainda não existem em versão impressa): A grande virada do Vitinho e A ilha do Dr. Schultz. Para ficarmos de olho!
14| Barba ensopada de sangue (2013) DANIEL GALERA Companhia das Letras Razão: o escritor por quem todo mundo anda bastante excitado no momento com o livro mais comentado da temporada. A longa trajetória de um sujeito que abandona a civilização para seguir rumo ao mundo selvagem, horrível e assustador. Detalhe: ele não tem nome, esquece o rosto das pessoas que conhece e seu melhor amigo é uma cachorra. Aprecie com moderação. *Imagens: reprodução / capas dos livros são divulgação / ilustrações: montagem a partir de reproduções do Google.
Daniel Galera postou no tumblr dele mais alguns trechos da tradução que está fazendo para The thousand autumns of Jacob de Zoet, de David Mitchell - em português deve ficar com o título Os mil outonos de Jacob de Zoet. A Companhia das Letras tinha previsão de lançar o livro nesse semestre, mas acabou ficando para o ano que vem. Enquanto isso, a gente pode matar a curiosidade com esses trechos:
"Da torre da igreja de Domburg, Jacob viu muitas ventanias chegarem a galope da Escandinávia, mas um tufão oriental tem algo de senciente e ameaçador. A luz do dia é violentada; a floresta se debate no crepúsculo prematuro das montanhas; a baía negra enlouquece com as ondas agitadas; golfadas de espuma do mar borrifam os telhados de Dejima; a madeira range e suspira. Os marujos do Shenandoah estão descendo a terceira âncora; o primeiro imediato dá berros inaudíveis no tombadilho. Para o leste, os comerciantes chineses e a equipagem fazem o que podem para proteger o que possuem. O palanquim do intérprete atravessa a Praça Edo vazia; a fileira de plátanos balança e chicoteia; não se vê nenhum pássaro voando; os barcos dos pescadores vão sendo arrastados até a margem e açoitados em grupo. Nagasaki está se recolhendo para uma noite das piores.”
"Ao se barbear, o homem relê sua mais fiel autobiografia.”
“Gaivotas voam em rodas raiadas de sol sobre telhados luzidios e palha desalinhada, fisgando tripas na feira e escapando por cima de jardins cercados, muros cobertos por lanças e portas de triplo cadeado. Gaivotas pousam nos frontões caiados, nos pagodes cheios de rangidos e estábulos cheios de esterco; circulam sobre torres e sinos cavernosos e sobre praças escondidas em que vasos de urina descansam ao lado de poços tampados, observadas pelos tocadores de mula e pelos cachorros com focinho de lobo, ignoradas pelos tamanqueiros corcundas; sobem pelo pedregoso Rio Nakashima ganhando velocidade e passam por baixo dos arcos de suas pontes enquanto são avistadas das portas das cozinhas e acompanhadas pelos fazendeiros que andam nas cristas elevadas e rochosas. Gaivotas furam as nuvens de vapor que saem dos tachos das lavanderias; sobrevoam milhafres desfiando cadáveres felinos; estudiosos vislumbrando a verdade em padrões ínfimos; adúlteros nas casas de banho; rameiras de coração partido; megeras desmembrando lagostas e caranguejos; seus maridos limpando cavalas nas lajes; filhos de lenhadores amolando machados; fabricantes de velas derramando ceras; oficiais de olhar ferino espremendo taxas; laqueadores estiolados; tintureiros de pele pintada; gente dizendo meias-verdades para acalmar; mentirosos mentindo sem piscar; tecedores de tatames; cortadores de junco; caligrafistas de lábios manchados molhando pincéis; livreiros arruinados por livros encalhados; damas de companhia; provadores; camareiros ; pájens roubando; cozinheiros com o nariz escorrendo; cantinhos escuros de sótãos em que costureiras fuçam nos calos dos dedos; trabalhadores fingindo doença; porqueiros; caloteiros; devedores mascando os lábios e esbanjando desculpas; credores que já ouviram tudo apertando o cerco; prisioneiros assombrados por vidas mais felizes e velhos devassos com a mulher dos outros; professores esquálidos provocados a dar broncas; bombeiros agindo como saqueadores de ocasião; testemunhas caladas; juízes comprados; sogras cultivando roseiras-bravas e rancores; droguistas amassando pilões; palanquins levando filhas que ainda não casaram; freiras taciturnas; putas de nove anos de idade; as outrora belas e hoje carcomidas; estátuas de Jizo sendo ungidas com ramalhetes; sifilíticos espirrando por narizes apodrecidos; ceramistas; barbeiros; mascates de óleo; curtidores; cuteleiros; carroceiros de excrementos; porteiros; apicultores; ferreiros e cortineiros; torturadores; amas de leite; abjuradores; batedores de carteira; os recém-nascidos; os que crescem; os firmes e os dóceis; os enfermos; os moribundos; os fracos e os inconformados; por cima do telhado de um pintor que se afastou primeiro do mundo, depois da família, para mergulhar numa obra-prima que se afastou de seu criador; até voltar ao mesmo lugar, até onde o voo teve início, sobre a varanda da Sala do Último Crisântemo, onde uma poça de chuva da noite passada está evaporando; uma poça na qual o Magistrado Shiroyama observa os reflexos borrados de gaivotas voando em rodas raiadas de sol. Esse mundo, ele pensa, abriga uma única obra-prima, que é ele próprio.”
“A verdade de um mito… não está nas palavras, e sim nos padrões.”
