quarta-feira, 31 de agosto de 2011

RASCUNHO SELECIONA DEZ "NOVOS" ESCRITORES

A edição de setembro do Jornal Rascunho terá uma reportagem especial sobre a obra de dez romancistas brasileiros que estão começando agora. A edição deve circular na semana que vem, mas os editores anteciparam os nomes pelo twitter.

Especulando um pouco e fazendo pré-avaliações, a seleção me pareceu boa e joga luz em escritores que muitas vezes passam ao largo dos comentários e análises dos blogs e cadernos culturais. Certo, estou exagerando um pouco.

Alguns nomes são um pouco conhecidos, mas todos eles são praticamente "estreantes" na ficção. Bráulio Mantovani já conta com uma sólida carreira como roteirista de cinema; Eliane Brum publicou três livros de reportagens e crônicas; Ronaldo Wrobel publicou três livros, sendo dois romances e um de contos. A maioria também foi finalista ou ganhador de prêmios de literatura em anos recentes.

Abaixo a lista com os escritores que figuram na reportagem:

Braulio Mantovani (1963, São Paulo) - autor de Perácio - relato psicótico que foi publicado pela Leya Brasil. O romance foi finalista do Prêmio SP de Literatura.

Arthur Martins Cecim (1971, Belém do Pará) - autor do romance Habeas asas, sertão do céu! publicado pela Record. O livro foi ganhador do Prêmio Sesc de Literatura 2010.

Karleno Bocarro (1964, Fortaleza) - autor de As almas que se quebram no chão, lançado pela editora É. Muita gente comentou que o livro foi um dos grandes lançamentos do ano passado.

Cezar Tridapalli (1974, Curitiba) - autor de Pequena biografia dos desejos que saiu pela 7Letras.

Ronaldo Wrobel (1968, Rio de Janeiro) - um autor quase "veterano", tendo publicado Raiz quadrada e outras histórias (Bom texto), Propósitos do acaso (Nova Fronteira) e Traduzindo Hannah (Record). Esse último foi finalista do Prêmio SP de Literatura na categoria livro do ano.

Eliane Brum (1966, Ijuí) - autora do romance Uma duas publicado pela Leya Brasil.

LinkMarcelo Cid (1976, ?) - autor do romance Os unicórnios publicado pela 7Letras. Ele também organizou e publicou livros sobre crítica literária. Foi finalista do Prêmio SP de Literatura.

Javier Arancibia Contreras (1976, ?) - autor dos romances Imóbile (7Letras) e O dia em que eu devia ter morrido (Terceiro nome). Ele também foi repórter e publicou um livro-reportagem sobre Plínio Marcos. Imóbile foi finalista do Prêmio SP de Literatura.

Oscar Nakasato (1963, Paraná) - autor do romance Nihonji publicado pela Benvirá.

Gabriela Guimarães Gazzinelli (1982, Belo Horizonte) - autora do romance Prosa de papagaio (Record). Esse último ganhou o Prêmio Sesc de Literatura.

*imagem: reprodução twitter.
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segunda-feira, 29 de agosto de 2011

NOTAS #28



CORTES
William Burroughs, o grande escritor beatnik, lá pelos idos dos anos 60 usou uma técnica chamada 'cut-up' para escrever uma série de romances experimentais (The nova trilogy - se não me engano nunca teve tradução para o português). A técnica nada mais é do que pegar um texto, cortá-lo e reorganizá-lo de maneira aleatória para criar um novo texto. Quem inventou o conceito do 'cut-up' foi o dadaísta Tristan Tzara. Lembra daquela Receita para fazer um poema dadaísta? O vídeo acima mostra o próprio autor explicando o método.

O MELHOR ANO DA FICÇÃO NORTE-AMERICANA
O blog da Publisher Weekly dos Estados Unidos escolheu o ano de 1958 como o melhor para a literatura norte-americana. Quer saber porquê? Naquele ano o ganhador do Pulitzer foi Morte na família, de James Agee; o Nobel de literatura foi para Boris Pasternak graças a seu romance Doutor Jivago; e o National Book Award ficou com As crônicas de Wapshot, de John Cheever. Segundo o blog nesse mesmo ano entre os concorrentes do National Book Award estavam O ajudante, de Bernard Malamud; Pnin, de Vladimir Nabokov; O amor vence tudo, de James Gould Cozzens; e A revolta de atlas, de Ayn Rand.

