Saiu a programação completa da 6ª Balada Literária que acontece de 16 a 20 de novembro na Vila Madalena e na Avenida Paulista. O homenageado dessa edição será o poeta Augusto de Campos. A abertura será no SESC Pinheiros com direito a apresentação verbivocovisual do homenageado mais Cid Campos e Adriana Calcanhotto.
Tem mais shows, exposições, oficina e conversas com um monte de gente bacana. E "pós-tudo", quando você pensa que acabou ainda dá tempo de curtir a Ressaca Literária. Tem muita coisa e tudo com entrada franca. A programação completa está aqui.
Me perdoem se eu estiver exagerando um pouco nos posts com vídeos. Mas quando me deparei com esse aí de cima, dirigido pelo Spike Jonze (diretor dos videoclipes mais legais que eu já vi na vida, sem mencionar os filmes) não pude resistir a tentação de compartilhar - adoro essa palavra, síntese de uma possível definição da internet.
Batizado de Mourir Auprès de Toi (Morrer com você), o curta metragem de animação conta uma história de amor de fazer inveja a Orfeu e Eurídice. Com direito a paixão entre a mocinha na capa de Drácula (Bram Stoker) e o esqueleto na capa de Macbeth (Shakespeare). Quando batem os sinos o casal decide por um encontro mais íntimo, mas um acidente atrapalha tudo. O esqueleto de Macbeth mergulha em Sartoris (William Faulkner) e acaba engolido por Moby Dick (Herman Melville). A mocinha chega para salvá-lo quando uma tragédia acontece.
No meio de campo desfilam O coração é um caçador solitário (Carson McCullers), O leopardo (Tomasi di Lampedusa), The big clock (Kenneth Fearing), Under the volcano (Malcom Lowry) e Admirável mundo novo (Aldous Huxley). Perdi algum?
Não leva nem cinco minutos. Ah, descobri o vídeo no blog da Raquel Cozer.
De fato há um crescente interesse de outros países pela literatura contemporânea feita no Brasil. Lembrei da história surreal contada por Benjamin Moser na Ilustríssima sobre uma viagem a Tbilisi, capital da Geórgia, carregando livros brasileiros para estudantes de português naquele país - veja só uma coisa dessas. Depois teve a Feira de Frankfurt e toda aquela atenção voltada aos programas de incentivo para divulgação da nossa literatura no mundo. Nesse meio tempo também teve a FILBA em Buenos Aires com uma parte da programação dedicada aos brasileiros. E agora me deparo com esse vídeo em que o escritor João Paulo Cuenca fala para espanhóis sobre a nossa literatura!
Cuenca comenta a boa fase de jovens escritores no Brasil, a má vontade da academia para o contemporâneo, a falta de um jovem crítico interessante e a mania dos estrangeiros de buscar em nossa literatura apenas aspectos folclóricos. Concordo com tudo o que ele disse e fiquei com uma questão na cabeça: a crítica.
Crise ou apatia da crítica (mesmo da jovem crítica) me parece algo universal. Todo mundo está tentando encontrar uma maneira de tornar a crítica relevante para o grande público. Mas confesso que vendo o vídeo pensei nessa longa discussão que muita gente acha chata. Fiquei pensando onde será que está a nossa Zadie Smith, o nosso Geoff Dyer, a nossa Michiko Kakutani, o nosso James Woods etc? Será que essa figura ainda está em formação? Será que a internet é um meio fértil para esse trabalho? Vai ver ele/ela está bem embaixo do nosso nariz e a gente nem sabe.
P.S.: Alguém sabe se na França, na Espanha, na Alemanha ou na Geórgia alguém se preocupa com esse tipo de coisa? Devo estar redondamente enganado, mas não senti esse clima na Argentina.
(Voltando ao JP Cuenca: ele foi convidado para participar do Festival Vivamérica, na Espanha. A mesa tinha o curioso tema de "Rapsodas, escribidores y ventrílocuos". A ideia era discutir novas formas de literatura que existem entre o legado da tradição e as tecnologias do futuro. Quem quiser pode assistir a palestra na íntegra aqui. Cuenca fala de Changeman, Jaspion, Ultraman, bonecos em geral, bonecas japonesas e muitas outras coisas mais. É bem divertido e dura apenas 20 minutos).
