quinta-feira, 9 de setembro de 2010

ESTEVÃO AZEVEDO


Qual foi o primeiro livro que você leu e que teve impacto sobre você?
Sendo injusto com muitos outros livros, eu destacaria dois. O primeiro é dos poucos que li quando era muito pequeno e de que me lembro até hoje: "Marcelo, marmelo, martelo", da Ruth Rocha. Nele, um garoto que não se conforma com os nomes das coisas decide inventar outros que considera melhores, normalmente relacionados ao uso. É curioso que (claro que só dá para pensar nisso hoje, na época era só uma história divertida) a autora trate de algo que tem muito a ver com o ofício da literatura, não? Renomear tudo que há é uma forma de criar ficção.

O segundo livro marcante é um épico que li por volta dos dez, onze anos: "Xogum". É um best-seller dos anos 70, que conta a chegada dos primeiros jesuítas ao Japão feudal. Nunca mais voltei ao livro, então não sei se ele ainda se sustenta na estante - o que é, aliás, um bom motivo para não voltar jamais: manter intacta a nostalgia. O fato é que naquela época era impossível largar a aventura do capitão inglês que ascende na rígida hierarquia dos samurais e conhece a cultura tradicional japonesa, enquanto se envolve na luta pelo poder. Que alegria o livro ter centenas e centenas de páginas e preencher muitas tardes tediosas.

Alguma vez você considerou a hipótese de não ser escritor?
Até publicar o primeiro livro, eu nunca havia considerado a hipótese de ser escritor, apenas escrevia bastante sem pensar no que faria com tudo aquilo. Depois, a dúvida mudou de aspecto. Passou a ter a ver com a dificuldade de definir o que é exatamente ser escritor. Se, por ter escrito e publicado dois livros, eu tiver ganho a alcunha, independentemente do que eu venha a fazer daqui por diante, aí a questão está resolvida: sou escritor e ponto. Mas não me sinto confortável com a ideia. Quando fico um período longo sem escrever ficção, aceito com mais dificuldade a denominação, e aí considero a hipótese de ter deixado de ser escritor. Como a gestação de um livro normalmente é bem longa, no meu caso, não é raro esse conflito me assombrar. O bom é que, como escrever é das poucas coisas que considero saber fazer minimamente bem (com exceção de não fazer nada, no que sou um mestre), essa angústia acaba por me obrigar a lutar com aindisciplina e seguir produzindo.

Na sua opinião, todas as histórias já foram escritas ou ainda é possível criar novas histórias? Há novas formas de contar histórias?
Sempre será possível contar novas histórias. Isso porque na literatura (ou em qualquer outra arte que se serve da narrativa) o importante é de que forma se conta o que se conta. Então o número de combinações se torna infinito. Com o mesmo material, com exatamente a mesma trama, o mesmo mote, os mesmos personagens, artistas diferentes fazem histórias absolutamente novas. Há inúmeros exemplos disso. A história de Fedra foi contada no teatro por Euripides, Sêneca e Racine, cada um a seu modo. Além disso, mudam os tempos, novas histórias aparecem, novas formas são inventadas. A tecnologia, por exemplo, alimenta as maneiras de contar histórias. O cinema é uma forma de contar histórias que tem pouco mais de 100 anos. A internet fornece novas formas. E assim por diante.

No que você está trabalhando agora?
Além do meu trabalho regular como editor, estou escrevendo um romance.

Quem são os seus escritores favoritos com mais de quarenta anos?
Vou citar os que me vêm a memória agora e que considero bons, sem pensar muito em se são os favoritos. Dos brasileiros, gosto muito do trabalho do Rodrigo Lacerda, do Alberto Mussa, do Reinaldo Moraes, do Luiz Ruffato. Dos estrangeiros, gosto do Phillip Roth, do Lobo Antunes, do Vila-Matas. Agora, favorito mesmo, o que mais li, já está morto: é o Jorge Luis Borges.

