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segunda-feira, 30 de junho de 2014

PARA QUEM VAI À FLIP E DECIDIU NA ÚLTIMA HORA...

E aí comprou ingressos para a FLIP? Acho que nem a Copa do Mundo foi capaz de impedir uma pequena correria por parte da plateia interessada em comprar ingressos para as mesas da Festa Literária de Paraty. Fiz uma consulta informal agora pouco e mais da metade da programação já não tem entradas - restam apenas 5 mesas. A novidade da programação desse ano é a entrada gratuíta tanto para o show de abertura (com a cantora Gal Costa) quanto para a transmissão das mesas pelo telão. Para tristeza geral da nação, o telão saí da beira da praia e vai para a Praça da Santa Casa; saudades de assistir as mesas com o pé na areia e uma cerveja na mão. Era quase um oásis.

Resta saber se haverá banco suficiente para todo o público que decidiu acompanhar pelo telão. Será que vão distribuir aqueles banquinhos de papelão?

Bom, vamos supor que você lembrou que a Copa acaba em duas semanas e decidiu de última hora fazer as malas rumo a Paraty para acompanhar a Festa. No entanto, um agravante te preocupa: você não leu nenhum livro dos autores convidados. Como resolver esse problema e não fazer feio?

Para ter dar uma mão eu criei uma tabela relacionando livros curtos, médios e longos (bem longos) de 216autores de prosa de ficção que estarão na FLIP. Como sempre, não tenho um daqueles infográficos super transados. Improvisei uma tabela no estilo vintage - que lembra os tempos do jornal em preto e branco (ainda bem que essas coisas do passado estão na moda).

Monte a tabela tomando como base a informação de que uma pessoa lê em média 15 páginas por hora. Usando esse dado, a tabela ficou assim:

Clique para aumentar
É evidente que na vida cotidiana nem tudo é tão estático assim. Pode ser que você seja um sujeito que consegue ler mais de 15 páginas por hora, bem como pode dispor de mais tempo de leitura aos finais de semana ou dias de folga do trabalho (lembrando que estamos no mês das férias escolares). Mesmo que você seja um sujeito "MUITO OCUPADO", vai conseguir ler pelo menos dois ou três livros. Esqueça os três catataus Jhumpa Lahiri, Joël Dicker e Eleanor Catton e fique com as opções de menor número de páginas.

Não desanime e não arrume desculpa.

*PS.: Listei um conto de Vladímir Sorókin que está na Nova antologia do conto russo porque o livro Dostoievski-Trip é uma peça de teatro - nada que impeça você de compreender um pouco do universo desse escritor. 

*Tabela: Rafael R.

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sexta-feira, 27 de junho de 2014

2ª RODADA - COPA DO MUNDO DE LITERATURA


Para continuar no tema "Copa do Mundo", volto aqui para dizer que terminou hoje a primeira rodada da Copa do Mundo de Literatura. Mantenho atualizações dos resultados quase diárias no Twitter. Apenas 16 livros seguem no torneio e as disputas recomeçam na próxima segunda-feira com dois jogos por dia.

Por acaso, três partidas literárias vão coincidir com os jogos das oitavas de final da Copa do Mundo que acontece nos campos de futebol: Brasil x Chile, Alemanha x Argélia e Estados Unidos x Bélgica. Prometem ser as disputas mais emocionantes.  A situação está muito complicada para o romance Budapeste, de Chico Buarque que vai enfrentar Noturno do Chile, de ninguém menos que Roberto Bolaño. É provável que no campo literário a gente leve a pior, porque na avaliação não existe o fator sorte.

Abaixo o calendário de jogos:

Brasil x Chile 30/06 - Jeff Waxman
Budapeste, de Chico Buarque (Brasil)
Noturno do Chile, de Roberto Bolaño (Chile)

Japão X Itália 30/06 - Rhea Lyons
1Q84 - os 3 volumes, de Haruki Murakami (Japão)
The Days of Abandonment, de Elena Ferrante (Itália)

Honduras x Bosnia Herzegovina 1/7 – Stephen Sparks
Senselessness, de Horacio Castellanos Moya (Honduras)
Como o soldado conserta o gramofone, de Saša Stanišić (Bósnia e Herzegovina)

Alemanha x Argélia 1/7 – Florian Duijsens
Austerlitz, de WG Sebald (Alemanha)
The Sexual Life of an Islamist in Paris, de Leila Marouane (Argélia)

México x Austrália 2/7 – Chad W. Post
Rostos na multidão, de Valeria Luiselli (México)
Barley Patch, de Gerald Murnane (Austrália)

Costa do Marfim x Uruguai 2/7 - Elianna Kan
Alá e as crianças - soldados, de Ahmadou Kourouma (Costa do Marfim)
The Rest Is Jungle, de Mario Benedetti (Uruguai)

França x Argentina 3/7 – Tom Roberge
O mapa e o território, de Michel Houellebecq (França)
Um acontecimento na vida do pintor viajante, de César Aira (Argentina)

Estados Unidos x Bélgica 3/7 - Lori Feathers
The Pale King, de David Foster Wallace (Estados Unidos)
The Misfortunates, de Dimitri Verhulst (Bélgica)

Armem suas torcidas!

*Imagem: divulgação.

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quinta-feira, 15 de maio de 2014

JONATHAN SAFRAN FOER EM COPOS DESCARTÁVEIS


Jonathan Safran Foer é mesmo um sujeito inquieto. Um dia, ele estava sentado numa das mesas do restaurante de comida mexicana Chipotle sem nada para fazer e teve uma ideia: colocar pequenos textos nos copos descartáveis dos clientes a fim de distraí-los. Pois bem, a ideia foi aceita pelo restaurante norte-americano e os copos e sacolas começaram a circular nessa semana.