***

O ano de 1958 também foi o lançamento de O mundo se despedaça, de Chinua Achebe, Bonequinha de luxo, de Truman Capote, Dr. No, de Ian Fleming, Os vagabundos iluminados, de Jack Kerouac e Exodus, de Leon Uris.

COMEÇOS E FINAIS INESQUECÍVEIS
Não tem aquela famosa série sobre 'os melhores começos inesquecíveis' de livros? Pois bem, a revista inglesa Stylist resolveu criar a versão quase definitiva do negócio. Para isso, preparou uma lista com 'os melhores começos inesquecíveis' e também com 'os melhores finais inesquecíveis'. No total são 100 itens para cada uma das categorias. Dos clássicos, aos best sellers contemporâneos tem de tudo um pouco. Mas como toda boa lista é abragente e rende boas discussões.

O SEGUNDO LIVRO
Adam Ross está lançando um novo livro após o enorme sucesso de seu romance de estréia - Mr. Peanut lançado no ano passado. Trata-se de uma coletânea com sete contos chamada Ladies and Gentlemen. Por conta disso tem aparecido várias notinhas envolvendo as leituras preferidas do autor. Numa delas, Ross fala sobre autores que gostou tanto a ponto de ler cronologicamente quase a obra inteira deles: Haruki Murakami, Evan S. Connell, Tobias Wolff, Don DeLillo, Saul Bellow e Italo Calvino são alguns. Noutra nota Ross recomenda alguns livros curtos, para quem não tem tempo, nem paciência de ler livros compridos: Primeiro amor, de Ivan Turgueniev; Um esporte e um passatempo, de James Salter e O castelo de destinos cruzados, de Italo Calvino.

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Em tempo, Mr. Peanut deve sair por aqui em novembro pela Companhia das Letras com tradução de Daniel Pelizzari.

LISTAS
Para finalizar mais duas listas bem curiosas.

Primeiro uma lista meio antiga, mas que sempre vale dar uma olhada: os livros mais roubados nos Estados Unidos. Entre eles: qualquer coisa de Charles Bukowski, William S. Burroughs ou Martin Amis; On the road - pé na estrada, de Jack Kerouac e A trilogia de Nova York, de Paul Auster. Será que temos uma lista dessas para livros aqui do Brasil? Gostaria muito de saber o resultado. Será que Paulo Coelho encabeça a lista?

***

A segunda lista é dos dez livros mais depressivos, segundo o site AbeBooks. Em primeiro lugar ninguém menos que A estrada, de Cormac McCarthy (realmente, a história do pai e do filho tendo de lutar para sobreviver é bem triste!). Depois ainda tem o futuro desesperançoso em 1984, de George Orwell e a saga amarga em As vinhas da ira, de John Steinbeck. A lista completa está disponível aqui.

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sexta-feira, 26 de agosto de 2011

CORTÁZAR EM VERSÃO VIDEO GAME

Eu, você e todos nós somos verdadeiros fãs de Julio Cortázar. O escritor argentino virou a literatura latino americana (e quiça mundial) de cabeça para baixo de maneira bastante original. O que dizer dos contos, dos cronópios, famas e esperanças, dos ensaios sobre literatura e do livro O jogo de amarelinha? Um inovador, certamente.

De modo que fiquei bastante surpreso em saber que só agora fizeram um jogo de videogame inspirado na obra dele. Por que será que demorou tanto? O jogo se chama "Rabbits for my closet" e foi inspirado no conto Carta a uma senhorita em Paris, do livro de contos Bestiário (1951). É a história de um homem que misteriosamente começa a vomitar coelhos. As pequenas criaturas começam a sair o tempo inteiro de sua garganta - tem um momento meio chocante em que ele usa os dedos para puxar um coelho que está preso. Com medo de ser descoberto pela empregada, ele começa a esconder os bichinhos dentro do armário. Só que são muitos e a coisa parece não ter fim. O livro infelizmente está fora de catálogo esperando uma reedição - a última edição foi em 1993 pela Nova Fronteira.

O jogo pega essa atmosfera de tensão. Assumimos o papel do narrador do conto e nossa tarefa é esconder os coelhinhos dentro do armário, antes que a empregada descubra. É bem simples e fácil de jogar. Só achei que poderia ter mais níveis de dificuldade e poderia ter explorado mais o universo do Cortázar.