*ilustração: Nathalia Lippo.

Share/Save/Bookmark

COM LICENÇA POÉTICA, UM UIVO PARA ALLEN GINSBERG


Por que não falar sobre Uivo, de Allen Ginsberg? Afinal, comentei essa semana Lolita e Madame Bovary, outros livros também escandalosos e polêmicos. Portanto, quero pedir um minuto de licença a prosa de ficção. Se bem que Uivo é um poema que tem ares narrativos. Mas quero falar desse poema por algumas razões.

Primeiro, Uivo é um dos meus poemas favoritos e fez a minha cabeça durante muito tempo quando eu era adolescente. Não que eu tivesse a pretensão de fazer poemas. Me fascinava, como me fascina até hoje, a força das imagens que Allen Ginsberg escolheu para compor o painel da América que não aparecia no cinema e no jornal daquele tempo. Sem falar na sintaxe recriada e naqueles longos versos, tão longos que quase nem cabem nas páginas do livro. Para mim Uivo representava uma espécie de síntese da liberdade na poesia. Assim como Walt Whitman tinha feito muitos anos antes em Folhas na relva. Reza a lenda Uivo é uma tentativa de Allen Ginsberg de achar a sua propria voz e se libertar da influência que William Blake exerceu sobre ele. Entre tantas coisas, é um poema sobre liberdade mesmo.

Segundo, nas próximas semanas vai estrear nos Estados Unidos um filme sobre esse poema. O filme vai se chamar "Howl" e será estrelado por James Franco no papel de Allen Ginsberg. O enredo é baseado na vida do poeta beatnick durante o período em que ele estava escrevendo esse poema e buscando por liberdade artística e pessoal. Depois da publicação, Ginsberg acabou enfrentando os tribunais de São Francisco, nos Estados Unidos, pois Uivo foi considerado uma obra obscena e tudo o mais. A direção do filme ficou a cargo de Rob Epstein e Jeffrey Friedman - com direito a produção executiva de Gus Van Sant. James Franco ficou bem parecido com Ginsberg. O trailer de "Howl" já está circulando na internet.

Terceiro, Eric Drooker, cartunista, ilustrador e integrante da equipe técnica do filme vai publicar "Howl: a graphic novel". Trata-se da transposição do poema em uma grafic novel. Drooker conheceu e foi amigo pessoal de Allen Ginsberg. Os dois chegaram a trabalhar juntos num livro chamado "Illuminated poems". Além disso, Drooker é um conhecido ilustrador de capas da revista New Yorker.

Quarto, motivado pelo lançamento do filme uma série de publicações estão tomando conta das livrarias americanas. Uma delas é particularmente interessante: Jack Kerouac and Allen Ginsberg: the letters. Tem até um texto de Edmund White para a New York Review of Books sobre uma exposição de fotos de Allen Ginsberg.

Por último, aqui no Brasil, Cláudio Willer, que traduziu diversas obras beatnicks para o português, está ministrando um curso sobre a geração Beat.
*imagens: divulgação.

Share/Save/Bookmark

terça-feira, 7 de setembro de 2010

MICHEL LAUB


Qual foi o primeiro livro que você leu e que teve impacto sobre você?
Não lembro do primeiro, exatamente (talvez a história do Patinho Feio). A primeira leitura de impacto que tive foram os gibis de terror da editora Vecchi (Pesadelo, Spektro, Sobrenatural).

Alguma vez você considerou a hipótese de não ser escritor?
Só pensei em ser escritor depois dos 20 (acho que foi aos 22, especificamente). Quando criança eu sonhava em ser músico/astro pop.

Na sua opinião, todas as histórias já foram escritas ou ainda é possível criar novas histórias? Há novas formas de contar histórias?
Os temas já foram todos tratados (nem são muitos, na verdade). Mas histórias são inesgotáveis, porque dependem muito mais de como se conta do que daquilo que se conta. Nesse sentido, uma é sempre diferente da outra.