“Antes da chamada noturna, Jacob sobe na Torre de Vigia e tira o caqui do bolso do casaco. Os dedos de Aibagawa Orito deixaram marcas na fruta madura e ele encaixa nelas os próprios dedos, aproxima o presente das narinas, aspira sua doçura abrasiva e rola a sua redondeza sobre os lábios rachados. Me arrependo da minha confissão, pensa, mas que escolha eu tinha? Ele eclipsa o sol com o caqui: o planeta brilha alaranjado como uma lanterna de abóbora. Há uma espécie de poeira ao redor do chapéu e do caule pretos. Sem faca ou colher à mão, ele prende uma pontinha da casca cerosa nos indicadores e a rasga; o suco escorre pelo corte; ele lambe os pingos adocicados, suga fora um naco gotejante de carne filamentosa e o prende suavemente, suavemente, contra o céu da boca, onde a polpa se desintegra em jasmim fermentado, canela oleosa, melão perfumado, ameixas derretidas… e no coração da fruta ele encontra dez ou quinze pedras chatas, da mesma cor marrom e formato dos olhos asiáticos. O sol se foi agora, as cigarras calam, lilases e turquesas turvam e se diluem em cinzas sucedidos por cinzas ainda mais escuros. Um morcego passa a poucos metros, perseguido por sua própria turbulência felpuda. Não há o mais tênue sopro de vento. A fumaça sobe da chaminé da cozinha do Shenandoah e vai se desmanchando em torno da proa do brigue. As portinholas estão abertas e a água carrega o som de dez dúzias de marujos jantando no seu ventre; e como um diapasão posto a vibrar, Jacob reverbera com as partes e com o todo de Orito, com tudo que faz com que ela seja ela. A promessa feita a Anna arranha sua consciência como um esmeril, Mas Anna, ele pensa com desconforto, está muito afastada em milhas e anos; e ela me deu o seu consentimento, ela praticamente me deu o seu consentimento, e além disso ela jamais ficaria sabendo, e o estômago de Jacob ingere o presente escorregadio de Orito. A Criação não terminou na sexta noite, ocorre ao jovem. A Criação se desdobra ao redor de nós, apesar de nós e através de nós, na velocidade dos dias e das noites, e gostamos de chamá-la de Amor.”
David Mitchell, Os mil outonos de Jacob de Zoet via Daniel Galera.
Vi no GalleyCat uma notícia curiosa e pensei em abrir algumas ideias a respeito. A notícia dizia que há duas semanas atrás a blogueira e escritora americana Livia Blackburne escreveu um longo post dizendo que escritores não deveriam se dedicar aos blogs porque "blogar é uma perda de tempo". Simplificando o post, os três principais para que os escritores abandonassem seus blogs eram:
1. Blogar é melhor para os escritores de não-ficção porque eles compartilham os seus conhecimentos com um público específico, estar ligado com o público pode ajudar as vendas.
2. "Tempo gasto no blog é tempo gasto longe de outra coisa: escrevendo outro livro, contatando um clube do livro, trabalhando meio período e investindo esse dinheiro em publicidade ou com um agente”.
3. Escritores de romances blogam muitas vezes se concentram na arte de escrever ao invés de se concentram em seus próprios leitores, criando "uma conferência escrita interminável". Enquanto isso ajuda a "encontrar novos amigos, desenvolvimento profissional e aprendizagem do seu ofício", não significa necessariamente aumentar as vendas de livros.
Logo depois ela escreveu um outro post dizendo que embora blogar seja perda de tempo, John Locke (aquele que vendeu 1 milhão de livros no Kindle em cinco meses) achou um caminho certo para aumentar suas vendas.
É certo que o post e as ideias giram muito em torno do mercado editorial americano. No entanto, se pensarmos no mercado editorial brasileiro acho que a Livia Blackburne vai ter razão. A internet realmente facilitou a divulgação e circulação de novos escritores, mas isso não significa que ela mudou a maneira como fazemos e pensamos o universo literário.
Um caso brasileiro No final dos anos 90 e começo dos anos 2000 alguns dos nossos escritores ficaram conhecidos por meio da internet. O blog foi uma ferramenta fundamental para mostrar o trabalho de gente que estava escrevendo, mas que ainda não tinha alcançado reconhecimento mais amplo. Só que essa "geração" de escritores conseguiu publicar livros impressos e deixou da internet um pouco de lado. De modo que é raro ver novos escritores publicando ficção em blogs. Quase não se vê.
Não que o blog (e a internet) tenha perdido importância para a literatura. Pelo contrário, os blogs junto com as redes sociais ocupam o lugar da divulgação, do debate de ideias, das resenhas, das informações sobre um escritor, da reunião de leitores, das agendas de feiras, festas etc. Pode ser que antes da Livia Blackburne a gente já tivesse percebido que como escritores era mais importante se dedicar ao trabalho do que ao blog.
Pegando um caso mais brasileiro, Daniel Galera e Joca Reiners Terron falaram sobre o blog como ferramenta para escritores na reportagem Internet não anula estratégias de marketing, do jornal Gazeta do Povo. O pensamento dos dois sintetiza bastante coisa. Na reportagem Galera resume o caso da seguinte forma:
“A internet se firmou como um grande catalisador das relações entre autores, leitores e críticos, e não como um novo meio para publicação de literatura. A discussão literária da internet ainda se dá em torno de livros impressos”.
E o Joca disse o seguinte:
Terron, que concorda que a rede serve mais para reunir os interessados em literatura, acredita que as grandes editoras ainda detêm o “selinho ISO 9000 de qualidade literária”.