Não consegui descobrir o autor da façanha, mas alguém (ou algumas pessoas) resolveu montar um mapa global com os lugares citados nos livros do escritor J.G. Ballard. Evidentemente nem tudo deve estar por lá, pode ser que falte uma coisa ou outra. Afinal, seria necessário ler as obras completas com muita atenção e grande dedicação acadêmica. Seja como for tanto trabalho resultou num negócio muito bacana. Não fosse por isso nunca iríamos descobrir que o Brasil foi citado por Ballard em três momentos:
"The man who walked on the moon": um conto publicado em 1985 no livro Memories of the space age. No Brasil, um jornalista encontra um homem chamado Scranton que para impressionar as pessoas diz ter sido um astronauta da Apollo. A história de Scranton não passa de uma mentira. Quando Scranton morre, o jornalista também começa a fingir ser um ex-astronauta. Infelizmente o conto não ganhou tradução para o português - pelo menos nas minhas buscas não encontrei, se alguém souber de alguma coisa pode me avisar.
Trecho: "I, too, was once an astronaut. As you see me sitting here, in this modest cafe with its distant glimpse of Copacabana Beach, you probably assume that I am a man of few achievements".
"The Side-Effects of Orthonovin G": um texto obscuro que ele escreveu para a revista Ambit #50 em 1972. De acordo com informações de um site dedicado a Ballard era para ter sido um conjunto de textos satíricos, supostamente escritos por membros do Departamento de Sociologia da Universidade de Yale. No entanto acabou sendo pequenas biografias escritas por mulheres americanas que haviam tomado Orthonovin G., uma pílula anticoncepcional. O texto na íntegra está disponível aqui.
Trecho: "One year later I was accepted as a member of an exchange-student programme to Brazil. I quickly resumed my new interest in their national sport".
Super-Cannes: romance publicado em 2000 também inédito em português. Nas montanhas de Cannes, uma sociedade secreta chamada Eden-Olympia oferece aos seus sócios casas de luxo, médicos particulares, segurança privada, psiquiatras e conveniências exigidas pelo mundo dos empresários modernos. Tipo de história que somente Ballard poderia escrever.
Trecho: "In the nexus of narrow streets beyond the Boulevard d'Alsace congregated another constituency of the night: Maltese whores and their pimps, transvestites from Recife and Niteroi, runners for the dealers waiting in their cars off the Avenue St-Nicolas, smartly dressed matrons who seemed never to find a client but returned evening after evening, teenage boys waiting for the limousines that would ferry them to the villas of Super-Cannes, the mansions of light that rose above the night".
