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terça-feira, 5 de julho de 2011

UMA HISTÓRIA DE AMOR REAL E SUPERTRISTE

Mais um livro dos jovens escritores americanos apontados pela revista New Yorker chega às livrarias brasileiras. Uma historia de amor real e supertriste, de Gary Shteyngart tem lançamento previsto para o dia 16/07. Ele será publicado pela editora Rocco com tradução de Antônio E. de Moura Filho. É o segundo livro de autoria de Gary Shteyngart a sair pela editora Rocco - o primeiro foi Absurdistão.

Uma história de amor real... teve uma boa trajetória no circuito anglófono. Ele foi publicado um mês após o nome de Shteyngart aparecer na lista da New Yorker. Para promover o livro em edição de capa dura, a editora americana colocou na internet um trailer com a participação muito bem humorada do próprio Shteyngart e do ator James Franco. O trailer é hilário e ganhou dois prêmios no Moby Awards - um prêmio independente para os melhores e piores book trailers americanos. Uma história de amor real... faturou o prêmio nas categorias: melhor trailer com celebridade (James Franco) e Grande prêmio do júri - estamos te dando esse prêmio pois do contrário você iria ganhar muitos outros (o prêmio tem esse nome longo mesmo). No final do ano passado, o livro apareceu quase por unanimidade em todas as listas de melhores livros do ano.

Em maio desse ano, Shteyngart ganhou um prêmio britânico concedido exclusivamente para romances cômicos/engraçados - The Bollinger Everyman Wodehouse Prize. O prêmio existe desde 2000 e foi a primeira vez que um autor americano foi ganhador. Antes dele, somente britânicos do porte de Will Self, Jonathan Coe, Howard Jacobson e Ian McEwan com Solar.

Aproveitando a boa maré, um novo trailer apareceu na internet para lançar e promover a edição em brochura de Uma história de amor real... Dessa vez, além de Shteyngart o trailer é estrelado pelo ator Paul Giamatti.

O livro conta a história de Lenny Abramov, um russo-americano de 39 anos de idade obcecado por três coisas: seus livros, a ideia de ter uma vida eterna e uma garota coreano-americana chamada Eunice Park. O relacionamento multicultural dos dois é a história de amor super triste. O romance tem um formato bastante curioso, pois os capítulos se alternam: ou são os diários de Lenny ou são a correspondência online de Eunice.

A editora Rocco, gentilmente, adiantou um trecho do livro.

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*imagem: divulgação.
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sábado, 11 de dezembro de 2010

PERGUNTAS PARA RICARDO LÍSIAS


Qual foi o primeiro livro que você leu e que teve impacto sobre você?
Não consigo me lembrar exatamente. Posso dizer com certeza que Ulisses é o livro que mais me impactou até aqui. Acho que terei essa sensação para sempre.

Alguma vez você considerou a hipótese de não ser escritor?
Não sei se é possível falar em "hipótese". Escrever não é a minha única atividade, obviamente. É a maneira que utilizo para expressar determinadas coisas, do jeito que eu acho o mais adequado. É a minha atividade mais importante, sem dúvida, mas eu não a trataria como algo inevitável, para não torná-la pessoal demais - mais ainda do que já é.

Na sua opinião, todas as histórias já foram escritas ou ainda é possível criar novas histórias? Há novas formas de contar histórias?
Não creio que a ênfase na "história" (compreendendo-a como "enredo") seja a mais adequada para o atual estágio da literatura. Talvez essa ênfase seja ela própria a única possibilidade de fazer uma pergunta como essa, já que ela embute uma finitude que corta quase tudo o que a literatura significa para o autor e a sociedade. Assim, para responder o que fica insinuado: a literatura só vai acabar quando a gente acabar também.

No que você está trabalhando agora?
Não gosto de dizer.

Quem são os seus escritores favoritos com mais de quarenta anos?
Li há uns meses os livros do Javier Marías e fiquei impressionado. Também gosto do Emmanuel Carrère e do Michel Houllebecq. Procuro sempre acompanhar também os textos do Ricardo Piglia e do J.M. Coetzee. Embora eu ache a produção norte-americana em prosa hoje em dia muito decepcionante, gosto dos livros do David Foster Wallace e sempre me divirto com Thomas Pynchon.

*imagem: reprodução.


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sexta-feira, 1 de outubro de 2010

JOVENS ESCRITORES DE LÍNGUA ESPANHOLA

A revista Granta Espanha anunciou hoje o nome dos escritores que estarão na edição especial "Os melhores jovens escritores da língua espanhola". Seguindo o modelo de outras listas elaboradas pela Granta inglesa, os editores selecionaram 22 jovens escritores - todos com menos de 40 anos. Na lista oito escritores são da Argentina e seis são da Espanha, os demais são do México, Colombia, Peru, Chile, Bolívia e Uruguai - apenas cinco mulheres. A maioria dos escritores também não mora no país onde nasceu.

De olho no mercado internacional, a edição também terá uma versão em inglês mas os contos serão diferentes da versão espanhola. No Brasil apenas dois escritores já foram publicados: "O menino peixe", da argentina Lucia Puenzo (editora Gryphus) e "Abril vermelho", do peruano Santiago Roncagliolo (editora Alfaguara). Tomara que essa lista estimule a chegada desses escritores por aqui.

A lista dos escritores:

Andrés Barba, nascido na Espanha - 1975; Oliveiro Coelho, nascido na Argentina - 1977; Federico Falco, nascido na Argentina - 1977; Pablo Gutiérrez, nascido na Espanha - 1978; Rodrigo Hasbún, nascido na Bolivia - 1981; Sonia Hernández, nascida na Espanha - 1976; Carlos Labbé, nascido no Chile - 1977; Javier Montes, nascido na Espanha - 1976; Elvira Navarro, nascida na Espanha - 1978; Matías Néspolo, nascido na Argentina - 1975; Andrés Neuman, nascido na Argentina - 1977; Alberto Olmos, nascido na Espanha - 1975; Pola Oloixarac, nascida na Argentina - 1977; Antonio Ortuño, nascido no México - 1976; Patricio Pron, nascido na Argentina - 1975; Lucía Puenzo, nascida na Argentina - 1976; Andrés Ressia Colino, nascido no Uruguai - 1977; Santiago Roncagliolo, nascido no Peru - 1975; Samanta Schweblin, nascida na Argentina - 1978; Andrés Felipe Solano, nascido na Colombia - 1977; Carlos Yushimito, nascido no Peru - 1977; Alejandro Zambra, nascido no Chile - 1975.

