sexta-feira, 12 de novembro de 2010

RESTRIÇÕES LITERÁRIAS


O ator James Franco de filmes como "Homem-Aranha", "Milk" e "Howl" publicou um livro de contos, Palo Alto. O livro reúne histórias sobre a angústia e o vazio existencial de um grupo de adolescentes que vivem em Los Angeles, nos Estados Unidos. Franco disse em diversas entrevistas que sua intenção era abordar grandes dilemas que estão ligados a essa fase da vida. Apesar da temática, Palo Alto não é direcionado ao público juvenil.

A estréia do ator no universo da ficção foi recebida com entusiasmo por uma parte da crítica. O New York Times, o Washington Post e o Book Bench da revista New Yorker gostaram bastante do livro. O célebre escritor Michael Cunningham gravou um vídeo conversando com o ator e tecendo diversos elogios. Porém, a outra parte da crítica não gostou do livro antes mesmo de lê-lo porque, segundo dizem, James Franco é um ator celebridade de Hollywood e não um escritor.

Paralelo a carreira de ator, ele frequentou os famosos cursos de escrita criativa de onde saíram renomados autores americanos. No começo Franco escrevia contos em particular, como hobby. À medida que foi mostrando esses contos e teve retorno das pessoas, sentiu segurança para publicar o livro.

A situação de James Franco lembra o caso recente de Chico Buarque com os prêmios Jabuti e Portugal Telecom. O grande compositor da música popular brasileira é também autor de quatro romances: Estorvo, Benjamim, Budapeste e Leite Derramado. Três deles já faturaram prêmios importantes de literatura. Isso sem mencionar o fato desses livros serem sucesso de público.

Chico disse que acha natural a desconfiança da crítica como apontou Raquel Cozer num texto para o Caderno 2. Reproduzo abaixo a fala dele:

“É difícil dissociar o narrador da pessoa pública. As pessoas pensam que o livro faz sucesso porque o autor tem um programa de TV ou é compositor. Mas não acho chato isso, não. Se eu visse um outro compositor ou apresentador que escrevesse um livro, talvez eu desconfiasse de que não fosse bom. Isso é muito natural” (...).

Percebo que a mesma restrição também persegue Tony Bellotto, guitarrista da banda Titãs. Ele é autor de seis livros, divididos em contos e romances policiais. Não sei extamente em que medida a crítica torce o nariz para seus livros, pois Bellotto não teve a mesma exposição que Chico Buarque em termos de premiação literária - pelo menos não que eu me lembre.

Não quero dizer que essas três personalidades escrevem romances de alta densidade literária e que eles estão à frente de pessoas que se dedicam integralmente a prosa de ficção. Mas por que o ator, o compositor e o guitarrista não podem também ser escritores?

*imagem: montagem sobre fotos reproduzidas do Google.

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NOTAS #8


Contos de fadas
Livros de contos de fadas sem ilustrações são muito sem graça. Quanto mais caprichada a ilustração, mais vamos gostar do livro. Pensando nisso, uma pessoa apaixonada por contos de fadas criou um Flickr para reunir ilustrações de livros bem antigos. A coleção conta com desenhos do principal trio de ilustradores do começo do século XX: Edmund Dulac, Arthur Rackham e Charles Robinson. Mais imagens estão disponíveis em http://tinyurl.com/y9srzkv

Nobel sem descanso
Mario Vargas Llosa mal ganhou o prêmio Nobel de Literatura e já retornou ao trabalho. Ele foi convidado pela Universidade de Princenton para ministrar um curso sobre técnicas do romance e outro sobre o escritor argentino Jorge Luis Borges. Vargas Llosa ainda lançou essa semana um novo romance, El sueño del celta. Ainda inédito no Brasil, esse livro tem previsão de lançamento em 2011 pela editora Alfaguara.