Quem quiser jogar é só acessar esse link. Para animar a sexta-feira e aproveitar o final de semana. Ah! eu consegui terminar rapidinho, não levei nem dez minutos.

*Imagem: reprodução.
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TRANSMISSÃO: TOM MCCARTHY


Tom McCarthy é um escritor ainda inédito por aqui. Nenhum de seus livros ganhou tradução, seus contos não apareceram em nenhuma revista e ele também não concedeu nenhuma entrevista. Seja como for parece que estamos perdendo senão um grande nome da literatura contemporânea, pelo menos uma pessoa bastante interessada em teorizar sobre romances (ou sobre literatura).

O escritor foi convidado para a edição desse ano do Festival Literário Internacional de Edimburgo - um festival bastante curioso que por conta do verão dura 17 dias e tem muitas atrações. Ele participou de uma mesa intitulada "Noise, signal and word: how writing works" (em tradução livre "Ruído, sinal e palavra: como funciona a escrita") para explicar algumas de suas ideias sobre a figura do autor na literatura.

(Infelizmente o Festival não tem transmissão online das mesas e também não guardou nenhum arquivo em vídeo dessa apresentação. O que eu sei li na cobertura do jornal Guardian. Foi de lá que tirei um resumo das coisas que Tom McCarthy falou nessa mesa.)

Pegando carona nos temas que estão no romance C (um romance ambientado em pleno começo do século XX quando os grandes meios de comunicação sem fio estavam sendo inventados), Tom McCarthy propôs ideias para demonstrar que a literatura não tem autor. Para ele, escrever não é um ato de auto-expressão, nem uma maneira de compartilhar nossos sentimentos. A escrita é apenas transmissão da linguagem que fala por nós. Assim, os livros nada mais são do que "câmaras de eco" (lugares em que ecoam a linguagem que nos ronda). Consequentemente, os melhores livros são aqueles que conseguem sintonizar a linguagem e os pensamentos que estão espalhados por ai.

Para ilustrar essa apresentação, McCarthy falou sobre o mito de Orfeu em Ovídio, Rainer Maria Rilke e mostrou um trecho do filme Orfeu, de Jean Cocteau (1949). Nesse filme, Orfeu vive as voltas com um rádio de carro que sintoniza sempre vozes transmitidas por um poeta do além. São mensagens cifradas que lembram códigos. McCarthy também mostrou a música Antenna, da banda Kraftwerk. Ela está no disco Radio-Activity (1975) repleto de temas ligados a rádios, energia nuclear, ondas sonoras, transmissões e antenas. A letra minimalista de Antenna diz o seguinte: "I'm the antenna catching vibration/ You're the transmitter give information/ I'm the transmitter I give information / You're the antenna catching vibration".

Não é a primeira vez que essas ideias circulam no meio literário. Nos anos 50 os estruturalistas franceses já falavam disso - Roland Barthes foi um dos primeiros a teorizar sobre a morte do autor. Toda a turma do Nouveau Roman (Alain Robbe Grillet, Nathalie Sarraute, Michel Butor, Marguerite Duras, Claude Simon) construiu sua obra a partir desse caminho. O pessoal do OuLiPo também. No entanto não deixa de ser interessante o fato de um escritor do nosso tempo voltar a essas ideias para usá-las como tema de seu processo de escrita - não digo como forma, já que ele não está experimentando com a linguagem, nem apagando categorias narrativas. É como se McCarthy esteve se esforçando para chamar nossa atenção ao retorno natural que o romance e a literatura podem tomar - fazer da inovação uma tradição e recuperar isso tudo com um novo olhar. Dessa forma, quem sabe, a gente não pode encontrar uma solução para a angústia de ter de sempre superar o que esteve atrás de nós.

Em tempo, Tom McCarthy já está trabalhando num novo romance que vai ser sobre poluição e meio ambiente. Quem quiser ler os romances já publicados por ele, pode recorrer a tradução portuguesa ou encarar as edições inglesas - diretamente do original.

*imagem: reprodução daqui.


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segunda-feira, 22 de agosto de 2011

AS CIDADES VISÍVEIS

Acho Italo Calvino um escritor seminal. Ele criou uma teoria inovadora para resolver um impasse que consumia os escritores do século passado: como o romance poderia encontrar um novo caminho diante de tantas inovações formais (Marcel Proust, James Joyce, William Faulkner, Virginia Woolf etc)? A saída que ele encontrou pensava no futuro ao mesmo tempo que olhava para o passado. Unia progresso e restauração - para usar uma imagem consagrada naquele ensaio Filosofia da nova música, de Theodor Adorno (I).

