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segunda-feira, 28 de maio de 2012

A CAIXA PRETA DE JENNIFER EGAN FICA NO TWITTER

Sem nenhuma sombra de dúvida o posto de musa da próxima edição da FLIP pertence a escritora norte-americana Jennifer Egan. Sua ousadia com as fronteiras formais que separaram os gêneros conto e romance aliada as histórias tocantes e humanas das personagens de A visita cruel da tempo chamaram atenção dos leitores e dos críticos ao redor do mundo. Ela ainda foi premiada com um Pulitzer, um National Book Critics Circle e derrotou Jonathan Franzen na final do Tournament of Books. Fique assinalado que isso não é tarefa das mais simples.

Pois bem, na FLIP, Jennifer Egan vai dividir a mesa 'Pelos olhos do outro' com ninguém menos que Sir Ian McEwan - alguém que dispensa muitas apresentações; se você não conhece só precisa saber que ele é num dos dez maiores escritores vivos, autor do melhor romance escrito na primeira década dos anos 2000, ganhador do Man Booker Prize e autor de mais de uma dezena de romances. Considerando as façanhas anteriores da jovem Egan arrisco dizer que ela vai tirar tudo de letra e fazer bonito. Bem diferente da musa do ano passado - a bela Pola Oloixarac - que foi "engolida" pelo português valter hugo mãe, seu companheiro de mesa. Sir McEwan já esteve numa outra edição da FLIP, por isso não vai ganhar uma mesa só para ele apesar de sua importância.

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Nessa semana, Egan voltou a ser assunto porque está publicando um conto pelo twitter da revista New Yorker - começou na quinta-feira e vai durar por 10 dias com transmissões todas as noites. O conto chamado "Black Box" vai integrar a edição temática da New Yorker sobre ficção científica, mas será publicado primeiro pelo twitter a pedido da autora. A história tem como protagonista a personagem Lulu, de A visita cruel do tempo, que anos mais tarde está trabalhando como espiã do governo norte-americano.

Egan contou que estava interessada em experimentar com o formato que o twitter proporciona: a restrição do espaço, a independência de cada sentença, uso de ação ao invés de descrição, trabalhar uma personagem num gênero diferente etc. Porém, ao contrário de outras experiências envolvendo o uso do twitter para escrever ficção, ela planejou a história do começo ao fim num caderno japonês que tinha oito retângulos em cada página e editou o material final.

Quem quiser pode acompanhar o desenvolvimento do conto de duas maneiras: através do twitter todas as noites ou na íntegra no site da New Yorker após a transmissão pelo twitter.

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Outros experimentos do gênero já aconteceram antes. Se não estou enganado, Marcelino Freire criou uma série de microcontos pelo twitter - chamado "Conto Nanico". Cada conto nanico (ou tweet) era uma história com começo e fim. Existia individualmente e não compreendiam um texto mais longo dividido em pedaços.

O escritor norte-americano John Wray também tem experiência semelhante. A personagem 'Citizen', de seu livro Afluentes do rio silêncioso, ganhou vida própria e protagoniza uma história em série que já dura anos. Não tem uma forma fixa de romance ou conto em que os acontecimentos vão se desenrolando numa sequência e culminam num desfecho. Também não tem tamanho e nem duração de tempo definidas. Ele pretende que cada tweet seja o mais espontâneo, real e improvisado o possível.

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Infelizmente não temos como saber ainda se essas experiências vão resultar num novo formato de escrever ficção. Só o tempo será capaz de responder. Bom saber que tem muita gente tentando, sobretudo gente do calibre de Jennifer Egan.

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Em tempo volto a dizer que a Intrinseca vai publicar O torreão, romance escrito por Jennifer Egan antes do sucesso de A visita cruel do tempo. O que significa que teremos muito assunto para tratar com ela.

***ATUALIZAÇÃO: a edição da New Yorker acaba de sair - está bem bacana com textos de Sam Lipsyte, Anthony Burgess (falando sobre Laranja mecânica que fez aniversário semanas atrás), Jonatham Lethem, Junot Díaz, Ursula K. Le Guin, China Miéville, Margaret Atwood, Karen Russell, William Gibson e Jennifer Egan. A capa ficou por conta de Daniel Clowes. Egan conversou com Deborah Treisman, editora de ficção da revista, sobre o conto que está publicando e suas experiências com o twitter. A conversa está disponível em áudio (em inglês) nesse link.

* Imagem: reprodução do Google.

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segunda-feira, 11 de abril de 2011

TWITTERATURA EXPERIMENTAL


Desde que surgiu, o Twitter tem servido como um grande laboratório para várias experiências literárias. Muitos escritores usam o serviço para criar micro-histórias tristes, engraçadas, curtas, longas, de todo o jeito. Não sei se a ferramenta resultou frutífera para o negócio, mas tem gente tentando fazer a sua parte e experimentando sem saber direito aonde a coisa vai dar.

É o caso do escritor americano John Wray, autor do livro Afluentes do rio silencioso - que saiu pela Companhia das Letras. Fiquei sabendo esses dias que Wray mantém uma conta no Twitter e está criando uma história sem nome com uma personagem chamada Citizen. O negócio todo começou depois que ele recebeu um conselho do seu editor: "abra uma conta no Facebook e no Twitter". Ele obedeceu prontamente, mas logo ficou cansado de ver apenas links e vídeos do Youtube. Então decidiu usar o Twitter para criar algum projeto de ficção. Citizen era uma personagem que tinha sido cortada do romance Afluentes do rio silencioso e servia perfeitamente para colocar a ideia em funcionamento.

Uma rápida olhada no experimento deixa a sensação de que o formato da história é bem solto. Não pretende ser um romance, um conto ou uma narrativa clássica. Cada tweet é auto-suficiente, contém duas ou três sentenças e faz a história avançar. Tudo é tão aberto e indefinido que Citizen pode tomar qualquer rumo. Wray disse que não pensou num final determinado, a experiência pode acabar a qualquer momento ou pode durar muito. As atualizações também não são frequentes, às vezes Wray fica meses sem escrever.

O que é bem curioso na experiência é o fato do escritor saber exatamente tudo aquilo que ele não quer. Ele tem plena consciência de que o Twitter é um meio que exige um gênero de escrita distinto do que existe e luta para fazer isso valer.

Seguindo outra linha, acho que a experiência mais frutífera envolvendo o Twitter foi aquela que rendeu um livro de sucesso no mundo anglófono: Twitterature. Alexander Aciman e Emmett Rensin usavam os famigerados 140 caracteres para transformar grandes clássicos da literatura em versões resumidas e bem humoradas de até vinte tweets ou menos. Acredite, tem até Anna Karenina, de Liev Tolstói.

Pegamos carona na ideia e também fizemos o nosso Clássicos da Twitteratura Brasileira - se não me engano os livros estão esgotados pois faziam parte de um projeto especial.

Justin Halpern também foi outro caso que começou escrevendo no Twitter e acabou publicando um livro chamado Meu pai fala cada m*rda. O rapaz registrou no Twitter algumas pérolas da sabedoria popular proferidas pelo pai. Depois de um tempo, Halpern reuniu o material num livro contando a história dele e da sua relação com o pai.

Alguém mais se lembra de boas experiências literárias no Twitter?

*imagem: reprodução.
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