segunda-feira, 11 de novembro de 2013

RESPEITEM O MEU BIGODE!


Os puristas acham que o #casmurros se rendeu aquela moda do bigode. Não! Explico: No caminho de Swann, o primeiro livro da série Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust vai completar 100 anos desde a sua primeira publicação em 14 de novembro de 1913. Trata-se de uma efeméride muito importante porque esse livro está entre as maiores obras da literatura mundial principalmente por sua ambição de querer domar o tempo pela escrita (evidentemente, existem outros tantos elementos que fazem o livro ser o que ele é; são tantos que passaria um dia inteiro para elencar).

Por isso, vou ostentar um magnífico bigode em comemoração a data. Daqui a pouco volto com mais, prometo!

*Imagem: reprodução do Google.
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quinta-feira, 31 de outubro de 2013

DUAS REVISTAS


Amanhã chega às livrarias a nova edição da revista Serrote. A capa tem uma pintura feita por Jacob Lawrence que faz parte de uma série de pinturas chamada "Migração" retratando a migração dos afro-americanos do sul rural para o norte urbano dos Estados Unidos. A edição tem textos de Alejandro Zambra falando de computadores, Adam Gopnik comentando o estilo de Gertrude Stein, Milton Hatoum sobre Graciliano Ramos (ensaio lido na abertura da última FLIP), Julian Barnes sobre artes visuais e Alberto Manguel sobre cartas de amor.

***

Também saiu na gringa a nova edição da Granta com tema "After the War". Tem ficção de Yiyun Li e Paul Auster e ensaios assinados por Hari Kunzru e Herta Müller.

*Imagens: divulgação.
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ADAM THIRLWELL: LIVRO COM FORMA E CONTEÚDO


Enquanto escrevia sobre J.J. Abrams e a celebração do livro como objeto (em toda a sua materialidade ao contrário dos ebooks achatados e virtuais) acabei me deparando com o intrigante Kapow!, de Adam Thirlwell. O livro saiu no ano passado pela editora inglesa Visual Editions com um design muito particular: variação de fontes, páginas dobradas (quando você desdobra elas aumentam), caixas de texto dentro dos parágrafos, parágrafos partidos ao meio, textos que correm em vários sentidos da página e assim segue. Para entender melhor assista esse vídeo. Tudo do jeito que a turma da Visual Editions e os seus fãs gostam (eles só fazem coisa caprichada - procure saber). O design foi criado por Frith Kerr, do Studio Frith.

As pessoas mais rabugentas certamente olham para o livro e pensam "bonitinho, mas ordinário - não passa de um fetiche gráfico". Ledo engado!


Kapow! foi saudado pela crítica inglesa justamente porque alia forma e conteúdo (como todos os livros da Visual Editions). O narrador da história é um escritor que mora em Londres e começa a acompanhar os eventos da Primavera Árabe pela televisão e pela internet, ao mesmo tempo. Tudo vai aparentemente bem até que pensamentos e observações de outros personagem que estão em Londres e no Egito começam a tomar conta da história - tal qual a revolução que o narrador está presenciando a distância. 

Adam Thirlwell estava interessado em experimentar a digressão como um elemento importante na construção desse livro (ele pega carona na tradição de Laurence Sterne, Robert Musil, Philip Roth, Javier Marias e tantos outros para levar o recurso ao limite extremo - parece que deu muito certo). Sua ousadia não brotou do dia para noite. Ele tem outros dois livros publicados Política (saiu pela Companhia das Letras, em 2004, mas está esgotado e fora de catálogo) e The Escape, ainda inédito no Brasil. Além disso, ele apareceu duas vezes na edição especial da revista Granta com os melhores jovens escritores ingleses, em 2003 e 2013. Não é pouca coisa.

Vejam que curioso, na edição da Granta dedicada aos escritores brasileiros foi Thirlwell quem apresentou Michel Laub aos ingleses. Ele virou fã e uma qualidade que destaca em Laub é justamente a digressão das histórias.

Voltando ao começo, dificilmente Kapow! vai ganhar tradução para o português - quem sabe? Portanto, vale a pena recorrer a edição original, ficar de olho na produção desse rapaz e celebrar o livro-objeto.