No que você está trabalhando agora?
Um romance.

Quem são os seus escritores favoritos com mais de quarenta anos?
Dos vivos, J.M.Coetzee e Philip Roth (ambos pela obra como um todo). Tem outros de que gosto igualmente, só que por causa de um livro específico.

*Ilustração: Nathalia Lippo.

Share/Save/Bookmark

EDUARDO BASZCZYN


Qual foi o primeiro livro que você leu e que teve impacto sobre você?
Quando procuro na memória o que me trouxe o hábito da leitura, não encontro apenas um livro, mas uma coleção: a série Vaga-Lume, lançada pela Editora Ática nos anos 80. Foram as histórias de autores como Marcos Rey, Marçal Aquino e Luiz Puntel que povoaram minha imaginação e me fizeram companhia por muitas tardes da infância, despertando um vício alimentado até hoje. Mas os livros que mais me impactaram, os que me provocaram ao mesmo tempo angústia e fascínio, foram lidos na adolescência. No difícil exercício de escolher apenas um, destaco "Os Dragões Não Conhecem o Paraíso", de Caio Fernando Abreu. Nele estavam toda a melancolia e a solidão que marcam fases da juventude, em uma linguagem poética, sensível e ao mesmo tempo esquizofrênica. Foram os personagens frágeis e seus amores imperfeitos que me fizeram descobrir logo cedo a instabilidade do mundo e das relações. Não tenho dúvidas de que o efeito provocado por esse, e por todos os outros livros do autor devorados a partir dali, foi decisivo para que eu optasse também pela escrita anos depois.

Alguma vez você considerou a hipótese de não ser escritor?
Na realidade, nunca pensei em ser escritor - pelo menos de forma racional. Não acreditava que a atividade pudesse ser uma profissão como as tradicionais, e escolhi o Jornalismo como o caminho mais prático e seguro para garantir a sobrevivência fazendo algo mais próximo do que eu realmente gostaria de fazer. Mas ter trabalhado em redações e como repórter por mais de dez anos me ensinou, na verdade, como não escrever ficção. São atividades distantes e até contrárias, eu diria. Mas a Literatura sempre esteve por perto, me provocando como as piores tentações, e fazendo com que eu me rendesse. Quando percebi que escrever era uma necessidade, algo essencial para a minha vida, e que aquilo que eu produzia não deveria ficar apenas no escuro das gavetas, decidi me dedicar ao primeiro romance. Desamores foi lançado em 2007 pela Editora 7Letras (e está esgotado atualmente). Escrever o livro de estreia foi descobrir um outro vício além da leitura. Este, bem mais perigoso e sem tratamento. Nada me atrai mais hoje em dia do que a ideia de criar. De trazer ao mundo algo que antes não existia.

Na sua opinião, todas as histórias já foram escritas ou ainda é possível criar novas histórias? Há novas formas de contar histórias?
Há muitas histórias para ser contadas. O que não há são sentimentos inéditos. Todos os que existem e conhecemos já serviram de ingredientes para os livros. Todas as vidas são feitas dos mesmos e imagino que não exista uma única sensação que já não tenha sido descrita ou vivenciada pelos milhares de personagens criados por autores até hoje. Mas cada pessoa enxerga o mundo de uma maneira, e um mesmo episódio ou acontecimento pode ser interpretado de infinitas formas. Há muitos dramas e temas subjetivos a ser explorados ainda. O grande desafio do escritor é criar uma voz própria e segui-la no meio da gritaria.

No que você está trabalhando agora?
Depois da publicação de Desamores, em 2007, me dediquei por um ano e meio ao Núcleo de Dramaturgia do Sesi/British Council, um projeto de formação de novos dramaturgos. Com isso, a ideia e as anotações para o segundo livro ficaram temporariamente guardadas. As atividades com o núcleo resultaram no meu primeiro texto para o teatro, com os direitos para possível montagem cedidos ao Sesi. Em abril deste ano, comecei a escrever o segundo romance. E é nele que trabalho atualmente.

