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terça-feira, 27 de maio de 2014

O CONTO EM EVIDÊNCIA


O conto pode seguir desprezado por autores e críticos que enxergam nele apenas uma forma de teste para uma obra de fôlego maior ou ignorado pelo mercado editorial que costuma dizer que o gênero não vende tanto, mas segue vivo desde que surgiu nos primórdios da civilização em forma de história ouvida ao pé de uma fogueira. Lá na aurora do século XIX, muito antes do século XXI existir, o conto emancipou-se com escritores do calibre de E.T.A. Hoffmann, Edgar Allan Poe, Guy de Maupassant, Tolstói, Tchekhov, Machado de Assis, Balzac, Stendhal, Eça de Queirós, Aluízio Azevedo e toda a turma. No século XX, o conto atingiu sua maturidade formal e espatifou-se em miniconto, microconto, microrelato, flash fiction, conto brevíssimo, pequenos poemas em prosa etc. Por tudo isso, dizer que o conto vive uma “ascenção” nos dias de hoje é duvidoso.

Seja como for, o conto ganhou visibilidade e virou um assunto recorrente. Provavelmente, isso está acontecendo por três motivos: a) o gênero entrou no circuito dos festivais e prêmios; b) editoras e autores estão focados em publicar livros do gênero; c) mudanças na tecnologia (internet, celular e leitores digitais) e no comportamento social (ansiedade, pressa, falta de tempo livre etc,). Não sei se conseguirei destrinchar os três motivos com destreza, por isso, vou mais ilustrar do que analisar.

A Europa, os Estados Unidos e o Brasil tem um festival do conto. Na semana passada, escrevi sobre o assunto depois de conversar com Carlos Henrique Schroeder, idealizador do Festival Nacional do Conto (que está na 4ª edição e deve crescer nos próximos anos) e com Roman Simić, diretor do Festival Europeu do Conto (que está na 13ª edição). Ambos tem entre seus convidados autores iniciantes e veteranos e, ao longo desses anos, certamente contribuíram para jogar luz numa produção meio escondida ou desconhecida para muitos leitores. Assim fazem a roda girar porque encontram autores, críticos e fazem a obra circular entre leitores. Você pode não acreditar, mas esses festivais despertam o interesse do leitor. Outro ponto importante, do ano passado pra cá três autores que são conhecidos pela dedicação a forma curta foram contemplados com prêmios literários internacionais de peso: Lydia Davis ganhou o Man Booker Prize Internacional; Alice Munro ganhou o Prêmio Nobel de Literatura; e, dois meses atrás, George Saunders ganhou o Folio Prize (certo, além dos livros de contos, ele tem já publicou novelas, mas o prêmio foi para seu mais recente livro de contos). Nós ainda não temos nenhum prêmio literário dirigido exclusivamente ao gênero, no entanto nossos principais prêmios (Jabuti, Portugal Telecom, Prêmio SP de Literatura e Machado de Assis, para citar alguns) contemplam o formato. Em alguns casos a categoria divide espaço com crônicas - vai entender. Tá certo que o Jabuti nunca concedeu o prêmio de livro do ano para uma obra de contos. Quem sabe agora não pinta um desses?

Antes da internet, muitos jornais/revistas literárias (aqueles de crítica séria) costumavam publicar contos. Havia também as famosas antologias. Depois vieram os fanzines que ajudaram bastante a cena de autores independentes dos anos 80/90. Finalmente, surgiu a internet em seu formato comercial e popular que trouxe uma enxurrada de textos curtos e mais autores. Até que, de uns 5 anos para cá, as experiências de publicação digital ficaram mais acessíveis e começaram a virar realidade. Quem não lembra da revista Electric Literature? Recentemente, os editores criaram um blog chamado Recommended Reading que publica uma história por semana escolhida por alguém bacana. Por aqui existe a Cesárea, uma revista eletrônica com um formato parecido - só que um pouco menos multimídia. Outras experiências bem sucedidas são os selos Atavist e E-galáxia com a coleção Formas Breves. Eles também publicam um conto por semana que são vendidos exclusivamente para leitores digitais com preços baixos. Não me informei muito, mas parece que a Amazon também criou um serviço semelhante chamado Kindle Singles. Alguns autores também estão tentando o caminho da autopublicação - um pouco mais trabalhoso, mas ao que parece está ganhando contornos reais a cada dia.

