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quarta-feira, 18 de julho de 2012

DA EUROPA COM AMOR E DO BRASIL COM PAIXÃO

Já que "quase ninguém se importa com literatura brasileira - especialmente com a NOVA literatura brasileira" (como disse o André Barcinski), então vamos falar da literatura que importa para muita gente. Que tal a européia?

A editora
Dalkey Archive publicou no começo do ano o terceiro número da antologia anual Best European Fiction, editada pelo escritor Aleksandar Hemon. Ele foi convidado pela Dalkey Archive para editar a primeira antologia em 2009. A ideia era colocar em circulação nos Estados Unidos e na Inglaterra escritores europeus contemporâneos que dificilmente seriam traduzidos por grandes editoras - exceto os fenômenos como Roberto Bolaño (sim, ele não era europeu, mas morava na Espanha), Per Petterson, Stieg Larsson e companhia que surgem ora aqui, ora ali.

Os autores europeus podem enviar textos recentes em sua língua original. O pessoal da Dalkey Archive corre para fazer as traduções e junto com Hemon fazem a seleção dos melhores. Infelizmente não é possível incluir tudo o que enviam e nem publicar um texto de cada país (se fosse assim a antologia teria mais de mil página, tranquilamente). Também acontece de alguns paises não enviarem nenhum texto, por isso ficam de fora. O prefácio sempre tem algum escritor renomado: Zadie Smith, em 2010 e Colum McCann, em 2011. Depois de publicada não rola nenhuma discussão no Twitter, no Facebook etc.

Para o número Best European Fiction 2012 foram selecionados 31 textos de 28 países diferentes - indo de Portugal até o extremo Leste Europeu. A Espanha participa com três textos, sendo: um galego, outro catalão e outro espanhol propriamente dito. O prefácio escrito por Nicole Krauss destaca o fato dos leitores anglófanos consumirem quase 90% ou mais da literatura produzida em seus próprios países e apenas 10% ou menos da literatura estrangeira. Isso mesmo, não traduzem quase nada para o inglês.

(Não tenho a menor ideia do volume de tradução no Brasil, mas usando minha matemática de botequim posso dizer que a proporção é bem maior do que nos Estados Unidos. Ainda que não sejamos um país de muitos leitores.)

Desse número, os leitores brasileiros podem conhecer apenas a francesa Marie Darrieussecq (que teve alguns livros publicados pela Companhia das Letras e está fora de catálogo) e o português Rui Zink (que teve dois livros publicados pela Editora Planeta).

Uma pena que a antologia circule apenas em inglês.

***

Evidentemente, a frase do André Barcinski tem uma provocação embutida. Algumas pessoas pelo Brasil, não necessariamente aquelas da vida real, se importam com a literatura brasileira. Além da Mercearia São Pedro (para quem não conhece é um bar em São Paulo, no bairro da Vila Madalena), tem escritores em Porto Alegre (aliás, aos montes; tanto que criaram um campeonato literário só com escritores de lá), no Rio de Janeiro (qual o bar dos escritores no RJ?), em Salvador, no Recife e em Belo Horizonte - desculpem se esqueci as outras praças. A galera dessas turmas deve ter ficado bem chateada com a provocação da frase. Tem ainda o pessoal da periferia (essas sim, pessoas da vida real que não estão nem ligando para a turma da Granta e afins) que está quilômetros distante da Mercearia e estão fazendo sua própria literatura - vide a FLUPP, Sarau da Cooperifa e muitos outros.

Putz! Esqueci de falar dos autores e leitores da chamada "literatura do entretenimento" - a maioria apareceu na antologia Geração subzero, da editora Record. Os leitores devem ter ficado bem chateados com a tal frase. Uma reportagem da revista ÉPOCA falou que a tiragem em exemplares da Thalita Rebouças chega a 1,3 milhão; André Vianco - 900 mil; Eduardo Spohr - 360 mil; e Raphael Draccon - 130 mil.

Portanto, fiquem calmos. Se um caminhão desgovernado bater na Mercearia a literatura brasileira contemporânea não vai acabar.

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Em tempo, se você quiser ler as resenhas sobre a Granta que saíram nos jornais clique aqui, aqui, aqui e aqui. Eu fico com o Nelson de Oliveira, "precisamos de mais antologias. Os norte-americanos, que entendem realmente de mercado editorial, lançam numa década dúzias de antologias."

Próximo assunto, por favor.

*Imagem: reprodução capa da antologia.

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quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

O PROBLEMA DAS GERAÇÕES

Tem leitor que vive reclamando da vida e lamentando a falta de aparição de novos escritores. Não adianta, essa busca incessante pela novidade é uma marca do nosso tempo ou pelo menos desde o tempo em que a "modernidade" bateu à nossa porta. Que atire a primeira pedra aquele leitor inveterado que nunca sonhou em pegar a novidade pelo rabo, bem no momento em que ela está nascendo.

Na última década dois livros organizados por Nelson de Oliveira tentaram dar conta do panorama de novos escritores de 1990 até o começo dos anos 2000 – chamada "Geração 90" Manuscritos de computador e Os transgressores. Para o ano que vem ele está preparando um novo livro da série que vai dar conta da produção de 2001 em diante. Vai se chamar Geração Zero Zero e será publicado pela editora Língua Geral.

A Ilustrada trouxe uma reportagem bem interessante sobre o novo livro "Antologia 'Geração Zero Zero' embaralha conceitos". Antes mesmo de ser lançada a nova antologia já está causando polêmica, como aconteceu com as outras duas. O maior problema é o critério de seleção, a criação do rótulo e o que isso inspira nas pessoas.

