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quinta-feira, 18 de outubro de 2012

VIDA LONGA AO CACHALOTE


"Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer."
Ítalo Calvino

Moby Dick está fazendo aniversário. Até o Google entrou na onda de comemorações com aquela tradicional brincadeira com seu logotipo. Desde setembro, no melhor estilo folhetim, o projeto mobydickbigread.com está criando uma espécie de audiobook na internet com pessoas lendo capítulos do livro que ficam disponíveis no SoundCloud, no iTunes e no Facebook. Contribuíram com a leitura Tilda Swinton, Matthew Barney e David Cameron, entre outros.

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Bendito seja o dia em que uma baleia atacou um barco pesqueiro no meio do oceano Pacífico, em novembro de 1820. Quer dizer, o incidente verídico propriamente dito foi horrível - segundo dizem, o barco afundou e a tripulação ficou à deriva por três meses, tendo de praticar até canibalismo para sobreviver -, mas nos deixou de herança um clássico da literatura universal: Moby Dick, ou a baleia.

A tarefa foi possível graças ao talento do jovem Herman Melville (com 32 anos na época da publicação do romance). Sua experiência de vida contava com uma longa viagem pelo Pacífico, cinco livros publicados, um casamento e a amizade de Nathaniel Hawthorne (renomado autor de A letra escarlate). Tanta maturidade permitiu a Melville enxergar a força simbólica daquele ataque revolto da natureza contra a ação humana e fazê-lo explodir em diversos temas complexos: a hierarquia das classes sociais, a polaridade entre o bem e o mal, as dúvidas sobre a existência de Deus, a obsessão humana etc. 

O romance foi publicado pela primeira vez em três volumes, na Inglaterra em 18 de outubro de 1851. Curiosamente, Moby Dick não fez muito sucesso naquele ano, quase foi esquecido e ficou relegado a um pequeno circulo de leitores em Nova York. Os verdadeiros responsáveis pela revisão do livro foram os críticos e escritores modernistas do começo do século 20 - especialmente Carl Van Doren, D. H. Lawrence e F. O. Matthiessen.

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Desde então, Moby Dick faz parte do imaginário popular e ganhou inúmeras adaptações para teatro, cinema, programas de rádio e TV, além de versões para quadrinhos. A aventura mais recente é Moby-Dick in Pictures: One Drawing for Every Page, de Matt Kish. O cara criou um blog onde publicava um desenho para cada página do romance. A repercussão foi tão grande que acabou virando livro.

Aliás, ele publicou no blog uma compilação com diversos trabalhos artísticos inspirados em Melville e sua obra prima.

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No Brasil, a edição definitiva do romance Moby Dick que foi lançada pela Cosac Naify. Tem tradução primorosa de Alexandre Barbosa de Souza e Irene Hirsch, uma série de notas explicativas, glossário náutico e fortuna crítica.

*Imagem: Moby Dick as Jaws by unknown/reprodução do Spudd64.
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quarta-feira, 18 de abril de 2012

NOTAS #36


Romance a caminho
Assim vai ser a capa do novo romance de Zadie Smith que chega às livrarias inglesas em setembro e vai se chamar NW. A história se passa em Caldwell, um conjunto habitacional localizado em Willesden na área noroeste de Londres - o NW do título vem de North West, nome em inglês dessa parte da cidade. Zadie Smith nasceu em Willesden, por isso conhece tão profundamente a história do lugar. Ela tinha explorado o mesmo bairro em Dentes brancos, seu romance de estréia lançado por aqui em 2003 pela Companhia das Letras. NW será o quarto romance de Zadie - quase sete anos depois de Sobre a beleza.

Trevas ilustradas
Muito gente deve ter ouvido falar de Matt Kish por causa de uma tarefa hérculea: fazer um desenho para cada página de Moby Dick, de Herman Melville (falei do cara aqui). O trabalho inteiro levou dois anos para ficar pronto e o resultado final foi tão bacana que ganhou uma versão em livro impresso. No mês passado, Kish anunciou que seu próximo trabalho será criar 100 ilustrações para uma nova edição do clássico Coração das trevas, de Joseph Conrad. O livro será lançado nos Estados Unidos pela editora Tin House em outubro de 2013.

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Os desenhos de Coração das trevas não serão publicados integralmente no blog de Kish - ao contrário do que aconteceu com o projeto Moby Dick. O autor promete divulgar mais ou menos 30 desenhos conforme o andamento do trabalho.