Expandindo um pouco mais a fala dos dois, é possível dizer que de fato o grande número de discussões que rolam na internet gira em torno dos livros impressos e a internet por si só não parece capaz de legitimar alguém como escritor. O livro impresso é a verdadeira confirmação de que aquela pessoa exerce aquele ofício. Pensando dessa forma fica difícil imaginar a existência de um tipo de literatura que seja da internet. Por isso faz mais sentido usar a internet como meio de divulgação do trabalho do que formatação do trabalho em si.
Outro exemplo bacana foi a antologia ENTER, organizada pela Heloísa Buarque de Hollanda e pensada para o mundo virtual. A antologia não pretendia mostrar escritores que eram apenas da internet, mas mostrar a internet como potencia de visibilidade e acessibilidade da literatura. Tanto que a maioria dos 37 escritores que participaram tinham um pé fincado no mundo impresso. E gosto de falar desse caso porque existe um comentário da Heloísa que deixa bem claro a relação entre internet e produção de ficção:
"Não existe uma literatura de internet, mas, sim, práticas literárias na rede, que são diversificadas. E a antologia mostra que o que expandiu foi a palavra. Não foi a literatura do ponto de vista tradicional e canônico. Essa que preza a qualidade e a autoridade continua, e também hospedada na internet”.
Depois dessas longas explicações gostaria de abrir uma discussão em torno dessas ideias. Será mesmo que para um novo escritor blogar é perda de tempo? Será que existem escritores na internet? Será que existem escritores ou grupos de escritores que fazem da internet o seu laboratório de criação?
O caderno Prosa & Verso (do jornal O Globo) deidicou algumas páginas ao lançamento da antologia Geração zero zero: fricções em rede que está saindo pela editora Língua Geral. O livro foi organizado pelo escritor Nelson de Oliveira. Ele passou três anos pesquisando escritores que apareceram na última década e que tiveram pelo menos dois livros publicados. De um total de cento e cinquenta, pinçou apenas vinte e um - deixando de fora cinco escritores que gostaria de ter incluído, mas que não puderam participar: Clarah Averbuck, João Paulo Cuenca, Marcia Tiburi, Mário Araújo e Tatiana Salem Levy.
O caderno publicou uma entrevista com Nelson de Oliveira. Ele fala sobre o polêmico rótulo "geração", sobre as acusações de a coletânea ser puro marketing e sobre a vitalidade da literatura brasileira contemporânea. É impossível não pensar no debate de meses atrás sobre a apatia da nossa literatura. Não é à toa que Beatriz Rezende assina uma resenha sobre a antologia no Prosa & Verso. Tem ainda um comentário do caderno.
A parte qualquer discussão, sempre digo que essas antologias tem o mérito de servirem como ponto de partida para leitores descobrirem jovens escritores. Considerando que vivemos um momento de intensa publicação de livros. No final, podemos ter um panorama (ainda que sob a ótica particular de uma pessoa) do que está acontecendo na literatura atual.
A antologia Geração zero zero tem participação de:
Flávio Viegas Amoreira (1965, Santos) - Autor do livro de contos Contogramas (2004) e poeta. Participa da antologia com "Apaixonado de mar", "Stallone, a pândega e o pederasta", O gato de Guima" e "Nazca".
Marcelo Benvenutti (1970, Porto Alegre) - Autor dos livros de contos Arquivo morto (2008), Vidas cegas (2002), O ovo escocês (2004) e Manual do fantasma amador (2005). Participa da antologia com "O homem que mostrava a língua", "O homem que amava as gordas (e as feias também)" e "O homem que suava ratos".
João Filho (1975, Bom Jesus da Lapa) - Autor dos livros de contos Encarniçado (2004) e Ao longo da linha amarela. Já teve contos publicados em diversas coletâneas de ficção. Participa da antologia com "Sob o sol de lugar nenhum".
Whisner Fraga (1971, Ituiutaba) - Autor dos livros de contos Seres & sombras (1997), Coreografia dos danados (2002), A cidade devolvida (2005) e Abismo poente (2009). Também publicou o romance As espirais de outubro (2007) e livros de poesia. Participa da antologia com "X".
Andréa del Fuego (1975, São Paulo) - Autora dos livros de contos Minto enquanto posso(2004), Nego tudo (2005), Engano seu(2007) e Nego fogo (2009). Também publicou o romance Os malaquias (2010). Já teve contos publicados em diversas coletâneas de ficção e escreveu livros infanto-juvenis. Participa da antologia com "Um milhão de vezes" e "Francisco não se dá conta".
Daniel Galera (1979, São Paulo, mas vive em Porto Alegre) - Autor do livro de contos Dentes guardados (2001) e dos romances Até o dia em que o cão morreu (2007), Mãos de cavalo (2006) e Cordilheira (2008). Também publicou a graphic novel Cachalote (2010) com Rafael Coutinho. Participa da antologia com "Laila" e "O velho branco".
Marne Lúcio Guedes (1960, Rio de Janeiro) - Autor do livro de contos Cio (2008). Participa da antologia com "A mão que afaga".
Maria Alzira Brum Lemos (1959, Campinas) - Autora do livro A ordem secreta dos ornitorrincos (2008). Participa da antologia com "Perto de você", "A terrorista do sutiã", "Conto para transmissão radiofônica", "Princesa" e "Ela nos meus sonhos".
Tony Monti (1979, São Paulo) - Autor dos livros de contos O mentiroso (2003), O menino da rosa (2007) e Exato acidente (2008). Participa da antologia com "Esc" e "Esboço de Ana".
