terça-feira, 17 de agosto de 2010

CHARLES BUKOWSKI - 90 ANOS

A data não pode passar despercebida: ontem foi aniversário de Charles Bukowski. Se estivesse vivo, o velho safado estaria completando 90 anos. Infelizmente, ele faleceu de leucemia em 1994, aos 73 anos.

Bukowski nasceu na Alemanha, mas foi para os Estados Unidos quando menino. Passou a maior parte de sua vida em Los Angeles, cidade que lhe serviu de inspiração para compor sua obra. Quando adolescente enfrentou problemas com o pai violento e por causa de uma inflamação no rosto viveu meio solitariamente. Foi quando descobriu suas duas paixões: a literatura e o álcool. Parece que suas maiores influências foram Hemingway e Dostoiévski.

Sua vida pessoal foi a maior fonte de inspiração para compor uma obra extensa que compreende romances, contos e poemas. As histórias de Bukowski quase sempre retratam personagens envolvidas num submundo impregnado de melancolia, álcool, cigarro, prostituição e pobreza. Bem distante dos modelos de felicidade impostos pela sociedade. Os desastres da vida rendem momentos repletos de tristeza e lucidez. Percebemos que somos todos iguais quando todas as coisas dão errado e estamos bem próximos da crueldade da vida.

Outra qualidade de Bukowski é o humor e a irônia ácida diante de situações absurdas. Os temas lembram bastante os escritores beatnicks, mas Bukowski nunca se associou ao grupo. Por alguma razão ou circunstância, sua percepção captou a mesma sintonia que os beats tiveram daquele período.

A maior parte da obra de Bukowski foi publicada no Brasil pela editora L&PM. Seus livros mais conhecidos são Misto Quente e Ereções, ejaculações e exibicionismos (dividida em dois volumes - Crônicas de um amor louco e Fabulário geral do delírio cotidiano). Ambos ganharam adaptação para o cinema.

Em entrevista aos Los Angeles Times, ele disse certa vez:

"O vinho faz a maior parte da minha obra. Abro uma garrafa, ligo rádio e a coisa vem fluindo. Eu só datilografo uma vez a cada três noites. Não tenho nenhum plano. Minha mente está em branco. Me sento. Então a máquina de escrever me dá coisas que eu nem mesmo sei que estou trabalhando. É como almoçar de graça. Como jantar de graça. Eu não sei quanto tempo tudo isso vai durar, mas até agora não há nada mais fácil do que escrever".
*imagem: reprodução do Google.

Share/Save/Bookmark

domingo, 15 de agosto de 2010

MAIS UM POUCO DE JONATHAN FRANZEN

Jonathan Franzen está realmente vivendo um bom momento, independente da aparente crise instaurada na literatura dos Estados Unidos. Freedom, seu novo romance, recebeu críticas positivas do jornal New York Times e da revista New York. O livro será lançado no final desse mês nos Estados Unidos. Porém, dois trechos inéditos já apareceram na revista New Yorker: Good Neighbors e Agreeable.

Freedom conta a história da família Berglund formada pelo casal Patty e Walter Berglund e o filho adolescente, Joey. Eles parecem constituir aquele tipo de família ideal, até o momento em que as coisas começam a mudar sem nenhum motivo aparente. O filho se muda de casa, o marido arruma um emprego estranho, um antigo amigo do marido reaparece e a mulher já não é mais quem costumava ser. O romance serve como uma grande metáfora dos nossos tempos, com pessoas lutando para aprender a viver num mundo tão confuso.

Não foi à toa que a revista Time estampou Franzen na capa com as seguintes palavras: "O grande escritor americano - Ele não é o mais rico ou o mais famoso. Suas personagens não solucionam mistérios, não tem poderes mágicos ou vivem no futuro. Porém em seu novo romance, Jonathan Franzen nos mostra a maneira como nós vivemos hoje". Uma crítica velada aos fenômenos literários que estão dominando a lista de livros mais vendidos.

