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domingo, 18 de março de 2012

FLIP 2012 ATÉ AGORA...


Faltam pouco mais de três meses para o início da décima edição da FLIP e até agora temos 14 nomes confirmados - ou seja, estamos chegando a metade da programação oficial considerando a média de 30 convidados por ano. Na mesa de abertura teremos Silviano Santiago falando sobre Carlos Drummond de Andrade - o poeta mineiro que será o grande homenageado.

Por causa dos dez anos da FLIP, a organização está convidando escritores que já estiveram em edições passadas. Com isso voltam Ian McEwan (veio em 2004), Enrique Vila-Matas (veio em 2005 e também esteve por aqui ano passado no Congresso da revista CULT) e o gaúcho Luis Fernando Veríssimo (segundo informação do jornal O Globo ele esteve na FLIP em 2003, 2004, 2005 e 2008).

Se a FLIP pretende chamar um grande nome de cada edição passada quero fazer uma sugestão: poderíamos ter a escritora Toni Morrison, de 2006 (ela vai lançar novo romance nesse ano); César Aira, de 2007 - já que J.M. Coetzee não vem; e Michel Laub, de 2008 (autor de um dos melhores romances do ano passado).

Vem pela primeira vez o espanhol Javier Cercas, a cubana Zoé Valdés, os norte-americanos Jennifer Egan, Jonathan Franzen e Teju Cole (apesar de ter nascido nos Estados Unidos foi criado na Nigéria), o francês Jean-Marie Gustave Le Clézio e o poeta sírio - e sempre candidato ao Prêmio Nobel - Adonis. Da parte dos críticos vem Richard Sennett, Stephen Jay Greenblatt e James Shapiro, os dois últimos são especialistas em Shakespeare. Na semana passada, a Companhia das Letras confirmou a participação do português José Luis Peixoto na programação paralela da Festa.

Nos últimos dez anos, o crescimento em todo o Brasil das feiras literárias, congressos, eventos e lançamentos com a participação de escritores diluíram um pouco o impacto da programação da FLIP na opinião pública. Isso não quer dizer que a Festa esteja se tornando irrelevante. Pelo contrário, a FLIP ajudou a construir o nosso "mercado" de eventos literários de grande porte (pelo que me lembro, antes a gente só tinha a Bienal do Livro) e continua sendo a maior do setor. Somente um evento de prestígio internacional como a FLIP pode trazer alguns medalhões da literatura mundial como o poeta Adonis e o escritor Jonathan Franzen, para citar dois convidados desse ano. Não é aleatória a escolha da revista Granta de anunciar seu número especial com os melhores jovens escritores brasileiros durante a Festa. Também não podemos desprezar a enorme movimentação nas vendas de livros. Um escritor convidado para a FLIP certamente vende muito bem - ainda mais quando sua participação comove a platéia.

Lembro de ter lido em algum lugar que os organizadores da FLIP, Liz Calder e Mauro Munhoz, tem planos de expandi-la para Campinas, Porto Feliz e até para a Inglaterra. O que lembra muito Hay Festival, evento que inspirou a FLIP e tem ramificações em várias partes do mundo. Enquanto a expansão não acontece alguns autores convidados ficam no Brasil e participam de lançamentos ou palestras em São Paulo e no Rio.

Mais nomes internacionais devem aparecer em breve. Os nomes nacionais costumam ser anunciados por último. Espero que eles apareçam aos montes. Vamos cruzar os dedos.

*Imagem: reprodução do Flickr da FLIP.

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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

VALTER HUGO MÃE x JOSÉ LUIS PEIXOTO

Em termos de popularidade entre os leitores brasileiros não tem para ninguém, o grande escritor português contemporâneo é Valter Hugo Mãe. Nem me atrevo a dizer o contrário. Quem esteve presente na FLIP do ano passado sabe muito bem do que estou falando. Não é para menos, além das qualidades literárias, Hugo Mãe esbanjou simpatia e conhecimentos sobre o Brasil - conquistou o coração de muitas meninas e até cantou numa festa. Um pouco antes do fenômeno chegar ao Brasil, José Saramago tentou nos avisar dizendo que Hugo Mãe era um verdadeiro "tsunami literário". Não deu outra, a comoção foi geral na crítica literária e na platéia da FLIP também.
Apesar de ter vindo duas vezes ao Brasil (na FLIP, em 2005, e na FLIPorto, em 2009) e ter publicado três romances por aqui (

Nenhum olhar, Cemitério de pianos e Uma casa na escuridão), José Luis Peixoto, o conterrâneo três anos mais velho que Hugo Mãe, ainda não teve a mesma sorte. Quem sabe as coisas sejam diferentes com o recém lançamento de Livro, pela Companhia das Letras.