*imagem: reprodução.
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terça-feira, 21 de setembro de 2010

SOBRE AS PERGUNTAS...

Estou encerrando hoje a série de perguntas com os 20 escritores que compõe a lista que organizei no começo de Agosto. A série deveria terminar na próxima quinta-feira, mas infelizmente não consegui retorno de quatro escritores. Uma pena! As pequenas entrevistas ficam incompletas, mas caso eu receba alguma retorno nesse meio tempo aviso vocês.

Valeu a atenção e a participação de todo mundo.
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sexta-feira, 17 de setembro de 2010

VERÔNICA STIGGER


Qual foi o primeiro livro que você leu e que teve impacto sobre você?
Quando ainda não sabia ler, ouvia LPs coloridos que contavam historinhas. Creio que, antes de qualquer livro, a historinha que mais teve impacto sobre mim foi A formiguinha e a neve. A formiguinha estava com o pé preso na neve e ela rogava ao sol: “Ó, sol, tu que és tão forte, derrete a neve que prende o meu pezinho”. E o sol respondia: “Mais forte do que eu é o muro que me tapa”. A formiguinha então pedia ajuda ao muro: “Ó, muro, tu que és tão forte, que tapa o sol, que derrete a neve, desprende o meu pezinho”. E o muro dizia que o rato era mais forte que ele porque o roía. Assim a formiguinha prosseguia pedindo ajuda àqueles que eram considerados os mais fortes e todos se recusavam a ajudá-la. Eu adorava a estrutura repetitiva da história e, ao mesmo tempo, ficava muito aflita com o drama da formiguinha. Engraçado que nunca me interessou o final redentor, em que Deus a salva, mas, sim, as reiteradas súplicas da formiguinha. Aliás, até responder a esta sua pergunta, tinha me esquecido completamente do final da história, só me lembrava da angústia da formiguinha. Foi o Google (já que não tenho mais os discos) que me ajudou a relembrá-la. Acrescento apenas que acho que algo dessa estrutura repetitiva aparece em meus primeiros contos, sobretudo do primeiro livro, O trágico e outras comédias.

Alguma vez você considerou a hipótese de não ser escritora?
Sim. Na verdade, talvez nunca tenha considerado a hipótese de ser escritora.

Na sua opinião, todas as histórias já foram escritas ou ainda é possível criar novas histórias? Há novas formas de contar histórias?
Creio que é sempre possível inventar novas formas de contar velhas histórias. Esse é, aliás, o grande desafio do escritor.

No que você está trabalhando agora?
Estou trabalhando em dois livros. Um deles será um livro de contos e se chamará Sul. Será composto de três textos mais longos – bem ao contrário dos contos curtos do meu último livro, Os anões. O outro será uma novela e se chamará Opisanie swiata, que quer dizer “descrição do mundo” e é como se traduz Il Milione, o livro de viagens de Marco Polo, para o polonês. É justamente como uma espécie de relato de viagens que essa novela deverá se constituir. A idéia é acompanhar o deslocamento do protagonista, Opalka, um cinqüentão, desde a Polônia até a floresta amazônica. Em sua terra natal, ele recebe uma carta por meio da qual descobre que tem um filho em Manaus e que este está muito doente. Daí a necessidade de voltar à Amazônia. Foi com o projeto para este livro que fui contemplada no Programa Petrobras Cultural deste ano.

Quem são os seus escritores favoritos com mais de quarenta anos?
Vale morto recente? Se sim, Roberto Bolaño.

*ilustração: Nathalia Lippo.

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quinta-feira, 16 de setembro de 2010

CARLOS DE BRITO E MELLO


Qual foi o primeiro livro que você leu e que teve impacto sobre você?
Não consigo me lembrar com clareza do meu primeiro livro. Na infância, quando eu ainda não sabia ler, minha mãe lia para mim. Então, algumas obras que ela escolhia passaram a ser, à medida que eu aprendia a ler, as minhas obras de referência. A escola também foi decisiva nisso. Na lista das primeiras leituras estavam: Flicts, do Ziraldo; a saga do Picapau Amarelo, do Monteiro Lobato (na escola, sobretudo, onde o estudo da obra foi empregado com muita sensibilidade no próprio processo de alfabetização); e O pequeno Nicolau, de Sempé e Goscinny (que era uma leitura da minha mãe). Acho que esse primeiro contato com a leitura foi marcantemente amoroso para mim e, com isso, estabeleceu uma relação entre a experiência da palavra e a experiência afetiva que, hoje, percebo em meu trabalho. Mais tarde, na pré-adolescência, tive contato com outra obra incrível: O gênio do crime, de João Carlos Marinho. Daí vieram, do mesmo autor, Sangue Fresco, Caneco de Prata e mais..., vinculando, de maneira decisiva para mim, narrativa e aventura.

Alguma vez você considerou a hipótese de não ser escritor?
Eu tenho outras atividades além da literária: sou professor universitário, tenho diploma de jornalista, desenvolvo atividades relacionadas às artes plásticas (sobretudo com pintura e desenho) e faço formação psicanalítica. Nada disso se opõe à escrita, nada disso a neutraliza – embora haja sempre uma disputa pelo tempo. Acho que, por um lado, ser escritor é uma construção difícil, improvável, sem certificação, sem diploma, sem comprovação de endereço. Então, ser escritor significa ser também algo que carece de materialidade, de objetividade, de certeza. É uma estranha forma, digamos... de não ser. Por outro lado, acho que, depois de ter me dado conta desse desejo, do desejo de escrever, se eu não escrevesse, ainda assim seria um escritor, um escritor sem obra talvez... (risos). Depois que você aceita a escrita, como se aceita algum tipo de maldição, não tem retorno. Ainda que você não escreva, vai continuar amaldiçoado.

Na sua opinião, todas as histórias já foram escritas ou ainda é possível criar novas histórias? Há novas formas de contar histórias?
Acho que é sempre possível contar outras histórias, não necessariamente novas. Os enredos de Rei Lear e Hamlet, por exemplo, já existiam antes que Shakespeare os transformasse em obras-primas. Talvez porque a questão resida mesmo na produção de um modo singular para a palavra, e esse modo é formulado na tensão do espírito com o seu tempo. Não há como prevê-lo. A própria noção de quem somos configura-se como uma pequena e ordinária narrativa que nos localiza no mundo. A literatura tanto pode atuar tanto nesse processo de localização quanto de retirada: aí o mundo não se torna nem melhor nem pior; torna-se apenas um outro mundo que foi aberto pela palavra.

