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sexta-feira, 9 de setembro de 2011

FICÇÃO "NUM TEMPO DE CATÁSTROFES" - 9/11

Domingo os atentados que aconteceram em 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos completam dez anos. Acho que todo mundo se lembra do que estava fazendo naquele dia e naquele exato momento. Como muita gente, lembro de ter visto na TV o instante em que o segundo avião bateu numa das torres. Não demorou muito e as torres despencaram. Foi um negócio chocante e inacreditável.

O maior atentado terrorista da história marcou o início do século XXI e mudou muita coisa não só na sociedade americana como no mundo todo. A ficção também foi afetada. Muitos romances norte-americanos escritos após o 11 de setembro procuraram refletir a imensidão daqueles eventos na vida do cidadão comum. O jornalista Antonio Gonçalves Filho (do Estadão), num balanço sobre o romance da primeira década desse século, resumiu o clima geral da literatura a partir desses eventos - recomendo da leitura do artigo. Para ele, o romance abraçou o tema da culpa e do terror político por meio da experiência pessoal dos indivíduos. No mesmo artigo, Antônio fala que os romances emblemáticos de "um tempo de catástrofes" são Homem em queda, de Don DeLillo e A estrada, de Cormac McCarthy.

Os jornais e revistas estão lançando uma série de reportagens especiais em torno do tema. A New Yorker, por exemplo, preparou um número especial com textos de Colum McCann, Zadie Smith, Jonathan Sanfran Foer, Elif Batuman e ficção de novos escritores sobre o mundo pós-ataques. A Ilustrada e o Estadão tem reportagens e listas de livros com as transformações sofridas pela indústria cultural.

Pensando especificamente sobre a ficção, a revista Granta (edição inglesa) vai publicar um número especial chamado "Dez anos depois". A edição tem um olhar multifacetado sobre o que aconteceu e trás histórias de gente ao redor do mundo sobre a vida após a queda das torres. Num podcast sobre o lançamento da revista, John Freeman recomendou cinco romances que tratam do evento:

Homem em queda, de Don DeLillo
Extremamente alto & incrivelmente perto, de Jonathan Sanfran Foer
Os filhos do imperador, de Claire Messud
Complo contra a América, de Philip Roth
Terrorista, de John Updike
Indendiário, de Chris Cleave

Vocês lembram de mais romances emblemáticos sobre o 11 de setembro?

*Imagem: reprodução da capa da Granta.
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segunda-feira, 15 de agosto de 2011

LENDO: PONTO ÔMEGA, DE DON DELILLO

Comecei a ler na semana passada o último livro lançado por Don DeLillo, Ponto ômega - saiu por aqui pela Companhia das Letras com tradução de Paulo Henriques Britto. Daí você deve estar se perguntando: "mas o que tem a ver essa foto com o livro"? É que o livro faz uma referência a obra de arte 24 Hour Psycho (1993), de Douglas Gordon. O artista plástico expandiu a duração do filme Psicose, de Alfred Hitchcock para que ele tivesse duração de 24 horas.

A novela de DeLillo começa e termina com pessoas dentro do MoMA visitando essa obra de arte. Entre essas duas parte se desenrola o enredo.

É uma novela curta (tem apenas 104 páginas), mas de grande impacto por conta da linguagem direta, da economia narrativa e do enredo sinistro - essas são minhas impressões até o momento. Na edição nº 02 do fanzine há uma bela resenha de Lance Olsen e um trecho da primeira parte do livro (gentilmente cedido pela Cia das Letras). Quem se interessar pode fazer o download do fanzine aqui.

*imagem: reprodução do Guardian.

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segunda-feira, 6 de junho de 2011

DON DELILLO RENOVADO

A editora Picador convidou o pessoal da It's Nice That para relançar dez romances do escritor Don DeLillo. Por sua vez, o pessoal da It's Nice That convidou ninguém menos que Noma Bar para criar os desenhos das capas.

Noma disse que o processo foi um pouco demorado, ele teve de ler todos os romances e se concentrar nos principais elementos das histórias. Depois de criar muitas ilustrações para cada um dos livros, ele e o pessoal da It's Nice That fizeram as escolhas finais.

"Depois de um longo processo que envolveu leitura, pesquisa e desenho, eu comecei a tirar alguns dos principais elementos de cada história e tentei entender como Don DeLillo adaptados los juntos. O resultado é uma imagem arrojada para cada capa que podem parecer convencionais no início, mas num segundo olhar revelam toda a história".
O resultado final ficou realmente surpreendente. Ele traduz o livro em imagens simples que se transformam. Parece que o estilo de Noma caiu como uma luva para os livros do DeLillo. Não é a primeira vez que a capa de um livro dele recebe ilustrações. Uma edição da Penguin Classics para o romance Ruído branco ganhou desenho de Michael Cho.