Sidney Rocha (1965, São Paulo) - Autor do romance Sofia – uma ventania para dentro (2005) e do livro de contos Matriuska (2009). Participa da antologia com "Magnetismo", "Dança comigo", "O carretel", "Certo dia, a prateleira", "Não", "Sobre a arte de falir", "Para averiguações", "O destino das metáforas" e "Texto de orelha".
Carola Saavedra (1973, Santiago/Chile, mas veio para o Brasil aos 3 anos de idade) - Autora do livro de contos Do lado de fora (2005) e dos romances Toda terça (2007), Flores azuis (2008) e Paisagem com dromedário (2010). Participa da antologia com "A rainha da noite".
Walther Moreira Santos (1979, Vitória de Santo Antão) - Autor dos romances Um certo rumor de asas (2004), Helena Gold (2006), Dentro da chuva amarela (2006) e O ciclista (2008). Também publicou um livro infanto-juvenil. Participa da antologia com "Chove" e "Postais do abismo".
Carlos Henrique Schroeder (1975, Trombudo Central) - Autor dos romances A rosa verde (2005), Ensaio do Vazio (2006) e As certezas e as palavras (2010). Participa da antologia com "Apontamentos sobre o olhar".
Paulo Scott (1966, Porto Alegre) - Autor do livro de contos Voláteis (2005) e Ainda orangotangos (2007). Também publicou poesia e dramaturgia. Participa da antologia com "Sanduíche recheado de anzóis" e "Clichê policial".
Veronica Stigger (1973, Porto Alegre) - Autora dos livros de contos O trágico e outras comédias (2007), Gran Cabaret Demenzial (2007) e Os anões (2010). Também publicou livros infanto-juvenis. Participa da antologia com "Mancha".
Lima Trindade (1966, Brasília) - Autor do livros de contos Todo sol mais o Espírito Santo (2006), Corações blues e serpentinas (2007) e do romance Supermercado da Solidão (2005). Participa da antologia com "Bárbara não atende" "Eu, James Gandolfini (ou Jukebox)".
Em tempo, o livro Geração zero zero terá dia 21 de junho na Livraria da Vila (da Fradique Coutinho) a partir das 18h30. também haverá lançamento em Brasília, Porto Alegre, Salvador e Rio de Janeiro.
Dois romances que singelamente deram o que falar em 2010 estão em tradução para o português. The thousand autumns of Jacob de Zoet, de David Mitchell e Mr. Peanut, de Adam Ross devem chegar as prateleiras das livrarias brasileiras no segundo semestre desse ano.
David Mitchell pode ser considerado um escritor veterano. Publicou cinco romances, todos muito diferentes entre si, que nunca passaram despercebidos por crítica e leitores. Além de contar boas histórias, ele tem um estilo muito particular que o permite escrever histórias de natureza variada indo dos monumentais romances com múltiplos narradores ao longo dos séculos a simplicidade da vida de um menino gago nos anos 80. James Wood, num perfil sobre o escritor para a New Yorker, disse que Mitchell tem mais histórias na cabeça do que maneiras de realizá-las. Em The thousand autumns... Mitchell recria a atmosfera do Japão no começo do século XIX para contar a história de amor de Jacob de Zoet, um mercador holandês, por Orito Aibagawa, uma parteira japonesa.
O livro está sendo traduzido pelo escritor Daniel Galera - tradutor de John Cheever, Zadie Smith, Jonathan Safran Foer e Irvine Welsh. Galera postou no tumblr dele um trecho da tradução. É curto, mas dá para acompanhar a beleza da prosa de Mitchell.
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Adam Ross é um escritor novato, mas autor de um romance bastante "pretensioso" para um estreante - como muita gente falou. Para se ter uma ideia, ninguém menos que Stephen King - o mestre do terror(!) - disse que Mr. Peanut lhe causou pesadelos. Falou mais, é "um fascinante olhar sobre o lado negro do casamento desde Quem tem medo de Virgínia Woolf?". A tal pretensão de Ross está na estrutura do romance. Ele queria construir uma história que lembrasse uma fita de Moebius - aquela fita que tem apenas "um lado" e não tem fim. Além da estrutura repetida, o livro tem alusões ao universo dos videogames, ao filme Janela indiscreta, de Alfred Hitchcock, a obra do artista M.C.Escher e remete a Raymond Carver, Cheever e Updike. Já nasce como grande literatura.
Misteriosamente Alice Pepin, que é alérgica a amendoins, aparece morta com um amendoim na garganta. O primeiro suspeito do crime é o marido dela, David Pepin. A coisa fica complicada quando descobrimos que os dois investigadores envolvidos no caso também tem relações estranhas com suas esposas.
O livro está sendo traduzido pelo escritor Daniel Pellizzari - tradutor de David Foster Wallace, Hunter S. Thompson, Lawrence Durrell, William S. Burroughs, Irvine Welsh e adivinhem: David Mitchell.
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Autores favoritos de David Mitchell: Italo Calvino, Haruki Murakami, John Banville, Vladimir Nabokov, George Eliot, Muriel Spark e Ursula K Le Guin.
Autores favoritos de Adam Ross: Saul Bellow, Vladimir Nabokov, Joseph conrad, Italo Calvino, Haruki Murakami, Alice Munro.
Amanhã, a TV Cultura exibe o primeiro episódio da série Amores Expressos. O programa tem 16 documentários com duração de 22 minutos cada e será exibido semanalmente sempre às quintas-feiras, às 23h15, com reprise no Sábado, às 21h45. A estréia terá o escritor Antonio Prata na cidade de Xangai, na China.
Para quem não conhece, o projeto Amores Expressos foi criado pelo produtor Rodrigo Teixeira - com curadoria do escritor João Paulo Cuenca. Escritores brasileiros de diversas gerações viajaram para várias cidades do mundo. Cada um deles tinha de escrever uma história de amor inspirada na cidade em que estava.