Pense também que autores consagrados como Hilary Mantel e Margaret Atwood também vão entrar para a dança e prometem publicar livros de contos até o final do ano. O livro da Mantel vai chamar The assassination of Margareth Thatcher; da Atwood vai chamar Stone Mattres. Quem sabe, Eleanor Catton (The Luminaries tem mais de 800 páginas) e Donna Tartt (Goldfinch tem mais de 700 páginas) também não se animan?

O último motivo me parece diretamente ligado ao motivo anterior: as novas tecnologia dos celulares e leitores digitais estão ficando mais amigáveis. Veja, por exemplo, o fenômeno dos aplicativos para celular que permitem ler e acompanhar histórias curtas a todo momento. Além disso, existem esses aplicativos que são como redes sociais para você publicar e compartilhar pequenos textos e histórias com seus “seguidores”. Os leitores digitais também ficaram mais baratos, mais leves e emulam muito bem a sensação do papel (se é que isso realmente importa para quem gosta de ler). Me parece um caminho sem volta porque o comportamento social também mudou para “acompanhar” os “novos tempos”. Basta caminhar pela rua para perceber que muita gente está com os olhos e os dedos fixos no celular. Isso para não mencionar o fato de que muita gente reclama da falta de tempo para sentar e ler um livro - melhor pegar o celular.

O que o futuro nos reserva só o tempo dirá. Mas não se desespere, não saia por aí arrancando os cabelos ou investindo seu suado dinheirinho numa startup - a não se que você já tenha alguma experiência no negócios e saiba fazer investimentos. Não quero parecer apocalíptico, pelo contrário. Os livros longos (conhecidos como catataus) vão continuar existindo. A maior prova disso é o sucesso de vendas da monumental novela Game of Thrones - muita gente carrega aqueles livros para cima e para baixo nas ruas -, de Moby Dick, Os detetives selvagens e dos premiados The Luminaries e Goldfinch. Da mesma forma, o conto vai continuar vivendo, seja curto ou curtíssimo. A lição que fica é importa: as pessoas querem uma boa história, não importa a sua extensão.

***

Aproveitando o assunto, para você que ficou empolgado e está buscando um livro que seja de forma breve tenho quatro recomendações:


Para a próxima mágica vou precisa de asas
ALEX EPSTEIN
Nau Editora

Seus minicontos mal ultrapassam o tamanho de uma página. Alguns tem o tamanho de uma linha. Você pode pensar em Lydia Davis, mas a verdade é que as histórias Alex Epstein são muito mais surreais e misteriosas. Passam um pouco ao largo daquele instante cotidiano que explode em significados quando ganham o olhar do narrador - marca de Davis. Tem qualquer coisa de Borges e Monterroso.


Tipos de perturbação
LYDIA DAVIS
Companhia das Letras

Talvez a autora dispense apresentações porque no ano passado seu livro foi bastante comentado por aqui, ganhou um prêmio importante e de quebra ela esteve na FLIP. Aqui as histórias são de uma sensibilidade enorme, tem humor e tristeza a partir de um ponto de vista muito particular. Vão de uma linha a três páginas. Tem qualquer coisa de Kafka.



Dez de dezembro
GEORGE SAUNDERS
Companhia das Letras

O livro entrou para lista de melhores do ano passado, foi finalista de vários prêmios e levou para casa o Folio Prize, dois meses atrás. A tradução acaba de chegar por aqui. Tem um pouco daquela tradição contística norte-americana de John Cheever e Raymond Carver, mas com uma pegada mais atual e tragicômica.




Estórias mínimas
JOSÉ RESENDE JUNIOR
7 Letras

É o caso de um autor cuja obra é inteiramente voltada ao conto - num português bem brasileiro. Os dois primeiros livros dele tinham contos mais longos, mas nesse livro ele pratica a forma brevíssima. Tem muito humor e doses demasiado humanas de amor e solidão na medida certa. Dá pra ler em menos de duas horas e apreciar para a eternidade.



Não resisti e vou recomendar também dois clássicos da forma curta:

Novelas nada exemplares
DALTON TREVISAN
Record

O autor mais recluso da nossa literatura (não perde nem para Rubem Fonseca e Raduan Nassar) é também o responsável por formatar o miniconto em nossas terras. Aqui ele faz referência ao famoso livro de Cervantes, mas enche Curitiba de tédio e a melancolia para desfilar histórias do submundo e da morte. Estão lá os suicidas, as prostitutas, as moças para casar, os homens comuns. Um detalhe interessante: o livro foi publicado em 1959 e marca a estreia de Trevisan na literatura brasileira. O crítico Otto Maria Carpeaux e o escritor Carlos Heitor Cony apontam o livro foi um divisor de águas.