Abaixo montei uma galeria com as capas:



Noma Bar é um designer e ilustrador israelense muito conhecido pelos trabalhos para as revistas Time Out London, The Economist e Wallpaper, para o New York Times e por algumas capas de livros. A revista Piauí já teve uma ilustração dele na capa da edição_47 - aquela do lobo mau e da chapeuzinho vermelho.

***

Em tempo: Don DeLillo deve publicar até o final do ano um livro reunindo nove contos escritor entre 1979 e 2011. O livro será publicado nos Estados Unidos com o título de The Angel Esmeralda: Nine Stories.

*imagens: reprodução das capas assinada por Noma Bar/It's Nice That.
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segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

NOTAS #16


Tchekhov em tirinhas
O cartunista Ben Greenman resolveu fazer um resenha diferente para um livro de Anton Tchekhov: uma tirinha. Bem humorado, o cara viu nos contos do autor russo um paralelo com a vida de diversas personalidades americanas. Vale uma leitura rápida, não leva nem cinco minutos. A tirinha completa está disponível em http://tinyurl.com/4vlkufn

Literatsi
O blog Literatsi está lançando na internet uma revista digital sobre literatura. O editor do blog e da revista, Luiz Fernando Cardoso, tocou todo o projeto para colocar o primeiro número no ar. Ele conta que esse número ficou um pouco atrasado por conta de alguns problemas, por isso algumas seções estão um pouco desatualizadas. De qualquer ele já está convidando colaboradores para o próximo número. O primeiro número da revista e mais informações estão disponíveis em http://tinyurl.com/4g79fja

Blog
O Instituto Moreira Salles está estreando um blog - http://blogdoims.uol.com.br/. Por enquanto já tem um debate em vídeo, textos da revista Serrote assinados por Boris Schnaidermann e um texto de Davi Arrigucci Jr. sobre um quadro de Ismael Nery. Para quem quer saber sobre ficção o destaque será a seção de correspondência entre o escritor Daniel Galera e o editor André Conti.

Book trailer
A editora Agir colocou no youtube um trailer incrível do livro O seminarista, de Rubem Fonseca lançado em 2009. Fonseca tem fama de ser avesso às entrevistas e aparições em público, mas por incrível que pareça ele é o narrador deste vídeo. O gesto lembra Thomas Pynchon que também é o narrador no trailer do livro Vício inerente. O vídeo de O seminarista produzido pelo pessoal do Retina 78 está disponível em http://tinyurl.com/ygkxdgz

Influências
O escritor americano Adam Levin publicou no ano passado The instructions - seu primeiro romance com mais de 1000 páginas. Ele disse que escreveu o livro influenciado por Infinite Jest, de David Foster Wallace - um romance tão grande quanto o seu. Entre outras influências ele citou Don Dellilo, Philip Roth e George Saunders. The instructions foi bastante comentado por conta do seu tamanho, mas passado o choque inicial o romance tem recebido críticas bastante positivas.

*imagem: reprodução da tirinha de Ben Greenman.

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domingo, 9 de janeiro de 2011

NOTAS #14


Mosqueteiros ilustrados
A editora Zahar lançou no final do ano passado uma edição caprichada do livro Os três mosqueteiros, de Alexandre Dumas. A tradução, apresentação e notas explicativas foram feitas pelos escritores André Telles e Rodrigo Lacerda - eles também são os responsáveis pela tradução premiada de O conde de Monte Cristo, outro livro de Dumas. O livro inclui ainda mais de 100 ilustrações originais. De fato, trata-se da edição definitiva do romance.

Domínio público
Alguns escritores famosos estão entrando em domínio público em 2011. Entre eles, Walter Benjamin, o pensador mais importante do século passado, e os escritores Mikhail Bulgakov e F. Scott Fitzgerald. Vale lembrar que não são todos os textos que serão enquadrados nessa categoria. Tem de ficar atento ao ano de publicação da obra.

Os melhores de 2010 – parte 1
Parece que já faz tanto tempo, mas na verdade não faz. Por isso, muita gente ainda está falando sobre os melhores livros de 2010. Vamos perdoar, afinal foi o fim de uma década e estamos na era da velocidade - tem notícia que passa e a gente nem consegue degustar. A revista portuguesa LER, por exemplo, convocou seus leitores para uma votação. Entre os escolhidos tem: Uma viagem à Índia, de Gonçalo M. Tavares; O Sonho do Celta, de Mario Vargas Llosa; Submundo, de Don DeLillo e Livro, de José Luís Peixoto.