Autorretrato de Borges
O americano Burt Britton, co-fundador da lendária livraria New York Books & Company, conheceu de perto muitos escritores e outras figuras ilustres. Para cada um deles Britton fazia um pedido curioso: desenhar um autorretrato. A brincadeira ficou tão série que acabou virando uma coleção particular muito cobiçada - inclusive toda a coleção foi a leilão no ano passado e arrecadou lances altíssimos. Entre os escritores que se autorretrataram estão: Maurice Sendak, Margaret Atwood, Saul Bellow, Jorge Luis Borges, Roald Dahl, Allen Ginsberg, Stephen King, Cormac McCarthy, Norman Mailer, John Updike, Tom Wolfe e muitos outros. Uma parte desses desenhos pode ser vista em http://tinyurl.com/3x2zxeg

Nos bastidores
Dois autores do universo da prosa de ficção estão por trás do especial Afinal, o que querem as mulheres?: João Paulo Cuenca e Cecília Giannetti. Ambos escreveram o roteiro do seriado e contaram com a coautoria de Michel Melamed e do diretor Luiz Fernando Carvalho. Em entrevista os dois disseram da diferença entre escrever um livro solitariamente e de escrever para a TV em parceria com mais pessoas. Com duração de seis episódios e exibição semanal, o seriado vai ao ar na TV Globo.

Escolha editorial da Amazon
A megaloja Amazon fez a sua tradicional lista de melhores livros lançados no ano. Na categoria ficção os dez livros escolhidos são: Matterhorn, de Karl Marlantes; Freedom, de Jonathan Franzen; A mulher foge, de David Grossman; The Imperfectionists, de Tom Rachman; Major Pettigrew's Last Stand, de Helen Simonson; The Hand That First Held Mine, de Maggie O'Farrell ; Skippy Dies, de Paul Murray; One Day, de David Nicholls; Memory Wall, de Anthony Doerr e The Lonely Polygamist, de Brady Udall.

Honra ao mérito
Toni Morrison recebeu na França a Ordem Nacional da Legião de Honra - a maior condecoração de honra concedida pelo governo francês. Durante a cerimônia de entrega na semana passada Frederico Mitterrand, o ministro da cultura, disse que Morrison "incorpora a melhor parte da América, o que fundamenta o amor à liberdade nos sonhos mais intensos". Além de ser unanimidade de crítica como uma das melhores escritoras de seu tempo, Morrison também já ganhou o Prêmio Pulitzer e foi a primeira mulher negra a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura.

A noticia Franzen da semana

O jornal britânico Guardian disponibilizou o vídeo de uma entrevista com Jonathan Franzen. Sarfraz Manzoor, colaborador do jornal, pergunta ao escritor sobre o novo romance - Freedom, sobre a amizade com David Foster Wallace e sobre a política nos Estados Unidos. É interessante observar os óculos que foram cobiçados por uma dupla de malucos numa festa na Inglaterra e a imensa calma de Franzen ao responder as perguntas. O vídeo está disponível em http://tinyurl.com/2wjg5ql

*imagem: reprodução.


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segunda-feira, 8 de novembro de 2010

MICHEL HOUELLEBECQ GANHA O PRÊMIO GONCOURT


O escritor Michel Houellebecq é o ganhador do prêmio Goncourt pelo romance La carte et le territoire - ainda inédito em português. Ele vinha sendo apontado como favorito desde que a indicação foi anunciada. O livro conta a história de um famoso artista plástico que pede a um badalado escritor chamado Michel Houellebecq um texto para compor o catálogo de uma de suas exposições. Meses depois, Michel Houellebecq é encontrado morto. Parece que não faltam ao romance os elementos preferidos de Houellebecq: crítica a sociedade moderna, humor negro, sexo e doses cavalares de pessimismo.

Michel Houellebecq, ele mesmo não a personagem do romance, é uma figura bastante polêmica por tudo o diz e escreve. Quando La carte et le territoire foi lançado, por exemplo, muita gente acusou o livro de plágio a trechos da Wikipédia. A inclusão do autor na lista de indicados ao prêmio Goncourt também rendeu bastante assunto. Porém, Houellebecq tem uma boa reputação fora da França e tem uma verdadeira legião de fãs. Iggy Pop gosta tanto de Houellebecq que até fez um disco inspirado em seus romances - Préliminaires.

