segunda-feira, 7 de abril de 2014

REVISTAS LITERÁRIAS PARA TODOS

Faz tempo que eu não recomendo revistas literárias por aqui e acho bem oportuno fazê-lo nesse momento, pois elas vivem uma fase interessante tendo que reinventar-se quando todo mundo só fala na crise vertiginosa que assola o mercado. É sintomático que seja assim. Não dizem que quando uma coisa morre é que ela ganha importância.


SILVA #4
Eu bem que tentei, mas não descobri nada a respeito do quarto número do SILVA (eu tenho os três anteriores). Só sei que tem uma ficção do Ricardo Lísias e uma resenha de Victor da Rosa sobre Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Para quem não conhece, o SILVA é um pequeno fanzine artesanal organizado pelo Lísias com distribuição gratuíta - o lema é "se dobra, mas não se vende". 


Jandique 
A revista organizada pela editora Encrenca, de Curitiba, completa seu primeiro ano de vida e coloca na rua sua quinta edição. Seu foco é a literatura curitibana e dessa vez as páginas são ocupadas com textos de Valêncio Xavier, Marcelo Sandmann, Vanessa C. Rodrigues, Luiz Felipe Leprevost, Daniel Zanella, entre outros. O destaque é a entrevista com  Caetano W. Galindo


Paris Review
A revista literária mais glamourosa do gênero vai publicar uma nova edição especialíssima com trechos de um romance recém-descoberto de Roberto Bolaño, textos de ficção de Lydia Davis e entrevistas com Cormac McCarthy e Thomas Pynchon (como vocês sabem ele é recluso, avesso a fotos, aparições e badalações). O portolio fotográfico é assinado por Salman Rushdie - que aderiu a moda dos 'selfies'.


Arte & Letra 
Voltada para a ficção e tradução de autores inéditos em português chega a edição "X". Tem textos de Julio Cortázar, Caetano W. Galindo, Suzana Montoro, Ivana Arruda Leite, Peter Panter, Luiz Ruffato e muitos outros.


McSweeney's 
Dave Eggers e sua equipe de editores não se cansam de fazer a revista literária trimestral mais inventiva do momento - existe desde 1998. Cada número parece único. Sua nova edição (de número 46) é totalmente dedicada a América Latina e reúne 13 histórias de crime com autores de dez países diferentes. Entre os Tem Alejandro Zambra, Santiago Roncagliolo, Juan Pablo Villalobos (praticamente brasileiro morando em Campinas e falando um português fluente), Joca Reiners Terron, Bernardo Carvalho e Carol Bensimon.


Revista Mapa 
É mais jovem de todas as revistas dessa lista e chega ao seu segundo número. Também vem de Curitiba e publica apenas ensaios, resenhas e artigos voltados ao universo literário em diagramação jovem e cheia de ilustrações bacanas. Os editores firmaram uma parceria estrangeira e publicam com exclusividade textos do New York Times e The New York Review of Books. Para termos uma ideia, esse número tem Margaret Atwood, Joyce Carol Oates, Mohsin Hamid, Zoë Heller, Vanessa C. Rodrigues, Luís Henrique Pellanda e muito mais. Tudo gratuíto.


Serrote 
Embora seja dedicada ao ensaio (esse gênero que acomoda todos os assuntos do mundo - para entender melhor vale ler "O ensaio e sua prosa", de Max Bense que está nessa edição) e as artes, essa charmosa revista também publica textos de ficção. Em seu novo número tem textos de W.H. Auden, Delmore Schwartz e Lou Reed. Destaque também para o ensaio de anotações visuais de Antonio Dias.


Granta (inglesa) 
Fechando a lista, a revista literária mais antiga ainda em atividade de que se tem notícia. Apesar de ter estendido seus domínios pelo mundo abrindo edições em línguas estrangeiras, a revista inglesa original não perde sua força. Se não estou enganado, o número que deve sair nas próximas semanas no Reino Unido será o primeiro sem o antigo editor, John Freeman. Será dedicado inteiramente ao Japão (e vai sair quase concomitantemente a versão japonesa da Granta) tem Adam Johnson, Tao Lin, David Mitchell, Ruth Ozeki e muito mais.

Bom, por enquanto é só. Se vc tiver algum fanzine ou revista do gênero e quiser divulgar por aqui, por favor, entre em contato.