***

O El País, por meio do caderno Babelia, também divulgou sua lista. Exceto Blanco nocturno, de Ricardo Piglia os demais livros também apareceram na lista da revista LER e a de muitos outros jornais. Fiquei impressionado com Verão, de J. M. Coetzee que está em todas as listas que vi circulando pela internet. A lista do El País está disponível em http://tinyurl.com/y9vhzbj

Os melhores de 2010 - parte 2
Outro que divulgou sua lista de 2010 para literatura estrangeira traduzida no Brasil foi João Paulo Cuenca no programa Estúdio i, da Globo news. Cuenca gostou de 2666, de Roberto Bolaño; A verdadeira vida de Sebastian Knight, de Vladimir Nabokov; Doutor Pasavento, de Henrique Vila-Matas; A morte de Bunny Mumro, de Nick Cave; e Uma mulher, de Peter Esterházy. Um vídeo do programa está disponível em http://tinyurl.com/28evzca

A literatura vai ao cinema
O jornal LA Times organizou uma lista com filmes que estão ligados ou foram inspirados pelo universo da literatura. Até agora foram 29 filmes - os critérios de seleção estão no link abaixo. A lista serve para aqueles dias chuvosos das férias em que você já cansou de ler livros. Tem Uma janela para o amor, baseado num romance de E.M. Forster; O céu que nos protege, baseado num romance de Paul Bowles; Short cuts - cenas da vida, adaptação de alguns contos de Raymond Carver; Razão e sensibilidade, baseado em livro de Jane Austen - a escritora do momento; Trainspotting - sem limites, baseado num livro homônimo de Irving Welsh. A lista completa está disponível em http://tinyurl.com/2c3pxqr

Paixão pela literatura
O ator James Franco está realmente envolvido com literatura. No ano passado ele publicou um livro de contos que recebeu diversos elogios e ainda estrelou um filme em que vive a história do poeta beatnick Allen Ginsberg - o filme deve estrear em breve no Brasil. Nessa semana o ator anunciou que ainda esse ano vai dirigir uma versão para o cinema do romance Enquanto agonizo, de William Faulkner e para o ano que vem pretende dirigir o romance Meridiano de sangue, de Cormac McCarthy.

Relançamento
A editora Companhia das Letras promete publicar em 2011 uma nova edição do livro Os escritores - as históricas entrevistas da Paris Review. O livro foi publicado pela primeira vez em 1988/1989 em dois volume e conta com as melhores entrevistas de escritores concedidas à revista de literatura mais importante do mundo. Tem E. M. Forster, Louis-Ferdinand Céline, Jorge Luis Borges, William Faulkner, Saul Bellow, John Cheever, Gore Vidal, Milan Kundera, William Burroughs, Vladimir Nabokov, Ernest Hemingway, Anthony Burgess, Jack Kerouac, Gabriel García Márquez, Philip Roth, entre outros.

***

Desde o ano passado, a Paris Review conta com um novo editor, Lorin Stein, que está dando novos ares à revista e modificando um pouco seu perfil. O site da revista, por exemplo, ganhou um blog, um tumblr e um twitter. Além disso, algumas entrevistas do arquivo tiveram seu acesso liberado para os leitores.
*imagem: reprodução do site da editora Zahar.

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quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

O ROMANCE NA PRIMEIRA DÉCADA

Na última semana de 2010, pouco antes de encerrarmos a primeira década dos anos 2000, o Estadão, por meio do Caderno 2, preparou uma série de reportagens que serviram como um balanço das artes nos últimos dez anos. Achei o trabalho bastante primoroso e queria ter comentado por aqui bem antes do ano terminar, mas infelizmente não foi possível. Por isso, faço agora.

Na parte dedicada a literatura, especialmente a prosa de ficção, Antonio Gonçalves Filho destaca os atentados do 11 de Setembro de 2001 como o ponto de partida inicial para a transformação do romance como o conhecemos - "Abc do terror" e "Coetzee brilha no ano da autoficção". Ao invés de decretar sua morte, o jornalista diz que o romance abraçou o tema da culpa e do terror político por meio da experiência pessoal dos indivíduos:


"A politização da literatura e o revisionismo histórico marcaram definitivamente a primeira década do século, assim como a incorporação da experiência pessoal num romance de natureza autobiográfica disfarçada - a que se deu o nome de bioficção, ou autoficção, com o preferem outros".
A partir dessas afirmações surgem os escritores importantes que justificam essas três tendências que o romance contemporâneo vem seguindo: terror, culpa e autoficção/bioficção. Homem em queda, de Don Delillo seria o livro que inaugura o caminho do terror. O romance fala sobre uma personagem que sobreviveu ao ataque das Torres Gêmeas, mas não consegue retornar a vida como ela era antes do incidente. A tendência segue caminho com A estrada, de Cormac McCarthy - igualmente apocalíptico e desesperançoso.

