sexta-feira, 26 de outubro de 2012

UMA LONGA TEMPORADA DE PRÊMIOS


"Ao vencedor, as batatas". Quincas Borba, de Machado de Assis.
Todos devem estar malucos, afinal prêmios literários estão rendendo mais discussões do que religião, política e futebol juntos! A polêmica mais recente está acontecendo em torno do Prêmio Jabuti e a nota baixa do misterioso jurado "C" (na verdade, a identidade secreta dele foi revelada nessa semana numa reportagem da Folha de SP) que tirou Ana Maria Machado da competição. Como uma coisa puxa a outra, todo mundo relembrou o episódio do ano passado envolvendo Chico Buarque e Edney Silvestre. Pelo jeito a reformulação das regras não surtiu o efeito esperado e complicou ainda mais a premiação. Nem preciso dizer que o caso está estragando o prestígio e a reputação de um prêmio tradicional das letras nacionais. 

Teve até comentário de José Serra, candidato a Prefeitura de SP. Ao saber que o livro A privataria tucana estava na final do prêmio Jabuti – categoria Reportagem - disse: “Era só o que faltava. Depois da aparente fraude de um dos jurados, tudo é possível”.

O pessoal "do contra" está gritando pelas ruas o seguinte bordão: "esse é o país que vai receber a Copa".

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Felizmente, as discussões não estão restritas aos prêmios nacionais. Desde que ganhou o Nobel de Literatura, não tem um dia em que o chinês Mo Yan não abra os jornais e não veja seu nome relacionado a comentários ora elogiosos, ora maldosos. 

Do lado maldoso, teve gente dizendo que a Academia Sueca favoreceu Mo Yan porque um dos jurados do prêmio é tradutor dos seus livros. Liao Yiwu, escritor chinês, acusou o ganhador do Nobel de trabalhar a serviço do regime chinês. O artista Ai Weiwei (que aderiu ao estilo "Gangnam Style") lamentou muito a escolha e as editoras chinesas que estavam na Feira de Frankfurt praticamente ignoraram o laureado. Para piorar a situação Mo Yan virou alvo de uma disputa internacional entre agentes literários o que deve atrasar a tradução de seus romances pelo mundo afora - incluindo o Brasil. Por enquanto podermos recorrer a tradução de Peito grande, ancas largas que saiu pela editora Ulisseia e teve reimpressão.

Do lado elogioso, rolou uma notícia dizendo que a China vive uma verdadeira "Mo-mania" e a tiragem do seu livro Our Jing Ke esgotou instantes após o lançamento. Furor semelhante ao que ocorreu no Japão com Murakami no lançamento de 1Q84.

O pessoal "da teoria da conspiração" está gritando pelas ruas que Mo Yan está sendo vítima da maldição rogada pelos murakamistas japoneses que ficaram desapontados com a vitória do concorrente chinês. Aliás, dizem que a obra Murakami não despertou paixões na China.

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Se palpite ganhasse prêmio, os apostadores da Ladbrokes estariam milionários. Quem colocou dinheiro em Haruki Murakami e Will Self ficou no prejuízo - atitude muito perdoável, afinal acerta em cheio o nome do escritor premiado é como ganhar na MegaSena. Mo Yan ficou com o Nobel e Hilary Mantel com o Booker Prize. Ninguém acreditava que a organização do Booker fosse premiar uma autora já premiada num curto espaço de tempo (Wolf Hall foi publicado em 2009) - acho que nem a própria Mantel acreditava nisso. Antes dela, só Peter Carey e J.M. Coetzee. Por fim, a falsa ideia não se cumpriu e o Booker acabou nas mãos dela.

No discurso de agradecimento, Mantel mandou avisar que está escrevendo mais um livro para compor uma trilogia sobre a história de Thomas Cromwell - o primeiro foi Wolf Hall, seguido por Bring Up The Bodies (será publicado pela editora Record, em abril) e o último será o nome de The Mirror And The Light.

O pessoal da "especulação" está gritando pelas ruas que não importa quando publique o livro, o terceiro Booker Prize é dela.

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Outro mistério que parece distante de qualquer solução é a recusa de Javier Marías ao Prêmio Nacional de Narrativas, concedido pelo governo da Espanha. Pelo que dizem, ele não quis o prêmio no valor de 20 mil porque não quer ligações com instituições do governo espanhol. O que será que aconteceu? Marías ganhou o prêmio pelo romance Os enamoramentos.

