quinta-feira, 5 de setembro de 2013

O MUNDO É UMA OSTRA


Três rapazes de Nova York, donos de uma startup, estão adicionando mais um ingrediente apimentado a longa discussão sobre o fim do livro. Melhor dizendo, o ingrediente tem gosto de ostra (com ou sem limão, você é quem decide). Junto com outros entusiastas, eles criaram um aplicativo chamado Oyster. Uma reportagem da revista WIRED explica como vai funcionar: você paga $9,95 dólares por mês e tem acesso ilimitado a mais de 100 mil livros em versão digital para você ler no seu celular. Uma vez que você acessou, pode procurar livros de todos os gêneros num esquema mais ou menos parecido com o Netflix (aquele serviço de TV por internet) ou com o Rdio (serviço de música por internet).

O aplicativo tem algumas peculiaridades. Por exemplo, não vai disponibilizar o catálogo inteiro de uma editora. Parece que os desenvolvedores farão uma seleção para colocar na plataforma apenas livros interessantes (o que quer que isso signifique). Como todo aplicativo que se preze, ele vai permitir que você monte uma biblioteca e compartilhe suas leituras com o mundo inteiro. Todas as suas informações, livros preferidos, lista de livros que você leu ou deseja ler serão registrados para que o aplicativo possa decodificar seu 'gosto' e oferecer para você aquilo que você procura. Mais do que isso, você poderá adicionar amigos e dar aquela espiadinha na biblioteca deles a fim de encontrar livros que eles estão recomendando. Finalizando os atrativos, o usuário poderá aplicar 'temas personalizados' aos livros que alteram a fonte, a luminosidade e a textura da 'página' para conforto de leitura - há cinco temas disponíveis.

A ideia é derrubar as barreiras que estão entre você e os livros para que você gaste seu precioso tempo... lendo e esses objetos de outro planeta percam a materialidade que lhes é característica para estarem SEMPRE ao alcance dos seus dedos. Ou seja, você não poderá usar como desculpa a falta de tempo ou dinheiro por duas razões: o valor que você paga por mês custa menos do que um livro na Amazon e com todas as sugestões que você vai receber não terá nem o trabalho de procurar um livro que você goste.

Pelo que entendi, o aplicativo ainda está em fase de teste e, por isso, o acesso está restrito apenas para pessoas com iPhone que moram nos Estados Unidos - para usar o aplicativo o interessado ainda precisa pedir um convite. Com base nesse teste a plataforma será lançada oficialmente.

Mesclando a minha matemática de botequim com a minha visão de negócios mambembe tive um raciocínio. Para o usuário parece um bom negócio, mas para o mercado editorial, mais especificamente para o negócio do livro digital, será um golpe e tanto porque os preços dos livros por unidade terão de despencar para serem mais competitivos e atraentes. Com isso, o lucro dos editores deve diminuir porque eles deixam de ganhar no preço unitário do livro. Afinal, será que o leitor vai ficar tão entusiasmado assim que vai comprar o livro físico ou o livro digital separadamente? Pode ser que exista um ou outro, mas não um número expressivo. Quem vai sentir mais de perto será a Amazon, o maior concorrente do filão.

Quando vejo esses movimentos do futuro sempre penso naquela frase do Chris Anderson, um jornalista (quase um guru) que cria várias teorias sobre o futuro da indústria do entretenimento: "Every industry that becomes digital will eventually become free" (em tradução livre: "Toda indústria que se torna digital, eventualmente, vai se tornar gratuita").

Seja como for, é uma aposta, uma experiência, uma tentativa de encontrar espaço num modelo de negócio em crise ávido por uma saída surpreendente. Só o tempo dirá.

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E pensar que em meados da década passada, os japoneses inventaram um negócio chamado "mobile novel". Com o avanço da tecnologia e o advento das redes sociais quem vai ficar interessado em receber torpedos com histórias quando pode ter todas as histórias do mundo num aplicativo.

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Uma curiosidade, o nome Oyster foi retirado da fala "The world's mine oyster” que está na peça As alegres comadres de Windsor, de Shakespeare. Ah! Eles tem um blog com fotos bem legais de gente lendo.