A questão da culpa e da autoficção/bioficção aparecem em As benevolentes, de Jonathan Littel - segundo Antonio Gonçalves é o melhor romance da década; Reparação, de Ian McEwan - também apontado igualmente por muitos críticos como o romance da década -; dois livros de J. M. Coetzee - Diário de um ano ruim e Verão; e Neve de Orhan Pamuk.

Eu acrescentaria a lista de culpa e autoficção/bioficção os livros do alemão W. G. Sebald - são uma experiência única e diferentes de tudo o que a gente pode imaginar -, do espanhol Javier Marías - tão grandioso quanto Sebald, aliás, uma de suas influências -, dos argentinos Ricardo Piglia e César Aira - fazem uma brincadeira entre a história de verdade e a ficção - e o chileno Roberto Bolaño - que também faz ficção usando um pouco da história latina.

O interessante da reportagem é apontar com consistência um caminho que está passando bem diante dos nossos olhos. Tem a ver com aquilo que falei num outro post de querer pegar o novo e puxá-lo pelo rabo. Certamente o romance está trilhando diversos caminhos, mas esse parece ser um dos mais instigantes no momento.

*imagem: reprodução do Estadão.

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sábado, 25 de setembro de 2010

JAVIER MARIAS E OS ROMANCES LONGOS

A Companhia das Letras está lançando o terceiro e último volume do romance Seu rosto amanhã - veneno, sombra e adeus, de Javier Marias, um escritor espanhol da maior importância. W.G. Sebald, J.M. Coetzee, Roberto Bolaño, Salman Rushdie e Ricardo Piglia estão entre os seus maiores admiradores. Porém, como bem aponta a resenha de Jonas Lopes para a Bravo!, Marias é um sucesso mundial pouco lido e pouco comentado no Brasil.

Aproveito para fazer um "mea culpa": tomei conhecimento dele dois anos atrás por meio de resenhas, mas até hoje ainda não li nenhum de seus livros. Juro que Coração tão branco esta na minha fila de próximas leituras.

Javier Marias já foi traduzido para muitos idiomas e ganhou inúmeros prêmios. É tido como um dos mais importantes escritores vivos da literatura espanhola. Seu sucesso vem da grande qualidade narrativa de seus livros.

Reproduzo aqui um trecho da resenha de Jonas Lopes sobre o método narrativo do escritor. O método é constituído de inúmeras digressões, frases muito longas, contração/expansão do tempo e parece a peça fundamental para entender a sedução que o romance exerce sobre nós, os leitores: "A magia de ler Marías (...) está na capacidade de promover digressões, no turbilhão inescapável de idéias. (...) Até onde contar - falar, relatar, narrar, sobretudo confiar - pode ser arriscado? Ao contarmos o que quer que seja, arriscamo-nos à traição. Perdemos o controle sobre nossas vidas, de certo modo, abandonando na mão de outro - um amigo, um amor, o leitor do livro - uma responsabilidade essencial".

De maneira bem resumida, Seu rosto amanhã conta a história de um ex-professor de Oxford que tem o dom de prever o que vai acontecer com uma pessoa observando o rosto dela. Ele acaba sendo recrutado por grupos de espiões para descobrir traídores em potencial. Ao longo dos três volumes essa história vai se modificando um pouco.

Gostei de saber uma história bastante curiosa sobre esse livro. O romance foi dividido em três volumes porque o autor não gosta de livros muito longos - reunindo os três volumes o romance fica com aproximadamente 1400 páginas. É um enorme catatau, sem dúvida.

Mas aqui cabe uma digressão da minha parte: pelo que ando lendo em diversos lugares (veja aqui), os romances mais longos estão de fato na moda. Quer exemplos? Para citar os nossos contemporâneos: As correções, do aclamado Jonathan Franzen tem 584 páginas e parece que Freedom não fica atrás; Do Roberto Bolaño, 2666 tem 856 páginas e Os detetives selvagens tem 624 páginas; Do Thomas Pynchon, Mason & Dixon tem 846 páginas e O arco-íris da gravidade tem 786 páginas; Submundo, de Don Dellilo tem 736 páginas. Apenas por curiosidade, alguns antigos e outros nem tanto: Ulisses, de James Joyce tem 912 páginas; Moby Dick, de Herman Melville tem 656 páginas; Grandes esperanças, de Charles Dickes tem 536 páginas; Anna Karienina, de Tolstói tem 816 páginas. Isso porque nem mencinei Dostoievski, Günter Grass, Haruki Murakami, Thomas Mann e Marcel Proust - Em busca do tempo perdido tem 7 volumes.