O pessoal do "deixa disso" anda dizendo que o gesto é uma resposta política ao delicado momento que a Espanha enfrente diante da crise econômica que assola a Europa.

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E você está enganado se pensa que a polêmica do Jabuti está perto do fim. A lista oficial com o nome dos jurados e os grandes vencedores do prêmio livro do ano serão anunciados numa cerimônia, em 28 de novembro. Caso não apareça nenhuma outra polêmica.

Novembro encerra essa longa temporada de prêmios. Teremos o anúncio do ganhador do Prêmio Cunhambebe de literatura estrangeira e dos ganhadores do Prêmio Portugal Telecom - aliás, achei bacana a iniciativa dos organizadores de criar book trailers para os livros finalistas; se não vale para alavancar as vendas, vale como divulgação do livro e na pior das hipóteses como boa descontração. Aqui tem os book trailers da categoria romance.

*Imagem: reprodução de uma ilustração de D.G.Davis.
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quinta-feira, 18 de outubro de 2012

VIDA LONGA AO CACHALOTE


"Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer."
Ítalo Calvino

Moby Dick está fazendo aniversário. Até o Google entrou na onda de comemorações com aquela tradicional brincadeira com seu logotipo. Desde setembro, no melhor estilo folhetim, o projeto mobydickbigread.com está criando uma espécie de audiobook na internet com pessoas lendo capítulos do livro que ficam disponíveis no SoundCloud, no iTunes e no Facebook. Contribuíram com a leitura Tilda Swinton, Matthew Barney e David Cameron, entre outros.

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Bendito seja o dia em que uma baleia atacou um barco pesqueiro no meio do oceano Pacífico, em novembro de 1820. Quer dizer, o incidente verídico propriamente dito foi horrível - segundo dizem, o barco afundou e a tripulação ficou à deriva por três meses, tendo de praticar até canibalismo para sobreviver -, mas nos deixou de herança um clássico da literatura universal: Moby Dick, ou a baleia.

A tarefa foi possível graças ao talento do jovem Herman Melville (com 32 anos na época da publicação do romance). Sua experiência de vida contava com uma longa viagem pelo Pacífico, cinco livros publicados, um casamento e a amizade de Nathaniel Hawthorne (renomado autor de A letra escarlate). Tanta maturidade permitiu a Melville enxergar a força simbólica daquele ataque revolto da natureza contra a ação humana e fazê-lo explodir em diversos temas complexos: a hierarquia das classes sociais, a polaridade entre o bem e o mal, as dúvidas sobre a existência de Deus, a obsessão humana etc. 

O romance foi publicado pela primeira vez em três volumes, na Inglaterra em 18 de outubro de 1851. Curiosamente, Moby Dick não fez muito sucesso naquele ano, quase foi esquecido e ficou relegado a um pequeno circulo de leitores em Nova York. Os verdadeiros responsáveis pela revisão do livro foram os críticos e escritores modernistas do começo do século 20 - especialmente Carl Van Doren, D. H. Lawrence e F. O. Matthiessen.

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Desde então, Moby Dick faz parte do imaginário popular e ganhou inúmeras adaptações para teatro, cinema, programas de rádio e TV, além de versões para quadrinhos. A aventura mais recente é Moby-Dick in Pictures: One Drawing for Every Page, de Matt Kish. O cara criou um blog onde publicava um desenho para cada página do romance. A repercussão foi tão grande que acabou virando livro.

Aliás, ele publicou no blog uma compilação com diversos trabalhos artísticos inspirados em Melville e sua obra prima.

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No Brasil, a edição definitiva do romance Moby Dick que foi lançada pela Cosac Naify. Tem tradução primorosa de Alexandre Barbosa de Souza e Irene Hirsch, uma série de notas explicativas, glossário náutico e fortuna crítica.

*Imagem: Moby Dick as Jaws by unknown/reprodução do Spudd64.
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segunda-feira, 15 de outubro de 2012

BRASIL, PAÍS RICO É PAÍS COM ESCRITORES



Um assunto que está dominando as rodas de conversa nessa manhã é a notícia sobre a futura versão online do New York Times em português. O grupo que comanda o jornal está de olho no "bom" momento econômico do país e na ascensão da nova classe média - segundo uma pesquisa do Ibope NetRatings, o Brasil é o 5º país mais conectado do mundo com 83,4 milhões de usuários na internet (nosso tempo médio de navegação e gastos com compras online só aumentam); tudo isso nos torna um atraente mercado consumidor. A expansão internacional da marca não é novidade já que o jornal também vai ganhar uma versão online em chinês.