*Imagem: Amélie Bonhomme/reprodução
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terça-feira, 29 de outubro de 2013

DE VOLTA PARA O PASSADO


J.J. Abrams, diretor de Lost e Star Trek, escreveu um livro de ficção. Na verdade, o livro foi escrito 'a quatro mãos'. Quem escreveu mesmo - no sentido estrito do termo - foi Doug Dorst e, pelo que apurei, Abrams colaborou na elaboração do enredo usando toda sua experiência em narrativas cinematográficas. 

O livro chama S. e conta duas histórias cruzadas: a primeira está nas páginas do livro propriamente dito e chama Ship of Theseus escrita por um misterioso autor de nome V.M. Straka; a segunda acontece em anotações feitas nas margens desse livro por dois leitores chamados Jennifer e Eric. O relacionamento deles também extrapola os limites do livro e acontece por meio de cartas, recortes de jornal, fotografias, cartões postais, mapas e bússolas. Ufa! Como a explicação ficou um pouco confusa, recomendo que você assista esse trailer para compreender tudinho.

Em reportagem para o New York Times, Abrams disse que não publicou o livro com intenção de transformá-lo em filme. A ideia era fazer aquilo que só um livro pode fazer e celebrar todo o potencial de objeto físico. Por isso, S. tem um tratamento especial: vêm em capa dura num estojo selado por um adesivo que o leitor precisa rasgar, as páginas são amareladas (para dar aquele aspecto de livro antigo), as anotações dos leitores são todas feitas à mão em cores variadas e tem os complementos que falei antes (cartas, recortes de jornal, fotografias etc.). Os entusiastas daqueles livros transmídia devem estar lamentando - embora o livro tenha recebido um bom projeto de marketing na internet com o trailer e o mistério envolvendo sua divulgação.

Vai revolucionar a literatura? Certamente não. É um livro de mistério, aventura e ação que promete aos leitores (e fãs de J.J. Abrams) muitos momentos de entretenimento para juntar as peças do quebra cabeça para decifrar o enigma por trás das histórias.

A dupla de autores acerta em cheio ao criar um livro com todas essas características em plena era dos livros digitais. S. vai ganhar uma versão digital com material na internet, mas a experiência física só com o livro mesmo.

Também acho curioso o fato das duas histórias ocorrendo em paralelo e ao mesmo tempo. Cabe ao leitor, tal qual uma câmera cinematográfica, escolher o que focar em cada momento. Nisso entra a experiência de Abrams como escritor/diretor. Volto a dizer, não é a primeira vez que alguém faz isso na literatura (o que é novo hoje em dia, né?). A diferença, dessa vez, está na grife de um celebrado diretor de Hollywood que sabe a maneira correta de contar histórias para o seu público.

Tem tudo para entrar em todas as listas de 'mais vendidos'. As editoras brasileiras devem estar de olho (um comentário em forma de cochicho: considerando o peso da marca J.J. Abrams os direitos de publicação vão custar uma pequena fortuna), mas vai dar um pequeno trabalho traduzir o livro, criar as fontes, imprimir com essas características vintage e produzir o material extra.

Vamos acompanhar! 

*Imagem: reprodução.

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segunda-feira, 28 de outubro de 2013

FINAL DA COPA DE LITERATURA BRASILEIRA 2012/2013


Depois de doze semanas consecutivas chega ao final a Copa de Literatura Brasileira - edição 2012/2013. Na disputa pelo 'título' estavam dois gigantes (para abusar do jargão usado pelos locutores esportivos): O sonâmbulo amador, de José Luiz Passos X Diário da queda, de Michel Laub. Não quero bancar o estraga prazeres e revelar o 'vencedor', portanto se você quiser saber o resultado vá direto para o jogo (clique aqui) - quer um conselho: não seja ansioso e acompanhe a decisão dos jurados voto a voto; é de tirar o fôlego. Eu também votei!