Quem são os seus escritores favoritos com mais de quarenta anos?
Listas de preferidos nunca são definitivas, sempre mudam; mas atualmente meus favoritos, com mais de 40 são: Ian McEwan, Michael Cunningham, Jonathan Coe, Lionel Shriver, Herta Müller e Philip Roth.

*Ilustração: Nathalia Lippo.

Share/Save/Bookmark

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

LOLITA, DE VLADIMIR NABOKOV - CAPAS

Vladimir Nabokov levou muito tempo escrevendo seu romance mais conhecido - Lolita. Depois de pronto, ele ainda teve de esperar dois anos até que finalmente conseguiu publicá-lo. O romance saiu primeiro na França pela Olympia Press, uma pequena editora famosa por publicar livros polêmicos. A publicação nos Estados Unidos só aconteceu em 1958 depois que Graham Greene concedeu uma entrevista elogiando bastante o livro. Segundo consta, Lolita vendeu 100 mil exemplares nas primeiras três semanas de lançamento.

Uma série de problemas tiveram origem com esse sucesso repentino. O romance foi caçado e retirado de circulação em alguns países. Muitos viram no livro indícios comunistas - basta lembrar que nesse período o mundo vivia a Guerra Fria e Nabokov é de origem russa. Outros acharam que o livro atacava a moral e os bons costumes das famílias tradicionais. Isso sem mencionar os que tentavam achar correspondências entre a vida do autor e a obra.

Tamanho escândalo somente com Madame Bovary, de Flaubert ou com As flores do mal, de Baudelaire. Talvez alguns romances do beatnicks. Mas mundialmente falando, acho difícil superarem o caso de Lolita.

Para surpresa geral, encontrei uma resenha brilhante sobre Lolita. Foi escrita pelo crítico Wilson Martins para o antigo Suplemento Literário, do Estadão. Também localizei um site que organizou as capas das diversas edições de Lolita publicadas pelo mundo inteiro. Faltou apenas a capa da edição lançada pela coleção Biblioteca da Folha, em 2003 - por isso coloquei a capa no post.

*imagem: divulgação.

Share/Save/Bookmark

domingo, 5 de setembro de 2010

LIMA BARRETO RENOVADO


O caderno Ilustríssima, da Folha de SP, trouxe textos caprichados sobre do escritor Lima Barreto. Dois novos lançamentos devem colocar o nome do autor de "O triste fim de Policarpo Quaresma" em evidência novamente.

***

Yudith Rosenbaum fala sobre "Diário do hospício e O cemitério dos vivos" que será lançado pela editora Cosac Naify. O livro foi organizado por Augusto Massi e Murilo Marcondes de Moura. A edição ainda conta com prefácio assinado por Alfredo Bosi e um apêndice incluindo textos de Machado de Assis, Olavo Bilac e Raul Pompeia sobre hospícios.

"Diário de um hospício..." é o diário pessoal que Lima Barreto manteve durante sua internação no Hospital Nacional dos Alienados, Rio de Janeiro, entre 1919 e 1920. Já em "... Cemitério dos vivos", Lima Barreto pretendia transformar sua experiência de loucura em ficção. O livro ficou inacabado.

O blog da Cosac Naify tem um post sobre os bastidores da produção desse livro - "Direto do forno", assinado por Lilia Goes, produtora gráfica da editora.

A Folha disponibilizou "A minha bebedeira e a minha loucura", terceiro capítulo do livro.

***

Nicolau Sevcenko conta um pouco da história de Lima Barreto e fala sobre a publicação de "Contos completos de Lima Barreto". O livro será lançado pela editora Companhia das Letras em outubro e conta com organização e apresentação de Lilia Moritz Schwarcz.

***

Por fim, o caderno publicou o conto "Apologética do feio" que irá integrar a coletânea de "Contos completos...". Todos esses textos estão disponíveis apenas para assinantes do jornal ou do portal UOL.