*Imagem: Oyster/Divulgação.
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segunda-feira, 2 de setembro de 2013

INDIE QUE NEM EU, QUE NEM QUEM?



Começou ontem, em São Paulo, o Mês da Cultura Independente com uma série de eventos gratuitos voltados a produção cultural 'indie' de música, cinema, dança, artes visuais e literatura. Uma chance bacana para conhecer uma parte da cultura que não costuma receber patrocínio de grandes empresas e divulgação nas mídias tradicionais, mas tem importância vital por experimentar, arriscar e trazer novos ares para os campos da cultura mais consagrados.

O braço literário do Mês conta com dois grandes eventos: 

-> II ENCONTRO DE LITERATURA DIVERGENTE
O encontro do ano passado rendeu frutos e a reunião entre escritores, editores e pesquisadores interessados no tema divergente acontece novamente Biblioteca Alceu Amoroso Lima nos dias 14 e 15 de setembro. Na abertura haverá uma mesa explicando o conceito da literatura divergente com Berimba de Jesus e Nelson Maca. Além dos saraus, haverá bate-papo sobre escrita feminina, mesa-redonda sobre conceitos de raça, classe, gênero e identidade regional e um debate sobre editoras alternativas. O poeta Nicolas Behr (que esteve na FLIP) também vai participar.

-> FLAP!
Focada principalmente em poesia, a 'festa' coloca em discussão na agenda literária temas um pouco mais atrevidos. No dia 21, a Biblioteca Mário de Andrade recebe um debate sobre a presença do corpo na literatura, com participação de Alfredo Fressia, Clara Averbuck, Elizandra Souza, Juliano Garcia Pessanha e Nuno Ramos. No mesmo dia, o Espaço dos Satyros recebe debates sobre o papel do tradutor (com participação da Denise Bottmann e outros) e a memória da violência na literatura. No dia 22, Biblioteca Alceu Amoroso Lima abriga um debate sobre a apatia da crítica contemporânea e mais tarde acontece o encerramente com confraternização na Feirinha Gastronômica da Praça Benedito Calixto. Ah! A abertura será na Casa das Rosas com uma feira de publicações independentes, no dia 20.

-> Correndo por fora, haverá Sarau da Cooperifa comandado por Sérgio Vaz, no dia 13, na Biblioteca Pública Alceu Amoroso Lima); e um debate sobre a internet e os selos independentes com os escritores Antônio Xerxenesky e Daniel Pellizzari, no dia 14, no Centro Cultural São Paulo.

Tem mais informações detalhadas no site da FLAP! e da Prefeitura.

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Por curiosidade, também acontece em setembro a Pauliceia Literária (no mesmo final de semana da FLAP!), um evento mais robusto e não tão 'indie' assim. Aos moldes da FLIP, a programação conta com um autor homenageado (a escritora Patrícia Melo), mesas de debate com autores nacionais e internacionais, grupos de leitura e oficinas de escrita. Destaque para a participação de Valter Hugo Mãe, Juan Pablo Villalobos, Inês Pedrosa, Scott Turow, entre outros. Os ingressos custam de R$ 16,00 a R$ 32,00 e a programação completa está disponível no site www.pauliceialiteraria.com.br

Além de mês 'indie', será o mês 'literário'.

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Vale lembrar também a Balada Literária que não está no mês 'indie', mas bem que poderia. A edição desse ano deve acontecer em novembro e terá como homenageado o cartunista Laerte. Entre as atrações confirmadas estão os escritores Washington Cucurto, Alberto Guerra Naranjo e Jorge Fornet, do Centro de Pesquisa Literária da Casa de Las Americas, junto com Mauro Munhoz (da Flip) e Sérgio Vaz (do Sarau da Cooperifa).