Capa de revista Para começar nada melhor do que uma daquelas divertidíssimas listas organizadas pelo blog Flavorwire. A gente vive reparando em capas de livros, mas dessa vez eles resolveram comentar as capas da Paris Review. A lista conta com 30 capas da revista que segundo o blog são as melhores de todos os tempos. A Paris Review foi fundada em 1953 e virou referência no assunto por publicar a nata da ficção e da poesia mundial. Isso sem mencionar as suas famosas entrevistas sabiamente batizadas de "The art of fiction" (ou "A arte da ficção" em tradução literal). A lista com as capas está disponível em http://tinyurl.com/5wpyo8g
Ocupem as bibliotecas A revolução não será televisionada. Melhor dizer de outra forma: a revolução não será apenas televisionada, como ganhará as manchetes dos jornais, as capas de revistas, o twitter, o tumblr, os blogs, o facebook e todas as redes sociais. Melhor ainda é saber que a revolução tem até uma biblioteca com mais de 1400 títulos. É que os manifestantes do movimento "Ocupe Wall Street" em Nova York estão montando uma biblioteca, recebendo doações de livros e autores envolvidos com a causa. Além dos livros de filosofia, política e ciências sociais, o acervo conta com obras de ficção de Virginia Woolf, Margaret Atwood, Toni Morrison, Ernest Hemingway, Henry James e muitas outras coisas mais. É possível consultar o acervo em http://tinyurl.com/3goa4cz [via Galleycat]
Amado russinho A editora Cosac Naify está com tudo pronto para o lançamento da nova tradução de Guerra e paz, de Liev Tolstói feita por Rubens Figueiredo. É um dos livros mais aguardados do ano (ou pelo menos dos últimos dois anos quando surgiram as primeiras notícias a respeito). A editora promete em seu blog "posts com informações exclusivas e promoções". Publiquei na primeira edição do fanzine um trecho da tradução (download por aqui). Para acalmar nossa ansiedade tem um pequeno trecho de apresentação do livro escrito pelo tradutor. O trecho está disponível em http://tinyurl.com/6jmpld5
Ficção áudio eletrônica O projeto EletroFicção coordenado por Luís Henrique Pellanda e Rodrigo Stradiotto tem novo episódio. A escritora Ana Paula Maia foi convidada para ler trechos do seu romance Carvão animal - lançado pela editora Record. A música dá contornos assustadores a tensão do texto. Para ouvir é só acessar http://tinyurl.com/6xd8pfk
Novo Neuman Deve ser publicado nessa semana o novo livro de Andrés Neuman - autor convidado para a FLIP desse ano. São nove contos reunidos com o título de Hacerse el muerto que saem pela editora espanhola Páginas de Espuma. Para promover o lançamento, o autor preparou um vídeo curto baseado no conto "El fusilado" que está no livro. O vídeo está disponível em http://tinyurl.com/6grcswm
Para Margaret Atwood a discussão em torno dos leitores eletrônicos (e-readers ou tablets, se preferirem) e livros digitais não merece nossa atenção. A dama da literatura contemporânea está envolvida em causas políticas muito maiores - sobretudo a causa ecológica.
Vide O ano do dilúvio, romance em que aborda temas bastante atuais como experiências genéticas, consumismo, seitas religiosas, corporações gananciosas etc. Aliás, o release preparado pela editora Rocco dizia que durante a turnê de divulgação desse livro, ela tomou todas as medidas para reduzir a emissão de poluentes no meio ambiente. Consta que Atwood adotou "alimentação vegetariana, hospedou-se e fez eventos apenas em locais que tinham uma política de conservação ambiental, preferiu usar trens a automóveis – a fim de reduzir as emissões de carbono – e atravessou o Atlântico Norte de navio" (daqui).
Portanto, não causa nenhum espanto saber que seu novo livro chamado In Other Worlds - SF and the Human Imagination será impresso em papel feito de palha criado pela organização ambiental Canopy. A experiência é inovadora e revolucionária pois esse será o primeiro livro impresso em papel feito a partir de resíduos da palha da colheita de grãos (especialmente trigo), palha de linho e papel reciclado. Uma estimativa afirma que esse tipo de papel pode salvar até 800 milhões de árvores.
O site da Canopy está vendendo uma tiragem limitada e especial com exemplares autografados pela internet. O restante da tiragem será 100% impresso em papel reciclado pela editora canadense McClelland & Stewart. In Other Worlds reúne três ensaios da escritora sobre o gênero conhecido como ficção especulativa e suas relações com a ficção científica.
Tomara que o gesto de Atwood renda frutos.
*Imagem: capa do livro In Other Worlds/divulgação.
De bobeira na internet acabei descobrindo um tumblr bem legal dedicado as referências literárias dos Simpson, com atenção especialmente voltada a Lisa Simpson. A irmã mais nova de Bart é muito inteligente para os seus 8 anos de idade (dentro da série ela tem um QI bem acima da média) e uma verdadeira devoradora de livros e revistas.