Os diretores Tadeu Jungle e Estela Renner foram companheiros na empreitada e produziram 16 documentários captando as impressões e o processo de criação de cada escritor - esses, por sua vez, tinham câmeras digitais e máquinas fotográficas para registrar tudo o que acontecia e ainda mantinham um blog com textos e comentários.
A experiência aconteceu em 2007, resultando primeiro numa coleção de livros e agora nessa série de documentários para TV. Desde 2008, os livros estão sendo lançados pela Companhia das Letras. Já saíram: Cordilheira, de Daniel Galera (Buenos Aires), Estive em Lisboa e lembrei de você, de Luiz Ruffato (Lisboa), O filho da mãe, de Bernardo Carvalho (São Petesburgo), O único final feliz para uma história de amor é um acidente, de João Paulo Cuenca (Tóquio) e Do fundo do poço se vê a lua, de Joca Reiners Terron (Cairo).
Na próxima semana ocorre o lançamento do romance Nunca vai embora, de Chico Mattoso (Havana). No mês que vem a editora publica O livro de Praga, de Sergio Sant’Anna (Praga).
O deslocamento de território propõe uma questão interessante: será que o escritor brasileiro consegue produzir literatura brasileira no estrangeiro - ou num lugar que lhe é estrangeiro? É fato que a gente consome literatura estrangeira diretamente na fonte, sem filtros. Só que fazemos isso olhando do lado de cá. A mudança para outros lugares pode afetar esse processo? Estamos construindo obras mais universais e menos locais? Só quando a série estiver completa teremos um plano geral.
Até agora a experiência tem rendido bons frutos e diversos elogios da crítica. O filho da mãe, por exemplo, foi finalista de prêmios importantes de literatura e está na semifinal da Copa de Literatura. Do fundo do poço... ganhou o Prêmio Machado de Assis no ano passado. O único final feliz... foi muito bem comentado. Esqueci mais algum?
Da série, li apenas O filho da mãe e O único final feliz... ambos assimilam muito bem o nacional e o estrangeiro. O Brasil é um país nem tão distante. As histórias de amor parecem tão sufocantes quanto a própria experiência de ser estrangeiro. E no final parece que sempre existe um acidente para tornar a história feliz.
*Atualização*: esqueci de dizer que Cordilheira, de Daniel Galera também ganhou o Prêmio Machado de Assis e foi finalista do Prêmio Jabuti. Valeu, Diana!
O blog da Cosac Naify nos deu um pequeno presente ao promover o lançamento da novela História abreviada da literatura portátil, de Enrique Vila-Matas - publicado originalmente em 1985. Explico melhor: a editora convidou autores para escreverem relatos sobre "sociedades secretas que conheceram e/ou fizeram parte". As histórias foram publicadas no blog da editora em três partes - para acompanhar Top Secret, Top Secret II e Top Secret III.
O livro de Vila-Matas conta a história de um grupo de intelectuais do começo do século XX que funda uma sociedade secreta a fim de promover "o amor à escrita como diversão, a insolência, o espírito inovador e a autoria de obras que pudessem caber facilmente numa maleta". O grupo se autodenomina sociedade portátil ou sociedade shandy. Segundo o narrador do romance, o nome da sociedade teria várias explicações e significados possíveis - o que lembrar as explicações de Tristan Tzara para o nome do movimento Dadaísta. Aliás, Tzara é uma das personagens da novela junto com Marcel Duchamp, García Lorca, Walter Benjamin e tantos outros escritores, pintores e artistas. Detalhe: todos eles existiram realmente e nas mãos de Vila-Matas acabam virando personagens de ficção.
Seguindo o mesmo padrão de misturar a realidade com a ficção, Daniel Galera, Antonio Xerxenesky, Vanessa Barbara, Sérgio Rodrigues, Júlio Pimentel Pinto, Chico Mattoso e Joca Reiners Terron criaram história curiosas, engraçadas e até certo ponto, verídicas. Dessa vez, as personagens são Thomas Bernhard, Georges Bataille e uma galeria de escritores estrangeiros e nacionais se reunindo em torno da comida ou debatendo a literatura portátil.
Em tempo, Enrique Vila-Matas vai participar do 3º Congresso Internacional de Jornalismo Cultural em maio desse ano.
O site The Millions faz uma brincadeira interessante comparando a capa de livros em edições americanas e inglesas. Pegando a ideia emprestada, entrei na brincadeira escolhendo alguns autores brasileiros e portugueses para comparar o designer de capa de cada um. Imagino que as duas questões que sempre atormentam o trabalho de quem faz a capa são: resumir o enredo do livro numa única imagem e conquistar a atenção do leitor para aquele produto. Por isso, a brincadeira tem um resultado curioso quando percebemos que o que nos fisga nas livrarias é bem diferente daquilo que fisga nossos "patrícios d'além mar".
Como não sou especialista no assunto, estou comentando de maneira bem prosaica - no melhor estilo inexperiente sem compromisso. Alguns livros ainda estão na minha fila de leitura, portanto não posso comentar sobre a relação do conteúdo com a capa.
As capas das edições brasileiras estão do lado direito. Os comentários estão abertos quem quiser pode participar.
Leite derramado, Chico Buarque. Sei que a edição brasileira saiu com duas capas diferentes: uma branca com título em preto e outra laranja com o título em branco. As duas versões ficaram limpas e sóbrias, embora a laranja chame mais atenção e seja a mais conhecida. Já a edição portuguesa escolheu uma imagem que diz muito a respeito do enredo do livro.