No que você está trabalhando agora?
Estou trabalhando no próximo romance. O projeto foi selecionado pela Bolsa Funarte de Literatura, então, devo ter seis meses para realizá-lo. Estou enfrentando aquelas jornadas longas de trabalho em que passo mais tempo tateando do que compreendendo. Prefiro reservar minhas manhãs para isso, para que a escrita não seja muito afetada pelo resto do dia.

Quem são os seus escritores favoritos com mais de quarenta anos?
Dentre tantos, vou citar três potentes referências para mim: Bernardo Carvalho, Luiz Ruffato e Lourenço Mutarelli.

*ilustração: Nathalia Lippo.

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terça-feira, 14 de setembro de 2010

DANIEL GALERA

Qual foi o primeiro livro que você leu e que teve impacto sobre você?
Difícil responder isso sem definir o que é impacto, mas pra não fugir da pergunta eu diria que os contos do Edgar Allan Poe foram impactantes pra mim, quando os li na adolescência. A força daqueles mundos fantásticos e assustadores me marcou muito.

Alguma vez você considerou a hipótese de não ser escritor?
Centenas de vezes. A última foi ontem.

Na sua opinião, todas as histórias já foram escritas ou ainda é possível criar novas histórias? Há novas formas de contar histórias?
É possível criar novas histórias e há novas formas de contar as mesmas histórias. E mesmo que não houvesse, a literatura seguiria relevante, porque a experiência de uma mesma história precisa ser repetida e renovada ao longo do tempo.

No que você está trabalhando agora?
Num novo romance.

Quem são os seus escritores favoritos com mais de quarenta anos?
Não sei a idade de quase nenhum escritor que aprecio, portanto vou escolher alguns claramente idosos, pra não correr o risco de falhar no critério: Cormac McCarthy, Philip Roth, Sérgio Sant'Anna, Javier Marías.

*ilustração: Nathalia Lippo.

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ANDRÉ LAURENTINO


Qual foi o primeiro livro que você leu e que teve impacto sobre você?
Não lembro exatamente qual foi o primeiríssimo. Mas lembro de alguns que, por motivos diversos, marcaram. Ed Mort e outras histórias, lido na sexta série do Colégio de São Bento. Indicação de um amigo, Edvaldo. Até ali eu nunca tinha imaginado que livros pudessem ser engraçados. Lembro de interromper a leitura para gargalhar. Luis Fernando Verissimo é um grande formador de leitores. Este aqui, por exemplo. O fator humano, de Graham Greene. Pelo lado oposto. Trouxe um tema sério, analisado num curso de inglês, em Olinda, que marcou minha relação com os livros. A Penguin e a literatura inglesa foram portas importantes para mim. O padre irlandês Frank Murphy, que ministrava o curso, fez uma análise detalhada da história deste romance Graham Greene é até hoje um dos meus favoritos. Bliss and other stories, da neozelandesa Katherine Mansfield. Delicadeza, fluxo de consciência, epifania, monólogo interior, contos aparentemente sem grandes reviravoltas nos enredos. Li tudo dela depois. E Gilvan Lemos. Um pernambucano pouco divulgado, mas de grande valor. Li no colégio, para formação, seu O anjo do quarto dia. Fiquei tão encantado com um personagem (intelectual de interior, que escrevia artigos para lá de empolados - muito divertido) que passei a escrever artigos para mim mesmo com o mesmo estilo, só para continuar me divertindo com aquilo depois que o livro acabou.

Alguma vez você considerou a hipótese de não ser escritor?
Claro que sim. Claro que não.

Na sua opinião, todas as histórias já foram escritas ou ainda é possível criar novas histórias? Há novas formas de contar histórias?
Todas as histórias não foram contadas. Mas todos os temas já foram abordados. Mas isso não é má notícia ou problema. Um poema de amor não invalida todos os outros que ainda estão por vir ou que já foram. E há novas formas de contar histórias. Independentemente da mídia que se escolhe. Há maneiras mais tradicionais (com começo, meio e fim bem definidos) e outras mais variadas (final inconclusivo, experiências no limite da estrutura, contar de trás para frente, etc). Às vezes a maneira de se contar uma história vale mais, prende mais, do que a própria história em si. Por exemplo, há pessoas que contam uma ida banal ao supermercado de um modo que você morre de rir e todo mundo pára no cafezinho da firma para ouvir. E há pessoas que contam a morte do pai, por exemplo, de um modo tão chato que ninguém suporta ouvir. Saber contar uma história exige um tipo específico de talento.

No que você está trabalhando agora?
Se eu contar, a mágica evapora. Pode parecer dessas superstições bobas, mas que las hay las hay.

Quem são os seus escritores favoritos com mais de quarenta anos?
Já dei pistas na primeira resposta. Mas aqui vão mais alguns. Não em ordem de preferência: Graham Greene, Katherine Mansfield, Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa, Philip Roth, Milton Hatoum, Jorge Amado, Guimarães Rosa, Antonio Maria, Rubem Braga e Viva o Povo Brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro. De poesia (tenho que colocar os poetas aqui): João Cabral, Manuel Bandeira, Ferreira Gullar, Fernando Pessoa.

*ilustração: Nathalia Lippo.

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sexta-feira, 10 de setembro de 2010

LÍVIA SGANZERLA JAPPE


Qual foi o primeiro livro que você leu e que teve impacto sobre você?
Há um livro que me acompanha há muito tempo e que sempre me mobiliza de um modo especial: "Um Copo de Cólera". A escrita de Raduan Nassar é primorosa e nada tem a ver com modismos. É sublime o modo como ele faz as palavras se abrirem, depurando o sentido genuíno de cada uma delas. A relação que se estabelece entre um leitor e um livro é muito pessoal e sempre inesperada, de modo que muitos livros dialogaram comigo em instâncias profundas. Cresci lendo os clássicos, gosto muito dos russos e dos japoneses, mas o que verdadeiramente me interessa é Literatura genuína, portentosa, que não se mede pela construção inofensiva.