Os textos são assinados pelo próprio Safran Foer e por Malcolm Gladwell, Toni Morrison, George Saunders e Michael Lewis.

Será que alguma rede brasileira de comida bancaria a mesma ideia? Já pensou tomar um suco e depois ler no seu copo textos do Ricardo Lísias, Flavio Izhaki, Bernardo Carvalho e tantos outros?

Para quem não lembra, Foer é o autor dos romances Tudo se ilumina e Extremamente alto & incrivelmente perto. Também foi responsável pelo projeto do livro-objeto Tree of Codes baseado numa novela do escritor Bruno Schulz. Ele está preparando um novo romance que deve ser publicado nos Estados Unidos até o final desse ano. Vai se chamar Escape from Children's Hospital. Conta a história de um garoto de 9 anos que vive uma experiência traumática que afeta para sempre a sua vida e a vida das pessoas ao seu redor.


Abaixo tem o texto do Foer que está num dos copos da Chipotle (para quem tá morrendo de vontade de ler):


Two-Minute Personality TestBy Jonathan Safran Foer

What’s the kindest thing you almost did? Is your fear of insomnia stronger than your fear of what awoke you? Are bonsai cruel? Do you love what you love, or just the feeling? Your earliest memories: do you look though your young eyes, or look at your young self? Which feels worse: to know that there are people who do more with less talent, or that there are people with more talent? Do you walk on moving walkways? Should it make any difference that you knew it was wrong as you were doing it? Would you trade actual intelligence for the perception of being smarter? Why does it bother you when someone at the next table is having a conversation on a cell phone? How many years of your life would you trade for the greatest month of your life? What would you tell your father, if it were possible? Which is changing faster, your body, or your mind? Is it cruel to tell an old person his prognosis? Are you in any way angry at your phone? When you pass a storefront, do you look at what’s inside, look at your reflection, or neither? Is there anything you would die for if no one could ever know you died for it? If you could be assured that money wouldn’t make you any small bit happier, would you still want more money? What has been irrevocably spoiled for you? If your deepest secret became public, would you be forgiven? Is your best friend your kindest friend? Is it any way cruel to give a dog a name? Is there anything you feel a need to confess? You know it’s a “murder of crows” and a “wake of buzzards” but it’s a what of ravens, again? What is it about death that you’re afraid of? How does it make you feel to know that it’s an “unkindness of ravens”?

Imagem: reprodução do site VanityFair.
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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

JULGANDO LIVROS PELA CAPA (4): PORTUGAL X BRASIL

Se você acompanha esse blog desde o começa deve saber que todos os anos faço uma brincadeira comparando as capas dos mesmos livros em edições portuguesas e brasileiras. Virou tradição. Por isso, vamos aos costumes.

Lembrando que não sou especialista no assunto e estou comentando descompromissadamente. Cada país tem a sua próprio cultura visual e cada consumidor tem uma preferência na hora de escolher um livro pela capa. As observações servem como um exercício especulativo sobre o trabalho do capista (ou da editora) na hora de dar uma "cara" para o livro.

A caixa de comentários está aberta para quem quiser participar - por favor, fiquem à vontade. As capas das edições brasileiras estão do lado esquerdo.


Vida querida, de Alice Munro
Começamos com uma ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura (não tem quem não se espante ao perceber, ainda hoje, que a Academia Sueca resolveu premiar uma escritora de... contos) que merece todas as pompas e honrarias. Uma pena que os portugueses não deram o tratamento necessário. Tá certo que essas folhas vermelhas 'simbolizam' a experiência acumulada ao longo dos anos da vida, mas o resultado ficou muito simplistas e acho que passaria despercebido pelas vitrines. Em contrapartida, as moças praticando saltos ornamentais da capa brasileira apontam para o risco, audácia e ousadia. Fora a cor deliciosa para os olhos. Ponto pra gente!


O sermão sobre a queda de Roma, de Jérôme Ferrari
Eu entendo a boa intenção dos portugueses ao colocar essa foto da família em escadinha - tem um pouco a ver com o enredo do livro e com a ideia de declínio. Já a capa brasileira, por mais que tenha optado por dar um corte fechado no dorso da estátua, sintetiza tudo o que precisa dizer de maneira clara e objetiva. Desculpem, mas esse ponto é nosso outra vez.


Diário da queda, de Michel Laub
Muito bem, a capa brasileira é muito bonita e forte (sem mencionar esse tom cinza que é o tom que o narrador imprime em seu relato). No entanto, não há como não se render aos encantos desse boneco segurando com força na barra para não cair. Ponto para os portugueses.


A arte do jogo, de Chad Harbach
Os portugueses optaram por essa mistura de cores que conduzem o nosso olhar para a bola de beisebol. Ficou divertido e deu movimento. Já a capa brasileira preferiu não arriscar e optou por seguir o mesmo visual da edição norte-americana. Pela ousadia, acho que os portugueses merecem levar esse ponto.


É assim que você a perde, de Junot Díaz
Eis uma escolha bem difícil, pois a fotografia da capa portuguesa emoldurada pelo branco tem apelos poéticos que hipnotizam. A edição brasileira também não deixa por menos usando essa letra orgânica, de cor vermelha (tipo sangue) e com ares muito atuais (lembram grafites, lambe-lambes etc). Acho que deu empate técnico.


Mudanças, de Mo Yan
Outro Prêmio Nobel de Literatura. Seria injusto dizer que a capa da edição portuguesa não tem o seu valor. Ela é minimalista na medida certa - não comete exageros e nem peca pelo excesso. Só que a capa da edição brasileira parece mais requintada (tal qual um Prêmio Nobel merece) e a editora cuidou com muito capricho do visual do livro como um todo. Ponto pra gente.


Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera
O nadador sem nome e portador de uma doença rara que o faz esquecer da fisionomia das pessoa ganhou um rosto (ainda que escondido em penumbra) na edição portuguesa. Inclusive, ele tem até um biotipo bem jovem e europeu - na minha leitura imaginava alguém com rosto e corpo mais velho, não sei dizer ao certo o motivo. Não deixa de ser uma foto bonita que deve funcionar muito bem para os leitores de lá. Aqui, a capa teve três cores diferentes, a letra orgânica, um "desenho" que lembra uma mancha e riscos que lembram os pêlos de uma barba (ensopada de sangue, claro!). Alguém disse 'empate'?


A infância de jesus, de J.M. Coetzee
A capa da edição portuguesa não diz muita coisa porque preferiu destacar o nome do autor e usar apenas duas pequenas ilustrações (silhuetas) das personagens principais do enredo. Será que uma imagem moderna de Jesus poderia causar polêmica? Nesse aspecto, a edição brasileira foi mais audaciosa e colocou esse menino ostentando um estiloso óculos escuro e uma capa (de super-herói?). Ponto pra gente!

Obs.: as edições australiana e alemã tem a mesma capa


A chave de casa, de Tatiana Salem Levy
Não sei se o costume de deixar a chave de casa embaixo do tapete é universal. Acredito que sim - é um gesto comum de personagens em livros e filmes do mundo ocidental. A capa brasileira aposta nisso. É uma boa sacada e ficou bem visualmente. A capa portuguesa tem um apelo poético com esse azul melancólico e esse vento que balança o coqueiro a contra-luz. Acho que vale um empate.


Os transparentes, de Ondjaki
A capa brasileira só seria mais transparente se fosse feita totalmente em acrílico (sei lá como chama aquele papel). Lembra aquela brincadeira de raspar a tinta da superfície para ver o que está escrito por baixo. Achei tudo muito acertado. No entanto, a capa portuguesa é mais quente (graças ao vermelho que toma o fundo inteiro) e a ilustração que parece um prédio visto sem as paredes é incrível. Ponto para os portugueses.


O testamento de Maria, de Colm Toibin
Parece que a fim de evitar polêmicas (a personagem do livro também faz referência ao catolicismo) a editora optou apenas pelo título em fundo branco. Perdeu a oportunidade de recorrer ao vasto e rico repertório de representações de Maria nas artes plásticas. A edição brasileira seguiu por esse caminho e ganhou muito mais pontos com a imensa cruz branca que ocupa tudo de ponta a ponta. Ponto pra gente!


Festa no covil, de Juan Pablo Villalobos
A capa portuguesa tem qualquer coisa meio "tex-mex", não? Parece inspirada nos cartazes do velho oeste norte-americano. A capa brasileira é muito mais interessante porque parece mais tipicamente mexicana (para não dizer, mais autêntica). Ponto pra gente.

*Imagens: divulgação e reprodução.
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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

UMA 'ESPIADINHA' DESCOMPROMISSADA NO TOURNAMENT OF BOOKS 2014


Yes, nós temos o nosso próprio torneio de livros (também conhecido como Copa de Literatura Brasileira), mas não custa nada dar aquela 'espiadinha' descompromissada no Tournament of Books que nos serviu de inspiração. Se mesmo assim você não estiver convencido aqui vão algumas razões para lançar mão de um gesto tão simples: a seleção de 'competidores' é bem interessante e serve como um filtro para saber o que os norte-americanos estão lendo e gostando; o julgamento é democrático e participativo; as avaliações dos jurados são despretensiosas; e muito do que pinta no tournament vem para as nossas estantes (se o livro for o 'vencedor', tanto melhor para a editora que vai publicá-lo no Brasil). 

Além disso, o Tournament of Books está completando 10 anos num momento bastante fértil para a prosa de ficção - contrariando muita gente que declara o romance como um gênero morto e a falta de interesse dos leitores por literatura de ficção. Para termos uma ideia a primeira lista do tournament contava com 93 livros, entre eles medalhões da prosa norte-americana.

A seleção final dos livros que vão concorrer ao torneio desse ano foi anunciada na segunda semana de janeiro para matar a curiosidade geral. A lista está mais multicultural porque inclui uma série de autores de outras nacionalidades: um alemão, um moçambicano, um peruano, um paquistanês, uma havaiana e uma neozelandesa. Evidentemente, para participar da competição todos os livros foram publicados nos Estados Unidos.

Não deve ter sido uma decisão muito fácil eliminar Margaret Atwood, Colum McCann, Thomas Pynchon, George Saunders, Dave Eggers e Paul Harding. Imagine a responsabilidade!

Quem pretende acompanhar o torneio vai ficar contente em saber que três livros já foram publicados aqui no Brasil - O jantar, de Herman Koch; Antes de nascer o mundo, de Mia Couto; A assinatura de todas as coisas, de Elizabeth Gilbert - e outros seis livros estão nos planos das editoras nacionais para saíram ainda esse ano - é o caso de Daniel Alarcón (pela Alfaguara), Eleanor Catton, Jhumpa Lahiri (ambas pela Biblioteca Azul, da Globo Livros), James McBride (pela Bertrand Brasil), Mohsin Hamid e Donna Tartt (ambos pela Companhia das Letras). Um dos jurados será John Freeman, ex-editor da revista Granta.

Fiquei contente com a participação de Mia Couto - nosso representante da língua portuguesa - e nem preciso dizer para quem vai a minha torcida. Sorte para o livro dele!