Estive em Lisboa e lembrei de você, Luiz Ruffato. Enquanto a edição portuguesa optou por uma foto da cidade, nossa edição optou pelo galo português que é muito mais simbólico. Soa carinhosa a pequena adaptação no título para "...lembrei-me de ti".
A arte de produzir efeito sem causa, Lourenço Mutarelli. As duas editoras optaram pela mesma imagem na capa. A diferença está apenas no formato: em Portugal é quadrado e mais longo, enquanto no Brasil as bordas são arredondadas e o livro um pouco menor. Comentário a parte: o projeto gráfico do pessoal do Máquina Estúdio (no Brasil) é realmente espetacular.
Caim, José Saramago. Enquanto a edição brasileira optou por uma imagem abstrata, a portuguesa preferiu uma figura bíblica. E esse furo na testa da figura tem uma força simbólica muito forte.
Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?, António Lobo Antunes. Aqui tem uma questão de identidade visual. Praticamente todos os livros da Alfaguara no Brasil tem essa espécie de moldura. O cavalo do título aparece na singela figura de um cavalinho de pau na mão de uma menina. Já a edição portuguesa optou pela força desse cavalo furioso, trotando.
O remorso de baltazar serapião, Valter Hugo Mãe. Ficou bonita a imagem dessa cabeça com um mapa antigo. Lembra mesmo uma posição de remorso. A edição brasileira também ganhou uma identidade bem nacional com esse desenho que lembra uma serigrafia. E diz muito sobre a história, imagino.
Mãos de cavalo, Daniel Galera. Resolvi mencionar essas duas capas não para falar de beleza. Mas achei bem curioso que a capa portuguesa seja mais literal na imagem.
O único final feliz para uma história de amor é um acidente, João Paulo Cuenca. A edição brasileira é bastante elaborada e cheia de informações visuais que lembrar elementos da cultura visual japonesa. Pelo menos é o que me parece. Os portugueses optaram pelo minimalismo das cores da bandeira japonesa e pelo desenho da boneca, personagem do romance. Bem curioso também.
Tchekhov em tirinhas O cartunista Ben Greenman resolveu fazer um resenha diferente para um livro de Anton Tchekhov: uma tirinha. Bem humorado, o cara viu nos contos do autor russo um paralelo com a vida de diversas personalidades americanas. Vale uma leitura rápida, não leva nem cinco minutos. A tirinha completa está disponível em http://tinyurl.com/4vlkufn
Literatsi O blog Literatsi está lançando na internet uma revista digital sobre literatura. O editor do blog e da revista, Luiz Fernando Cardoso, tocou todo o projeto para colocar o primeiro número no ar. Ele conta que esse número ficou um pouco atrasado por conta de alguns problemas, por isso algumas seções estão um pouco desatualizadas. De qualquer ele já está convidando colaboradores para o próximo número. O primeiro número da revista e mais informações estão disponíveis em http://tinyurl.com/4g79fja
Blog O Instituto Moreira Salles está estreando um blog - http://blogdoims.uol.com.br/. Por enquanto já tem um debate em vídeo, textos da revista Serrote assinados por Boris Schnaidermann e um texto de Davi Arrigucci Jr. sobre um quadro de Ismael Nery. Para quem quer saber sobre ficção o destaque será a seção de correspondência entre o escritor Daniel Galera e o editor André Conti.
Book trailer A editora Agir colocou no youtube um trailer incrível do livro O seminarista, de Rubem Fonseca lançado em 2009. Fonseca tem fama de ser avesso às entrevistas e aparições em público, mas por incrível que pareça ele é o narrador deste vídeo. O gesto lembra Thomas Pynchon que também é o narrador no trailer do livro Vício inerente. O vídeo de O seminarista produzido pelo pessoal do Retina 78 está disponível em http://tinyurl.com/ygkxdgz
Influências O escritor americano Adam Levin publicou no ano passado The instructions - seu primeiro romance com mais de 1000 páginas. Ele disse que escreveu o livro influenciado por Infinite Jest, de David Foster Wallace - um romance tão grande quanto o seu. Entre outras influências ele citou Don Dellilo, Philip Roth e George Saunders. The instructions foi bastante comentado por conta do seu tamanho, mas passado o choque inicial o romance tem recebido críticas bastante positivas.
Quem disse que o pessoal das letras não gosta de festa? Estréia amanhã a festa FICÇÃO organizada por Carola Gonzalez e Renata Megale. Todo mês personalidades do mundo das letras vão dominar as pick-ups do clubinho Alberta#3 em São Paulo.
Na primeira edição quem coloca o povo para dançar são os escritores Michel Laub e Daniel Galera, Marcos Sacchi (o capista da editora Conrad) e André Conti (editor da Cia das Letras). A noite promete bastante. Será que o Daniel Galera vai de rock and roll, pop anos 80 e brasilidades? Vai ter até um drinque especial "NÃO FICÇÃO!".
INFO:
Ficção - 23.11 - 22h Alberta#3 Avenida São Luís, 272 - República Preços: R$30 na porta ou R$20 com nome na lista
Somente agora o romance Luka e o fogo da vida, de Salman Rushdie está chegando as livrarias dos Estados Unidos. Esse livro foi lançado mundialmente em agosto, aqui no Brasil, por ocasião da participação de Rushdie na FLIP.