Alguma vez você considerou a hipótese de não ser escritora?
Muito mais importante do que escrever é ler. Sou uma leitora apaixonada desde a infância e este amor pelas palavras e pelas histórias vem comigo desde sempre. Escrevinho desde criança, mas nunca tive a pretensão de monitorar o que poderia vir a ser a condição de escritora porque minha relação com as palavras é de boniteza. Implica amor. Eu apenas me curvo à necessidade visceral de estar entre as palavras porque me movo na essência do imaginário.

Na sua opinião, todas as histórias já foram escritas ou ainda é possível criar novas histórias? Há novas formas de contar histórias?
Acho uma enorme pretensão de minha parte afirmar que todas as histórias já foram escritas. Demócrito dizia que há uma infinidade de mundos, entre os quais alguns são não apenas parecidos, mas perfeitamente iguais. O mesmo vale para as histórias: o imaginário é um espaço mágico, riquíssimo, e a mesma história é infinita, variável de acordo com a imaginação de quem a tece. Hoje, como em qualquer tempo, há Literatura de boa e de má qualidade. Me parece que, atualmente, estabeleceu-se um certo modo de se "escrever à moderna", com o predomínio de uma técnica que não admite conciliação entre a artesania da linguagem e um senso crítico aguçado. Uma boa história, para mim, aproxima-se do gênio simples e perturbador, do ponto de vista da reflexão, de Tolstoi. Admiro muitíssimo os paradoxos nas histórias tolstoianas, nas quais os conflitos são expostos, mas não nos são dadas soluções perfeitas para resolvê-los. Gosto do que não se quer pretender perfeito. O importante é que haja inteireza.

No que você está trabalhando agora?
Creio que literatura não se faz no tempo do relógio, mas no tempo das costuras. Tenho uma relação respeitosa com as palavras, de modo que, quando se quiserem dizer, virão à tona, e eu lhes darei passagem. Nós, os "modernos", não temos mais a confiança na elaboração das coisas silenciosas, na presença muda das coisas, mas eu creio nelas, eu creio no aprendizado e no amadurecimento, e minha artesania é toda ela à moda antiga.
Por ora, vou publicar, na companhia do impecável gênio de Odilon Moraes, ilustrador paulista, um conto na revista "BRAVO!", e, em alguns dias, parto para o Reino Unido, onde farei Mestrado em Política Internacional. Creio que um período entre os livros, para estudar, e observar as coisas do mundo, enriquecerá a alma e minha relação com as palavras. Há muito para eu aprender, é longa a jornada em busca das coisas simples. São as coisas simples que nos levam às coisas mágicas.

Quem são os seus escritores favoritos com mais de quarenta anos?
Tolstoi é absoluto em sua capacidade de colocar minha alma em estado de perturbação. Aprendo, também, intimamente lições preciosas com Marguerite Duras e Gaston Bachelard, e saio encharcada da difícil missão humana de conviver com as luzes e as sombras da psique. Raduan Nassar, Lygia Fagundes Telles, Milton Hatoum, Fernando Pessoa e Clarice Lispector me acompanham há anos, e, com eles, cada vez mais, entendo que o tempo das palavras é irmão do naufrágio da instrospecção. Nenhuma mágica se mostra tão poderosa quanto um bom livro.

*ilustração: Nathália Lippo.
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quinta-feira, 9 de setembro de 2010

ESTEVÃO AZEVEDO


Qual foi o primeiro livro que você leu e que teve impacto sobre você?
Sendo injusto com muitos outros livros, eu destacaria dois. O primeiro é dos poucos que li quando era muito pequeno e de que me lembro até hoje: "Marcelo, marmelo, martelo", da Ruth Rocha. Nele, um garoto que não se conforma com os nomes das coisas decide inventar outros que considera melhores, normalmente relacionados ao uso. É curioso que (claro que só dá para pensar nisso hoje, na época era só uma história divertida) a autora trate de algo que tem muito a ver com o ofício da literatura, não? Renomear tudo que há é uma forma de criar ficção.

O segundo livro marcante é um épico que li por volta dos dez, onze anos: "Xogum". É um best-seller dos anos 70, que conta a chegada dos primeiros jesuítas ao Japão feudal. Nunca mais voltei ao livro, então não sei se ele ainda se sustenta na estante - o que é, aliás, um bom motivo para não voltar jamais: manter intacta a nostalgia. O fato é que naquela época era impossível largar a aventura do capitão inglês que ascende na rígida hierarquia dos samurais e conhece a cultura tradicional japonesa, enquanto se envolve na luta pelo poder. Que alegria o livro ter centenas e centenas de páginas e preencher muitas tardes tediosas.

Alguma vez você considerou a hipótese de não ser escritor?
Até publicar o primeiro livro, eu nunca havia considerado a hipótese de ser escritor, apenas escrevia bastante sem pensar no que faria com tudo aquilo. Depois, a dúvida mudou de aspecto. Passou a ter a ver com a dificuldade de definir o que é exatamente ser escritor. Se, por ter escrito e publicado dois livros, eu tiver ganho a alcunha, independentemente do que eu venha a fazer daqui por diante, aí a questão está resolvida: sou escritor e ponto. Mas não me sinto confortável com a ideia. Quando fico um período longo sem escrever ficção, aceito com mais dificuldade a denominação, e aí considero a hipótese de ter deixado de ser escritor. Como a gestação de um livro normalmente é bem longa, no meu caso, não é raro esse conflito me assombrar. O bom é que, como escrever é das poucas coisas que considero saber fazer minimamente bem (com exceção de não fazer nada, no que sou um mestre), essa angústia acaba por me obrigar a lutar com aindisciplina e seguir produzindo.

Na sua opinião, todas as histórias já foram escritas ou ainda é possível criar novas histórias? Há novas formas de contar histórias?
Sempre será possível contar novas histórias. Isso porque na literatura (ou em qualquer outra arte que se serve da narrativa) o importante é de que forma se conta o que se conta. Então o número de combinações se torna infinito. Com o mesmo material, com exatamente a mesma trama, o mesmo mote, os mesmos personagens, artistas diferentes fazem histórias absolutamente novas. Há inúmeros exemplos disso. A história de Fedra foi contada no teatro por Euripides, Sêneca e Racine, cada um a seu modo. Além disso, mudam os tempos, novas histórias aparecem, novas formas são inventadas. A tecnologia, por exemplo, alimenta as maneiras de contar histórias. O cinema é uma forma de contar histórias que tem pouco mais de 100 anos. A internet fornece novas formas. E assim por diante.

No que você está trabalhando agora?
Além do meu trabalho regular como editor, estou escrevendo um romance.

