terça-feira, 31 de maio de 2011

NOTAS #26


Gêneros literários
Daniela Comani, uma artista plástica italiana radicada na Alemanha, costuma investigar em seu trabalho questões ligadas ao gênero feminino. Seu objetivo é mostrar que as mulheres não ocupam a história mundial do século XX e muito menos o cânone literário ocidental. Na série de trabalhos New Publications, a artista escolheu cinquenta e dois clássicos da literatura inglesa, espanhola, francesa, alemã e italiana e mudou o gênero de seus títulos. Assim, a capa de Os irmãos Karamozov ganha o título de As irmãs Karamozov; Madame Bovary vira Monsieur Bovary; e Dom Quixote se transforma em Dona Quixote. Não deixa de ser curioso e provocativo. A mostra está em exibição na Charlie James Gallery em Los Angeles.

Listas
O site Flavorwire (sempre com as listas das dez melhores coisas relacionadas à literatura) pediu a revista literária One Story (especializada em publicar contos) que escolhesse os dez maiores contos de todos os tempos. Na votação da equipe vários nomes foram citados e a editora da revista escolheu os clássicos - tudo segundo uma ordem bem particular, pessoal e aleatória. É fato que a nomeação é discutível, mas tem o mérito de mostrar uma reunião de contos não tão citados. Entre eles, “Para Esmé, com amor e sordidez”, de JD Salinger; “Os mortos”, de James Joyce; “Um senhor muito velho com umas asas enormes”, de Gabriel Garcia Marquez; “É difícil encontrar um homem bom”, de Flannery O’Connor; e “Catedral”, de Raymond Carver. A lista completa está disponível em http://tinyurl.com/3lrnta5

Áudio Huxley
Entre 1956 e 1957 a rádio americana CBS organizou uma série experimental de leituras dramáticas. Na estréia do programa nada menos do que uma adaptação em duas partes do clássico romance de ficção científica Admirável mundo novo, de Aldous Huxley. A peça que tem introdução e narração do próprio Huxley reapareceu na internet. O programa está disponível em duas partes: parte 1 e parte 2. [via openculture]

140 caracteres
No ano passado Jeff Howe criou no twitter um enorme clube do livro chamado "One Book, One Twitter". A experiência foi muito bem sucedida e teve cerca de 12 mil pessoas ao redor do mundo lendo Deuses americanos, de Neil Gaiman. Para tristeza de muitos, tudo terminou subitamente da mesma forma como começou - afinal, na internet as coisas às vezes são um pouco efêmeras. No entanto, Howe com a ajuda da revista The Atlantic recuperou a ideia. Dessa vez, o clube do livro foi rebatizado de "1book140" e vai ter um livro por mês comentado por seus seguidores. Dia primeiro de junho começam as leituras e discussões em torno de O assassino Cego, de Margaret Atwood - o primeiro livro escolhido pelos quase 5 mil seguidores. Quem quiser se aventurar só precisa seguir o perfil http://twitter.com/1book140 .




Moby Dick em imagens
Os desenhos incríveis de Matt Kish para cada páginas de Moby Dick serão publicados em livro. O ilustrador e artista plástico americano gosta tanto do romance de Herman Melville que em agosto de 2009 decidiu criar uma ilustração para cada página do livro. Ele fazia apenas um desenho por dia e postava o material num blog da internet. A longa jornada terminou em janeiro desse ano. O livro Moby-Dick in pictures: one drawing for every page vai sair pela editora Tin House em outubro numa edição caprichada que além dos desenhos inclui trechos do monumental romance da baleia. Os desenhos estão disponíveis em http://tinyurl.com/yajkgzu