Calvino privilegiava o leitor preservando a história (a fábula, o enredo, a trama, o plot) - não foi à toa que organizou um volume de Fábulas italianas e escreveu Por que ler os clássicos? Ele não promovia "exercícios puros de linguagem", mas brincava de todas as maneiras com a forma (a estrutura narrativa). Aqui estou pensando no Calvino das Cosmocômicas, O castelo dos destinos cruzados, Os amores difíceis, As cidades invisíveis, Se um viajante numa noite de inverno e Palomar.

[Tem um post do ano passado no Todoprosa que quando eu li pensei imediatamente no Calvino - O gosto de contar. Foi de lá que retirei algumas das ideias do parágrafo anterior.]

A gente embarca naquele mundo fantástico, vai reconhecendo os temas, as personagens e as alegorias. Vamos em busca da história do visconde que leva uma bala no peito e se divide em dois, o barão que se revolta e sobe as árvores e do cavaleiro que não existe. Às vezes até viramos personagem do livro que estamos lendo (somos o leitor de Se um viajante...). E como Kublai Khan, nos encantamos com as história de Marco Polo e as cidades que ele visita.

Deve ter sido esse mesmo fascínio que rondou a cabeça da artista plástica Nora Sturges. Um amigo dela recomendou a leitura de As cidades invisíveis depois que ela fez algumas pinturas sobre as viagens de Marco Polo. Ela gostou tanto do livro que criou pinturas para algumas cidades. O trabalho final ficou bem interessante. Encontrei as imagens enquanto pesquisa coisas sobre Calvino - acho que a notícia nem é tão recente, mas não resisti.

O trabalho todo pode ser visto aqui.





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(I) Não estou usando essa imagem para demonstrar erudição. Nem quero comparar "alhos com bugalhos"! É que As cidades invisíveis foi tema de uma monografia que escrevi para conclusão de um curso de especialização. Naquela época, enquanto fazia as pesquisas teóricas, sempre me vinha a cabeça a imagem desse ensaio do Adorno. As palavras restauração e progresso parecem se encaixar como uma luva para as coisas (ficção e crítica) que Italo Calvino escreveu.

*Imagens: reprodução do site de Nora Sturges.
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sexta-feira, 19 de agosto de 2011

FILBA 2011

Em setembro Buenos Aires vai pegar fogo com o FILBA - Festival internacional de literatura en Buenos Aires - um festival literário bem aos moldes da nossa FLIP. Será sua terceira edição. Além dos argentinos, que constituem a maior parte dos convidados, há escritores da Espanha, México, Chile, África do Sul, Japão, Holanda, Dinamarca, Noruega, Canadá, Itália, País de Gales e Brasil.

Dentro da programação nossos hermanos dedicaram um bloco inteiro ao nosso país com participação de Vilma Arêas, Adriana Lisboa, Santiago Nazarian, Joâo Gilberto Noll, Joca Reiners Terron, Luiz Ruffato e Moreno Veloso (ele não é exatamente escritor, mas vai participar de um painel sobre a cultura brasileira contemporânea e de uma performance com poemas cantados). Uma singela homenagem a nossa literatura no momento em que todo mundo fala bastante sobre projeção internacional.

No total serão cinco mesas literárias com nossos escritores (não inclui nessa conta o painel sobre cultura brasileira conteporânea e a performance do Moreno Veloso): uma entitulada "Palabras cruzadas: lecturas - leituras" com Joâo Gilberto Noll, Vilma Arêas e Adriana Astutti; uma homenagem a Machado de Assis e Guimarães Rosa com Vilma Arêas, Santiago Nazarian, Adriana Lisboa e Florencia Garramuño; uma mesa dedicada a Joâo Gilberto Noll; outra chamada "Literaturas lusoparlantes: ¿Islas lingüísticas?" com Luiz Ruffato, Joca Reiners Terron e Adriana Lisboa e por último uma homenagem a Clarice Lispector com Vilma Arêas, Luiz Ruffato e Florencia Abbate.

***

Penso aqui com meus botões que as estrelas veteranas serão Cees Nooteboom e J.M. Coetzee. Eles já estiveram na FLIP - o primeiro em 2007 e o outro no ano seguinte. O último livro publicado por Nooteboom foi uma coletânea de contos chamada ’s Nachts komen de vossen (em holandês). Não consegui descobrir se esse livro ganhou tradução para outras línguas. J.M. Coetzee vem de uma temporada de sucesso estrondoso com a publicação de Verão, livro que conclui a trilogia Cenas da vida na província.