*Imagem: reprodução de capas das revistas.
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segunda-feira, 31 de março de 2014

PROSA DE FICÇÃO BRASILEIRA EM 1964


Dan Brown e Rick Riordan nasceram em junho de 1964 e por serem recém-nascidos não tinham como saber o que se passava no Brasil, um longínquo país da América do Sul. Eles tão pouco podiam imaginar que anos mais tarde seriam dois dos maiores best-sellers da literatura "de aventura", vamos dizer assim. O fato é que em 1º de abril daquele ano, as Forças Armadas do Brasil tomaram o poder e instalaram no país o regime militar - ou ditadura militar - que durou por vinte e um anos. Foi um período obscuro para as liberdades individuais (houve censura brava aos meios de comunicação, repressão, exílio e tortura para pessoas opostas aos ideais do regime etc.), mas bastante iluminado para a cultura brasileira e para a nossa literatura, especialmente.

Naquele ano de 64, enquanto Jean-Paul Sartre ganhava o Prêmio Nobel de Literatura* e Saul Bellow publicava Herzog**, as editoras Civilização Brasileira, José Olympio, Martins e Editora do Autor eram responsáveis por alimentar as livrarias com uma enxurrada de livros de ficção. Essa produção era absorvida pela crítica em revistas, jornais e suplementos culturais que serviam como parâmetro para os leitores decidirem o que era interessante ou não (foi um período áureo porque tínhamos a revista Senhor, a Revista Civilização Brasileira, o suplemento literário do Jornal do Brasil etc.).

Infelizmente, dados sobre as tiragens e a quantidade de exemplares vendidos que poderiam apontar a circulação da nossa literatura entre os nossos leitores dependeria de uma pesquisa mais aprofundada e não consegui encontrar muita coisa. Considerando alguns dados do IBGE, não éramos um país de muitos leitores (há quem considere que não somos até hoje), pois a taxa de analfabetismo no Brasil na década de 60 era de 40,233% (faixa de pessoas com 15 anos e mais), ou seja, quase metade da população era incapaz de ler. Assim, a literatura brasileira era algo restrito a classe média que tinha dinheiro para consumir e aos círculos estudantis - trocando em miúdos, era coisa de intelectual. Embora a palavra "intelectual" soe pejorativa, vale dizer que durante todo o regime militar (sobretudo até 1968 quando acontece o AI-5) os intelectuais assumiram um papel central no debate político e na mobilização contra a repressão/censura uma vez que a cultura era o único espaço possível para exercício da liberdade.

A prosa de ficção brasileira publicada naquele ano não refletia diretamente o espírito de chumbo dos anos que viriam. Talvez esse papel estivesse reservado à crônica do período que saia diariamente nos jornais, sobretudo no trabalho de Carlos Heitor Cony cujo ponto alto de combate direto ao regime está em O ato e o fato, publicado naquele ano no calor da hora***. Olhando para um conjunto delimitado de lançamentos do ano de 1964 e sob um ponto de vista muito particular (o meu) considero que vivíamos um grande momento de experimentação formal do romance capaz de garantir a nossa literatura uma qualidade de alto nível - vide a prosa de introspecção de Autran Dourado, Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles, o nonsense humorístico de Campos de Carvalho e o jogo linguístico de Guimarães Rosa. Na outra ponta, também tínhamos a força da literatura regional com caráter de denúncia - vide Jorge Amado e José Cândido de Carvalho. No meio de campo tínhamos os contos enxutos e inventivos de Dalton Trevisan - vale registrar que Rubem Fonseca tinha acabado de publicar seu livro de estreia Os prisioneiros (1963).

Embora esse conjunto de obras seja primoroso houve uma divisão de opiniões em relação às mudanças que a literatura sofreu por conta do regime militar. Uma parte da crítica e da turma intelectual engajada classificava os romances psicológicos como alienados porque não tomavam partido da realidade social do país contra a política vigente. Já os romances realistas daquele ano pareciam demasiado alegóricos para o radicalismo político e a indignação com o estado das coisas. Foi com o endurecimento do regime nos anos pós-64, fechando editoras, caçando seus editores e proibindo a publicação de livros que nossa ficção pode absorver melhor a situação.

Um relato fidedigno, embora impregnado pelo espírito e pelo momento em que foi escrito, está no artigo “Prosa brasileira em 1964: balanço literário”, de Nelson Werneck Sodré (saiu na Revista Civilização Brasileira I, em março de 1965). O tom é melancólico. O autor diz que golpe foi responsável por interromper boas traduções de autores estrangeiros que estavam em curso e a publicação de prosa de autores brasileiros foi pobre - o artigo termina com a frase "Fizemos pouco ou fizemos muito, em 1964. Fizemos o que era possível". O destaque daquele ano fica por conta da crônica, sobretudo de cunho político, e do ensaio, um gênero que ganhava muito fôlego naquele momento.