Independente de você concordar ou não com o resultado final, tenho certeza que a impressão geral é que a última temporada de lançamentos nos rendeu uma enxurrada de bons livros (também acho que 2013 vai fechar com saldo positivo já que tem um monte de gente produzindo). Isso não significa que todos os livros que estavam na disputa eram obras-primas, mas eram interessantes/instigantes e bem acima da média. Além disso, acredito que a Copa está contribuindo bastante para colocar a literatura brasileira contemporânea em circulação e debate.

No mais, quero dizer que foi uma honra participar da empreitada - sobretudo quando penso que, além do voto na final, avaliei uma partida 'difícil' entre os livros Barba ensopada de sangue X Habitante irreal - ao lado de gente muito bacana. Agradeço aos organizadores pelo convite.

Que venha a próxima!

*Imagem: reprodução.
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quinta-feira, 24 de outubro de 2013

NOTAS #44


Fanfiction japonesa
Haruki Murakami não ganhou o prêmio Nobel de Literatura (nos últimos três anos ele aparece em primeiro na lista dos palpiteiros de plantão), mas figura essa semana nas páginas da revista - übber cool - New Yorker com um conto chamado "Samsa in love". O escritor japonês, capaz de levar milhares de leitores a dormirem em longas filas nas portas das livrarias por causa de 1Q84, promete derreter os corações endurecidos pela tristeza ou rabugice. O conto retoma a personagem da novela A metamorfose, de Franz Kafka e promove uma espécie de sequência: certa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, uma criatura encontrou-se em sua cama metamorfoseado em Gregor Samsa. Como o título sugere, Samsa vai reaprender a usar seu corpo humano e cair de amores por uma misteriosa mulher que aparece em sua casa.

"Samsa in love" foi retirado de uma coletânea de contos chamada Ten Selected Love Stories (capa acima), publicada mês passado no Japão pela editora Chuokoron-Shinsha. Curiosamente, Alice Munro também está nesta coletânea que teve seleção e tradução para o japonês feita pelo próprio Murakami.

Moraes, mais uma vez
Falando em páginas de revista, a Piauí publicou na edição desse mês mais um trecho de A travessia de Suez, próximo romance escrito por Reinaldo Moraes. Outro trecho apareceu na edição de julho de 2010. A história do sujeito que morre e descobre que era uma encarnação de Deus deve sair pela Alfaguara no ano que vem.


Revolta literária
O romance L’esprit de l’ivresse, do autor estreante Loïc Merle está causando um pequeno burburinho na recente temporada de lançamentos na França. O livro conta a história de um homem mais velho que ao voltar para casa depois de um dia cansativo de trabalho é preso pela polícia, morre e vira símbolo de uma revolta que terá proporções gigantescas em todo o país - o pano de fundo está concentrado naquela revolta de jovens dos subúrbios franceses que aconteceu em 2005. Para além do enredo vibrando narrado em três diferentes perspectivas, a crítica aponta como qualidades do romance: as frases longas, as belas descrições e o manejo do autor para construir personagens que escapam a mera caricatura sociológica.

Pode entrar facilmente na lista de livros que ecoam a revolta das ruas.

Do barulho
Parece que no futuro o silêncio vai andar a quilômetros de distância dos livros - olha que não estou falando das megalópoles ensurdecedoras ou dos aparelhos de MP3 (reparou como todo mundo prefere ler com um fone acoplado ao ouvido). A empresa Booktrack acaba de lançar um aplicativo para o Google Chrome chamado Booktrack Studio. Nele, você pode adicionar música, som ambiente e até efeitos sonoros mais simples as suas histórias preferidas. Detalhe: os sons ocorrem de acordo com o ritmo de leitura de cada um, pois o som está sincronizado a cada linha ou trecho específico. Promete atender aos anseios dos leitores digitais, sobretudo porque permite... compartilhar.

É interessante! Vale experimentar.

*Imagem: reprodução.

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A VOLTA DO QUE NÃO FOI


Não, meu caro leitor, você não está tendo uma alucinação. Apesar da longa pausa sem atualizações, o blog ainda existe e eu estou por aqui. Não queria apelar para aquele velho lenga-lenga de falta de tempo, mas não vejo outra saída. Fiquei ocupado com uma série de coisa e por falta de tempo (ou preguiça) - nunca por falta de ideias - o blog acabou parado.