Dizem que o prêmio serviu como uma espécie de reparação da crítica francesa em relação ao autor injustiçado. Há quem enxergue nele traços de Lawrence Sterne, Celine, JG Ballard e Dostoiévski.

Eu li Particulas elementares e não gostei muito. Particularmente, fiquei incomodado com o universo apocalíptico ao extremo e com certos clichês que ele menciona sobre o Brasil. Mas reconheço que muitas críticas feitas a sociedade dos anos 60/70 são bastante fundadas.

Pode ser que Houellebecq mereça uma segunda chance.

*imagem: reprodução Wikipédia.
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domingo, 7 de novembro de 2010

FESTIVAIS LITERÁRIOS EM NOVEMBRO


Como todo mundo anda dizendo por aí, novembro é realmente o mês dos festivais literários. Pelo menos quatro deles devem acontecer a partir da próxima semana em Minas Gerais, Pernambuco, Rio Grande do Norte e São Paulo. Em todos eles há espaço para a poesia, para a prosa e para a mistura desses gêneros com outras linguagens.

Abrindo a temporada, o Fórum das Letras de Ouro Preto promove uma homenagem à África e a literatura do mundo lusófono. O Fórum acontece de 10 a 15 de novembro e conta com a participação de tantos autores que fica impossível mencionar todos, entre eles Mia Couto, Ondjaki, Alberto Mussa, Marina Colasanti, Daniel Galera e Rafael Coutinho, João Paulo Cuenca, Ronaldo Correia de Brito, Edney Silvestre, João Ubaldo Ribeiro, etc. Vale a pena aproveitar a viagem e curtir Ouro Preto já que o evento explora diversos lugares da cidade histórica.

Em seguida começa a Fliporto que deixou Porto de Galinhas e vai acontecer em Olinda entre os dias 12 e 15 de novembro. O evento segue um esquema semelhante ao da FLIP, em Paraty. O tema do festival será "A presença judaica no Brasil" e a escritora homenageada será Clarice Lispector. Os autores convidados são Alberto Manguel, Daniel Galera e Rafael Coutinho, Edney Silvestre, Milton Hatoum, Moacyr Scliar, Raimundo Carrero, Ricardo Piglia, Xico Sá, Tatiana Salem Levy, entre outros.

Ainda no nordeste, acontece de 18 a 20 de novembro a segunda edição da Flipipa - Festival Literário de Pipa, no Rio Grande do Norte. Alguns autores que estarão na Fliporto seguem para Pipa, mas o evento conta também com a presença de Marçal Aquino, João Gilberto Noll e João Ubaldo Ribeiro.

Junto com a Flipipa, rola em São Paulo a quinta edição da Balada Literária, organizada por Marcelino Freire. Nesse ano, a escritora homenageada será Lygia Fagundes Telles.Tem ainda Andréa del Fuego, Ivana Arruda Leite, Alberto Manguel, Marcelo Rubens Paiva, Cristhiano Aguiar, José Rezende Jr., Paulo Sandrini, Verônica Stigger, Ulrich Peltzer, José Castello, entre outros. O melhor: tem festa, senão não seria balada.

Se alguém se lembrar de mais algum, por favor, avisem.

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Update: recebi a notícia de que nos dias 12, 13, 14 e 15 de novembro acontece na cidade de Jaraguá do Sul - Santa Catarina o Panorama Jaraguá: literatura. Haverá debates, oficinas e o lançamento de um catálogo de escritores jaraguaenses. O evento acontece no SESC da cidade e conta com a participação dos autores Antônio Xerxenesky, Carol Bensimon, Ramon Mello, Marcelo Moutinho e Luís Henrique Pellanda.

*imagem: reprodução do site da Fliporto.