Os livros concorrentes são:

At Night We Walk in Circles, de Daniel Alarcón
The Luminaries, de Eleanor Catton
Antes de nascer o mundo, de Mia Couto
A assinatura de todas as coisas, de Elizabeth Gilbert
How to Get Filthy Rich in Rising Asia, de Mohsin Hamid
O jantar, de Herman Koch 
The Lowland, de Jhumpa Lahiri
Long Division, de Kiese Laymon
The Good Lord Bird, de James McBride
Hill William, de Scott McClanahan
The Son, de Philipp Meyer
A Tale for the Time Being, de Ruth Ozeki
Eleanor & Park, de Rainbow Rowell
The Goldfinch, de Donna Tartt
The People in the Trees, de Hanya Yanagihara

O décimo sexto concorrente foi escolhido por votação e será divulgado em breve - a vaga será do livro Life After Life, de Kate Atkinson ou Woke Up Lonely, de Fiona Maazel.

A propósito, o Tournament of Books 2014 começa em março.

*Imagem: Site ToBX/reprodução
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quinta-feira, 31 de outubro de 2013

ADAM THIRLWELL: LIVRO COM FORMA E CONTEÚDO


Enquanto escrevia sobre J.J. Abrams e a celebração do livro como objeto (em toda a sua materialidade ao contrário dos ebooks achatados e virtuais) acabei me deparando com o intrigante Kapow!, de Adam Thirlwell. O livro saiu no ano passado pela editora inglesa Visual Editions com um design muito particular: variação de fontes, páginas dobradas (quando você desdobra elas aumentam), caixas de texto dentro dos parágrafos, parágrafos partidos ao meio, textos que correm em vários sentidos da página e assim segue. Para entender melhor assista esse vídeo. Tudo do jeito que a turma da Visual Editions e os seus fãs gostam (eles só fazem coisa caprichada - procure saber). O design foi criado por Frith Kerr, do Studio Frith.

As pessoas mais rabugentas certamente olham para o livro e pensam "bonitinho, mas ordinário - não passa de um fetiche gráfico". Ledo engado!


Kapow! foi saudado pela crítica inglesa justamente porque alia forma e conteúdo (como todos os livros da Visual Editions). O narrador da história é um escritor que mora em Londres e começa a acompanhar os eventos da Primavera Árabe pela televisão e pela internet, ao mesmo tempo. Tudo vai aparentemente bem até que pensamentos e observações de outros personagem que estão em Londres e no Egito começam a tomar conta da história - tal qual a revolução que o narrador está presenciando a distância. 

Adam Thirlwell estava interessado em experimentar a digressão como um elemento importante na construção desse livro (ele pega carona na tradição de Laurence Sterne, Robert Musil, Philip Roth, Javier Marias e tantos outros para levar o recurso ao limite extremo - parece que deu muito certo). Sua ousadia não brotou do dia para noite. Ele tem outros dois livros publicados Política (saiu pela Companhia das Letras, em 2004, mas está esgotado e fora de catálogo) e The Escape, ainda inédito no Brasil. Além disso, ele apareceu duas vezes na edição especial da revista Granta com os melhores jovens escritores ingleses, em 2003 e 2013. Não é pouca coisa.

Vejam que curioso, na edição da Granta dedicada aos escritores brasileiros foi Thirlwell quem apresentou Michel Laub aos ingleses. Ele virou fã e uma qualidade que destaca em Laub é justamente a digressão das histórias.

Voltando ao começo, dificilmente Kapow! vai ganhar tradução para o português - quem sabe? Portanto, vale a pena recorrer a edição original, ficar de olho na produção desse rapaz e celebrar o livro-objeto.

*Imagem: Amélie Bonhomme/reprodução
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sexta-feira, 13 de setembro de 2013

QUANDO A RUA APARECE NA LITERATURA - EM MEMÓRIA A MARSHALL BERMAN

Jane Jacobs
Tem gente que lê dois ou três livros ao mesmo tempo sem perder uma linha do enredo - uma questão de comportamento, hábito, organização, gosto pessoal, sei lá. Conheço pessoas que realizam esse verdadeiro milagre num mundo em que a publicação de livros se multiplica a números exponenciais e exigem agilidade (ou melhor, "rebolado") para acompanhar TUDO o que chega às livrarias, mas eu mesmo não consigo. Quer dizer, até consigo se for um trabalho. Mantenho o foco, crio um método de anotações e sigo em frente. Já para as leituras de prazer eu dedico muita atenção e exclusividade. Leio d-e-v-a-g-a-r. É claro que no meio do caminho faço pausas (com tempo de duração variado) para atender prazos de leitura mais urgentes ou viver a vida (atender ao telefone, ir ao mercado, responder emails, tomar uma cerveja, assistir a um filme, encontrar os amigos etc.). A MTV tinha uma vinheta que dizia: "desligue a TV e vá ler um livro". Em determinados momentos, eu diria o seguinte: "feche o livro e vá para a rua" - se você costuma ler no iPad, Kindle e outros leitores digitais pode usar dizer "desligue o livro e...".

Pois bem, um livro que estou lendo por prazer nesse momento é Morte e vida de grandes cidades, de Jane Jacobs. Não tem nada de ficção, por isso não coloquei a capinha naquele campo "lendo" do blog. O livro foi publicado em 1961 quando as cidades norte-americanas eram assoladas pelo trabalho racionalista, organizador e um tanto higienista dos grandes arquitetos e urbanistas modernos - entre eles, Robert Moses e Le Corbusier. Jacobs usou sua verve de jornalistica-ativista contra essa mentalidade demonstrando que o elemento mais precioso da cidade está escondido na sua diversidade urbana espontânea ocupando ruas e calçadas, misturando prédios antigos com novos, bairros mesclando comércio, fábricas, praças, cinemas, bares, casas, restaurantes, escolas, parques e todo o resto. Suas ideias foram tão influentes que permanecem atuais e repercutem até hoje entre os urbanistas. Sobretudo nesse momento em que as metrópoles estão renascendo como símbolo de um urbanismo mais espontâneo. Apesar de carregar alguns aspectos técnicos que podem parecer enfadonhos para os 'não iniciados', Jacobs constrói seus argumentos com uma prosa recheada de inteligência, beleza e simplicidade narrando sua experiência pessoal com várias histórias de pessoas que moram na cidade por causa de sua diversidade vibrante.

