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segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

PRÊMIOS LITERÁRIOS PARA FECHAR O ANO

Os ganhadores do Portugal Telecom 2013: Eucanaã Ferraz (poesia), José Luiz Passos (romance e prêmio principal) e Cíntia Moscovich (Conto/Crônica).

Publiquei no final de novembro uma compilação com os vencedores dos prêmios literários mais importantes, controversos e divertidos do ano (reveja aqui). Para completar a lista, fiquei devendo apenas os vencedores de seis prêmios que foram anunciados ao longo de dezembro. Com isso, ficamos com um panorama amplo de livros que foram celebrados pela crítica especializado (ou não?) e fechamos o ano sem aquelas listas de melhores do ano. A lista inclui apenas os vencedores nas categorias de prosa de ficção.

BAD SEX IN FICTION
Sexo bem feito é bom e todo mundo gosta. Já sexo ruim... fico até sem palavras. Imagina na literatura. O prêmio mais divertido do ano que celebra cenas de sexo ruim na literatura foi para as mãos do indiano Manil Suri com o livro The City of Devi (ainda sem tradução para o português). Suri tem um livro publicado no Brasil A morte de Vishnu que saiu pela Companhia das Letras, em 2001. Os jurados citaram o trecho abaixo para justificar a escolha:

"The hut vanishes, and with it the sea and the sands – only Karun’s body, locked with mine, remains. We streak like superheroes past suns and solar systems, we dive through shoals of quarks and atomic nuclei. In celebration of our breakthrough fourth star, statisticians the world over rejoice."

O que vocês acharam?

HATCHET JOB OF THE YEAR
A machadinha de ouro! Outro prêmio concebido por críticos ingleses (do The Omnivore) com o intuíto de escolher a resenha de livro mais revoltante ou engraçada do ano. A vencedora foi a crítica assinada por Camilla Long para o livro Aftermath, de Rachel Cusk que saiu no Sunday Times Review. Ela começou a resenha chamando o livro de "simples e bizarro". Leia aqui.

PORTUGAL TELECOM
Pois é, não deu para Daniel Galera - eu e a torcida do Borussia Dortmund tínhamos quase certeza que Barba ensopada de sangue levaria o prêmio para casa. O vencedor na categoria romance foi O sonâmbulo amador, de José Luiz Passos. A vitória foi merecida porque o livro tem muitas qualidades com destaque para a linguagem hipnotizante e onírica de Jurandir - esse livro foi exaustivamente esmiuçado pelo júri da Copa de Literatura Brasileira (eu estava lá) e só perdeu na final para Diário da queda, de Michel Laub. Na categoria conto o vencedor foi Essa coisa brilhante que é a chuva, de Cintia Moscovich - outro livro que passou despercebido por muita gente.

CUNHAMBEBE
O prêmio Cunhambebe, dedicado aos melhores livros de ficção estrangeira publicada no Brasil e organizado pelo agente literário Stéphane Chao, divulgou seu vencedor: Os enamoramentos, de Javier Marías com tradução Eduardo Brandão publicado pela Companhia das Letras.

APCA
Apesar de ser uma instituição antiga, a Associação Paulista de Críticos de Artes começou a premiar escritores somente em 1972. O vencedor da categoria romance foi Lívia e o cemitério africano, de Alberto Martins e da categoria contos/Crônicas foi Garimpo, de Beatriz Bracher - ambos foram publicados pela Editora 34.

FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL
O último prêmio do ano foi anunciado na semana passada. Na categoria romance, o júri da Fundação Biblioteca Nacional escolheu o livro Opsianie Swiata, de Veronica Stigger que acaba de sair pela Cosac Naify. Já a categoria conto ficou com Aquela coisa brilhante que é a chuva, de Cintia Moscovich - que já tinha faturado o Portugal Telecom.

* Imagem: divulgação do Prêmio Portugal Telecom.
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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

COMO ESCREVER UMA RESENHA RUIM

Em tempos de malhar a crítica literária, nada melhor do que criar um prêmio para a resenha literária "mais raivosa, engraçada ou mordaz dos últimos tempos" publicada em jornais ou revistas. Assim nasceu o "Hatchet Job of the Year" (ou "Serviço de Machadinha do Ano", como traduziu Sérgio Rodrigues no Todoprosa). O prêmio organizado pelo site inglês Omnivore Criticism Digested está na sua primeira edição e foi entregue em 7 de fevereiro. O ganhador foi Adam Mars-Jones pela resenha de Ao anoitecer, de Michael Cunningham. Segundo os organizadores, o objetivo do prêmio "é levantar o perfil dos críticos profissionais e promover a integridade e inteligência no jornalismo literário".

