sexta-feira, 31 de agosto de 2012

MÊS DA LITERATURA INDIE

Muito em breve, na cidade de São Paulo, setembro ficará conhecido como "mês da cultura independente" - do mesmo jeito que agosto é conhecido popularmente como "mês do cachorro louco" (dizem que em Portugal, as mulheres supersticiosas evitam se casar nesse mês; e na Argentina, lavar a cabeça nessa época do ano pode atrair a morte). A explicação é simples: há seis anos a Secretaria Municipal de Cultura promove nesse mês eventos gratuitos ou com preços simbólicos voltados a produção cultural independente. A iniciativa não fica restrita apenas aos artistas brasileiros e também abre espaço para a turma internacional.

Além de artes visuais, cinema e música, o evento conta com uma programação literária e realiza uma série de saraus e oficinas tendo destaque para o I Encontro de Literatura Divergente, na Biblioteca Alceu Amoroso Lima. Se minha apuração não tiver falhas, o termo "literatura divergente" foi criado pelo Nelson Maca, poeta e professor da Universidade Católica de Salvador, para dar conta da produção literária que acontece a margem dos "ambientes acadêmicos ou oficiais": "
literatura negra, maldita, periférica, marginal, letra de música, rap..." O próprio Nelson vai explicar tudo isso e outras coisas mais na mesa de abertura - ele também vai participar como mediador de outros debates.

O encontro dura quatro dias e vai reunir ativistas, estudiosos da academia, pesquisadores, consumidores e admiradores dessas vertentes literárias para discutir conceitos, definições, dar maior visibilidade aos autores e a maneira como todos esses textos circulam. Vai ter participação de Heloísa Buarque de Holanda (que faz coisas pela literatura brasileira desde muito tempo; Impressões de viagem – CPC, vanguarda e desbunde virou um clássico dos nossos estudos literários), Glauco Matoso, Marcelino Freire e muitos representantes dos grupos que organizaram editoras independentes e vários saraus pelo Brasil a fora.

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O movimento de olhar para a literatura feita nas periferias estão em alta. Veja, por exemplo, a FLUPP - Festa Literária das UPPs - que levou escritores brasileiros e estrangeiros para as comunidades periféricas do Rio de Janeiro com o objetivo de formar leitores e escritores. Em novembro, os organizadores da Festa vão lançar um livro com textos de 30 participantes desses encontros (sendo 15 policiais e 15 moradores das comunidades).

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Enquanto estava escrevendo percebi que esse texto está um pouco investido de raiva contra a academia e os órgãos que legitimam e autorizam o cânone cultural. O sentimento não é novo. Faz tempo que o discurso pró-academia (ou crítica cultural) anda fora de moda e para entender um pouco do cenário me ocorreu recomendar um texto do Sérgio Rodrigues, no blog Todoprosa.

*Imagem: Lajes da periferia, de Thaís Ibañez /reprodução

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segunda-feira, 27 de agosto de 2012

ONDE AS HISTÓRIAS VIVEM

“Fomos caminhando até a rua 7 de Abril, entramos no cinema, na tela, uma loira linda, viciada em crack, dizia para o namorado: os vampiros têm mais sorte que nós.”

“Ela subiu no primeiro Vila Olímpia-Lapa e passou por mim sem olhar, os policiais me revistando. Outra vez, ameaçou gritar se eu não a deixasse em paz. Começou a trabalhar em outro horário. Pediu transferência para outra loja do Mappin, pensando que eu não descobriria, mas eu descobri, Mappin do centro, em frente ao Teatro Municipal.”

“No final da avenida Guarapiranga dobrei à direita e estacionei o carro numa quebrada, mandei meus homens esperarem.”


O Matador, de Patrícia Melo.



