quinta-feira, 5 de maio de 2011

ENTÃO, VOCÊ QUER SER CRÍTICO LITERÁRIO? (2)


Ontem falei sobre a inflação simbólica das narrativas e uma literatura maior ou menor no Brasil. Hoje termino de comentar outras ideias que apareceram no debate da série Desentendimento e no artigo do caderno Prosa e Verso.

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Tradição / Inovação

Pécora tem razão quando diz que a literatura "não tem como se fingir de recém-nascida, livre para não ter memória e amar integralmente a si própria como invenção de grau zero". A questão aqui pode ser explicada pela falta/excesso de repertório cultural do escritor quando produz algo ou pela falta de manejo do crítico quando ignora o diálogo daquela obra com o seu tempo e com a tradição que a precede.

O apagamento do passado e o esquecimento da história são os males do nosso tempo moderno/pós-moderno que contaminam todas as áreas do conhecimento humano. Não são um privilégio da literatura, certamente. Pior para ela cuja origem está na antiguidade clássica - ou antes mesmo, se pensarmos nas narrativas orais.

Acontece que desde o começo do século XX "fazer o novo" é a palavra de ordem. Todo escritor pensa em algum dia superar o que ficou para trás na literatura. Mas o peso da tradição e as inovações trazidas pelo século XX (que já se tornaram tradição faz tempo) não deixaram muito espaço para novas invenções.

A inovação, no sentido de superação, vive uma espécie de colapso e percebemos que as coisas na história não seguem sempre em linha reta, progressivamente rumo ao futuro glorioso.

Não há saída para romper com a representação subjetiva ou objetiva da realidade. Para que isso aconteça precisamos de uma transformação na nossa humanidade, nas nossas percepções do mundo. Independente de inovações linguísticas e modificações nas categorias narrativas, contar histórias é algo intrínseco ao ser humano: não acaba e não cansa.

Reforço essa ideia com uma citação do Tao Lin, um escritor americano. Elas estão num ensaio para o The New York Observer chamado Does the Novel Have a Future?. Partindo de perguntas como "que tipos de romances existem hoje?" ou "qual o futuro do romance?", ele constrói argumentos para demonstrar como esse tipo de discussão no desvia daquilo que é mais importante: escrever. Vou colocar abaixo um trecho que traduzi livremente, meio ao pé da letra:

"Um certo discurso literário, sobre o que os outros devem ou não fazer com sua arte, provavelmente vai sempre existir como uma distração do ato de escrever romances.

(...)

Romances - e memórias - são talvez os relatos mais abrangentes que os seres humanos podem transmitir, de suas experiências particulares, para outros seres humanos. Nestes termos, há apenas um tipo de romance: a tentativa humana de transferir ou transmitir alguma parte ou a versão do seu mundo de númeno para outro do mundo do númeno.

(...)

Portanto, eu atualmente me sinto mais interessado na leitura/criação de romances que não são melhorias ou inovações de outros romances. Eu quero ver cada romance potencial como definitivamente e inevitavelmente único, aperfeiçoável apenas em relação a si mesmo e só a partir da perspectiva singular do seu criador. Eu quero aprender sobre a experiência única de um outro ser humano a partir de relatos que ele mesmo fizer enquanto animadamente ciente de que só ele, independentemente do que os outros estão pensando ou fazendo, tenha acesso sobre o que ele esta relatando".
Pode ser que em algum lugar, nesse exato momento, exista alguém "fazendo o novo". Porém, contar história interessantes é tão importante quanto. Isso retira das nossas costas a responsabilidade de fazer obrigatoriamente algo novo. A imposição que parece que não deixa com que a gente avance.

Cabe ao escritor a tentativa de dialogar com o que existiu, recombinando e recomeçando tudo outra vez.

***

Da crítica

A briga dos escritores com a crítica, dos leitores com a crítica e dos críticos com a crítica, está enraizada no esvaziamento do seu discurso que oscila ora entre o jargão acadêmico e ora entre repetição de esquemas interpretativos e releases jornalísticos.