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sexta-feira, 5 de novembro de 2010

NOTAS #7


Tesouros da internet
Em 1925 o Fausto, de Goethe ganhou uma edição ilustrada pelo irlandês Harry Clarke. Ele fez cerca de 80 desenhos monocromáticos inspirados na história do homem que fez um pacto com o diabo. O tema é perfeito para as figuras surrealistas e atormentadas que estão espalhadas pelo livro. Clarke foi bastante cultuado pela psicodelia dos anos 60 e 70. A edição rara está disponível na internet em http://tinyurl.com/2d9rhrm

Lobo Antunes inédito
Nesta semana, Sôbolos rios que vão chegou as livrarias de Portugal. Trata-se do novo romance de António Lobo Antunes. O nome do romance vem de um verso de Camões. Algo entre a memória e a ficção, o livro conta a história de um homem que relembra os acontecimentos mais importantes de sua vida depois de sair de uma sala de cirurgia. Um rio de vozes inunda esse universo e todas elas correm para o seu fim.

A morte lhe cai bem
A revista Forbes lançou mais uma de suas famosas listas. Dessa vez a categoria era 'as treze personalidades mortas mais rentáveis'. Entre Michael Jackson, Elvis Prestley e John Lennon estavam dois escritores: J.R.R. Tolkien que morreu aos 81 anos vítima de uma úlcera e Stieg Larsson que morreu aos 50 anos vítima de um ataque do coração. Tolkien é autor do livro O senhor dos anéis e rende algo em torno de $50 milhões. Já Larsson com sua trilogia Millenium rende cerca de $15 milhões. Pode ser que a adaptação dos livros de Larsson para o cinema em Hollywood ajude a mudar esse quadro.

Polêmica
O livro Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato está envolvido em polêmica. O Conselho Nacional de Educação recomendou que esse livro fosse banido das escolas públicas em todo o Brasil por ser racista. O Sítio do Picapau Amarelo é uma das obras mais importantes da literatura infanto juvenil brasileira. O Ministério da Educação está avaliando a restrição.

Gabo na ativa
Gabriel Garcia Márquez está ocupado escrevendo um novo romance. O anúncio foi feito por seu editor na ocasião do lançamento de Yo no Vengo a Decir Un Discurso. A notícia contraria o boato de que Gabo iria abandonar a literatura e não iria mais escrever nenhum livro. O novo romance não tem data certa para publicação, mas deve se chamar "Nos encontraremos em Agosto" - em tradução livre.

Bloqueio criativo - a notícia Franzen da semana
Jonathan Franzen confessou ao jornal britânico Guardian na semana passada que a vergonha o impediu de escrever por uma década. Não se trata de uma pequena vaidade literária que ronda todos os escritores. Franzen tinha vergonha de tudo, incluindo pudor em relação a um caso amoroso e sua inexperiência sexual. A situação lhe causou um bloqueio criativo que só terminou graças aos sábios conselhos de sua mãe e de um amigo. Pobre Franzen!

*imagem: reprodução do desenho de Harry Clarke para a edição do Fausto.

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quinta-feira, 4 de novembro de 2010

FINALISTAS DO PRÊMIO CUNHAMBEBE

Confesso que não conhecia o Prêmio Cunhambebe de literatura estrangeira, mas descobri que sua criação é recente - a primeira edição foi em 2008. Inspirado no nome de um chefe indígena do século XVI, seu objetivo é premiar uma obra de ficção estrangeira contemporânea que tenha sido recém publicada no Brasil.

Na primeira edição o livro premiado foi As benevolentes, de Jonathan Littell que saiu pela editora Alfaguara com tradução de André Telles. No ano passado o ganhador foi Putas assassinas, de Roberto Bolaño publicado pela Companhia das Letras com tradução de Eduardo Brandão.