Parece que um terço do conteúdo será produzido aqui mesmo - com jornalistas brasileiros -, o restante será traduzido do inglês. Puxando a sardinha para a nossa brasa, resta saber se o suplemento 'Sunday Book Review' vai ganhar tradução na íntegra ou separadamente. Afinal, não seria de todo mau ler as resenhas críticas em português.

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Na semana passada, João Pombeiro, diretor da revista literária LER, esteve no Real Gabinete Português de Leitura no Rio de Janeiro para comemorar os 25 anos da revista. Aproveitando a ocasião, João anunciou que a LER vai ganhar uma versão digital a partir de novembro. Facilitando bastante a vida dos leitores brasileiros na hora comprar exemplares.

A edição desse mês tem Rubem Fonseca na capa com perfil assinado por pelos jornalistas brasileiros Tiago Petrik, Malu Porto e João Gabriel Lima.

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O inverso também é verdade. Durante a Feira de Frankfurt, a Fundação Biblioteca Nacional junto com outros patrocinadores lançou o primeiro número da revista Machado de Assis - Literatura Brasileira em tradução. É uma revista voltada para a divulgação da literatura brasileira no exterior. Trechos de livros e contos dos autores selecionados para a edição foram traduzidos para o inglês e espanhol. Entre eles estão Alberto Mussa, Andréa del Fuego, Bernardo Carvalho, Cristovão Tezza, João Paulo Cuenca, Joca Reiners Terron, Luiz Ruffato, Paloma Vidal, Rubens Figueiredo e André de Leones. A revista é digital e conta com um blog que divulga notícias em inglês do nosso mercado literário.

Aliás, acompanhei pelos jornais as notícias da Feira. Pelo visto, editoras do mundo inteiro ficaram bastante entusiasmadas com a nossa literatura. Parece que nesse ano as rodadas de negociações foram bastante lucrativas para as editoras brasileiras. Segundo informações do Estadão, foram negociados algo em torno de "US$ 195 mil, entre venda de livro impressos e de direitos autorais de obras brasileiras".

Agora você imagine no ano que vem, quando seremos o país convidado de honra da Feira?

*Imagem: © Frankfurter Buchmesse / divulgação
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PRÊMIO SP DE LITERATURA - 2012

Capa dos livros premiados
Em setembro, enquanto eu estava fora, a organização do Prêmio SP de Literatura divulgou os vencedores nas categorias autor e autor estreante: o primeiro foi para o livro Vermelho amargo, de Bartolomeu Campos de Queirós e o segundo foi para Os hungareses, de Suzana Montoro. Por incrível que parece, o júri premiou autores e livros com "jeitões" muito parecidos.

Bartolomeu Campos de Queirós publicou mais de quarenta livros e dedicou-se quase exclusivamente à literatura infanto-juvenil. Apesar da obra extensa, Vermelho amargo foi seu primeiro romance voltado ao público adulto (infelizmente, ele faleceu em 16 de janeiro desse ano). Guardadas as devidas proporções, algo semelhante aconteceu com Suzana Montoro já que ela publicou dois livros infanto-juvenis, antes de lançar o romance Os hungareses. Se não me engano, Suzana também tem um livro de contos chamado Exilados que saiu pela WS Editor, em 2003, e está fora de catálogo.

Os enredos também se parecem porque abordam a trajetória de duas famílias e as dificuldades que cada uma delas enfrenta a sua maneira. No romance de Bartolomeu, o narrador fica concentrado nas mazelas surgidas no núcleo familiar após a insuperável perda da mãe. Já o romance de Suzana Montoro conta a saga de uma família húngara para sobreviver à guerra e recomeçar a vida num país completamente diferente (detalhe: ela não é e não tem descendência hungara, mas entrevistou muitos imigrantes daquele país e visitou as cidades em que eles viveram).

Dá para ler os dois livros rapidinho: Vermelho amargo tem 72 páginas e Os hungareses tem 192 páginas. Você vai levar no máximo dois dias para ler cada um deles no trajeto de ida e volta do trabalho usando metrô, por exemplo.

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Em tempo, desculpem a longa ausência. Resolvi esticar as férias por mais duas semanas e  esqueci de deixar um recado. Seja como for, quero avisar que estou recuperando a forma antiga.

*Imagem: divulgação.
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quarta-feira, 26 de setembro de 2012

ACONTECE QUE EU SOU BAIANO!

Largo do Pelourinho
Alô, você!