A ovelha negra e outras fábulas
AUGUSTO MONTERROSO
Record

Infelizmente, o livro está fora de catálogo, mas tem uma particularidade: foi traduzido para o português por Millôr Fernandes e ilustrado por Jaguar. Não é possível encontrar nem em sebo. Quem sabe com a FLIP em homenagem a Millôr e a visibilidade dos minicontos, alguém tenha a bondade resgatá-lo. Monterroso é um autor guatemalco que passou a maior parte da vida no México. Ficou conhecido por ter escrito o menor conto do mundo O dinossauro (note que esse microconto não está nesse livro) e inspirou essa onda de formas curtas que explodiram na literatura de agora, agora. Tem formato humorístico e faz paródias com as fábulas da antiguidade clássica. Isaac Asimov disse que jamais foi o mesmo depois de ler O macaco que 
quis ser escritor satírico (esse está nesse livro). 

*Imagens: minilivro/reprodução Google Images; capas/divulgação.

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terça-feira, 20 de maio de 2014

BRASIL SERÁ HOMENAGEADO NO FESTIVAL EUROPEU DO CONTO

O país do futebol mostra ao país das boas cervejas um pouco da sua literatura.


Uma semana antes do Brasil enfrentar a Croácia no jogo de abertura da Copa do Mundo, as cidades de Zagreb e Šibenik (que fica no litoral sul da Croácia e foi abençoada pela natureza com uma paisagem deslumbrante) vão receber o Brasil como país homenageado da 13ª edição do Festival Europeu do Conto. Em outras edições foram homenageados Irlanda, Escócia, Catalunha, Holanda e País de Gales. O que motivou o convite dos organizadores ao Brasil foi a exposição constante da literatura brasileira em grandes eventos literários recentes como as Feiras de Frankfurt, Guadalajara e Berlim.

Os escritores Ana Paula Maia, João Anzanello Carrascoza, João Paulo Cuenca e Paula Parisot serão os representantes da nossa literatura. O processo para seleção desses autores foi um pouco longo. Os organizadores do festival pediram uma pequena lista com sugestões a Paula Parisot (organizadora a antologia internacional La invención de la realidad. Antología de cuentos brasileños lançada na Feira de Guadalajara do ano passado) e Sophie Lewis - da agência literária AndOtherStories - que vive no Rio de Janeiro. A partir dali, eles afinaram a seleção buscando informações, recomendações, lendo um pouco da obra de cada autor em antologias, artigos e reportagens até escolherem os quatro brasileiros. Outros 20 escritores de diferentes nacionalidades completam a programação, entre eles o austríaco Robert Menasse, o britânico Jon McGregor e o norte-americano David Vann cujo romance A ilha Caribou acaba de ser publicado pela editora Record.

É interessante notar que nenhum dos quatro autores brasileiros tem livros publicados na Croácia. "A literatura brasileira não é muito conhecida por aqui. Nos últimos 20 anos, e com mais intensidade recentemente, a maioria dos escritores que foram traduzidos são de gerações mais velhas como Raduan Nassar, Rubem Fonseca, Jorge Amado e Clarice Lispector. Nós estamos convidados jovens autores contemporâneos", conta por e-mail Roman Simić, diretor de criação do festival. A participação dos brasileiros pode despertar o interesse de editores locais e consequentemente a tradução de suas obras no país.

A popularidade do gênero, a grande tradição contística e a paixão são os ingredientes principais que motivam a realização do festival todos os anos. “Nós acreditamos que o conto pode construir um universo inteiro em poucas páginas. O conto tem tudo o que um leitor precisa: é rápido, diversificado, pode comunicar tudo e costuma ser escrito por amor, não por dinheiro”, diz Roman. Uma qualidade do gênero que ele ressalta é a sua integridade “não é possível fingir ou enganar um leitor quando você lê ou ouve um conto. Você cumpre ou não cumpre a tarefa proposta, ao contrário do que pode acontecer na leitura de fragmentos de romances (o trecho pode ser bom, mas o restante pode falhar como um todo)”, conclui.