Comparar Peixoto com Hugo Mãe pode parecer uma bobagem tamanha. No entanto, os dois estão ligados a um tipo muito particular de narrativa experimental - estou considerando especificamente os romances que li: o remorso de baltazar serapião e Livro. Ambos atualizam a força da "linguagem arcaica" para fazer brotar uma prosa repleta de beleza e novidade. Outro detalhe: ambos foram ganhadores do Prêmio Literário José Saramago - Peixoto em 2001, Hugo Mãe em 2007.
Hugo Mãe vai a oralidade do "português medieval" para contar a história da família dos sargas e da desastrosa aventura amorosa de baltazar serapião num tempo em que as mulheres tinham de serem submetidas aos desígnios dos homens. Ao longo do percurso elementos de realismo mágico (ou a figura das bruxas medievais) são evocados para dar um brilho especial ao enredo.

Aqui cabe uma outra explicação importante: olhando de maneira ampla, o remorso de baltazar serapião faz parte de uma tetralogia imaginada pelo autor para representar um ciclo de tempo completo da vida humana. Projeto radicalmente inventivo, por si só. Assim, o nosso reino é a história de uma criança de 8 anos, o remorso de baltazar serapião é um romance sobre o começo da vida adulta, o apocalipse dos trabalhadores fala de mulheres trabalhadoras aos 40 anos e a máquina de fazer espanhóis trata da terceira idade (um barbeiro de 84 anos).

Peixoto recorre a oralidade do português da Vila Galveias, onde nasceu e viveu até os dezoito anos. Dizem que sua ideia era registrar aquela maneira antiga de falar para que não sumisse do mapa. Pela dificuldade que os leitores (mesmo portugueses) teriam, o projeto foi parcialmente abandonado. Livro é ao mesmo tempo a história da migração de portugueses para França em busca de melhores condições de vida, quanto uma história metalinguística do romance contemporâneo. Ao realismo mágico de Hugo Mãe, Peixoto contrapõe o que batizou de realismo mitológico - as personagens do romance estão próximas dos semideuses da mitologia grega.

A experimentação radical de Peixoto está concentrada na segunda parte de Livro. Me lembrou nouveau roman, OuLiPo, jogos de linguagem etc. Não fica apenas nisso. Tudo o que acontece na segunda parte está intimamente relacionado a primeira parte, mais recheada no enredo, na trama, na fábula, como preferirem. Graças ao recorte inovador a história das personagens da pequena vila portuguesa fica mais enriquecida. O que ele fez não é coisa que qualquer um consiga fazer. Pelo que li, em Portugal o trabalho foi classificado como o mais maduro de José Luis Peixoto. Livro é um grande livro (com o perdão do trocadilho meio clichê).

Tomara que um pouco da popularidade de Hugo Mãe possa migrar para Peixoto - um grande escritor a ser descoberto, como tantos. Semelhanças os dois tem de sobra. Alguém arrisca um trabalho de literatura comparada?

*Imagem: reprodução Google.

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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

JULGANDO LIVROS PELA CAPA (2): PORTUGAL X BRASIL

No ano passado peguei uma bela ideia emprestada e fiz uma brincadeira comparando as capas dos mesmos livros em edições brasileiras e portuguesas. Para não perder a tradição e pensando em quanto isso seria divertido, faço uma nova rodada da brincadeira. Tamanha diferença entre as capas portuguesas e brasileiras não deve causar muito espanto, afinal cada país tem uma cultura visual muito particular e algo atrai os portugueses pode não atrair os brasileiros, evidentemente. O exercício de olhar as capas lado a lado servem para especularmos sobre o trabalho do capista na hora de resolver o problema de como dar um rosto a um livro e vendê-lo para o leitor.