Quem são os seus escritores favoritos com mais de quarenta anos?
Vou citar os que me vêm a memória agora e que considero bons, sem pensar muito em se são os favoritos. Dos brasileiros, gosto muito do trabalho do Rodrigo Lacerda, do Alberto Mussa, do Reinaldo Moraes, do Luiz Ruffato. Dos estrangeiros, gosto do Phillip Roth, do Lobo Antunes, do Vila-Matas. Agora, favorito mesmo, o que mais li, já está morto: é o Jorge Luis Borges.

*ilustração: Nathalia Lippo.

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terça-feira, 7 de setembro de 2010

MICHEL LAUB


Qual foi o primeiro livro que você leu e que teve impacto sobre você?
Não lembro do primeiro, exatamente (talvez a história do Patinho Feio). A primeira leitura de impacto que tive foram os gibis de terror da editora Vecchi (Pesadelo, Spektro, Sobrenatural).

Alguma vez você considerou a hipótese de não ser escritor?
Só pensei em ser escritor depois dos 20 (acho que foi aos 22, especificamente). Quando criança eu sonhava em ser músico/astro pop.

Na sua opinião, todas as histórias já foram escritas ou ainda é possível criar novas histórias? Há novas formas de contar histórias?
Os temas já foram todos tratados (nem são muitos, na verdade). Mas histórias são inesgotáveis, porque dependem muito mais de como se conta do que daquilo que se conta. Nesse sentido, uma é sempre diferente da outra.

No que você está trabalhando agora?
Um romance.

Quem são os seus escritores favoritos com mais de quarenta anos?
Dos vivos, J.M.Coetzee e Philip Roth (ambos pela obra como um todo). Tem outros de que gosto igualmente, só que por causa de um livro específico.

*Ilustração: Nathalia Lippo.

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EDUARDO BASZCZYN


Qual foi o primeiro livro que você leu e que teve impacto sobre você?
Quando procuro na memória o que me trouxe o hábito da leitura, não encontro apenas um livro, mas uma coleção: a série Vaga-Lume, lançada pela Editora Ática nos anos 80. Foram as histórias de autores como Marcos Rey, Marçal Aquino e Luiz Puntel que povoaram minha imaginação e me fizeram companhia por muitas tardes da infância, despertando um vício alimentado até hoje. Mas os livros que mais me impactaram, os que me provocaram ao mesmo tempo angústia e fascínio, foram lidos na adolescência. No difícil exercício de escolher apenas um, destaco "Os Dragões Não Conhecem o Paraíso", de Caio Fernando Abreu. Nele estavam toda a melancolia e a solidão que marcam fases da juventude, em uma linguagem poética, sensível e ao mesmo tempo esquizofrênica. Foram os personagens frágeis e seus amores imperfeitos que me fizeram descobrir logo cedo a instabilidade do mundo e das relações. Não tenho dúvidas de que o efeito provocado por esse, e por todos os outros livros do autor devorados a partir dali, foi decisivo para que eu optasse também pela escrita anos depois.

Alguma vez você considerou a hipótese de não ser escritor?
Na realidade, nunca pensei em ser escritor - pelo menos de forma racional. Não acreditava que a atividade pudesse ser uma profissão como as tradicionais, e escolhi o Jornalismo como o caminho mais prático e seguro para garantir a sobrevivência fazendo algo mais próximo do que eu realmente gostaria de fazer. Mas ter trabalhado em redações e como repórter por mais de dez anos me ensinou, na verdade, como não escrever ficção. São atividades distantes e até contrárias, eu diria. Mas a Literatura sempre esteve por perto, me provocando como as piores tentações, e fazendo com que eu me rendesse. Quando percebi que escrever era uma necessidade, algo essencial para a minha vida, e que aquilo que eu produzia não deveria ficar apenas no escuro das gavetas, decidi me dedicar ao primeiro romance. Desamores foi lançado em 2007 pela Editora 7Letras (e está esgotado atualmente). Escrever o livro de estreia foi descobrir um outro vício além da leitura. Este, bem mais perigoso e sem tratamento. Nada me atrai mais hoje em dia do que a ideia de criar. De trazer ao mundo algo que antes não existia.

Na sua opinião, todas as histórias já foram escritas ou ainda é possível criar novas histórias? Há novas formas de contar histórias?
Há muitas histórias para ser contadas. O que não há são sentimentos inéditos. Todos os que existem e conhecemos já serviram de ingredientes para os livros. Todas as vidas são feitas dos mesmos e imagino que não exista uma única sensação que já não tenha sido descrita ou vivenciada pelos milhares de personagens criados por autores até hoje. Mas cada pessoa enxerga o mundo de uma maneira, e um mesmo episódio ou acontecimento pode ser interpretado de infinitas formas. Há muitos dramas e temas subjetivos a ser explorados ainda. O grande desafio do escritor é criar uma voz própria e segui-la no meio da gritaria.

No que você está trabalhando agora?
Depois da publicação de Desamores, em 2007, me dediquei por um ano e meio ao Núcleo de Dramaturgia do Sesi/British Council, um projeto de formação de novos dramaturgos. Com isso, a ideia e as anotações para o segundo livro ficaram temporariamente guardadas. As atividades com o núcleo resultaram no meu primeiro texto para o teatro, com os direitos para possível montagem cedidos ao Sesi. Em abril deste ano, comecei a escrever o segundo romance. E é nele que trabalho atualmente.

Quem são os seus escritores favoritos com mais de quarenta anos?
Listas de preferidos nunca são definitivas, sempre mudam; mas atualmente meus favoritos, com mais de 40 são: Ian McEwan, Michael Cunningham, Jonathan Coe, Lionel Shriver, Herta Müller e Philip Roth.

*Ilustração: Nathalia Lippo.

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sexta-feira, 3 de setembro de 2010

TIAGO NOVAES


Qual foi o primeiro livro que você leu e que teve impacto sobre você?
Foi Viagem ao Centro da Terra, de Julio Verne. Eu tinha sete anos, e passei um bom tempo neste processo, explorando as ilustrações com uma imaginação e um entusiasmo incontidos, e tentando decifrar um universo de diálogos e ideias complicados para a minha imaturidade, mas cujo poder já antevia.