Duas semanas atrás, o caderno Ilustríssima publicou uma notinha falando sobre um portal na internet que mapeia diversas referências culturais que aparecem nos livros que a gente leu. É possível saber, por exemplo, os lugares em que uma história acontece, qual música, filme, comida, bebida ou carro uma personagem gosta e algumas coisas mais. Lembra um pouco aquelas notas explicativas que apareciam nos rodapés dos livros de antigamente.

Não tenho a menor ideia de quais são os planos dos donos do portal - se eles querem mapear todos os livros do mundo ou apenas os livros que publicados e traduzidos para o inglês (o que não reduz nem um pouco o universo dos livros) -, mas sei que a tarefa nunca vai terminar. Até agora já foram cadastrados mais de 7000 livros (Parece bastante, só que não é. A Biblioteca do Congresso Norte-Americano, por exemplo, possuía até pouco tempo atrás, mais de 32 milhões de livros).

Seja como for, eu simpatizo com a ideia - me lembra até minha época de faculdade quando um professor disse que a cultura iria virar um imenso banco de dados para consulta (naquele tempo a gente não dava bola para essas previsões). Sempre tive curiosidade de encontrar um lugar que mapeasse na ficção as citações a cidade de São Paulo (nem precisava ser um mapeamento muito amplo, bastava que dissesse os lugares, praças e ruas).

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Só por curiosidade, pesquisei no tal portal (SmallDemons.com) citações sobre a cidade de São Paulo. Não tinha nenhuma. Sobre o Rio de Janeiro tinha duas (uma em Nemesis, do Jo Nesbo e outra em Ghostwritten, do David Mitchell - nada demais). A maioria das citações eram sobre Brasil ou os brasileiros. O livro mais conhecido era Infitite Jest, de David Foster Wallace que nos cita em 6 momentos.

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Na falta de um portal a gente tem a Caminhada Noturna que durante os meses de julho e agosto promoveu caminhadas temáticas com escritores paulistas ou adotados pela cidade (não eram escritores de ficção, necessariamente). A Bicicloteca também promoveu dois passeios literários mostrando a casa do Monteiro Lobato, do Mario de Andrade e até a famosa garçoniere de Oswald de Andrade.

(Aliás, a vida inteira de Oswald de Andrade daria um passeio de dois dias, pelo menos. Além do centro da cidade, ele morou em Higienópolis, na Consolação, no Bixiga, nos Jardins e na Bela Vista).

Evidentemente, gostaria de um banco de dados com citações de cidades de todo o Brasil. Quiça poderíamos ter um portal que também mostrasse as referências culturais dos livros do Machado de Assis - assim, a turma da internet saberia direitinho onde destrinchar informações. Também sugiro ao pessoal dos eventos na cidade criarem roteiros/passeios sobre Mario de Andrade e Marcos Rey - eles também tiveram uma vida intensa na cidade.

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Lá em cima retirei trechos do livro O Matador, de Patrícia Melo. Me lembro que fiquei fascinado por esse livro justamente por causa das referências geográficas. Os primeiros livros dela estão recheados dessas coisas.

*Imagem: um mapa antigo que encontrei no Google.

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sexta-feira, 24 de agosto de 2012

MURAKAMI FAVORITO AO PRÊMIO NOBEL

Se tem uma coisa que deixa a gente animado nessa época do ano é especular sobre o provável ganhador do prêmio Nobel de Literatura. O anúncio chega a ser tão esperado quanto aquele peru de Natal da sua tia ou aquele show de final-de-ano do Roberto Carlos. Adivinhar o nome do ganhador é tão difícil quanto acertar os números da Mega-sena - a Academia Sueca gosta muito de surpreender. No ano passado, muita gente dava como certa a vitória de Adonis, poeta e ensaísta sírio. No fim, o prêmio ficou em casa, pois quem acabou levando foi Tomas Tranströmer, poeta sueco.

Para esquentar os motores, a famosa casa de apostas Ladbrokes já está aceitando palpites. O lugar é um termômetro certeiro. Por enquanto, quem está na frente é o escritor japonês Haruki Murakami, seguido pelo chinês Mo Yan (inédito por aqui), pelo holandês Cees Nooteboom, pelo albanês Ismail Kadare e pelo sírio Adonis.