*Imagem: reprodução Google.
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sábado, 31 de agosto de 2013

BESTIÁRIO, DE JÚLIO CORTÁZAR



Desculpem voltar ao papo dos videogames - parece que o blog anda monotemático -, mas vocês sabem como é: um assunto sempre puxa o outro. Vi numa livraria que Bestiário, o primeiro livro de contos de Júlio Cortázar publicado em 1951, acaba de ganhar uma reedição caprichada pela Civilização Brasileira com nova tradução feita por Paulina Wacht e Ari Roitman e projeto gráfico de Leonardo Iaccarino. O livro é objeto de desejo de muita gente e estava fora de catálogo há muitos anos - se não me engano, a última publicação foi pela editora Nova Fronteira nos anos 90.

No total são oito contos - alguns clássicos: Casa tomada, Carta a uma senhorita em Paris, A distante, Ônibus, Cefaleia, Circe, As portas do céu e Bestiário.

O que tudo isso tem a ver com videogames? O conto Carta a uma senhorita em Paris serviu de inspiração para o jogo "Rabbits for my closet". Falei a respeito dele em 2011 confira aqui. Assumimos o papel do narrador do conto que misteriosamente começa a vomitar coelhinhos e nossa tarefa é escondê-los dentro do armário, antes que a empregada descubra. Não requer prática e nem tão pouco habilidade.

Vale comprar o livro e ainda ter como bônus o jogo.

*Imagem: divulgação.
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sexta-feira, 30 de agosto de 2013

OBSERVAÇÕES SOBRE LITERATURA E VIDEOGAME



Um dos motivos que me fizeram ficar longe das atualizações desse blog atende pelo nome de "The Last of Us", o jogo da Naughty Dog para o PlayStation 3 (que pena que os jogos de videogame não contam com títulos em português - será um purismo da minha parte?). Um assunto desses num blog literário pode parecer estranho, mas se você me acompanha desde o começo já deve estar acostumado. Sempre falei do flerte cada dia mais estreito entre a literatura e o universo dos videogames.

Inclusive, a terceira edição do fanzine tratou do tema com dois grandes textos: um artigo sobre Cormac McCarthy no videogame e uma pequena entrevista com os designers Peter Smith e Charlie Hoey responsáveis por uma adaptação 8 bits de O grande Gatsby. Dali eu chamo atenção para um momento em que eles falam do desejo incontrolável que algumas pessoas da indústria dos games (escritores, críticos e empresários) não escondem de ninguém de que os jogos avancem a ponto de conseguir emular um filme ou livro.

Não sei dizer se no futuro o videogame conseguirá essa façanha porque cada meio narrativo (filme, livro ou jogo) tem as suas especificidades, mas - guardadas as devidas proporções - os jogos trilham esse caminho e parecem próximos de atingir esse objetivo.

"The Last of Us" é um caso a ser avaliado. Os desenvolvedores da Naughty Dog conseguiram a proeza de construir um jogo que nos envolve emocionalmente usando uma história bastante verossímil com personagens autênticas e uma trama cheia de reviravoltas - sem mencionar a riqueza dos detalhes gráficos, a beleza imagens e a qualidade do som. Basicamente, o jogo acontece num futuro não muito distante em que a humanidade é infectada por uma doença causada por um fungo que os transforma numa espécie de zumbis (parece um mundo apocalíptico, mas as cidades dos Estados Unidos servem de cenário com elementos fáceis de reconhecer - o prédio do Capitólio, o skyline de Pittsburgh, as rodovias, o Financial District, os subúrbios, uma universidade etc.). 

Acompanhamos e protagonizamos a história de Joel, um sujeito durão que perdeu a filha de uma forma trágica enquanto tentava fugir da epidemia. Anos depois, ele sobrevive numa zona de quarentena e por obra do destino embarca numa missão de escoltar uma menina especial chamada Ellie até um grupo de pessoas que pode encontrar a cura para a infecção. No percurso muitas coisas vão acontecer - não vou contar mais nada para não estragar a surpresa.

Os dialógos são muito bem sacados (não parecem nem um pouco artificiais), tem humor, tem drama, tem suspense e tem transformação das personagens. As cenas não cortam a ação de modo abrupto e tudo se desenrola com lógica e sutileza. Outro trunfo muito plausível, tal qual a vida real temos de investigar os ambientes em busca de suprimentos para sobreviver (precisamos encontrar armas, aperfeiçoá-las, achar munição - que acaba se você desperdiçar -, 'alimentos', kits médicos e todo o resto). Joel também coleciona manuais que ensinam a montar explosivos, afiar facas etc. Como narradores-protagonistas comandamos três personagens (a filha de Joel, Joel e Ellie) e manipulamos a câmera para ver o ambiente.