Alguma vez você considerou a hipótese de não ser escritor?
Em alguns momentos, durante a faculdade de Psicologia, eu me esquecia de que era um escritor. Foi o único período, pois estava muito ocupado com outras coisas. Tornar-me escritor não foi particularmente uma decisão, contudo. É uma condição que atravessa os acontecimentos da vida, e é claro que se deixa afetar pelas experiências, mas que persiste, quando nada mais persiste. Mas o bom de ser um escritor é que se pode fazer o que quiser, também: eu posso fazer cinema, posso ser psicanalista, posso viajar, dar aulas de filosofia. Deste modo, é uma condição de grande liberdade.

Na sua opinião, todas as histórias já foram escritas ou ainda é possível criar novas histórias? Há novas formas de contar histórias?
Há muitas outras formas de contar histórias que ainda não foram exploradas, e há muitas outras formas de ouvir histórias. O século XX transformou nosso modo de ouvir e de contar histórias, e transformou também a própria essência do que seja uma história. Se assistimos hoje a um predomínio da simplificação das narrativas, que se voltam para uma linguagem publicitária, jornalística e cinematográfica, isto se dá em parte pela massificação, e em parte porque a literatura clássica (estou me referindo à literatura impressa, os romances, os contos, a poesia) perdeu grande parte de sua influência e de seu protagonismo. Mas ela, em relação aos outros gêneros, só vem se ampliando.

No que você está trabalhando agora?
Estou escrevendo um romance, intitulado “Documentário”, agora com o auxílio da Bolsa Funarte de criação literária, cujo resultado saiu há pouco mais de dez dias. É um livro que venho trabalhando há dois, três anos, desde pouco após a publicação de “Estado Vegetativo”.

Quem são os seus escritores favoritos com mais de quarenta anos?
Imagino que esteja perguntando dos vivos. Roberto Bolaño e Montalbán ainda estão bem vivos para mim. Juliano Garcia Pessanha, Enrique Vila-Matas, Moacyr Scliar (em Doutor Miragem). Lourenço Mutarelli (nos quadrinhos e em Jesus Kid), Paul Auster, J. M. Coetzee e Haruki Murakami.

*Ilustração: Nathalia Lippo.

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quinta-feira, 2 de setembro de 2010

MAURÍCIO DE ALMEIDA


Qual foi o primeiro livro que você leu e que teve impacto sobre você?
Não me lembro exatamente qual foi o primeiro livro que li, mas lembro de ficar às voltas no colégio com os livros do Pedro Bandeira, principalmente “A droga da obediência”. Nessa época eu não era muito dado a leituras, devo dizer. Só mais tarde, quando comecei a me interessar por literatura, tive o primeiro livro que me marcou: “Água Viva”, da Clarice Lispector. Ler Clarice é sempre uma experiência, mas a primeira leitura que fiz desse livro foi realmente impactante, pois estava escrito ali não o que eu sentia, mas como me sentia, isto é, numa busca que margeia um sentimento sem nunca alcançá-lo ou defini-lo.

Alguma vez você considerou a hipótese de não ser escritor?
É um pensamento que me assalta com alguma freqüência. Não raro passo por algumas crises de fé nas quais não consigo escrever sequer meu nome num pedaço de papel. Nesses momentos questiono a idéia de escrever histórias, mas logo me vem uma palavra, uma frase ou uma idéia qualquer, começo a rascunhar uma situação, um personagem, e lá estou eu escrevendo novamente. Não creio que seja uma designação divina, mas meu modo de me relacionar com as coisas.

Na sua opinião, todas as histórias já foram escritas ou ainda é possível criar novas histórias? Há novas formas de contar histórias?
Penso que tanto histórias como a forma de contá-las estão localizadas e em relação direta com seus contextos sócio-históricos, e estes estão em constante transformação. Ou seja, muito embora existam certas matrizes de histórias (um exemplo seria “Romeu e Julieta” como matriz de uma história de amor), acredito que há novas histórias e principalmente novas formas de contá-las. Aliás, penso que decorre disso o frescor da literatura quando temos um bom livro nas mãos.

No que você está trabalhando agora?
Estou trabalhando num romance que aos poucos vai ganhando corpo. Esse livro já teve inúmeros projetos, formas, personagens e afins, mas penso ter encontrado a forma e tom que estava procurando. Além disso, tenho trabalhado em alguns contos que acabam publicados aqui e ali (o último publicado foi ‘Sagrado Coração’, que está no livro “Como se não houvesse amanhã”, uma antologia de contos escritos a partir das músicas da Legião Urbana organizada pelo escritor Henrique Rodrigues).

Quem são os seus escritores favoritos com mais de quarenta anos?
Essa pergunta sempre tem inúmeras respostas, pois depende muito do que estou lendo no momento. Ultimamente tenho lido bastante poesia e, dentre eles, um dos meus favoritos é o Roberto Piva. Outro é o Ferreira Gullar do “Poema Sujo”.

*Ilustração: Nathalia Lippo.

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terça-feira, 31 de agosto de 2010

CECÍLIA GIANNETTI


Qual foi o primeiro livro que você leu e que teve impacto sobre você?
Os primeiros livros que li, escolhidos por mim mesma na biblioteca e que causaram impacto ainda na infância, foram todos da série escrita por Monteiro Lobato sobre o Sítio do Pica-Pau Amarelo. Na adolescência, Lolita, de Nabokov.

Alguma vez você considerou a hipótese de não ser escritora?
Eu achei, ainda na idade absurda em que dizem pra gente escolher uma "profissão" e passar no vestibular senão vamos morrer na miséria etc., que o lugar pra ser escritor era jornal porque grandes autores brasileiros e estrangeiros que eu admirava tinham tido sua passagem pelo jornalismo. Na faculdade de jornalismo o que eu menos fiz foi gostar e discutir jornalismo, até que apareceu uma matéria eletiva chamada jornalismo literário, que tratava de técnicas literárias aplicadas ao jornalismo por gente como Hunter S. Thompson, Tom Wolfe, Gay Talese, etc. e falava também de Machado de Assis, Lima Barreto... aí eu já estava escrevendo contos, ficção, sem o menor interesse em trabalhar numa redação de jornal. Aí já era tarde porque eu precisava trabalhar. Fui parar no Jornal do Brasil. Chegava em casa à noite e escrevia o primeiro romance. Durei um ano lá no jornal, pedi demissão. Voltei a jornal em 2007 escrevendo crônicas para a Folha de S. Paulo, longe da redação e sem qualquer compromisso com linguagem/foco jornalístico, crônica é crônica.

