quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

MADELEINES LITERÁRIAS - UMA RECEITA


Perdoem a minha falha! Encerrei as comemorações em torno do centenário do livro Du côté de chez Swann, de Marcel Proust sem publicar a coisa mais importante de todas: a receita do famoso bolinho de Madeleine. Para quem não sabe, Proust celebrou a iguaria num episódio do livro em que o narrador leva a boca o bolinho com chá, lembra da infância e metaforicamente dilui a passagem cronológica do tempo. Nos livros de culinária circulam muitas histórias sobre quem foi o verdadeiro inventor da Madeleine. A versão mais conhecida é atribuída a uma empregada da marquesa Perrotin de Baumont, em 1755 - ela copiou uma receita da sua avó.

Os ingredientes são fácil de encontrar e a forma com formato de concha está à venda em lojas do ramo (é possível comprar pela internet). A receita só requer tempo e paciência de quem estiver preparando. Acho que vale a pena arriscar e depois folhear algumas páginas do livro com algum chá de sua preferência.

MADELEINE DE PROUST

A receita é do Chef Rafael Tabach, Boulanger-Pâtissier. 

Ingredientes

· 2 ovos grandes
· 85g de açúcar refinado
· 1 pitada de sal
· 90g de farinha de trigo peneirada
· 2,5g de fermento químico em pó (cerca de 1/3 de colher de café)
· 90g de manteiga sem sal derretida e fria
· 10g de mel fino
· raspas de casca de dois limões (somente a parte verde)

Modo de Preparo

Coloque os ovos em uma tigela e bata bem. Acrescente o açúcar e bata bem até homogeneizar por completo. Incorpore a farinha e o fermento peneirados juntos e mexa bem, sem bater. Adicione a manteiga e o mel, e mexa bem para homogeneizar. Cubra a tigela com um plástico, leve à geladeira e deixe descansar por 30 minutos. Unte as formas de madeleine com manteiga derretida e coloque porções da massa quase até a borda de cada forminha. Leve ao forno pré-aquecido a 230 graus. (Esta temperatura é necessária para a madeleine "subir"). Após 6 minutos, reduza a temperatura do forno para 190 e abra um pouco a porta (não escancarar) por 2 a 3 minutos para a madeleine continuar assando toda por igual. Asse por 15 minutos aproximadamente, até elas estarem douradas e firmes. Desenforme quando sair do forno e consuma.

*Imagem: reprodução.
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segunda-feira, 25 de novembro de 2013

TEMPORADA DE PRÊMIOS


Nessa segunda-feira chuvosa (o verão está chegando mas o tempo na cidade de SP está nublado, chuvoso e meio frio) aconteceu a entrega do Prêmio SP de Literatura 2013 para um autor veterano e dois autores estreantes - com mais de 40 e menos de 40 anos. Entre os concorrentes tinha um monte de gente interessante e aposto que você já tinha os seus favoritos.


Pois bem, acabam de anunciar que o ganhador na categoria veterano foi Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera. Na categoria estreante, os vencedores foram Desnorteio, de Paula Fábrio e Antiterapias, de Jacques Fux.


Com isso, Daniel Galera fecha com chave de ouro a trajetória do romance nesse ano: mesa na FLIP, presença em Frankfurt, participação na Copa de Literatura Brasileira e vários países interessados em publicar e traduzir seu livro. Agora só falta ganhar o Prêmio Portugal Telecom.


Outra coisa bacana desse prêmio é lançar luz sobre autores estreantes. Tenho certeza que mais gente vai procurar os livros da Paula Fábrio e do Jacques Fux.



***


Vou aproveitar o anuncio do Prêmio SP de Literatura para repassar outros prêmios literários que já foram entregues ou ainda serão entregues e não comentei antes por falta de tempo. Vem comigo que no caminho eu explico.