*imagem: reprodução da Wikipédia.

Share/Save/Bookmark

sábado, 4 de setembro de 2010

EMMA BOVARY NA PLAYBOY?

Enquanto a edição brasileira da revista Playboy tem Larissa Riquelme em ensaio 3D, a edição americana tem um trecho da nova tradução de Madame Bovary, obra-prima de Gustave Flaubert. A capa da edição ainda diz assim: "O romance mais escandaloso de todos os tempos". Mas o que teria levado Madame Bovary a ganhar a capa de uma revista como a Playboy?

A razão é bem simples: a editora Viking Press vai lançar em Setembro uma nova tradução desse romance feita por Lydia Davis. Como já comentei, Davis é uma das escritoras mais badaladas do momento nos Estados Unidos. Seu trabalho como tradutora de escritores franceses também tem sido bastante elogiado. A tradução que ela fez de O caminho de Swan, de Marcel Proust foi inclusive premiada.

O tema desse romance de Flaubert é o adultério cometido por uma mulher entediada com sua vida burguesa numa pequena cidade da França. O que a Playboy americana quer fazer é tornar a personagem Emma Bovary, uma figura polêmica. Há um post engraçado no blog do Book Bench da revista New Yorker sobre essa jogada da Playboy. Também há um trecho do capítulo 8 do livro, com a tradução de Davis e introdução de Antonya Nelson, na Tim House Magazine.

Apesar de não parecer a edição americana da revista Playboy sempre investiu em literatura - de uma maneira tímida para dizer a verdade, mas convenhamos que literatura não é o foco principal da revista. A edição brasileira, e mesmo outras edições internacionais, também já deram algum destaque a novos escritores publicando entrevistas, contos inéditos, poemas ou trechos de livros em vias de publicação.

*imagem: reprodução da capa do livro a partir do site da Viking Press.

Share/Save/Bookmark

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

TIAGO NOVAES


Qual foi o primeiro livro que você leu e que teve impacto sobre você?
Foi Viagem ao Centro da Terra, de Julio Verne. Eu tinha sete anos, e passei um bom tempo neste processo, explorando as ilustrações com uma imaginação e um entusiasmo incontidos, e tentando decifrar um universo de diálogos e ideias complicados para a minha imaturidade, mas cujo poder já antevia.

Alguma vez você considerou a hipótese de não ser escritor?
Em alguns momentos, durante a faculdade de Psicologia, eu me esquecia de que era um escritor. Foi o único período, pois estava muito ocupado com outras coisas. Tornar-me escritor não foi particularmente uma decisão, contudo. É uma condição que atravessa os acontecimentos da vida, e é claro que se deixa afetar pelas experiências, mas que persiste, quando nada mais persiste. Mas o bom de ser um escritor é que se pode fazer o que quiser, também: eu posso fazer cinema, posso ser psicanalista, posso viajar, dar aulas de filosofia. Deste modo, é uma condição de grande liberdade.

Na sua opinião, todas as histórias já foram escritas ou ainda é possível criar novas histórias? Há novas formas de contar histórias?
Há muitas outras formas de contar histórias que ainda não foram exploradas, e há muitas outras formas de ouvir histórias. O século XX transformou nosso modo de ouvir e de contar histórias, e transformou também a própria essência do que seja uma história. Se assistimos hoje a um predomínio da simplificação das narrativas, que se voltam para uma linguagem publicitária, jornalística e cinematográfica, isto se dá em parte pela massificação, e em parte porque a literatura clássica (estou me referindo à literatura impressa, os romances, os contos, a poesia) perdeu grande parte de sua influência e de seu protagonismo. Mas ela, em relação aos outros gêneros, só vem se ampliando.

No que você está trabalhando agora?
Estou escrevendo um romance, intitulado “Documentário”, agora com o auxílio da Bolsa Funarte de criação literária, cujo resultado saiu há pouco mais de dez dias. É um livro que venho trabalhando há dois, três anos, desde pouco após a publicação de “Estado Vegetativo”.

