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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

JULGANDO LIVROS PELA CAPA (3): PORTUGAL X BRASIL

Desde que comecei o blog peguei uma bela ideia emprestada e todos os anos faço uma brincadeira comparando as capas dos mesmos livros em edições portuguesas e brasileiras. Para não perder a tradição faço uma nova rodada nesse ano. Vale lembrar que tamanha diferença entre as capas portuguesas e brasileiras não deve causar muito espanto, afinal cada país tem uma cultura visual muito particular e algo atrai os portugueses pode não atrair os brasileiros - evidentemente. O exercício de olhar as capas lado a lado serve para especular sobre o trabalho do capista na hora de resolver o problema de dar uma cara para um livro e vendê-lo para o leitor.

Digo de antemão que não sou especialista no assunto, portanto estou comentando sem muito compromisso. A caixa de comentários está aberta para quem quiser participar - por favor, fique à vontade. As capas das edições brasileiras estão do lado esquerdo.



1Q84, de Haruki Murakami
É difícil encontrar uma imagem que sintetize a epopeia onírica tão característica desse escritor japonês. Os portugueses optaram por uma capa limpa com uma brincadeira envolvendo o título do livro e uma linha vermelha cortando a brancura do fundo. Nós optamos pelas cores e pelo grafismo que lembra a bandeira do Japão - respeitando a clássica moldura das capas da Alfaguara. As duas não chegam perto da escolha certeira do design norte-americano Chip Kidd (ele optou por usar dois rostos japoneses por baixo do título do romance e deu uma cara para as suas personagens principais), mas foram não deixam de ser boas soluções. Empate.


A confissão da leoa, de Mia Couto
Não tem como fugir das garras dessa leoa, por isso ela aparece nas duas capas. Na versão portuguesa ela é selvagem e ameaçadora frente ao pequeno caçador. A cor amarela é uma marca das capas do selo Caminho, mas não deixa de lembrar o sol tropical de Moçambique. A versão brasileira tem a silhueta misteriosa da leoa, quase fictícia frente ao realismo da fotografia dos meninos pobres. Capta mais a atmosfera do romance. Ponto pra gente.



Laços de família, de Clarice Lispector
Demorou um pouco, mas a fama internacional de Clarice Lispector chegou a Portugal. Isso não quer dizer que ela não era conhecida por lá. Sua redescoberta promoveu uma série de reedições pela Quetzal. A foto da jovem Clarice é linda, mas não deixa de conferir ao livro um ar de biografia. Sendo assim, a capa brasileira ganha pontos por criar uma ilustração que resume alguns contos do livro.



Nada a dizer, de Elvira Vigna
Tem como não se render a bela imobilidade tediosa do casal que está na edição brasileira? Tudo se encaixa perfeitamente: o vazio que cerca o desenho, o equilíbrio das cores etc. No entanto, a edição portuguesa não fica atrás com essa fotografia em preto e branco, o olho fechado e o braço que cobre a boca (a cena muda, como alguns diriam). Empate técnico.


On the road - Pé na estrada, de Jack Kerouac
As duas reedições aproveitaram o lançamento do filme de Walter Salles baseado no livro de Jack Kerouac. A versão brasileira seguiu colada ao cartaz oficial do filme - é uma escolha muito comum para ligar um produto ao outro. Em termos de beleza para os olhos funciona como cartaz, não sei como capa de livro. A fotografia da versão portuguesa tem os inseparaveis amigos beatniks (Kerouac e Cassady - acho que o Burroughs também aparece ao fundo) e pareceu mais clássica. Ponto para os portugueses. Não tem como não sentir certo sorriso ao pensar no título Pela estrada a fora.


Passageiro do fim do dia, de Rubens Figueiredo
Não tem muito que falar da capa portuguesa. A ideia pode até ser boa, mas a realização é ruim. Ponto para a capa brasileira com a fotografia do ônibus em movimento.



Axilas e outras histórias indecorosas, de Rubem Fonseca
A capa brasileira é muito elegante. Passeia entre o sublime e o grotesco, tal qual o título do livro sugere. A capa portuguesa parece mais literal. Só que não deixa de ser bonita com essa cor meio dourada e a ilustração chapada da moça em preto - cena do crime? Outro empate - desculpe.