***

Bem que a gente poderia aproveitar a presença do J.M. Coetzee na América do Sul e convidá-lo para uma passagem pelo Brasil, né? Seria mais ou menos a mesma coisa que acontece com os shows internacionais: vem pra Argentina e em seguida pra cá. Poderíamos quem sabe fazer uma parceria com nossos hermanos, o que vem pra cá vai pra lá e vice-versa.

*imagem: filba.org.ar
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quinta-feira, 18 de agosto de 2011

FRANZEN E O URSINHO PUFF

Ontem, Jonathan Franzen fez aniversário. Para a data não passar em branco o PEN American Center disponibilizou em seu podcast uma palestra de Franzen sobre o tema "O que deu errado?". Detalhe: a apresentação foi feita por Salman Rushdie. O áudio está disponível nesse link.

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Outro que está fazendo aniversário é o Ursinho Puff. Para celebrar os 90 anos do ursinho mais amado do mundo, resgatei dos arquivos do blog um post com uma história surreal: Puff vs. Alien. Tudo no melhor estilo mashup literário sci-fi.

*Imagem: Jonathan Franzen / www.pen.org
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O ENFANT TERRIBLE DA CALIFÓRNIA ESTÁ DE VOLTA!

Bret Easton Ellis, o enfant terrible mais amado e odiado da literatura norte-americana, está de volta com um novo romance, Suítes imperiais (publicado pela editora Rocco com tradução de Ryta Vinagre).

O autor resgatou as personagens de seu romance de estréia, Abaixo de zero, para mostrar que ele não estava exagerando quando escreveu aquela história de degradação adolescente na Los Angeles dos anos 80. Muito daquilo virou realidade. Parece que em Suítes imperiais, Clay, Julian, Blair, Rip e Trent estão mais velhos e são pessoas bem-sucedidas. Ao contrário do que a gente pode imaginar, eles não estão mergulhados em reflexões sobre ficar mais velho. Todos continuam sua jornada pelo mundo do consumismo, das drogas, do sexo e da violência em doses industriais. É como se desde os anos 80 as coisas só tenham piorado e o futuro certamente será ainda mais violento e sombrio.

Como bem apontou o escritor Antônio Xerxenesky numa resenha para o Jornal do Brasil: "A produção de Ellis é irregular, acidentada, mas também variada e curiosa, não apenas por um “possível retrato da sociedade”, mas pela habilidade nas experimentações formais do autor". Ellis experimentou o hiperrealismo narrativo, o fluxo de consciência, fez sátira de humor ácido, usou e abusou da autoficção e tocou em temas que eram verdadeiros tabus para a sociedade americana. Não é qualquer escritor que passeia por um leque tão variado de formatos.

(Aqui cabe um parêntese: Bret Easton Ellis fez falta na segunda edição do fanzine. De uma maneira ou de outra a maioria dos assuntos desse segundo número giravam em torno da autoficção. Ellis não apareceu, mas esteve presente na narrativa dos jovens franceses Pierric Bailly, Lolita Pille e Sacha Sperling. A influência dele sobre eles me parece bastante nítida. Assim como William Burroughs, J.D. Salinger, Michel Houellebecq e outros mais).

Para promover o livro nos Estados Unidos a editora de lá preparou um trailer cinematográfico - com direito a trilha sonora de Radiohead. Além disso, eles prepararam uma playlist na internet para você ouvir enquanto lê o romance - dá até para ouvir playlists sugeridas para outros romances do autor. Para Suítes imperiais tem Elvis Costello, Duran Duran, The National, Bruce Sprinsteen, Counting Crows, David Bowie etc. Para ouvir a playlist é só clicar aqui. O trailer do livro está logo abaixo:



Não contente, a editora ainda convidou a produtor It's alive animation para criar um curta de animação baseado em Suítes imperiais. A animação ficou a cargo de Sascha Ciezata.



N momento, Bret Easton Ellis está trabalhando com Paul Schrader num filme de terror sobre tubarões. Parece que o filme vai se chamar "Bait", com direção de Paul Schrader e roteiro dele. Deve ficar pronto no ano que vem.