Comparando ingenuamente o jogo aos romances, me parece claro que a narrativa não joga com mecanismos mais complexos como lacunas, fluxo de consciência e matizes psicológicos das personagens. Ficamos num nível mais superficial. Também faz falta a materialidade linguística que opera verdadeiros milagres ao contrário das artes visuais que precisam apreender tudo em imagens para fazer o expectador imergir na 'história'.

Seja como for, "The Last of Us" representa um avanço na sonhada aproximação com as artes literária e cinematográfica. Li alguns críticos comentando que esse jogo é tão espetacular que ele até impõe um desafio de ser superado - o que pode demorar muito para acontecer. Vamos acompanhar.

***

Em tempo... 

Mais cedo comentei a Copa de Literatura Brasileira e enquanto escrevia sobre "The Last of Us" me lembrei de um papo recorrente que associa a Copa ao fato de sermos tão fissurados por videogames que criamos um combate literário - como se a literatura pudesse servir para tal finalidade: um contra o outro tendo por objetivo a vitória. Acho prudente dizer que nem todos os participantes da Copa são assim tão ligados em videogame e todos reconhecem logo na largada a dificuldade que é comparar dois livros pela natureza singular e subjetiva de cada obra e gosto (estou falando de uma impressão muito particular, pois não conheço todo mundo da Copa pessoalmente). O intuíto da Copa, como está descrito no site, é promover o debate em torno da ficção brasileira contemporânea expondo as justificativas dos jurados e as falhas no processo de escolher ("premiar"?) o "melhor". Portanto, senhores, aviso que a ocorrência de um texto sobre videogames e literatura ao lado de um outro texto sobre a Copa é mera coincidência. E tenho dito!

Daqui a pouco eu volto com mais... LITERATURA.

*Imagem: reprodução
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JÁ ESTÁ ROLANDO A COPA DE LITERATURA BRASILEIRA 2013


Alô, você! Eu estava ausente e não comentei o início da Copa de Literatura Brasileira - uma das competições mais bacanas das letras nacionais. Funciona assim: na primeira rodada os dezesseis livros selecionados pela organização da Copa são divididos em grupos e avaliados em oito jogos. O melhor avaliado de cada jogo segue para a próxima rodada e assim o torneio continua até que dois livros se encontrem na grande final. A novidade desse ano é a rodada de repescagem em que livros eliminados na primeira rodada de avaliações terão outra chance de voltar ao debate.

O jurado de cada jogo é o responsável pela escolha do livro que segue adiante. Ele tem de justificar os motivos da sua decisão através de um texto caprichado. Os leitores também podem participar comentando as análises e gerando discussões em torno dos livros concorrentes.

Participam dessa edição os escritores Michel Laub, Adriana Lunardi, Elvira Vigna, José Luiz Passos, Alberto Mussa, Bernardo Kucinski, Bartolomeu Campos de Queirós, Suzana Montoro, Daniel Galera, Luiz Ruffato, Paulo Scott, André de Leones, Oscar Nakasato, Paloma Vidal, Ricardo Lísias e João Gilberto Noll.

Entre o ilustre corpo de jurados estou eu - olha a responsabilidade! A Copa está rolando desde a metade de agosto, sempre com jogos às terças e sextas. Até o momento seis partidas da primeira rodada já foram ao ar. Eu participo do JOGO 11 e vou avaliar os resultados dos jogos 5 e 6 que aconteceram nessa semana. O primeiro foi ao ar na terça e o segundo acabou de ser publicado no site da Copa. Muito bem, minha avaliação será sobre Barba ensopada de sangue e Habitante irreal. Uau!

Vem comigo que no caminho eu explico!