Enquanto Freedom não chega, podemos ler em português As correções (foi publicado pela Companhia das Letras, com tradução de Sérgio Flaksman). Esse romance ganhou diversos prêmios da crítica e rendeu a Franzen comparações com o melhor de John Updike, Thomas Mann e Don Delillo. O livro também se concentra sobre um núcleo familiar: os Lambert. Enid sente que já cumpriu seu papel de mãe e esposa; Alfred é uma aposentado que está sofrendo as consequência do mal de Parkinson; Gary, Chip e Denise, os três filhos do casal, vivem suas próprias tragédias pessoais espalhados pelos Estados Unidos. Um retrato bastante interessante da família americana nos anos 90.

Aproveitando que Jonathan Franzen está na moda, quero reproduzir aqui dez regras pessoais que ele usa quando vai escrever um livro. O artigo original saiu no Guardian (Ten rules for writing fiction) e revela as regras seguidas por diversos escritores. A tradução é minha e foi feita literalmente:
1. O leitor é um amigo, não um adversário, não um espectador.

2. Ficção não é uma aventura pessoal de um autor para o assustador ou o desconhecido não vale a pena escrever por nada a não ser pelo dinheiro.

3. Nunca use a palavra "então" como uma conjunção - nós temos "e" para este fim. Substituir "então" é a preguiçosa ou a desatenta não-solução do escritor para o problema de muitos "es" na página.

4. Escreva na terceira pessoa a menos que uma voz muito distinta em primeira pessoa se ofereça irresistivelmente.

5. Quando a informação se torna livre e universalmente acessível, uma volumosa pesquisa para um romance é desvalorizada junto com ele.

6. A mais pura ficção autobiográfia requer pura invenção. Ninguém nunca escreveu uma história mais autobiográfica do que "A Metamorfose".

7. Você vê mais ainda reunindo do que perseguindo depois.

8. É duvidoso que qualquer pessoa com uma conexão à internet em seu local de trabalho está escrevendo boa ficção.

9. Verbos interessantes raramente são muito interessantes.

10. Você tem que amar antes que você possa ser implacável.

*imagem: reprodução do site da Cia das Letras.
P.S: A Companhia das Letras também publicou um outro livro de Franzen, chamado A zona de desconforto - no entanto, eu quis privilegiar apenas as obras de ficção do autor.

Share/Save/Bookmark

sábado, 14 de agosto de 2010

CRISE NA LITERATURA DOS ESTADOS UNIDOS

A literatura norte-americana está em crise e tudo começou com um artigo "Where have all the Mailers gone?" (Onde foram parar todos os [Norman] Mailers?), de Lee Siegel para o The New York Observer. A bronca de Siegel era com a revista New Yorker e a comentada lista dos 20 escritores com menos de 40 anos. Entre tantas coisas ele diz que a literatura de ficção está morta, virou um gênero de museu e os livros de não-ficção estão se tornando cada vez mais relevantes.

Uma série de críticos, dos jornais mais respeitados dos Estados Unidos e Inglaterra, saíram as ruas para comentar os ataques de Siegel. Afinal, o argumento de que a literatura de ficção (refiro-me aos contos, novelas, romances, etc.) está morta aparece de tempos em tempos.

Os críticos explicam que há nos Estados Unidos, nesse momento, um período de transição. Os escritores consagrados do passado estão dando lugar a novos escritores. Esses, por sua vez, não são americanos no sentido estreito do termo, eles tem formação e visão cultural diferentes e multiculturais. A mídia americana também não está mais dedicando tanta atenção aos seus novos escritores (exceto um veículo ou outro). Os inúmeros cursos de escrita criativa colocam no mercado mais e mais escritores a cada dia. Como se publica em maior número, mais livros ruins tendem a ficar em evidência. O modismo também está fazendo com que a cada temporada novos nomes apareçam para depois serem engolidos na temporada seguinte.