Quero avisar vocês que o motivo da minha ausência é muito justo: estou em férias e acabei de voltar de viagem. Não quis nem saber de literatura nesses dias. A única coisa que eu lia eram os jornais. No mais estive pelas praias de Salvador e ruas do Pelourinho. Tudo aconteceu tão às pressas que nem tive tempo de deixar um recado avisando minha ausência. Desculpem!

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Exceto no aeroporto de Salvador e na própria Fundação, não vi nenhuma menção ao centenário de Jorge Amado. As festividades devem ter se limitado ao mês de agosto, eu imagino.

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Enquanto estive ausente aconteceram muitas coisas, entre elas o lançamento de Os enamoramentos, de Javier Marias (a edição da Cia das Letras acompanha um mimo: O coronel Chabert, de Balzac - uma referência que está no romance de Marias) e o anúncio dos ganhadores do Prêmio SP de Literatura. Javier Marias dispensa muitas apresentações, vou tentar correr com minhas leituras para voltar ao assunto. Embora não tenha lido o romance, recomendo vivamente as entrevistas que ele concedeu a Folha de SP e ao Estadão. Alguém que diz algo como "vive-se muito bem sem ser contemporâneo" merece muito respeito.

Se você ainda não sabe o Prêmio SP de Literatura foi para Vermelho amargo, de Bartolomeu Campos de Queirós na categoria "Autor" e Os hungareses, de Suzana Montoro na categoria "Autor estreante". Achei que a categoria "Autor" ficaria com Michel Laub, Paulo Scott, Luiz Ruffato ou Tatiana Salem Levy por conta da repercussão crítica que seus respectivos romances tiveram.

Não li nenhum nem outro dos ganhadores. O que sei li nos jornais.

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Falando em prêmios acaba de sair a lista de finalistas do Prêmio Jabuti. Como disse a Raquel Cozer, um dos problemas do tradicional prêmio é ser inchado demais (são 29 categorias com 10 indicados para cada uma delas). Haja fôlego! Se você não quiser clicar no link para fuçar os indicados, coloco abaixo um resumo das categorias mais importante para a ficção em prosa:


Tradução
Odisseia - Trajano Vieira
Madame Bovary - Mário Laranjeira
Guerra e paz - Rubens Figueiredo
Heine Hein? Poeta dos contrários - André Vallias
Duplo Canto e Outros Poemas - Bruno Palma
Os sonâmbulos - Marcelo Backes
Poesia completa de Yu Xuanji - Ricardo Primo Portugal e Tan Xiao
O duplo - Paulo Bezerra
Poemas - Regina Przybycien
Ilusões Perdidas - Rosa Freire d'Aguiar

Romance
Mano, a noite está velha - Wilson Bueno
Infâmia - Ana Maria Machado
Procura do romance - Julián Fuks
O passeador - Luciana Hidalgo
Habitante irreal - Paulo Scott
Nihonjin - Oscar Nakasato
Naqueles morros, depois da chuva - Edival Lourenço
Tapete de silêncio - Menalton Braff
O estranho no corredor - Chico Lopes
Herança de Maria - Domingos Pellegrini

Contos e Crônicas
O livro de Praga - Sérgio Sant'Anna
Vento sul - Vilma Arêas
O anão e a ninfeta - Dalton Trevisan
O destino das metáforas - Sidney Rocha
Nós passaremos em branco - Luís Henrique Pellanda
Axilas e outras histórias Indecorosas - Rubem Fonseca
Enquanto água - Altair Martins
Onde terminam os dias - Francisco de Morais Mendes
Contos de mentira - Luisa Geisler
Passaporte para a China - Lygia Fagundes Telles

P.S.: na realidade não sou baiano, nasci em SP.

*Imagem: foto do Pelourinho por mim mesmo.
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sexta-feira, 31 de agosto de 2012

NOTAS #39

Favorito ao Nobel
A editora Alfaguara divulgou a capa definitiva do livro
1Q84, de Haruki Murakami cujo primeiro volume (com 450 páginas) deve chegar ás livrarias brasileiras em novembro. Os outros dois volumes terão lançamento em 2013.

Man Booker Prize 2012
A shortlist do Man Booker Prize foi anunciada. Entre os seis concorrentes estão os estreantes Jeet Thayil com Narcopolis e Alison Moore com The Lighthouse; os veteranos Deborah Levy com Swimming Home, Will Self com Umbrella e Tan Twan Eng com The Garden of Evening Mists; e a ganhadora do prêmio em 2009, Hilary Mantel com Bring up the Bodies.