Enquanto nos dois primeiros livros o critério era estético, para o novo livro o critério é "ter aparecido na última década e ter pelo menos dois livros já publicados". Pela pesquisa do organizador havia 150 escritores aptos a aparecerem na antologia, mas apenas 21 deles foram selecionados depois de conversas, ajustes, acertos, etc.

A lista conta com nomes: Ana Paula Maia, Andrea del Fuego, Carlos Henrique Schroeder, Carola Saavedra, Daniel Galera, Flavio Viegas Amoreira, João Filho, José Rezende Jr., Lima Trindade, Lourenço Mutarelli, Marcelo Benvenutti, Maria Alzira Brum Lemos, Marne Lucio Guedes, Paulo Sandrini, Paulo Scott, Santiago Nazarian, Sidney Rocha, Tony Monti, Verônica Stigger, Whalter Moreira Santos e Whisner Fraga.

Como a gente sabe, por um lado as listas são arbitrárias, perigosas e limitadoras - já falei aqui sobre o assunto. Por outro lado, as listas servem como uma referência para os leitores que estão em busca de informações. Além disso, as listas colocam em circulação o nome de escritores que nem sempre tem chance a uma projeção maior nos grandes veículos de imprensa.

A limitação dessa antologia está no rótulo que seguirá colado a esses autores. Como dizem os críticos, o gesto acaba soando como puro marketing vazio de sentido. Como bem disse Paulo Werneck num outro artigo: "uma antologia deve identificar movimentos, vetores, sensibilidades compartilhadas por um grupo. É preciso um ensaio de peso, uma revista, um manifesto que justifiquem o batismo de uma nova geração literária".

Sem tanto alarde, Karl Erik Schøllhammer publicou em 2010 um livro chamado Ficção brasileira contemporânea - saiu pela editora Record. Ele explica que o livro é resultado de uma “tentativa [de] flagrar o que acontece de significativo na ficção brasileira atual, de maneira a enxergar as continuidades e, principalmente, as rupturas produzidas pelos escritores contemporâneos”. O resultado obtido soa teoricamente mais embasado e com maior estofo crítico. É um contraponto.

*imagem: reprodução.


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segunda-feira, 25 de outubro de 2010

A LITERATURA DE AGORA, AGORA


Chovem perguntas sempre que alguém fala sobre a literatura brasileira feita agora. Muita gente quer saber, por exemplo, se existe um grupo de escritores com as mesmas características, qual é o estilo de cada um, quais marcas eles vão deixar, o que eles fazem de inovador, etc. Esclarecer todos esses pontos é uma tarefa digna de Hércules. Acho que nem mesmo um crítico literário consegue fazer esse apanhado sem cometer pequenas injustiças.

O crítico Alfredo Bosi conseguiu criar um modelo bastante satisfatório para esse tipo de análise na antologia O conto brasileiro contemporâneo, publicada em 1974. A coletânea reúne contos de 18 escritores que naquele período já eram consagrados. Entre eles: Guimarães Rosa, Lygia Fagundes Telles, Osman Lins, Dalton Trevisan, Autran Dourado, Clarice Lispector, Rubem Fonseca e Moacyr Scliar. No entanto, o mais interessante do livro está no ensaio introdutório: Situação e formas do conto brasileiro contemporâneo. Bosi, de maneira ampla, faz um apanhado crítico e histórico para explicar as situações do conto brasileiro produzido logo após a morte dos grandes escritores modernistas. No percurso ele fala sobre a diversidade de estilos, forma, conteúdo, etc.

No começo dos anos 2000, o escritor Nelson de Oliveira publicou duas antologias com o mesmo tema de apresentar um panorama de novos escritores - Geração 90: transgressores e Geração 90: manuscritos de computador. Porém, mais do que analisar Nelson queria colocar em circulação uma nova leva de escritores que produzia e não era muito conhecida. A publicação dessas duas antologias foi cercada de discussões. Alguns críticos acharam a seleção parcial, outros acharam mera promoção, etc.

Pensando com meus botões - e considerando o distanciamento histórico - acho que Bosi conseguiu êxito no seu trabalho porque naquela época não tínhamos uma profusão de novos escritores como temos hoje. A realidade do mercado editorial brasileiro era diferente. A crítica literária também era muito mais forte. Evidentemente, Bosi é um dos nossos maiores críticos e não quero dizer com isso que ele não seria capaz de refazer uma seleção semelhante. Mas pensando nas coletâneas de Nelson Oliveira, posso sentir as dificuldades que mesmo um crítico como Alfredo Bosi teria.

As questões centrais são: dar conta da imensa variedade de estilos; acompanhar e filtrar a enorme produção de livros que temos hoje; refletir e analisar com profundidade essa seleção. O processo não deixa de ser arbitrário, na medida em que "admiramos livros diferentes em momentos diferentes da vida, por diferentes razões". Também é difícil pensar numa literatura que seja escrita por toda uma geração ao mesmo tempo e com as mesmas características. Só a prova do tempo é capaz de fazer uma espécie de seleção natural desses escritores.

Para não parecer desanimado, recomendo um post bem bacana do escritor Antônio Xerxenesky sobre a nossa atual flora e fauna literária e suas lacunas - de alguma forma foi esse post que me motivou a pensar nesses temas.

*imagem: reprodução Google
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