Nas mãos dela sempre aparece um exemplar da New Yorker, Harper's, The Atlantic, Paris Review, Wired etc. Do contrário ela está lendo A redoma de vidro (Sylvia Plath), As aventuras de Tin Tin (Hergé), O homem e super-homem (George Bernard Shaw), As correções (Jonathan Franzen) e livros de Jane Austen, Joyce Carol Oates, Gore Vidal, Tom Wolfe e muitos outros.
O tumblr, carinhosamente batizado de The Lisa Simpson Book Club, reune frames da série que mostram todas essas referências. Em esquema colaborativo, qualquer pessoa pode enviar um frame inédito ou avisar os organizadores sobre alguma descoberta que tenha passado despercebida.
Na imagem acima, Lisa está olhando para O arco-íris da gravidade, de Thomas Pynchon - aliás, segundo reza uma lenda o próprio autor participou da série dublando a si mesmo num episódio sobre a sua casa.
Hoje começa oficialmente a Feira do Livro de Frankfurt. Como você já deve ter lido em todos os lugares, essa é a feira de negócios mais antiga e mais importante do setor. As editoras do mundo inteiro devem se reunir para fechar negócios, comprar títulos e discutir os rumos do mercado editorial no próximo ano. Na pauta do dia não vão faltar assuntos como o futuro do livro, o leitor digital e os direitos autorais. Enquanto isso, nós ficamos com dois vídeos bastante interessantes.
O primeiro é uma animação feita por Mike McCubbins para o romance A queda, de Albert Camus. A história do advogado fazendo um exame de consciência num bar de marinheiros, em Amsterdã conseguiu ser traduzida com fidelidade para o formato. Destaque para a trilha sonora e para o rosto da personagem (uma folha) que faz referência direta ao título do livro.
O segundo vídeo é uma entrevista apimentada com a escritora Hilda Hilst para a TV Cultura. Foi no ano de 1990 por conta do lançamento do romance O caderno rosa de Lori Lambi. Hilda dispara sua metralhadora contra os editores e a seriedade da literatura. A frase mais interessante é "escritor quer ser lido". Não seria nada mal se as pessoas realmente passassem a ler nas cápsulas, nos trens e no banheiro. Reparem no aparente nervosismo da repórter ao final do vídeo e no desconcerto da escritora.
P.S.: Sobre a Feira de Frankfurt vale ficar de olho na literatura da Islândia (país convidado de honra dessa edição - será que teremos alguns títulos publicados por aqui?) e na série de medidas que o governo brasileiro está tomando para divulgar a nossa literatura no exterior. Os europeus e americanos estão bastante interessados na gente - pelo menos até 2013 quando seremos o país convidado.
*Vídeos: um deles achei aqui e o outro foi via meu amigo Fabio Justino.
Numa manhã de novembro do ano de 1961 um jovem chamado Joseph Heller ainda não sabia que seu livro de estréia estava prestes a se tornar um clássico da literatura do século XX. Como acontece em todas as histórias o reconhecimento de Ardil-22 não foi imediato. Os críticos ingleses foram os primeiros a enxergar a grandiosidade do romance, passado quase um ano de sua publicação nos Estados Unidos.
Na verdade, a história por trás de Ardil-22 começa muito antes dos anos 60. Joseph Heller lutou na Itália durante a Segunda Guerra Mundial em missões como bombardeador pela Força Aérea dos Estados Unidos. A experiência servia como base para as ideias que compõe o enredo. O primeiro capítulo do romance começou a tomar forma em 1953 e apareceu pela primeira vez na revista New World Writing em 1955 com o título de Catch-18 (ao lado de On The Road, de Jack Kerouack). Naquele ano a editora Simon and Schuster adquiriu os direitos de publicação do livro e teve de esperar por oito anos até que Heller terminasse de escrevê-lo. O título original seria Catch-18, mas quando estava tudo pronto para o lançamento um escritor chamado Leon Uris publicou um livro com o título de Mila 18. Tanto a editora como o autor resolveram mudar o número do título para Ardil-22 - com direito a modificações na história.