Cheguei ao livro da Jane Jacobs depois de ler o ensaio histórico e literário Tudo que é sólido desmancha no ar, de Marshall Berman - li nos tempos da faculdade para a minha monografia de conclusão da especialização cujo tema era a representação da cidade real em As cidades invisíveis, de Italo Calvino (na vida é muito importante ter ambições). Por causa do prazo de entrega eu fui deixando o livro de Jacobs para depois, outras leituras apareceram e na metade do mês passado a vez dela chegou. Leituras de prazer, lembra? Foi pensando no livro dela e nessa história de um livro que puxa outro que fiquei triste ao ler a notícia de que Marshall Berman tinha morrido. Infelizmente, não o conheci pessoalmente, não era meu professor, amigo ou parente, mas era alguém brilhante por quem eu tinha muita admiração. Ele esteve algumas vezes no Brasil e nunca tive oportunidade de vê-lo de perto. Minha última chance teria sido em 2007 quando ele foi anunciado como um dos convidados do Fronteiras do Pensamento, mas cancelou a participação por problemas de saúde. Uma pena!

Marshall Berman
Tudo que é sólido... foi tão fundamental na minha vida que orientou quase todos os meus pensamentos sobre a modernidade, a teoria marxista, a crítica e o ensaismo - a tal ponto que estou lendo nesse momento um livro que foi muito importante para a formação teórica dele (com Um século em Nova York, Berman tentou 'imitar' o estilo de Jane Jacobs em Morte e vida de grandes cidades para mostrar o espetáculo da Times Square). 

E veja como as coisas são curiosas: com muito brilhantismo Tudo que é sólido... também faz eco ao grande debate sobre o direito à cidade, a ocupação das ruas e as diversas manifestações espalhadas pelo Brasil e pelo mundo. Um dos eixos condutores do livro é a rua como um símbolo da modernidade que aparece na literatura em escritores como Goethe, Baudelaire, Puchkin, Gogol, Dostoievski e James Joyce.

Por toda a era de Haussmann e Baudelaire, entrando no século XX, essa fantasia urbana cristalizou-se em torno da rua, que emergiu como símbolo fundamental da vida moderna. Da “Rua Principal” (Main Street) das pequenas cidades à “Grande Via Branca” ou à “Rua do Sonho” das metrópoles, a rua foi experimentada como um meio no qual a totalidade das forças materiais e espirituais modernas podia se encontrar, chocar-se e se misturar para produzir seus destinos e significados últimos. Era isso o que o Stephen Dedalus de Joyce tinha em mente com sua enigmática sugestão de que Deus estava lá fora, no “grito da rua”.

Viva Marshall Berman!

***



Para encerrar, quem ficou interessado no assunto deve ler urgentemente Tudo que é sólido desmancha no ar saiu pela Companhia das Letras (tradução de Carlos Felipe Moisés e Ana Maria L. Ioriatti). Aproveitando o ensejo, recomento alguns livros de ficção que aparecem no ensaio do Berman e demonstram que a literatura não é um assunto assim tão distante da realidade simbólica, política e filosófica das ruas.



Fausto, de Goethe (volume I e II)
Tradução de Jenny Klabin Segall
Editora 34

Apesar de ser um poema (esse blog é sobre prosa de ficção), Goethe foi o autor que melhor conseguiu dar tratamento literário ao mito do homem sábio que vendeu sua alma ao diabo para saber tudo sobre o amor, a magia e a ciência. O enredo serve como uma alegoria para as transformações históricas, sociais, políticas, científicas e artísticas da modernidade. 



Eugênio Oneguin, de Alexandr Pushkin
Tradução de Dário Castro Alves
Record

Outro livro em forma de poema (segundo alguns, quase um poema em prosa devido ao caráter narrativo). Conta a história de um jovem aristocrata russo tão entediado com a vida que recusa até o amor de uma bela moça. Os anos passam e tudo muda. É uma obra que exerceu grande influência na literatura russa.





Avenida Niévski, de Nikolai Gógol
Tradução de Rubens Figueiredo
Cosac Naify

Gógol faz um amplo panorama da vida cotidiana da cidade de São Petersburgo, capital do império russo. A avenida Niévski com seu movimento vibrante e seu desenho moderno serve como palco central para o desenlace de histórias quase fantásticas.




Memórias do subsolo, de Dostoiévski
Tradução de Boris Schnaiderman
Editora 34

Não se engane! As poucas páginas desse livro carregam uma das personagens mais importantes da literatura ocidental: o homem do subsolo. Um sujeito isolado do mundo que investe ferozmente contra todas as coisas, mas encontra na rua uma maneira de felicidade.





Ulysses, de James Joyce
Tradução de Caetano Galindo
Companhia das Letras

Para além da forma experimental e hermética, o romance mais importante do século XX conta a história de "um homem sai de casa pela manhã, cumpre com as tarefas do dia e, pela noite, retorna ao lar". Nesse passeio a cidade moderna brilha reluzente.



As flores do mal, de Charles Baudelaire
Tradução de Ivan Junqueira
Nova Fronteira

Influenciado pelas transformações urbanas de Paris e pela prosa sombria de Edgar Allan Poe (alguém se lembra do conto “O homem da multidão”), Baudelaire coloca em cena a figura do flâneur que capta a cidade moderna com toda a beleza de suas mazelas.



*Fotos: reprodução do Google/fonte difusa.