Para não sumir completamente dei as caras no Twitter e no Tumblr.

Aos poucos, leitor amigo, estou voltando. Tire o pó da sua estante, desencaixote os livros, organize as prateleiras, revire as páginas e baixe os aplicativos...

Imagem: Erik Desmazières. La salle des planètes, from La Bibliothèque de Babel. / Reprodução
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terça-feira, 17 de setembro de 2013

LITERATURA EM SP



Se você está em São Paulo e gosta de literatura terá uma difícil missão pela frente. Na próxima quinta-feira, a cidade será ocupada por três eventos interessantes - todas acontecem quase ao mesmo tempo em pontos diferentes, ou seja, sem chance de aparecer um pouco em cada um.

Às 19h, na Associação dos Advogados de São Paulo – AASP, acontece a abertura do evento Pauliceia Literária. A escritora Patrícia Melo terá sua obra esquadrinhada por Manuel da Costa Pinto. O evento é pago e os ingressos podem ser adquiridos pelo site.

Às 19:30h, na Casa das Rosas, o escritor Ricardo Lísias estará no segundo encontro do Isto não é um perfil – Desmontando os escritores da prosa contemporânea organizado por Luiz Nadal. Vale lembrar que Lísias acaba de lançar Divórcio e não concedeu nenhuma entrevista para falar do romance - respondeu perguntas dos 'jornalistas' por email. Vai ser uma chance interessante de vê-lo pessoalmente. Tem um primeiro capítulo para degustação aqui. O evento é grátis.

Às 20h, no SESC Consolação, a nova literatura britânica e brasileira será representada por Ben Markovits (ele largou o basquete pela literatura), Steven Hall, Antonio Prata e Daniel Galera. Os quatro estão na seleção de jovens autores da revista Granta - o número com jovens autores britânicos chegou às livrarias na semana passada - e vão falar sobre suas respectivas obras. Os livros do Markovits ainda não foram publicados no Brasil; já Steven Hall teve seu romance Cabeça Tubarão publicado pela Companhia das Letras (indiquei o livro na edição do fanzine sobre 'videogame'). O bate-papo será mediado por Marcelo Ferroni e tem entrada gratuíta.

Difícil decidir, né?

***

Pensa que acabou: como falei num texto anterior, na próxima sexta-feira acontece a FLAP! que vai até domingo junto com o evento Pauliceia Literária que também termina no domingo.

*Imagem: ilustração de Diana Dorothèa Danon que está no livro São Paulo: 'Belle Époque'/reprodução.
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MINHA PARTICIPAÇÃO NA COPA DE LITERATURA


Hoje foi ao ar a minha participação na Copa de Literatura Brasileira 2013. Fiquei muito lisonjeado com o convite dos organizadores e confesso para vocês que senti uma responsabilidade enorme ao saber que teria de avaliar Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera e Habitante irreal, de Paulo Scott. Se você estava num outro país sem acesso a internet aqui vai uma explicação para o temor: foram os dois livros mais comentados da temporada mais recente da literatura brasileira.

Para compor minha 'resenha', tentei ler quase tudo o que escreveram a respeito e ruminei durante muitas semanas algumas ideias que anotei em papéis espalhados. Se fosse possível, passava os dois para a próxima rodada de avaliações, mas não dá! Tanto o livro do Galera quanto o do Scott são dignos de nota e precisam ser lidos - basta ter boa vontade para enxergar as qualidades, reconhecer os defeitos e deixar de lado a rabugice contra a literatura brasileira contemporânea (essa palavra que faz muita gente ficar com cara de nojo - vai entender).

A Copa é divertida justamente por colocar nova luz e promover mais debate sobre livros que poderiam ficar perdidos nas estantes das livrarias ou das bibliotecas públicas e privadas. Por isso, teria sido muito chato se Habitante irreal tivesse sido retirado dessa edição desde o começo (apenas para registrar, Paulo Scott pediu para que os organizadores retirassem o livro da Copa).

Bom, agora chega de papo-furado. Para ler a resenha vai lá no site da Copa e não deixe de acompanhar as outras partidas porque ainda tem várias avaliações que vão ser briga de cachorro grande - como dizem popularmente.