Serena, de Ian McEwan
A história é igual, mas os títulos são diferentes. Não estranhe. É uma questão de tradução. Seja como for, a nossa capa é a melhor de todas as capas que eu já vi (incluindo as edições em inglês). Ela tem a propriedade de não revelar o rosto, de estar bem contextualizada no tempo e no lugar - uma maravilha. Já a capa portuguesa é meio duvidosa. Mais um ponto pra gente.

*Imagens: divulgação e reprodução.
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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

JULGANDO LIVROS PELA CAPA (2): PORTUGAL X BRASIL

No ano passado peguei uma bela ideia emprestada e fiz uma brincadeira comparando as capas dos mesmos livros em edições brasileiras e portuguesas. Para não perder a tradição e pensando em quanto isso seria divertido, faço uma nova rodada da brincadeira. Tamanha diferença entre as capas portuguesas e brasileiras não deve causar muito espanto, afinal cada país tem uma cultura visual muito particular e algo atrai os portugueses pode não atrair os brasileiros, evidentemente. O exercício de olhar as capas lado a lado servem para especularmos sobre o trabalho do capista na hora de resolver o problema de como dar um rosto a um livro e vendê-lo para o leitor.

Digo de antemão que não sou especialista no assunto, portanto estou comentando sem muito compromisso. A caixa de comentários está aberta para quem quiser participar - por favor, fiquem a vontade. As capas das edições brasileiras estão do lado direito.
A grande arte, de Rubem Fonseca
Na reedição desse grande clássico contemporâneo os dois capistas pensaram na mesma coisa: uma faca. Não é à toa, já que esse elemento traduz bem o enredo do livro. Os portugueses optaram por uma singela ilustração que transpassa a capa e vai a contracapa, ao passo que a edição brasileira escolheu um raio-x dilacerante - para dizer o mínimo. Ponto para as duas.

a máquina de fazer espanhóis, de valter hugo mãe
A capa da Alfaguara portuguesa é bonita, mantém a identidade da marca e tem humor. No entanto, é difícil não se render aos encantos abstratos (querendo ser figurativos) de Lourenço Mutarelli e ao projeto gráfico caprichado da Cosac Naify. Como explica Paulo Chagas no blog da editora "o procedimento remetia aos papéis marmorizados das partes internas de antigas encadernações. Era como se a capa tivesse sido virada do avesso".

A noiva do tigre (A mulher do tigre, em Portugal), de Téa Obreht
Enquanto os portugueses "preferiram" a mesma capa dos norte-americanos, nós criamos um desenho de cores marcantes. Só que a edição portuguesa tem uma certa vantagem de não entregar tudo logo de cara. O tigre pela metade guarda o mistério entre ameaça e ajuda. O tigre da capa brasileira parece mansinho.

Os imperfeccionistas, de Tom Rachman
Um caso curioso de repetição. Tanto a edição portuguesa quanto a edição brasileira optaram pela mesma capa da edição americana. Se não estou enganado a mesma coisa aconteceu na Inglaterra, no Canadá, na Espanha e na Alemanha. Pobreza de ideias? Não sei dizer. Mas qual é o problema de reproduzir uma capa bem limpa e elegante como essa. Nem preciso dizer que o jornal ali diz tudo.

Liberdade, de Jonathan Franzen
Os portugueses seguiram colados a escolha da capa britânica e colocaram um imenso "L" gráfico com o detalhe pequeno da pena. No entanto, nos saímos melhor traduzindo a ideia de "liberdade" ao contrapor uma cerca (em estilo tipicamente americano, mas ao mesmo tempo universal) com um céu cheio de nuvens. Inclusive, acho nossa capa infinitamente superior a da edição norte-americana. Alguma coisa me incomoda naquele pássaro azul e naquelas letras meio de lado.