Para apimentar toda essa discussão, a revista TIME colocou em sua capa uma foto de Jonathan Franzen com os seguintes dizeres: "O grande escritor americano". O jornalista Lev Grossman fez um perfil do escritor dizendo as razões que levaram a TIME a eleger Franzen como "o cara". O book bench da revista New Yorker já repercutiu a matéria. Foi nessa semana também que Anis Shivani, do The Huffington Post, lançou uma lista criticando 15 escritores americanos que são super-hypados, segundo ele.

Ainda bem que nesses casos a crise não é global.

*imagem: reprodução da capa da revista TIME.

Share/Save/Bookmark

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

TRÊS ROMANCES DE FICÇÃO CIENTÍFICA...

Júlio Verne certamente é um dos precursores da ficção científica. Seus romances datam da segunda metade do século XIX e foram responsáveis por cativar a imaginação de gerações inteiras. Mais do que isso ele previu, antes de muita gente, a invenção do submarino, dos aviões e da viagem a lua. Depois dele inúmeros escritores passaram a se dedicar ao gênero, levando nossa imaginação as últimas consequências. Será que como Júlio Verne eles estarão certos sobre o futuro? Três romances de ficção científica...

---------------------------

A MÁQUINA DO TEMPO
H.G. Wells
Alfaguara

Escrito em 1895 esse é o primeiro romance de H.G. Wells. Uma personagem nomeada apenas por "Viajante do tempo" constrói uma máquina que permite a qualquer pessoa deslocar-se no tempo passado ou futuro. Seu experimento resulta numa viagem ao ano de 802.701 onde vivem seres impressionantes. Como nos livros de viagem do século XVIII, o romance demonstra a falta de esperança na justiça social. Alguns consideram essa como sendo a primeira obra de ficção a abordar o tema da viagem no tempo usando máquinas.

---------------------------

EU, ROBÔ
Isaac Asimov
Ediouro

A extensa obra de Isaac Asimov - com quase 500 livros - voltada para o tema dos robôs e dos impérios espaciais não esconde o fato de ele ser um dos maiores escritores do gênero ficção científica. Esse livro reúne nove contos que tratam da evolução dos robôs através dos tempos: desde o robô mecânico e mudo até as máquinas futuristas que superam os seres humanos em todas as atividades.

---------------------------

NEUROMANCER
William Gibson
Aleph

Se o filme Matrix existe, certamente isso aconteceu graças a esse romance de William Gibson. O livro não é revolucionário pela forma, pois respeita as convenções da narrativa clássica. Seu grande trunfo está no tema, na previsão de coisas que se tornariam comuns nos dias de hoje e no universo de referências que ele constrói. Case tenta burlar as leis da matrix e acaba sendo expulso do ciberespaço. Tentando acabar com sua vida conhece Molly, uma samurai que irá ajudar Case a retornar ao mundo virtual.

*imagem: divulgação.
Share/Save/Bookmark

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

MOBY DICK NOS CINEMAS


O diretor de cinema Timur Bekmambertov anunciou que tem projetos para levar Moby Dick ao cinema. Segundo o diretor, ele já criou todo o argumento para o filme e nesse momento está trabalhando no roteiro. A intenção é atualizar o clássico romance de Herman Melville usando os mais modernos recursos tecnológicos de que o cinema dispõe. Assim, a baleia mais famosa do mundo será toda feita em computador. Ainda não existe nenhuma previsão sobre o início das filmagens.

A julgar pelos outros filmes de Bekmmbertov - Guardiões da noite (2004), Guardiões do dia (2006) e O Procurado (2008) - podemos esperar um grande filme de aventura. Porém, adaptar um romance denso como Moby Dick exige um enorme trabalho. O livro conta com uma riqueza muito grande de detalhes que são importantes para percebermos a obsessão do capitão Ahab em encontrar a baleia que para ele é a encarnação do mal. Quem nos ajuda na tarefa de adentrar esse universo é o jovem marinheiro Ishmael - que não será a personagem condutora do filme.