Figuram na lista, um tanto desacreditados, nomes como Philip Roth, Cormac McCarthy (eterna promessa), Chinua Achebe, Thomas Pynchon, Umberto Eco, Don DeLillo e Joyce Carol Oates. Lá atrás ainda aparecem o português Antonio Lobo Antunes e o brasileiro Ferreira Gullar - empatado com Jonathan Franzen, Per Petterson, Jonathan Littell, Paul Auster.

O anúncio será feito em outubro.

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Enquanto o Nobel não chega, ficamos de olho no Prêmio SP de Literatura cujo os ganhadores serão anunciados em setembro. Como no ano passado, a organização do prêmio vai promover encontros com os finalistas: três na capital e quatro no interior do Estado. O primeiro bate-papo em SP (capital) acontece nesse domingo (26/08) na Biblioteca de São Paulo com Edmar Monteiro Filho, Eliane Brum e Suzana Montoro. O próximo será em 01/09 com Domingos Pellegrini, Paulo Scott e Silvio Lancellotti. O último será em 09/09 com Chico Lopes, Luiz Ruffato e Tatiana Salem Levy. Em todos os encontros a mediação será de Adriana Couto.

Uma pena que não existe um equivalente a Ladbrokes para o Prêmio SP de Literatura. Alguém está a fim de compartilhar/especular os ganhadores?

***ATUALIZAÇÃO: informalmente diga pra mim, nos comentários, qual o seu palpite para os ganhadores do Prêmio SP de Literatura - na categoria veterano e estreante. Não precisa ficar com medo, ninguém está vendo o seu voto (é tudo confidencial).

Se você não sabe, os finalistas estão aqui.

* Imagem: reprodução da Wikipédia.

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terça-feira, 21 de agosto de 2012

A BIENAL DO LIVRO ESTÁ MORTA. VIDA LONGA A BIENAL!

Não fui à Bienal do Livro de SP que terminou no domingo. Aliás, para ser bem sincero, não me lembro quando foi a última vez que visitei a Bienal para olhar os lançamentos ou comprar livros. Não fiquei motivado pelo passeio porque os livros não tinham descontos e apenas alguns debates isolados da programação cultural me interessavam - fazendo as contas "custo x benefício", não achei justo pagar o valor do ingresso para ver uma coisa aqui, outra ali e andar à toa.

(Até acompanhei no blog da Raquel Cozer sugestões de livros mais baratos na Bienal, mas já estava decidido a passar longe do Anhembi).

É chover no molhado dizer que o modelo da Bienal foi engolido pelas livrarias megastore, pelas vendas na internet, pelas festas literárias espalhadas por todo o país e até pelas feiras de livros que oferecem bons descontos - como é o caso da Feira do Livro da USP. Agora tente imaginar como vão ser as coisas depois que a Amazon, famosa por seus preços baixos, finalmente iniciar suas operações por aqui? É uma realidade que a edição de 2014 terá de enfrentar.

Outro ponto fraco foram os lançamentos 'badalados' que dessa vez ficaram fora da agenda da Bienal. Tipo de acontecimento que costuma atrair muitos leitores e curiosos. Com tanta coisa acontecendo ao longo do ano, imagino que as editoras privilegiam ocasiões como a FLIP ou aqueles calendários estipulados pela urgência do mercado editorial. Não precisam mais esperar até a Bienal.

Vejam que estou falando de uma perspectiva muito particular baseado nas coisas que me agradam e na insatisfação geral que li pelos jornais e internet. Também falo como consumidor - aquele sujeito que sempre quer comprar muito e pagar pouco. No entanto, ontem, o Caderno 2 divulgou um balanço confirmando bons números de público e satisfação por parte de algumas editoras nas vendas - detalhe, durante os onze dias o evento recebeu 750 mil visitantes (com recorde de público no último sábado).