Dito isso, fiz um levantamento informal e consegui encontrar uma lista com onze livros de prosa de ficção brasileira daquele ano. Certamente algumas coisas ficaram de fora. Tomei por base os nomes que ainda permanecem nas seleções da crítica e do cânone acadêmico. Se alguém se lembrar de outros livros, por favor, escrevam nos comentários.

O púcaro búlgaro
Campos de Carvalho
Civilização Brasileira







Verão no aquário
Lygia Fagundes Telles
Editora Martins









Manuelzão e Miguilim (Corpo de baile)****
João Guimarães Rosa
José Olympio









O coronel e o lobisomem
José Cândido de Carvalho
José Olympio









A paixão segundo GH
Clarice Lispector
Editora do Autor









A legião estrangeira
Clarice Lispector
Editora do Autor









Os pastores da noite
Jorge Amado
Martins









Uma vida em segredo
Autran Dourado
Civilização Brasileira








Antes, o verão
Carlos Heitor Cony
Civilização Brasileira






Morte na praça
Dalton Trevisan
Editora do Autor









Cemitério de elefantes
Dalton Trevisan
Civilização Brasileira










* Jean-Paul Sartre não só ganhou o Prêmio Nobel de Literatura como o recusou alegando que "nenhum escritor pode ser transformado em instituição".

** Trechos de Herzog, de Saul Bellow apareceram na revista Esquire, em julho de 1961, mas a primeira edição impressa em formato livro foi em 1964 pela editora Viking Press de Nova York.

*** Consta que durante a noite de lançamento, Cony autografou mais de 1600 exemplares do livro.


**** A obra Corpo de baile, de João Guimarães Rosa é composta por três novelas sendo que Campo geral, a primeira, foi publicado em 1956; em 1964, foi publicado Manuelzão e Miguilim com as novelas Campo Geral e Uma história de amor.

Imagens: capa dos livros reprodução.

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sexta-feira, 28 de março de 2014

O VENCEDOR DO TOURNAMENT OF BOOK 2014


Com um placar esmagador 11 votos contra 6, o vencedor do Tournament of Books 2014 foi The Good Lord Bird, de James McBride. O romance conta a história de Henry Shackleford, vulgo Onion, um jovem negro e escravo que precisa fugir do Kansas e acompanha o famoso abolicionista John Brown fingindo ser uma garota. A ação se passa em 1857 em meio as discussões violentas sobre a escravidão nos Estados Unidos. 

Além dos inúmeros elogios de crítica, McBride levou pra casa o National Book Award, um prêmio muito prestigiado da literatura norte-americana, desbancando concorrentes como Jumpha Lahiri, Thomas Pynchon e George Saunders.


O livro será publicado aqui provavelmente no final do segundo semestre pela Bertrand Brasil, com tradução de Roberto Muggiati.

*Imagem: divulgação.
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sexta-feira, 21 de março de 2014

NOTAS #45


DAVID FOSTER WALLACE POP
A vida do escritor David Foster Wallace durante a turnê de lançamento do monumental romance Infinite Jest será registrada no filme "The End of the Tour", dirigido James Ponsoldt - se não me engano, um diretor independente ainda pouco conhecido. A história será baseada no livro Although Of Course You End Up Becoming Yourself: A Road Trip with David Foster Wallace, escrito por David Lipsky quando era repórter da revista Rolling Stone e recebeu a missão de acompanhar Foster Wallace numa viagem de cinco dias para escrever um perfil sobre o sujeito que seria o escritor mais importante da literatura norte-americana contemporânea. Acontece que o perfil não foi publicado e anos mais tarde (após o suicídio de Wallace) o material virou um tremendo livro. O ator e comediante Jason Segel foi escalado para o papel de David Foster Wallace e o ator Jesse Eisenberg será David Lipsky.

O filme ainda não tem previsão de lançamento, mas as gravações já começaram e uma foto de bastidores (acima) está rodando a internet.

***

Eu não sabia, mas o livro Breves entrevistas com homens hediondos ganhou uma versão para o cinema dirigida por John Krasinski - em 2009.

***

No segundo semestre, a Companhia das Letras deve publicar a tradução de Caetano Galindo para Infinite Jest. O romance póstumo The pale king também está nos planos da editora, mas a tradução deve ficar para o ano que vem.