Muitos críticos observam que com esse romance Melville quis construir um livro sobre todo universo, um livro que abarcasse tudo o que existe no mundo. Evidentemente essa ideia é muito ambiciosa e nenhum escritor até hoje conseguiu escrever um livro assim - embora tenham chegado perto, arrisco dizer. Tomara que o filme não estrague o interesse que o livro desperta.

Moby Dick já foi levado ao cinema outras vezes. Por exemplo, há uma versão muito famosa do diretor John Huston (1956) com roteiro de Ray Bradbury e com Gregory Peck no papel do capitão Ahab.

Quem quiser se antecipar a leitura deve recorrer a edição definitiva do romance Moby Dick que foi lançada pela Cosac Naify. Além da tradução primorosa de Alexandre Barbosa de Souza e Irene Hirsch, a edição conta com uma série de notas explicativas, glossário náutico e fortuna crítica.

*imagem: reprodução do Google.

Share/Save/Bookmark

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

DE VOLTA DA FLIP!


Eu prometi que ia atualizar o blog diretamente da FLIP, mas infelizmente não consegui. Não queria ficar carregando notebook para todos os lados. Atualizar de algum cybercafé também estava fora de cogitação, os preços eram um pouco salgados. Além disso, o intervalo entre as mesas não era suficiente para procurar algum lugar, escrever, postar e seguir em frente. Admito que a cobertura - praticamente online - feita pelos jornalistas é um trabalho de Hércules. Evidentemente, as equipes são grandes, por isso conseguem dar conta da maior parte. Sendo assim, todo mundo já leu toda sorte de comentários e juízos críticos sobre as mesas, os convidados, as festas, os eventos e acontecimentos.

Acho que depois da conferência de abertura o clima de críticas e aversão que rondava a FLIP se dissipou. O que não significa dizer que essa foi a melhor edição. Por lá, eu vi muita gente animada e bem disposta a participar da programação.

Vi quase todas as mesas do sábado e uma mesa do domingo. Gostei muito de tudo o que vi - exceto a mesa de Robert Crumb e Gilbert Shelton, uma decepção comentada por vários jornalistas, blogueiros, etc. Minhas mesas preferidas foram: Colum McCann e William Kennedy; Wendy Guerra e Carola Saavedra. Achei muito bom que o assunto "limites da narrativa" tenha surgido tanto numa mesa, quanto na outra. Afinal, acho que essa é uma preocupação que persegue todos os jovens escritores. Ainda é possível contar novas histórias? Será que existem limites? Nada melhor do que ouvir veteranos dizendo que cada narrativa é uma narrativa muito particular, como cada um de nós, com histórias diferentes.

Também gostei muito da mesa do Ferreira Gullar. Já tinha visto ele falando (não na FLIP) e também tinha ficado impressionado. Mas esse momento me pareceu significativo pelos 80 anos e pelo prêmio Camões - daí o motivo de terem dedicado a mesa a ele. Alguém até sugeriu que aquela fala final sobre o cosmos e o universo são as reflexões dele sobre o final da vida.

Enfim, impressionante e encantador. Por enquanto, não posso prometer melhor cobertura das próximas edições. Até lá, vou ter de esperar o andamento das coisas. Agora, é hora de voltar a vida normal e correr atrás do prejuízo.

*imagem: reprodução do flickr da FLIP.


Share/Save/Bookmark

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

AVISO DE AUSÊNCIA


Caros leitores,

Amanhã estou indo para a FLIP. Também vou me juntar ao coro de vozes que está transmitindo informações direto da fonte. Pretendo atualizar o blog de lá, mas não sei se vou ter sucesso. Prometo que vou tentar. Se não pintar nenhum texto novo até domingo, não se preocupe. Quando voltar terei muitas histórias para contar.

Nos vemos na FLIP!