A crítica inglesa considera que Hilary Mantel é a favorita dentre os finalistas - ela está quase com o caneco na mão porque também lidera o ranking de apostas da casa Ladbrokes. As únicas coisas que podem estragar sua festa são Will Self (outro forte candidato que está praticamente empatados com Mantel no painel da Ladbrokes) e o fato de ter ganhado o prêmio recentemente.


Campeão de vendas
No dia 15 de setembro chega às livrarias Cinquenta tons mais escuros, o segundo livro da trilogia escrita pela autora inglesa E.L. James. Parece que 90% da tiragem inicial de 350 mil exemplares já foi comprada pelos leitores na pré-venda. A ansiedade é tão grande que muitas leitores estão recorrendo a traduções piratas que estão espalhadas na internet - a maioria delas deve ter sido feita pelo Google Tradutor e tem muitos problemas. As mulheres estão desesperadas.

A Intrínseca liberou as 30 primeiras páginas como aperitivo - para acalmar os ânimos.

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A trilogia vai virar filme, mas por enquanto nenhuma data prevista para lançamento foi anunciada.

A literatura vai ao teatro...
No SESC Belenzinho, em São Paulo, a Sutil Companhia de Teatro está em cartaz com a peça O livro de itens do paciente Estevão inspirada no livro O paciente Steve, de Sam Lipsyte. Conta a história de Steve, um homem que foi diagnosticado com uma doença incurável e sem nome. A peça fica em cartaz até 21/10 com apresentações sextas e sábados, às 18h e domingo, às 17 h. Já o livro está fora de catálogo, mas disponível em sebos - foi publicado em 2003 pela Editora Globo.

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No Centro Cultural Correios, no Rio de Janeiro, Marco Nanini está em cartaz com a peça A arte e a maneira de abordar seu chefe para pedir um aumento baseada num livro homônimo de Georges Perec. Tudo o que precisa ser dito sobre o enredo está no título. Numa entrevista para o jornal Folha de SP, o ator disse que teve vontade levar o texto ao teatro por causa do seu caráter experimental - tal qual um manual de anti-ajuda o leitor espera dicas práticas para conseguir um aumento de salário, mas é surpreendido pelos pensamentos obsessivos da personagem que chega a montar um organograma prevendo todas as situações possíveis e imagináveis entre "sim" e "não". A peça fica em cartaz até 28/10 com apresentações de sexta a domingo, às 19h. O livro está disponível nas livrarias - foi lançado pela Companhia das Letras em 2010 e tem tradução magnífica de Bernardo Carvalho.

Bom momento para celebrar os 30 anos sem Georges Perec.

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No Teatro Novelas Curitibanas, em Curitiba, o grupo Teatro de Breque está em cartaz com o espetáculo Em breve nos cinemas livremente inspirado em estruturas narrativas e temas da obra de David Foster Wallace. A peça fica em cartaz até 14/10 com apresentações de quinta a domingo, às 20h. Por enquanto, o único livro de David Foster Wallace disponível em português é Breves entrevistas com homens hediondos - foi lançado pela Companhia das Letras em 2005 e tem tradução de José Rubens Siqueira.

... e ao cinema
Em outubro estreia nos Estados Unidos Cloud Atlas, um filme dirigido pelos irmãos Wachowski e por Tom Tykwer (o diretor do filme Corra, Lola, corra) baseado no ambicioso romance de David Mitchell. O livro é composto de seis histórias interligadas que numa espiral vertiginosa através do tempo e espaço vão do século XIX ao futuro apocalíptico. Mitchell é tido pelos críticos anglófanos como um dos melhores escritores de sua geração por causa do seu experimentalismo formal e temático - como um camaleão, ele muda bruscamente seu estilo de um livro para outro. O único romance de Mitchell disponível em português é Menino de lugar nenhum publicado em 2008 pela Companhia das Letras com tradução de Daniel Pellizzari. Também estava previsto para esse ano a tradução de Os mil outonos de Jacob de Zoet, assinada por Daniel Galera - pela Cia das Letras.

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Cloud Atlas continua fora dos planos de tradução das editoras daqui. Quem quiser pode recorrer a tradução portuguesa de Helena Ramos e Artur Ramos que saiu pela editora Dom Quixote (um selo do grupo português Leya), em 2007. O livro recebeu o simpático título de Atlas das nuvens.

*Imagens: divulgação.