Digo de antemão que não sou especialista no assunto, portanto estou comentando sem muito compromisso. A caixa de comentários está aberta para quem quiser participar - por favor, fiquem a vontade. As capas das edições brasileiras estão do lado direito.
A grande arte, de Rubem Fonseca
Na reedição desse grande clássico contemporâneo os dois capistas pensaram na mesma coisa: uma faca. Não é à toa, já que esse elemento traduz bem o enredo do livro. Os portugueses optaram por uma singela ilustração que transpassa a capa e vai a contracapa, ao passo que a edição brasileira escolheu um raio-x dilacerante - para dizer o mínimo. Ponto para as duas.

a máquina de fazer espanhóis, de valter hugo mãe
A capa da Alfaguara portuguesa é bonita, mantém a identidade da marca e tem humor. No entanto, é difícil não se render aos encantos abstratos (querendo ser figurativos) de Lourenço Mutarelli e ao projeto gráfico caprichado da Cosac Naify. Como explica Paulo Chagas no blog da editora "o procedimento remetia aos papéis marmorizados das partes internas de antigas encadernações. Era como se a capa tivesse sido virada do avesso".

A noiva do tigre (A mulher do tigre, em Portugal), de Téa Obreht
Enquanto os portugueses "preferiram" a mesma capa dos norte-americanos, nós criamos um desenho de cores marcantes. Só que a edição portuguesa tem uma certa vantagem de não entregar tudo logo de cara. O tigre pela metade guarda o mistério entre ameaça e ajuda. O tigre da capa brasileira parece mansinho.

Os imperfeccionistas, de Tom Rachman
Um caso curioso de repetição. Tanto a edição portuguesa quanto a edição brasileira optaram pela mesma capa da edição americana. Se não estou enganado a mesma coisa aconteceu na Inglaterra, no Canadá, na Espanha e na Alemanha. Pobreza de ideias? Não sei dizer. Mas qual é o problema de reproduzir uma capa bem limpa e elegante como essa. Nem preciso dizer que o jornal ali diz tudo.

Liberdade, de Jonathan Franzen
Os portugueses seguiram colados a escolha da capa britânica e colocaram um imenso "L" gráfico com o detalhe pequeno da pena. No entanto, nos saímos melhor traduzindo a ideia de "liberdade" ao contrapor uma cerca (em estilo tipicamente americano, mas ao mesmo tempo universal) com um céu cheio de nuvens. Inclusive, acho nossa capa infinitamente superior a da edição norte-americana. Alguma coisa me incomoda naquele pássaro azul e naquelas letras meio de lado.

Livro, de José Luis Peixoto
O carinho de bebê na capa da edição portuguesa revela o ponto de partida do romance, nada que comprometa as surpresas que você vai encontrar no romance. Só que a capa brasileira com letras formando os desenhos dos azulejos portugueses é bem mais interessante - tem até textura por conta do relevo da impressão. Além disso, traduz bem a forma da segunda parte do livro. É bem metonímico o negócio. Nossa diferença cultural me leva a pensar será que em Portugal essa capa faria sentido?

*Tem uma curiosidade a respeito da edição portuguesa: a mesma imagem de capa foi usada no livro Tu ne jugeras point, de Armel Job (um escritor belga). Foi pura coincidência como está explicado aqui.
Os malaquias, de Andréa del Fuego
As duas capas são bonitas. Trabalham com a ideia de família. De qualquer forma, prefiro a capa brasileira: é mais clara e as sombras na parede mantém o segredo sobre a fisionomia das personagens.

Outra vida, de Rodrigo Lacerda
A nossa capa guarda algo de estático, nostálgico, triste. Sensação que as personagens do livro devem experimentar na pele, pois é sobre uma viagem de volta que trata o enredo. A capa portuguesa tem movimento, trânsito e mudança que ganham ares de tristeza graças aos guarda-chuvas abertos. Por mais colorido que sejam não deixa de ser triste.

Pornopopéia, de Reinaldo Moraes
A capa brasileira não revela nada. Parece que é uma foto de Reinaldo Moraes lendo alguma coisa. Serve para destacar o nome do livro em grandes letras vermelhas em cadência divertida. Em contrapartida a capa portuguesa leva a melhor com a brincadeira visual das formas femininas. Pode parecer clichê usar a "natureza" para retratar coisas mais picantes, mas considerando o enredo a imagem tem tudo a ver. Ponto para eles!

Se eu fechar os olhos agora, de Edney Silvestre
A nossa edição é mais bonita. A "limpeza" de informações valoriza a foto no alto. ficou elegante. Já a capa portuguesa vai bem quando recupera elementos do enredo e vai mal quando coloca o título grande em vermelho. Parece que pesou um pouco, embora lembre o jogo de fechar os olhos alertando para abri-los. Será isso?

*Imagens: divulgação e reprodução.

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