Livro, de José Luis Peixoto
O carinho de bebê na capa da edição portuguesa revela o ponto de partida do romance, nada que comprometa as surpresas que você vai encontrar no romance. Só que a capa brasileira com letras formando os desenhos dos azulejos portugueses é bem mais interessante - tem até textura por conta do relevo da impressão. Além disso, traduz bem a forma da segunda parte do livro. É bem metonímico o negócio. Nossa diferença cultural me leva a pensar será que em Portugal essa capa faria sentido?

*Tem uma curiosidade a respeito da edição portuguesa: a mesma imagem de capa foi usada no livro Tu ne jugeras point, de Armel Job (um escritor belga). Foi pura coincidência como está explicado aqui.
Os malaquias, de Andréa del Fuego
As duas capas são bonitas. Trabalham com a ideia de família. De qualquer forma, prefiro a capa brasileira: é mais clara e as sombras na parede mantém o segredo sobre a fisionomia das personagens.

Outra vida, de Rodrigo Lacerda
A nossa capa guarda algo de estático, nostálgico, triste. Sensação que as personagens do livro devem experimentar na pele, pois é sobre uma viagem de volta que trata o enredo. A capa portuguesa tem movimento, trânsito e mudança que ganham ares de tristeza graças aos guarda-chuvas abertos. Por mais colorido que sejam não deixa de ser triste.

Pornopopéia, de Reinaldo Moraes
A capa brasileira não revela nada. Parece que é uma foto de Reinaldo Moraes lendo alguma coisa. Serve para destacar o nome do livro em grandes letras vermelhas em cadência divertida. Em contrapartida a capa portuguesa leva a melhor com a brincadeira visual das formas femininas. Pode parecer clichê usar a "natureza" para retratar coisas mais picantes, mas considerando o enredo a imagem tem tudo a ver. Ponto para eles!

Se eu fechar os olhos agora, de Edney Silvestre
A nossa edição é mais bonita. A "limpeza" de informações valoriza a foto no alto. ficou elegante. Já a capa portuguesa vai bem quando recupera elementos do enredo e vai mal quando coloca o título grande em vermelho. Parece que pesou um pouco, embora lembre o jogo de fechar os olhos alertando para abri-los. Será isso?

*Imagens: divulgação e reprodução.

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sexta-feira, 4 de março de 2011

CONTOS DE CARNAVAL


Juro que eu estava preparando um post para falar a respeito dos foliões amantes da literatura. Enquanto elaborava umas ideias na minha cabeça me deparei com a pequena antologia online: contos brasileiros de carnaval orgazinada pelo Sérgio Rodrigues do blog Todoprosa. A ideia é muito boa e inclui contos de João do Rio, Clarice Lispector, Aníbal Machado, Lygia Fagundes Telles, Rubem Fonseca e até um conto inédito de autoria do próprio Sergio Rodrigues - ainda inédito em livro.

Pegando carona, aqui vai a minha contribuição: Duas cartas, de Luis Henrique Pellanda que foi publicado em Macaco ornamental - livro de estréia do escritor que é de Curitiba. Li recentemente e recomendo bastante não só pelo enorme talento do Pellanda, mas também porque tem um outro conto de carnaval chamado Embaixadores de Xanadu. Infelizmente não achei na internet.

Outro conto que pode integrar a antologia online é Um dia de entrudo, de Machado de Assis. Quem disse que ele também não escreveu o seu.

Alguém se lembra de mais algum?

*imagem: reprodução Google.
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segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

NOTAS #16


Tchekhov em tirinhas
O cartunista Ben Greenman resolveu fazer um resenha diferente para um livro de Anton Tchekhov: uma tirinha. Bem humorado, o cara viu nos contos do autor russo um paralelo com a vida de diversas personalidades americanas. Vale uma leitura rápida, não leva nem cinco minutos. A tirinha completa está disponível em http://tinyurl.com/4vlkufn

Literatsi
O blog Literatsi está lançando na internet uma revista digital sobre literatura. O editor do blog e da revista, Luiz Fernando Cardoso, tocou todo o projeto para colocar o primeiro número no ar. Ele conta que esse número ficou um pouco atrasado por conta de alguns problemas, por isso algumas seções estão um pouco desatualizadas. De qualquer ele já está convidando colaboradores para o próximo número. O primeiro número da revista e mais informações estão disponíveis em http://tinyurl.com/4g79fja

Blog
O Instituto Moreira Salles está estreando um blog - http://blogdoims.uol.com.br/. Por enquanto já tem um debate em vídeo, textos da revista Serrote assinados por Boris Schnaidermann e um texto de Davi Arrigucci Jr. sobre um quadro de Ismael Nery. Para quem quer saber sobre ficção o destaque será a seção de correspondência entre o escritor Daniel Galera e o editor André Conti.