34 leituras íntimas
A editora 34 em parceria com a Casa de Francisca realiza amanhã a quinta edição da série 34 leituras íntimas. Dessa vez, os escritores João Paulo Cuenca e Chico Mattoso vão ler trechos selecionados de obras com o tema Leituras de deformação. Quem estiver por lá vai ouvir histórias de outros escritores que revolucionaram a vida e a maneira de fazer literatura de Cuenca e Mattoso. Em outras edições o evento já reuniu Antonio Prata, Humberto Werneck, Verônica Stigger, Leandro Sarmatz, Beatriz Bracher, Noemi Jaffe, Fabrício Corsaletti e Fabiano Calixto. É importante reservar seu lugar com antecedência pois a Casa de Francisca é um pequeno café-teatro que costuma lotar. O endereço é Rua José Maria Lisboa, 190 - São Paulo.

A notícia Franzen da semana
Na semana em que Jonathan Franzen é assunto em diversos jornais e revistas, nada melhor do que reavivar a notícia Franzen da semana (para quem não se lembra, isso foi uma brincadeira que fiz no ano passado, quando Franzen estava fazendo um sucesso enorme nos Estados Unidos e na Europa). O Gotham Writers' Workshop perguntou a ele quais os conselhos para enfrentar o terrível bloqueio criativo. Franzen não titubeou e contou alguns macetes: "A certa altura, muitas vezes depois de meses de fracasso e frustração, eu sou forçado a parar e proceder a uma auto-análise através de anotações e conversa com amigos confiáveis". A conversa toda está disponível em http://tinyurl.com/3wcuwoh

*imagens: reprodução.
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domingo, 29 de maio de 2011

SANTIAGO RONCAGLIOLO PARA O MUNDO

Santiago Roncagliolo, escritor peruano radicado na Espanha, ganhou o Independent Foreign Fiction Prize por seu romance Abril vermelho. Concorrem ao prêmio autores de ficção que foram traduzidos para o inglês e tenham sido publicados no Reino Unido durante 2010 - lá, saiu pela editora Atlantic Books com tradução de Edith Grossman. O prêmio é concedido tanto para o escritor quanto para o tradutor do livro.

Abril vermelho foi publicado em 2006 e no mesmo ano faturou o Prêmio Alfaguara. Na época Roncagliolo foi considerado o autor mais jovem a receber o prêmio. Com o Independent Foreign Fiction Prize o resultado é semelhante, já que ele tem apenas 36 anos. Detalhe, entre outros, ele estava concorrendo com Orhan Pamuk e Per Petterson - dois autores bastante conhecidos de crítica e público.

Apesar de jovem, Roncagliolo pode ser considerado um veterano. Já publicou cinco romances e um livro de contos - sem considerar as obras infanto-juvenis. Também publicou ensaios, obras de não-ficção e teatro, além de contribuir com o jornal El País e outros jornais da América Latina. Lê muito bem inglês, francês, português, catalão e espanhol. No ano passado figurou na edição da revista Granta Os melhores jovens escritores em espanhol ao lado de Andrés Barba, Andrés Neuman e Pola Oloixarac. O ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, Mario Vargas Llosa, confessou que é leitor de Roncagliolo.

Por aqui, a Alfaguara Brasil publicou Abril vermelho em 2007 (infelizmente não consegui achar o nome do tradutor).

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Em tempo, a Alfaguara Brasil (que publica uma versão da revista Granta em português) lança na próxima semana a edição com Os melhores jovens escritores em espanhol. Eu comentei aqui quando o lançamento aconteceu na Espanha. Nela constam nomes de jovens escritores que estão levando a literatura hispânica para novos rumos. Dois autores da lista, Andrés Neuman e Pola Oloixarac, vão estar na FLIP desse ano.

A edição teve bastante êxito na Inglaterra e nos Estados Unidos, contribuíndo bastante para que europeus e norte-americanos ficassem de olho na literatura dos nosso hermanos hispânicos. Junte isso com a feira do livro de Frankfurt que homenageou a Argentina no ano passado e podemos tirar uma boa lição para a nossa particapação em 2013. Me lembro de uma entrevista dos editores da revista aqui do Brasil comentando os planos de lançar em 2012 uma edição com o tema Os melhores jovens escritores brasileiros.