*Imagem: reprodução da Copa.
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sexta-feira, 13 de setembro de 2013

QUANDO A RUA APARECE NA LITERATURA - EM MEMÓRIA A MARSHALL BERMAN

Jane Jacobs
Tem gente que lê dois ou três livros ao mesmo tempo sem perder uma linha do enredo - uma questão de comportamento, hábito, organização, gosto pessoal, sei lá. Conheço pessoas que realizam esse verdadeiro milagre num mundo em que a publicação de livros se multiplica a números exponenciais e exigem agilidade (ou melhor, "rebolado") para acompanhar TUDO o que chega às livrarias, mas eu mesmo não consigo. Quer dizer, até consigo se for um trabalho. Mantenho o foco, crio um método de anotações e sigo em frente. Já para as leituras de prazer eu dedico muita atenção e exclusividade. Leio d-e-v-a-g-a-r. É claro que no meio do caminho faço pausas (com tempo de duração variado) para atender prazos de leitura mais urgentes ou viver a vida (atender ao telefone, ir ao mercado, responder emails, tomar uma cerveja, assistir a um filme, encontrar os amigos etc.). A MTV tinha uma vinheta que dizia: "desligue a TV e vá ler um livro". Em determinados momentos, eu diria o seguinte: "feche o livro e vá para a rua" - se você costuma ler no iPad, Kindle e outros leitores digitais pode usar dizer "desligue o livro e...".

Pois bem, um livro que estou lendo por prazer nesse momento é Morte e vida de grandes cidades, de Jane Jacobs. Não tem nada de ficção, por isso não coloquei a capinha naquele campo "lendo" do blog. O livro foi publicado em 1961 quando as cidades norte-americanas eram assoladas pelo trabalho racionalista, organizador e um tanto higienista dos grandes arquitetos e urbanistas modernos - entre eles, Robert Moses e Le Corbusier. Jacobs usou sua verve de jornalistica-ativista contra essa mentalidade demonstrando que o elemento mais precioso da cidade está escondido na sua diversidade urbana espontânea ocupando ruas e calçadas, misturando prédios antigos com novos, bairros mesclando comércio, fábricas, praças, cinemas, bares, casas, restaurantes, escolas, parques e todo o resto. Suas ideias foram tão influentes que permanecem atuais e repercutem até hoje entre os urbanistas. Sobretudo nesse momento em que as metrópoles estão renascendo como símbolo de um urbanismo mais espontâneo. Apesar de carregar alguns aspectos técnicos que podem parecer enfadonhos para os 'não iniciados', Jacobs constrói seus argumentos com uma prosa recheada de inteligência, beleza e simplicidade narrando sua experiência pessoal com várias histórias de pessoas que moram na cidade por causa de sua diversidade vibrante.

Cheguei ao livro da Jane Jacobs depois de ler o ensaio histórico e literário Tudo que é sólido desmancha no ar, de Marshall Berman - li nos tempos da faculdade para a minha monografia de conclusão da especialização cujo tema era a representação da cidade real em As cidades invisíveis, de Italo Calvino (na vida é muito importante ter ambições). Por causa do prazo de entrega eu fui deixando o livro de Jacobs para depois, outras leituras apareceram e na metade do mês passado a vez dela chegou. Leituras de prazer, lembra? Foi pensando no livro dela e nessa história de um livro que puxa outro que fiquei triste ao ler a notícia de que Marshall Berman tinha morrido. Infelizmente, não o conheci pessoalmente, não era meu professor, amigo ou parente, mas era alguém brilhante por quem eu tinha muita admiração. Ele esteve algumas vezes no Brasil e nunca tive oportunidade de vê-lo de perto. Minha última chance teria sido em 2007 quando ele foi anunciado como um dos convidados do Fronteiras do Pensamento, mas cancelou a participação por problemas de saúde. Uma pena!