Book trailer
A editora Agir colocou no youtube um trailer incrível do livro O seminarista, de Rubem Fonseca lançado em 2009. Fonseca tem fama de ser avesso às entrevistas e aparições em público, mas por incrível que pareça ele é o narrador deste vídeo. O gesto lembra Thomas Pynchon que também é o narrador no trailer do livro Vício inerente. O vídeo de O seminarista produzido pelo pessoal do Retina 78 está disponível em http://tinyurl.com/ygkxdgz

Influências
O escritor americano Adam Levin publicou no ano passado The instructions - seu primeiro romance com mais de 1000 páginas. Ele disse que escreveu o livro influenciado por Infinite Jest, de David Foster Wallace - um romance tão grande quanto o seu. Entre outras influências ele citou Don Dellilo, Philip Roth e George Saunders. The instructions foi bastante comentado por conta do seu tamanho, mas passado o choque inicial o romance tem recebido críticas bastante positivas.

*imagem: reprodução da tirinha de Ben Greenman.

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sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

APOSTAS PARA 2011 - NACIONAIS E ESTRANGEIRAS


Mal começou o ano e todo mundo já quer saber quais lançamentos vão agitar o mercado editorial em 2011. Não sei como funciona esse negócio de anunciar com tanta antecedência as apostas para o ano que está começando, mas tradicionalmente nossas editoras não costumam comentar muito o assunto. Fuçando os jornais e alguns blogs foi possível descobrir bastante coisa - pode ser que a coisa esteja mudando.

Além dos títulos que estou listando abaixo, sei que muitos dos escritores da lista "20 escritores brasileiros com menos de 40" estão preparando novos romances. Não sei dizer se serão publicados em 2011.

Se alguém descobrir ou lembrar de algum outro lançamento e quiser contribuir, por favor, me mande um sinal de fumaça. Prometo ficar de olho e atualizar a lista a medida que receber as informações.

EDITORA RECORD
La carte et le territoire (O mapa e o território), de Michel Houellebecq
Parrot and Olivier in America, de Peter Carey
Nosso fiel traidor, de John Le Carré
Felicidade é fácil, de Edney Silvestre
Em silêncio, de Tatiana Salem Levy
Seria uma sombria noite secreta, de Raimundo Carrero
O cemitério de Praga, de Umberto Eco

EDITORA NOVA FRONTEIRA
The long song, de Andrea Levy
Bárnabo das montanhas, de Dino Buzzati
Tinkers, de Paul Harding

AGIR
O novo romance (ainda sem nome) de Rubem Fonseca

EDITORA ROCCO
Everything ravaged, everything burned, de Wells Tower
Minuto de silêncio, de Siegfrid Lenz

COSAC NAIFY
Guerra e paz, de Liev Tolstói
Dublinesca, de Enrique Vila-Matas**

COMPANHIA DAS LETRAS
Nemesis, de Philip Roth
Freedom, de Jonatham Franzen
Blanco nocturno, de Ricardo Piglia
Contra o dia, de Thomas Pynchon
O terceiro Reich, de Roberto Bolaño
A ninfa inconstante, de Cabrera Infante
O novo romance (ainda sem nome) de Sérgio Sant'Anna, pela coleção Amores Expressos
Os últimos soldados da Guerra Fria, de Fernando Morais
Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas, de José Saramago
Tanto faz, de Reinaldo Moraes (reedição)
Asterios Polyp, de David Mazzucchelli (graphic novel)**
The thousand autumns of Jacob de Zoet, de David Mitchell**
Autobiografia de Julian Assange (fundador da Wikileaks)**
Sunset Park, de Paul Auster**
O balanço da respiração, de Herta Müller**
Últimos dias, de Liev Tolstói**
Mecanismos internos, de J. M. Coetzee (um livro de ensaios)**
Guerra aérea e literatura, de W. G. Sebald**