ACELERA!
Uma empresa norte-americana que estava de olho no mercado de aplicativos para celular pegou carona na mesma ideia daqueles antigos curso de "leitura dinâmica e memorização" e criou o Spritz, um aplicativo que aos poucos treina o seu olhar para ler até 600 palavras por minuto - não conheço uma pessoa que seja capaz de tamanha destreza. Não sei dizer em que medida essa leitura apressada pode ser proveitosa quando lidamos com textos de ficção mais elaborados (que tem como foco um trabalho de linguagem mais cuidadoso, poético, evocativo etc., onde o barato é curtir as palavras ao invés de chegar na última linha do livro). Talvez seja uma habilidade interessante para revisores, preparadores ou pessoas que trabalham com grandes quantidades de texto a toque de caixa. Pensar que os cursos de leitura dinâmica - será que ainda existem? - eram vendidos naqueles comerciais de TV estilo "ligue agora e adquira..." ou por meio daqueles vendedores que abordavam a gente na escola, no shopping ou na rua.

CLARO COMO HEMINGWAY
Você gosta de escrever e não consegue encontrar ninguém para revisar seus textos e dar aquele toque estilístico especial? Pois bem, agora existe um aplicativo que faz tudo isso por você e ainda deixa o seu texto com o mesmo estilo do famoso escritor Ernest Hemingway. Basta acessar o aplicativo, inserir o seu texto e pronto. 

***

Estranho foi descobrir que alguns usuários inseriram textos do próprio Hemingway e o aplicativo fez algumas sugestões de alteração. Deve ser algum erro no algoritmo. 

UM CONTO, POR FAVOR
Carlos Henrique Schroeder é um sujeito inquieto. Além de leitor, escritor, tuiteiro, agitador cultural, editor-executivo da revista Pessoa e curador do Festival Nacional do Conto, ele ainda encontra tempo para organizar a coleção Formas Breves, da e-galáxia, totalmente dedicada ao gênero conto. Qualquer leitor que tenha um e-reader pode comprar um conto por R$ 1,99. Entre os autores da coleção estão Miguel Sanches Neto, André de Leones e José Luiz Passos, mas a ideia é lançar um conto inédito por semana.


CAMALEÃO
O escritor inglês David Mitchell, também conhecido como o camaleão da literatura inglesa, vai publicar um novo romance em setembro. The Bone Clocks vai contar a história de uma pessoa ao longo de seis décadas tendo como ponto de partida o ano de 1984.

***

A tradução do elogiado romance Os mil outonos de Jacob de Zoet deve sair pela Companhia das Letras ainda esse ano. Bem que a FLIP poderia convidá-lo.

*Fotos: reprodução do Google e Twitter.

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sexta-feira, 14 de março de 2014

HOUELLEBECQ POP


No mês que vem chega às lojas o disco Aubert chante Houellebecq - Les parages du vide, do cantor francês Jean-Louis Aubert todo baseado em poemas de Michel Houellebecq. Eu não tinha a menor ideia, mas o escritor já participou de outros três discos: Le sens du combat (de 1996), em que recita poemas; Présence humaine (de 2000) em que recita poemas com acompanhamento musical e arranjos de Bertrand Burgalat; e Etablissement d’un ciel d’alternance (de 2007), outro disco de poemas recitados com acompanhamento musical de Jean-Jacques Birgé. 

A diferença é que nesse novo disco a figura de Houellebecq fica restrita a autoria dos textos e poemas e a tarefa de transformar o material em música e fazer as canções acontecerem foi de Jean-Louis Aubert.

Posso estar enganado, mas acho que Aubert não é uma figura muito conhecida fora da França (ele foi integrante de uma banda punk do final dos anos 70 chamada Téléphone - muito boa por sinal -, a banda acabou, ele seguiu carreira solo, lançou vários discos e também compos a trilha sonora do filme Há tanto tempo que te amo, de Philippe Claudel). 

Para matar a curiosidade de muitos fãs, a gravadora liberou a canção Isolement com direito a videoclipe estrelado pelo próprio Houellebecq - cheio de bom humor e distante daquela imagem de autor carrancudo.



Quando li a notícia, me lembrei que o cantor Iggy Pop também fez um disco inteiramente dedicado ao universo de Houellebecq depois de ler A possibilidade de uma ilha. Será que em breve o escritor vai abandonar a literatura e adentrar definitivamente o universo popular da chanson française?

*Imagem: capa do disco Aubert chante Houellebecq - Les parages du vide/divulgação
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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

JULGANDO LIVROS PELA CAPA (4): PORTUGAL X BRASIL

Se você acompanha esse blog desde o começa deve saber que todos os anos faço uma brincadeira comparando as capas dos mesmos livros em edições portuguesas e brasileiras. Virou tradição. Por isso, vamos aos costumes.