Quem são os seus escritores favoritos com mais de quarenta anos?
Imagino que esteja perguntando dos vivos. Roberto Bolaño e Montalbán ainda estão bem vivos para mim. Juliano Garcia Pessanha, Enrique Vila-Matas, Moacyr Scliar (em Doutor Miragem). Lourenço Mutarelli (nos quadrinhos e em Jesus Kid), Paul Auster, J. M. Coetzee e Haruki Murakami.

*Ilustração: Nathalia Lippo.

Share/Save/Bookmark

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

MAURÍCIO DE ALMEIDA


Qual foi o primeiro livro que você leu e que teve impacto sobre você?
Não me lembro exatamente qual foi o primeiro livro que li, mas lembro de ficar às voltas no colégio com os livros do Pedro Bandeira, principalmente “A droga da obediência”. Nessa época eu não era muito dado a leituras, devo dizer. Só mais tarde, quando comecei a me interessar por literatura, tive o primeiro livro que me marcou: “Água Viva”, da Clarice Lispector. Ler Clarice é sempre uma experiência, mas a primeira leitura que fiz desse livro foi realmente impactante, pois estava escrito ali não o que eu sentia, mas como me sentia, isto é, numa busca que margeia um sentimento sem nunca alcançá-lo ou defini-lo.

Alguma vez você considerou a hipótese de não ser escritor?
É um pensamento que me assalta com alguma freqüência. Não raro passo por algumas crises de fé nas quais não consigo escrever sequer meu nome num pedaço de papel. Nesses momentos questiono a idéia de escrever histórias, mas logo me vem uma palavra, uma frase ou uma idéia qualquer, começo a rascunhar uma situação, um personagem, e lá estou eu escrevendo novamente. Não creio que seja uma designação divina, mas meu modo de me relacionar com as coisas.

Na sua opinião, todas as histórias já foram escritas ou ainda é possível criar novas histórias? Há novas formas de contar histórias?
Penso que tanto histórias como a forma de contá-las estão localizadas e em relação direta com seus contextos sócio-históricos, e estes estão em constante transformação. Ou seja, muito embora existam certas matrizes de histórias (um exemplo seria “Romeu e Julieta” como matriz de uma história de amor), acredito que há novas histórias e principalmente novas formas de contá-las. Aliás, penso que decorre disso o frescor da literatura quando temos um bom livro nas mãos.

No que você está trabalhando agora?
Estou trabalhando num romance que aos poucos vai ganhando corpo. Esse livro já teve inúmeros projetos, formas, personagens e afins, mas penso ter encontrado a forma e tom que estava procurando. Além disso, tenho trabalhado em alguns contos que acabam publicados aqui e ali (o último publicado foi ‘Sagrado Coração’, que está no livro “Como se não houvesse amanhã”, uma antologia de contos escritos a partir das músicas da Legião Urbana organizada pelo escritor Henrique Rodrigues).

Quem são os seus escritores favoritos com mais de quarenta anos?
Essa pergunta sempre tem inúmeras respostas, pois depende muito do que estou lendo no momento. Ultimamente tenho lido bastante poesia e, dentre eles, um dos meus favoritos é o Roberto Piva. Outro é o Ferreira Gullar do “Poema Sujo”.

*Ilustração: Nathalia Lippo.

Share/Save/Bookmark

MAIS OBSERVAÇÕES SOBRE O CONTAR


O crítico Sérgio Rodrigues do blog Todoprosa escreveu um post interessante essa semana sobre a questão da trama nas nossas narrativas comtemporâneas - o post se chama "O gosto de contar". Gostaria de repercutir o post que ele escreveu e ampliar o problema comentando mais alguns pontos que julgo interessantes.