Quando pergunto se o Prêmio Nobel de Literatura concedido a Alice Munro no ano passado modificou a maneira como os leitores encaram o conto, ele responde “muitos escritores, além de Alice Munro, já demostraram a importância do gênero. O ofício de escrever contos não é uma ‘etapa’ para se tornar escritor. O conto requer diferentes habilidades e talentos únicos”. Para Roman, o problema quanto ao reconhecimento do gênero não está nos autores e leitores “acho que eles gostam; para eles tudo funciona”, mas no mercado literário: “editoras e livreiros não são apaixonado por contos, porque eles acreditam que não vende como gostariam. É um círculo vicioso: como poderia vender se eles não investem?”.

Para descontrair, haverá uma partida de futebol amador entre Brasil e Croácia batizada de “abertura antes da abertura” - em alusão ao jogo da Copa do Mundo. O time do “Brasil” será formado por escritores internacionais e o time da “Croácia” será formado por artistas da banda croata Pips, chips & Videoclips. Roman espera que os escritores brasileiros (João Paulo Cuenca e João Anzanello Carrascoza) liderem o time do Brasil. Resta saber se Cuenca (flamenguista inveterado) e Carrascoza são tão bons em futebol, quanto em literatura? Protejam suas canelas.

O festival acontece de 1 a 6 de junho e a partida de futebol será no dia 2, às 13h (horário croata).




*Fotos: edições anteriores do Festival Europeu do Conto/Reprodução.
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segunda-feira, 19 de maio de 2014

TRÊS PERGUNTAS PARA CARLOS HENRIQUE SCHROEDER


Começa hoje a vai até domingo a 4ª edição do Festival Nacional do Conto, no Teatro do SESC Prainha, em Florianópolis. Será uma oportunidade única de ouvir diferentes gerações de escritores brasileiros falando sobre a arte de uma forma breve. O autor homenageado será Sérgio Sant'Anna. A programação também terá Altair Martins, Daniel Pellizari, André Sant’Anna, Fernando Bonassi, Márcia Denser, Noemi Jaffe, Cíntia Moscovitch, Luísa Geisler e outros mais. Aproveitando a oportunidade, fiz três perguntas para o idealizador do festival, Carlos Henrique Schroeder.




1) Como surgiu a ideia de criar um festival dedicado exclusivamente ao gênero conto?

Há festivais de narrativas breves na Europa, na Ásia, na América do Norte, mas a América Latina, de contistas como Pablo Palacio, Borges, Cortázar, Dalton Trevisan e muitos outros, não tinha nenhum. Como estudo há muitos anos essas formas breves e sou um contista da gema, me pareceu um caminho natural tentar articular algo além da própria escrita: um festival que pudesse abrigar os contistas, dar voz para eles e às suas obras. Já estamos na quarta edição e crescendo a cada ano, em breve partimos para a internacionalização, para trazer os latinoamericanos também.

2) Você acredita que o conto vai se tornar cada vez mais importante no mundo de hoje, onde as pessoas não têm muito tempo ou paciência para dedicar muito tempo aos livros longos?

Acho que esse é um mito, a questão do tempo e do tamanho da leitura.  As pessoas querem boas histórias, independente do tamanho. O conto vai muito bem, obrigado, na América do Norte, por exemplo, onde os contistas têm espaço na mídia e nas grandes editoras, mas muito mal no Brasil, onde o trio grandes editoras, jornais e eventos literários vão pasteurizando tudo, e tentando criar uma tradição romanesca na marra, tentando achar o “grande-jovem-romancista-brasileiro” e blá-blá-blá... Gente, eu vou citar quatro nomes: Rubem Fonseca, Sérgio Sant’Anna, Luiz Vilela e Dalton Trevisan. Todos contistas da gema, todos vivos e produzindo, então pensem na potência do conto brasileiro.

3) No ano passado, a escritora canadense Alice Munro ganhou o Prêmio Nobel de Literatura. Ela é uma escritora conhecida por publicar apenas contos. Você acha que o conto está finalmente sendo reconhecido como um gênero importante e um escritor não precisa mais escrever um romance ou novela para provar o seu talento?

O conto já teve diversos períodos prósperos na história da literatura universal e da brasileira, e um escritor sabe quando tem um conto, uma novela ou um romance na mão, então acho um erro se pautar pelo mercado. Nós fazemos concessões o dia inteiro, com os amigos, com os colegas de trabalho, na vida familiar, mas fazer concessões na arte, ao mercado editorial, é um erro, um triste erro. Tenho vários amigos que pararam de escrever livros de contos, com medo da rejeição da editora ou do leitor, é o mercado dando as cartas, uma tristeza.




*Foto: reprodução do site do autor

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