*imagem: reprodução do flickr da FLIP.
Share/Save/Bookmark

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

ESCRITORES ABREM AS SUAS VALISES


Na semana passada, Raquel Cozer, escreveu um artigo para o caderno Sabático (do Estadão) mostrando o caminho das pedras que alguns autores percorreram para publicarem seus livros. Raquel fez uma pesquisa informal com 60 escritores e montou um painel com os resultados. Como o título do artigo sugere, O incerto caminho até a publicação, não existe uma regra que seja uma fórmula para o "sucesso". É preciso trabalho e paciência.

Alguns dados interessantes que a pesquisa revela: pública mais rápido quem só se dedica a escrever os livros; ser publicado por uma grande editora é de fato uma vitrine; já ter publicado algum livro antes de chegar a uma grande editora ou ser conhecido no meio ajuda a chegar a uma grande editora; ganhar prêmio também ajuda; indicação não resolve, mas pode ajudar a ser mais visto; nós não temos a cultura do agente literário, que é bem comum nos Estados Unidos e na Europa; a internet mudou o perfil de lançamento de um autor; etc.

Estou falando de maneira resumida, por isso recomendo a leitura do artigo na íntegra. Ele concentra informações valiosas que todos os novos autores sempre quiseram saber e nunca souberam onde procurar. Em tempos de redes sociais e mídias interativas, informações como essa valem ouro.

*imagem: reprodução Google
Share/Save/Bookmark

terça-feira, 3 de agosto de 2010

8ª FESTA LITERÁRIA INTERNACIONAL DE PARATY - FLIP


Muito bem, críticas, elogios e polêmicas à parte, hoje começa mais uma edição da FLIP. A programação completa já está na ponta da língua de todo mundo. As tendas já estão montadas. As livrarias também. Os autores já chegaram ou estão chegando aos poucos. O tempo está nublado e faz aquele friozinho típico da época. Pelo que li, a cidade ainda vive pacata. Os turistas, visitantes, estudantes, jornalistas e flipeiros devem começar a chegar amanhã.

Não conseguiu ingresso, não tem dinheiro ou não está a fim de ir? Não tem problema. Acompanhe todos os jornais, revistas, blogs e twitters que a está altura do campeonato já estão pegando fogo. Se você quiser ter sua própria opinião sobre alguma mesa, o site da FLIP te dá uma ajuda e faz transmissão ao vivo. Não vai faltar cobertura de informações.

Recomendo vivamente que todo mundo acompanhe: mesa 2 -Lionel Shriver e Patrícia Melo (duas escritoras que precisam ser lidas); as mesas 5 e 6 - com Robert Darnton, Peter Burke e John Makinson (sobre o tão falado futuro dos livros, para ouvir e pensar); mesa 9 - A. B. Yehoshua e Azar Nafisi (de como a literatura reflete as nossas questões políticas e sociais); mesa 10 - Salman Rushdie (para quem viu e não viu); mesa 12 - Colum McCann e William Kennedy (as cidades e suas histórias); mesa 14 - Robert Crumb e Gilbert Shelton (os mitos dos quadrinhos); mesa 17 - Wendy Guerra e Carola Saavedra (duas jovens escritoras). Quem puder acompanhar tudo, melhor.

Vou estar na FLIP também, mas depois falo mais sobre isso.

*imagem: reprodução do Flickr da FLIP.

Share/Save/Bookmark

domingo, 1 de agosto de 2010

20 ESCRITORES BRASILEIROS COM MENOS DE 40 ANOS


Em Junho a revista New Yorker publicou uma edição especial em que seus editores selecionaram 20 escritores com menos de 40 anos. O objetivo dessa seleção era apresentar um grupo promissor de jovens escritores da literatura americana atual - a mesma seleção foi feita pela New Yorker em 1999. A escolha gerou muita polêmica e diversas pessoas escreveram textos para criticar, comentar, combater, ironizar e completar a lista.