Pode ser que a Bienal não esteja tão morta quanto parece.

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Gostei mesmo da sugestão do editor João Scortecci em carta aberta aos expositores da Bienal. Como ele disse "os eventos de rua estão em alta" e seria realmente interessante que a Bienal expandisse os seus domínios e ocupasse toda cidade fosse com programações voltadas ao tema do livro e da leitura. É uma ideia ambiciosa, mas poderia funcionar. Orçamento para isso a organização teria.

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O único debate da programação cultural que eu acompanhei foi a mesa "Blogs e Vlogs". Fiquei sabendo de tudo pelo Twitter e pelo Youtube (cof!). Por razões óbvias, queria ver o pessoal falando sobre livros, literatura etc. A mesa tinha Marcelo Cidral, Pablo Peixoto, Iris Figueiredo, Felippe Cordeiro (do Meia Palavra) e o PC Siqueira - eu confesso que gosto dos vídeos dele (mas não quero que ele me siga no Twitter e nem me adicione no Facebook).

Gostei quando o PC falou das suas leituras preferidas. Ele leu tudo da Agatha Christie e do Edgar Allan Poe; alguns livros do John Fante e do Charles Bukowski; e terminou dizendo que Clube da luta e Sobrevivente, de Chuck Palahniuk mudaram sua vida. Se não me engano, ele nunca comentou sobre livros no vlog, mas acho que deveria reconsiderar. Sem parecer chato ou forçado, claro!

*Imagem: reprodução do Flickr da Bienal.
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segunda-feira, 20 de agosto de 2012

LITERATURA EM NOVAS FORMAS DE DISTRIBUIÇÃO


"Para a literatura prosperar na era digital ela precisa abraçar algo da sensibilidade da cultura pop e adotar novas formas de distribuição coerentes com a maneira como as pessoas consumem conteúdo."

A frase acima tem qualquer coisa de futurista e visionária. Parece que foi dita por um daqueles gurus da tecnologia que escrevem laudas na revista Wired. Na verdade, foi dita pelo jovem Scott Lindenbaum, um dos fundadores da Electric Literature, numa pequena conversa que tive com ele em junho do ano passado. Voltei a pensar nessa conversa por causa de "Caixa preta", o conto de Jennifer Egan que será postado a partir de hoje no twitter da editora Intrínseca com tradução de Juliana Romeiro.

(Falei dessa experiência envolvendo a autora num outro texto)

Não sei se a Jennifer conhece o Scott, provavelmente conhece porque a revista dele faz bastante sucesso nos Estados Unidos. Seja como for, ela captou o espírito desses tempos e lançou mão do twitter para publicar uma história de ficção (estimativas recentes apontam que o twitter é uma rede social com 100 milhões de usuários no mundo todo, ou seja, muita gente consome conteúdo por esse meio). Além disso, ao invés de simplesmente distribuir, ela experimenta outras maneiras de criar ficção por essa "ferramenta" usando narrativa em forma de notas, transportando uma personagem para um gênero narrativo diferente, publicando a história de maneira serializada etc. O conto foi publicado pela primeira vez no twitter da New Yorker e ganhou uma versão integral na edição impressa e no site da própria revista.

Egan usou um caderno japonês que tinha oito retângulos em cada página para escrever o conto. Curiosamente, antes mesmo de existir o twitter e o iPhone, os japoneses popularizaram uma forma de ficção que naquele tempo ficou conhecida como “romances de celular” (keitai shosetsu, em japonês) - uma espécie de pré-história da ficção nos meios eletrônicos. As histórias eram curtas e os leitores ainda podiam interagir, para termos uma ideia de qual avançado era o negócio. O sucesso foi tão grande que esses romances ganharam até versão impressa com vendas astronômicas.