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quarta-feira, 12 de junho de 2013

PARA QUEM VAI À FLIP E DECIDIU NA ÚLTIMA HORA...

E aí comprou ingressos para a FLIP? Se você esqueceu completamente da vida e perdeu a data, saiba que restam poucos ingressos para a tenda dos autores. Para minha surpresa, em menos de uma semana, até a Tenda do Telão já tem ingressos esgotados para algumas mesas (o encontro entre Lydia Davis e John Banville, por exemplo, está totalmente vendido - oba!). Portanto, se você quer ver as mesas em Paraty é bom correr.

Bom, vamos supor que você decidiu de última hora fazer as malas, comprar ingressos e participar da Festa mas não leu nenhum livro dos autores convidados. Como você pode resolver esse problema e não fazer feio? 

Para não fugir a tradição (que começou no ano passado - cof!), resolvi dar uma força e criei uma tabela relacionando livros de 17 autores de ficção que estarão na FLIP (só inclui autores de prosa de ficção e ensaio porque o blog é focado nesses gêneros). Nem preciso dizer que eu queria criar um daqueles infográficos super transados, mas não deu. O jeito foi improvisar e criar uma tabela no melhor estilo vintage.

Para entender a tabela você precisa saber que os parâmetros foram os seguintes: uma pessoa lê em média 15 páginas por hora. Usando esse dado, a tabela ficou assim:


(clique para aumentar)

Olhando mais detalhadamente, a gente pode constatar que você pode ler pelo menos dois ou três livros mesmo que seja um sujeito muito ocupado. Considere também a possibilidade de ler mais de 15 páginas por hora (usei uma média aleatória) - o que vai significar mais um livro para ler.

Não desanime, não arrume desculpa e vá ler um livro.
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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

UMA ESPIADINHA NO TOURNAMENT OF BOOKS 2013



É comum a gente dar uma espiada no Tournament of Books, por mais gringo que ele seja.  A curiosidade surge porque os organizadores costumam colocar na competição livros publicados nos Estados Unidos que tiveram enorme repercussão crítica e terão grandes chances de serem traduzidos pelo mundo afora.

Para você ter uma ideia 6 dos 8 romances campeões tiveram tradução para o português. Figuram entre os ganhadores Jennifer Egan, Hilary Mantel, Toni Morrison, Junot Díaz, Ali Smith e Cormac McCarthy. Estão esperando por uma oportunidade Cloud Atlas, de David Mitchell e The Sisters Brothers, de Patrick deWitt (ganhadora do ano passado).

Graças ao seu fortalecimento ao longo dos anos, o torneio está chegando a sua nona edição com apoio do Nook - o leitor digital da revendedora de livros Barnes & Noble. Outras razões para ficar de olho na competição são o caráter bastante democrático (jurados e leitores podem debater opiniões sobre os resultados) e o fato de ter inspirado iniciativas semelhantes aqui no Brasil - quem não se lembra da Copa de Literatura Brasileira e do Gauchão de Literatura?  

Isso posto, quero dizer que no começo de janeiro foram anunciados os competidores desse ano e a lista, para decepção ou felicidade de muitos, tem em sua maioria nomes desconhecidos para leitores aqui no Brasil. Pode ser que você recorde de Jess Walter, Louise Erdrich, Hilary Mantel, Laurent Binet, Alice Munro e Chris Ware. Apesar de ter publicado muitos livros, Jess Walter teve apenas o romance Cidadão do crime traduzido pela editora Landscape. Louise Erdrich ganhou o National Book Award e teve vários livros traduzidos por aqui (a maioria anda fora de catálogo), sendo que o mais recente Jogo de sombras saiu pela Tinta Negra. No ano passado, Hillary Mantel ganhou o Man Booker Prize e o livro que está concorrendo no Tournament será traduzido pela editora Record. O romance Hhhh, de Laurent Binet foi traduzido pela Companhia das Letras no final do ano passado. Os veteranos Alice Munro e Chris Ware são traduzidos pela Companhia das Letras.

Entre os lançamentos que tiveram ampla repercussão no ano passado, ficaram de fora This is How You Lose Her, de Junot Díaz; A Hologram for the King, de Dave Eggers; The Newlyweds, de Nell Freudenberger; Gods Without Men, de Hari Kunzru; NW, de Zadie Smith e Laura Lamont’s Life in Pictures, de Emma Straub. A maioria deve ganhar tradução para o português ainda nesse ano.

Aqui está a lista completa dos concorrentes:

HHhH, de Laurent Binet
The Round House, de Louise Erdrich
Gone Girl, de Gillian Flynn
The Fault in Our Stars, de John Green
Arcadia, de Lauren Groff
How Should a Person Be?, de Sheila Heti
May We Be Forgiven, de A.M. Homes
The Orphan Master’s Son, de Adam Johnson
Ivyland, de Miles Klee
Bring Up the Bodies, de Hilary Mantel
The Song of Achilles, de Madeline Miller
Dear Life, de Alice Munro
Where’d You Go Bernadette, de Maria Semple
Beautiful Ruins, de Jess Walter
Building Stories, de Chris Ware

O décimo sexto concorrente será escolhido por votação e divulgado em breve.

> ATUALIZAÇÃO 1: Não há nada que uma visita às livrarias não possa corrigir. Assim que coloquei o meu pé dentro de uma livraria na sexta feira fiquei cara a cara com o livro do John Green - A culpa é das estrelas (saiu pela Intrínseca no ano passado). Com isso, acho que um pouco menos que a metade é conhecida pelo público brasileiro.

> ATUALIZAÇÃO 2: O romance Where’d You Go, Bernadette, de Maria Semple será publicado no Brasil em junho pela Companhia das Letras.