À parte a "descoberta" dos críticos ingleses, o romance teve enorme sucesso quando os anos 60 realmente se tornaram os anos 60. Os baby boomers adotaram Ardil-22 por causa de seu teor sarcástico e antibelicista. Há ecos desse romance em outros livros (sobretudo em O arco-íris da gravidade, de Thomas Pynchon), em filmes e séries de TV (quem não se lembra do episódio de Lost chamado "Catch-22"?).
O livro está completando 50 anos - com matéria na Vanity Fair e texto no blog da Paris Review. A editora Vintage Books publicou uma edição comemorativa e quiçá definitiva do livro com direito a introdução de Howard Jacobson, ensaios de Norman Mailer, Anthony Burgess e Christopher Hitchens e imagens raras do autor. Para completar o pacote de comemorações, a mesma editora ainda criou um vídeo animado com narração de pequenos trechos.
Esqueci de avisar, mas estou de ferias e o blog vai tirar um descanso por esses dias. Quer dizer, devo atualizar no mesmo ritmo de sempre. Apenas essa semana a coisa deve ser meio atípica porque estou viajando com acesso limitado a internet. Prometo notícias assim que possível. Por enquanto, vale dar uma olhada nos arquivos do blog.
"Em algum momento, ele também parou de fazer a barba - eram os primeiros dias dos anos 1970, e muitos de seus colegas usavam barba, mas Affenlight imaginava que a sua era diferente: não era a barba de um hippie, mas uma antiga, de escritor, do tipo que aparecia nos daguerreótipos esmaecidos daqueles livros que ele estava aprendendo a amar."
Chad Harbach. A arte do jogo.
"(...) (eu mesmo, sem ir mais longe, sou virgem. A não ser que se considere a felação interrompida de Brígida um desvirginamento. Mas isso é fazer amor com uma mulher? Não deveria simultaneamente ter lhe chupado o sexo para considerar que de fato fizemos amor? Para que um homem deixe de ser virgem deve introduzir o pau na vagina de uma mulher e não na sua boca, no seu cu ou na sua axila? Para considerar que fiz de verdade amor devo previamente ejacular? Isso tudo é muito complicado)."
Roberto Bolaño. Os detetives selvagens.
"Por algum tempo a Crítica acompanha a Obra, depois a Crítica se desvanece e são os leitores que a acompanham. A viagem pode ser comprida ou curta. Depois os leitores morrem um a um, e a Obra segue sozinha, muito embora outra Crítica e outros Leitores pouco a pouco se ajustem à sua singradura. Depois a Crítica morre outra vez, os Leitores morrem outra vez, e sobre esse rastro de ossos a Obra segue sua viagem rumo à solidão. Aproximar-se dela, navegar em sua esteira é um sinal inequívoco de morte segura, mas outra Crítica e outros Leitores dela se aproximam, incansáveis, e o tempo e a velocidade os devoram. Finalmente a Obra viaja irremediavelmente sozinha na Imensidão. E um dia a Obra morre, como morrem todas as coisas, como se extinguirá o Sol e a Terra, o Sistema Solar e a galáxia, e a mais recôndita memória dos homens. Tudo o que começa como comédia acaba como tragédia."
Roberto Bolaño. Os detetives selvagens.
"Vou até o armário. Tiro de lá uma caixa vermelha, dentro dela dezessete cadernos dos quais não consegui me livrar. Penso, o que será do passado quando os rastros se forem e ficar apenas a memória. Como se os rastros dissessem alguma coisa. Os rastros contam sempre outra história. Abro um dos cadernos, leio com cuidado o primeiro parágrafo, sinto como se o lesse pela primeira vez. E talvez seja, uma leitura divorciada da emoção, do acontecimento em si. As palavras parecem ter perdido sua substância, como uma fruta que tivesse perdido sua carne e restasse apenas a casca. A casca das palavras é frágil e ressecada. Eu te amo, diz o texto. Talvez entre o eu te amo e o amor propriamente dito haja um espaço intransponível. Talvez o tempo que passa. Mas não apenas. Talvez um inevitável desencontro. Essa incoerência. Leio o texto como se fosse parte de um romance. Talvez seja isso, e quando o amor acaba resta apenas a ficção."