*Imagem: reprodução
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quarta-feira, 28 de agosto de 2013

SOBRE A LITERATURA E SEU TRABALHO SILENCIOSO

Martin Luther King na "Marcha sobre Washington por Trabalho e Liberdade" após seu histórico discurso popularmente conhecido como "I Have a Dream", nos Estados Unidos, em 1963
Três anos antes de Bob Dylan e Joan Baez cantarem "When the Ship Comes In" no mesmo palco em que Martin Luther King iria proferir o discurso mais importante da história sobre preconceito racial - popularmente conhecido como "I Have a Dream" -, uma moça branca do Alabama publicou um livro tido como um marco na luta pelos direitos civis dos negros norte-americanos. Estou falando sobre O sol é para todos, de Harper Lee publicado em 1960.

Joan Baez e Bob Dylan na "Marcha sobre Washington por Trabalho e Liberdade", em 1963
Aqui cabe uma afirmação direta: a literatura - ou mesmo as artes, de forma mais abrangente - não é capaz de promover mudanças sociais, embora muita gente diga o contrário. Como sabemos, estas acontecem muito mais por questões externas ao campo das artes (tais como: luta de classes, mobilizações de grupos, fatos históricos como a própria "Marcha sobre Washington por Trabalho e Liberdade" liderada por Luther King). O que não significa dizer que a arte ou a figura do escritor não possam promover o debate e a reflexão sobre temas caros a sociedade ou possa captar o espírito de uma época.

Colocando em perspectiva histórica, O sol é para todos encarna as ebulições sociais dos anos 60 e sua publicação foi algo muito inusitado para aquele momento, mas a verdade é que Harper Lee nunca esteve diretamente envolvida com movimentos sociais de luta por direitos civis. De maneira simplista, suas intenções eram discutir temas como o racismo e a injustiça social no sul dos Estados Unidos a partir de uma história verídica que ela presenciou na cidade onde morava quando tinha 10 anos. Ou seja, ela enxergava na sociedade e nesse episódio específico sentimentos tão fortes que a levaram a questionar o motivo de tudo aquilo.

Alguns críticos gostam de apontar outros dois pontos que enfraquecem a ligação entre o livro e a luta por direitos civis: primeiro, o tema central fala sobre o racismo e não sobre os racistas; e segundo, as personagens negras não são bem desenvolvidas e ficam restritas a tipos (caricatura). Não podemos desconsiderar as limitações de pontos de vista impostas naquela época que impediam a autora de escrever um livro mais 'avançado' nos costumes.

Para além dos temas, o sucesso do livro está ligado a maneira magistral como Harper Lee conduz a narrativa usando a voz cativante da personagem Scout Finch e explora suas sutilezas psicológicas. Há também a figura integra de Atticus Finch - o pai da pequena Scout. É um romance de formação bem estruturado, com uma linguagem cheia de ironias e recheado de riqueza visual.

Pode ser que Harper Lee não tenha mudado o rumo da história, mas certamente registrou com dignidade e grandeza a busca por justiça num período muito triste que apesar de todos as conquistas ainda não foi superado. Tomara que o aniversário do discurso de Luther King traga nova luz sobre a luta por direitos civis.

***

P.S.: sobre a questão racial na literatura alguém lembrou da quarta parte de O som e a fúria, de William Faulkner. Dilsey, a governanta negra da família Compson, encarna a fé e a esperança em meio a desgraça que abate a família. Arrisco dizer que este é um dos capítulos mais bonitos de toda a literatura ocidental.

Fotos: Martin Luther King - fonte difusa/reprodução; Bob Dylan e Joan Baez - sem autoria/Wikipedia; Capa/reprodução
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quarta-feira, 31 de julho de 2013

RETORNO - RUMO AO CASMURROS!


Caramba! Eu sei que prometi um texto com impressões gerais da FLIP, mas o tempo passou, muitas coisas aconteceram e o burburinho da cidade não é mais sobre o que aconteceu em Paraty - tem outras coisas mais interessantes rolando (confesso que voltando de lá tive uma certa ressaca literária e preguiça de escrever; fiquei ocupado com leituras mais técnicas e só agora arrumei um tempo para voltar realmente). Vou fazer um registro ligeiro para não passar em branco e descumprir uma 'promessa'.