Não sei dizer se a moda continua ou ganhou novos formatos. Afinal, os celulares de hoje tem telas maiores, cores e muitos aplicativos com uma infinidade de recursos. As pessoas também gastam muito mais tempo conferindo os aparelhos em busca de novas mensagens, fotos, check-ins etc. Aposto que todo mundo conhece um fulano que fica mexendo no celular durante a primeira meia hora do happy hour. Dessa forma, Egan tem de concorrer desonestamente com todo o resto. Só que não seria de todo mal acompanhar uma história escrita por ela enquanto a gente aguarda naquela fila sem fim para ver a exposição dos pintores impressionistas, no CCBB-SP.

O caderno Ilustríssima adiantou um trecho da tradução. Parece óbvio para alguns, mas os tuítes traduzidos conseguem ficar dentro dos 140 caracteres (dizem que ao traduzir um texto para o português ele aumenta em torno de 20% - alguém confirma a informação?).

Serviço: "Caixa preta" será transmitido diariamente pelo twitter da editora Intrínseca entre os dias 20 e 30 de agosto, das 22h às 23h, e comercializado em e-book a partir de 31 de agosto.

*P.S.: Sérgio Rodrigues teceu comentários super elogiosos sobre o conto. Tem tudo para ser uma experiência bacana - uma pena que esteja concorrendo com o horário da novela.

*P.S.: A bela capa de "Caixa preta" (reproduzida aqui em cima) ficou a cargo de Rafael Coutinho. Uma pena que a gente não vai vê-la em papel impresso - salvo se a gente imprimir na nossa casa.

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terça-feira, 14 de agosto de 2012

A LITERATURA E SEU TRABALHO SILENCIOSO

Depois de um longo e tenebroso inverno começo com uma falsa máxima tão genérica quanto improvável: no terreno da ficção literária ler e escrever são gestos demasiadamente solitários por mais que tentem provar o contrário. Explico melhor: escrever um texto de ficção exige do autor a solidão necessária para que ele seja uma mente concentrada capaz de inventar ideias e organizá-las a ponto de dar ao enredo a força que precisa - construindo um mundo ficcional com coesão e coerência. Guardando as devidas proporções, a mesma imagem de isolamento serve para o leitor.

Não descarto as experiências bem sucedidas de autores que escreveram livros "a quatro mãos", como dizem. Lembro, por exemplo, do elogiado livro de estréia da Vanessa Barbara e do Emilio Fraia,
O verão de Chibo. Parece que a ficção científica também foi um terreno fértil para as parcerias. Isaac Asimov e Robert Silverberg, William Gibson e Bruce Sterling tiveram seus momentos de Lennon e McCartney da literatura. Será que estou esquecendo de mais alguém?

Só que essas histórias foram escritas num tempo em que a internet ainda não tinha chegado a era potencializada do compartilhamento e da criação coletiva ao infinito. Todo mundo é capaz de citar pelo menos uma experiência que tentou de alguma forma fazer literatura contando com a colaboração de gente ao redor do mundo inteiro - tanto na produção quanto na leitura. Não acompanhei nenhuma dessas experiências de cabo a rabo. Pode ser que algumas nem tenham terminado ainda. Como deixaram de ser notícia, imagino que não tenham rendido bons frutos ou não tenham sido experiências de sucesso editorial.

De olho em tudo isso, Willy Chyr resolveu criar uma experiência que levasse o conceito de romance colaborativo ao limite. Dessa forma, nasceu o Collabowriter. A ideia é escrever e editar um romance contando com a colaboração de qualquer usuário da internet. Para participar você precisa criar uma conta, depois ler a história e sugerir uma frase com até 140 caracteres para continuar a ação. A frase vai para votação de todos os participantes. Aquela que tiver o maior número de pontos entra na história e novas sugestões podem ser encaminhadas já que o romance é escrito frase por frase.