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Quem quiser, pode ler em inglês o conto Stars and stripes, de Santiago Roncagliolo que está liberado no site da revista Granta. Tem também uma breve entrevista com ele e um comentário de apresentação de Nell Freudenberger. Ele confessou que os cinco escritores que ele admira no momento são: Bertrand Rusell, Philip Roth, Yasunari Kawabata, Michel Houellebecq e William Shakespeare.

*imagem: divulgação.
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sexta-feira, 27 de maio de 2011

JONATHAN FRANZEN VEM A FLIP EM 2012

Vou confessar que estava esperando a presença do Jonathan Franzen na FLIP quando vi a notícia de que Liberdade seria publicado pela Companhia das Letras. No entanto, quando vi a programação oficial o nome dele não estava lá. Até fiz uma torcida, pensei em criar um hashtag "#vemfranzen". Quem sabe até já estava preparando um post especial para o momento do anúncio tal anúncio. Mas não foi dessa vez.

Esforços não faltaram. A Ilustrada de hoje tem uma entrevista com Jonathan Franzen e confirma a presença dele na FLIP do ano que vem - revela até as tentativas da Companhias das Letras para trazê-lo. Parece que ele não pode vir por incompatibilidade de agenda. Um pena! Seria um lançamento em grande estilo para Liberdade, um prestígio para a FLIP e nós teríamos a chance de ver um escritor em seu grande momento. Como todo mundo sabe, no ao passado ele foi eleito pela TIME como o grande romancista americano. As resenhas aqui no Brasil também não me deixam mentir.

Não tem problema. Guardamos o nosso entusiasmo para o próximo ano!

*imagem: reprodução.
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TOM MCCARTHY EM PORTUGAL

Parece que o mercado editorial em Portugal anda em crise e que as editoras de lá querem vir para cá - Editoras portuguesas miram Brasil. Ocorre que em alguns casos os portugueses chegam na frente em termos de lançamentos de literatura estrangeira que estão chamando atenção. Mas verdade seja dita, me lembro que antigamente esperávamos muito tempo pelo lançamento de um livro muito comentado - frequentemente tínhamos de comprar livros importados diretamente de seus países de origem ou recorrer as traduções portuguesas. Atualmente a situação é bem diferente, quase tudo o que saí lá, saí por cá. E também pode acontecer de um livro sair por cá e não por lá.

Um caso curioso é o do escritor inglês Tom McCarthy. Não sei se alguma editora no Brasil planeja lançar os romances dele por aqui, mas em Portugal tanto Remainder quanto C já foram publicados. Ambos foram recebidos pela crítica anglófona com grande entusiasmo. A escritora Zadie Smith chegou a dizer que Remainder apontava para um caminho que o romance poderia seguir no futuro. Com o romance C não foi muito diferente, quem leu disse que o romance era original, renovador e ambicioso. O livro foi finalista do Man Booker Prize do ano passado e era tido como o ganhador até que Howard Jacobson abocanhou o prêmio.


Em 2009, Remainder foi publicado em Portugal pela Editorial Estampa - com o título de Remanescente. O livro conta a história de uma pessoa sem nome que perdeu a memória depois de ser atingido por alguma coisa que caiu do céu. Depois do incidente, ele recebe uma alta soma de dinheiro para reconstruir as coisas que que vai lembrando ou imagina lembrar.

C acabou de chegar às livrarias portuguesas pela Editorial Presença. Tom McCarthy criou um romance ambientado em pleno começo do século XX, quando os grandes meios de comunicação sem fio estavam sendo inventados. Assim, o protagonista do romance, Serge Carrefax, é jogado num mundo em constante transformação tecnológica. Tamanho espanto tem semelhança com a nossa experiência contemporânea e não deixa de nos fazer pensar na internet, nos tablets, nos celulares, nos blogs e nas redes sociais.