Lembrando que não sou especialista no assunto e estou comentando descompromissadamente. Cada país tem a sua próprio cultura visual e cada consumidor tem uma preferência na hora de escolher um livro pela capa. As observações servem como um exercício especulativo sobre o trabalho do capista (ou da editora) na hora de dar uma "cara" para o livro.

A caixa de comentários está aberta para quem quiser participar - por favor, fiquem à vontade. As capas das edições brasileiras estão do lado esquerdo.


Vida querida, de Alice Munro
Começamos com uma ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura (não tem quem não se espante ao perceber, ainda hoje, que a Academia Sueca resolveu premiar uma escritora de... contos) que merece todas as pompas e honrarias. Uma pena que os portugueses não deram o tratamento necessário. Tá certo que essas folhas vermelhas 'simbolizam' a experiência acumulada ao longo dos anos da vida, mas o resultado ficou muito simplistas e acho que passaria despercebido pelas vitrines. Em contrapartida, as moças praticando saltos ornamentais da capa brasileira apontam para o risco, audácia e ousadia. Fora a cor deliciosa para os olhos. Ponto pra gente!


O sermão sobre a queda de Roma, de Jérôme Ferrari
Eu entendo a boa intenção dos portugueses ao colocar essa foto da família em escadinha - tem um pouco a ver com o enredo do livro e com a ideia de declínio. Já a capa brasileira, por mais que tenha optado por dar um corte fechado no dorso da estátua, sintetiza tudo o que precisa dizer de maneira clara e objetiva. Desculpem, mas esse ponto é nosso outra vez.


Diário da queda, de Michel Laub
Muito bem, a capa brasileira é muito bonita e forte (sem mencionar esse tom cinza que é o tom que o narrador imprime em seu relato). No entanto, não há como não se render aos encantos desse boneco segurando com força na barra para não cair. Ponto para os portugueses.


A arte do jogo, de Chad Harbach
Os portugueses optaram por essa mistura de cores que conduzem o nosso olhar para a bola de beisebol. Ficou divertido e deu movimento. Já a capa brasileira preferiu não arriscar e optou por seguir o mesmo visual da edição norte-americana. Pela ousadia, acho que os portugueses merecem levar esse ponto.


É assim que você a perde, de Junot Díaz
Eis uma escolha bem difícil, pois a fotografia da capa portuguesa emoldurada pelo branco tem apelos poéticos que hipnotizam. A edição brasileira também não deixa por menos usando essa letra orgânica, de cor vermelha (tipo sangue) e com ares muito atuais (lembram grafites, lambe-lambes etc). Acho que deu empate técnico.


Mudanças, de Mo Yan
Outro Prêmio Nobel de Literatura. Seria injusto dizer que a capa da edição portuguesa não tem o seu valor. Ela é minimalista na medida certa - não comete exageros e nem peca pelo excesso. Só que a capa da edição brasileira parece mais requintada (tal qual um Prêmio Nobel merece) e a editora cuidou com muito capricho do visual do livro como um todo. Ponto pra gente.


Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera
O nadador sem nome e portador de uma doença rara que o faz esquecer da fisionomia das pessoa ganhou um rosto (ainda que escondido em penumbra) na edição portuguesa. Inclusive, ele tem até um biotipo bem jovem e europeu - na minha leitura imaginava alguém com rosto e corpo mais velho, não sei dizer ao certo o motivo. Não deixa de ser uma foto bonita que deve funcionar muito bem para os leitores de lá. Aqui, a capa teve três cores diferentes, a letra orgânica, um "desenho" que lembra uma mancha e riscos que lembram os pêlos de uma barba (ensopada de sangue, claro!). Alguém disse 'empate'?


A infância de jesus, de J.M. Coetzee
A capa da edição portuguesa não diz muita coisa porque preferiu destacar o nome do autor e usar apenas duas pequenas ilustrações (silhuetas) das personagens principais do enredo. Será que uma imagem moderna de Jesus poderia causar polêmica? Nesse aspecto, a edição brasileira foi mais audaciosa e colocou esse menino ostentando um estiloso óculos escuro e uma capa (de super-herói?). Ponto pra gente!

Obs.: as edições australiana e alemã tem a mesma capa


A chave de casa, de Tatiana Salem Levy
Não sei se o costume de deixar a chave de casa embaixo do tapete é universal. Acredito que sim - é um gesto comum de personagens em livros e filmes do mundo ocidental. A capa brasileira aposta nisso. É uma boa sacada e ficou bem visualmente. A capa portuguesa tem um apelo poético com esse azul melancólico e esse vento que balança o coqueiro a contra-luz. Acho que vale um empate.