A experiência toca em pontos interessantes: será realmente possível apagar o papel do autor solitário (como todo mundo cria, todo mundo será dono)? A história vai seguir uma estrutura narrativa de romance? Como ficam o tempo, o espaço e o narrador? As personagens poderão ser desenvolvidas em seu potencial? O editor único poderá ser finalmente eliminado (a temida figura que o romance colaborativo e a auto-publicação na internet tanto detesta)? Por fim, será que a história vai ser interessante?

Willy Chyr não tem pressa. Ele gostaria que a história continuasse sem prazo para acabar. Por enquanto só nos resta esperar. Daqui uns cinco anos voltamos nesse assunto, prometo.

*Imagem: Lesende Frau, de Jean-Honoré Fragonard/reprodução via Wikipedia
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terça-feira, 24 de julho de 2012

TREVO - REVISTA DE FICÇÃO (2)

No final de abril, falei sobre uma nova revista de ficção pitando na internet. Pois bem, não demorou quase nada e chegou o primeiro número da TREVO - você pode ler onde quiser no computador, ereader, celular etc. Tem um monte de textos inéditos de jovens escritores brasileiros e ilustrações da Mariana Lucio de Oliveira.

Vida longa a TREVO!

*Imagem: reprodução.
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sexta-feira, 20 de julho de 2012

NOTAS #38

Jantar fictício
Já imaginou se a gente conseguisse fotografar as refeições das nossas personagens favoritas? Foi pensando nisso que Dinah Fried montou a série Fictitious Dishes retratando refeições dos romances O apanhador no campo de centeio (foto acima), Oliver Twist, Alice no país das maravilhas, Os homens que não amavam as mulheres e Moby Dick. Nem preciso dizer que o prato do Oliver Twist é o mais simples, né?

Ficção para homens
Foi se o tempo em que romances e contos eram mania das "senhouras". Não se engane: ficção também é coisa para homem. Se alguém ainda tinha alguma dúvida, a revista Esquire responde com três novas histórias assinadas por Stephen King e Joe Hill (respectivamente, pai e filho), Lee Child e Column McCann - foram publicadas na edição do mês passado. Tem de ser muito macho!

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Falando nisso, o novo romance de Column McCann está pronto, mas deve chegar às livrarias norte-americanas somente em 2013. O livro chamado Transatlantic usa a história de três pessoas reais para criar uma obra de ficção: um escravo negro que parte dos Estados Unidos rumo a Irlanda em busca de democracia e liberdade, em 1845; dois jovens pilotos de avião deixam a Primeira Guerra Mundial para protagonizar o primeiro vôo transatlântico entre Newfoundland e o oeste da Irlanda, em 1919; e um senador americano que viaja para a Irlanda em busca de paz, em 1998.

De uma certa forma, McCann repete uma experiência que está presente em Deixe o grande mundo girar - transformando em ficção a história real do artista francês Philippe Petit caminhando por um cabo de aço entre as torres do World Trade Center. Enquanto o artista se apresenta várias histórias brotam e convergem para um ponto de vista único. Afinal, como o próprio McCann gosta de afirmar "uma história são todas as história".

Edição limitada
1Q84, de Haruki Murakami fez muito sucesso nos países em que foi publicado. Nada que se compare ao lançamento no Japão, com as filas enormes e leitores dormindo na porta das livrarias - digamos que na Europa e nos Estados Unidos o frisson foi um pouco menor. Pois bem, se você é fã do escritor japonês é bom correr logo. Acaba de sair uma edição limitada e autografada de apenas 111 exemplares de 1Q84. Os três volumes recebem papel e tipografia especial. Ah! O texto está em inglês.

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No Brasil, 1Q84 deve chegar no segundo semestre - em edição normal mesmo.