ALFAGUARA
O sonho do Celta, de Mario Vargas Llosa
Sôbolos rios que vão, de António Lobo Antunes**

ESTAÇÃO LIBERDADE
O mestre do go, de Yasunari Kawabata**
O castelo de Yodo, de Yasushi Inoue**
Naná, de Emile Zola**

PETROBRAS CULTURAL
Guia de ruas sem saída, de Joca Reiners Terron - com desenhos de André Ducci

No mundo anglófono existem cronogramas em jornais, sites e blogs anunciando lançamentos previstos até o mês de dezembro. Listo abaixo alguns dos lançamentos mais esperados do ano nos Estados Unidos e Inglaterra - destaque para o livro inacabado de David Foster Wallace que já está sendo considerado por lá o lançamento do ano:

The empty family, de Colm Tóibín
While mortals sleep, de Kurt Vonnegut
You think that’s bad, de Jim Shepard
The tiger’s wife, de Tea Obreht
The pale king, de David Foster Wallace
The great night, de Chris Adrian
Between parentheses: essays, articles and speeches 1998-2003, de Roberto Bolaño
Say her name, de Francisco Goldman
Mondo and other stories, de J.M.G. Le Clezio
The tao of travel, de Paul Theroux
1Q84, de Haruki Murakami (terceiro volume)
The forgotten waltz, de Anne Enright
The new republic, de Lionel Shriver
Hot pink, de Adam Levin
The terrible privacy of Maxwell Sim, de Jonathan Coe

*imagem: capa do livro The pale king, de David Foster Wallace.
** Update - Atualização


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sábado, 24 de julho de 2010

FAMA E ANONIMATO: OS ESCRITORES BRASILEIROS MAIS RECLUSOS

O blog Flavorpill fez um post sobre os autores mais reclusos do século XX (In Defense of Privacy: The 20th Century’s Most Reclusive Authors) defendendo o direito a privacidade dos escritores que abriram mão da vida pública para escrever livros - e no caso de Harper Lee, o isolamento foi tamanho que ela até abandonou a literatura de vez. A lista incluí ainda Marcel Proust, J.D. Salinger, Thomas Pynchon e Cormac McCarthy.

Como diz o blog: "Na era em que a autopromoção é difundida em apenas 140 caracteres, a ideia de um autor recluso parece tanto contra-intuitiva e estranhamente romântica".

Inspirado por essa ideia resolvi descobrir quais são os nossos escritores mais reclusos, mais avessos à aparição em público, mais isolados da imprensa. Nas minhas rápidas pesquisas e até onde pude me lembrar, encontrei três renomados eremitas: Raduan Nassar, Dalton Trevisan e Rubem Fonseca. Curiosamente os três cursaram Direito, deixam claro que suas obras falam por si e são vistos apenas nas redondezas onde moram.

RADUAN NASSAR

Imagine que você é um escritor de sucesso, ganhador de importantes prêmios literários, uma verdadeira promessa da nova literatura brasileira. E de repente, no auge de sua carreira, você resolve abandonar tudo e parar de escrever. Foi mais ou menos isso o que aconteceu com Raduan Nassar. Até hoje muita gente não consegue compreender o que o levou a fazer isso. Nassar diz que para escrever é preciso ter paixão, vontade de dizer alguma coisa que seja verdadeiramente interessante. Para ele, essa sensação acabou.

Desde então, Nassar resolveu cuidar de sua criação de coelhos e raramente aparece ou fala sobre o assunto. A última entrevista que ele concedeu foi para a série Cadernos de Literatura do Instituto Moreira Salles, em 1996.

Num dos momentos dessa entrevista ele diz: "Nunca pensei em expor qualquer teoria a respeito do meu minguado trabalho, nem vejo sentido nisso. Ou esse trabalho fala por ele mesmo, sem o socorro de qualquer suporte teórico, ou deve ser descartado".