Luka e o fogo da vida retoma um outro romance escrito por Rushdie, Haroun e o mar de histórias. Luka tem apenas doze anos e almeja ser como seu pai, Rashid Khalifa, e seu irmão mais velho, Haroun. No entanto, depois de provocar um incêndio acidental num circo que está na cidade, Luka vê seu pai cair num feitiço mortal. A única maneira de quebrar o feitiço e salvar Rashid Khalifa da morte é roubando o Fogo da Vida. Assim, Luka inicia sua jornada pelo Mundo da Magia a fim de enfrentar diversos obstáculos para conquistar seu objetivo.
Rushdie coloca na história diversos elementos das mitologias antigas e contemporâneas além de inserir outros elementos que lembram o universo dos videogames - recomendo a leitura de Luka e os videogames, em que Daniel Galera fala dessa ligação.
Para promover o livro nos Estados Unidos, a editora Random House colocou um booktrailer cinematográfico na internet. Também é possível ouvir o próprio Rushdie lendo um trecho do livro em inglês para um podcast da revista Vanity Fair. Por aqui, o livro foi lançado pela Companhia das Letras em edição caprichada com tradução de José Rubens Siqueira - tem um trecho em português aqui.
Zadie Smith pop Zadie Smith, além de ser uma escritora talentosa, está se tornando também uma das mais populares de sua geração. O blog Londonist, por exemplo, mapeou e fotografou alguns lugares de Londres que aparecem no livro de estréia da autora, Dentes brancos. Além disso, o designer Henrik Kubel criou uma fonte baseada na capa da edição americana do romance Sobre a beleza. A fonte foi batizada de "Zadie".
Missão cumprida Pelo visto a tarefa dos 36 escritores diferentes que se reuniram para escrever um romance em 6 dias foi bem sucedida. O desafio de cada um deles era escrever por duas horas e entregar o material para o próximo autor que iria continuar a história. A maratona foi totalmente voltada para a internet, com transmissão ao vivo pelo site e cobertura através de Facebook e Twitter. O resultado final já está disponível na internet no site http://www.thenovellive.org/
Larsson guerrilheiro Segundo informações do jornal Telegraph, Stieg Larsson passou um ano treinando guerrilheiras na África. Eram mulheres que faziam parte de um grupo marxista que lutava pela libertação e independência da Eritréia, na Etiópia. Quem divulgou essa passagem da vida de Larsson foi um amigo íntimo, João Henrique Holmberg. Todo o episódio se passou antes de Larsson se tornar o famoso ator da trilogia Millenium.
Estréia na internet Mais escritores estão aderindo ao mundo da internet. Só nessa semana foram três: o escritor veterano Milton Hatoum, a estreante Lívia Sganzerla Jappe e a escritora internacional Isabel Allende - o blog é escrito por uma assistente, mas parece que a pedido de Isabel.
Livros preferidos A semana não pode ser completa sem qualquer notícia envolvendo o escritor Jonathan Franzen. Depois de ser escolhido oficialmente pelo book club da apresentadora Oprah Winfrey, Franzen confessou suas leituras preferidas. Ele não quis economizar e citou 27 livros, entre eles: Seize the day, de Saul Bellow; O céu que nos protege, de Paul Bowles; Ruído branco, de Don Delillo; The Hamlet, de William Faulkner; Desesperados, de Paula Fox; Something happened, de Joseph Heller; Song of Solomon, de Toni Morrison; Uma questão pessoal, de Kenzaburo Oe; todos os livros de Alice Munro; Os filhos da meia-noite, de Salman Rushdie; The familiy Moskat, de Isaac Bashevis Singer. Parece engraçado dizer isso, mas de alguma maneira a obra de Franzen tem semelhanças com esses escritores.
Mais trilha sonora Depois de Daniel Galera, foi a vez João Paulo Cuenca dizer qual a sua trilha musical preferida para o Caderno2, do Estadão. A trilha vai do soft eletrônico "Odessa - Caribou" ao rock alternativo com as canções "Shelter - The XX", "Metal heart - Cat Power" e "These are my twisted words - Radiohead". Ele também não deixou de fora o clássico "The köln concert - Keith Jarret" e a canção mais cortante "Girl from the north country - Bob Dylan.
A próxima geração Em passagem pelo Brasil, o Nobel Mario Vargas confessou que acompanha a atual literatura peruana nas obras de Daniel Alarcón e Santiago Roncagliolo. Os dois jovens escritores já são bastante conhecidos e estiveram nas listas da revista New Yorker e Granta, respectivamente.
"Em algum momento, ele também parou de fazer a barba - eram os primeiros dias dos anos 1970, e muitos de seus colegas usavam barba, mas Affenlight imaginava que a sua era diferente: não era a barba de um hippie, mas uma antiga, de escritor, do tipo que aparecia nos daguerreótipos esmaecidos daqueles livros que ele estava aprendendo a amar."
Chad Harbach. A arte do jogo.
"(...) (eu mesmo, sem ir mais longe, sou virgem. A não ser que se considere a felação interrompida de Brígida um desvirginamento. Mas isso é fazer amor com uma mulher? Não deveria simultaneamente ter lhe chupado o sexo para considerar que de fato fizemos amor? Para que um homem deixe de ser virgem deve introduzir o pau na vagina de uma mulher e não na sua boca, no seu cu ou na sua axila? Para considerar que fiz de verdade amor devo previamente ejacular? Isso tudo é muito complicado)."
Roberto Bolaño. Os detetives selvagens.