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DAVID FOSTER WALLACE ENTRE A REALIDADE E A FICÇÃO


Muita gente já conhece as características da literatura feita por David Foster Wallace - pelo prazer ou pela dor, tem quem ama e quem odeia. Portanto, não vou ficar chovendo no molhado dizendo que a obra dele é cheia de ironia, metalinguagem, discurso indireto livre, jargões, palavras inventadas, longas sentenças e notas de rodapé gigantes. Chega de tudo isso, vamos falar de coisa boa: fofocas, claro!

Na semana passada chegou às livrarias norte-americanas a primeira biografia do escritor
Every Love Story Is a Ghost Story, de D.T. Max. Wallace sofria de depressão profunda, teve muitos períodos de internações em clínicas, lutou contra a dependência do álcool e da maconha e cometeu suicídio em 2008. A biografia é oficial. D.T. Max contou com a colaboração da família e dos amigos próximos a Foster Wallace, além de ter tido acesso às cartas, manuscritos etc., que o escritor deixou guardada em seu arquivo.

Evidentemente, ainda não li a biografia, mas a revista Rolling Stone (gringa) leu e adiantou "seis coisas que a gente não sabia sobre David Foster Wallace". Por exemplo, ele não era tão bom jogando tênis, votou em Ronald Regan para presidente (mas odiava George W. Bush), tinha problemas paranóicos com higiene (suava muito e carregava uma escova de dentes na meia, para emergências) e planejou matar o marido da escritora Mary Karr (com quem teve um relacionamento bastante conturbado).

Parece que a maior curiosidade da biografia está nas possíveis ligações que podem ser feitas entre a vida de Wallace e o enredo dos livros Liberdade, de Jonathan Franzen e A trama do casamento, de Jeffrey Eugenides. Em tempos de autoficção exagerada também acho chato quando alguém pergunta "o que a personagem tem em comum com você?" ou "o livro é sobre você?". Só que a gente pode perdoar essa situação no caso desses três escritores sobretudo quando vemos muitas semelhanças entre Leonard Bankhead, Richard Katz (personagens) e Foster Wallace (o real) - a bandana na cabeça, o hábito de mascar fumo e a sagacidade intelectual. Eles eram muito amigos, amadureceram suas obras quase ao mesmo tempo e faziam parte de um grupo de escritores pertencentes a uma geração. Viveram muita coisa juntos, portanto é natural que tenham histórias para contar sobretudo depois da morte trágica de Wallace.

Quando perguntam da semelhança "realidade x ficção", Eugenides sempre nega dizendo que estava pensando na banda Gun's in Roses. Não lembro de alguma resposta de Franzen, mas ele era muito amigo de Wallace e as disputadas entre Walter e Richard tem qualquer coisa da vida real que são impossíveis de negar - como na frase meu objetivo era "colocar meu pênis na vagina quanto possível" (a frase está tanto em Liberdade quanto na biografia).

Verdade ou mentira, esse tipo de coisa não estraga a qualidade dos livros. Pelo contrário, acabam servindo como um elemento de atração. Afinal, todo mundo sempre vai querer comprovar sua fantástica teoria. Vai ver aconteceu de contarem essas coisas sem querer.

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Em tempo, a Companhia das Letras lança em outubro Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo, a coletânea de não-ficção de David Foster Wallace com organização e tradução da dupla de escritores Daniel Galera e Daniel Pellizzari.

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Já Caetano Galindo (que acabou de ler essa biografia do Foster Wallace) está trabalhando na tradução de Infinite Jest. Segundo ele escreveu no twitter o trabalho já está em 250 laudas - ainda é pouco perto das mais de 1000 páginas do livro, mas animador para os fãs do escritor.

A tradução portuguesa saí em novembro com o título de A piada infinita. Tido como um lançamento importante, a editora Quetzal criou um blog reunindo notícias de jornal e outros mimos.

*Imagem: reprodução.

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MÊS DA LITERATURA INDIE

Muito em breve, na cidade de São Paulo, setembro ficará conhecido como "mês da cultura independente" - do mesmo jeito que agosto é conhecido popularmente como "mês do cachorro louco" (dizem que em Portugal, as mulheres supersticiosas evitam se casar nesse mês; e na Argentina, lavar a cabeça nessa época do ano pode atrair a morte). A explicação é simples: há seis anos a Secretaria Municipal de Cultura promove nesse mês eventos gratuitos ou com preços simbólicos voltados a produção cultural independente. A iniciativa não fica restrita apenas aos artistas brasileiros e também abre espaço para a turma internacional.