Alguns torcem pelo fim da crítica e alguns já deram ela como morta. Mas quando uma coisa desaparece é que ela ganha mais importância. Eis uma ideia que aparece nos diários do escritor Ricardo Piglia, que encontrei no blog Todoprosa, do Sérgio Rodrigues:

“A crítica literária é a mais afetada pela situação atual da literatura. Desapareceu do mapa. Em seus melhores momentos – com Iuri Tinianov, Franco Fortini ou Edmund Wilson – foi uma referência na discussão pública sobre a construção do sentido em uma comunidade. Não resta nada dessa tradição. Os melhores – e mais influentes – leitores atuais são historiadores, como Carlo Ginzburg, Robert Darnton, François Hartog ou Roger Chartier. A leitura dos textos passou a ser assunto do passado ou do estudo do passado.”
Antes de sumir, a crítica precisa se reinventar - tanto quanto os escritores. O próprio Pécora falou sobre isso numa entrevista para a revista "Floema", da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (encontrei via Prosa e Verso e recomendo a leitura). Lá ele diz que a crítica precisa ser exercida em várias frentes, precisa trabalhar para fazer surgir "um conjunto de metáforas e formas novas de lidar com eles" e o mais interessante:

"(...) também acho que a crítica de cultura deve ocupar prioritariamente o campo da língua portuguesa e não o do jargão de área acadêmica. Para que o espaço de linguagem crítica no jornal seja mais do que uma glosa descorada do que já existe (descoradamente) no espaço acadêmico, para que esse espaço possa funcionar não só como orientação do consumo e do gosto, mas também como lugar de reflexão atenta à especificidade dos novos objetos do presente, são necessários estudo e erudição".
Não deixa de ser uma saída interessante, mas que exige tempo e esforço.

Também acho que as inúmeras discussões a respeito de mercado editorial, dos livros e leitores eletrônicos, do fim da literatura, do fim do romance também nos desviam do que está acontecendo na literatura agora. Seria interessante ouvir o que um escritor tem a dizer sobre o seu processo de trabalho, suas intenções, sua pesquisa e todo o resto.

Outra coisa que falta à crítica é acabar com essa indisposição para enfrentar e vasculhar o que está sendo produzido. O Michel Laub, novamente, tem um texto bem interessante sobre isso para o blog da Companhia das Letras - Os clichês do escritor e os clichês da crítica:

"O uso do clichê e do jargão é apenas um exemplo da subjetividade intrínseca a qualquer julgamento literário. (...) ok, mas o resultado de tais premissas e escolhas é bom ou ruim, funciona ou não dentro do que se propõe — nas regras que o autor determina, e não o crítico —, e por quê?

(...)

Existem os best-sellers de público, com fórmula reconhecível por qualquer leitor com experiência, e os best-sellers de crítica, que se escondem — às vezes por décadas e séculos — entre a chamada “literatura de qualidade”. Por razões que valeriam um texto à parte, no entanto, é sempre possível encontrar em algum ponto deles a prova de que o escritor capitulou — em termos ideológicos, morais e técnicos, por falta de talento, esforço ou coragem — ao o pior dos clichês, que é o do imaginário comum de uma época. Ou seja, aquilo que os outros, incluindo a crítica, esperam que digamos. Quando tudo o que deveríamos perseguir é aquilo que, usando meios que podem parecer os menos literários possíveis, queremos e precisamos dizer."
Alguém, não me lembro quem, num desses congressos culturais, disse que a internet (blogs e redes sociais) é livre para criar críticas pois tem espaço (coisa que está sumindo dos jornais e revistas) e não está ligadas a nenhuma instituição. No entanto a internet sofre de um mal inerente a ela mesma: falar indefinidamente sobre um determinado assunto sem acrescentar nada de relevante - a tal inflação simbólica das narrativas. Como muitos debates críticos estão migrando para a internet, seria natural que essas questões não sejam deixadas de lado. Só que esse ainda é um terreno meio movediço.

Irrelevância das narrativas

A preferência da leitura crítica à produção de ficção (de literatura) me faz lembrar a briga de Lee Spiegel no The New Yorker Observer. Entre tantas coisas, o crítico cultural americano também disse que prefere ler não ficção a ficção, e diz ainda que a não ficção está ocupando o lugar da ficção - um gênero irrelevante, peça de museu para os dias de hoje. Será mesmo?

Não quero arriscar dizendo autores representativos de alguma coisa. Mas no final do ano passado, o Caderno 2, do Estadão, fez uma reportagem bem interessante sobre o romance dessa primeira década do século XXI.