Nem todos os nomes eram inéditos, alguns escritores já eram bastante conhecidos pelos leitores da revista. De qualquer forma, ter o seu nome nessa lista é garantia de sucesso: todos os escolhidos ganharam repercussão internacional e certamente terão suas obras publicadas com maior facilidade e serão chamados para ministrar cursos de escrita criativa nos Estados Unidos.

No Brasil nenhuma revista ou jornal chegou a fazer uma seleção parecida. Talvez pela nossa falta de tradição nessas listas ou mesmo pela dificuldade que o processo impõe. Também não temos uma publicação 'não acadêmica' voltada diretamente para a divulgação de novos escritores. Os jornais e revistas fazem isso de maneira esparsa.

Informalmente resolvi propor uma lista com os nossos 20 escritores com menos de 40 anos. Como disse na época em que fiquei sabendo da lista da New Yorker, acho que essas listas servem para que os leitores tenham alguma referência quando sairem em busca de algum novo escritor. A lista também demonstra que temos um grupo muito bom de jovens escritores. Confesso que encontrei muito mais nomes além dos 20 que me propus a encontrar. A lista não é definitiva e pode ser que carregue algumas injustiças, deixando de fora algum novo escritor que mereça atenção. Mas espero que listas complementares apareçam.

Infelizmente, o meu processo de seleção não contou com a ajuda direta de críticos, nem com votações ou indicações de leitores, editores, etc. De modo simples, o que fiz foi consultar os nomes de escritores indicados para alguns prêmios de literatura desde o ano 2003. Serviram como base de pesquisa o Prêmio Jabuti, a Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), o Prêmio SESC de Literatura, o Prêmio Portugal Telecom de Literatura, o Prêmio SP de Literatura e a FLIP. Além de serem prêmios de renome, esses escritores foram selecionados por um júri de alta qualidade. Por isso, o simples fato de concorrem a um desses prêmios já indica que são escritores que produzem ou produziram trabalhos relevantes.

A lista:

André Laurentino (1972, Olinda) - Seu primeiro romance, A paixão de Amâncio Amaro, foi publicado em 2005. O livro retrata a paixão e os sonhos do pernambucano Amâncio Amaro sobre a sua musa, Luzinete.

Carola Saavedra (1973, Santiago/Chile) - Veio para o Brasil aos 3 anos de idade. Seu primeiro livro foi Do lado de fora publicado em 2005. Teve repercussão recentemente com a publicação de Flores Azuis e Paisagem com dromedário, de 2008 e 2010 respectivamente. Esse ano irá participar da Flip.

Michel Laub (1973, Porto Alegre) - Autor de quatro romances. O primeiro Música anterior é de 2001. Depois vieram Longe da água em 2004 e O segundo tempo em 2006. O mais recente é O gato diz adeus de 2009 em que quatro diferentes personagens falam sobre seus relacionamentos.

Verônica Stigger (1973, Porto Alegre) - Autora de contos e crônicas. Seu primeiro livro, O trágico e outras comédias, foi publicado em 2004. Esse ano publicou Os anões e vem recebendo inúmeros elogios da crítica especializada. Também escreveu Gran Cabaret Demenzial.

Carlos de Brito e Mello (1974, Belo Horizonte) - Escreveu alguns contos que foram reunidos num livro chamado O cadáver ri dos seus despojos. No ano passado publicou A passagem tensa dos corpos e está concorrendo ao Prêmio SP de Literatura 2010.

Andréa Del Fuego (1975, São Paulo) - Publicou seu primeiro livro de contos, Minto enquanto posso em 2004. Seguidos por Engano seu em 2007 e o infanto-juvenil Sociedade da caveira de cristal em 2008. Acabou de publicar Os malaquias.