NOBEL
Você pode até achar que o Nobel de Literatura tem gosto de peru de natal, mas a verdade é que desde 1901 o mundo inteiro aguarda com muita ansiedade pelo momento em que os membros da academia sueca abrem uma porta e anunciam o nome do vencedor. Nesse ano, o Nobel foi para as mãos da escritora canadense Alice Munro, de 82 anos. É a primeira vez que um autor dedicado somente ao conto - gênero de forma curta - é agraciado. A escritora já tem três livros publicados no Brasil pela Cia das Letras: O amor de uma boa mulher, Felicidade demais e Fugitiva. Até o final do ano devem chegar as livrarias Vida querida, pela Cia das Letras e uma reedição de Ódio, amizade, namoro, amor e casamento, pelo selo Biblioteca Azul - da Globo Livros. No ano que vem, a Globo Livros promete publicar Selected stories, Fugitiva e The View of Castle Rock.


No ano passado, Munro disse que iria encerrar a carreira para se dedicar a família, mas numa recente entrevista ao The Wall Street Journal ela admitiu que continua tendo ideias para novas histórias - deixando aberta a possibilidade de voltar a publicar.


MAN BOOKER PRIZE
O famoso prêmio inglês foi para as mãos da neozelandesa Eleanor Catton com o livro The Luminaries. Com apenas 28 anos e 50 mil livras mais rica, ela se tornou a autora mais jovem a receber o prêmio e a autora do livro premiado mais longo de todos os tempos - a edição inglesa tem 832 páginas. Dizem que o prêmio já era esperado, pois nos bastidores todo mundo garante que Eleanor era a favorita desde o anúncio da primeira lista de selecionados.


Se você ficou interessado pelo livro deve saber que The luminaries já tem editora no Brasil e sairá em 2014 pelo selo Biblioteca Azul, da Globo Livros.


GONCOURT
Enquanto os prêmios literários ao redor do mundo costumam pagar altas somas para os vencedores, o Prix Goncourt para apenas €10. O valor é simbólico e o autor ganhador compensa o valor magro do prêmio com o número expressivo de vendas após o anúncio - sem contar com o interesse de editoras do mundo inteiro em comprar os direitos de publicação do livro. Na edição desse ano quase houve um empate entre um veterano e um estreante. Foram 6 votos contra 4. Quem levou a melhor foi Pierre Lemaître, o veterano, com o romance Au Revoir Là-haut (ele é inédito no Brasil, mas bem conhecido na França e teve um livro publicado em inglês). Curiosamente, tanto o livro do veterano quanto o do estreante (Arden, de Fréderic Verger) falam sobre guerra.


AINDA NA FRANÇA: MÉDICIS, RENAUDOT E ZORBA
Outros dois prêmios literários importantes da França também divulgaram seus vencedores - ambos apareceram nas listas de selecionados do Goncourt (será que os prêmios tem sempre os mesmos finalistas?). O Prix Renaudot foi para Yann Moix com Naissance (o livro tem 1152 páginas e dizem que segue um estilo Laurence Sterne graças a ironia perversa, hilária e grotesca) e o Prix Médicis foi para Marie Darieussecq com Il faut beaucoup aimer les hommes - pelo que apurei é um livro sobre uma história de amor que lida com a impossibilidade de contar uma história de amor no mundo de hoje.


Já o Prix du Zorba (o nome vem do bar onde acontece a premiação) foi criado no ano passado e pretende ser uma espécie de "anti-Goncourt". O júri conta com escritores, jornalistas e djs e quer premiar o livro mais excitante do ano. O ganhador foi Une vie pornographique, de Mathieu Lindon. Levou para casa €500 (bem mais do que o Goncourt). O livro trata de uma personagem víciada em heroína que tenta se recuperar.


JOSÉ SARAMAGO
Dessa vez o prêmio foi para as mãos do angolano Ondjaki com o livro Os transparentes - acabou de sair pela Companhia das Letras. Entre os membros do júri estava a académica Nelida Piñon.


CUNHAMBEBE
O Prêmio Cunhambebe, dedicado aos melhores livros de ficção estrangeira publicada no Brasil e organizado pelo agente literário Stéphane Chao, divulgou seus finalistas: A trama do casamento, de Jeffrey Eugenides; O dia em que a poesia derrotou um ditador, de Antonio Skármeta; O mapa e o território, de Michel Houellebecq; Festa no covil, de Juan Pablo Villalobos; Os enamoramentos, de Javier Marias; HHhH, de Laurent Binet; Fora do tempo, de David Grossman; Rostos na multidão, de Valeria Luiselli; Sunset Park, de Paul Auster; A primeira pessoa, de Ali Smith e Serena, de Ian McEwan. O vencedor será anunciado em 9 de dezembro.