Outra notícia super bacana: simultaneamente ao lançamento de Suítes imperiais pela Rocco, a L&PM prepara a reedição, em formato pocket, de Abaixo de zero e Psicopata americano. Abaixo há um trecho de Suítes imperiais, gentilmente cedido pela editora Rocco:


*imagem: divulgação.

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segunda-feira, 15 de agosto de 2011

LENDO: PONTO ÔMEGA, DE DON DELILLO

Comecei a ler na semana passada o último livro lançado por Don DeLillo, Ponto ômega - saiu por aqui pela Companhia das Letras com tradução de Paulo Henriques Britto. Daí você deve estar se perguntando: "mas o que tem a ver essa foto com o livro"? É que o livro faz uma referência a obra de arte 24 Hour Psycho (1993), de Douglas Gordon. O artista plástico expandiu a duração do filme Psicose, de Alfred Hitchcock para que ele tivesse duração de 24 horas.

A novela de DeLillo começa e termina com pessoas dentro do MoMA visitando essa obra de arte. Entre essas duas parte se desenrola o enredo.

É uma novela curta (tem apenas 104 páginas), mas de grande impacto por conta da linguagem direta, da economia narrativa e do enredo sinistro - essas são minhas impressões até o momento. Na edição nº 02 do fanzine há uma bela resenha de Lance Olsen e um trecho da primeira parte do livro (gentilmente cedido pela Cia das Letras). Quem se interessar pode fazer o download do fanzine aqui.

*imagem: reprodução do Guardian.

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sexta-feira, 12 de agosto de 2011

FRAGMENTOS DE "OS MIL OUTONOS DE JACOB DE ZOET"

Daniel Galera postou no tumblr dele mais alguns trechos da tradução que está fazendo para The thousand autumns of Jacob de Zoet, de David Mitchell - em português deve ficar com o título Os mil outonos de Jacob de Zoet. A Companhia das Letras tinha previsão de lançar o livro nesse semestre, mas acabou ficando para o ano que vem. Enquanto isso, a gente pode matar a curiosidade com esses trechos:

"Da torre da igreja de Domburg, Jacob viu muitas ventanias chegarem a galope da Escandinávia, mas um tufão oriental tem algo de senciente e ameaçador. A luz do dia é violentada; a floresta se debate no crepúsculo prematuro das montanhas; a baía negra enlouquece com as ondas agitadas; golfadas de espuma do mar borrifam os telhados de Dejima; a madeira range e suspira. Os marujos do Shenandoah estão descendo a terceira âncora; o primeiro imediato dá berros inaudíveis no tombadilho. Para o leste, os comerciantes chineses e a equipagem fazem o que podem para proteger o que possuem. O palanquim do intérprete atravessa a Praça Edo vazia; a fileira de plátanos balança e chicoteia; não se vê nenhum pássaro voando; os barcos dos pescadores vão sendo arrastados até a margem e açoitados em grupo. Nagasaki está se recolhendo para uma noite das piores.”

"Ao se barbear, o homem relê sua mais fiel autobiografia.”