Além de artes visuais, cinema e música, o evento conta com uma programação literária e realiza uma série de saraus e oficinas tendo destaque para o I Encontro de Literatura Divergente, na Biblioteca Alceu Amoroso Lima. Se minha apuração não tiver falhas, o termo "literatura divergente" foi criado pelo Nelson Maca, poeta e professor da Universidade Católica de Salvador, para dar conta da produção literária que acontece a margem dos "ambientes acadêmicos ou oficiais": "
literatura negra, maldita, periférica, marginal, letra de música, rap..." O próprio Nelson vai explicar tudo isso e outras coisas mais na mesa de abertura - ele também vai participar como mediador de outros debates.

O encontro dura quatro dias e vai reunir ativistas, estudiosos da academia, pesquisadores, consumidores e admiradores dessas vertentes literárias para discutir conceitos, definições, dar maior visibilidade aos autores e a maneira como todos esses textos circulam. Vai ter participação de Heloísa Buarque de Holanda (que faz coisas pela literatura brasileira desde muito tempo; Impressões de viagem – CPC, vanguarda e desbunde virou um clássico dos nossos estudos literários), Glauco Matoso, Marcelino Freire e muitos representantes dos grupos que organizaram editoras independentes e vários saraus pelo Brasil a fora.

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O movimento de olhar para a literatura feita nas periferias estão em alta. Veja, por exemplo, a FLUPP - Festa Literária das UPPs - que levou escritores brasileiros e estrangeiros para as comunidades periféricas do Rio de Janeiro com o objetivo de formar leitores e escritores. Em novembro, os organizadores da Festa vão lançar um livro com textos de 30 participantes desses encontros (sendo 15 policiais e 15 moradores das comunidades).

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Enquanto estava escrevendo percebi que esse texto está um pouco investido de raiva contra a academia e os órgãos que legitimam e autorizam o cânone cultural. O sentimento não é novo. Faz tempo que o discurso pró-academia (ou crítica cultural) anda fora de moda e para entender um pouco do cenário me ocorreu recomendar um texto do Sérgio Rodrigues, no blog Todoprosa.

*Imagem: Lajes da periferia, de Thaís Ibañez /reprodução

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segunda-feira, 27 de agosto de 2012

ONDE AS HISTÓRIAS VIVEM

“Fomos caminhando até a rua 7 de Abril, entramos no cinema, na tela, uma loira linda, viciada em crack, dizia para o namorado: os vampiros têm mais sorte que nós.”

“Ela subiu no primeiro Vila Olímpia-Lapa e passou por mim sem olhar, os policiais me revistando. Outra vez, ameaçou gritar se eu não a deixasse em paz. Começou a trabalhar em outro horário. Pediu transferência para outra loja do Mappin, pensando que eu não descobriria, mas eu descobri, Mappin do centro, em frente ao Teatro Municipal.”

“No final da avenida Guarapiranga dobrei à direita e estacionei o carro numa quebrada, mandei meus homens esperarem.”


O Matador, de Patrícia Melo.



Duas semanas atrás, o caderno Ilustríssima publicou uma notinha falando sobre um portal na internet que mapeia diversas referências culturais que aparecem nos livros que a gente leu. É possível saber, por exemplo, os lugares em que uma história acontece, qual música, filme, comida, bebida ou carro uma personagem gosta e algumas coisas mais. Lembra um pouco aquelas notas explicativas que apareciam nos rodapés dos livros de antigamente.

Não tenho a menor ideia de quais são os planos dos donos do portal - se eles querem mapear todos os livros do mundo ou apenas os livros que publicados e traduzidos para o inglês (o que não reduz nem um pouco o universo dos livros) -, mas sei que a tarefa nunca vai terminar. Até agora já foram cadastrados mais de 7000 livros (Parece bastante, só que não é. A Biblioteca do Congresso Norte-Americano, por exemplo, possuía até pouco tempo atrás, mais de 32 milhões de livros).

Seja como for, eu simpatizo com a ideia - me lembra até minha época de faculdade quando um professor disse que a cultura iria virar um imenso banco de dados para consulta (naquele tempo a gente não dava bola para essas previsões). Sempre tive curiosidade de encontrar um lugar que mapeasse na ficção as citações a cidade de São Paulo (nem precisava ser um mapeamento muito amplo, bastava que dissesse os lugares, praças e ruas).