Os transparentes, de Ondjaki
A capa brasileira só seria mais transparente se fosse feita totalmente em acrílico (sei lá como chama aquele papel). Lembra aquela brincadeira de raspar a tinta da superfície para ver o que está escrito por baixo. Achei tudo muito acertado. No entanto, a capa portuguesa é mais quente (graças ao vermelho que toma o fundo inteiro) e a ilustração que parece um prédio visto sem as paredes é incrível. Ponto para os portugueses.


O testamento de Maria, de Colm Toibin
Parece que a fim de evitar polêmicas (a personagem do livro também faz referência ao catolicismo) a editora optou apenas pelo título em fundo branco. Perdeu a oportunidade de recorrer ao vasto e rico repertório de representações de Maria nas artes plásticas. A edição brasileira seguiu por esse caminho e ganhou muito mais pontos com a imensa cruz branca que ocupa tudo de ponta a ponta. Ponto pra gente!


Festa no covil, de Juan Pablo Villalobos
A capa portuguesa tem qualquer coisa meio "tex-mex", não? Parece inspirada nos cartazes do velho oeste norte-americano. A capa brasileira é muito mais interessante porque parece mais tipicamente mexicana (para não dizer, mais autêntica). Ponto pra gente.

*Imagens: divulgação e reprodução.
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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

UMA 'ESPIADINHA' DESCOMPROMISSADA NO TOURNAMENT OF BOOKS 2014


Yes, nós temos o nosso próprio torneio de livros (também conhecido como Copa de Literatura Brasileira), mas não custa nada dar aquela 'espiadinha' descompromissada no Tournament of Books que nos serviu de inspiração. Se mesmo assim você não estiver convencido aqui vão algumas razões para lançar mão de um gesto tão simples: a seleção de 'competidores' é bem interessante e serve como um filtro para saber o que os norte-americanos estão lendo e gostando; o julgamento é democrático e participativo; as avaliações dos jurados são despretensiosas; e muito do que pinta no tournament vem para as nossas estantes (se o livro for o 'vencedor', tanto melhor para a editora que vai publicá-lo no Brasil). 

Além disso, o Tournament of Books está completando 10 anos num momento bastante fértil para a prosa de ficção - contrariando muita gente que declara o romance como um gênero morto e a falta de interesse dos leitores por literatura de ficção. Para termos uma ideia a primeira lista do tournament contava com 93 livros, entre eles medalhões da prosa norte-americana.

A seleção final dos livros que vão concorrer ao torneio desse ano foi anunciada na segunda semana de janeiro para matar a curiosidade geral. A lista está mais multicultural porque inclui uma série de autores de outras nacionalidades: um alemão, um moçambicano, um peruano, um paquistanês, uma havaiana e uma neozelandesa. Evidentemente, para participar da competição todos os livros foram publicados nos Estados Unidos.

Não deve ter sido uma decisão muito fácil eliminar Margaret Atwood, Colum McCann, Thomas Pynchon, George Saunders, Dave Eggers e Paul Harding. Imagine a responsabilidade!

Quem pretende acompanhar o torneio vai ficar contente em saber que três livros já foram publicados aqui no Brasil - O jantar, de Herman Koch; Antes de nascer o mundo, de Mia Couto; A assinatura de todas as coisas, de Elizabeth Gilbert - e outros seis livros estão nos planos das editoras nacionais para saíram ainda esse ano - é o caso de Daniel Alarcón (pela Alfaguara), Eleanor Catton, Jhumpa Lahiri (ambas pela Biblioteca Azul, da Globo Livros), James McBride (pela Bertrand Brasil), Mohsin Hamid e Donna Tartt (ambos pela Companhia das Letras). Um dos jurados será John Freeman, ex-editor da revista Granta.

Fiquei contente com a participação de Mia Couto - nosso representante da língua portuguesa - e nem preciso dizer para quem vai a minha torcida. Sorte para o livro dele!

Os livros concorrentes são:

At Night We Walk in Circles, de Daniel Alarcón
The Luminaries, de Eleanor Catton
Antes de nascer o mundo, de Mia Couto
A assinatura de todas as coisas, de Elizabeth Gilbert
How to Get Filthy Rich in Rising Asia, de Mohsin Hamid
O jantar, de Herman Koch 
The Lowland, de Jhumpa Lahiri
Long Division, de Kiese Laymon
The Good Lord Bird, de James McBride
Hill William, de Scott McClanahan
The Son, de Philipp Meyer
A Tale for the Time Being, de Ruth Ozeki
Eleanor & Park, de Rainbow Rowell
The Goldfinch, de Donna Tartt
The People in the Trees, de Hanya Yanagihara

O décimo sexto concorrente foi escolhido por votação e será divulgado em breve - a vaga será do livro Life After Life, de Kate Atkinson ou Woke Up Lonely, de Fiona Maazel.