Tom McCarthy também escreveu livros de ensaio e um outro romance chamado Men in space (de 2007). Esses ainda continuam restritos a língua inglesa. Se alguma editora aqui no Brasil já está com planos de lançar os livros do escritor, por favor, mande notícias.

*imagens: reprodução.
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quarta-feira, 25 de maio de 2011

MÁRIO DE ANDRADE - MEU ESCRITOR FUTURISTA


Mário de Andrade não foi apenas o autor de Macunaíma e Paulicéia desvairada - duas obras que por si só já o colocariam no panteão das letras nacionais. Muito além disso, ele foi o mentor do movimento modernista brasileiro atacando em diversas frentes: escreveu ensaios críticos de natureza variada sobre literatura, fotografia, história e música. Também era fotógrafo e colunista de jornais e revistas da época. Não contente, ele ainda foi diretor do departamento municipal de cultura da cidade de São Paulo. As contribuições dele para com a nossa cultura fizeram com que avançássemos anos luz. A escrava que não é Isaura, Ensaios sobre a Música Brasileira e Aspectos da Literatura Brasileira são fontes constantes fontes de informação para qualquer sujeito que deseja saber mais sobre a nossa cultura.

A parte a importância de Mário de Andrade, estou escrevendo esse post para contar uma outra história. Em 1941, antecipando um pouco a nossa atual paixão por listas de melhoras da literatura, a Revista Acadêmica pediu a diversos escritores que respondessem uma pergunta bem singela: “Quais são os dez melhores contos brasileiros?”. Mário de Andrade estava entre esses escritores. Não sendo capaz de escolher apenas dez, escolheu vinte e tres e justificou dizendo: “os dez melhores contos da literatura brasileira são, pelo menos, duas dúzias”.

O escritor Luiz Ruffato recuperou a lista, recolheu os contos mencionados por Mário de Andrade e organizou um livro que saiu esse ano pela editora Tinta Negra - Mario De Andrade - Seus Contos Preferidos. Ruffato faz o texto de apresentação do livro. Interessante é olhar como esses contos refletem o gosto literário do escritor modernista e de que forma eles podem ter alguma relação com a obra dele. Mais ainda, o livro joga nova luz sobre alguns autores que não fazem parte do cânone literário - entre eles J. Simões Lopes Neto, Afonso Arinos, Valdomiro Silveira, Roque Callage, Gastão Cruls, Léo Vaz, Menotti Del Picchia, Hugo de Carvalho Ramos, Rodrigo M. F. de Andrade, João Alphonsus, Ribeiro Couto e Darcy Azambuja.

Numa sacada modernista, Mário deixou o vigésimo quarto conto em branco. O espaço deveria ser preenchido pelos leitores da revista. Pode ser que ele estivesse pensando em colocar um conto dele mesmo. No entanto, prefiro pensar que ele estava deixando uma porta aberta para o futuro. O melhor conto não só já foi escrito, como também ainda está para ser escrito.

Em tempo, Luiz Ruffato e Marisa Lajolo falam sobre esses contos hoje às 19h na Biblioteca Mário de Andrade.

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Sobre a Revista Acadêmica, existe uma história muito boa contada pelo Fernando Morais. Diz que nos idos dos anos 40, a revista literária mais importante do Brasil se chamava Dom Casmurro. Tinha sido criada por Brício de Abreu e Álvaro Moreyra e "tinha entre seus colaboradores a fina flor da literatura e do jornalismo" da época. Depois de uma briga interna Carlos Lacerda, Murilo Miranda e Moacyr Werneck de Castro deixaram a Dom Casmurro e montaram a Revista Acadêmica. Para combater a concorrência, eles trouxeram mais gente importante. Imaginem vocês como deveria ser o ambiente de euforia e disputa intelectual em torno de um assunto como a literatura.