“Gaivotas voam em rodas raiadas de sol sobre telhados luzidios e palha desalinhada, fisgando tripas na feira e escapando por cima de jardins cercados, muros cobertos por lanças e portas de triplo cadeado. Gaivotas pousam nos frontões caiados, nos pagodes cheios de rangidos e estábulos cheios de esterco; circulam sobre torres e sinos cavernosos e sobre praças escondidas em que vasos de urina descansam ao lado de poços tampados, observadas pelos tocadores de mula e pelos cachorros com focinho de lobo, ignoradas pelos tamanqueiros corcundas; sobem pelo pedregoso Rio Nakashima ganhando velocidade e passam por baixo dos arcos de suas pontes enquanto são avistadas das portas das cozinhas e acompanhadas pelos fazendeiros que andam nas cristas elevadas e rochosas. Gaivotas furam as nuvens de vapor que saem dos tachos das lavanderias; sobrevoam milhafres desfiando cadáveres felinos; estudiosos vislumbrando a verdade em padrões ínfimos; adúlteros nas casas de banho; rameiras de coração partido; megeras desmembrando lagostas e caranguejos; seus maridos limpando cavalas nas lajes; filhos de lenhadores amolando machados; fabricantes de velas derramando ceras; oficiais de olhar ferino espremendo taxas; laqueadores estiolados; tintureiros de pele pintada; gente dizendo meias-verdades para acalmar; mentirosos mentindo sem piscar; tecedores de tatames; cortadores de junco; caligrafistas de lábios manchados molhando pincéis; livreiros arruinados por livros encalhados; damas de companhia; provadores; camareiros ; pájens roubando; cozinheiros com o nariz escorrendo; cantinhos escuros de sótãos em que costureiras fuçam nos calos dos dedos; trabalhadores fingindo doença; porqueiros; caloteiros; devedores mascando os lábios e esbanjando desculpas; credores que já ouviram tudo apertando o cerco; prisioneiros assombrados por vidas mais felizes e velhos devassos com a mulher dos outros; professores esquálidos provocados a dar broncas; bombeiros agindo como saqueadores de ocasião; testemunhas caladas; juízes comprados; sogras cultivando roseiras-bravas e rancores; droguistas amassando pilões; palanquins levando filhas que ainda não casaram; freiras taciturnas; putas de nove anos de idade; as outrora belas e hoje carcomidas; estátuas de Jizo sendo ungidas com ramalhetes; sifilíticos espirrando por narizes apodrecidos; ceramistas; barbeiros; mascates de óleo; curtidores; cuteleiros; carroceiros de excrementos; porteiros; apicultores; ferreiros e cortineiros; torturadores; amas de leite; abjuradores; batedores de carteira; os recém-nascidos; os que crescem; os firmes e os dóceis; os enfermos; os moribundos; os fracos e os inconformados; por cima do telhado de um pintor que se afastou primeiro do mundo, depois da família, para mergulhar numa obra-prima que se afastou de seu criador; até voltar ao mesmo lugar, até onde o voo teve início, sobre a varanda da Sala do Último Crisântemo, onde uma poça de chuva da noite passada está evaporando; uma poça na qual o Magistrado Shiroyama observa os reflexos borrados de gaivotas voando em rodas raiadas de sol. Esse mundo, ele pensa, abriga uma única obra-prima, que é ele próprio.”

“A verdade de um mito… não está nas palavras, e sim nos padrões.”

“Antes da chamada noturna, Jacob sobe na Torre de Vigia e tira o caqui do bolso do casaco. Os dedos de Aibagawa Orito deixaram marcas na fruta madura e ele encaixa nelas os próprios dedos, aproxima o presente das narinas, aspira sua doçura abrasiva e rola a sua redondeza sobre os lábios rachados. Me arrependo da minha confissão, pensa, mas que escolha eu tinha? Ele eclipsa o sol com o caqui: o planeta brilha alaranjado como uma lanterna de abóbora. Há uma espécie de poeira ao redor do chapéu e do caule pretos. Sem faca ou colher à mão, ele prende uma pontinha da casca cerosa nos indicadores e a rasga; o suco escorre pelo corte; ele lambe os pingos adocicados, suga fora um naco gotejante de carne filamentosa e o prende suavemente, suavemente, contra o céu da boca, onde a polpa se desintegra em jasmim fermentado, canela oleosa, melão perfumado, ameixas derretidas… e no coração da fruta ele encontra dez ou quinze pedras chatas, da mesma cor marrom e formato dos olhos asiáticos. O sol se foi agora, as cigarras calam, lilases e turquesas turvam e se diluem em cinzas sucedidos por cinzas ainda mais escuros. Um morcego passa a poucos metros, perseguido por sua própria turbulência felpuda. Não há o mais tênue sopro de vento. A fumaça sobe da chaminé da cozinha do Shenandoah e vai se desmanchando em torno da proa do brigue. As portinholas estão abertas e a água carrega o som de dez dúzias de marujos jantando no seu ventre; e como um diapasão posto a vibrar, Jacob reverbera com as partes e com o todo de Orito, com tudo que faz com que ela seja ela. A promessa feita a Anna arranha sua consciência como um esmeril, Mas Anna, ele pensa com desconforto, está muito afastada em milhas e anos; e ela me deu o seu consentimento, ela praticamente me deu o seu consentimento, e além disso ela jamais ficaria sabendo, e o estômago de Jacob ingere o presente escorregadio de Orito. A Criação não terminou na sexta noite, ocorre ao jovem. A Criação se desdobra ao redor de nós, apesar de nós e através de nós, na velocidade dos dias e das noites, e gostamos de chamá-la de Amor.”

David Mitchell, Os mil outonos de Jacob de Zoet via Daniel Galera.

*Imagem: hoita/reprodução do flickr.
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