"Por algum tempo a Crítica acompanha a Obra, depois a Crítica se desvanece e são os leitores que a acompanham. A viagem pode ser comprida ou curta. Depois os leitores morrem um a um, e a Obra segue sozinha, muito embora outra Crítica e outros Leitores pouco a pouco se ajustem à sua singradura. Depois a Crítica morre outra vez, os Leitores morrem outra vez, e sobre esse rastro de ossos a Obra segue sua viagem rumo à solidão. Aproximar-se dela, navegar em sua esteira é um sinal inequívoco de morte segura, mas outra Crítica e outros Leitores dela se aproximam, incansáveis, e o tempo e a velocidade os devoram. Finalmente a Obra viaja irremediavelmente sozinha na Imensidão. E um dia a Obra morre, como morrem todas as coisas, como se extinguirá o Sol e a Terra, o Sistema Solar e a galáxia, e a mais recôndita memória dos homens. Tudo o que começa como comédia acaba como tragédia."
Roberto Bolaño. Os detetives selvagens.
"Vou até o armário. Tiro de lá uma caixa vermelha, dentro dela dezessete cadernos dos quais não consegui me livrar. Penso, o que será do passado quando os rastros se forem e ficar apenas a memória. Como se os rastros dissessem alguma coisa. Os rastros contam sempre outra história. Abro um dos cadernos, leio com cuidado o primeiro parágrafo, sinto como se o lesse pela primeira vez. E talvez seja, uma leitura divorciada da emoção, do acontecimento em si. As palavras parecem ter perdido sua substância, como uma fruta que tivesse perdido sua carne e restasse apenas a casca. A casca das palavras é frágil e ressecada. Eu te amo, diz o texto. Talvez entre o eu te amo e o amor propriamente dito haja um espaço intransponível. Talvez o tempo que passa. Mas não apenas. Talvez um inevitável desencontro. Essa incoerência. Leio o texto como se fosse parte de um romance. Talvez seja isso, e quando o amor acaba resta apenas a ficção."
Carola Saavedra. O inventário das coisas ausentes.
"Naquela noite eu não consegui sossegar, fiquei andando pela casa, de um lado para o outro no quarto, subindo e descendo a escada, entrando e saindo dos cômodos do térreo. Parece que eu era maior que o mundo, tudo cabia em mim, e já não havia espaço para eu me expandir. A humanidade era pequena, a história era pequena, o planeta era pequeno, sim, até o universo, que diziam ser infinito, era pequeno. Eu era maior que tudo. Aquele era um sentimento fantástico, mas me deixava inquieto, pois o mais importante nele era a expectativa, o que estava por vir, o que eu faria, e não o que eu estava fazendo ou já tinha feito.
Como aplacar tudo aquilo que me queimava por dentro?
Forcei-me a ficar deitado na cama, a me manter imóvel, a não mexer um músculo, não importava quanto tempo, até que o sono chegasse. Estranhamente, ele não demorou mais que alguns minutos, estava à espreita como um caçador fica à espreita da sua presa distraída, e eu não teria nem percebido o disparo não fosse um súbito tremor no pé, algo que me alertou para meus pensamentos, que estavam em outro mundo, era como se eu estivesse no convés de um barco enquanto uma baleia enorme mergulhava bem perto, nas profundezas, e eu conseguia vê-la, embora isso fosse impossível do local onde me encontrava. Era o começo de um sonho, compreendi, um sonho que se apoderava do meu ego, onde este se transformava no que o cercava, pois foi isso que aconteceu quando eu tremi, eu era um sonho, o sonho era eu.
Tornei a fechar os olhos.
Não se mexa, não se mexa, não se mexa..."
Karl Ove Knausgard. A morte do pai - minha luta 1
"Qual era o problema? Seria a nota estridente e doentia que soava por toda a sociedade o que eu não suportava, aquela nota que se erguia de todas as pseudopessoas e pseudolugares e pseudoconflitos que vivenciávamos ao longo de toda a nossa vida, de tudo aquilo que víamos sem participar, e a distância a que a vida moderna tinha se afastado de tudo o que era nosso, de tudo que era inalienável, do aqui e do agora? Neste caso, se o objeto do meu anseio era mais realidade, mais presença, eu não devia simplesmente aceitar tudo o que me rodeava? E acima de tudo ansiar por coisas mais distantes? Ou será que eu reagia contra o elemento pré-fabricado no mundo, contra a rotina inexorável que seguíamos, que tornava tudo previsível a ponto de termos que investir em entretenimento para sentir uma ponta de emoção? Toda vez que eu saía pela porta eu sabia o que ia acontecer, o que eu havia de fazer. Assim era nos momentos pequenos, eu ia ao supermercado fazer compras, me sentava em um café com um jornal, buscava as crianças no jardim de infância, e assim era nos momentos grandes, desde o primeiro contato com a sociedade, o jardim da infância, até o último contato, a casa de repouso. Ou seria a igualdade que se espalhava mundo afora e que tornava tudo menor à base da repulsa que eu sentia? Quem viaja pela Noruega hoje em dia vê as mesmas coisas por toda parte. As mesmas estradas, as mesmas casas, os mesmos postos de gasolina, as mesmas lojas. Até os anos 1960 era possível notar como a cultura mudava quando se ia até Gudbrandsdalen, por exemplo, com as estranhas construções de madeira preta, tão austeras e tristes, que hoje permanecem enclausuradas como pequenos museus em uma cultura que em nada se diferencia daquela de onde se estava vindo ou para onde se estava indo. E a Europa, que cada vez mais está a caminho de se tornar um grande país igual por toda parte. O mesmo, o mesmo, sempre o mesmo. Ou seria porque a luz que brilhou sobre o mundo e fez com que tudo parecesse compreensível ao mesmo tempo o esvaziou de sentido? Seriam talvez as florestas que tinham desaparecido, os animais que tinham sido extintos, as antigas tradições que jamais voltariam a existir?"