Sem muitos rodeios e indo direto ao ponto, achei que essa FLIP pouco literária. De fato, as mesas mais interessantes foram voltadas para o ensaio, a não-ficção, o cinema, a arquitetura e as artes plásticas. Os organizadores gostam de lembrar que a Festa tem um foco mais amplo: não fica restrita a literatura e procura promover debates no campo da cultura e das ideias. Quem não lembra daquela edição que teve o escritor e sociólogo Gilberto Freyre como homenageado? O problema não é incluir outras áreas de conhecimento, mas não tirar proveito dos escritores de ficção.

O comentário coloca a figura do mediador no centro das atenções. É uma posição muito difícil porque fica dividida entre agradar, entreter ou frustrar as pessoas que leram e as que não leram os livros - trocando em miúdos, fazer com que o escritor solte altas dosagens de informação dizendo coisas interessantes (inéditas?!) sobre sua obra, seu processo de trabalho, alguma curiosidade dos bastidores do mercado editorial, uma notícia em primeira mão sobre o próximo livro etc. A maioria cometeu o pecado de falar demais, fazer perguntar à toa ou não interferir nas horas certas. Teve também as questões ligadas a barreira das línguas que são compreensiveis: o embaraço na hora de formular perguntas e interferir nas respostas e a tradução simultânea ficou confusa e atrapalhou em muitos momentos. Por fim, aquele raio daquele microfone da Madonna falhou e incomodou muitos escritores - John Jeremiah Sullivan parece ter sido o caso mais emblemático; Lydia Davis também, mas ela tinha um microfone de mão. Questões aparentemente simples que tem alto impacto quando somadas ao nervosismo e tensão do grande momento.

(Um parênteses sobre as perguntas formuladas em outra língua ou traduções simultâneas. Peguei autógrafo do Geoff Dyer e, na fila, fiquei repetindo mentalmente uns comentários em inglês para conversar com ele. Quando chegou a hora me atrapalhei todo e falei coisas completamente diferentes do que tinha planejado. Acontece! A coisa está ao vivo, de modo totalmente aleatório e certamente terá margens de erro).

Em resumo a FLIP pode repensar esses incidentes e testar novos formatos - acho aquele momento de leitura de um trecho do livro muito solene e deve ganhar atenção e respeito necessário. Enfim, tem de arriscar mais.

Faço uma pequena defesa quanto a edição porque as manifestações nas ruas do Brasil tomaram uma proporção tão grande que realmente abafaram qualquer interesse pela ficção. É difícil competir com o chamamento da vida real - o assunto foi onipresente, não tinha como não ser. O elenco de escritores foi fechado muito antes de tudo acontecer. Três escritores deram o cano e restou aos organizadores substituir essa turma por temas mais pertinentes a situação, mas ao invés de mesas literárias tivemos mesas políticas meio improvisadas as pressas que tratavam novamente das muitas análises que circularam nos jornais, revistas, programas de TV, internet etc. Imagino que tenha sido tenso para os organizadores. E deve ter rolado um arrependimento enorme ter recusado a vinda de Chuck Palahniuk - para ficar numa observação óbvia uma mesa estabelecendo relações entre Clube da luta e os protestos renderia muitos frutos.

Sorte na próxima vez!


P.S.: quero dizer que o Casmurros apóia a campanha para termos Lima Barreto como autor homenageado da #FLIP2014. Tem mais informações aqui


PS.2: Caso você não saiba, Miguel Conde não será o curador da próxima edição. Os organizadores devem anunciar um nome novo até setembro.

*Foto: Rafael R./Casmurros
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quinta-feira, 4 de julho de 2013

AUSÊNCIA - RUMO À FLIP!


Caros, leitores!

Estou indo rumo à FLIP. Pretendo atualizar o blog de lá, mas não sei se vou ter sucesso em função do tempo e do acesso ao wi-fi/internet. Prometo que vou tentar. Se não pintar nenhum texto novo até segunda-feira, não se preocupe. Quando voltar terei muitas histórias para contar.

Nos vemos na FLIP.