***

Realmente a trama, o enredo, a história ou o conteúdo é um ponto importante para que o leitor possa se sentir atraído pelo que está lendo. É por meio dela que ele vai experimentar a forma da narrativa e o exercício de linguagem de um determinado autor. Quando o conteúdo consegue se adequar a forma temos um encontro extraordinário e muito difícil de atingir. Lionel Shriver falou sobre essa questão numa entrevista recente ao programa Entrelinhas, da TV Cultura. Em muitos momentos é amargo mastigar e engolir "a fibra dura de exercícios de linguagem", como diz Sérgio. Mas nem sempre esse descaso com a trama é intencional por parte do autor. Tampouco é fruto de um ódio oculto que ele mantém em relação a literatura. Na verdade, penso eu, a morte da trama é parte de um processo histórico que vem ocorrendo desde o final do século XIX e ganhou força com as vanguardas artísticas no começo do século passado. Diante do impasse de sempre criar algo novo, o caminho encontrado por muitos escritores foi atacar a trama, denunciar a linguagem e o processo de feitura das narrativas literárias. A ideia era revelar a linguagem e matá-la - como apontou Roland Barthes, Michel Foucault, etc. Talvez a maior expressão desse processo tenha ganhado corpo justamente com os franceses do Nouveau Roman e da OuLiPo.

***

Não podemos esquecer que os romances, contos e fábulas estão inseridas no contexto histórico em que são produzidos - elas refletem sobre as questões de uma determinada sociedade e sobre um determinado tempo, no momento em que são escritos. Embora a gente leia com certa distância, não podemos considerar essas obras isoladas desse contexto.

***

O leitor é uma figura importante, mas o processo narcisista de olhar para uma história e querer reconhecer apenas a si mesmo precisa ser balançado. O leitor precisa encarar o fato de que o livro que está lendo é árido porque naquele momento aquele experimento foi importante. O leitor também precisa tentar passar por alguns desafios que o texto impõe. Inclusive o de ser desvendado como linguagem.

***

Vivemos um momento em que contar boas histórias é muito importante, porque os leitores estão mesmo atrás delas. A forma demasiado elaborada não interessa muito. Chego a pensar que os leitores tendem a comentar muito mais a história do que a forma de um livro, mesmo que esse livro consiga conciliar as duas coisas de maneira harmônica. Esses fatos provam que o experimento de linguagem, como proposto pelas vanguardas e como querem os defensores da forma, não triunfou. As vanguardas do começo do século passado ficaram datadas.

***

Valorizar a trama também não significa que dizer ela deve ser altamente elaborada. Muitas histórias boas são frutos de tramas muito simples. "Mrs Dalloway", de Virgínia Wolf, por exemplo, é um romance sobre uma mulher que está preparando uma festa de aniversário. Os contos de Tchekhov também são sobre acontecimentos banais. Os contos escritos pelos autores modernos também estão cheio de outros exemplos. O autor não precisa ir em busca de "passar uma rasteira no leitor" e surpreendê-lo sempre. Muitas vezes importa mais a maneira como a trama é desenvolvida do que como ela vai se concluir. Talvez seja nesse momento que surja o privilégio da linguagem.

***

Os exercícios de linguagem e os textos mais experimentais nascem do nosso desejo de criar o novo e encontrar novas formas de expressão. Isso é algo do nosso tempo moderno - ou pós-moderno, se preferirem. É um tipo de exercício que não pode simplesmente ser deixado de lado porque para a narrativa literária ele compõe uma dialética entre forma e conteúdo.

***

Para concluir, penso que realmente esse gesto de contar histórias nunca vai acabar. Nem a fonte de onde elas brotam. Porque cada ser humano possuí tem uma experiência muito particular da vida. Cada um enxerga as coisas a sua maneira. É dessa riqueza, dessa diversidade que vem as histórias, as tramas, os enredos. As hitórias vão durar até que o último ser humano deixe de existir - "e depois disso, que diferença faz?", como disse Sérgio no post dele.

*imagem: reprodução do Google.

Share/Save/Bookmark