E para quem quer entender mais sobre o que aconteceu e está acontecendo na literatura brasileira, recomendo um texto do Sérgio Rodrigues, do Todoprosa - Notícia da atual literatura brasileira: instinto de internacionalidade. Ele resume o embate dos nossos escritores em encontrar uma saída para impasse da irrelevância da narrativa nacional.

Existe espaço para o que é bem realizado, só precisa haver tempo para acontecer e boa vontade para avaliar.

*imagem: reprodução.
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7 comentários:

  1. Belo trabalho, Rafael! Parabéns pela pesquisa, os links e pela sua posição ao analisar o tema da crítica. Imagino o trabalho que isso lhe deu, alinhavar todos esses artigos e opiniões. Parabéns!

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  2. interessante, em especial tradição/inovação. essa síndrome do make it new é também tão velha e tão datada que é incrível que ainda consiga castrar tanto, por tanto tempo, tanta gente e tanta coisa.
    só não comento muito pois me sinto meio forasteira por aqui, leitora metendo o bedelho em preocupações tão específicas de autores e críticos.
    em todo caso, como leitora, meus votos e minha torcida pelos "autores contemporâneos" seriam: não se preocupem tanto, apenas escrevam. a depuração certamente não virá pela crítica nem por esse tipo de selfconsciousness (acho esse termo quase intraduzível: tipo o acanhamento resultante do excesso de autocrítica ou de preocupação consigo mesmo; o "peso da história" - ah, acho que nietzsche, argh, já dizia isso em "considerações intempestivas", no ensaio sobre as vantagens e os inconvenientes da história: a capacidade de paralisação, de desvitalização e castração que tem o excesso de consciência histórica, dizia ele - ao que o pécora certamente brandiria sua palmatória).

    acho que, em certa medida, eu também endereçaria meus votos à eventual parcela de críticos que ainda possa se interessar ou vir a se interessar mais por literatura do que pelos impasses dela, autênticos ou forjados (estes, aliás, geralmente forjados pela própria crítica, a preguiçosa ou a prepotente). por isso, entre outras coisas - e retomando uma discussão recente -, gosto da aparente simplicidade e da coragem de james wood e não gosto da jequice e da estreiteza da flora süssekind.

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  3. Wellington, curiosamente esses textos surgiram mais ou menos ao mesmo tempo - não necessariamente como resposta ao debate que aconteceu. O papel da crítica e da literatura está na pauta do momento. A parte "a bolha simbólica", acho importante ver outras opiniões/argumentos para que a gente não fique com a impressão de que tudo vai mal.

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  4. Denise, sabe que o Lee Spiegel (crítico americano) não gosta muito do James Wood. Ele diz que quando uma coisa precisa ser defendida e explicada (direcionando a fala para o Wood) é pq ela perdeu sua importância. Independente dessa opinião, o que o James Wood está fazendo é realmente louvável!

    Por isso, acho legal quando o Pécora diz que a crítica precisava se aproximar do campo da língua portuguesa e abandonar o jargão acadêmico.

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  5. Rafael,

    Interessante que essa discussão está virando uma bola de neve. Começou com aquele debate entre a Flora e, se não me engano, o Sérgio Rodrigues, no Globo. Depois você mencionou com propriedade o James Wood e a Zadie Smith.

    Aí vem esse debate com o Pécora no IMS.

    Não sou especialista - sou apenas um leitor -, mas concordo em parte com o Pécora no que tange à literatura brasileira. A geração de 90 em diante ainda não se firmou. Há algumas promessas, a serem confirmadas. Particularmente - e concordando com o Pécora - destaco o Bernardo Carvalho e o Milton Hatoum. Ainda não li o Ronaldo Correa de Brito, mas posso apostar nele. Mas discordo do Pécora na experimentação. Parece que ele deu as costas e tem má vontade de ao menos tentar ler literatura contemporânea.

    valeu!!

    PS: gostaria de ler um post seu sobre o Pornopopéia.

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  6. rafael, tb acho louvável. pessoalmente aplaudo o amis quando diz que não dá muita bola para resenhas literárias, mas que se interessa pelo que diz o wood. claro que é, em certo sentido, uma bravata ou, melhor, uma boutade, mas acho que valeria a pena se deter um pouco sobre as razões pelas quais ele se saiu com ela.

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  7. Frescor. Aos falantes: a crítica >> http://asinusauri.blogspot.com/

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