*Imagem: logotipo do Tournament / reprodução.
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quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

10 LIVROS QUE DEVERIAM ESTAR NO SEU E-READER



Mesmo com os problemas pontuais, a chegada do Kindle e do Kobo (vendidos pela Livraria da Vila e Livraria Cultura, respectivamente) junto com as lojas virtuais da Amazon, da Apple e do Google davam como certo que esse seria o natal dos e-books. Que o diga o catálogo digital das editoras brasileiras que beira os 15 mil títulos, segundo uma reportagem bastante informativa feita pela Raquel Cozer - para a Ilustrada. Ainda é cedo para termos um balanço preciso desses cobiçados números de venda. Às vésperas do réveillon todo mundo está com as malas prontas para viajar e nem quer saber de nada que não seja diversão.

Seja como for, proponho deixo aqui uma queixa. Vamos supor que você é uma dessas pessoas fissuradas em livros e tecnologia. Mais do que isso: você é fã de livros de ficção científica e ganhou um desses leitores digitais de presente de natal. Você corre para comprar um clássico da literatura sci-fi nos catálogos virtuais e... e... nada.

Sinto muito desapontá-lo, mas parece que a nata da boa literatura do gênero deve ganhar versões digitais em bom português só em 2013. Tá logo aí, mas deixo aqui uma lista de 10 livros essenciais da literatura sci-fi que deveriam estar disponíveis para Kindle, Kobo ou iPad.

Eu robô, de Isaac Asimov
Fahrenheit 451, de Ray Bradbury
Laranja mecânica, de Anthony Burgess
Neuromancer, de William Gibson
Admirável mundo novo, de Aldous Huxley
1984, de George Orwell
Frankenstein, de Mary Shelley
A guerra dos mundos, de H.G. Wells
20 mil léguas submarinas, de Julio Verne
A máquina voadora, de Braulio Tavares

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Coloquei as capinhas dos livros impressos, mas sei que com a chegada dos livros digitais ninguém dá muita bola pra elas.

*Imagem: montagem/divulgação

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quinta-feira, 31 de maio de 2012

QUERELAS DO BRASIL OU DA LITERATURA BRASILEIRA


Será Clarice Lispector capaz de romper com o nosso complexo de vira-latas?

Fiquei pensando nisso depois de ler um artigo no jornal Los Angeles Times sobre o relançamento de quatro livros dela nos Estados Unidos em nova tradução e novo projeto gráfico -
Perto do coração selvagem (tradução: Alison Entrekin), Água viva (tradução: Stefan Tobler), A paixão segundo G.H. (tradução: Idra Novey) e Um sopro de vida (tradução: Johnny Lorenz). Os livros estão saindo pela editora New Directions com coordenação e supervisão de Benjamin Moser que além de ser o autor da biografia Clarice, também traduziu para o inglês A hora da estrela, lançado ano passado pela mesma New Directions.

O artigo do L.A. Times, além de muito elogioso, apresenta Clarice Lispector aos leitores norte-americanos, conta um pouco do enredo de cada livro, fala das novas traduções e termina dizendo que a escritora deveria ser colocada nas prateleiras entre Franz Kafka, James Joyce e Virginia Woolf - três grandes escritores do século XX.

Aqui eu volto para o ponto inicial, pois como todo mundo sabe o brasileiro tem uma tendência a tratar sua própria literatura com certo descaso. Parece que a gente lê, crítica e comenta com muito entusiasmo os autores estrangeiros porque achamos que a literatura do lado de lá sempre é mais verdinha. Dizemos que os argentinos tem a melhor literatura da América Latina, ficamos com inveja dos chilenos e seus feitos, veneramos os norte-americanos e admiramos a literatura europeia (dividindo nossa atenção de forma equivalente entre ingleses, franceses, espanhóis e alemães). Os argentinos conquistaram a América do Norte e a Europa com Borges, Cortázar, César Aira e companhia. Os chilenos estão dando um baile com Bolaño e Alejandro Zambra. Os norte-americanos tem os seus milagrosos cursos de escrita criativa. Os europeus tem a tradição. E o Brasil?

A coisa muda bastante de figura quando um gringo vem e nos diz que temos grandes autores. Dessa maneira somos capazes de reconhecer o nosso talento e beleza. Aceitamos aquele escritor que estava bem ali, debaixo do nosso nariz. Só que mesmo quando isso acontece nosso complexo vira-latas anda a espreita e pensamos: a gente de fato dá alguma bola para a literatura nacional? Será que esse autor consegue retirar nossa literatura da periferia para colocá-la no centro?

Fique claro que estou me referindo apenas a ficção contemporânea - mas com uma cabeça na Clarice Lispector.

O problema (sabiamente batizado por Nelson Rodrigues de complexo vira-latas) não é novo. Pelo contrário: é mais ancestral do que a gente pode imaginar. Remete as formações da nossa literatura onde a questão da identidade sempre foi um conflito. Como se reconhecer em algo que a gente não consegue definir exatamente? Para ser nacional precisa ter índios, mulatas, carnaval, futebol e pobreza? Como romper essa barreira? Na impossibilidade de vencer o desafio proposto ouvimos aos montes que a literatura brasileira comparada a estrangeira é ruim. Sobretudo da crítica acadêmica: Antonio Candido afirmando que, “comparada às grandes, a nossa literatura é pobre e fraca. Mas é ela, não outra, que nos exprime”; e porque não lembrar também do caso Alcir Pécora na série "Desentendimento", do Instituto Moreira Salles - resumindo a conversa Pécora acha que a literatura perdeu importância. Daí não me espanta os jovens críticos da internet (e da acadêmia) e o pessoal dos cadernos culturais dedicarem laudas e mais laudas à literatura estrangeira.