Na sua opinião, todas as histórias já foram escritas ou ainda é possível criar novas histórias? Há novas formas de contar histórias?
Sempre existem histórias novas a serem contadas e, entre os autores que valem a pena ser lidos, cada um deve ter seu jeito próprio de contar cada história sua.

No que você está trabalhando agora?
Um texto para TV e fazendo ajustes no romance que escrevi para a coleção Amores Expressos, sobre Berlim.

Quem são os seus escritores favoritos com mais de quarenta anos?
É uma lista que muda com alguma frequência. Hoje eu te digo: J. D. Salinger, Borges, Clarice Lispector (esta é um caso delicado; para ser lida hoje, é bom ignorar tudo o que já se escreveu sobre ela, sem contar também as imitações. Acho que quando um autor é imitado à exaustão e tão mal, corre-se o risco de pôr o povo a correr da obra original; a imitação, quando reverbera constantemente, monstruosamente, causa ojeriza mesmo ao seu original, incompreensão, desinteresse).

Pego muito velho e velha também. Jane Austen é um excelente lava-língua, exemplo de literatura cujos subprodutos deixam alguma gente com vergonha de citar, de dizer que lê com gosto. O Oscar Wilde de "De profundis", F. Scott Fitzgerald, e, nem tão velho, o Lobo Antunes.

Tenho uma lista mais atualizada de novas "conquistas", contemporâneos, mas ainda não sei se é namoro, então preferimos não divulgar nomes para não gerar fofoca.

*ilustração: Nathália Lippo.

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CAROLA SAAVEDRA


Qual foi o primeiro livro que você leu e que teve impacto sobre você?
Muito difícil responder essa pergunta, talvez tenha sido um livro do qual eu nem me lembro mais. Às vezes o impacto de um livro está pouco relacionado a ele ser bom ou ruim, a lembrarmos dele ou não, passa pelo inconsciente. Mas pensando naqueles que me marcaram como escritora, e que guiariam as minhas escolhas literárias, o primeiro foi com certeza, O jogo da amarelinha, de Cortázar.

Alguma vez você considerou a hipótese de não ser escritora?
Não, nunca. Ser escritora sempre esteve nos meus planos, desde que me entendo por gente. O que havia era um grande medo de não conseguir escrever, nesse caso, a escrita continuaria me acompanhando, como uma sombra, uma possibilidade.

Na sua opinião, todas as histórias já foram escritas ou ainda é possível criar novas histórias? Há novas formas de contar histórias?
É o que disse na Flip, a meu ver, todas as histórias já foram contadas. É muito difícil inovar nesse sentido. O espaço para o novo está na forma que escolhemos para contar essas mesmas histórias. Pensando nisso, as minhas escolhas narrativas: o modelo para armar em Toda terça, as cartas em Flores azuis, e as gravações em Paisagem com dromedário. A ideia básica é a de nunca subestimar o leitor, e ter nele uma espécie de co-autor, alguém necessário para que a história termine de se construir.

No que você está trabalhando agora?
Acabo de lançar o Paisagem com dromedário. Ainda estou muito presa a esse livro, ao discurso que criei a partir dele. Preciso de alguns meses, às vezes um ano ou mais, até conseguir o distanciamento necessário, e começar a pensar em novas ideias para o próximo romance.

Quem são os seus escritores favoritos com mais de quarenta anos?
Muitos, cito alguns: Roberto Bolaño, Juan José Saer, César Aira, Vila-Matas, Thomas Bernhard, W.G.Sebald. Dos brasileiros: Bernardo Carvalho, Sérgio Sant’Anna, Luiz Ruffato, João Gilberto Noll.

*Ilustração: Nathália Lippo.

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quinta-feira, 26 de agosto de 2010

VANESSA BÁRBARA


Qual foi o primeiro livro que você leu e que teve impacto sobre você?
Foi uma coletânea de contos dos Irmãos Grimm, uma série de livrinhos de bolso bem pequenos e com as letras minúsculas, que traziam histórias atrozes como a das irmãs "Olhinho, Doisolhinhos, Trêsolhinhos", que tinham cada qual a quantidade de globos oculares que apregoavam. Lembro de uns contos sobre uma moura demoníaca que ficava nua em cima de uma árvore segurando uma abóbora (?), do menino teimoso que morreu e seu bracinho ainda tentava sair da terra, e, enfim, de uns contos de fadas que envolviam salvar princesas mediante a execução de tarefas sem sentido, tipo matar uma cobra de três cabeças e pegar um ovo dentro do mar.

Alguma vez você considerou a hipótese de não ser escritora?
Claro! Eu quis ser caixa de supermercado (botões que abrem gavetas!!), secretária (adoro ordem alfabética), dançarina, astronauta, antropóloga, poeta e jogadora de vôlei. Entre outras coisas. Até hoje ainda finjo ser várias coisas, como tradutora, repórter, cronista e revisora de legendas de filmes em polonês.

Na sua opinião, todas as histórias já foram escritas ou ainda é possível criar novas histórias? Há novas formas de contar histórias?
A história sobre a menina que morreu de tanto beber água ainda não foi escrita. E a do homem que não tinha nuca (se bem que o Saramago...). Sempre há novas formas de contar histórias já conhecidas. A minha piada preferida, por exemplo, é a seguinte: "Era uma vez um porquinho que tinha uma perna só. Ele foi se coçar e caiu." Numa das mais recentes versões, o referido suíno foi tratar do eczema, encontra dificuldades no consultório por questões de carência do plano de saúde, resolve lutar pelos direitos dos deficientes, se apaixona por um quilo de presunto etc.

No que você está trabalhando agora?
Estou trabalhando numa graphic novel (HQ) chamada "A Máquina de Goldberg", em parceria com o Fido Nesti, que será publicada pela Companhia das Letras. Terminei um infantil chamado "Endrigo, o Escavador de Umbigos", em parceria com o Andrés Sandoval, que sairá pela editora 34. E, por fim, estou escrevendo um romance, em parceria comigo mesma, chamado "Noites de Alface".

Quem são os seus escritores favoritos com mais de quarenta anos?
Eles podem ter muito mais de 40 anos? Eu gosto de Gustave Flaubert, Jorge Luís Borges, Marcel Proust, Franz Kafka, Lewis Carroll, Lawrence Sterne, Júlio Cortázar, J.D. Salinger, Edgar Allan Poe; de Rubem Braga, de Carlos Drummond de Andrade, de Luis Fernando Verissimo, dos jornalistas literários (Michell, Talese), de HQ (Will Eisner, Fone Bone, Spiegelman).