BAD SEX IN FICTION
Nenhum tema tem sido tão relevante para a literatura contemporânea quanto o sexo. Basta um passeio pelas livrarias da sua cidade para ver estantes inteiras dedicadas ao gênero "pornografia (com direito a doses homeopáticas de sadomasoquismo) para mulheres". No entanto, o Bad Sex in Fiction não dá a mínima para E.L. James, Sasha Grey, Sylvia Day e compania. Os organizadores querem premiar e desencorajar as piores cenas sexuais publicadas em livros de ficção sem foco específico em pornografia ou literatura expressamente erótica.


Os finalistas são: My Education, de Susan Choi; The Last Banquet, de Jonathan Grimwood; House of Earth, de Woody Guthrie; Motherland, de William Nicholson; The Victoria System, de Eric Reinhardt; The World Was All Before Them, de Matthew Reynolds; The City of Devi, de Manil Suri e Secrecy, de Rupert Thomson.


Os escritores são praticamente desconhecidos no Brasil. Talvez dois ou três tenham um livro publicado por aqui e dificilmente chegaram até as nossas estantes em português. Tudo vai depender da repercussão do prêmio e da trajetória de sucesso do livro. O vencedor será conhecido em 3 de dezembro.


NATIONAL BOOK AWARD
Nenhum veterano foi páreo para The Good Lord Bird, de James McBride - o vencedor do National Book Award. Nem a beleza de Jhumpa Lahiri, nem o humor negro de George Saunders, nem mesmo a estranheza de Thomas Pynchon. Nada! McBride tem uma obra prolifica voltada para o cinema, a música e a literatura. O livro conta a história de um escravo que vive no estado norte-americano do Kansas, em 1857, e tem ideias abolicionistas. Os jurados acharam o livro engraçado e original.


McBride já teve livros publicados no Brasil pela editora Bertrand Brasil.


TELECOM DE LITERATURA
O prêmio anunciou seus finalistas e promoveu um encontro durante a Balada Literária, mas ainda não disse quando vai ser a cerimônia de entrega.


***

Será que esqueci de algum prêmio? Se alguém souber de alguma coisa, deixem um comentário.


*Foto: divulgação.
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COMBRAY EM FAC-SÍMILE


Como bem alertou Mario Sergio Conti num artigo para o caderno Ilustríssima, da Folha de SP, no dia do centenário do livro Du Côté de Chez Swann, de Marcel Proust: "multidões não sairão às ruas para, mascaradas com o bigodinho do romancista, fazer vigília (...) apenas alguns, em Londres, no Cairo, em Tóquio ou numa padaria nas Perdizes, brindarão à memória do grande artista". Para não ser injusto, acho que alguns lugares promoveram debates e encontros para tratar do assunto - se não me engano, nessa segunda-feira, a Casa do Saber RJ está recebendo o escritor Marcelo Backes para uma palestra para comemorar a data.

Nos Estados Unidos, a Morgan Library organizou uma exposição com fotos e manuscritos raros e uma série de concertos musicais. Fiquei sabendo que na França organizaram seminários e festinhas. Nada muito caloroso como no Bloomsday ou no Dia D.

Talvez a cereja do bolo tenha sido a edição fac-símile caprichada de Combray - a primeira parte de Du Côté de Chez Swann - organizada pela editora Gallimard. O livro tem grandes dimensões para ampliar a imagem dos manuscritos e o leitor ainda pode manipular certos trechos como se estivesse diante do original.

(Para entender melhor tem aqui um vídeo)

Detalhe: foram impressos apenas 1200 exemplares e não haverá nova impressão. Coisa para atender colecionadores e fãs do escritor. No site da Amazon francesa já não havia nenhum exemplar disponível e os compradores estavam revendendo por preços que variam de €268,00 a €472 (desconsiderando os custos de frete).

Abaixo algumas imagens do exemplar.