A propósito, o Tournament of Books 2014 começa em março.

*Imagem: Site ToBX/reprodução
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terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

O NOVO VALTER HUGO MÃE

Notícia da coluna de Mônica Bergamo no caderno Ilustrada, da Folha de SP:

A CABECEIRA
Ney Matogrosso recebeu os originais do próximo livro do escritor Valter Hugo Mãe. A pedido do autor, leu "Desumanização", que será lançado pela Cosac Naify, e escreveu: "A leitura provoca um turbilhão, uma vertigem de imagens pelas quais o leitor fica possuído. Inquietante, tenso e ao mesmo tempo ingênuo e puro". A frase será impressa na cinta que embala o livro.

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segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

APOSTAS PARA 2014 - NACIONAIS E ESTRANGEIROS

O ano pode ser novo, mas a tradição é antiga. A melhor maneira de começar o ano é falando da previsão de lançamentos das editoras nacionais e estrangeiras (por que não?). Afinal, ano bom é ano com muita novidade. Aposto que você acabou de voltar da praia e procurou o termo "lançamentos de ficção 2014" no Google.

Ano novo dificuldade velha. Todo mundo sabe que nossas editoras não costumam divulgar o cronograma de lançamentos do ano com muita antecedência. Por isso, estou listando abaixo um apanhado de livros que consegui apurar aqui e acolá. Tem o nome da editora e do autor - em alguns casos consta o título em português ou o título original já que a tradução deve estar em andamento. Não estou mencionando os autores que devem pintar na FLIP e sempre agitam lançamentos.

Vale lembrar que são previsões e as editoras podem alterar os cronogramas - assim como pode pintar uma nova onda, tipo "romances com vampiros, zumbis e anjos", "pornô leve para mulheres" etc. e lançamentos jorrem aos montes. Tudo pode acontecer.

Entre os lançamentos nacionais destaco a tradução de Infinite Jest, de David Foster Wallace que ficou nas mãos de Caetano Galindo e deve finalmente chegar às livrarias em bom português brasileiro (vamos falar muito do Foster Wallace). Na gringa, além de Lydia Davis e W.G. Sebald, fico com Hilda Hilst que deve tomar os anglófonos de assalto e arrebatar corações gelados.

Se alguém descobrir ou souber de algum outro lançamento e quiser contribuir, por favor, mande um sinal de fumaça. Prometo ficar de olho e atualizar a lista a medida que receber as informações.



-> COMPANHIA DAS LETRAS
Infinite Jest, de David Foster Wallace
A Hologram For The King, de Dave Eggers
Como se o mundo fosse um bom lugar, de Marçal Aquino
O lugar mais sombrio, de Milton Hatoum
Os mil outonos de Jacob de Zoet, de David Mitchell
Cloud Atlas, de David Mitchell
NW, de Zadie Smith
Middlesex, de Jeffrey Eugenides
Finn's Hotel, de James Joyce
Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust (com tradução de Mario Sergio Conti)
Telegraph Avenue, de Michael Chabon
Esta valsa é minha, de Zelda Fitzgerald
Há garotos zigue-zague, de David Grossman
Um outro amor, de Karl Ove Knausgård
Tenth of December, de George Saunders
City on Fire, de Garth Risk Hallberg
Dias perfeitos, de Raphael Montes
Novos romances de Simone Campos e Chico Buarque (ainda sem título)
Lionel Asbo, de Martin Amis
Prosa, de Elizabeth Bishop
Milagre em Joaseiro, de Ralph Della Cava
Bom dia, camaradas, de Ondjaki
Entre amigos, de Amós Oz
Semíramis, de Ana Miranda
O caminho de ida, de Ricardo Piglia
O Brasil é bom, de André Sant’Anna
A tristeza do samurai, de Víctor del Árbol
A casa cai, de Marcelo Backes

-> GLOBO LIVROS (selo Biblioteca Azul)
Selected stories, de Alice Munro
Fugitiva, de Alice Munro
The View of Castle Rock, de Alice Munro
The Luminaries, de Eleanor Catton
The Lowland, de Jhumpa Lahiri
Tetralogio Rabbit, de John Updike (reedição)
Harvest, de Jim Crace (também haverá reedição de Being Dead e Quarentine)
We Need New Names, de NoViolet Bulawayo
Someone, de Alice McDermott
A redoma de vidro, de Sylvia Plath