*imagem: reprodução Google.
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terça-feira, 24 de maio de 2011

JONATHAN FRANZEN NA REVISTA ÉPOCA


A revista Época dessa semana tem um belo artigo assinado por Luís Antônio Giron sobre Liberdade, de Jonathan Franzen - disponível no site apenas para assinantes da revista. Ocupando praticamente cinco páginas da revista com belas fotos e uma rica galeria de escritores que serviram de inspiração para Franzen, o artigo repassa a trajetória astronômica do romance nos Estados Unidos e explica porque Franzen é considerado um dos maiores romancistas da atualidade - entre as razões está o fato de "dar vida a um gênero dado como agonizante após décadas de experimentação, trangressão e desgaste".

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Em tempo, Liberdade chega às livrarias essa semana.

*imagens: reprodução da revista Época.
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segunda-feira, 23 de maio de 2011

FLIPADAS


Não comentei antes por falta de tempo, mas achei a programação da FLIP muito boa. A maioria das mesas será voltada para a ficção em prosa, com direito a escritores que estão levando o romance a novos caminhos. O maior número de autores de língua latina deixou a festa com a cara do curador, Manuel da Costa Pinto. No ano passado, depois de ter sido anunciado como o novo curador, ele disse que tinha vontade de trazer mais escritores de língua francesa e italiana.

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Abertura
Outra tacada de mestre que resultou positivamente para a curadoria foi ter Antonio Candido falando sobre Oswald de Andrade na mesa de abertura. Como se sabe, Candido raramente participa de eventos como esse e não gosta muito de falar em público. Ele pediu que a imprensa evitasse o assédio. Vamos ver como será em Paraty.

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Lamento 1
Uma pena que o escritor Michel Houellebecq e o crítico Franco Moretti tenham cancelado suas participações. A presença deles iria coroar o evento. Houellebecq iria lançar O mapa e o território, romance ganhador do Prêmio Goncourt e envolto em polêmicas sobre plágio da Wikipédia. É bom lembrar que a literatura francesa, que parecia meio moribunda, está dando sinais de renovação. Já a vinda de Franco Moretti iria garantir um brilho crítico no debate contemporâneo sobre o romance. Além disso, teríamos a chance de ver publicado mais um volume da obra Il romanzo que teve curadoria dele - saiu por aqui pela Cosac & Naify apenas o volume 1 - A cultura do romance.

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Estrelas pop
O mais curioso foi a enxurrada de comentários após o anúncio da programação final: só se falava em David Byrne. O músico garantiu o lado pop da festa e ficou com uma mesa no domingo - para segurar a presença do público. Daqui a pouco devem surgir rumores não confirmados de que ele poderá fazer um show secreto em Paraty (o que não deixaria de ser muito bacana, afinal existe coisa mais antropofágica do que David Byrne).

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Lamento 2
A ficção brasileira ficou apenas duas mesas: uma com Marcelo Ferroni, Edney Silvestre e Teixeira Coelho e outra com João Ubaldo Ribeiro. Estamos bem representados na festa, mas sempre fica aquele gostinho de quero mais. No entanto, o lamento é passageiro se pensarmos na quantidade de eventos literários que estão acontecendo em todo o país. Chance para ouvirmos nossos escritores não devem faltar.

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Duas mesas particularmente interessantes
Pola Oloixarac com valter hugo mãe e João Ubaldo Ribeiro.

*Imagem: Tenda dos Autores / reprodução do Flickr da FLIP, créditos: Walter Craveiro.
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sexta-feira, 20 de maio de 2011

GARY SHTEYNGART - UM PICARO RUSSO

Gary Shteyngart já chegou a ser comparado aos escritores russos Nikolai Gogol e Vladimir Nabokov, não exatamente por ter nascido na Rússia, mas pelo grande manejo literário dos seus livros e pelo humor particular que lhe é bem característico.