Fotos: ©Fondation Martin Bodmer, Cologny (Genève)
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quinta-feira, 14 de novembro de 2013

HOMENAGEM AOS 100 ANOS DE "DU CÔTÉ DE CHEZ SWANN"

Fotos: Rafael R. Tratamento de imagem: Tatiana Mello

















"Combray" (a primeira parte do livro) começou a ser escrita em 1909 e excertos apareceram no jornal Le Figaro entre 1912 e 1913. Du côté de chez Swann foi publicado pela primeira vez em 14 de novembro de 1913 pela editora francesa Grasset depois de ter sido recusado por outras editoras.

No Brasil, No caminho de Swann foi publicado pela primeira vez em 1948 pela editora Globo Livros de Porto Alegre com tradução de Mario Quintana.

A Penguin/Companhia das Letras vai publicar uma nova tradução em 2014 com o nome Do lado de Swann assinada por Mario Sergio Conti.

Trilha sonora sugerida http://youtu.be/0aLoezucIzk



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segunda-feira, 11 de novembro de 2013

RESPEITEM O MEU BIGODE!


Os puristas acham que o #casmurros se rendeu aquela moda do bigode. Não! Explico: No caminho de Swann, o primeiro livro da série Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust vai completar 100 anos desde a sua primeira publicação em 14 de novembro de 1913. Trata-se de uma efeméride muito importante porque esse livro está entre as maiores obras da literatura mundial principalmente por sua ambição de querer domar o tempo pela escrita (evidentemente, existem outros tantos elementos que fazem o livro ser o que ele é; são tantos que passaria um dia inteiro para elencar).

Por isso, vou ostentar um magnífico bigode em comemoração a data. Daqui a pouco volto com mais, prometo!

*Imagem: reprodução do Google.
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quinta-feira, 31 de outubro de 2013

DUAS REVISTAS


Amanhã chega às livrarias a nova edição da revista Serrote. A capa tem uma pintura feita por Jacob Lawrence que faz parte de uma série de pinturas chamada "Migração" retratando a migração dos afro-americanos do sul rural para o norte urbano dos Estados Unidos. A edição tem textos de Alejandro Zambra falando de computadores, Adam Gopnik comentando o estilo de Gertrude Stein, Milton Hatoum sobre Graciliano Ramos (ensaio lido na abertura da última FLIP), Julian Barnes sobre artes visuais e Alberto Manguel sobre cartas de amor.

***

Também saiu na gringa a nova edição da Granta com tema "After the War". Tem ficção de Yiyun Li e Paul Auster e ensaios assinados por Hari Kunzru e Herta Müller.

*Imagens: divulgação.
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ADAM THIRLWELL: LIVRO COM FORMA E CONTEÚDO


Enquanto escrevia sobre J.J. Abrams e a celebração do livro como objeto (em toda a sua materialidade ao contrário dos ebooks achatados e virtuais) acabei me deparando com o intrigante Kapow!, de Adam Thirlwell. O livro saiu no ano passado pela editora inglesa Visual Editions com um design muito particular: variação de fontes, páginas dobradas (quando você desdobra elas aumentam), caixas de texto dentro dos parágrafos, parágrafos partidos ao meio, textos que correm em vários sentidos da página e assim segue. Para entender melhor assista esse vídeo. Tudo do jeito que a turma da Visual Editions e os seus fãs gostam (eles só fazem coisa caprichada - procure saber). O design foi criado por Frith Kerr, do Studio Frith.

As pessoas mais rabugentas certamente olham para o livro e pensam "bonitinho, mas ordinário - não passa de um fetiche gráfico". Ledo engado!


Kapow! foi saudado pela crítica inglesa justamente porque alia forma e conteúdo (como todos os livros da Visual Editions). O narrador da história é um escritor que mora em Londres e começa a acompanhar os eventos da Primavera Árabe pela televisão e pela internet, ao mesmo tempo. Tudo vai aparentemente bem até que pensamentos e observações de outros personagem que estão em Londres e no Egito começam a tomar conta da história - tal qual a revolução que o narrador está presenciando a distância. 

Adam Thirlwell estava interessado em experimentar a digressão como um elemento importante na construção desse livro (ele pega carona na tradição de Laurence Sterne, Robert Musil, Philip Roth, Javier Marias e tantos outros para levar o recurso ao limite extremo - parece que deu muito certo). Sua ousadia não brotou do dia para noite. Ele tem outros dois livros publicados Política (saiu pela Companhia das Letras, em 2004, mas está esgotado e fora de catálogo) e The Escape, ainda inédito no Brasil. Além disso, ele apareceu duas vezes na edição especial da revista Granta com os melhores jovens escritores ingleses, em 2003 e 2013. Não é pouca coisa.