-> INTRÍNSECA
A verdade sobre o caso Harry Quebert, de Joel Dicker

-> COSAC NAIFY
Mary Poppins, de P. L. Travers
O doente, de André Vianna 
Uns contos, de Ettore Bottini
Você vai voltar para mim e outros contos, de Bernardo Kucinski
K., de Bernardo Kucinski (reedição)
Formas de voltar para casa, de Alejandro Zambra
A desumanização, de Valter Hugo Mãe
Um, dois e já, de Inés Bortagaray
O fundo do céu, de Rodrigo Fresán
Primavera da pontuação, de Vitor Ramil

-> RECORD
L'Extraordinaire Voyage du Fakir qui Etait Resté Coincé dans une Armoire Ikea, de Romain Puértolas (em português deve chamar A extraordinária viagem do faquir que ficou preso dentro de um armário Ikea)
O professor, de Cristovão Tezza

-> ROCCO
O regresso, de Lúcia Bettencourt
Fogo-fátuo (título provisório), de Patrícia Melo
Os hungareses, de Suzana Montoro (reedição)
As mil mortes de César, de Max Mallmann
Chamado selvagem, de Jack London
F para Wells, de Antônio Xerxenesky

-> BERTRAND BRASIL
The Good Lord Bird, de James McBride
Reedição em novo projeto gráfico das obras de Ernest Hemingway: Adeus às armas, Por quem os sinos dobram, O sol também se levanta e Jardim do Éden.

-> ALFAGUARA
Emilio Fraia (seu primeiro romance solo ainda sem título)
Luzes de emergência se acenderão automaticamente, de Luisa Geisler (título provisório)
À noite andamos em círculos, de Daniel Alarcón
O senhor das moscas, de William Golding
A casa redonda, de Louise Erdrich
O descolorido Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação, de Haruki Murakami
O bom soldado Svejk, de Jaroslav Hasek
Quarenta dias, de Maria Valéria

O país dos cegos e outras histórias, de H.G. Wells

-> EDITORA 34
Carmen, de Prosper Mérimée
A educação sentimental, de Gustave Flaubert

-> AMARYLIS
O bebê de Rosemary, de Ira Levin
Contos escolhidos, de Ivan Bunin

-> ILUMINURAS
Contos de amor de loucura e de morte, de Horacio Quiroga
Os desterrados, de Horacio Quiroga

-> LEYA
O tímido e as mulheres, de Pepetela

-> L&PM
Before I Burn, de Gaute Heivoll
Livros póstumos de Jack Kerouac: O mar é meu irmão, Pic e Some of the Dharma

-> RESERVA LITERÁRIA (coleção da Edusp e da Com-Arte)
Iluminados, de Ranulfo Prata
O feiticeiro, de Xavier Marques

-> BATEIA
Apenas o vento, de Vinicius Jatobá

-> ARTE & LETRA
O beijo de Schiller, de Cezar Tridapalli

-> PATUÁ
Nossa Teresa, de Micheliny Verunschk

-> HEDRA
A casa do fim mundo, de William Hope Hodgson
Caixa com a obra de Antonio Vieira
Diários de Adão e Eva e outras sátiras bíblicas, de Mark Twain
A raposa sombria ― uma lenda islandesa, de Sjón

-> NÃO EDITORA
Loja de conveniências, de Guilherme Smee

-> DUBLINENSE
Tarantata, de Cintia Lacroix

GRINGOS



Little Failure, de Gary Shteyngart
Orfeo, de Richard Powers
Leaving the Sea, de Ben Marcus
A Place in the Country, de W.G. Sebald (ensaios/ficção)
Bark, de Lorrie Moore
Kinder Than Solitude, de Yiyun Li
Every Day Is a Thief, de Teju Cole
The Brunists’ Day of Wrath, de Robert Coover
All Our Names, de Dinaw Mengestu
Falling Out of Time, de David Grossman
Sleep Donation, de Karen Russell
Can’t and Won’t, de Lydia Davis
Frog Music, de Emma Donoghue
The Snow Queen, de Michael Cunningham
Another Great Day at Sea: Life Aboard the USS George H.W. Bush, de Geoff Dyer
The Vacationers, de Emma Straub
To Rise Again at a Decent Hour, de Joshua Ferris
The Rise and Fall of Great Powers, de Tom Rachman
Last Stories and Other Stories, de William T. Vollmann
Colorless Tsukuru Tazaki and His Years of Pilgrimage, de Haruki Murakami
With My Dog Eyes, de Hilda Hilst (tradução de Com os meus olhos de cão)

*Imagem: reprodução.


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