Serrote 11
Acaba de chegar às livrarias a nova número da Serrote, revista de ensaismo publicada pelo Instituto Moreira Salles. A capa e o ensaio visual fazem parte da série Cabinet, feita pela americana Roni Horn. Tem ainda um um ensaio exclusivo do colombiano Héctor Abad sobre Joseph Roth; um perfil da escritora Marguerite Duras assinado por Enrique Vila-Matas; Brian Boyd falando sobre Machado de Assis e Vladimir Nabokov; Susan Sontag descrevendo seu encontro com o escritor Thomas Mann e Harold Pinter falando da primeira noite em que viu Samuel Beckett e muitas outras coisas mais.

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As duas belas surpresas ficam por conta do perfil de Michael Jackson assinado por John Jeremiah Sullivan, sensacão do ensaísmo americano, e o jovem jornalista Karl Marx na visão de Christopher Hitchens.

Foster Wallace em terras portuguesas
Uma notícia envolvendo David Foster Wallace está agitando a temporada de lançamentos literários em Portugal. Salvato Telles Menezes e Vasco Menezes, respectivamente pai e filho, estão empenhados na árdua tarefa de traduzir Infinite Jest - na versão portuguesa o livro receberá o carinhoso título de A piada infinita. O livro tem previsão de lançamento em novembro pela editora Quetzal e irá inaugura uma série de traduções da obra de Foster Wallace em Portugal (até agora nenhum de seus livros tinha sido publicado no país).

Salvato Telles Menezes (o pai) tem no currículo traduções dos livros V., de Thomas Pynchon e Cidades da noite vermelha, de William Burroughs (foi publicado no Brasil com o título Cidades da noite escarlate). Já Vasco Menezes (o filho) traduziu obras de Chuck Palahniuk e Por um fio, de Thomas McGuane (inédito no Brasil).

As mais de mil páginas foram traduzida apenas na Espanha (La broma infinita) e na Alemanha (Unendlicher Spaß) - por lá, o trabalho levou quatro anos.

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No Brasil, Infinite jest será publicado pela Companhia das Letras com tradução de Caetano Waldrigues Galindo (que traduziu Ulysses e muitas coisas mais). Ainda não tem previsão de lançamento, mas não deve sair antes de 2013.

*Imagens: Dinah Fried/reprodução; The Curved House/reprodução e capas do livros/divulgação.

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quarta-feira, 18 de julho de 2012

DA EUROPA COM AMOR E DO BRASIL COM PAIXÃO

Já que "quase ninguém se importa com literatura brasileira - especialmente com a NOVA literatura brasileira" (como disse o André Barcinski), então vamos falar da literatura que importa para muita gente. Que tal a européia?

A editora
Dalkey Archive publicou no começo do ano o terceiro número da antologia anual Best European Fiction, editada pelo escritor Aleksandar Hemon. Ele foi convidado pela Dalkey Archive para editar a primeira antologia em 2009. A ideia era colocar em circulação nos Estados Unidos e na Inglaterra escritores europeus contemporâneos que dificilmente seriam traduzidos por grandes editoras - exceto os fenômenos como Roberto Bolaño (sim, ele não era europeu, mas morava na Espanha), Per Petterson, Stieg Larsson e companhia que surgem ora aqui, ora ali.

Os autores europeus podem enviar textos recentes em sua língua original. O pessoal da Dalkey Archive corre para fazer as traduções e junto com Hemon fazem a seleção dos melhores. Infelizmente não é possível incluir tudo o que enviam e nem publicar um texto de cada país (se fosse assim a antologia teria mais de mil página, tranquilamente). Também acontece de alguns paises não enviarem nenhum texto, por isso ficam de fora. O prefácio sempre tem algum escritor renomado: Zadie Smith, em 2010 e Colum McCann, em 2011. Depois de publicada não rola nenhuma discussão no Twitter, no Facebook etc.

Para o número Best European Fiction 2012 foram selecionados 31 textos de 28 países diferentes - indo de Portugal até o extremo Leste Europeu. A Espanha participa com três textos, sendo: um galego, outro catalão e outro espanhol propriamente dito. O prefácio escrito por Nicole Krauss destaca o fato dos leitores anglófanos consumirem quase 90% ou mais da literatura produzida em seus próprios países e apenas 10% ou menos da literatura estrangeira. Isso mesmo, não traduzem quase nada para o inglês.