Ricardo Lisias (1975, São Paulo) - Um dos autores da lista que mais publicou livros. O primeiro, Cobertor de estrelas, foi em 1999. Depois publicou Dos nervos (2004), Duas praças (2005) e Anna O. e outras novelas (2007). O livro dos mandarins publicado no ano passado lhe rendeu indicação ao Prêmio SP de Literatura 2010.

Altair Martins (1975, Porto Alegre) - A parede no escuro publicado em 2008 foi o romance que lhe deu maior visibilidade no meio literário. Antes disso tinha publicado Como se moesse ferro e Dentro do olho dentro, ambos em 2002.

Cecília Giannetti (1976, Rio de Janeiro) - A única escritora carioca da lista. Publicou apenas um romance em 2007 chamado Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi. Antes disso tinha publicado contos em revistas e coletâneas.

Eduardo Baszczyn (1976, São Paulo) - Por enquanto publicou apenas um romance, Desamores, em 2007. Cheio de referências a filmes e músicas, o romance fala das diversas facetas do amor. Recebeu diversos elogias da crítica.

Antonio Prata (1977, São Paulo) - Outro autor que já tem diversos livros publicados. O primeiro foi Douglas e outras histórias em 2001, com contos e crônicas. Depois vieram o infanto-juvenil Estive pensando (2003) e Pernas da tia Coralina (2003), seguido de O inferno atrás da pia (2004). Ano passado lançou outro infanto-juvenil, Adulterado. É um dos autores mais elogiados pela crítica.

Estevão Azevedo (1978, Natal) - Publicou apenas um romance, Nunca o nome do menino, de 2008. A história é sobre uma mulher que se descobre personagem de ficção. O romance lhe rendeu uma indicação ao Prêmio SP de Literatura de 2009.

Daniel Galera (1979, São Paulo) - Apesar de ter nascido na cidade de São Paulo, vive em Porto Alegre. Seu primeiro livro foi Dentes guardados em 2002. Depois vieram Mãos de cavalo (2006), Até o dia em que o cão morreu (2007) e Cordilheira (2008). Recentemente publicou em parceria com Rafael Coutinho a grafic novel Cachalote.

Tiago Novaes (1979, Avaré) - Subitamente: agora foi seu primeiro livro de contos publicado em 2004. Em 2007 publicou o romance de ficção policial chamado Estado vegetativo.

Tatiana Salem Levy (1979, Lisboa/Portugal) - Veio para o Brasil com 9 meses de idade. Além de escritora, é tradutora de inúmeros livros conhecidos. Seu único romance publicado é A chave de casa (2007).

André de Leones (1980, Goiânia) - Publicou dois romances e um livro de contos. O primeiro foi em 2006, Hoje está um dia morto - que lhe rendeu a indicação ao Prêmio Sesc de Literatura. Em 2008 publicou os contos, Paz na terra entre os monstros. Recentemente publicou Como desaparecer completamente.

Carol Bensimon (1982, Porto Alegre) - Seu primeiro livro foi de contos, Pó de parede, publicado em 2008. No ano passado publicou Sinuca embaixo d'água que lhe rendeu a indicação ao Prêmio SP de Literatura 2010.

Lívia Sganzerla Jappe (1982, Porto Alegre) - Publicou apenas um romance até o momento. Cisão foi lançado no ano passado. O livro que trata do amor de maneira em parte filosófica em parte ficcional. Também é uma das indicadas ao Prêmio SP de Literatura 2010.

Maurício de Almeida (1982, Campinas) - Autor de apenas um livro de contos, Beijando dentes, de 2008. A linguagem inventiva é uma das marcas mais apontadas pelos críticos nos contos que escreve.

Vanessa Bárbara (1982, São Paulo) - Além de escritora é tradutora. Escreveu um livro-reportagem em 2008 que foi bastante elogiado, O livro amarelo do terminal. Sua estréia no universo da ficção aconteceu em 2008 com o livro de contos O verão de chibo - escrito a quatro mãos com Emílio Fraia.

*imagem: reprodução do Google.

Share/Save/Bookmark