Vejam que curioso, na edição da Granta dedicada aos escritores brasileiros foi Thirlwell quem apresentou Michel Laub aos ingleses. Ele virou fã e uma qualidade que destaca em Laub é justamente a digressão das histórias.

Voltando ao começo, dificilmente Kapow! vai ganhar tradução para o português - quem sabe? Portanto, vale a pena recorrer a edição original, ficar de olho na produção desse rapaz e celebrar o livro-objeto.

*Imagem: Amélie Bonhomme/reprodução
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terça-feira, 29 de outubro de 2013

DE VOLTA PARA O PASSADO


J.J. Abrams, diretor de Lost e Star Trek, escreveu um livro de ficção. Na verdade, o livro foi escrito 'a quatro mãos'. Quem escreveu mesmo - no sentido estrito do termo - foi Doug Dorst e, pelo que apurei, Abrams colaborou na elaboração do enredo usando toda sua experiência em narrativas cinematográficas. 

O livro chama S. e conta duas histórias cruzadas: a primeira está nas páginas do livro propriamente dito e chama Ship of Theseus escrita por um misterioso autor de nome V.M. Straka; a segunda acontece em anotações feitas nas margens desse livro por dois leitores chamados Jennifer e Eric. O relacionamento deles também extrapola os limites do livro e acontece por meio de cartas, recortes de jornal, fotografias, cartões postais, mapas e bússolas. Ufa! Como a explicação ficou um pouco confusa, recomendo que você assista esse trailer para compreender tudinho.

Em reportagem para o New York Times, Abrams disse que não publicou o livro com intenção de transformá-lo em filme. A ideia era fazer aquilo que só um livro pode fazer e celebrar todo o potencial de objeto físico. Por isso, S. tem um tratamento especial: vêm em capa dura num estojo selado por um adesivo que o leitor precisa rasgar, as páginas são amareladas (para dar aquele aspecto de livro antigo), as anotações dos leitores são todas feitas à mão em cores variadas e tem os complementos que falei antes (cartas, recortes de jornal, fotografias etc.). Os entusiastas daqueles livros transmídia devem estar lamentando - embora o livro tenha recebido um bom projeto de marketing na internet com o trailer e o mistério envolvendo sua divulgação.

Vai revolucionar a literatura? Certamente não. É um livro de mistério, aventura e ação que promete aos leitores (e fãs de J.J. Abrams) muitos momentos de entretenimento para juntar as peças do quebra cabeça para decifrar o enigma por trás das histórias.

A dupla de autores acerta em cheio ao criar um livro com todas essas características em plena era dos livros digitais. S. vai ganhar uma versão digital com material na internet, mas a experiência física só com o livro mesmo.

Também acho curioso o fato das duas histórias ocorrendo em paralelo e ao mesmo tempo. Cabe ao leitor, tal qual uma câmera cinematográfica, escolher o que focar em cada momento. Nisso entra a experiência de Abrams como escritor/diretor. Volto a dizer, não é a primeira vez que alguém faz isso na literatura (o que é novo hoje em dia, né?). A diferença, dessa vez, está na grife de um celebrado diretor de Hollywood que sabe a maneira correta de contar histórias para o seu público.

Tem tudo para entrar em todas as listas de 'mais vendidos'. As editoras brasileiras devem estar de olho (um comentário em forma de cochicho: considerando o peso da marca J.J. Abrams os direitos de publicação vão custar uma pequena fortuna), mas vai dar um pequeno trabalho traduzir o livro, criar as fontes, imprimir com essas características vintage e produzir o material extra.

Vamos acompanhar! 

*Imagem: reprodução.

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segunda-feira, 28 de outubro de 2013

FINAL DA COPA DE LITERATURA BRASILEIRA 2012/2013


Depois de doze semanas consecutivas chega ao final a Copa de Literatura Brasileira - edição 2012/2013. Na disputa pelo 'título' estavam dois gigantes (para abusar do jargão usado pelos locutores esportivos): O sonâmbulo amador, de José Luiz Passos X Diário da queda, de Michel Laub. Não quero bancar o estraga prazeres e revelar o 'vencedor', portanto se você quiser saber o resultado vá direto para o jogo (clique aqui) - quer um conselho: não seja ansioso e acompanhe a decisão dos jurados voto a voto; é de tirar o fôlego. Eu também votei!