*Ilustração: Nathália Lippo.
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CAROL BENSIMON


Qual foi o primeiro livro que você leu e que teve impacto sobre você?
"O último mamífero do Martinelli", do Marcos Rey.

Alguma vez você considerou a hipótese de não ser escritora?
Sim, claro. Fiz faculdade de publicidade, me formei, trabalhei na área. Por bastante tempo achei que escrever seria apenas uma atividade paralela.

Na sua opinião, todas as histórias já foram escritas ou ainda é possível criar novas histórias? Há novas formas de contar histórias?
Acho que muitos autores se preocupam demasiadamente com isso. Eu não sou esse tipo de autora. Quando escrevo, enfrento uma porção de dificuldades e uma porção de inseguranças, mas raramente penso coisas do tipo "essa história já foi escrita". Como leitora, nunca deixei de comprar um livro porque aquela trama me soava familiar. A maneira de contar é sempre diferente.

No que você está trabalhando agora?
Estou em um processo meio maluco, fazendo pesquisa histórica para uma graphic novel e tentando organizar a estrutura do próximo romance. Impossível saber qual vou desenvolver primeiro, ou se existe alguma possibilidade de trabalhar nos dois ao mesmo tempo. São coisas que pretendo descobrir nos próximos meses.

Quem são os seus escritores favoritos com mais de quarenta anos?
Vivo e com mais de quarenta anos, hm, acho que essa combinação de pré-requisitos elimina 80% dos meus escritores favoritos, mas vamos lá. Dos brasileiros, gosto bastante do Bernardo Carvalho. De fora: Ian McEwan e o quadrinista Daniel Clowes.

*ilustração: Nathália Lippo.
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terça-feira, 24 de agosto de 2010

ANDREA DEL FUEGO


Qual foi o primeiro livro que você leu e que teve impacto sobre você?
O primeiro livro impactante foi de Machado de Assis, no contexto da leitura obrigatória da escola. Quando me dei conta de que a "realidade" escrita era mentira, que um cara chamado Machado estava inventando as frases, as pessoas, os lugares, pirei. Depois percebi que também havia o possível junto à invenção, a verossimilhança no humor, no comportamento humano que Machado disseca em sua prosa. A literatura libera a invenção.

Alguma vez você considerou a hipótese de não ser escritor?
Sinto-me escritora, de fato, agora que publiquei o primeiro romance. Mesmo tendo publicado livros de contos e livros juvenis, o romance vem de um suor tão ardido, é muito trabalho, muita força de disciplina, força na peruca. Sempre escrevi, sem saber o que significava ser escritor. Eu escreveria mesmo sendo manicure, teria diários. A escritura independe da decisão de ser escritor.

Na sua opinião, todas as histórias já foram escritas ou ainda é possível criar novas histórias? Há novas formas de contar histórias? Um dia, numa Flip, ouvi o escritor português José Luis Peixoto falar sobre isso. Foi uma libertação, porque estava escrevendo justamente sobre um personagem, cujo perfil já havia sido muito explorado, que é o anão. Ele disse, na ocasião, que podemos falar sobre os mesmos temas com segurança, jamais as palavras serão repetidas. Anos depois, foi a ele que pedi que escrevesse a orelha do livro onde está o personagem anão. Faço minhas as palavras do José Luis Peixoto. Haverá sempre novas formas de se contar histórias, assim como há infinitas possibilidades numéricas.

No que você está trabalhando agora?
Estou trabalhando em um romance cujo tema já foi muito trabalhado, é praticamente um tema esgotado, no caso, o sonho. Estou fazendo pesquisa sobre o assunto, indo atrás dos gregos. Mas apesar da pesquisa, na hora da escrita o texto se torna imprevisível, é muito interessante, mas a pesquisa segue atrás, como um encosto. É uma espécie de proteção que dita ideias, mas na hora da reescrita pode desaparecer.

Quem são os seus escritores favoritos com mais de quarenta anos?
Vivo? Philip Roth e Enrique Vila-Matas.

*Ilustração: Nathalia Lippo.
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ANDRÉ DE LEONES


Qual foi o primeiro livro que você leu e que teve impacto sobre você?
Até os treze, catorze anos, li basicamente quadrinhos. O primeiro livro que li e me impactou, já ali pelos quinze anos, foi "O Aleph", de Jorge Luis Borges. Na mesma época, li "The Ghost Writer" (em uma edição do Círculo do Livro, traduzido como "Diário de uma Ilusão"), de Philip Roth. Acho que foram os dois primeiros livros que me impactaram para valer.

Alguma vez você considerou a hipótese de não ser escritor?
Quis ser cineasta, até prestei vestibular para cinema e, anos depois, fiz um curso bem fuleiro em Goiânia. Ao mesmo tempo, lia muito e, pelo menos desde os catorze, quinze anos, já rascunhava algumas coisas. Acho que começou a ficar claro para mim que eu queria mesmo era escrever livros ali pelos meus dezoito, dezenove anos, apesar de eu ter insistido ainda por um tempo com esse lance do cinema.

Na sua opinião, todas as histórias já foram escritas ou ainda é possível criar novas histórias? Há novas formas de contar histórias?
Quando não houver mais seres humanos vivendo por aí: este será o dia em que não haverá mais histórias para contar. Cada vivência é única. Logo, cada um tem uma maneira própria, intransferível, de expressar essa vivência. Em se tratando de literatura, sempre haverá novas formas de contar histórias. E não estou falando de vanguardismos ou coisas desse tipo, mas da relação que cada escritor estabelece com a tradição, com seus autores e livros prediletos e com sua própria vivência, e do que produz a partir daí.

No que você está trabalhando agora?
Desde maio do ano passado, trabalho em um novo romance. Parte dele se passa em Brasília, cidade em que vivi por três anos e de que gosto muito, e outra parte em Jerusalém, onde passei uma temporada de seis meses em 2009 e para onde pretendo voltar daqui a alguns anos. Também fui contratado para escrever uma peça teatral, mas ainda não sei como vou me organizar entre uma coisa (o romance) e outra (a peça). Espero não abortar as duas.

Quem são os seus escritores favoritos com mais de quarenta anos?
Thomas Pynchon, Adriana Lisboa, Aharon Appelfeld, Maira Parula, Philip Roth, António Lobo Antunes, Cormac McCarthy e muitos, muitos outros.

*Ilustração: Nathalia Lippo
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