Marshall Berman
Tudo que é sólido... foi tão fundamental na minha vida que orientou quase todos os meus pensamentos sobre a modernidade, a teoria marxista, a crítica e o ensaismo - a tal ponto que estou lendo nesse momento um livro que foi muito importante para a formação teórica dele (com Um século em Nova York, Berman tentou 'imitar' o estilo de Jane Jacobs em Morte e vida de grandes cidades para mostrar o espetáculo da Times Square). 

E veja como as coisas são curiosas: com muito brilhantismo Tudo que é sólido... também faz eco ao grande debate sobre o direito à cidade, a ocupação das ruas e as diversas manifestações espalhadas pelo Brasil e pelo mundo. Um dos eixos condutores do livro é a rua como um símbolo da modernidade que aparece na literatura em escritores como Goethe, Baudelaire, Puchkin, Gogol, Dostoievski e James Joyce.

Por toda a era de Haussmann e Baudelaire, entrando no século XX, essa fantasia urbana cristalizou-se em torno da rua, que emergiu como símbolo fundamental da vida moderna. Da “Rua Principal” (Main Street) das pequenas cidades à “Grande Via Branca” ou à “Rua do Sonho” das metrópoles, a rua foi experimentada como um meio no qual a totalidade das forças materiais e espirituais modernas podia se encontrar, chocar-se e se misturar para produzir seus destinos e significados últimos. Era isso o que o Stephen Dedalus de Joyce tinha em mente com sua enigmática sugestão de que Deus estava lá fora, no “grito da rua”.

Viva Marshall Berman!

***



Para encerrar, quem ficou interessado no assunto deve ler urgentemente Tudo que é sólido desmancha no ar saiu pela Companhia das Letras (tradução de Carlos Felipe Moisés e Ana Maria L. Ioriatti). Aproveitando o ensejo, recomento alguns livros de ficção que aparecem no ensaio do Berman e demonstram que a literatura não é um assunto assim tão distante da realidade simbólica, política e filosófica das ruas.



Fausto, de Goethe (volume I e II)
Tradução de Jenny Klabin Segall
Editora 34

Apesar de ser um poema (esse blog é sobre prosa de ficção), Goethe foi o autor que melhor conseguiu dar tratamento literário ao mito do homem sábio que vendeu sua alma ao diabo para saber tudo sobre o amor, a magia e a ciência. O enredo serve como uma alegoria para as transformações históricas, sociais, políticas, científicas e artísticas da modernidade. 



Eugênio Oneguin, de Alexandr Pushkin
Tradução de Dário Castro Alves
Record

Outro livro em forma de poema (segundo alguns, quase um poema em prosa devido ao caráter narrativo). Conta a história de um jovem aristocrata russo tão entediado com a vida que recusa até o amor de uma bela moça. Os anos passam e tudo muda. É uma obra que exerceu grande influência na literatura russa.





Avenida Niévski, de Nikolai Gógol
Tradução de Rubens Figueiredo
Cosac Naify

Gógol faz um amplo panorama da vida cotidiana da cidade de São Petersburgo, capital do império russo. A avenida Niévski com seu movimento vibrante e seu desenho moderno serve como palco central para o desenlace de histórias quase fantásticas.




Memórias do subsolo, de Dostoiévski
Tradução de Boris Schnaiderman
Editora 34

Não se engane! As poucas páginas desse livro carregam uma das personagens mais importantes da literatura ocidental: o homem do subsolo. Um sujeito isolado do mundo que investe ferozmente contra todas as coisas, mas encontra na rua uma maneira de felicidade.





Ulysses, de James Joyce
Tradução de Caetano Galindo
Companhia das Letras

Para além da forma experimental e hermética, o romance mais importante do século XX conta a história de "um homem sai de casa pela manhã, cumpre com as tarefas do dia e, pela noite, retorna ao lar". Nesse passeio a cidade moderna brilha reluzente.



As flores do mal, de Charles Baudelaire
Tradução de Ivan Junqueira
Nova Fronteira

Influenciado pelas transformações urbanas de Paris e pela prosa sombria de Edgar Allan Poe (alguém se lembra do conto “O homem da multidão”), Baudelaire coloca em cena a figura do flâneur que capta a cidade moderna com toda a beleza de suas mazelas.



*Fotos: reprodução do Google/fonte difusa.

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