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Como aperitivo para os curiosos, Kish publicou duas ilustrações que devem integrar uma antologia bem bacana chamada The Graphic Canon - Volume 3 (com lançamento nos Estados Unidos previsto para o segundo semestre desse ano). O grande barato dessa antologia é fazer uma releitura em desenhos do canône literário desde século XIX até primeira década do século XXI. O volume 1 vai de Gilgamesh até Ligações perigosas; o volume 2 vai de Orgulho e preconceito até O médico e o monstro; e o volume 3 vai de Coração das trevas até Infinite Jest. Dica para alguma editora brasileira que esteja interessa em publicar ilustrações, quadrinhos etc.

Madrugadas literárias
Na quinta-feira acontece a inauguração do Espaço Cultural Walden - fica em SP na Praça da República, bem perto do cruzamento da São Luís com a Ipiranga. O lugar nasce com uma certa vocação literária com festas agendadas para abril tendo Dw Ribatski e Bumbo Caixa, seu projeto sonoro. Em maio, João Paulo Cuenca aparece para um after-party do lançamento de A última madrugada - seu livro de crônicas que sai mês que vem pela Leya. Vamos combinar que ninguém é de ferro e todo mundo que gosta de literatura também gosta de uma boa festa.

Barba e bigode
Um novo comportamento social está ressurgindo entre os homens: a barba e o bigode. Foi pensando nisso que o pessoal da Estamparia Literária criou uma linha de produtos inteiramente dedicada a essa tendência. Tem marcador de página, caderneta, bloco de notas e bolsa, todos inspirados em grandes autores da literatura universal. Tem William Faulkner, Eça de Queiroz, Aluísio Azevedo, Fernando Pessoa, Ezra Pound, Edgar Allan Poe, Marcel Proust e Gustave Flaubert.

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Quero fazer a minha contribuição e recomendar ao pessoal que faça uma lista inspirada nas barbas e nos bigodes dos clássicos russos Fiódor Dostoiévski, Liev Tolstoi e Anton Tchekhov. Ou então nos norte-americanos Kurt Vonnegut, Ernest Hemingway e Mark Twain. Quem sabe ainda nos escritores do Reino Unido James Joyce (aproveitem o Bloomsday em junho), Arthur Conan Doyle, George Orwell, Salman Rushdie, D.H. Lawrence e Joseph Conrad. Pode ter uma versão realismo mágico de Gabriel García Márquez ou fantástica à lá Julio Cortázar. Quem sabe uma linha totalmente nacional inspirada nas barbas e bigodes de Machado de Assis, José de Alencar, Jorge Amado, Bernardo Guimarães, Manuel Antônio de Almeida, Raul Pompéia, Monteiro Lobato e Euclides da Cunha.

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Alguém me soprou algumas sugestões de autores brasileiros contemporâneos: Daniel Galera, Paulo Scott, João Paulo Cuenca e Joca Reiners Terron, Michel Laub e Daniel Pellizzari.

Pós-modernos
Parodiando Drummond com todo o respeito: "E como ficou chato ser eterno. Agora serei pós-moderno". Uma lista de livros pós-modernos pintou outro dia no Flavorwire. Fiquei impressionado com a quantidade de ficção pós-moderna norte-americana que está passando ao largo das traduções em português. De dez livros, sete estão inéditos por aqui: The Recognitions, de William Gaddis (que acabou de ganhar uma nova edição nos Estados Unidos); Infinite Jest, de David Foster Wallace (vai sair pela Companhia das Letras, mas ainda não tem previsão); Sixty Stories, de Donald Barthelme (dele encontrei apenas um livro publicado no Brasil em 1975, Vida de cidade pela Artenova); House of Leaves, de Mark Z. Danielewski; Wittgenstein’s Mistress, de David Markson (dele a revista Serrote publicou um excerto de Isto não é um romance); Blood and Guts in High School, de Kathy Acker; e The Sot-Weed Factor, de John Barth (dele já saiu por aqui Ópera flutuante e Quimera com edições do Círculo do Livro).

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Entendo que apostar num autor pós-moderno pode ser um risco considerando o nosso mercado editorial (em expansão). Poderia existir uma editora de pequeno porte que pudesse criar uma identidade de autores desse estilo. Assim os livros poderiam ser trabalhos mais separadamente com baixas tiragem para atender um mercado bem pequeno, mas existente.

*Imagens: reprodução do Google.

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