Shteyngart nasceu em Leningrado e imigrou para os Estados Unidos aos 7 anos. Ele devorou avidamente quase todos os livros de escritores russos, lidos em língua original. Considerando esses aspectos, não é à toa que seus romances contem histórias de jovens judeus russos que imigram para os Estado Unidos em busca de amor, de uma vida melhor ou de uma nova identidade - suas personagens são uma espécie de alter ego. Porém, o que poderia funcionar como um romance sério e de enaltecimento do modo de vida americano, acaba se tornando uma verdadeira epopéia folhetinesca no melhor estilo romance picaresco.

Em O pícaro russo (The russian debutante’s handbook no original, publicado em 2002 nos Estados Unidos e por aqui em 2006 pela Geração Editorial), as trapalhadas de Vladimir Girshkin ironizam o declínio do comunismo, o consumo capitalista desenfreado e a xenofobia aos imigrantes ao redor do mundo. Em Absurdistão, Misha Borisovitch Vainberg é a metralhadora politicamente incorreta que dispara contra o multiculturalismo americano (em certa medida mundial) simbolizado pela república de Absurdsvanï, o Absurdistão.

Não demorou muito para que Shteyngart se tornasse um autor aclamado. Para coroar a boa fase, Shteyngart emplacou seu nome na famosa lista de jovens escritores da revista New Yorker e lançou no ano passado o romance Super sad true love story. Foi bastante elogiado pela crítica americana e eleito um dos melhores romances do ano. Dessa vez, o protagonista é Lenny Abramov, um homem de meia idade obcecado por três coisas: seus livros, a ideia de ter uma vida eterna e uma garota coreano-americana chamada Eunice Park. O relacionamento multicultural dos dois é a tal história de amor super triste. O romance tem um formato bastante curioso, pois os capítulos se alternam: ou são os diários de Lenny ou são a correspondência online de Eunice.

A fim de promover Super sad true love story, os editores colocaram na internet um trailer hilário em que o próprio Shteyngart aparece fazendo piada ao lado do ator James Franco.



O negócio funcionou tão bem que ele repetiu a dose num novo trailer. Dessa vez ele faz graça ao lado do ator Paul Giamatti para promover a edição do livro em brochura. Acho que só Shteyngart é capaz de encarnar as personagens que ele mesmo cria.



A editora Rocco, que publicou Absurdistão, promete lançar ainda este ano Uma história de amor real e supertriste - segundo andei lendo está prevista para junho.

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Outra coisa curiosa a respeito de Shteyngart são suas leituras. A livraria Strand Books (nos Estados Unidos) pediu a ele que indicasse alguns livros para seus clientes. Além dos russo, alguns os escolhidos foram:

Americana, de Don DeLillo
Cloud atlas, de David Mitchell
Jeff em Veneza, morte em Varanasi, de Geoff Dyer
1984, de George Orwell
In persuasion nation, de George Saunders
Afluentes do rio silêncioso, de John Wray
Unnamed, de Joshua Ferris
E nós chegamos ao fim, de Joshua Ferris
Afogado, de Junot Diaz
Não me abandone jamais, de Kazuo Ishiguro
O teatro de Sabbath, de Philip Roth
Vida vadia, de Richard Price
Os filhos da meia-noite, de Salman Rushdie
Pnin, de Vladimir Nabokov
Day of Oprichnik, de Vladimir Sorokin

*vídeos: reprodução do youtube.
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quarta-feira, 18 de maio de 2011

LITERATURA CABEÇA


Enquanto estamos aqui sentados discutindo o fim da crítica e o aumento no número de leitores no Brasil a revolução está acontecendo lá fora. Começou hoje no Rio de Janeiro o projeto "Oi Cabeça", com curadoria de Heloisa Buarque de Holanda e Cristiane Costa. A ideia é discutir justamente o futuro da literatura e da crítica com gente que está botando a mão na massa.