***

Só por curiosidade, pesquisei no tal portal (SmallDemons.com) citações sobre a cidade de São Paulo. Não tinha nenhuma. Sobre o Rio de Janeiro tinha duas (uma em Nemesis, do Jo Nesbo e outra em Ghostwritten, do David Mitchell - nada demais). A maioria das citações eram sobre Brasil ou os brasileiros. O livro mais conhecido era Infitite Jest, de David Foster Wallace que nos cita em 6 momentos.

***

Na falta de um portal a gente tem a Caminhada Noturna que durante os meses de julho e agosto promoveu caminhadas temáticas com escritores paulistas ou adotados pela cidade (não eram escritores de ficção, necessariamente). A Bicicloteca também promoveu dois passeios literários mostrando a casa do Monteiro Lobato, do Mario de Andrade e até a famosa garçoniere de Oswald de Andrade.

(Aliás, a vida inteira de Oswald de Andrade daria um passeio de dois dias, pelo menos. Além do centro da cidade, ele morou em Higienópolis, na Consolação, no Bixiga, nos Jardins e na Bela Vista).

Evidentemente, gostaria de um banco de dados com citações de cidades de todo o Brasil. Quiça poderíamos ter um portal que também mostrasse as referências culturais dos livros do Machado de Assis - assim, a turma da internet saberia direitinho onde destrinchar informações. Também sugiro ao pessoal dos eventos na cidade criarem roteiros/passeios sobre Mario de Andrade e Marcos Rey - eles também tiveram uma vida intensa na cidade.

***

Lá em cima retirei trechos do livro O Matador, de Patrícia Melo. Me lembro que fiquei fascinado por esse livro justamente por causa das referências geográficas. Os primeiros livros dela estão recheados dessas coisas.

*Imagem: um mapa antigo que encontrei no Google.

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sexta-feira, 24 de agosto de 2012

MURAKAMI FAVORITO AO PRÊMIO NOBEL

Se tem uma coisa que deixa a gente animado nessa época do ano é especular sobre o provável ganhador do prêmio Nobel de Literatura. O anúncio chega a ser tão esperado quanto aquele peru de Natal da sua tia ou aquele show de final-de-ano do Roberto Carlos. Adivinhar o nome do ganhador é tão difícil quanto acertar os números da Mega-sena - a Academia Sueca gosta muito de surpreender. No ano passado, muita gente dava como certa a vitória de Adonis, poeta e ensaísta sírio. No fim, o prêmio ficou em casa, pois quem acabou levando foi Tomas Tranströmer, poeta sueco.

Para esquentar os motores, a famosa casa de apostas Ladbrokes já está aceitando palpites. O lugar é um termômetro certeiro. Por enquanto, quem está na frente é o escritor japonês Haruki Murakami, seguido pelo chinês Mo Yan (inédito por aqui), pelo holandês Cees Nooteboom, pelo albanês Ismail Kadare e pelo sírio Adonis.

Figuram na lista, um tanto desacreditados, nomes como Philip Roth, Cormac McCarthy (eterna promessa), Chinua Achebe, Thomas Pynchon, Umberto Eco, Don DeLillo e Joyce Carol Oates. Lá atrás ainda aparecem o português Antonio Lobo Antunes e o brasileiro Ferreira Gullar - empatado com Jonathan Franzen, Per Petterson, Jonathan Littell, Paul Auster.

O anúncio será feito em outubro.

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Enquanto o Nobel não chega, ficamos de olho no Prêmio SP de Literatura cujo os ganhadores serão anunciados em setembro. Como no ano passado, a organização do prêmio vai promover encontros com os finalistas: três na capital e quatro no interior do Estado. O primeiro bate-papo em SP (capital) acontece nesse domingo (26/08) na Biblioteca de São Paulo com Edmar Monteiro Filho, Eliane Brum e Suzana Montoro. O próximo será em 01/09 com Domingos Pellegrini, Paulo Scott e Silvio Lancellotti. O último será em 09/09 com Chico Lopes, Luiz Ruffato e Tatiana Salem Levy. Em todos os encontros a mediação será de Adriana Couto.

Uma pena que não existe um equivalente a Ladbrokes para o Prêmio SP de Literatura. Alguém está a fim de compartilhar/especular os ganhadores?

***ATUALIZAÇÃO: informalmente diga pra mim, nos comentários, qual o seu palpite para os ganhadores do Prêmio SP de Literatura - na categoria veterano e estreante. Não precisa ficar com medo, ninguém está vendo o seu voto (é tudo confidencial).

Se você não sabe, os finalistas estão aqui.

* Imagem: reprodução da Wikipédia.

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