(Aqui eu faço um parênteses para lembrar não só de Nelson Rodrigues, mas também de Tom Jobim e Caetano Veloso reclamando do mesmo problema em relação a nossa cultura. Caetano, certa vez, disse que os cadernos culturais do país dedicavam páginas inteiras a bandas que não tinham tanta importância em seus países de origem e não dedicavam uma linha crítica aos brasileiros. A transposição cabe para a literatura).

Estou juntando numa mesma panela vários ingredientes diferentes, promovendo digressões, borrando matizes, generalizando. Mas não deixo de pensar que a enorme repercussão de Clarice Lispector nos Estados Unidos deve esbarrar na Inglaterra e possivelmente no resto da Europa. Assim, venceríamos nossa vergonha em relação a literatura estrangeira e imbuídos de algum orgulho poderíamos dizer: "somos bonitos pra caramba". Aliando isso ao nosso belo momento econômico, a força da nossa jovem literatura (que está fervilhando de bons escritores - acreditem!) e aos nossos tímidos avanços no campo da leitura teremos uma combinação perfeita para mudar nosso descaso com nossa própria literatura.

Para esclarecer: é verdade que Clarice Lispector faz um tremendo sucesso aqui no Brasil e goza de um grande número de leitores devotos. Quando publicou seu primeiro livro ganhou atenção merecida da crítica. Também não é a primeira vez que a sua obra está sendo traduzida para o mundo inteiro. Além disso, outros países (outra culturas) já alimentam interesse por ela faz tempo - acho que sobretudo na França. Jovens escritores da Argentina também tem admiração e chegam a citá-la como influência. A edição do ano passado do FILBA teve mesas temáticas dedicadas a sua obra.

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Em tempo, críticas e notícias a respeito do relançamento das obras de Clarice Lispector nos Estados Unidos saíram nas páginas gringas da Vogue, da Publisher's Weekly, da Quarterly Conversation e nos blogs The Millions e da editora Tin House. Benjamin Moser também foi convidado para um podcast muito bacana chamado That Other Word. Contos dela também apareceram recentemente na Paris Review e no projeto Recommended Reading (do pessoal da Electric Literature).

As edições da New Directions estão ganhando textos de apresentação de Caetano Veloso, Jonathan Franzen, Pedro Almodovar, Colm Toíbín e Orhan Pamuk.

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Não posso deixar de citar o caso de Woody Allen que numa entrevista do ano passado afirmou que tinha adorado Memórias Póstumas de Brás Cubas. Será que isso tornou Machado de Assis mais popular?

Também quero lembrar dois textos do qual peguei emprestado algumas ideias: "Notícia da atual literatura brasileira: instinto de internacionalidade", de Sérgio Rodrigues (uma resenha sobre romance de João Paulo Cuenca com brilhante descrição de toda a trajetória da literatura brasileira desde a sua formação e os problemas de identidade nacional até uma luz do fim do túnel, uma saída para o impasse com o "instinto de internacionalidade" - recomendo vivamente, inclusive é possível reconhecer certos trechos que retirei dali); e "A irrelevância da literatura brasileira", de Joca Reiners Terron (com ideias e explicações da maior importância - inclusive no fato de César Aira achar nossa literatura a melhor do continente e comentar seu entusiasmo com Sérgio Sant'Anna cuja obra ele mesmo está traduzindo e divulgando. Será que vamos ler mais Sérgio Sant'Anna?).

*Imagem: reprodução do Google.

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sexta-feira, 27 de maio de 2011

TOM MCCARTHY EM PORTUGAL

Parece que o mercado editorial em Portugal anda em crise e que as editoras de lá querem vir para cá - Editoras portuguesas miram Brasil. Ocorre que em alguns casos os portugueses chegam na frente em termos de lançamentos de literatura estrangeira que estão chamando atenção. Mas verdade seja dita, me lembro que antigamente esperávamos muito tempo pelo lançamento de um livro muito comentado - frequentemente tínhamos de comprar livros importados diretamente de seus países de origem ou recorrer as traduções portuguesas. Atualmente a situação é bem diferente, quase tudo o que saí lá, saí por cá. E também pode acontecer de um livro sair por cá e não por lá.

Um caso curioso é o do escritor inglês Tom McCarthy. Não sei se alguma editora no Brasil planeja lançar os romances dele por aqui, mas em Portugal tanto Remainder quanto C já foram publicados. Ambos foram recebidos pela crítica anglófona com grande entusiasmo. A escritora Zadie Smith chegou a dizer que Remainder apontava para um caminho que o romance poderia seguir no futuro. Com o romance C não foi muito diferente, quem leu disse que o romance era original, renovador e ambicioso. O livro foi finalista do Man Booker Prize do ano passado e era tido como o ganhador até que Howard Jacobson abocanhou o prêmio.


Em 2009, Remainder foi publicado em Portugal pela Editorial Estampa - com o título de Remanescente. O livro conta a história de uma pessoa sem nome que perdeu a memória depois de ser atingido por alguma coisa que caiu do céu. Depois do incidente, ele recebe uma alta soma de dinheiro para reconstruir as coisas que que vai lembrando ou imagina lembrar.

C acabou de chegar às livrarias portuguesas pela Editorial Presença. Tom McCarthy criou um romance ambientado em pleno começo do século XX, quando os grandes meios de comunicação sem fio estavam sendo inventados. Assim, o protagonista do romance, Serge Carrefax, é jogado num mundo em constante transformação tecnológica. Tamanho espanto tem semelhança com a nossa experiência contemporânea e não deixa de nos fazer pensar na internet, nos tablets, nos celulares, nos blogs e nas redes sociais.

Tom McCarthy também escreveu livros de ensaio e um outro romance chamado Men in space (de 2007). Esses ainda continuam restritos a língua inglesa. Se alguma editora aqui no Brasil já está com planos de lançar os livros do escritor, por favor, mande notícias.

*imagens: reprodução.
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