(Não tenho a menor ideia do volume de tradução no Brasil, mas usando minha matemática de botequim posso dizer que a proporção é bem maior do que nos Estados Unidos. Ainda que não sejamos um país de muitos leitores.)

Desse número, os leitores brasileiros podem conhecer apenas a francesa Marie Darrieussecq (que teve alguns livros publicados pela Companhia das Letras e está fora de catálogo) e o português Rui Zink (que teve dois livros publicados pela Editora Planeta).

Uma pena que a antologia circule apenas em inglês.

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Evidentemente, a frase do André Barcinski tem uma provocação embutida. Algumas pessoas pelo Brasil, não necessariamente aquelas da vida real, se importam com a literatura brasileira. Além da Mercearia São Pedro (para quem não conhece é um bar em São Paulo, no bairro da Vila Madalena), tem escritores em Porto Alegre (aliás, aos montes; tanto que criaram um campeonato literário só com escritores de lá), no Rio de Janeiro (qual o bar dos escritores no RJ?), em Salvador, no Recife e em Belo Horizonte - desculpem se esqueci as outras praças. A galera dessas turmas deve ter ficado bem chateada com a provocação da frase. Tem ainda o pessoal da periferia (essas sim, pessoas da vida real que não estão nem ligando para a turma da Granta e afins) que está quilômetros distante da Mercearia e estão fazendo sua própria literatura - vide a FLUPP, Sarau da Cooperifa e muitos outros.

Putz! Esqueci de falar dos autores e leitores da chamada "literatura do entretenimento" - a maioria apareceu na antologia Geração subzero, da editora Record. Os leitores devem ter ficado bem chateados com a tal frase. Uma reportagem da revista ÉPOCA falou que a tiragem em exemplares da Thalita Rebouças chega a 1,3 milhão; André Vianco - 900 mil; Eduardo Spohr - 360 mil; e Raphael Draccon - 130 mil.

Portanto, fiquem calmos. Se um caminhão desgovernado bater na Mercearia a literatura brasileira contemporânea não vai acabar.

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Em tempo, se você quiser ler as resenhas sobre a Granta que saíram nos jornais clique aqui, aqui, aqui e aqui. Eu fico com o Nelson de Oliveira, "precisamos de mais antologias. Os norte-americanos, que entendem realmente de mercado editorial, lançam numa década dúzias de antologias."

Próximo assunto, por favor.

*Imagem: reprodução capa da antologia.

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SEGUNDA VOZ - RÁDIO BATUTA - IMS

Passando aqui para recomendar um mimo que o pessoal do Instituto Moreira Salles nos presenteou: Segunda Voz - isso para não falar do Gabinete de Curiosidades, da Mariana Newlands. Trata-se de uma série de programas organizados pela Rádio Batuta, do IMS. Alguns autores que estavam na programação oficial da FLIP foram convidados para falar sobre suas personagens preferidas na literatura. Achei que as gravações fossem ao ar aos poucos depois que a FLIP tivesse terminado. Que nada! A séria completa já está no ar.

Dulce Maria Cardoso escolheu a personagem de Flaubert, Madame Bovary; Juan Gabriel Vásquez ficou com Charles Marlow, do livro O coração das trevas escrito por Joseph Conrad; Enrique Vila-Matas falou sobre Nick Carraway do romance O grande Gatsby (F. Scott Fitzgerald); Alejandro Zambra pegou Giovanni Drogo de O deserto dos tártaros, escrito por Dino Buzatti.

No ano passado a mesma Rádio Batuta organizou a bela série Prefácios - que deu uma pausa e espero que seja breve.

Tem mais coisas. Vale a pena gastar um tempinho.

*Imagem: reprodução do site da Rádio Batuta.

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