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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

VALTER HUGO MÃE x JOSÉ LUIS PEIXOTO

Em termos de popularidade entre os leitores brasileiros não tem para ninguém, o grande escritor português contemporâneo é Valter Hugo Mãe. Nem me atrevo a dizer o contrário. Quem esteve presente na FLIP do ano passado sabe muito bem do que estou falando. Não é para menos, além das qualidades literárias, Hugo Mãe esbanjou simpatia e conhecimentos sobre o Brasil - conquistou o coração de muitas meninas e até cantou numa festa. Um pouco antes do fenômeno chegar ao Brasil, José Saramago tentou nos avisar dizendo que Hugo Mãe era um verdadeiro "tsunami literário". Não deu outra, a comoção foi geral na crítica literária e na platéia da FLIP também.
Apesar de ter vindo duas vezes ao Brasil (na FLIP, em 2005, e na FLIPorto, em 2009) e ter publicado três romances por aqui (

Nenhum olhar, Cemitério de pianos e Uma casa na escuridão), José Luis Peixoto, o conterrâneo três anos mais velho que Hugo Mãe, ainda não teve a mesma sorte. Quem sabe as coisas sejam diferentes com o recém lançamento de Livro, pela Companhia das Letras.

Comparar Peixoto com Hugo Mãe pode parecer uma bobagem tamanha. No entanto, os dois estão ligados a um tipo muito particular de narrativa experimental - estou considerando especificamente os romances que li: o remorso de baltazar serapião e Livro. Ambos atualizam a força da "linguagem arcaica" para fazer brotar uma prosa repleta de beleza e novidade. Outro detalhe: ambos foram ganhadores do Prêmio Literário José Saramago - Peixoto em 2001, Hugo Mãe em 2007.
Hugo Mãe vai a oralidade do "português medieval" para contar a história da família dos sargas e da desastrosa aventura amorosa de baltazar serapião num tempo em que as mulheres tinham de serem submetidas aos desígnios dos homens. Ao longo do percurso elementos de realismo mágico (ou a figura das bruxas medievais) são evocados para dar um brilho especial ao enredo.

Aqui cabe uma outra explicação importante: olhando de maneira ampla, o remorso de baltazar serapião faz parte de uma tetralogia imaginada pelo autor para representar um ciclo de tempo completo da vida humana. Projeto radicalmente inventivo, por si só. Assim, o nosso reino é a história de uma criança de 8 anos, o remorso de baltazar serapião é um romance sobre o começo da vida adulta, o apocalipse dos trabalhadores fala de mulheres trabalhadoras aos 40 anos e a máquina de fazer espanhóis trata da terceira idade (um barbeiro de 84 anos).

Peixoto recorre a oralidade do português da Vila Galveias, onde nasceu e viveu até os dezoito anos. Dizem que sua ideia era registrar aquela maneira antiga de falar para que não sumisse do mapa. Pela dificuldade que os leitores (mesmo portugueses) teriam, o projeto foi parcialmente abandonado. Livro é ao mesmo tempo a história da migração de portugueses para França em busca de melhores condições de vida, quanto uma história metalinguística do romance contemporâneo. Ao realismo mágico de Hugo Mãe, Peixoto contrapõe o que batizou de realismo mitológico - as personagens do romance estão próximas dos semideuses da mitologia grega.

A experimentação radical de Peixoto está concentrada na segunda parte de Livro. Me lembrou nouveau roman, OuLiPo, jogos de linguagem etc. Não fica apenas nisso. Tudo o que acontece na segunda parte está intimamente relacionado a primeira parte, mais recheada no enredo, na trama, na fábula, como preferirem. Graças ao recorte inovador a história das personagens da pequena vila portuguesa fica mais enriquecida. O que ele fez não é coisa que qualquer um consiga fazer. Pelo que li, em Portugal o trabalho foi classificado como o mais maduro de José Luis Peixoto. Livro é um grande livro (com o perdão do trocadilho meio clichê).

Tomara que um pouco da popularidade de Hugo Mãe possa migrar para Peixoto - um grande escritor a ser descoberto, como tantos. Semelhanças os dois tem de sobra. Alguém arrisca um trabalho de literatura comparada?

*Imagem: reprodução Google.

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