Para a edição desse ano foram anunciados essa semana os finalistas:

A fantástica vida breve de Oscar Wao, Junot Diaz - trad. Flávia Anderson, Record
Indignação, de Philip Roth - trad. Jorio Dauster, Companhia das Letras
Vidas Novas, de Ingo Schulze - trad. Marcelo Backes, Cosac Naify
Após o anoitecer, de Haruki Murakami - trad. Lica Hashimoto, Alfaguara
Terras baixas, de Joseph O'Neill - trad. Cássio de Arantes Leite, Objetiva
Às cegas, de Claudio Magris - trad. Maurício Santana Dias, Companhia das Letras
A chuva antes de cair, de Jonathan Coe - trad. Christian Schwartz, Record
A mulher foge, de David Grossman - trad. George Schlesinger, Companhia das Letras
Refrão da fome, de JMG Le Clézio - trad. Leonardo Fróes, Cosac Naify
O projeto Lazarus, de Aleksander Hemon - trad. Maira Parula, Rocco

O prêmio tem curadoria de Stéphane Chao e participam da comissão julgadora Alberto Mussa, Álvaro Costa e Silva, Eduardo Simões, Marcos Strecker, Miguel Conde, Rachel Bertol, Raimundo Carrero, Ronaldo Correia de Brito e Ubiratan Brasil. O livro vencedor será anunciado em dezembro.

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quarta-feira, 3 de novembro de 2010

PRIMAVERA NA CULTURA


Começou hoje e vai até o dia 15 de novembro o evento Primavera dos Livros na Livraria Cultura do Conjunto Nacional. Na programação haverá palestras, lançamentos e noite de autógrafos. As palestras em destaques são:

Escritores negros: Cruz e Souza, Machado de Assis e Lima Barreto
Com Eduardo de Assis Duarte, Luiz Silva Kiusam de Oliveira
Mediação de Sérgio Cláudio dos Santos

Crônicas
Com Humberto Werneck, Fernando Portela e Antonio Prata

Diversidade sobrenatural: vampiros que me mordam!
Com Adriano Messias, Arianne Brogini e Marcos Torrigo
Mediação de Ivan Finotti

Arrepiando a manhã... com histórias mal-assombradas
Com Adriano Messias

Haverá ainda palestras sobre o mercado livreiros, a chegada dos livros digitais, políticas públicas para a cultura, quadrinhos, internet, a literatura no teatro, no cinema, na televisão, na moda e na música. A programação completa pode ser conferida no site da Libre.

*imagem: reprodução do site da Libre.
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OS CURIOSOS MANUSCRITOS DE JANE AUSTEN

Uma tese curiosa está no ar e deve mexer um pouco com a impressão que todos temos da escritora inglesa Jane Austen. Seria ela uma escritora experimental e a frente do seu tempo?

Tudo começou com o projeto Jane Austen fiction manuscripts. Uma equipe de especialistas recolheu e disponibilizou na internet mais de 1000 manuscritos que pertenceram à escritora. Durante a analise dos manuscritos a professora e diretora do projeto, Kathryn Sutherland, constatou que não havia neles a maneira precisa e elegante tão comum aos romances de Jane Austen. Pelo contrário, havia nos manuscritos muitas rasuras, diversas inserções, borrões e alguns problemas de gramática e ortografia.

O desvio fez com que a professora pensasse na hipótese de que Jane Austen estivesse criando algo experimental ao tentar aproximar seu texto do modo como as pessoas conversam na vida real. Alguns trechos têm pontuação irregular, as frases são corridas e as falas das personagens não são divididas em parágrafos específicos para cada uma delas. Na versão impressa dos livros tudo isso foi modificado e colocado na forma mais convencional. Os textos finais bem acabados de Jane Austen foram obra do editor William Gifford.

É difícil pensar até que ponto essas observações podem tornar Jane Austen uma escritora experimental ou não. Pode ser que essa maneira "diferente" de escrever fosse parte do temperamento da autora e não uma intenção previamente planejada. Um estilo de escrita sem pontuação e frases com estrutura modificada só chegaria aos romances no século XX - pense em James Joyce, William Faulkner ou José Saramago. Os problemas de gramática e ortografia também não diminuem a obra que ela deixou - obra que vem sendo especialmente celebrada nos últimos anos. Talento e fôlego para a empreitada Jane Austen tinha de sobra.

Os manuscritos estão disponíveis na internet no site do projeto Jane Austen fiction manuscripts.

*imagem: reprodução do site Jane Austen fiction manuscripts.