*Imagem: Flickr da FLIP.
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A FLIP JÁ TEM UMA MUSA


Você está na FLIP e quer um conselho? Tente encontrar uma maneira de assistir a mesa com a escritora franco-iraniana Lila Azam Zanganeh. Ela será a musa dessa edição (me desculpe, Lydia Davis!) como bem adiantou Ronaldo Bressane numa reportagem para a revista Harper's Bazaar Brasil. Razões não faltam: além de muito bonita, simpática e inteligente, Lila fala português com um leve sotaque francês. Ela conta que fez questão de aprender o idioma assim que recebeu o convite da FLIP e começou a fazer aulas com um professor da USP pelo Skype. Não teve muita dificuldade porque domina seis línguas e desde pequena fala francês, persa e italiano.

Como se não bastasse, Lila ainda é fã de Vladimir Nabokov (um dos escritores mais importante do século XX) e escreveu um livro muito original sobre o escritor relacionando sua obra ao tema da felicidade - O encantador: Nabokov e a felicidade, saiu pela Alfaguara.

Ela divide a mesa com o carioca Francisco Bosco. Se não me engano, ainda há ingressos para a tenda do telão.

*Imagem: Divulgação/FLIP.
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quarta-feira, 3 de julho de 2013

TÃO DIVERTIDO QUANTO A FICÇÃO

A FLIP começa hoje com dois grandes desfalques: o francês Michel Houellebecq (que será substituído por uma mesa cujo tema são as manifestações que tomam as ruas do país) e o norueguês Karl Ove Knausgård (que cancelou a participação ontem, alegando motivos pessoais, e será substituído por Juan Pablo Villalobos). Sobre Houellebecq já comentei num outro texto; quanto ao Knausgård, achei a notícia ruim, mas me conforta saber que a série autobiográfica Minha luta é composta por 6 volumes. De modo que ainda teremos outras cinco oportunidades para vê-lo de perto.

Saindo da realidade e adentrando as raias do exercício imaginativo, Raphael Dyxklay (crítico literário, tradutor de obras de Charles Dickens e agitador cultural) enviou para cá uma "cartinha" propondo a "FLIP dos sonhos". Achei a proposta muito original e fiquei pensando cá com meus botões no que o grande público diria. Será que a seleção seria aprovada ou reprovada? Jogo a avaliação nas mãos dos leitores e convido, assim como o Raphael também convida, todo mundo a enviar propostas e comentar o assunto.

"Caro,

Minha mãe chegou ontém - ou será que foi anteontém? - com uma história de que iria a FLIP comigo, já que estava com ingressos sobrando. Minha mãe não é uma pessoa má, só que de literatura ela não entende. Dentre os escritores convidados ela não conhece nem o Francisco Bosco (sorte dela). Como bom crítico que me julgo, adaptei meus critérios e separei lugares para ela nas mesas de autores pintosos, como a do Laurent Binet com o Aleksandar Hemon. É verdade que ela preferiria vê-los jogando volêi de praia do que falando idiomas desconhecidos, mas paciência...

Agora, sabe que ela me aflorou minha própria decepção com esse ano. Fora a mesa dos inteligentes (e belos) autores já citados poucas outras me agradaram. Então resolvi propor-lhe uma curadoria ficcional a qual você e o público do seu blog poderia acrescentar mais nomes. Obviamente levamos a vantagem sobre o Miguel Conde de, na ficção, nenhum autor ter a coragem de nos recusar o convite. O que também não vai me impedir de ir correndo à edição verdadeira, afinal, como disse o Woody, "a realidade é chata, eu não nego, mas é o único lugar onde você pode comer um bom bife".

O que vejo de mais grave na curadoria atual são mesas que se atem ao previsível, unindo autores muito próximos (de modo a estereotipá-los: como com Javier Cercas e Juan Gabriel Vasquez) ou muito simpáticos um ao outro (Egan e McEwan). Outra coisa é não valorizá-los por seu conteúdo extra ficcional. Quem ler a entrevista que Houellebecq deu a Paris Review pode perceber quão pouco interessante são suas considerações ainda que para fãs de sua ficção."

Seguem as mesas:




*Arte: Rafael R.
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