Até o fim do ano, o projeto pretende reunir uma vez por mês especialistas do Brasil e do mundo para conversar sobre temas que deixam qualquer crítico do sáculo passado de cabelo em pé.

O primeiro encontro rolou ontem com o tema "O fim da crítica e o auge dos fãs", com Nancy Baym, Mauricio Mota e Pedro Carvalho. Nancy, por exemplo, é uma norte-americana especialista no fenômeno chamado fandom - quando um grupo de pessoas (fãs) se reúne em torno de um determinado assunto. O assunto rende discussão, pois admite que a crítica não importa mais e o fã é o agente que consegue fazer verdadeira mobilizações em torno do seu objeto de desejo. Assim qual necessidade tem um crítico mediador?

Os próximos encontros têm os temas: "Novos espaços para a literatura", "Realidade aumentada", "Rumos da cibercultura", "Literatura expandida", "Os novos gêneros e-literários" e "Personagens, estratégias narrativas e engajamento nos games". Em dezembro acontece um labfest - espaço para troca e criação de novas ideias.

Vale lembrar que a Heloisa Buarque de Holanda não embarcou nessas ideias por esses dias. O envolvimento dela com as novas mídias vêm de longa data. É importante garantir o aparecimento de um evento como esse independente dos frutos que ele pode gerar.

*imagem: foto de Nancy Baym/reprodução.

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terça-feira, 17 de maio de 2011

VEJA ESSE LIVRO!


A revista Veja fez uma matéria de capa no mínimo divertida - Por que ler ainda é decisivo. A tese da reportagem diz que o número de jovens que gostam de ler está se multiplicando. E adivinhem, eles começaram lendo Harry Potter, Crepúsculo e afins. Depois de pegarem hábito e gosto pela leitura passaram a obras clássicas que estão longe de serem classificadas como mera literatura de consumo etc. A mesma coisa vale para adultos que foram atraídos pelos livros de autoajuda ou autoajuda romanceada. Hoje, eles também estão em busca de autores clássicos.

Deixando um pouco a tese, fiquei com pena do Machado de Assis. De acordo com a reportagem, ele é constantemente citado como um estorvo, alguém que só afasta as pessoas da livros por causa da leitura obrigatória no colégio. Alguém precisa fazer alguma coisa para descolar essa imagem dele. Por enquanto, acho que nem Woody Allen conseguiria?

Completando a reportagem, a revista criou uma lista de sugestões do tipo "um livro puxa outro" (reproduzida acima - para quem quiser acompanhar). Me diverti muito olhando os mapinhas, porque a primeira vista me parece tão incoerente que um leitor de Nicholas Sparks chegue a ler Guerra e paz, do Tolstói. Não estou duvidando, acho mesmo um caminho natural, mas deve levar tempo até que esse leitor chegue a esse livro. Enfrentar a aridez das infinitas páginas da história da Rússia exige tempo, vontade e muita paciência.

Segundo as sugestões, um leitor que começou lendo Harry Potter, pode muito bem passar a Sherlock Holmes (de Conan Doyle), seguido por A ilha do tesouro (de Robert Louis Stevenson), O Aleph (de Jorge Luís Borges) e terminar com As cidades invisíveis (de Ítalo Calvino). Será mesmo?

Um outro caminho sugere que um leitor da saga Crepúsculo pode ler Drácula (de Bram Stocker), seguido de O médico e o monstro (de Robert Louis Stevenson), A metamorfose (de Franz Kafka) e A montanha mágica (de Thomas Mann). Taí um caminho que eu acho bem mais provável.

Tem esse: começou lendo A menina que roubava livros, segue para O diário de Anne Frank, A trilogia de O tempo e o vento (de Érico Veríssimo), O memorial do convento (de José Saramago) e Austerliz (de W.G. Sebald). Esse deve ser um leitor bem avançado, não é?

Fico imaginando o contrário: Será que em algum momento um leitor de Ricardo Piglia vai chegar até A cabana?

*imagem: reprodução.

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