Tudo isso parece um contracenso se pensarmos que estamos em plena era do twitter e seus famigerados 140 caracteres. A tendência ainda nega a tão falada superficialidade de informações no mundo contemporâneo. Não é qualquer escritor que tem fôlego para manter romances tão longos e dentre os citados, todos fazem parte de um cânone moderno/pós-moderno. Também não se engane pensando que você nunca vai encontrar gente de gerações mais novas com um desses longos romances nas mãos. Muitos desses escritores são bastante comentados na internet.

O capricho, vou chamar assim, de Javier Marias se explica pelo seu gosto por livros não tão longos. Porém, os editores já podem avisar Marias que ele não deve ter nada mais a temer.

*imagem: divulgação.

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domingo, 19 de setembro de 2010

DAVID FOSTER WALLACE


Tristan Tzara termina sua receita para um poema dadaísta com a seguinte frase: "E ei-lo um escritor infinitamente original e de uma sensibilidade graciosa, ainda que incompreendido do público". Subvertendo alguns dos seus sentidos, a frase se encaixa muito bem com a obra do escritor americano David Foster Wallace. Seus livros são altamente originais e recheados de momentos sensíveis, mas são imcompreendidos graças ao forte caráter experimental*.

Sucesso de crítica, David Foster Wallace era tido como um promessa para a literatura do século XXI. Infelizmente ele cometeu suicídio em 2008 depois de um período longo de depressão profunda. Deixou uma obra composta por romances monumentais, livros de contos e artigos escritos para jornais e revista americanas. Infinite Jest, publicado em 1996, chegou a ser comparado ao Ulisses, de James Joyce. No Brasil, Breves entrevistas com homens hediondos foi seu único livro publicado.

Ao que parece, Foster Wallace tinha certa preocupação em dar continuidade a tradição de ficcionistas americanos que o precediam. Leitor de Thomas Pynchon e Don Delillo, ele tentava arranjar uma maneira de soar original e encontrar uma voz própria. A tarefa era difícil, esses autores transformaram radicalmente a ficção americana e a levaram a lugares nunca antes visitados. A saída encontrada por Foster Wallace foi descontruir a linguagem e atacar a estrutura da narrativa.

Isso explica porque sua ficção é repleta de lacunas, espaços em branco, palavras inventadas, frases bem longas, pontuação irregular, muitas intervenções, fórmulas matemáticas, diálogos imensos, etc. A metalinguagem e as enormes notas de rodapé também são marcas de seu estilo. Os temas giram em torno da classe média americana, mas de uma maneira mais sarcáticas e cheia de humor negro. Suas personagens sempre sofrem de algum tipo de psicose ou vivem as voltas com certas obsessões. Elas são capazes de falar por páginas e mais páginas sobre um mesmo assunto. Sexo, drogas e pervesão aparecem a todo o momento.

Porém, também existe espaço para a beleza, a alegria e o humor. As situações insólitas das histórias causam gargalhadas. Muitos críticos chegam a dizer que Foster Wallace tomou emprestado a classe média de Updike e a levou para o lado obscuro, ironico e sarcástico da vida. Atrás do caos aparente existe a sensibilidade de um escritor que está nos mostrando aos mesmo tempo a força e a fraqueza humana.

O experimentalismo em excesso às vezes pode afastar o leitor menos desavisado. De fato, em certos momentos o enredo parece não sair do lugar ou o assunto fica por demais árido - como é o caso de Datum centurio e Adult World (II), ambos de Breve entrevistas com homens hediondos.

Essa semana duas notícias devem colocar o nome de Foster Wallace em evidência novamente: o arquivo do escritor que está sob os cuidados do Harry Ransom Center, Universidade do Texas foi aberto ao público; e Pale King, um romance inacabado, terá publicação no ano que vem. Alguns trechos desse romance foram publicados na revista New Yorker: Good people, Wiggle room e All that.

Tomara que novas traduções de Foster Wallace apareçam no Brasil. Tive notícia de que dois livros de não ficção devem estar a caminho.

* Me refiro as modificações radicais da linguagem e das estruturas narrativas. Também quero deixar claro que não estou exaltando o "experimentalismo" em detrimento de outros modos de expressão.

**imagem: reprodução da NY Mag.

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