Carola Saavedra. O inventário das coisas ausentes.
"Naquela noite eu não consegui sossegar, fiquei andando pela casa, de um lado para o outro no quarto, subindo e descendo a escada, entrando e saindo dos cômodos do térreo. Parece que eu era maior que o mundo, tudo cabia em mim, e já não havia espaço para eu me expandir. A humanidade era pequena, a história era pequena, o planeta era pequeno, sim, até o universo, que diziam ser infinito, era pequeno. Eu era maior que tudo. Aquele era um sentimento fantástico, mas me deixava inquieto, pois o mais importante nele era a expectativa, o que estava por vir, o que eu faria, e não o que eu estava fazendo ou já tinha feito.
Como aplacar tudo aquilo que me queimava por dentro?
Forcei-me a ficar deitado na cama, a me manter imóvel, a não mexer um músculo, não importava quanto tempo, até que o sono chegasse. Estranhamente, ele não demorou mais que alguns minutos, estava à espreita como um caçador fica à espreita da sua presa distraída, e eu não teria nem percebido o disparo não fosse um súbito tremor no pé, algo que me alertou para meus pensamentos, que estavam em outro mundo, era como se eu estivesse no convés de um barco enquanto uma baleia enorme mergulhava bem perto, nas profundezas, e eu conseguia vê-la, embora isso fosse impossível do local onde me encontrava. Era o começo de um sonho, compreendi, um sonho que se apoderava do meu ego, onde este se transformava no que o cercava, pois foi isso que aconteceu quando eu tremi, eu era um sonho, o sonho era eu.
Tornei a fechar os olhos.
Não se mexa, não se mexa, não se mexa..."
Karl Ove Knausgard. A morte do pai - minha luta 1
"Qual era o problema? Seria a nota estridente e doentia que soava por toda a sociedade o que eu não suportava, aquela nota que se erguia de todas as pseudopessoas e pseudolugares e pseudoconflitos que vivenciávamos ao longo de toda a nossa vida, de tudo aquilo que víamos sem participar, e a distância a que a vida moderna tinha se afastado de tudo o que era nosso, de tudo que era inalienável, do aqui e do agora? Neste caso, se o objeto do meu anseio era mais realidade, mais presença, eu não devia simplesmente aceitar tudo o que me rodeava? E acima de tudo ansiar por coisas mais distantes? Ou será que eu reagia contra o elemento pré-fabricado no mundo, contra a rotina inexorável que seguíamos, que tornava tudo previsível a ponto de termos que investir em entretenimento para sentir uma ponta de emoção? Toda vez que eu saía pela porta eu sabia o que ia acontecer, o que eu havia de fazer. Assim era nos momentos pequenos, eu ia ao supermercado fazer compras, me sentava em um café com um jornal, buscava as crianças no jardim de infância, e assim era nos momentos grandes, desde o primeiro contato com a sociedade, o jardim da infância, até o último contato, a casa de repouso. Ou seria a igualdade que se espalhava mundo afora e que tornava tudo menor à base da repulsa que eu sentia? Quem viaja pela Noruega hoje em dia vê as mesmas coisas por toda parte. As mesmas estradas, as mesmas casas, os mesmos postos de gasolina, as mesmas lojas. Até os anos 1960 era possível notar como a cultura mudava quando se ia até Gudbrandsdalen, por exemplo, com as estranhas construções de madeira preta, tão austeras e tristes, que hoje permanecem enclausuradas como pequenos museus em uma cultura que em nada se diferencia daquela de onde se estava vindo ou para onde se estava indo. E a Europa, que cada vez mais está a caminho de se tornar um grande país igual por toda parte. O mesmo, o mesmo, sempre o mesmo. Ou seria porque a luz que brilhou sobre o mundo e fez com que tudo parecesse compreensível ao mesmo tempo o esvaziou de sentido? Seriam talvez as florestas que tinham desaparecido, os animais que tinham sido extintos, as antigas tradições que jamais voltariam a existir?"