Independente de você concordar ou não com o resultado final, tenho certeza que a impressão geral é que a última temporada de lançamentos nos rendeu uma enxurrada de bons livros (também acho que 2013 vai fechar com saldo positivo já que tem um monte de gente produzindo). Isso não significa que todos os livros que estavam na disputa eram obras-primas, mas eram interessantes/instigantes e bem acima da média. Além disso, acredito que a Copa está contribuindo bastante para colocar a literatura brasileira contemporânea em circulação e debate.

No mais, quero dizer que foi uma honra participar da empreitada - sobretudo quando penso que, além do voto na final, avaliei uma partida 'difícil' entre os livros Barba ensopada de sangue X Habitante irreal - ao lado de gente muito bacana. Agradeço aos organizadores pelo convite.

Que venha a próxima!

*Imagem: reprodução.
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quinta-feira, 24 de outubro de 2013

NOTAS #44


Fanfiction japonesa
Haruki Murakami não ganhou o prêmio Nobel de Literatura (nos últimos três anos ele aparece em primeiro na lista dos palpiteiros de plantão), mas figura essa semana nas páginas da revista - übber cool - New Yorker com um conto chamado "Samsa in love". O escritor japonês, capaz de levar milhares de leitores a dormirem em longas filas nas portas das livrarias por causa de 1Q84, promete derreter os corações endurecidos pela tristeza ou rabugice. O conto retoma a personagem da novela A metamorfose, de Franz Kafka e promove uma espécie de sequência: certa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, uma criatura encontrou-se em sua cama metamorfoseado em Gregor Samsa. Como o título sugere, Samsa vai reaprender a usar seu corpo humano e cair de amores por uma misteriosa mulher que aparece em sua casa.

"Samsa in love" foi retirado de uma coletânea de contos chamada Ten Selected Love Stories (capa acima), publicada mês passado no Japão pela editora Chuokoron-Shinsha. Curiosamente, Alice Munro também está nesta coletânea que teve seleção e tradução para o japonês feita pelo próprio Murakami.

Moraes, mais uma vez
Falando em páginas de revista, a Piauí publicou na edição desse mês mais um trecho de A travessia de Suez, próximo romance escrito por Reinaldo Moraes. Outro trecho apareceu na edição de julho de 2010. A história do sujeito que morre e descobre que era uma encarnação de Deus deve sair pela Alfaguara no ano que vem.


Revolta literária
O romance L’esprit de l’ivresse, do autor estreante Loïc Merle está causando um pequeno burburinho na recente temporada de lançamentos na França. O livro conta a história de um homem mais velho que ao voltar para casa depois de um dia cansativo de trabalho é preso pela polícia, morre e vira símbolo de uma revolta que terá proporções gigantescas em todo o país - o pano de fundo está concentrado naquela revolta de jovens dos subúrbios franceses que aconteceu em 2005. Para além do enredo vibrando narrado em três diferentes perspectivas, a crítica aponta como qualidades do romance: as frases longas, as belas descrições e o manejo do autor para construir personagens que escapam a mera caricatura sociológica.

Pode entrar facilmente na lista de livros que ecoam a revolta das ruas.

Do barulho
Parece que no futuro o silêncio vai andar a quilômetros de distância dos livros - olha que não estou falando das megalópoles ensurdecedoras ou dos aparelhos de MP3 (reparou como todo mundo prefere ler com um fone acoplado ao ouvido). A empresa Booktrack acaba de lançar um aplicativo para o Google Chrome chamado Booktrack Studio. Nele, você pode adicionar música, som ambiente e até efeitos sonoros mais simples as suas histórias preferidas. Detalhe: os sons ocorrem de acordo com o ritmo de leitura de cada um, pois o som está sincronizado a cada linha ou trecho específico. Promete atender aos anseios dos leitores digitais, sobretudo porque permite... compartilhar.

É interessante! Vale experimentar.

*Imagem: reprodução.

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