Este artigo, publicado originalmente no blog da Melville House (9/2/2012), trata dos problemas envolvendo uma resenha crítica.


"Eu tive sorte que todas as críticas ruins que eu tive foram escritas por idiotas." - Geoff Dyer sobre críticas negativas

Por Nathan Ihara
Tradução de Rafael R.


Geoff Dyer, um indicado ao primeiro prêmio "Hatchet Job of the Year" por sua resenha negativa para The Sense of na Ending, de Julian Barnes (Adam Mars-Jones ganhou o prêmio no dia 7 de fevereiro pela resenha de Ao anoitecer, de Michael Cunningham, como consta no site do prêmio), foi entrevistado na semana retrasada pelo jornal inglês The Guardian e disse algumas coisas tipicamente engraçadas e inteligentes sobre a natureza da crítica. Ele adverte contra o fascínio (talvez agravado por este prêmio) por escrever "frases espirituosas e condenáveis", à custa de "precisão de... julgamento".

Ele chama de "ingenuidade" pensar que os críticos não vão escrever sobre seus amigos ou inimigos . E ele traz à tona uma das minhas queixas de estimação pessoais sobre resenhas de livros: "Um dos problemas com resenhar é que os jornais estão obcecados com que suas resenhas apareçam primeiro – estar atualizado ao invés de ter tempo para formar uma visão mais considerável".

Como publicista, acho frustrante que editores de livros não queiram ou não possam atribuir resenhas de livros apenas alguns meses (ou semanas) após a janela de "oportunidade".

Dyer também critica um dos tipos mais comuns de resenhas negativas (uma resenha ruim de uma resenha ruim!):
Eu detesto quando um resenhista resume o enredo e adiciona algumas coisas no final sobre o estilo. Você está enfatizando a qualidade da escrita, mas de alguma maneira você correndo o risco de negligenciar a qualidade do julgamento.
O que me faz pensar num outro dos meus aborrecimentos críticos: que os resenhistas muitas vezes não conseguem apresentar claramente os seus próprios critérios estéticos antes de lançar ataques ou elogios. No exemplo acima, Dyer descreve o crítico comum que assume que algumas frases mal escritas significam um livro ruim. Dyer implica um critério crítico diferente: ele não está muito preocupado com a qualidade de escrita – há problemas maiores a serem considerados. Muitos argumentos aparentes sobre a qualidade de um livro ("Uma idéia brilhante!" versus "Horrivelmente escrito!") não estão realmente em desacordo sobre o livro. Pelo contrário, estas resenhas apenas expressam por baixo, mas frequentemente desarticulados, os conflitos sobre critérios para a “boa” arte.

Não seria mais fácil se os resenhistas fossem mais francos sobre o que eles querem? Por que, eu me pergunto, será que devemos ser forçados a inferir um sistema fundamental de avaliação dos resenhistas? (Respondendo minha própria pergunta: eu suspeito que muitos críticos não analisaram devidamente sua própria doutrina subjacente). Me parece evidente que qualquer crítico profissional deve ter por aí em algum lugar na web uma declaração formal de seus critérios literários. Essa lista não precisa (não deve) ser abrangente, mas pode fornecer uma base para a compreensão de como responder a um dado escrito por um crítico. Sem esses critérios, ler resenhas de livros parece um pouco como ser testemunha de uma condenação sem qualquer pista sobre a natureza da lei.

Algumas das melhores resenhas (a-hã, meus critérios) estão menos interessados em avaliar um livro do que descobrir ou revelar um critério útil. Por exemplo, no “Hatchet Job” de Marte-Jones para Ao anoitecer, de Cunningham, ele começa com a declaração: "Nada faz um romance parece mais vulnerável, mais nu, do que uma blindagem de referências literárias". Agora sabemos que um critério pelo qual Mars-Jones mede ficção. Ele teve a decência de ser dogmático. Bem longe dos padrões, ele está definindo sua regra: a referencialidade, particularmente se procura fazer um texto parecer mais significativo e poderoso, tem o efeito inverso de fazer um livro (ou escritor) parecer inseguro. Sem levar em conta se você concorda ou discorda desta afirmação, agora você pode ler o resto da resenha sabendo o que o resenhista destaca e acredita – o que lhe permite avaliar a forma como ele avalia.

Nathan Ihara é publicista da Melville House. Anteriormente, ela trabalhou como crítica literária do LA Weekly. O artigo foi reproduzido com permissão da editora.

*Imagem: Adam Mars-Jones recebendo o prêmio / reprodução hatchetjoboftheyear.com
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