segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

LITERATURA E MÚSICA POP NA FRANÇA

Parece que ícones da música pop andam "assolando" a atual literatura francesa. O fato pode ser facilmente confirmado observando dois livros que apareceram na lista de melhores romances de 2011 da descoladíssima revista Les inRocks: Michael Jackson, de Pierric Bailly e Le ravissement de Britney Spears, de Jean Rolin.

Falando dessa maneira fica parecendo que esses autores estão se valendo do sucesso em torno do filão das celebridades para venderem seus livros; ou tentando pegar carona na fama midiática desses artistas para justificarem suas obras. Redondo engano! Os tais ícones do pop servem para discutir questões mais complexas como adolescência, solidão, consumo etc., cercadas de grande humor melancólico.

O cantor Michael Jackson, por exemplo, não está no romance de Pierric Bailly como personagem - nem faz qualquer participação especial. Se não estou enganado, ele aparece de relance quando o narrador diz que o rei do pop nasceu no mesmo dia em que seu pai. Apenas isso. Numa interpretação mais ligeira, o cantor aparece graças a sua imensa força simbólica. Quem não se lembra do videoclipe Thriller com Michael Jackson metamorfoseado em lobisomem? De algum modo essa imagem define a história de um grupo de adolescentes em Montpellier bebendo e festejando sem a menor preocupação com a passagem do tempo, em estudar, arrumar um emprego e pensar no futuro. As metamorfoses da adolescência (meio homem, meio menino, meio assustador, meio atraente) brilham linguagem poética usada por Bailly.

A cantora Britney Spears, ao contrário, está o tempo todo presente em Le ravissement de Britney Spears, de Jean Rolin (em tradução livre o romance receberia o simpático nome de O arrebatamento de Britney Spears). O escritor ficou fascinado com a história de vida da cantora e encontrou nela a trajetória particular de uma pessoa comum e solitária em busca do sucesso. O romance fala sobre um grupo islâmico ameaçando raptar Britney e um investigador fazendo de tudo para impedir a ação. Está tudo lá: a cidade de Los Angeles, a fixação das pessoas por notícias de celebridades, os excessos de Britney e muito mais. Tem até uma paixão platônica do investigador pela bela Lindsay Lohan.

Pierric Bailly tem apenas dois romances e apareceu bastante no blog ao longo do ano passado - tem um artigo e uma tradução livre de um trecho de Michael Jackson na segunda edição do fanzine. Jean Rolin é um escritor veterano, já publicou dezenove romances. Le ravissement... foi tido como uma das apostas da rentrée literária na França no ano passado. Por enquanto, os dois não tem previsão de lançamento em português.

Na mesma linha...

Longe de apontar tendências esses dois acontecimentos franceses não passam de uma feliz recente coincidência. Aqui temos outros três livros que usaram personalidade reais para criar ficção.

PanAmérica, de José Agrippino de Paula. Uma filmagem de episódios da Bíblia serve para reunir Marilyn Monroe, Cary Grant, John Wayne, Marlon Brando, Cecil B. de Mille, Andy Warhol e muitos outros.







Método prático da guerrilha, de Marcelo Ferroni. Ficção e realidade se misturam para contas a história do revolucionário Che Guerrava.








Não há nada lá, de Joca Reiners Terron. Uma galeria de personalidades malditas em que desfila William Burroughs, Jimi Hendrix, Torquato Neto, Aleister Crowley, Fernando Pessoa, Billy-the-kid e Arthur Rimbaud.

*Imagem: reprodução Google.

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2 comentários:

  1. Fiquei curioso a respeito dos livros. Mas não me animo a testar meu francês não. Avise se souber de planos de alguma editora.

    (Esse livro do Joca é bom demais.)

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    1. Tuca, se eu souber de alguma coisa, te aviso.

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