Raduan Nassar escreveu Lavoura arcaica, Um copo de cólera e Menina a caminho e outros textos (contos). Um detalhe: toda a obra dele foi escrita entre os anos 60/70.

DALTON TREVISAN

Eis o caso de um escritor que tem tanta fama de recluso que acabou virando um mito. Do tipo, personagem de si mesmo. Ganhou até o apelido de Vampiro de Curitiba - mas nem pense nesses vampiros modernos. Dalton Trevisan foi fotografado pouquíssimas vezes e concedeu raríssimas entrevistas. Pode parecer exagero, mas parece que sua última e única entrevista foi para o repórter Mussa José de Assis, do Estadão, em 1972. Além disso, saiu alguma coisa aqui e ali.

Para suprir essa lacuna, alguns jornalistas chegaram a inventar entrevistas fictícias com Trevisan falando do atual estado da literatura. Inclusive, algumas delas são hilariantes e até passariam por verdadeiras, não fosse a fama de ermitão que ele tem.

Ao contrário de Nassar, Dalton Trevisan continua escrevendo e sua obra é bastante extensa. Dizem que ele é visto passeando por Curitiba, de dia e à noite.

RUBEM FONSECA

Quem o conhece pessoalmente diz que ele é uma pessoa simples, afável e de ótimo humor. Aliás, Luiz Schwarcz, editor da Companhia das Letras, escreveu um texto delicioso em sua coluna no blog da editora falando sobre como a obra de Fonseca chegou até as suas mãos. Porém, os jornalistas e os leitores sabem que Rubem Fonseca não gosta de aparecer e nem de dar entrevistas.

Mas nem sempre foi assim. Parece que antes da famosa reclusão, Rubem Fonseca dava palestras e falava longamente sobre seus livros. De uma hora para outra ele cansou e resolveu sumir. No entanto, as histórias de luxúria e violência que povoam os seus contos e romances aguçam a curiosidade de muita gente. Novos escritores, estudantes, críticos, jornalistas e leitores querem ouvir o que ele tem a dizer sobre a sua literatura.

Recentemente, Fonseca fez uma rápida aparição na Livraria da Vila em São Paulo para o lançamento do livro de Paula Parisot. Na ocasião, ele até falou rapidamente com a imprensa e com o público que estava por lá. Fora isso, ele é visto no calçadão das praias cariocas, anonimamente.

Rubem Fonseca é dono de uma grande produção literária e continua escrevendo novos livros. Sua obra agora está sendo reeditada pela editora Leya aqui no Brasil.

* imagens: reprodução do Google.

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segunda-feira, 24 de maio de 2010

RELANÇAMENTO DOS ROMANCES DE PATRÍCIA MELO

A escritora Patrícia Melo está de editora nova, seus livros estão sendo publicados pela Rocco. Já foram relançados Accqua Toffana e O Matador. Devem ser relançados essa semana Elogio da Mentira e Inferno. Todas essas novidades serão uma boa oportunidade para os leitores conhecerem ou reavaliarem melhor o trabalho da escritora. Esse quatro romances, particularmente, me causaram bastante entusiasmo quando os li no primeiro lançamento nos anos 90.

Eu tenho a impressão de que até hoje Patrícia Melo não recebeu a atenção que merecia. Talvez pela comparação que fazem ao escritor Rubem Fonseca. Muita gente tem verdadeira aversão a ele e ao culto que os escritores mais novos dedicam ao seu estilo narrativo. Muito se diz por aí que Rubem Fonseca matou uma geração inteira de novos escritores.


Pensando assim seria um crime recomendar Patrícia Melo aos leitores mais novos. Mas é difícil evitar a recomendação por que os romances dela tratam de temas bastante próximos a nossa realidade cotidiana: a violência, a cidade de São Paulo ou do Rio de Janeiro, etc. Isso sem contar a grande agilidade com que os enredos são desenvolvidos, de maneira quase cinematográfica. E sinceramente, acredito que tratar os romances dela como um mero caso de influência é reduzir demais uma obra importante da nossa literatura contemporânea.


*imagem: divulgação

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