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terça-feira, 2 de novembro de 2010

HENRY JAMES: O MESTRE DO ROMANCE


Nos últimos anos a escritora Jane Austen teve uma misteriosa ascensão literária. Da noite para o dia seus romances começaram a ser reeditados aos milhares. Depois surgiram os mashups, os quadrinhos, os filmes, os vídeos no youtube e os artigos nos jornais. Porém, ela não está sozinha nesse resgate. Parece que o destino reserva os mesmos louros ao escritor Henry James.

Desde 2002, uma série de livros está sendo escrita tendo o escritor como objeto de estudo ou como personagem principal de suas tramas. Alguns de seus principais livros também estão ganhando novas reedições. O fenômeno é difícil de explicar. Seja qual for a verdadeira razão, ninguém pode negar a qualidade da obra de Henry James e o seu legado teórico para as futuras gerações.

Do homem teórico, por exemplo, posso dizer que ele foi o responsável por uma das principais formulações a respeito do foco narrativo no romance. Segundo dizem, a experiência de James com o teatro lhe deu gabarito para desenvolver romances em que a cena e o diálogo são os responsáveis pelo desenvolvimento da ação. Também é nesse momento que ele formula sua teoria sobre o narrador. Vou explicar de modo prosaico: para ele a figura do narrador no romance deveria se disfarçar numa personagem em terceira pessoa. Tal personagem deveria organizar a história, refletir e mostrar ao leitor tudo o que está se passando. Por isso a aversão dele aos romances em primeira pessoa ou com narradores que fazem muitas interferências na história.

As reflexões de Henry James estão reunidas numa série de prefácios que ele escreveu para alguns de seus romances e foram publicadas no livro A arte do romance - saiu pela editora Globo Livros com organização de Marcelo Pen.

Os grandes destaques da obra de Henry James são seus três últimos romances: As asas da pomba, de 1902; Os embaixadores, de 1903; e A taça de ouro, de 1904. Nesses livros, ele conseguiu apurar sua técnica narrativa, trabalhar muito bem a composição das frases e a escolha de cada palavra e explorar os drama humanos de maneira magistral.

No Brasil, A taça de ouro foi publicado pela editora Record. O mesmo livro ganhou no ano passado uma edição de bolso pela Best Bolso, um selo da editora Record. As asas da pomba saiu pela Ediouro em 1998, mas a edição está esgotada e pode ser encontrada apenas em sebos. Já Os embaixadores, livro que era inédito por aqui, vai ganhar este mês uma edição caprichada pela Cosac Naify. A tradução ficou a cargo de Marcelo Pen. A edição ainda terá textos de Modesto Carone e Ian Watt, além de prefácio escrito pelo próprio Henry James.

Outros livros de Henry James que já foram publicados no Brasil desde 2001: Os espólios de Poynton; A fera na selva; Pelos olhos de Maisie; Um peregrino apaixonado e outras histórias; Retrato de uma senhora e A volta do parafuso.

*imagem: reprodução Guardian.

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segunda-feira, 1 de novembro de 2010

THE BOY - INÉDITO DE DAVID FOSTER WALLACE

The boy, uma história inédita de David Foster Wallace está circulando na internet. Parece que essa história faz parte de Pale King - o livro inacabado de Foster Wallace que será publicado nos Estados Unidos no ano que vem. A história é cheia de verborragia, de ironias e do humor negro tão típicos do autor. Outros trechos que farão parte de Pale King também foram publicados pela revista New Yorker: Good people, Wiggle room e All that. Os fãs do escritor estão contando os dias para a publicação desse livro. Porém, Lane Brown da revista New York Magazine escreveu um artigo dizendo que este pode ser um livro bem chato.

Quem quiser também pode ouvir o próprio Foster Wallace lendo The boy. Há também o áudio de uma entrevista com ele. É interessante observar a reação da platéria.

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Update: Em dezembro a Columbia University Press vai publicar Fate, time, and language: an essay on free will. Trata-se da tese de gradução de David Foster Wallace.

*imagem: reprodução Google.

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